sexta-feira, 16 de maio de 2025

Vem comigo

O poema vai na direção do outro. Ele espera juntar-se entregue e desocupado. A obra solitária do poeta escarificando a matéria preciosa das palavras é o acto de expulsar um face a face. O poema torna-se diálogo – ele é frequentemente diálogo perdido,… reencontra, caminhos de uma voz para um tu vigilante.
                              Emmanuel Levinas

Eternidade

Vens a mim
pequeno como um deus,
frágil como a terra,
morto como o amor,
falso como a luz,
e eu recebo-te
para a invenção da minha grandeza,
para rodeio da minha esperança
e pálpebras de astros nus.

Nasceste agora mesmo. Vem comigo.
Jorge de Sena, in Perseguição, Tipografia Atlântida, de Coimbra, 1942

Sem data

Esta voz com que gritei às vezes
não me consola de só ter gritado às vezes.
Está dentro de mim como um remorso, ouço-a
chiar sempre que lembro a paz de segurança estulta
sob mais uma pedra tumular sem data verdadeira.
Quando acabava uma soma de silêncios,
gritava o resultado, não gritava um grito.
Esta voz, enquanto um ar de torre à beira-mar
circula entre as folhas paradas,
conduz a agonia física de recordar a ingenuidade.
Apetece-me explicar, agora, as asas dos anjos.

27/1/42

Jorge de Sena, in Perseguição, Tipografia Atlântida, de Coimbra, 1942

quinta-feira, 15 de maio de 2025

Guerras


1ª Guerra Mundial ,(1914-1918)

