segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Tempo irrecuperável

Tempo irrecuperável
por Irene Lisboa
“Hoje, em que tudo desapareceu da sua vida, e se vê aleijada, e não pode ter a mínima confiança em si própria, nem sequer nos outros, ainda se acha capaz de sorrir, que é o que está fazendo, às loucuras da sua incipiente imaginação.
A imaginação a consumiu e a perdeu, tem disso a certeza, a desencaminhou, talvez.
No entanto, ela sabe que escrevendo isto se contradiz interiormente. Que pensa o contrário em muitas outras ocasiões.
Mas que somos nós mais que uma contradição permanente?
A verdade espreita-nos, ora do seu avesso, ora do seu direito. A verdade, ai, ai...
Enfim, a imaginação ora nos socorre, ora nos desequilibra.
O doce fantasma de Maria Antónia, que tanto a excitava, também lhe tornaria patente, e amarga decerto, a inferioridade da sua posição.
Era filha de pais incógnitos, a velha lho dava a entender sempre que podia; não tinha direitos; os seus antigos direitos aquelas estranhas lhos tinham usurpado. A dona Felismina, que podia fazer a dona Felismina, tão acabadinha e sem vontade própria? Ela não tinha nada, já, nem ninguém.
* * *
Ia-se abeirando o Entrudo.
O Entrudo do campo, como ela o conheceu, enfadonho e estúpido. Andavam os cães com latas atadas ao rabo, cainhando, e os gaiatos atrás deles a fazer uma grande matinada. Os homens, esses punham-se dos altos a lançar pulhas, de mão – na boca para reforçar a voz:
– Lá vai mais esta... e é que vai e torna a ir...
Para remate saía uma achincalhada qualquer, dirigida especialmente às mulheres.
O Cocó perdia as suas noites nas brincadeiras, armadas num lugar e noutro.
Era trigueiro, de olhos pretos, grandes, ramalhudos. Parece que prendia as saloias mais ariscas.
Nestas brincadeiras, mesmo no pino do Inverno se morria de calar. As mulheres levavam os filhos com elas, até os de mama, e os homens não largavam o varapau, em que tão de uso ensarilhavam a perna. O Cocó, sobre duas ripas altas, que lhe armavam a um canto, tocava a fio. A dança, quando se armava, num círculo cada vez mais apertado, toda aos encontrões, era bem suada e pisada. Mas quem deixaria de correr léguas e léguas só para apanhar uma brincadeira?
A Delmira não as perdia. Nos dias que se lhes seguiam a velha escutava-a. Até a um bailarico da vila a rapariga desta vez foi. E lá calhou encontrar o filho de uns seus antigos patrões.
Que conversas teriam eles tido? E que peitas se seguiriam depois entre a velha, a Delmira e ele? O certo é que o rapaz, pouco tempo passado, se aventurou de bicicleta até à quinta para a ver, a ela...
– É para a menina, não no entende? – bichanava-lhe a Delmira. Eu sei, eu sei.
A mesma Delmira lhe meteu nas mãos uma carta dele, dias decorridos.
* * *
Este era o primeiro homem que ela via andar para cima e para baixo à sua espreita; desmontar-se da bicicleta e levá-la docemente à mão...
Já fizera os catorze anos havia dois meses. E ele tinha vinte e um.
Um homem, quanto a ela, que por isso a amedrontava. O Antoninho da Varosa, em sua mente, é que estava numa idade juvenil e luminosa, ideal, uma idade que os acompanhara sempre, desde a mais tenra infância, e os identificava.
Aquele não passava de um homem; até usava uma capa de estudante, sem o ser.
Também tinha o cabelo encaracolado e quase loiro: defeitos, insuficiências... para ela, decepções. A cor morena é que era a bonita!
Bagatelas... mas só vistas à distância de uma vida, como agora.
