quarta-feira, 7 de maio de 2025

Os livros de Maio da Guerra & Paz

Editora Guerra & Paz
Os meus livros de Maio presos no engarrafamento
por Manuel S Fonseca, editor da Guerra & Paz
"Atrasei-me. O semáforo apagou-se e os meus livros de Maio ficaram presos no engarrafamento. O que, estava Angola a um pezinho d’ água da independência, me faz lembrar do peculiar primeiro carro que o meu kamba Jorge comprou em Luanda. Tinha um ligeiro problema: só virava à direita. Fora abalroado por um camião e a suspensão partida fazia com que a carroceria, logo que se queria virar à esquerda, se encavalitasse no pneu, bloqueando o carro.
E pergunto: o que bloqueou na educação em Portugal nas últimas décadas, que não vira nem à esquerda nem à direita? As escolhas curriculares? A formação de professores? O tentacular ministério da educação? A acção dos sindicatos? Quem nos responde é o escritor e professor António Carlos Cortez no seu ensaio O Fim da educação: crise, crítica, ensino, utopia, livro que inaugura uma nova colecção, diatribe, cuja vocação é tratar com rigor e severidade temas actuais. Na diatribe pensa-se e os autores correm riscos.
Volto ao meu amigo angolano. Como é que ele conseguia circular em Luanda sem ferir a lei, que é como quem diz, o bem comum? Tinha na cabeça um milhão de rotas alternativas e, num aperto, para virar à esquerda, virava duas vezes à direita, o que o colocava a 180º do ponto inicial, ou seja, à esquerda. Eis o desafio que o Prémio Nobel da Economia, o economista francês Jean Tirole, resolve à sua maneira em A Economia do Bem Comum, um livro que nos ensina a virar à esquerda e à direita, sem preconceitos, desfazendo o pensamento único.
E vejam, um polícia parou o meu amigo e quer que o obstinado carro vire à esquerda. O Jorge força e o espantado polícia vê, perplexo, um carro subir pelo próprio pneu acima (e abaixo!). A ordem lógica do mundo desaba e a autoridade demite-se: «O senhor faça o favor de virar para onde quiser!»
Se a própria autoridade pode ser iconoclasta, o que dizer da poesia? Bicho Carpinteiro é o livro que o António Cabrita faz o favor de publicar comigo. Ferve nele um nu desejo descabelado, que por vezes se protege vestindo a roupinha de um sapiente humor antigo, ou não fosse o livro, como se diz em subtítulo «as aventuras e desventuras de um corpo que, farto de virar o ananás, contra o seu ânimo já enferrujado tenciona dar o falo à IA». Espantoso é como Bárbara Assis Pacheco tão bem ilustra este livro – ofende? Ó se ofende.
E faço um parêntesis para falar de dor e luto. Filho de Uma Mãe: a solidão e a perda no século XXI, de Adalberto Faria, é um livro confessional sobre o vazio que é a partida de uma mãe. É íntimo, sim. Comovente. E são dois livros num: na segunda parte, Adalberto acolhe 29 depoimentos, de D. Januário Torgal a Bernardino Soares ou António Barreto, passando por Bárbara Reis ou Beatriz Pacheco Pereira.
