terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Viajar por um dos países mais bonitos da América Central

Viajar é desaparecer, uma incursão solitária por uma estreita linha geográfica até ao esquecimento. 
                  Paul Theroux, O Velho Expresso da Patagónia
"A Costa Rica é um dos países mais bonitos da América Central. Este filme da Scenic Relaxation em 4k apresenta as paisagens e a vida selvagem da Costa Rica. Da abundância de animais na floresta tropical às praias tropicais, a "Pura Vida" da Costa Rica está à espera de ser vivida. Descubra qual é o seu lugar favorito na Costa Rica?"
 0:00 - Amazing Costa Rica
 8:48 - Coastline & Beaches 
13:20 - Animals of Costa Rica 
18:10 - Volcanoes
 22:21 - Cities 
 23:36 - Waterfalls & Rivers
 28:37 - Rainforests & Nature
 33:00 - Costal Towns & Luxury Real Estate 
 36:29 - "Pura Vida" Costa Rica
 39:56 - Costa Rica's Landscapes
 58:17 - Outro

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

O carro, a jardineira , a calçada

O carro, a jardineira , a calçada
por Carlos Drummond de Andrade
“No momento, a situação nas calçadas de Copacabana está mais ou menos refletida neste diálogo de mil vozes:
— Ei, tira essa jardineira daí.
— Pra botar cano no lugar dela?
— Tira também o carro, ué.
— Pra botar aonde? Noutra calçada?
— Melhor deixar a jardineira e o carro, cada um na sua fatia de calçada.
— E o pedestre?
— Esse já foi tirado há muito tempo.
— E por que não o carro, a jardineira e o pedestre, com lugares marcados?
— Precisa deixar espaço pros carrinhos de bebê. Bebê ainda não é pedestre.
— Mas babá é.
— Então vamos repartir a calçada entre o carro, a jardineira, o pedestre, o bebê e a babá.
— Deixando uma área pras cadeiras dos bares de praia, no calçadão.
— Assim não dá. Só se houver revezamento.
— E meu pequinês, onde é que meu pequinês vai parar quando tiver necessidade?
— Afinal de contas, a calçada é ou não é do povo?
— Não. É dos bacanas que moram nos edifícios e não deixam a gente estacionar na calçada.
— Mas o cano também é dos bacanas.
— Só que de outros bacanas que não moram nos edifícios daquela calçada.
— Então é uma guerra entre bacanas.
— Eu não sou bacana. Sou povo e estou pagando meu carro financiado. Onde é que eu vou estacionar?
— Em cima das flores.
— O senhor parece que não gosta de flor. Prefere gasolina.
— Ora, meu amigo, quem gosta de flor plante elas no vaso, dentro de casa. Eu também gosto de música, mas não vou curtir meu som na calçada.
— A jardineira é medonha, o cano é funcional.
— Sem essa. O cano polui, e toda planta é legal.
— Bobagem, a Celurb apreender as jardineiras. Os próprios canos liquidam com elas.
— Se fosse só com as jardineiras. Um deles, em cima do passeio, mandou minha tia para o hospital.
— Eu não digo que calçada é muito perigoso? O mais seguro é não sair de casa, sob pretexto algum.
— É, mas cano na calçada tem uma vantagem. Não deixa bicicleta atacar. Bicicleta é fogo: olha só esta cicatriz na minha canela.
— Não estou interessado na sua canela. Quero saber é quem vence esta parada: a maquina ou o homem?
— A máquina também faz parte do homem, é prolongamento dele, do corpo dele. O homem está dos dois lados, brigando, chateando-se.
— Não terá um terceiro lado, o lado da paz?
— Tem sim, vovó. Tem a Praça da Paz, que fica em Ipanema.
— Engraçadinho. Vê lá se tem paz na Praça da Paz. Tem é cano.
— Viu? Foi a conta de fundir o Estado do Rio com o Rio, e carros de Barra do Piraí vem atochar nossas calçadas. Só carioca é que não tem direito.
— Separatista! As calçadas também devem ser fundidas!
— Ah, meu Deus! Eles estão roubando nossas jardineiras! Essas folhagens! Nossos mini espaços verdes!
— Numa hora dessas, com o rapa levando as jardineiras, médico nenhum é bobo de aparecer!
— As jardineiras estão impedindo o progresso do País!
— Amanhã plantarão bosques na calçada e botarão leões e tigres, jacarés e cascavéis lá dentro, pra devorar a gente!
— Sempre achei que esse negócio de flor na calçada é sabotagem contra a indústria automobilística nacional!
— Perdão, mas alecrim e espada-de-são-jorge são muito mais nacionais do que os automóveis fabricados por aí!
— Pelo visto, a confusão é geral.
— A confusão já era. Isto é a super confusão.
— Qual, o Rio de Janeiro não existe.
— Agora é que você percebeu isso? “
Carlos Drummond de Andrade, in Boca de luar”, Editora Record, Rio de Janeiro (RJ), p 37