1ª Guerra Mundial ,(1914-1918)
GUERRAS, GUERRAS, GUERRAS
por Eugénio Lisboa
 
Either man will abolish war,
or war will abolish man.
       Bertrand Russell
 
"A primeira guerra mundial (1914 – 1918) foi uma medonha carnificina, com a qual todos perderam, vinte milhões morreram, entre militares e civis, imensos ficaram mutilados, física e mentalmente, e alguns de boa vontade acharam que este açougue iria servir de vacina contra futuros holocaustos, porventura mais mortíferos. Outros, até, que tinham experimentado o odor fétido da podridão dos cadáveres, nesses esgotos, que eram as trincheiras, infectadas por ratos e piolhos (Barbusse, Vercel, Dorgelès, Remarque, Duhamel, este, como médico), escreveram assinaláveis e inesquecíveis livros, com o objectivo de imprimirem, com vigor, nos imaginários atormentados dos sobreviventes, a recordação do horror que convinha, para todo o sempre, evitar. Jean Giono, grande romancista francês, enorme prosador e destemido ser humano incapaz de matar, andou, contra toda a probabilidade, quatro anos daquela guerra, persistentemente vivo e de espingarda ao ombro, recusando-se a disparar um tiro fosse contra quem fosse. Da sua companhia, sobreviveu ele e o capitão da mesma. Dos seus admiráveis Écrits Pacifistes, extraio esta curta e impressiva passagem: “Eu não consigo esquecer a guerra. Gostaria de a esquecer. Passo, por vezes, dois dias ou três sem pensar nisso e, bruscamente, revejo-a, sinto-a, oiço-a, sofro-a mais uma vez. E tenho medo. Esta noite é o fim  de um belo dia de Julho. A planície, lá em baixo, tornou-se completamente arruivada. Vamos cortar o trigo. O ar, o céu, a terra estão imóveis e calmos. Passaram-se vinte anos. E, vinte anos depois, apesar da vida, das dores e dos momentos de felicidade, não me sinto lavado da guerra. O horror desses quatro anos está sempre comigo. Trago comigo a marca deles. Todos os sobreviventes carregam essa marca.” A marca foi de tal fundura, que Giono jurou nunca mais participar em guerra nenhuma e cumpriu-o. E pagaria a factura pesada por ter recusado fazê-lo, por ocasião da segunda guerra mundial, não tendo esquecido os horrores da primeira: REFUS D’OBÉISSANCE!
Roger Martin du Gard que acabara de ter um respeitável mas modesto triunfo com a publicação do seu romance JEAN BAROIS, no ano anterior, e viria a celebrizar-se com a sua admirável saga familiar, LES THIBAULT, fez a guerra no serviço de ambulâncias, isto é, recolhendo os feridos, estropiados e moribundos, sinistro corolário do pior que a aventura humana tem a oferecer: a guerra, como pífia e mortífera forma de solucionar conflitos de interesses. O contacto quotidiano com essa paisagem de um absurdo goyesco e sangrento, fá-lo-ia, como a Giono, considerar que a guerra era o mal absoluto, não a aceitando, em situação nenhuma, como solução de desentendimentos. E manteve esta resolução, mesmo durante os primeiros tempos da guerra contra Hitler. E só, quando informações fidedignas lhe chegaram ao conhecimento, sobre o que o nazismo significava, decidiu que este talvez viesse a provar ser um mal ainda superior à guerra.
Duhamel, médico e escritor e amigo de Martin du Gard, de asa também ferida, ao contacto com os mutilados e moribundos do conflito, escreveria páginas alucinantes sobre aquele horrível sorvedouro de sangue. A Europa terá, ali, perdido milhares de promissores talentos, pondo fim à sua supremacia no mundo. E terá perdido, até, alguns homens de génio, ainda em embrião. É que a guerra tem só uma virtude: é democrática, mata, por igual, imbecis e homens de valor. A guerra não é EXCLUSIVA, pelo contrário, é assombrosamente INCLUSIVA.
Seja como for, um punhado de homens, um pouco por toda a parte, tentaram dar ardente testemunho de todos aqueles horrores, para tentar que aquela guerra fosse a última das guerras. Porém, vinte anos depois, a humanidade estava envolvida noutra ainda mais mortífera. Será que o inferno não ensina a evitá-lo? Vivemos actualmente, com um sinistro magarefe aqui à porta, que a pretexto de históricos sonhos imperialistas e saudoso do tempo de um império assassino e cheio de boa consciência, encetou uma violação do direito internacional, invadindo um vizinho que o incomodava e dava jeito incorporar no seu seio ansioso por maior volume. Há quem, no Ocidente, use de uma filologia enviesada e assaz masoquista, para justificar todas as agressões, violações e genocídios de um agressor que é alegadamente “pessoa de bem”. Talvez valesse a pena reeditar e mantê-las no mercado, bem à vista, as obras de autores que souberam dar veemente notícia dos horrores da guerra.”
Eugénio Lisboa, 08.10.2023

quarta-feira, 14 de maio de 2025

Um poema e um abraço


Dai-me um nome

Dai-me um nome, um só nome
para tudo quanto voa:
cardo pedra romã.

Um só nome, para o desejo
ser na manhã corola
de cal, cotovia,

chama subindo
baixando até ser incêndio
de amor rente ao chão.

Um só nome para que tudo,
rosa excremento mar,
possa entrar numa canção.
Eugénio de Andrade, in Os Lugares do Mundo, Assírio &  Alvim Editores, Junho de 2013, p.13
Dá-me um abraço - Miguel Gameiro
Dá-me um abraço

Dá-me um abraço que seja forte
E me conforte a cada canto
Não digas nada, que nada é tanto
E eu não me importo

Dá-me um abraço, fica por perto
Neste aperto, tão pouco espaço
Não quero mais nada, só o silêncio
Do teu abraço

Já me perdi sem rumo certo
Já me venci pelo cansaço
E estando longe
Estive tão perto
Do teu abraço

Dá-me um abraço, que me desperte
E me aperte, sem me apertar
Que eu já estou perto, abre os teus braços
Quando eu chegar

É nesse abraço que eu descanso
Esse espaço que me sossega
E quando possas dá-me outro abraço
Só um não chega

Já me perdi sem rumo certo
Já me venci pelo cansaço
Estando longe
Estive tão perto
Do teu abraço

Já me perdi sem rumo certo
Já me venci pelo cansaço
E estando longe
Estive tão perto
Do teu abraço

Já me perdi sem rumo certo
Já me venci pelo cansaço
E estando longe
Estive tão perto
Do teu abraço