E sem saber se estou a virar à esquerda ou à direita, falo-vos de outro livro de sabor circense e mágico. Com a parceria do Fundo Cultural da SPA, escreveu-o Cristina Carvalho, que lhe chamou Fabulário ou o Pequeno Circo do Mundo, e ilustrou-o o arquitecto e pintor José Manuel Castanheira. Os autores fazem dele um livro em que o leitor adulto se sente autorizado a voltar a saborear a inocência.
Foi com essa mesma inocência que salvei o meu amigo Jorge. Desafiei-o a comprarmos a meias, em Luanda e já na dipanda, um descapotável, um very british MG. Finalmente, tínhamos um carro que curvava à esquerda e à direita. Cabelos ao vento, passávamos no asfalto e no musseque e os candengues gritavam: «Olha só, os últimos hippies de Luanda!» Os leitores experimentarão essa inocência, descobrindo «os últimos hippies de Lisboa» – ou do Porto – ao lerem O Verão Quente de 1975: Tudo Era Permitido, em que o jornalista e nosso autor Pedro Prostes da Fonseca visita as coisas extravagantes, raras, bizarras, insólitas e excêntricas do PREC, nesse ano em que tudo podia acontecer – e, leiam, aconteceu.
Outra experiência de inocência é a que Greg Lukianoff e Jonathan Haidt nos propõem em A Infantilização da Mente Moderna. É um de Os Livros Não se Rendem, com a parceria da Fundação Manuel António da Mota e da Mota Gestão e Participações. Um livro que arrasa a ideia de «segurança», «protecção» ou «ofensa» na linguagem e nas ideias nas universidades.
Sem querer ofender ninguém, o que não disse foi como se comprou o MG. Se bem me lembro, foi pago a grades de cerveja e a muitos quilos de carne que uns mais velhos nos arranjaram no Lubango. Coisas como esta não se caçam na IA, mas na IA muitas coisas se podem aprender. Jorge Rio Cardoso oferece a pais, professores e alunos um livro novinho em folha: Mais IA, Melhor Educação: Um guia essencial para pais, alunos e professores. É o que de mais actualizado se pode encontrar, prático e seguro.
E acabo com o que o meu amigo Jorge me contou ontem: lá em Angola, a chaparia do chão do MG abriu buracos. Para a chuva não entrar, atapetou tudo com as fraldas de uma das suas bebés. E assim andou anos. Há dias, foi à oficina fazer um arranjo e o mecânico aplicou-lhe o maçarico. O esquecido fundo de fraldas ardeu como um vulcão e consumiu nas labaredas do inferno esse brinco da minha juventude revolucionária.
Virem à esquerda ou à direita, mas nunca por nunca usem livros para atapetar a fendida e frágil chaparia dos vossos carros. E muito menos estes meus livros de Maio saídos do apagão e do engarrafamento.
Não vos deixo sem uma palavra de auto-ajuda. Na nossa chancela Crisântemo, estreia-se Mafalda Johannsen. Escreveu Vendas Para Quem acha que Não Tem Talento.
A Mafalda é especialista em prospecção B2B, o que explica, certamente, o seu notável sentido de humor. O livro tem o talento de nos ensinar que estas coisas se aprendem. Com seriedade e um profissionalismo metódico. As vendas da Guerra & Paz vão aumentar e palpita-me que a Mafalda vai escrever mais livros.