domingo, 19 de janeiro de 2025

Ao Domingo Há Música

 

PERDAS
 
Com complacência, falamos
das perdas que fomos tendo,
com os anos: lamentamos
todos que fomos perdendo.
Foram perdas, é um facto.
Mas quando vemos a guerra
e a dimensão das perdas
que ela, à toa, enterra,
de mistura com a merda,
é então que percebemos
como é, por fim, tão nada
tudo aquilo que perdemos,
nesta Terra cancelada!                
                      09.04.2022
Eugénio Lisboa, Poemas em Tempo de Guerra

Os poetas , dizem, são os sábios do mundo. Sintetizam em poucas palavras tudo aquilo que não somos capazes de dizer. Palavras duras, por vezes. Que ferem, que cortam , que dissecam e vão ao âmago da essência que a compõem. E, quando o desejam,  tecem,  também, palavras belas que nos aquecem e iluminam.
Neste tempo conturbado, em que a dilacerante  palavra Perdas domina, tentamos procurar, para lá do que foi, o que tanto desejamos nesta Terra por demais cancelada.
A Música  faz parceria com a poesia. Procurar nela algum alento é talvez  a possibilidade imediata . Há vozes que enchem qualquer momento . A sonoridade que enformam é tão ampla e harmoniosa que nos toma sem resistência.

Eva Buchmann, em My Heart sings. A cantora e o pianista americano de Jazz Jason Moran juntaram-se à Frankfurt Radio Big Band, no Deutsches Jazz festival Frankfurt 2024, para interpretarem este  original de Duke Ellington. O registo foi realizado em 26 de Outubro de 2024, em Frankfurt.
 
Kelela, em Far Away (Official Video).
 

sábado, 18 de janeiro de 2025

Ter lá estado e ter visto


A Europa ficara em cacos
por Eugénio Lisboa
"Acabávamos de sair de uma guerra (lá fora, é certo, mas acompanhada, de perto, “cá dentro”).  Nesse contexto, tocaram‑me, profundamente, dois livros, dos tais que meu pai me trouxe quase à socapa: um deles, Arco‑Iris, de Wanda Wassilewska, sobre a invasão da URSS pelas tropas de Hitler. O livro – um romance – foi galardoado com o “Prémio Staline” de 1943,o que não o impediu de ser traduzido e publicado no Portugal de Salazar, pela “Livraria Tavares Martins”, do Porto, em 1945. E de ser um extraordinário êxito de vendas nos Estados Unidos da América. Wanda Wassilewska era uma jornalista e escritora polaca, nascida em Cracóvia, em 1905, e filha de um ilustre filólogo polaco. Depois de um brilhante curso universitário, dedicou‑se, por algum tempo, ao ensino, mas o jornalismo atraiu‑a definitivamente. Quando os alemães invadiram a Polónia, Wassilewska atravessou o seu país, refugiando‑se na União Soviética. E foi aí, como jornalista, que acompanhou os exércitos russos, como correspondente de guerra. Dessa experiência, nasceu Arco‑Iris, poderoso fresco da tragédia horrorosa que é a guerra e que foi aquela guerra. O livro tem cenas quase intoleráveis, não fugindo a nenhum dos horrores que o homem é capaz de congeminar para lançar os outros homens no inferno. Não sei se terá ficado como um dos grandes “romances de guerra”, como, por exemplo, o Nada de Novo na Frente Ocidental, de Erich Maria Remarque ou o Capitaine Conan, de Roger Vercel, ambos relativos à 1.ª Guerra Mundial. Em mim, o impacto foi fundo e durável. Eis outro livro, que sobreviveu a todos os baldões da sorte, a todas as viagens e tumultos da vida. Tenho‑o aqui, à minha frente, no momento em que escrevo estas linhas. Copio‑vos uma breve passagem, para que fique convosco, qual medalha que fica para a vida:
“No dia do combate em que foi morto nevara abundantemente, um desses nevões que paralisam e petrificam instantaneamente os cadáveres. Nesse dia nada teriam podido arrancar aos mortos. E contudo, tinham‑lhe tirado tudo: o capote, as botas, as calças e até as peúgas; apenas lhe deixaram o dólman e as cuecas azuis, que se tinham fundido de tal maneira com o corpo que dir‑se‑ia serem manchas de giz azul sobre madeira negra; contrastando com a face enegrecida, os pés tinham‑se mantido brancos, duma brancura argilosa, pouco natural.”
Isto não é imaginação de romancista: ninguém é capaz de imaginar estas coisas. É o resultado de se ter estado lá e de se ter visto."