Estando longe
Estive tão perto
Do teu abraço
Miguel Gameiro

terça-feira, 13 de maio de 2025

Ave Maria

Nossa Senhora de Fátima
Neste dia , 13 de Maio, é festejado, em Portugal , o dia de Nossa Senhora de Fátima.  Acorrem a essa localidade milhares de católicos  , enchendo uma praça em fervorosa manifestação de fé .
Existem uma  variedade de composições dedicadas a Maria , ou seja , uma série de Ave Maria  , publicada, ao longo dos anos, pelos  mais recentes  compositores de música ligeira e popular aos mais célebres compositores de música clássica. 
Eis algumas  dessas belíssimas "Ave Maria", interpretadas por grandes vozes. 
 
Amália Rodrigues, em Ave Maria fadista, com Letra de  Gabriel de Oliveira e Música de Francisco Viana ( Vianinha ).
 
Maria Bethânia, em Ave Maria no Morro (Jayme Redondo e Vicente Paiva).
 
1 - Elina Garanca em Ave Maria, de Pietro Mascagni. Esta peça, originalmente conhecida como Intermezzo Sinfonico, faz parte da Cavalleria Rusticana de Pietro Mascagni.
Cavalleria rusticana é uma ópera num acto único de Pietro Mascagni, estreada em 17 de Maio de 1890 no Teatro Costanzi, em Roma. 
2 - Elina Garanca, em Ave Maria, de William Gomez.
Esta Ave Maria foi concebida pelo compositor e virtuoso de guitarra clássica William Gomez, nascido em Gibraltar em 1939. A composição, comumente chamada de Ave Maria de Gomez foi posteriormente arranjada para orquestra por um conterrâneo , o maestro Karel Chicon, e foi cantada pela mezzo-soprano Elina Garanca, esposa do maestro, em vários concertos sinfónicos. Desde a sua apresentação com orquestra e solista, a música alcançaram  admiradores por todo o mundo.
   
Andrea Bocelli, em Ave Maria, de Gullio Caccini, acompanhado pelos coros e Orquestra da Academia Nacional de Santa Cecília, sob a direcção do Maestro Myung-Whun Chung. 
Ária extraída do Álbum Sacred Arias. Na realidade, não foi Gullio Caccini (1551-1618) quem a compôs, mas Vladimir Vavilov (1925-1973) quem editou e registou a sua composição como obra anónima em 1970 e a publicou por si próprio. Gravou-a na editora Melodia em 1972. Foi popularizada por Andrea Bocelli e especialmente pela soprano letã Inessa Galante, que a gravou em 1995.
 
Aida Garifullina, em Ave Maria , de Franz Peter Schubert , compositor austríaco, 1797- 1828 .
   
A beleza da actriz  Olivia Hussey, em Ave Maria , de Michat Lorenc (compositor polaco, nascido em 1955), na minissérie (Inglesa e italiana) Jesus of Nazareth (1977).
  
Luciano Pavarotti , em  Ave Maria {Bach / Gounod}.
Ave Maria é uma oração celebrada nas culturas de origem latina. O compositor romântico francês Charles Gounod sobrepôs a sua melodia a uma versão ligeiramente modificada do Prelúdio nº 1 em Dó Maior, do compositor alemão Johann Sebastian Bach. Esta peça foi publicada em 1853 com o nome "Méditation sur le Premier Prélude de Piano de S. Bach". A composição original de Bach data de 1722.
 

segunda-feira, 12 de maio de 2025

Pensamento do dia

Patriotismo e Governo
[ 1900]
III
por  Lev Tostoi
 " As classes governantes têm nas suas mãos  as tropas, o dinheiro, a escola, a religião, a imprensa. Nas escolas  atiçam nas crianças o patriotismo, com histórias que descrevem o seu povo como o melhor de todos os povos e sempre justo; atiçam nos adultos esse mesmo sentimento por meio de espectáculos, solenidades , monumentos , de uma imprensa patriótica mentirosa; acima de tudo , atiçam o patriotismo praticando toda a espécie  de injustiças e brutalidades contra outros povos, despertam neles a hostilidade contra o seu próprio povo e usam depois essa hostilidade para excitar a hostilidade no seu próprio povo."
Lev Tolstoi, in Os Últimos Escritos , Relógio D'Água Editores, Setembro 2018, p 74

domingo, 11 de maio de 2025

Ao Domingo Há Música

Maison

Où va-t-on ?