Estreia também, na tão feminina chancela Euforia, é a da romancista Alexandra Cruz. Rivais Prometidos é o título de um livro erótico, que junta inimigos à primeira vista, daqueles que jamais alguém sonha sequer aproximar. Mas juntam-nos. Se há revolta e motins? Há. Há ódios e cheiro de vingança. Uma insidiosa sensualidade, também… o resto, como alguém disse, é literatura."
Manuel S. Fonseca, editor

Sobre a Tristeza do Pensamento




Dez razões (possíveis) para a tristeza do Pensamento
por George Steiner
" Schelling, entre outros, atribui à existência humana uma tristeza fundamental, inescapável. Mais particularmente, esta tristeza oferece o fundamento sombrio sobre o qual assentam a consciência e a cognição. Este fundamento sombrio deve, na verdade, ser a base de toda a perceção, de todo o processo mental. O pensamento é rigorosamente inseparável de uma «melancolia profunda e indestrutível». A cosmologia atual oferece uma analogia à crença de Schelling. Aquela do «ruído de fundo», dos comprimentos de onda cósmica, esquivos mas inescapáveis, que são os vestígios do Big Bang, do surgimento do ser. Em todo o pensamento, de acordo com Schelling, esta radiação primitiva, esta «matéria negra», é uma tristeza, um pesar (Schwermut), que também é criador. A existência humana, a vida do intelecto, significa uma experiência desta melancolia e a capacidade vital de a superar. Nós somos, por assim dizer, criados «entristecidos». Nesta noção existe, quase indubitavelmente, o «ruído de fundo» do universo Bíblico, das relações causais entre a aquisição ilícita do conhecimento, da discriminação analítica e do banimento da espécie humana do estado de felicidade inocente. Um véu de tristeza (tristitia) cobre a passagem, por muito positiva que ela possa ser, do homo para o homo sapiens. O pensamento carrega em si um legado de culpa.
As notas que se seguem são uma tentativa, inteiramente provisória, para compreender estas proposições, para apreender a título especulativo algumas das suas implicações. Elas são necessariamente inadequadas devido à espiral por meio da qual qualquer tentativa de pensar sobre o pensamento se vê enredada no processo do pensamento, na sua autorreferência. O celebrado «Eu penso, logo existo» é, ao fim e ao cabo, uma tautologia aberta. Ninguém pode estar numa posição exterior a ela. 
Não podemos na realidade saber (in Wirklichkeit) o que é o «pensamento», em que consiste «pensar». Quando tentamos pensar sobre o pensamento, o objeto da nossa investigação é interiorizado e disseminado no processo. Ele é sempre simultaneamente imediato e inatingível. Nem mesmo na lógica ou no delírio dos sonhos podemos alcançar um ponto de vista externo ao pensamento, um ponto arquimediano a partir do qual circunscrevêssemos ou pesássemos a sua substância. Nada, nem mesmo as investigações mais profundas da epistemologia ou da neurofisiologia, nos conduziu para além da identificação proposta por Parménides entre o pensamento e o ser. Este axioma continua a ser, simultaneamente, fonte e limite da filosofia ocidental. 
Temos provas de que o processo do pensamento, da criação de imagens conceptuais, persiste mesmo até durante o sono. À semelhança da respiração, determinados modos de pensamento são inteiramente resistentes a qualquer interrupção que seja. Podemos, durante breves períodos, suster a nossa respiração. Não é de modo algum claro que possamos estar sem pensar. Há quem se tenha esforçado para alcançar esta condição. Certos místicos, certos adeptos da meditação, procuraram atingir o vazio, um estado de consciência inteiramente receptivo porque vazio. Aspiraram a habitar o nada. Mas este nada é ele mesmo um conceito, carregado de paradoxo filosófico, e emocionalmente saturado, quando alcançado por meio da meditação dirigida e de exercícios espirituais, como em Loyola. São João da Cruz caracteriza a suspensão do pensamento mundano como transbordante da presença de Deus. Uma verdadeira interrupção da pulsação do pensamento, exatamente como a interrupção da nossa pulsação fisiológica, é a morte. Durante algum tempo, os cabelos e as unhas de uma pessoa morta continuam a crescer. Tanto quanto nos é dado saber, não se verifica qualquer prolongamento do pensamento, por breve que seja. Daí a sugestão, em parte gnóstica, de que apenas Deus se pode desligar do Seu próprio pensamento, num hiato essencial ao ato da criação. 
Regressemos a Schelling e à asserção de que uma tristeza necessária, um véu de melancolia, se associa ao próprio processo do pensamento, à percepção cognitiva. Poderemos nós tentar esclarecer algumas razões para tal? Teremos nós o direito de perguntar por que não deverá o pensamento humano ser alegre?
George Steiner, in Dez razões (possíveis) para a tristeza do Pensamento, Relógio d'Água Editores, Abril de 2025, pp.11- 13

Sobre o Livro: :
«Schelling, entre outros, atribui à existência humana uma tristeza fundamental, inescapável. Mais particularmente, esta tristeza oferece o fundamento sombrio sobre o qual assentam a consciência e a cognição. Este fundamento sombrio deve, na verdade, ser a base de toda a perceção, de todo o processo mental. O pensamento é rigorosamente inseparável de uma “melancolia profunda e indestrutível”. A cosmologia atual oferece uma analogia à crença de Schelling. Aquela do “ruído de fundo”, dos comprimentos de onda cósmica, esquivos mas inescapáveis, que são os vestígios do Big Bang, do surgimento do ser.»
«As ideias de Steiner revelam imparcialidade, seriedade, erudição sem pedantismo e um charme sóbrio.» [The New Yorker]
«George Steiner é talvez o último humanista. O seu pensamento, não isento de paradoxos e indefinições, revela uma enorme ternura, não apenas pela nossa espécie como um todo, mas pela pessoa. Pelo milagre irrepetível de cada ser humano.» [El Cultural]

Autor : George Steiner
Título: Dez razões (possíveis) para a tristeza do Pensamento
Categoria: Ensaios
Tradução: Ana Matoso
EAN: 9789897835568
Data de publicação:  Nov. /2015
Nº de páginas: 80
Editora: Relógio D'Água