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Me alugo para sonhar

Me alugo para sonhar
por Gabriel Garcia Marquez
"Às nove, enquanto tomávamos o café da manhã no terraço do Habana Riviera, um tremendo golpe de mar em pleno sol levantou vários automóveis que passavam pela avenida à beira-mar, ou que estavam estacionados na calçada, e um deles ficou incrustado num flanco do hotel. Foi como uma explosão de dinamite que semeou pânico nos vinte andares do edifício e fez virar pó a vidraça do vestíbulo. Os numerosos turistas que se encontravam na sala de espera foram lançados pelos ares junto com os móveis, e alguns ficaram feridos pelo granizo de vidro. Deve ter sido uma vassourada colossal do mar, pois entre a muralha da avenida à beira-mar e o hotel há uma ampla avenida de ida e volta, de maneira que a onda saltou por cima dela e ainda teve força suficiente para esmigalhar a vidraça.
Os alegres voluntários cubanos, com a ajuda dos bombeiros, recolheram os destroços em menos de seis horas, trancaram a porta que dava para o mar e habilitaram outra, e tudo tornou a ficar em ordem. Pela manhã, ninguém ainda havia cuidado do automóvel pregado no muro, pois pensava-se que era um dos estacionados na calçada. Mas quando o reboque tirou-o da parede descobriram o cadáver de uma mulher preso no assento do motorista pelo cinto de segurança. O golpe foi tão brutal que não sobrou nenhum osso inteiro. Tinha o rosto desfigurado, os sapatos descosturados e a roupa em farrapos, e um anel de ouro em forma de serpente com olhos de esmeraldas. A polícia afirmou que era a governanta dos novos embaixadores de Portugal. Assim era: tinha chegado com eles a Havana quinze dias antes, e havia saído naquela manhã para fazer compras dirigindo um automóvel novo. Seu nome não me disse nada quando li a notícia nos jornais, mas fiquei intrigado por causa do anel em forma de serpente e com olhos de esmeraldas. Não consegui saber, porém, em que dedo o usava.
Era um detalhe decisivo, porque temi que fosse uma mulher inesquecível cujo verdadeiro nome não soube jamais, que usava um anel igual no indicador direito, o que era mais insólito ainda naquele tempo. Eu a havia conhecido 34 anos antes em Viena, comendo salsichas com batatas cozidas e bebendo cerveja de barril numa taberna de estudantes latinos. Eu havia chegado de Roma naquela manhã, e ainda recordo minha impressão imediata por seu imenso peito de soprano, suas lânguidas caudas de raposa na gola do casaco e aquele anel egípcio em forma de serpente. Achei que era a única austríaca ao longo daquela mesona de madeira, pelo castelhano primário que falava sem respirar com sotaque de bazar de quinquilharia. Mas não, havia nascido na Colômbia e tinha ido para a Áustria entre as duas guerras, quase menina, estudar música e canto. Naquele momento andava pelos trinta anos mal vividos, pois nunca deve ter sido bela e havia começado a envelhecer antes do tempo. Em compensação, era um ser humano encantador. E também um dos mais temíveis.