Quand on n’a plus de maison ?

Les fleurs sous le béton,

Maman,

Dis-le-moi,

Où va-t-on ? 


Est-ce qu’un jour on sait vraiment ?

Ou est-ce qu’on fait semblant, tout le temps ?

Où va le cœur quand il se perd ?

Dans les doutes et les hivers ?

Pourquoi les jours se ressemblent ?

Est-ce qu’on finit par voir ce qu’on assemble ?

Maman, dis-le-moi.


Au-delà,

De l’orage il y a

De l’amour, de l’amour, de l’amour,

Quand le ciel s’ouvre,

Tout redevient calme

Et tout va bien.


Où va-t-il ?

Le bonheur, ce fil fragile,

Quand il vacille et se brise ?

Maman, dis-le-moi,

Où va-t-il ?


Pourquoi le monde semble si grand,

Quand on devient un peu plus grand qu’avant ?

Que deviennent les rêves qui s’enfuient ?

Et les souvenirs qu’on oublie ?

Est-ce que j’aurai toujours des questions ?

Peut-être que j’en ferai des chansons.

Maman, dis-le-moi.


Au-delà,

De l’orage il y a

De l’amour, de l’amour, de l’amour,

Quand le ciel s’ouvre,

Tout redevient calme

Et tout va bien.

Lili Poe


Há dias e dias. Uns inspiradores, outros cinzentos e ainda outros que nada são . Cumprem-se porque o calendário o obriga. Mas,  se  o mundo e a vida têm de ser compostos de mudança, como  dizia o poeta,   há dias que nos arrebatam por um simples estímulo. E esse pode ser a música. E nela, uma voz , um som , um compasso ou tudo o que explode em harmonia e sonoridade. Assim é, quando as vozes  se expandem na sua beleza pura  , de uma musicalidade natural e mágica. Foi por elas que aqui venho para partilhar três grandes vozes  que me encantaram. 
Que vos encante também.

Emilio Piano ft. Lucie  , em Maison.
Music: Emilio Piano, Wojciech Urbański, Lili Poe, Józef RusinowskiLyrics: Lili Poe Strings: AUKSO Chamber Orchestra of the City of Tychy under the direction of Marek MośCello solo: Joanna Urbańska-MiksztaOrchestration: Krzysztof FalkowskiStrings recording & mix: Krzysztof Kurek Vocal recording engineer: Julien SabourinSound editing: Łukasz Palkiewicz, Dawid PłonkaMix/mastering: Marcin CisłoMusic producer: Wojciech Urbańsk

 Emma Kok,  aos 16 anos, em  Voilà, na  German ZDF TV Fundraiser 'Ein Herz Fur Kinder'.
   
Amira Willighagen , em  Your Love ( "Once Upon A Time In The West") Dec. 2nd 2017 Amira interpreta  Your Love, tema do filme "Era Uma Vez No Oeste", composto por Ennio Morricone. É acompanhada pela Metropole Orchestra e pelo Inspirational Community Gospel Choir. Este vídeo foi gravado pela emissora pública holandesa Omroep MAX para o  espetáculo anual MAX Proms. Gravado a 2 de Dezembro de 2017 em Utrecht (Holanda) e transmitido a 25 de Dezembro.
 

sábado, 10 de maio de 2025

Do silêncio

O Silêncio

Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.

Eugénio de Andrade, in Obscuro Domínio, Editorial Inova Limitada,1971, p 97
Ruptura

A noite fende -
o silêncio
escorre do muro 

De quanta ferida
abrirem os dedos
só vento é meu , 
só vento respira.

Mas já a minúscula
língua de erva
chama pela neve.