Sobre o Autor:

"George Steiner é considerado um herdeiro de Sócrates no século XX
Nasceu em Paris, em 1929, partindo com a família para Nova Iorque no início dos anos 40 para escapar ao nazismo. Obteve a sua licenciatura em Letras na Universidade de Chicago em 1948. Em 1950, concluiu o mestrado na Universidade de Harvard, onde recebeu o Bell Prize in American Literature. De 1950 a 1952, foi bolseiro da Fundação Cecil Rhodes na Universidade de Oxford, onde se doutorou. Juntou-se à redação do The Economist, em Londres, sendo depois membro do Institute for Advanced Study, em Princeton. Em 1959, recebeu o prémio O. Henry Short Story. Foi professor de Inglês e Literatura Comparada na Universidade de Genebra de 1974 a 1994 e membro da Churchill College em Cambridge a partir de 1969.
Foi também professor de Literatura Comparada na Universidade de Oxford e professor de Poesia em Harvard. Colaborou na The New Yorker, no The Times Literary Supplement e no The Guardian.
Faleceu em Cambridge, em 2020."

terça-feira, 6 de maio de 2025

Marraquexe






Eugénio Lisboa publicou em Fevereiro de 2017 , um  desassombrado livro de viagens,  Diário  de Viagens Fora da Minha Terra,  que é um magnifico diário , uma obra de extraordinária relevância para todos aqueles que gostam de saber como se construíram os dias de um culto e arguto viajante, em diferentes viagens pelo mundo.
Todo este livro é um guia de inexcedível riqueza. As anotações surgem ora em perscrutador olhar sobre a realidade que se lhe apresenta ora em rica observação, enformados por um conhecimento profundo dos referentes culturais do país. Todas se somam e se agregam num singular e precioso contributo para um diferente e mais completo entendimento de um país a visitar. Eugénio Lisboa desperta-nos o desejo adormecido que há séculos viaja no coração do homem: a descoberta do mundo.
Diário de uma viagem a Marraquexe
As últimas  entradas do livro dizem respeito a uma curta viagem a Marrocos , em Junho de 2013. Do texto introdutório , transcreve-se o seguinte:   "Infelizmente , não guardei desta visita, grandes apontamentos de diário: o calor sufocante e desgastante, próprio daquela época e daquele clima norte-africano mas , talvez também, o deslumbramento que tudo me causou – deixaram-me , quase sempre, à noite, sem grande energia para registos diarísticos. O que aí fica – e é pouquíssimo – nem sequer dá conta , o que é cruelmente injusto, do motivo central da minha visita : proferir , em francês, uma conferência sobre Fernando Pessoa, no centro cultural da embaixada. Conferência que proferi perante uma sala cheia e interessada, ao abrigo de uma organização impecável, a que não faltou uma evocação escultórica, muito imaginativa, do universo doméstico-criativo de Pessoa.

"Marraquexe, 29.06.2013 – Chegámos ontem, ao fim da tarde. Um calor pavoroso obrigou-nos a ficar neste hotel pequeno e charmoso, onde jantámos, conversámos longamente até nos irmos deitar. Consegui, depois de várias tentativas , falar para Portugal, com a Maria Antonieta.
Hoje de manhã, partimos cedo, eu, o Vasco Seruya e a Maria da Graça Queirós, mãe do Vasco, acompanhados por um guia  que o Vasco conseguiu arrancar ao Ministério da Cultura e se revelou um verdadeiro personagem: culto, desenvolto, meticuloso conhecedor, dotado de excelente sentido de humor. Um “bon vivant”, cheio de mundo e de palheta bem afiada.
Vimos o palácio al Bahia, os túmulos saadianos e o assombroso minarete da mesquita Routoubia. No mausoléu, onde estavam os túmulos, foi-nos mostrado aquele em que estava sepultado um dos dois reis que confrontaram D. Sebastião, em Alcácer Quibir. Bem alinhadinho, a olhar para Meca, a ver se lhe dão o prémio, pela façanha. Mas não dão. Acabamos todos, assim parados, a não olhar para coisa nenhuma.
Como encaro a morte deles com a mesma tranquilidade com que encaro a minha – que já não deve demorar muito – fiz um poema, a propósito disto tudo. Para alguma coisa hão-de servir as mortes egrégias.
 