Viena ainda era uma antiga cidade imperial, cuja posição geográfica entre os dois mundos irreconciliáveis deixados pela Segunda Guerra Mundial havia terminado de convertê-la num paraíso do mercado negro e da espionagem mundial. Eu não teria conseguido imaginar um ambiente mais adequado para aquela compatriota fugitiva que continuava comendo na taberna de estudantes da esquina por pura fidelidade às suas origens, pois tinha recursos de sobra para comprá-la à vista, com clientela e tudo. Nunca disse o seu verdadeiro nome, pois sempre a conhecemos com o trava-língua germânico que os estudantes latinos de Viena inventaram para ela: Frau Frida. Eu tinha acabado de ser apresentado a ela quando cometi a impertinência feliz de perguntar como havia feito para implantar-se de tal modo naquele mundo tão distante e diferente de seus penhascos de ventos do Quindío, e ela me respondeu de chofre:
— Eu me alugo para sonhar.
Na realidade, era seu único ofício. Havia sido a terceira dos onze filhos de um próspero comerciante da antiga Caldas, e desde que aprendeu a falar instalou na casa o bom costume de contar os sonhos em jejum, que é a hora em que se conservam mais puras suas virtudes premonitórias. Aos sete anos sonhou que um de seus irmãos era arrastado por uma correnteza. A mãe, por pura superstição religiosa, proibiu o menino de fazer aquilo que ele mais gostava, tomar banho no riacho. Mas Frau Frida já tinha um sistema próprio de vaticínios.
— O que esse sonho significa — disse — não é que ele vai se afogar, mas que não deve comer doces.
A interpretação parecia uma infâmia, quando era relacionada a um menino de cinco anos que não podia viver sem suas guloseimas dominicais. A mãe, já convencida das virtudes adivinhatórias da filha, fez a advertência ser respeitada com mão de ferro. Mas ao seu primeiro descuido o menino engasgou com uma bolinha de caramelo que comia escondido, e não foi possível salvá-lo.
Frau Frida não havia pensado que aquela faculdade pudesse ser um ofício, até que a vida agarrou-a pelo pescoço nos cruéis invernos de Viena. Então, bateu para pedir emprego na primeira casa onde achou que viveria com prazer, e quando lhe perguntaram o que sabia fazer, ela disse apenas a verdade: "Sonho". Só precisou de uma breve explicação à dona da casa para ser aceita, com um salário que dava para as despesas miúdas, mas com um bom quarto e três refeições por dia. Principalmente o café da manhã, que era o momento em que a família sentava-se para conhecer o destino imediato de cada um de seus membros: o pai, que era um financista refinado; a mãe, uma mulher alegre e apaixonada por música romântica de câmara9 e duas crianças de onze e nove anos. Todos eram religiosos, e portanto propensos às superstições arcaicas, e receberam maravilhados Frau Frida com o compromisso único de decifrar o destino diário da família através dos sonhos.
Fez isso bem e por muito tempo, principalmente nos anos da guerra, quando a realidade foi mais sinistra que os pesadelos. Só ela podia decidir na hora do café da manhã o que cada um deveria fazer naquele dia, e como deveria fazê-lo, até que seus prognósticos acabaram sendo a única autoridade na casa. Seu domínio sobre a família foi absoluto: até mesmo o suspiro mais tênue dependia da sua ordem. Naqueles dias em que estive em Viena o dono da casa havia acabado de morrer, e tivera a elegância de legar a ela uma parte de suas rendas, com a única condição de que continuasse sonhando para a família até o fim de seus sonhos.
