sexta-feira, 18 de abril de 2014

Intermezzo musicale

"Stabat mater dolorosa
juxta Crucem lacrimosa,
dum pendebat Filius."

Rembrandt
Giovanni  Battista Pergolesi (1710- 1736) morreu aos  26 anos. Apesar de uma vida curta ,produziu uma obra variada que foi fonte de inspiração e de trabalho para muitos dos grandes compositores. "STABAT MATER",  peça composta em 1736, é uma composição dramática de extraordinária beleza. Apresentamos um excelente registo nas vozes   de Julia Lezhneva e  Philippe Jaroussky, em 2012.

I. Stabat Mater dolorosa (00:00 -- 04:27)
II. Cujus animan gementem (04:28 -- 06:35)
III. O quam tristis et afflicta (06:36 -- 08:32)
IV. Quae morebat et dolebat (08:34 -- 10:37)
V. Quis est homo qui non fleret (10:38 -- 13:33)
VI. Vidit suum dulcem natum (13:34 -- 16:38)
VII. Eja Mater, fons amoris (16:39 -- 19:05)
VIII. Fac ut ardeat cor meum (19:06 -- 21:10)
IX. Sancta Mater, istud agas (21:11 -- 26:10)
X. Fac ut portem Christi mortem (26:12 -- 29:51)
XI. Inflammatus et accensus (29:52 -- 31:41)
XII. Quando corpus morietur. Amen (31:43)



A Paixão segundo São João, BWV 245 (Johannes-Passion) , é um oratório sacro de Johann Sebastian Bach. A peça foi composta em Leipzig, no inverno que precedeu a sexta-feira santa de 1724  Ei-la  num concerto memorável sob a direcção do Maestro Karl Richter.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Morreu Gabriel Garcia Marquez

O escritor colombiano Gabriel García Márquez,  morreu nesta quinta-feira, na Cidade do México, aos 87 anos, confirmou o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos.
No dia do seu aniversário ficaram registadas, neste espaço, algumas  palavras que transcrevo, em jeito de última homenagem:
Nunca mais esquecerei o deslumbramento, o encanto, a vontade de virar páginas de cada livro que tinha a assinatura de Gabriel Garcia Marquez. O fantástico, o onírico atingiam  outras dimensões e a palavra escrita entregava-se-me em descoberta avassaladora de uma nova arte poética. Era a poesia feita prosa, ou  antes, era a inovação criadora que transformava um romance num hino luminoso de um mundo povoado por seres imperfeitos mas tão humanos quanto de universais. Uma galeria de gente habitando um Macondo fictício que reproduzia todas as verdades, todos os conflitos, todos os prodígios  e toda a (im)perfeição humana numa nova linguagem que endeusava  a escrita. 
Descobrir Gabriel Garcia Márquez foi verificar que nada ainda tinha sido feito, que com ele nascia  uma mágica e diferente escrita literária que passava  a dar visibilidade à sombra do invísivel que povoava a memória de todos os tempos. E foi  essa universalidade que faz dele o maior e mais lido escritor de sempre.
Hoje, ao deixar-nos, Gabriel Garcia Marquez enluta todos aqueles que, como eu, o admiravam. O mundo empobrece sem a sua presença. Não só um grande escritor desaparece, mas um humanista, um defensor de grandes causas e um grande pensante que iluminou um continente em convulsão: a América Latina. Ficam para sempre as suas obras que universalizaram o seu nome.
Até sempre, Gabo.

Canções da beira-mar

Noite

Milhões de barcos perdidos no mar!
Perdidos na noite! 
As velas rasgadas de todos os ventos
os lemes sem tino
vogando ao acaso
roçando no fundo
subindo na vaga
tocando nas rochas!
E quantos e quantos naufragando...
Quem vem acender faróis na costa do mar bravo?!
Quem?!
Manuel da Fonseca, " Canções da beira-mar" in " Obra Poética", Editorial Caminho