UM TÚMULO EM MARRAQUEXE
 
Agora, a morte está perto:
posso encará-la, de frente.
Neste calor de deserto,
neste mausoléu demente,
olho o túmulo virado
p’rá Meca que já não vê:
nele, bem morto, estirado,
um rei mouro, bouche bée.
Em areias escaldantes,
de um deserto de outrora,
estraçalhou cores brilhantes
de um rei vindo de fora.
Deu-lhe morte provisória,
travando-lhe audácia louca:
pisou-lhe sonhos de glória,
tornando-lhe a vida pouca.
Um jaz aqui, enterrado,
o outro, desaparecido,
das areias devorado,
ficou sempre apetecido!
Olho a morte dos dois,
somo-lhe, em mente, a minha,
tão certa como a dos sóis
que seu destino encaminha.
         Marraquexe, 29.06.2013
(...)
30.06.20213
Marraquexe
A manhã passada na casa e jardim  (sumptuosos) de Ives Saint-Laurent. O rapaz  tinha gosto - e dinheiro. Une beauté. E os cactos  arranjados em objecto de arte , de tirar o fôlego. (...)"
Eugénio Lisboa, in Diário de Viagens Fora da Minha Terra, Opera Omnia Editora, Fevereiro de 2017, pp.115-118

Marraquexe , Marrocos 4K, por Amazing Places on our Planet.
Marraquexe foi fundada no século XI. Por duas vezes, foi  capital de Marrocos e desempenhou o papel mais importante de todas as quatro capitais imperiais na história de Marrocos. A Medina de Marraquexe é considerada Património Mundial da UNESCO.
No vídeo, pode ver alguns locais de Marraquexe  pela seguinte ordem : 
Mesquita Koutoubia (0:01), Portão Bab Agnaou (1:00), Mesquita de la Kasbah (1:08), Túmulos Saadianos (1:23), Palácio Bahia (2:08), Palácio el-Badi (2:40), os Souks (mercados) (3:04), Jardins Menara (3:32), Madraça  (Escola) Ben Youssef (4:00), As muralhas de Bab Jdid (4:21), Hotel Mamounia (4:35), Jardim Majorelle ( Casa e jardins de Yves Saint-Laurent)(4:49), A praça principal da Medina - Jemaa el-Fna (6:12).

segunda-feira, 5 de maio de 2025

Aurora


Aurora

Não direi que me encantas mais do que o silêncio
porque é assim que despertas as aves e os caminhos.
Meus olhos também nascem pelo parto da esperança
porque vivo na imortalidade
renascendo em cada dia.

Deixa-me rever em prece tua face ressurgida
porque tua luz é sempre uma catarse.
Teu olhar estende as linhas do horizonte
e toda a paisagem é então uma ventura
e já não és mais nada
porque desfaleces no seio da beleza.

Repara como sou pequeno diante do teu rosto amanhecido
mas como é grande o que em mim te contempla.
Para renascer basta-me apenas teu momento
tua humilde majestade
tuas pétalas de fogo
e essa corola ardente
porque não peço nada mais que a tua luz
inaugurando o mundo em cada alvorecer
e que nunca me encontres cego ou vencido.
Curitiba, abril de 2004
Manoel de Andrade, in Cantares, Escrituras Editora, São Paulo, 2007, p 61

domingo, 4 de maio de 2025

Ao Domingo Há Música

A música vivia em casa, connosco, todos os dias. Era música variada: portuguesa, estrangeira , ligeira ou clássica. 
Muitos dos cantores da minha infância e da juventude chegaram-me através da minha Mãe. Estava sempre aberta à modernidade. A música era seleccionada, quando a melodia se lhe impunha. E cantava-a , logo que os sons lhe ficavam . Os Beatles acomodaram-se,  lá em casa, a seu convite. Vieram, um a um,  ao longo dos anos. E, com eles, muitos outros foram chegando. Todos se alinhavam para a deleitar, deleitando-nos. 
E a música soltava-se, mais livre e mais forte, ao domingo , nesses grandes passeios de automóvel por este Portugal fora. Cantávamos todos. E éramos muitos. Viagens inesquecíveis de muita aprendizagem. Foi assim que conheci Portugal. De lés a lés, ao sabor dos sons e dos ensinamentos da minha Mãe, enquanto o meu pai conduzia. 
A minha mãe amava a vida e nela impôs a sua marca: um legado de constante assombro e afectos. 
Maria José Vieira de Sousa, in O livro que já escrevi,   Maio de 2018, pp.205-206.