Fiquei em Viena mais de um mês, compartilhando os apertos dos estudantes, enquanto esperava um dinheiro que não chegou nunca. As visitas imprevistas e generosas de Frau Frida na taberna eram então como festas em nosso regime de penúrias. Numa daquelas noites, na euforia da cerveja, sussurrou ao meu ouvido com uma convicção que não permitia nenhuma perda de tempo.
— Vim só para te dizer que ontem à noite sonhei com você — disse ela. — Você tem que ir embora já e não voltar a Viena nos próximos cinco anos.
Sua convicção era tão real que naquela mesma noite ela me embarcou no último trem para Roma. Eu fiquei tão sugestionado que desde então me considerei sobrevivente de um desastre que nunca conheci. Ainda não voltei a Viena.
Antes do desastre de Havana havia visto Frau Frida em Barcelona, de maneira tão inesperada e casual que me pareceu misteriosa. Foi no dia em que Pablo Neruda pisou terra espanhola pela primeira vez desde a Guerra Civil, na escala de uma lenta viagem pelo mar até Valparaíso. Passou conosco uma manhã de caça nas livrarias de livros usados, e na Porter comprou um livro antigo, desencadernado e murcho, pelo qual pagou o que seria seu salário de dois meses no consulado de Rangum. Movia-se através das pessoas como um elefante inválido, com um interesse infantil pelo mecanismo interno de cada coisa, pois o mundo parecia, para ele, um imenso brinquedo de corda com o qual se inventava a vida.
Não conheci ninguém mais parecido à idéia que a gente tem de um papa renascentista: glutão e refinado. Mesmo contra a sua vontade, sempre presidia a mesa. Matilde, sua esposa, punha nele um babador que mais parecia de barbearia que de restaurante, mas era a única maneira de impedir que se banhasse nos molhos. Aquele dia, no Carvalleiras foi exemplar. Comeu três lagostas inteiras, esquartejando-as com mestria de cirurgião, e ao mesmo tempo devorava com os olhos os pratos de todos, e ia provando um pouco de cada um, com um deleite que contagiava o desejo de comer: as amêijoas da Galícia, os perceves do Cantábrico, os lagostins de Alicante, as espardenyas da Costa Brava. Enquanto isso, como os franceses, só falava de outras delícias da cozinha, e em especial dos mariscos pré-históricos do Chile que levava no coração. De repente parou de comer, afinou suas antenas de siri, e me disse em voz muito baixa:
— Tem alguém atrás de mim que não pára de me olhar.
Espiei por cima de seu ombro, e era verdade. Às suas costas, três mesas atrás, uma mulher impávida com um antiquado chapéu de feltro e um cachecol roxo, mastigava devagar com os olhos fixos nele. Eu a reconheci no ato. Estava envelhecida e gorda, mas era ela, com o anel de serpente no dedo indicador.
Viajava de Nápoles no mesmo barco que o casal Neruda, mas não tinham se visto a bordo. Convidamos para mulher a tomar café em nossa mesa, e a induzi a falar de seus sonhos para surpreender o poeta. Ele não deu confiança, pois insistiu desde o princípio que não acreditava em adivinhações de sonhos.
— Só a poesia é clarividente — disse.