Canção de Hans, o marinheiro

Se tu soubesses 
que em todos os portos do mundo
há uma mão desconhecida
a acenar  - adeus, adeus -quando se parte prò mar;
se tu soubesses
que o mar não tem fronteiras nem distâncias
é sempre o mar;
se tu soubesses
a noite nas águas
onde os barcos são berços
e os marinheiros meninos a sonhar;
se tu soubesses 
o desamor à vida quando o vento grita temporais 
e a morte vem abraçar os homens na espuma das vagas;
 se tu soubesses 
que em todos os portos do mundo
há um sorriso
para quem chega do mar;
se tu soubesses vinhas comigo pró mar.
Vinhas comigo pró mar
embora as nuvens do céu
e os ventos que vêm do este e do oeste, do sul e do norte
digam ao mundo que vai haver o temporal maior que todos!
Manuel da Fonseca, " Canções da beira-mar" in " Obra Poética", Editorial Caminho



Regresso

E contudo perdendo encontraste.
E nem deuses nem monstros nem tiranos
te puderam deter. A mim os oceanos
E foste . E aproximaste.

Antes de ti o mar era mistério.
Tu mostraste que o mar era só mar.
Maior do que qualquer império
foi a aventura de partir e de chegar.

Mas já no mar quem fomos é estrangeiro
e já em Portugal estrangeiros somos
Se em cada um de nós há ainda um marinheiro
vamos achar em Portugal quem nunca fomos.

De Calicute até Lisboa sobre o sal
e o Tempo. Porque é tempo de voltar
e de voltando achar em Portugal
esse país que se perdeu de mar em mar.
Manuel Alegre, in " O Canto e as Armas", 1967, Publicações Dom Quixote

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Quando o amor é cantado


I love you more than you'll ever know

If I ever leave you....you can say I told you so!
And if I ever hurt you baby..... you know I hurt myself as well.

Is that any way for a man to carry on
Do you think I want my loved one gone
Said I love you
More than you'll ever know
More than you'll ever know

When I wasn't making much money
You know where my paycheck went
You know I brought it home to baby
And I never spent a red cent

Is that any way for a man to carry on
Do you think I want my loved one gone
Said I love you
More than you'll ever know
More than you'll ever know

I'm not trying to be
just any kind of man
I'm just trying to be somebody
You can love, trust and understand
I know that I can be
yeaaahhhh
A part of you that no one else could see

I just wanna hear,a hear ya say
its allright
yeahhh yeahhh

I'm only flesh and blood
But I can be everything that you demand
I can be king of everythang
Or just a tiny grain of sand

Is that anyway for a man to carry on
Do you think he wants his little loved one gone
I love you baby, i love you baby
i love youMore than you'll ever know

If I ever leave you....you can say I told you so!
And if I ever hurt you ..... you know I hurt myself as well.

Is that anyway for a man to carry on
Do you think he wants his little loved one gone
I treid to tell ya I love you baby, i love you baby
yea i love you baby
i love you More than you'll ever know

i love you
i love you
i love you baby!!