Mas para que as há-de escamotear, anular, se lhe ocorrem? Não faz um romance, entretém-se. E hoje, afinal, que lhe interessa, que procura ela? Entender, melhor que há perto de cinquenta anos, talvez, a importância de tais bagatelas, das coisas mínimas. Arrimando-se à memória, à insuficiente, infiel memória. De que se tiram farrapos de coisas, tão cheia de luzeiros como de trevas... Que sacará ela da incrível poeirada que poisou sobre a sua recuada infância e adolescência? Oh! nada afinal que se compare com o claro, vivo miado do seu actual gato; esse, sim, que é incisivo, verdadeiro. O bicho mia-lhe à porta e ela sabe que lha há-de abrir.
Porém, antes de dar os precisos passos para a porta já o está vendo, perfeito.
Ou perfeitamente.
Quanto às outras coisas...
* * *
Têm-lhe dito que o seu gato é arraçado de gineto. E será.
De facto, ele mostra-se bravio, brincando arranha e os seus belos olhos deitam por vezes chispas ferinas. Mas de tão presente que é, de tão integrado na sua vida actual, ela entende-o, desconfunde-o até de qualquer outro pelo simples miado.
É certo que o amor que lhe tem e a graça que lhe acha se tornam especialmente actuantes, lho afirmam.
Afirmam! Palavra própria ou imprópria?
As palavras, ai, as palavras... e dá-lhe vontade de esfregar as mãos, como a dona Mariquinhas, ou de dar uma volta com a direita no ar... as palavras são o que nós queremos que elas sejam, falam à nossa moda, à moda de cada um de nós; a gramática delas é sempre muitíssimo pessoal.
Aquela dona Mariquinhas, dos seus vinte anos, ser encantador! Bom, bom, vê que já está misturando alhos com bugalhos... Que se desmanda, que se precipita.
E poisa a pena. Retoma-a enfim, para assentar:
Aquela idade perdida, aquela gente, aquele tempo à força de os querer fazer reviver mata-os, matá-los-á, sem dúvida. Não há lá palavras para eles, nem gramática válida. Perderam-se.
A capa, a cor do cabelo de um homem, que é, que são? e como lembrá-los? dar-lhes o tom?
* * *
Júlio Brás era o nome do seu namorado. Feio nome.
Ela não engraçava com o nome, nem nunca gostou dele. Das suas feições mal se lembra. Aliás não são as feições em conjunto nem em separado o que melhor assinala uma criatura. É o jeito do cabelo, o olhar, qualquer coisa da boca, o riso, a seriedade, o andar e até o som da voz.
Mas dele que lhe ficou, em suma? Quase só uma espécie de repugnância. Não física, em especial, mas total. Hoje morta...
Lembra-se de correr pela quinta fora até o mirante da estrada, quando o ouvia passar de bicicleta. A velha ou a Delmira a preveniam, ou ela mesmo o sentia.
Chegava ao tal poiso e sentava-se no murinho, de lado; ele parava na estrada, em baixo. E nada tinham que se dizer... Ela dava-lhe então, atirava-lhe uma rosinha de toucar ou um martírio do caramanchão.
Tão estranhos se sentiam um ao outro que ainda hoje pensa que a pura imaginação é que alimenta o amor dos adolescentes, e que o pobre Júlio não tinha o poder de lhe despertar a sua.
De outras vezes falavam-se por entre as grades de um portão do meio da quinta. Ele beijava-a na boca e ela permitia-o, sem o mínimo interesse nem efusão. Cerebralmente considerava aquilo próprio do amor. Todos os romances dos caixotes de Esperancinha descreviam o beijo como a mais fina substância do amor.
Mas quando o namorado, um dia, sob a larga capa, lhe segurou a mão e a puxou ao seu corpo, ela teve uma sensação inqualificável. Nunca, nunca a revelou a ninguém. Pensa que são coisas que toda a vida se guardam, se reservam. Foi uma sensação aflitiva, afrontada, de ofensa e de repugnância. O amor, aquele que lhe andava na cabeça, pelo menos, era de uma outra natureza.