Depois do almoço, no inevitável passeio pelas Ramblas, fiquei para trás de propósito, com Frau Frida, para poder refrescar nossas lembranças sem ouvidos alheios. Ela me contou que havia vendido suas propriedades na Áustria, e vivia aposentada no Porto, Portugal, numa casa que descreveu como sendo um castelo falso sobre uma colina de onde se via todo o oceano até as Américas. Mesmo sem que ela tenha dito, em sua conversa ficava claro que de sonho em sonho havia terminado por se apoderar da fortuna de seus inefáveis patrões de Viena. Não me impressionou, porém, pois sempre havia pensado que seus sonhos não eram nada além de uma artimanha para viver. E disse isso a ela.
Frau Frida soltou uma gargalhada irresistível. "Você continua o atrevido de sempre", disse. E não falou mais, porque o resto do grupo havia parado para esperar que Neruda acabasse de conversar em gíria chilena com os papagaios da Rambla dos Pássaros. Quando retomamos a conversa, Frau Frida havia mudado de assunto.
— Aliás — disse ela —, você já pode voltar para Viena.
Só então percebi que treze anos haviam transcorrido desde que nos conhecemos.
— Mesmo que seus sonhos sejam falsos, jamais voltarei — disse a ela. — Por via das dúvidas.
Às três, nos separamos dela para acompanhar Neruda à sua sesta sagrada. Foi feita em nossa casa, depois de uns preparativos solenes que de certa forma recordavam a cerimônia do chá no Japão. Era preciso abrir umas janelas e fechar outras para que houvesse o grau de calor exato e uma certa classe de luz em certa direção, e um silêncio absoluto. Neruda dormiu no ato, e despertou dez minutos depois, como as crianças, quando menos esperávamos. Apareceu na sala restaurado e com o monograma do travesseiro impresso na face.
— Sonhei com essa mulher que sonha — disse.
Matilde quis que ele contasse o sonho.
— Sonhei que ela estava sonhando comigo disse ele.
— Isso é coisa de Borges — comentei.
Ele me olhou desencantado.
— Está escrito?
— Se não estiver, ele vai escrever algum dia — respondi. — Será um de seus labirintos.
Assim que subiu a bordo, às seis da tarde, Neruda despediu-se de nós, sentou-se em uma mesa afastada, e começou a escrever versos fluidos com a caneta de tinta verde com que desenhava flores e peixes e pássaros nas dedicatórias de seus livros. À primeira advertência do navio buscamos Frau Frida, e enfim a encontramos no convés de turistas quando já íamos embora sem nos despedir. Também ela acabava de despertar da sesta.
— Sonhei com o poeta — nos disse.
Assombrado, pedi que me contasse o sonho.
— Sonhei que ele estava sonhando comigo disse, e minha cara de assombro a espantou.
— O que você quer? Às vezes, entre tantos sonhos, infiltra-se algum que não tem nada a ver com a vida real.
Não tornei a vê-la nem a me perguntar por ela até que soube do anel em forma de cobra da mulher que morreu no naufrágio do Hotel Riviera. Portanto não resisti à tentação de fazer algumas perguntas ao embaixador português quando coincidimos, meses depois, em uma recepção diplomática. O embaixador me falou dela com um grande entusiasmo e uma enorme admiração. "O senhor não imagina como ela era extraordinária", me disse. "O senhor não resistiria à tentação de escrever um conto sobre ela". E prosseguiu no mesmo tom, com detalhes surpreendentes, mas sem uma pista que me permitisse uma conclusão final.
— Em termos concretos — perguntei no fim —, o que ela fazia?
— Nada — respondeu ele, com certo desencanto. — Sonhava."
                                           Março de 1980
Gabriel Garcia Marquez, in Doze contos peregrinos, Editora Record, Brasil, 1992