i told you so many times before
I love you
I love

Correspondência póstuma de Rimbaud

Arthur Rimbaud (1854-1891) fotografia de Etienne Carjat de 1872
Rimbaud, le revenant des lettres
Par Jérôme Dupuis
"On n'a jamais autant parlé du poète qu'après sa mort. Parents, amis, ennemis, aventuriers ont échangé un flot de missives et d'invectives à son sujet. Le grand rimbaldien Jean-Jacques Lefrère a réuni ce matériau passionnant.
Entretien.
La correspondance de Rimbaud ne se serait pas arrêtée avec sa mort, sur un lit d'hôpital, à Marseille, le 10 novembre 1891. Tel est le pari fou du grand rimbaldien Jean-Jacques Lefrère, qui a décidé de recueillir les lettres, témoignages, documents (et piques...) qu'ont échangés tous les proches du poète jusqu'en 1935. Soit près de... 10 000 pages et sept énormes volumes au total! Une entreprise éditoriale fascinante - on voit littéralement se dessiner sous nos yeux la postérité de l'"homme aux semelles de vent" - qui n'a sans doute pas d'équivalent dans le monde. A l'occasion de la parution du quatrième volume, couvrant les années 1912 à 1920, rencontre avec le maître d'oeuvre de ce Rimbaud d'outre-tombe.
On voit à peu près ce que peut être une correspondance classique. Mais comment définiriez-vous une "correspondance posthume"?
Une telle correspondance, "anthume" jusqu'à ce jour de novembre 1891 où Rimbaud est entré dans cette nuit sans étoiles qui nous attend tous un jour ou l'autre, devenait logiquement "posthume", lorsque ceux qui avaient connu le poète (sa soeur Isabelle, Paul Verlaine, des marchands d'Aden...) ou qui commençaient à s'intéresser à lui (Paul Claudel, André Breton, André Suarès...) continuent à correspondre entre eux, échangeant documents ou souvenirs. Cette Correspondance posthume comprend donc des lettres, bien sûr, mais aussi des témoignages de compagnons du poète en Abyssinie, des actes notariés, des articles de journaux... La seule différence est que Rimbaud lui-même ne participe plus à ces échanges, mais son oeuvre, sa biographie et, déjà, son mythe parlent à sa place, et avec quelle force !
Ce nouveau volume couvre les années 1912-1920. Les polémiques n'y manquent pas...
Il se passe beaucoup d'événements autour de Rimbaud en cette décennie, et pas toujours sur un ton doucereux. On ferraille même ferme à son sujet dans des périodiques littéraires comme Le Mercure de France ou La Nouvelle Revue française, et des témoins majeurs, comme Georges Izambard, son professeur de rhétorique à Charleville, ou Ernest Delahaye, l'ami d'enfance, n'ont pas toute liberté pour dire ce qu'ils pensent et ce qu'ils savent. Car au coeur de ces polémiques on trouve les "gardiens du temple", la soeur et le "beau-frère posthume" de Rimbaud, Paterne Berrichon, qui s'ingénient à prouver que le poète n'a eu que des relations "chastes" avec Verlaine. Sur ce sujet, quasi tabou en ces années 1910, on ne peut pas dire que Berrichon a réussi à convaincre. Avec une ironie assassine, Remy de Gourmont doute que les deux poètes se soient retrouvés dans des chambres d'hôtel uniquement "pour chanter matines et convertir M. Claudel"...
Autre grand sujet de controverse: la prétendue conversion d'Arthur Rimbaud sur son lit de mort...
Isabelle Rimbaud en fut l'unique témoin. Il y aurait beaucoup à dire sur cet ultime retour à la foi catholique, car, si l'enfant Rimbaud semble avoir été croyant, quelle est la valeur de la conversion d'un agonisant délirant sous l'effet de la morphine, et que sa dévote de soeur, seule à son chevet, presse de recevoir un prêtre ? Dans cette polémique, Isabelle va recevoir le renfort puissant de Paul Claudel, qui, après avoir passé une nuit extatique dans la chambre du poète disparu, à Roche, dans les Ardennes, préface en 1912 les oeuvres complètes de Rimbaud. Combien de lecteurs auront découvert l'oeuvre de Rimbaud dans l'édition du Livre de poche qui s'ouvrait sur cette préface magnifique, mais partiale, de Claudel ? 
Claudel finit même par être désigné comme légataire universel et détenteur des dernières reliques du poète! Etrange soutien pour Arthur, non?