O silêncio
é o meu domínio.
Como se diz: 
a terra é leve.
Eugénio de Andrade, in Obscuro Domínio, Editorial Inova Limitada,1971, p115

sexta-feira, 9 de maio de 2025

Celebrar

Se ontem, 8 de Maio, dia da Europa, o palco maior difundido em todo o mundo foi a eleição do Papa Leão XIV, que levou uma multidão expectante à Praça do Vaticano, hoje, acordamos com as imagens de Moscovo, exibindo o ditador Putin, ufano do seu material de guerra na Praça Vermelha, rodeado por alguns chefes de estado que não devem ter escrúpulos por estarem presentes e apoiar o ignóbil chefe de uma guerra infame. São todos eles marcados pelo sorriso matreiro e obscuro do homem que, de artimanha em artimanha,  vai enganando o seu povo e desenvolvendo uma feroz e cruel guerra de expansão nos territórios soberanos de outras nações. De entre os presentes, o que mais me choca é o Presidente do Brasil, Lula da Silva, que numa tentativa mercantilista e de guerra comercial, quer justificar o alargamento e poder dos BRIC,  ao solidarizar-se com este facínora , Vladimir Putin.
O Papa Leão XIV falou da Paz no seu discurso inicial na janela da Basílica de S. Pedro, perante uma multidão vibrante de alegria  que lhe acenava com bandeiras vindas de todo o mundo. Entre elas, exibiam-se muitas do Brasil, o país que, por tradição,  se assume como irmão de Portugal. Foram abençoadas, apesar de Lula  com o vazio e reiterado argumento de que é pela paz,  ter rumado para os braços de Putin, o maior promotor da guerra.
Neste dia , não posso deixar de recordar Eugénio Lisboa, um acérrimo defensor da concórdia, da Paz  mas combativo na denúncia dos horrores da guerra,  que nos deixou uma obra lapidar sobre esse tema, que todos nós  vamos acompanhando desde 2022, com a invasão da Ucrânia pela Rússia.
É, pois , dever nosso transcrever algumas páginas do livro  Poemas em Tempo de Guerra Suja , para que  os olhos não se fechem  à atroz realidade provocada pela guerra de ditadores infames e se acomodem à passiva contemplação que grassa entre alguns. 

INTRODUÇÃO
Serviço inútil
por Eugénio Lisboa
" Nenhum dos grandes livros que se escreveram contra a guerra, ao longo dos séculos, evitou jamais que uma nova guerra se travasse, com o habitual cortejo de ruínas, mortos e mutilados. Nas guerras vence-se, mas não se ganha. Há sempre um vencedor, um vencido e dois perdedores. Essa grande e sábia mulher que foi Eleanor Roosevelt disse um dia isto, que é uma pérola digna de meditação: «Ninguém ganhou a última guerra nem ninguém vai ganhar a próxima.»
O grande poeta chileno Pablo Neruda fez um dia esta afirmação, que é bela, mas falsa: «Os poetas odeiam o ódio e fazem guerra à guerra.» É conforme e, se há poetas que odeiam a guerra e cantam contra ela, outros tem havido, ao longo dos séculos, que a cantam fervorosamente, em gestas de admiração e louvor. Por isso, Malraux considerava a Ilíada uma idiotice e Valéry achava La Chanson de Roland uma idiotice ainda maior. E a Jerusalém Libertada, de Torquato Tasso, é uma prolongada chatice, provavelmente só visitada, bocejando, pelos fazedores de currículos académicos. Mas essas obras são oficialmente veneradas como clássicos e consideradas e classificadas como património da humanidade. Provavelmente, apenas por serem muito antigas, visto que aqui é como na vida militar, em que, no passado, a antiguidade era avaliada como um posto. Curiosamente, os mandantes das Forças Armadas aboliram este conceito, mas os mandantes das Humanidades continuam agarrados a ele. (Shakespeare cantou a guerra em altos e belos decibéis e isso em nada lhe afectou a reputação…) 
Em suma, há uma grande literatura contra a guerra, feita por gente bem-intencionada e talentosa, que julga que, mostrando quão horrorosas são as guerras, poderá evitar guerras futuras. Tem-se visto que nada têm conseguido. A eles me junto agora, sabendo muito bem que estou a empurrar para cima o penedo de Sísifo, que voltará a tombar, assim oferecendo à comunidade um serviço inútil. Mas fica-nos este absurdo privilégio – ético, mas sobretudo estético – de sabermos não desistir. Poder recuar e não recuar. Poder abocanhar e não abocanhar. 
Poderá ser ético, mas é, fundamentalmente, bonito. Gide propôs, subversivamente, que a Ética fosse uma dependência da Estética. Por isso digo que desistir é feio, antes de ser muitas outras coisas. Lutemos, então, mesmo sabendo que vamos perder, juntamente com aqueles que julgam que vão ganhar.