Sobre o Livro:
"Doze contos peregrinos são histórias de latino-americanos na Europa, peregrinos que não deixam de sonhar com a terra natal. O mestre do realismo fantástico Gabriel García Marquez usa como pano de fundo Barcelona, Genebra, Roma e Paris para retratar a solidão através de histórias brilhantes de amor, poder e morte. Do homem que luta pela canonização de sua filha durante cinco papados à prostituta que decide acertar todos os detalhes de seu funeral, todos os contos são dotados da sensibilidade e do humor que são as marcas do grande mestre.
Me alugo para sonhar é um dos contos que melhor exemplifica o realismo mágico desta colectânea de contos. Aqui, García Márquez  apresenta uma mulher que literalmente vive de sonhar para os outros. A premissa, já absurdamente criativa, desenrola-se  com a naturalidade característica do autor, fazendo com que o leitor aceite o impossível sem qualquer questionamento. É um conto que fala sobre destino, sobre o poder dos sonhos e sobre como, às vezes, o inexplicável pode moldar  as nossas vidas de maneiras surpreendentes."
Sobre o Autor,   Gabriel Garcia Marquez:
Há alguns anos, , a propósito do seu 80 aniversário , registei  o seguinte :
Nunca mais esquecerei o deslumbramento, o encanto, a vontade de virar páginas de cada livro que tinha a assinatura de Gabriel Garcia Marquez. O fantástico, o onírico atingiam outras dimensões e a palavra escrita entregava-se-me em descoberta assombradora de uma nova arte poética. Era a poesia feita prosa, ou antes, era a inovação criadora que transformava um romance num hino luminoso de um mundo povoado por seres imperfeitos mas tão humanos quanto de universais. Uma galeria de gente habitando um Macondo fictício que reproduzia todas as verdades, todos os conflitos, todos os prodigios e toda a (im)perfeição humana numa nova linguagem que endeusava a escrita.
Descobrir Gabriel Garcia Márquez foi verificar que nada ainda tinha sido feito, que, com ele, nascia uma mágica e diferente narratividade literária que passava a dar visibilidade à sombra do invisível que povoava a memória de todos os tempos. E foi essa universalidade que faz dele o maior e mais lido escritor de sempre.
Alguns dados biográficos:
"Gabriel García Márquez nasceu em Aracataca, Colômbia, no dia 6 de Março de 1927. Era filho de Gabriel Elísio García e de Luisa Santiaga Márquez, que tiveram onze filhos. Gabriel passou os primeiros anos na casa dos avós maternos em Aracataca, enquanto a família se mudou para Barranquilla. Estudou no Liceu Nacional de Zipaquirá em Barranquilla.
Com 17 anos, decidiu se tornar escritor, segundo ele, após ler A Metamorfose de Franz Kafka descobriu que o alemão contava as coisas da mesma maneira que sua avó.
Em 1947 mudou-se para Bogotá para estudar Direito e Ciência Política na Universidade Nacional da Colômbia, porém não concluiu o curso.
Acusado de colaborar com a guerrilha colombiana, García Márquez exilou-se no México e nessa época escreveu aquele que seria seu romance mais popular e a sua obra-prima, “Cem Anos de Solidão” (1967).
O livro é um épico sobre uma família fictícia, Buendia, na imaginária cidade de Macondo. Nele, o escritor mescla lembranças pessoais com acontecimentos extraordinários.
Gabriel García Márquez faleceu na Cidade do México, no dia 17 de Abril de 2014."
Obras de Gabriel García Márquez
A Terceira Resignação (1947)
A Outra Costela da Morte (1948)
Amargura para Três Sonâmbulos (1949)
Diálogo do Espelho (1949)
A Mulher que Chegava às Seis (1950)
Nabo, o Negro que Fez Esperar os Anjos (1951)
Alguém Desarruma estas Rosas (1952)
Um Dia Depois do Sábado (1955)
A Revoada (O Enterro do Diabo) (1955)
Relato de Um Náufrago (1955)
Ninguém Escreve ao Coronel (1958)
Os Funerais da Mamãe Grande (1962
A Má Hora: o Veneno da Madrugada (1962)
Cem Anos de Solidão (1967)
Como Contar um Conto (1947-1972)
Todos os Contos (1975)
O Outono do Patriarca (1975)
Crônicas de Uma Morte Anunciada (1982)
O Amor nos Tempos do Cólera (1985)
Doze Contos Peregrinos (1992)
Do Amor e Outros Demônios (1994)
O Rastro do teu Sangue na Neve (1981)
O Verão Feliz da Senhora Forbes (1982)
A Aventura de Miguel Littin, Clandestino no Chile (1986)
O General em Seu Labirinto (1989)
Notícia de um Sequestro (1997)
Viver Para Contar (autobiografia. 2002)
Memórias de Minhas Putas Tristes (2004)
Eu não Venho Fazer um Discurso (2010)