* * *
Entretanto o pai, desconfiado ou prevenido, tentava surpreendê-los. E uma bela tarde, destas do começo da Primavera em que já se estava (encontravam-se ambos ao portão fechado), mostra-se-lhes o velho, de cima. Não explodiu imediatamente, mas a ela o seu aspecto aterrou-a e deu-lhe asas.
O portão de dois batentes, a que se encostavam, abrangia e terminava, entre altos muros, uma bela rua que atravessava a quinta quase a pique e a dividia em dois largos lençóis de vinha.
Correr por aquela rua acima como uma lebre, foi o que fez.
O pai, com a verdasca atrás das costas – o seu braço torcido o demonstrava – seguia-a andando. Mas não a apanhou nem capaz foi de dar com o seu esconderijo: uma arvorezinha nova ou anã, de ramos a rojar pelo chão, sob que se agachou. Ali passou o resto do dia e parte da noite. Não tinha medo.
Deu-lhe a ternura, a excitação aplacada, para pensar na árvore, que havia de amar toda a vida...
Tanto pensou nela, ou nela se incorporou com a sua paixão romanesca, própria da idade, ou do temperamento, que a arvorezinha lhe ficou gravada em mente. A árvore e o sítio. Julga que se à quinta tornasse os identificaria.
Tola! A árvore estará velha, como ela... De uma outra velhice, é certo.
O sítio era o das cerejeiras, que apenas ali havia. Por entre carreiros pouco pisados partia-se de lá para um canavial basto, um canavial que falava. Que gemia e tinha outros dons do seu conhecimento, suspeitos ou reais. Mais adiante, nos braços de uma árvore terrivelmente esgalhada, de folha dura, uma árvore sem trato e até hostil, bem podia o pobre Absalão ter sido colhido pelos cabelos. Sempre que os passos a levavam para aqueles lados assim pensava. A fatal fuga do Absalão, tão formoso! A má árvore...
* * *
Procuraram-na. Andava a dona Adélia, acompanhada pelo Luís das Canas com uma laterna acesa, a espreitar por entre as cepas, já enfolhadinhas de novo, as moitas e os esconsos dos muros. Ela saiu do seu esconderijo, mas a velha atemorizou-a:
– Cala-te, cala-te... Foi lá um dia de juízo... Se não fosse a dona Esperancinha!
Ela é que deitou água naquela fervura toda...
Entraram as duas pela porta da cozinha, e pé ante pé seguiram pelo corredor, virando a uma escada, que a meio dele se abria e dava para o sótão, grande e dividido como um casa.
– Tu agora dormes aqui, mas não podes fazer bulha, vê lá! A Delmira cá te vem com a comida.
* * *
Naquele sótão, tão seu conhecido, se guardava a fruta, os antigos caixões largos e fundos, carunchosos, de grandes fechos arrombados, dados ao desprezo, os baús encoirados e pregueados, recheados de velharias, e até uma dobadoira nunca servida desde que ela se entendia! Uma dobadoira cuja derradeira serventia era a de encorpar ou materializar histórias muito antigas, vagamente poéticas, que lhe contavam umas senhoras pobres de Vila Franca. Duas irmãs acanhadas, destas visitas que se perpetuam nas casas, toleradas pelas famílias de certa abastança; artistas de mãos, especiosas, acomodatícias.
Aquelas histórias, as figuras unidas das duas irmãs, uma mais alta e outra mais baixa, de fato escuro e de cara macilenta, – bem como uma espécie de flor, uma dália, que elas faziam e desfaziam de um lenço, como os prestidigitadores, – na hora presente, assomadas assim de súbito à sua memória, só lhe parece surdirem dela como um graça, uma partida, um gracejo furtivo do tempo morto. Enfim, uma negaça do tempo irrecuperável.”
Irene Lisboa,  in Voltar Atrás para Quê?, Editorial Presença, 1994