Há datas que se esvaziaram pela invasão tempestiva do  frenesim comercial. O dia da Mãe teima em aparecer como oportunidade para publicitar produtos que qualquer mãe apreciará. Não sei se resulta ou não essa campanha. Por mim, não sou sensível a qualquer desvio que deturpe uma data que tem sentido. O dia da Mãe é uma delas. Não porque homenagear as mães deva ser feito apenas  um dia por ano, mas  porque sendo um dia de veneração maternal,  deve ser assinalado por todos os filhos. É, pois, um dia que se junta a todos os outros dias nesse afecto filial.
Em Portugal, o dia 8 de Dezembro  era dedicado à Mãe. Cresci e fiz-me adulta festejando-o nessa data. Nos tempos mais hodiernos, passou para o primeiro domingo de Maio, um mês de Primavera . 
A saudade que tenho da minha Mãe não finda . Ela foi o maior pilar da minha vida. Era linda , de uma alegria contagiante. Encheu de afecto a minha vida e a dos meus irmãos. Ensinou-nos a crescer e a descobrir  que a Música é um dos assombros da vida.
Neste domingo, vão para ela alguns dos sons que fazem parte de uma longa memória musical.
Obrigada, Mãe.

The Beatles, em Hello, Goodbye, de Novembro de 1967. Quando os Beatles começaram a gravar o que se tornaria o seu terceiro single a ser lançado em 1967, o título provisório era 'Hello, Hello'. O vídeo estreou no Ed Sullivan Show, domingo, 26 de Novembro de 1967. O single ficou em primeiro lugar no Reino Unido e na América nas primeiras três semanas de 1968.
 
The Beatles, em   Don't Let Me Down , uma canção gravada em 1969 , durante as Let It Be sessions. Foi escrita por John Lennon.
Gilbert Bécaud, em Et maintenant (1961) . Música de  Gilbert Bécaud e letra  de Pierre Delanoë.
 
Simon & Garfunkel, em Bridge Over Troubled Water, lançado em 1970. Foi o último álbum de estúdio de Simon & Garfunkel e o seu maior sucesso. A faixa-título ganhou cinco prémios Grammy , enquanto o disco completo ganhou o Álbum do Ano.

Bob Dylan, em Like A Rolling Stone, 1965 .

  The Moody Blues, em  Nights In White Satin (1968).
   
Janis Joplin, em  Me and Bobby McGee ,  canção escrita pelo cantor e compositor americano Kris Kristofferson e originalmente interpretada por Roger Miller. Janis Joplin gravou-a pouco antes de morrer,  a 2 de  Outubro de 1970. A sua versão lançada postumamente liderou a Billboard Hot 100 em 1971, tornando a música o segundo single número 1, lançado postumamente na história das paradas dos EUA, depois de "(Sittin' On) The Dock of the Bay", de Otis  Reding.
.
Otis Redding, em  (Sittin' On) The Dock of The Bay. Quando "(Sittin' On) The Dock of the Bay" foi lançado  em Janeiro de 1968, já Otis  morrera,  num acidente de avião, em 10 de Dezembro de 1967. 
   
E porque é impossível apresentar tudo , termino com   Freddie Mercury & Montserrat Caballé, em Barcelona, uma das grandes canções da minha Mãe.
 

sábado, 3 de maio de 2025

Perguntas para o dia

Perguntas a alguns amigos russos

Que diria Turguenev
ou o suave Tcheckov,
daquele país de neve,
do século dezanove?
Um libertou os escravos
e o outro consolou
os aflitos e os agravos,
a quem tudo ensinou.
Que diriam estes russos
destes seus irmãos de hoje,
mais parecidos com ursos,
atacando quem não foge?
E o autor de Guerra e Paz
que diria desta guerra,
que somente se compraz
em jogos de papa-terra?
E o grande Sologub,
escafandrista da loucura,
explorando o reino sube,
da cabeça mais obscura?
A todos estes amigos
de uma Rússia já passada,
pergunto que mais castigos,
que mais fúria desvairada,
aos justos está reservada?
       03.03.2022
Eugénio Lisboa, 
in Poemas em tempo de guerra suja, Guerra & Paz Editores, Setembro de 2022,  p 22

sexta-feira, 2 de maio de 2025

Viajar pela Venezuela

O mundo é um imenso livro do qual aqueles que nunca saem de casa lêem apenas uma página.
Agostinho de Hipona
 