Cela peut paraître étrange aujourd'hui, en effet, mais il faut tenter de comprendre la mentalité d'Isabelle Rimbaud, qui, en 1916, se savait proche de la mort et doutait que son Paterne Berrichon d'époux ait la carrure intellectuelle pour défendre les biens terrestres et spirituels attachés au nom d'Arthur Rimbaud. En revanche, elle voyait en Claudel une autorité morale capable de défendre bec et ongles le "catholicisme" de son frère défunt. En cela, elle misait juste. Mais Claudel, pour des raisons d'ailleurs avant tout matérielles, refusa le legs.
On voit aussi combien Rimbaud aimante les jeunes écrivains de l'avant et de l'après-guerre, en particulier les surréalistes...
C'est vrai. Même si certains surréalistes ont eu par la suite des jugements sévères sur Rimbaud, les fondateurs majeurs du mouvement ont d'emblée subi la fascination de cette oeuvre et peut-être davantage de ce destin hors du commun. Toujours est-il qu'en 1919, les membres de la revue surréaliste Littérature qui avaient pour noms Breton, Aragon et Soupault achetèrent - fort cher - à Berrichon le droit de publier Les Mains de Jeanne-Marie, poème inédit de Rimbaud. Pour l'anecdote, la somme nécessaire fut avancée par la future épouse de René Hilsum, ancien condisciple de Breton au lycée Chaptal, à Paris, laquelle venait de toucher un héritage.
La légende disait que Rimbaud avait brûlé la quasi-totalité des exemplaires d'Une saison en enfer. Et voilà qu'un avocat belge en trouve tout un stock!
Cet autodafé de l'édition originale d'Une saison en enfer, seul livre publié par Rimbaud lui-même, était en fait une légende, née très précocement, du vivant même de l'auteur. En conséquence, la poignée d'exemplaires - six ou sept - que Rimbaud avait distribués en 1873 à quelques camarades avaient une valeur bibliophilique - et donc financière - considérable. Mais un Belge du nom de Léon Losseau trouve, au tournant du XXe siècle, environ 400 exemplaires du stock de l'édition originale dans l'atelier bruxellois auquel Rimbaud en avait confié l'impression. C'est alors un grand émoi dans le milieu bibliophilique : la valeur des très rares exemplaires connus s'effondre, et Louis Barthou - cet ancien président du Conseil français était aussi un grand collectionneur - n'aurait pas été hostile à une destruction discrète du stock, prétendument pour prolonger "le geste de Rimbaud". Bien entendu, Losseau ne suivit pas cette préconisation, de sorte qu'aujourd'hui, si vous disposez de quelques moyens financiers - disons dans les 12 000 euros -, vous pouvez encore vous procurer un exemplaire de l'édition originale. Cela n'empêche pas certains libraires de proposer leur exemplaire de la Saison en insistant sur la rareté que lui confère l'autodafé parfaitement fictif de 1873. Les affaires sont les affaires.
Remontent aussi, au gré des témoignages, des révélations sur le commerce de Rimbaud en Abyssinie....
Ces années 1912-1920 nous apportent en effet de nouveaux détails sur les activités commerciales et la personnalité de Rimbaud dans la corne de l'Afrique - on publie même la photographie d'une belle "Dona abissina" qui aurait été la compagne du poète - et sur sa désertion à Java, après son enrôlement dans la Légion néerlandaise. C'est également en 1912 qu'est publiée pour la première fois la fameuse "Lettre du Voyant" de Rimbaud, prônant le "dérèglement de tous les sens", adressée à Paul Demeny, jeune poète dont ce volume de Correspondance posthume publie une photographie inédite.
Justement, pensez-vous qu'il soit encore possible de faire des découvertes capitales sur Rimbaud?
Quelques beaux documents - poème, photographie (voir ci-contre), dessin - ont fait surface ces dernières années, d'autres peuvent encore être mis au jour. C'est chaque fois un petit miracle inattendu. Et l'émotion qui accompagne toujours ces trouvailles, pour être parfois excessive, voire délirante, et parfois même agressive, n'en reflète pas moins cette passion qui bouillonne dès que l'on touche au nom d'Arthur Rimbaud. Considérons cela comme des moments privilégiés de cette "éternité retrouvée" dont parlait le poète."Jérôme Dupuis, publié le 10/04/2014 à 19:08, LIRE .
"Sur Arthur Rimbaud. Correspondance posthume (1912-1920)", présentation et notes de Jean-Jacques Lefrère.Fayard, 1320 p., 54,90 euros.
En savoir plus sur Arthur Rimbaud:
  Article Rimbaud d'outre-tombe