Nota importante – Este livro intitula-se Poemas em Tempo de Guerra Suja e, por isso, inclui também poemas que nada têm que ver com a guerra, mas foram escritos em tempo dela. Em tempo de guerra, ora a encaramos de frente, ora lhe voltamos as costas. É conforme.
Eugénio Lisboa

SONETO MUITO GAUCHE PARA USO DOS 
OPRESSORES DO MOMENTO
 Os ditadores usam a cartilha
 normalmente usada por quem oprime.
 O opressor percebe bem que trilha
 inocentes e que nada o redime.

 A razão do opressor é a força,
 já que outra razão não tem.
 Porém a força a razão reforça
 e a razão faz da força seu refém.
 
A sabedoria dos opressores
 é o contrário de saber viver:
 o uso constante dos seus terrores
 
é sementeira que fará colher
 os tais destemidos frutos da ira,
 que atira os restos da força à pira!
                             25.02.2022
Nota do autor – Quem não tem cão caça com gato. Quem não tem espingarda dispara soneto mal-amanhado.

INTERPELAÇÃO AOS POETAS PORTUGUESES 
SILENCIOSOS PERANTE A CATÁSTROFE
 1
 Mas que merda de poetas,
 de liras enferrujadas,
 pouco vigor nas canetas
 e de iras mal mijadas!
 2
 Mas que vergonha de gente,
 tão indigna de Camões,
 de tesão deficiente
 e falta de palavrões!
 3
 Que gente tão sem tomates
 (mais são castanhas piladas!),
 maricas, tatibitates,
 com as tusas congeladas!
 4
 Onde está a vossa Musa,
 bem canora e eloquente,
 que ao bandido que abusa
 faz frente intransigente?
 5
 A vossa Musa morreu?
 Coragem já não existe?
 A honra esmoreceu?
 A lira já não resiste?
 6
 Gente indigna de Bocage,
 cuja lira abissal
 envigora o ultraje,
 tal louco Gomes Leal!
 7
 À guerra que tudo esmaga,
 oponde a lira imortal,
 que ao invasor embarga
 o seu avanço letal!
 8
 Acordai a vossa lira,
 apodrecida no sono
 e instigai-lhe a ira,
 que não fique ao abandono!
 27.02.2022

DE DITADORES, FALEMOS
 O ditador é sempre um psicopata,
 que se julga o centro do universo.
 Também, em tudo, um condutopata
 e um labirinto muito perverso.
 
Um deles era cropofilopata
 e grande amigo de matar judeus.
 Tinha grandes tiques de nevropata
 e tais horrores ele prescreveu,
 
que, por fim, enfiado num buraco,
 em Berlim, já no fim de longa guerra,
 pôs fim ao seu destino de velhaco.

 Agora, anda aí outro que emperra
 sua maldade às portas de Kiev:
 aguardemos que o diabo o leve!
 13.03.2022

OS FRUTOS DA GUERRA
 O horror tornou-se quotidiano,
 a destruição transformou-se em hábito,
 o mundo foi ficando kafkiano,
 o morrer, agora, volveu-se súbito,

 as lindas crianças servem de alvo,
 e os olhos das mães gritam de espanto!
 Se nada do que temos está a salvo,
 fina-se a fala e também o canto.

 A morte agora veste-se de aço
 e vomita incêndios majestosos:
 volatiliza com desembaraço
 
o museu, o palácio esplendoroso,
 o hospital, o armazém, a praça
 e tudo quanto o horror devassa!
14.03.2022
Eugénio Lisboa, in Poemas em tempo de guerra suja, Guerra & Paz Editores, Setembro de 2022, pp.13,14, 17,18,19, 29,  30