  
"Venezuela em 4K - Incredible Scenes & Hidden Gems", 4K filmes, por Adnan

A Venezuela tem paisagens incríveis e lugares deslumbrantes que valem uma visita. Assim nos informa o autor deste filme:
"Neste vídeo, vou mostrar algumas jóias escondidas que descobrimos enquanto explorávamos a Venezuela. Visitei muitos dos locais mais impressionantes, incluindo: • Salto Ángel (Salto Ángel) • Parque Nacional Canaima • Arquipélago Los Roques • Parque Nacional Morrocoy • Parque Nacional Coro • Ilha Margarita • Delta do Orinoco • Cidade de Caracas • Cidade de Chichiriviche • Ilha Coche • Colónia Tovar • Monte Roraima • Parque Nacional Sierra Nevada • Porto Colômbia, Aragua • Las Salinas de Cumaraguas • Lago Valência • Baía da Praia Tuja, Aragua • Sierra De La Culata Cordilheira • Los Nevados, Mérida e muito mais!"

quinta-feira, 1 de maio de 2025

Viva o 1º de Maio

" O 1º de Maio é o Dia do Trabalhador, data que tem origem na primeira manifestação de 500 mil trabalhadores nas ruas de Chicago, e numa greve geral em todos os Estados Unidos, em 1886. Cinco anos depois, em 1891, o Congresso Operário Internacional convocou, em França, uma manifestação anual, em homenagem às lutas sindicais de Chicago. A primeira acabou com 10 mortos, em consequência da intervenção policial. São os factos históricos que transformaram 1 de Maio no Dia do Trabalhador. Até 1886, os trabalhadores jamais pensaram exigir os seus direitos, apenas trabalhavam." Apenas em 1919, o governo francês diminuiu a carga horária de trabalho para as 8 horas  e proclamou o dia 1º de Maio como feriado nacional.
Multidão durante as comemorações do dia 1º de Maio de 1897
no antigo Largo de Camões,actual D. João da Câmara no Rossio,
 em Lisboa. Foto do blogue "Histórias com História"
Comemoração do 1º de Maio de 1919

Em Portugal, o dia começou a ser assinalado logo em 1890. Todavia, as comemorações cessaram com o início do regime do Estado Novo, embora se tenham registado algumas manifestações como a dos trabalhadores dos campos do Alentejo,em 1962 .
Com a Revolução dos Cravos de 25 de Abril de 1974, o 1º de Maio regressou em plenitude, como uma grande manifestação laboral. É a partir dessa data, que se inicia um processo de dignificação da classe trabalhadora portuguesa e se institui essa data, como feriado nacional.

A Literatura e a Música , como representação de uma visão de mundo, sempre reflectiram as questões relacionadas com o Homem nas suas mais variadas vertentes e, por tal, a condição social dos trabalhadores e os seus anseios e lutas, ao longo dos anos.
Seleccionamos dois grandes cantores , um português ,outro brasileiro , que demonstram a validade destas afirmações

Zeca Afonso, em De não saber o que me espera, do Álbum " Fura Fura", 1979

De não saber o que me espera
Tirei a sorte à minha guerra
Recolhi sombras onde vira
Luzes de orvalho ao meio-dia

Vítima de só haver vaga
 Entre uma mó e uma espada
 Mas que maneira bicuda
 De ir à guerra sem ajuda 

Viemos pelo sol nascente
 Vingámos a madrugada 
Mas não encontrámos nada 
Sol e água sol e água 

De linhas tortas havia 
Um pouco de maresia 
Mas quem vencer esta meta
Que diga se a linha é reta
Zeca Afonso
  
Chico Buarque, em Construção, do Álbum Construção, 1971.