terça-feira, 15 de abril de 2014

Ler Manoel de Andrade

"Atravesar el Atlântico no es sólo atravesar un mar, sino también otra historia" Manuel Scorza, " Manuel Scorza: Mito, Novela Historia", Juan E Gonzalez in " Encontros com a civilização brasileira", nº 25, Rio de Janeiro, 1980
Ao ler  o novo livro de Manoel de Andrade , confirmamos a força das palavras de Manuel Scorza. Uma longa história narrada e vivida na primeira pessoa que nos transporta a um continente imenso  que foi martirizado  por dolorosas  convulsões. 
Ler " Nos rastros da Utopia" é descobrir quantos latino-americanos tiveram de lutar pelo quinhão pátrio de cada território, ao longo de vários séculos.
Quando atravessou dezasseis países, na época libertária dos anos setenta, Manoel de Andrade inscreveu-se na história desse  tempo. Um tempo diferente que descreve e caracteriza   numa narrativa memorialista   de grande fulgor emocional em parceria com um   intenso e rigoroso retrato histórico, social , artístico e civilizacional  de  um continente.
No Prólogo desta obra , Manoel de Andrade  explicita factos e introduz informações relevantes, que nos levam a transcrever, com reiterado prazer,  alguns excertos.

Manoel de Andrade no lançamento da obra, em Curitiba-Brasil
"  Faltou muito pouco para que este livro não fosse escrito. Os primeiros capítulos dessas memórias, iniciadas em Santiago, no verão de 1972, foram abandonados por trinta anos na solidão de uma gaveta. Em abril de 2002, quando iniciei os procedimentos para enviar ao Ministério da Justiça meu processo de anistia, resumi em 70 páginas a história de minha peregrinação pela América Latina, a fim de passar aos seus futuros relatores, fatos que pudessem informá-los sobre as razões do pedido. Acabei não enviando o texto, por acreditar que não estavam ali, e sim nos documentos públicos anexados, as peças essenciais para legitimar o processo. Novamente engavetei minha breve história em face da luta pela sobrevivência familiar, que não deixava tempo nem motivação para reavivar meu velho sonho de escrevê-la. O projeto estava completamente esquecido, como esquecida esteve também, por trinta anos, a minha condição de poeta quando, na primavera de 2002, a inspiração bateu, súbita e magicamente em minha porta, e cinco anos depois seus frutos resultaram na publicação do livro Cantares. Finalmente, em 2009, meu primeiro livro, Poemas para la libertad,  lançado em La Paz em 1970, e com outras sete edições  no exterior, era publicado, numa edição bilíngue, em São Paulo. Foi essa inesperada volta à Literatura e a persistente sugestão de parentes e amigos que me fizeram voltar a escrever os fatos aqui relatados. 
Manoel de Andrade rodeado de amigos: o engenheiro Namir Piacentini,
os advogados e ex-presos políticos Genésio Felipe de Natividade
e Vitório Sorotiuk e o professor e ex-preso político Narciso Pires,
presidente do Grupo Tortura Nunca Mais, do Paraná.
A América Latina que conheci há quarenta anos vivia de joelhos, marcada por brutais desigualdades, regida por forças reacionárias, pela violência das instituições e um profundo abismo entre uma riqueza orgulhosa e a pobreza humilhada. A exploração desumana do trabalho no campo, as massas indígenas deserdadas e famintas, o êxodo rural, a exclusão urbana e a face inconsolável da miséria eram os seus traços vivos e chocantes, marcados pela sobrevivência do feudalismo e pela persistência  dos privilégios colonialistas, que a Independência não modificou.. Atravessei toda a região quando  seu território era, literalmente, o “quintal” dos Estados Unidos e os interesses imperialistas dominavam os grandes “negócios” do continente. Era um tempo em que a direção dos nossos passos era determinada em Washington, e seu ritmo, pelo poder político das burguesias urbanas e as  oligarquias agrárias. Na década de 70  --- indelevelmente marcada pela Guerra Fria --- as esquerdas, em todo o continente, mobilizavam-se para reverter todo esse processo de pilhagem, dependência e marginalidade, preocupadas com a teoria e a prática revolucionárias, visando a conquista de soberania e liberdade. Em torno dessa tese se discutia a natureza da revolução, dividida entre nossa excepcionalidade indo-americana e a visão eurocêntrica do socialismo. Este anseio de liberdade foi um momento fascinante da história latino-americana e aqueles que puderam vivenciá-lo, quer como observador ou como um militante, jamais puderam apagar da alma as luzes das utopias que iluminaram aquele tempo. Fui um desses observadores e o que proponho, nestas páginas, é fazer um inventário não só daquela época, marcada por tanta diversidade e que prodigalizou as mais justas promessas, mas também uma revisão histórica dos conflitos sociais que marcaram os quinhentos anos das lutas libertárias do continente. Os rastros mais antigos e heroicos dessas lutas foram deixados pelos araucanos no Chile e pelas revoluções indígenas da Bolívia e do Peru. Seus exemplos de bravura e de martírio vivem até hoje nas imagens imperecíveis de Lautaro, Caupolicán, Túpac Katari e Túpac Amaru. Suas mensagens abriram, na década de 70, não apenas novas trincheiras ao longo de todo o continente -- onde tantas vanguardas revolucionárias honraram seus Movimentos com o nome desses heróis  --  mas também iluminaram poetas e prosadores cujas obras se alistaram nessa saga libertária.