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Viajar pela Patagónia

Partir para um sítio é na maioria das vezes ir ao encontro dos lugares-comuns associados desde sempre ao destino eleito.(...) Entre o desejo de encontrar os lugares-comuns que habitam o nosso espírito e o de visitar uma terra absolutamente virgem existe um meio-termo.
Michel Onfray,  Teoria da Viagem – uma poética da geografia

  

Os fiordes da Patagónia são algumas das paisagens mais remotas, intocadas e imaculadas da Terra. Aproveite este filme de relaxamento panorâmico em 4K, com os fiordes da Patagónia do Chile. De glaciares  dramáticos a enseadas isoladas que poucas pessoas viram, os fiordes da Patagónia são  um dos lugares mais deslumbrantes da Terra. Este vídeo foi completamente filmado pelo incrivelmente talentoso ‪ViktorPosnov‬ que navegou de Punta Arenas até à Tierra del Fuego. Fez este vídeo magnífico para a Scenic Relaxation Film

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

O Credo de Um Poeta

 

O Credo de um Poeta
por Jorge Luís Borges
"O meu objectivo era falar sobre o credo do poeta, mas, olhando para mim, descobri que tenho um tipo de credo vacilante , nada mais. Esse credo talvez possa ser útil para mim, mas dificilmente o será  para os outros.
Com efeito, penso em todas as teorias poéticas como meras ferramentas para a escrita de  um poema. Suponho que devia haver  tantos credos, tantas religiões, como há poetas. Embora no fim  diga qualquer coisa do que gosto e do que não gosto no que se refere  à escrita de poesia, acho que vou começar por algumas recordações não só de escritor, mas também de leitor.
Penso-me essencialmente como leitor. Como sabem, aventurei-me na escrita; mas penso que as coisas  que li  foram muito mais importantes do  queas  que escrevi. Porque lemos aquilo de que gostamos –mas não escrevemos o que gostaríamos  de escrever, apenas o que podemos  escrever.
(…)
Encontrei alegria em muitas coisas –  nadar, escrever,  contemplar um nascer do sol ou um pôr do sol, apaixonar—me etc.. Mas, de certo modo, o facto central de minha vida tem sido  a existência das palavras e a possibilidade de as  tecer em poesia. A princípio, por  certo,  era apenas um leitor. Mas penso  que a felicidade de um leitor vai além da de um escritor, pois o leitor não precisa de sentir a perturbação, a ansiedade: anda simplesmente à  procura da felicidade. E a felicidade, quando se é leitor, é frequente. Por isso , antes de passar a falar sobre minha produção literária, gostaria de dizer umas palavras a respeito dos livros que foram importantes para mim. Sei que essa lista abundará em omissões, tal como todas as listas. Com efeito , o perigo de fazer uma lista é que as omissões se destacam e as pessoas nos acham insensíveis .
Falei há momentos das Mil e um noites de Burton. Quando penso nas Mil e uma noites não penso naqueles vários volumes, pesados e pedantes (ou melhor , formais) volumes ,mas no que podemos  chamar as verdadeiras Mil e uma noites – as Mil e uma noites de Galland e, talvez, de Edward Willliam Lane.”
Jorge Luis Borges , in  Este Ofício de Poeta, Relógio D'Água, Lisboa 2017, p. 75, 77, 78

Nota: «Este Ofício de Poeta é uma introdução à literatura, ao gosto e ao próprio Borges. No contexto das suas obras completas, só tem comparação com Borges, oral (1979), que contém as cinco palestras — de âmbito um tanto mais estreito do que estas — que ele proferiu em maio-junho de 1978 na Universidade de Belgrano, em Buenos Aires. Estas Palestras Norton, anteriores em uma década a Borges, oral, são um tesouro de riquezas literárias que nos chegam sob formas ensaísticas, despretensiosas, muitas vezes irónicas, sempre estimulantes.»

«O Credo de um poeta» é desenvolvido na perspectiva de  leitor e  não  a  de   escritor. Um leitor atento , profundamente empenhado em aproveitar  e encontrar  a felicidade naquilo que vai lendo."

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Rodrigo Leão, "O rapaz da montanha"

 
RODRIGO LEÃO, em   O RAPAZ DA MONTANHA.
“O Rapaz da Montanha” conta a história de um rapaz que escala uma montanha – talvez a da vida – em busca de algo novo que o futuro promete. É o primeiro single do novo álbum de Rodrigo Leão, editado em 2025 pela Galileo. Rodrigo Leão entende esta canção – e o seu novo álbum- como um novo capítulo na aventura que gosta de denominar “Os Portugueses”, canções em que vai ensaiando diferentes aproximações à nossa língua. E conta que “há uma toada diferente, os arranjos trazem novidades, a inspiração vem de outro lugar”.
Neste novo registo, o compositor explora a música que o marcou no início da adolescência, na primeira metade da década de 70, quando artistas como José Mário Branco, José Afonso ou Sérgio Godinho davam voz a uma ideia de liberdade que estava ainda por cumprir.
Com música de Rodrigo Leão e letra de Ana Carolina Costa, o tema conta com o guitarrista José Peixoto como convidado especial e com a voz principal de Ana Vieira.