A década de 1970 foi uma época de contrastes. De luzes que ofuscaram o mundo e de sombras que abateram os povos. De ideais que incendiaram corações e de corações incendiados pelo ódio. Se é verdade que naqueles anos semeou-se tantos sonhos,  também  colheu-se profundas desilusões, cujas cicatrizes continuam abertas em quase todos os países da América. Compromisso, resistência e clandestinidade fizeram o contraponto com a repressão, o exílio e a morte.
Este não é um livro político e aqui não se discute as grandes teses que polarizaram o ideário daqueles anos.Ainda assim, hoje perguntamos: De que valeram o rigor das posições dogmáticas e tantos debates teóricos ante o despojamento e o sacrifício daqueles que entregaram a vida por um sonho?
(…) Com este livro entrego o testemunho de um longo caminhar. Ao deixar o Brasil em março de 1969, meus passos cruzaram 16 países num prolongado  auto-exílio pelo continente,. A América Latina foi minha verdadeira universidade e nestas páginas palpita o espírito curioso de quem buscou saciar sua sede na leitura apaixonada da História, da Literatura e da Arte de tantos povos. Palpita o significado de experiências humanas vividas no convívio caloroso das grandes amizades, na tribuna combativa da poesia e nos amargos momentos da solidão dos cárceres. Palpita ainda um coração angustiado com os passos sem rumo, o olhar vazio e os gestos suplicantes dos filhos do calvário.. Este livro é, sobretudo, o relato de um poeta itinerante, de um bardo errante, profundamente identificado com seu tempo e com sua condição de latino-americano. Um confidente solitário, comprometido com o resgate de uma América  povoada de utopias e com a saga lendária daqueles que ousaram sonhar com um “admirável mundo novo”.
América Latina 
(…) Meu registro é tão somente uma mínima parte da memória esquecida dos anos 60-70 e que ainda está por ser escrita. Seus protagonistas foram aqueles que, entre as flores e os espinhos, construíram um ninho, um berçário de ideias e promessas que nem todos os sobreviventes que ascenderam ao poder souberam honrar nos atos e nos fatos. Nestes embates, a poesia rebelde ocupa uma honrosa galeria de mártires, lembrando dezenas de poetas que empenharam suas vidas, seus sonhos e o encanto de suas metáforas para cantar a mística revolucionária pela lírica dimensão da poesia. Eis porque  estas memórias contam também a aventura de um livro chamado Poemas para la libertad. Um livro que nasceu nas edições panfletárias de estudantes peruanos e cujos   versos  foram publicados  em jornais, revistas, opúsculos,  cartazes e em milhares de panfletos por todo o continente. Seus poemas foram ouvidos em universidades,teatros, galerias de arte, festivais de cultura, congresso de poetas, sindicatos, reuniões públicas , privadas e clandestinas e até no interior das minas  de estanho da Bolívia. Suas edições se esgotavam rapidamente e seus exemplares percorreram a América Latina e o sudoeste dos Estados Unidos levados pelos mochileiros latino-americanos e pelos estudantes e intelectuais chicanos.Um livro proibido, confiscado e tendo que cruzar certa fronteira na bagagem de contrabandistas. Seus versos são filhos do sonho de liberdade que percorria o mundo. Alguns foram escritos  no Brasil e nasceram silenciados pelo medo e pela impotência,  numa pátria esmagada pela repressão. Outros foram se desfraldando ao longo de novas fronteiras, registrando os passos de uma imensa luta que incendiou a América há quarenta anos.
Enfim, estas páginas saem em busca de um passado nem sempre venturoso, e por isso sucedem-se para contar, sobretudo, a história dos vencidos. Vivemos num tempo em que todos os sonhos foram despedaçados e se escrevo estas memórias, é para que se possa ouvir o eco dos hinos que ficaram tão distantes. Meu livro é, acima de tudo, a longa crônica de um poeta que sonhou com o impossível, e cruzou tantas fronteiras acreditando que pudesse mudar o mundo com seus versos. Passados quarenta anos, há entre o que fui e o que sou uma profunda fidelidade. Intactos estão a disposição de indignar-me com as injustiças,um  coração solidário e um sentimento imperecível de gratidão…, aos amigos que ficaram, ao Bom  Deus,  que amparou meus passos  e à vida, por  permitir  que eu chegasse até aqui! Eis porque, caro leitor, convido-o a viajar comigo por caminhos e por um tempo fascinante, em que o sonho e a esperança comandavam os rumos da História. Ventura e desventura, encanto e desencanto são os sabores com que estão temperados os fatos que passarei a relatar.” Manoel de Andrade , in "Prólogo" de “ Nos Rastros da Utopia, uma memória crítica da América Latina, nos anos 70”, Ed. Escrituras, S.Paulo, Brasil

Manoel de Andrade, o escritor Hélio de Freitas Puglielli  e, em segundo plano,
 a artista plástica Lúcia Misael e o engenheiro Sérgio Abujamra Misael,
  ao lado, de perfil, o teólogo e activista quântico Oduvaldo Mansani de Mello.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Promessas imperfeitas


Sangue
3.
Escrevo estes versos de grãos de terra na mão: eis a prova.
Tenho a certeza dos passos. Todos temos. Só no mais diferimos.
Era uma longa subida. Era a certeza
da nossa própria emigração. A mais bela,
a mais funda companhia. A perfeita igualdade do transporte
foi amassada em três quedas. Um braço, outro braço, um corpo
e a longa subida."
Pedro Tamen, in " o sangue, a água e o vinho ", Livraria Morais Editora, 1958
Um Fado: Palavras Minhas

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
— que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

Pedro Tamen, in “Tábua das Matérias”, Círculo dos Leitores

Nota Bio-Bibliográfica de PEDRO TAMEN
"Pedro Tamen nasceu em Lisboa, em 1934, é casado e licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa. Entre 1958 e 1975 foi director da prestigiosa editora Morais, entretanto desaparecida. Entre 1975 e 2000 foi administrador da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi presidente do PEN Clube Português (1987-90) e membro da Direcção e presidente da Assembleia Geral da Associação Portuguesa de Escritores.
Possui a grã-cruz da Ordem do Infante D. Henrique, a comenda da Orden del Merito Civil (Espanha) e o grau de oficial da Ordre National du Mérite (França).
A sua poesia, quando reunida na sua maior parte em Tábua das Matérias (1956-1991), foi galardoada com o Prémio da Crítica e com o Grande Prémio Inapa de Poesia. Aos livros Horácio e Coriáceo (1981) e Guião de Caronte (1997) foram atribuídos, respectivamente, os prémios D. Diniz e Nicola. Memória Indescritível (2000) recebeu os prémios Bordalo da Imprensa e do PEN Clube. Reuniu em 2001 uma colectânea actualizada de toda a sua poesia publicada até então (Retábulo das Matérias) e, posteriormente, em 2006, o livro Analogia e Dedos, a que foram atribuídos os prémios Luís Miguel Nava e Inês de Castro. Em 2010 publicou O Livro do Sapateiro (a que foi atribuído o Prémio «Correntes d’Escritas – Casino da Póvoa» e o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores). Em 2011, Um Teatro às Escuras e em 2013 Rua de Nenhures. Está representado na generalidade das antologias de poesia contemporânea portuguesa. Tem poemas traduzidos e publicados em francês, inglês, espanhol, italiano, alemão, neerlandês, sueco, húngaro, romeno, checo, eslovaco, búlgaro e letão.
Tem desenvolvido uma intensa actividade de tradutor literário e obteve em 1990 o Grande Prémio da Tradução. Foi duas vezes finalista do Prémio Europeu de Tradução. Em 2011 recebeu o Prémio Especial Tradutor, integrado nos Prémios de Edição Ler/Booktailors". Site de Pedro Tamen ( adaptado)

domingo, 13 de abril de 2014

Ao Domingo Há Música

"Ergue-te ó Sol de Verão
Somos nós os teus cantores
Da matinal canção
Ouvem-se já os rumores
Ouvem-se já os clamores
Ouvem-se já os tambores" Zeca Afonso


Ao longo da história de cada país, houve épocas tenebrosas que tiveram durações diferentes ,em tempos e formas diversas. Lutar contra a opressão que coarcta , diminui, tolhe e asfixia foi a arma de muitos cantores e compositores. Resistir e combater são vocábulos do dicionário libertário.
Em Portugal e no mundo, há um espólio de belas canções que perdurará como símbolo de gerações  que souberam glosar  a palavra  Liberdade. 
Num  mês,  em  que  se  celebra   uma  data  revolucionária  portuguesa, é tempo  de  recordar muitas outras vozes que têm sido homenageadas por esse mundo.
Da Europa à América Latina, do hediondo e trágico golpe Chileno, retirámos registos que ilustram a força da canção libertária.

Começamos com a voz de Zeca Afonso numa canção emblemática, "Coro da Primavera", do Álbum "Cantigas do Maio", considerado pela revista Blitz como o melhor de música portuguesa dos anos 70.

Nolwenn Leroy , uma nova  voz francesa, e Maurane, uma prestigiada voz belga, prestam homenagem a Jean Ferrat , um grande  resistente compositor-cantor, na abertura das Victoires de la Musique, em  2011. Ei-las,  em " Aimer à perdre la raison", um hino ao Amor com  poema de Louis Aragon e música de Jean Ferrat.

“Què volen aquesta gent” é uma canção de 1968, composta por  Maria del Mar Bonet  e com poema de Lluís Serrahima.  O poema e a canção foram escritos  para denunciar a repressão política exercida pela  ditadura de Franco, em Espanha. Durante um concerto na Cova del Drac, a censura interditou a sua apresentação em público, convertendo-a numa das mais procuradas canções proibidas da resistência antifranquista.

«Canta agora...!» - gritou um dos oficiais, depois de ter esmagado as mãos  de Victor Jarra ,durante mais uma sessão de espancamento, no Estádio do Chile, há quase  41 anos, quando Augusto Pinochet  tomou o Chile, através de um iníquo  golpe de estado. Victor Jarra foi preso, torturado e morto  como tantos outros resistentes,  em praça pública, num espectáculo medonho e inenarrável. 
Em  jeito de  homenagem,   retomamos  a  sua  voz  no  longo   e  célebre  registo
" Manifiesto".

Yo no canto por cantar
ni por tener buena voz
canto porque la guitarra
tiene sentido y razon,
tiene corazon de tierra
y alas de palomita,
es como el agua bendita
santigua glorias y penas,
aqui se encajo mi canto
como dijera Violeta
guitarra trabajadora
con olor a primavera.



Que no es guitarra de ricos

ni cosa que se parezca
mi canto es de los andamios
para alcanzar las estrellas,
que el canto tiene sentido
cuando palpita en las venas
del que morira cantando
las verdades verdaderas,
no las lisonjas fugaces
ni las famas extranjeras
sino el canto de una alondra
hasta el fondo de la tierra.


Ahi donde llega todo

y donde todo comienza
canto que ha sido valiente
siempre sera cancion nueva.