domingo, 12 de janeiro de 2025

Ao Domingo Há Música

With this love, we are all related
In love, give me strength
In this love, we are all related
In love, give me strength in this love


Ser marcado pela força do amor é talvez a melhor marca que cada um pode ter. Se isso puder ligar todo o mundo neste ano de 2025 , talvez seja uma utopia.  E porque não pode deixar de ser um  tenaz   e veemente  desejo, talvez seja o remédio para um novo e diferente mundo . 
É nessa direcção  que  se apresenta uma belíssima e também  diferente melodia:
All Related por Nessi Gomes e o   Hackney Harmony Choir,  sob a direcção da Maestrina  Sophia   Efthimiou ,  na  St. Matthias Church, London 10/12/2024.
A produção é de Myles Eastwood . O   Director de  fotografia  Will Hazell e os operadores de câmara Oli Robertshaw & Carl Youri .

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Trasladação de Eça de Queirós para o Panteão

A trasladação dos restos mortais de Eça de Queirós efectiva-se hoje, após um processo  longo de alguma controvérsia.  
Eugénio Lisboa discordou dessa trasladação, tendo escrito  vários textos , onde vertia essa opinião.
Republicamos quatro desses textos que , juntamente com outros sobre o mesmo assunto, publicámos em 2023.
 

EÇA NO PANTEÃO NÃO TEM ADESÃO
por Eugénio Lisboa
“Somos um país de modas mais ou menos efémeras. De vez em quando, descobrimos uma moda nova e pomo-la de serviço, sem rei nem roque.
Durante décadas e décadas, nunca ninguém se preocupou com o Panteão, nem sequer se lembrou de que ele existia. Mas quando alguém se lembrou dele, já nem sei a propósito de quê ou de quem, o Panteão passou a ser o prato de arroz doce de todos os banquetes culturais. Estar ou não estar no Panteão, eis a questão. Quando uma personalidade de algum destaque cultural, científico, desportivo, militar ou político morria, aqui d’El-Rei que deve ir para o Panteão. À falta de melhor manjar, a comunicação social pegava neste e os opinantes ganhavam o dia. Tema qualquer serve, como diria a grande Irene Lisboa.
Propunha-se levianamente despachar para aquele sítio feioso e pouco acolhedor os restos mortais de alguém, sem realmente se ter em conta se esse teria de facto sido um desejo do falecido ou dos seus próximos, em representação dele. Ora não é difícil supor que um Pascoais preferiria, de longe, ficar no Marão, um Régio, em Vila do Conde, um Ferreira de Castro, em Ossela ou Sintra, um Camilo, em S. Miguel de Seide ou Porto, um Torga, em São Martinho da Anta  e um Eça, em Tormes. Isto, para dar só alguns exemplos. Se a autorização final deve caber ao Parlamento, a iniciativa da trasladação deve competir aos familiares, em consulta com os conhecedores profundos da obra e das idiossincrasias do falecido.
Pensar que o Panteão é o desejo ardente dos notáveis é ignorar o enorme poder de atracção que outros locais, carregados de magnetismo emocional, possam ter tido para o ilustre falecido. Por exemplo, ser enterrado na terra natal, ou na terra em que se foi feliz ou junto do companheiro ou companheira de toda uma vida. Tais sítios são polos de atracção muito mais poderosos do que um Panteão álgido, hostil e escassamente visitado. Um Panteão, perdoem-me a franqueza rude, é mais um depósito pouco atraente do que um lugar aprazível, para final de percurso.
A grande maioria dos grandes de França não se encontram sepultados no Panteão, estão no Père Lachaise ou noutros cemitérios onde preferiram ficar sepultados.
Esta gritaria recente, para se enviar Eusébio, Amália, Sophia, para o Panteão, faz parte do nosso irredimível provincianismo, que não é capaz de ver para além de falsos cenários.
Em Portugal, quando verificamos TODAS as personalidades de alto relevo, que nunca tiveram lugar no Panteão Nacional, apetece mesmo lá não estar.
A anunciada e próxima futura trasladação dos restos mortais de Eça de Queirós para o Panteão Nacional é uma perfeita aberração e, ao que sei, não obteve a devida aprovação de quem de direito. Foi uma ideia oportunista e provinciana de alguém que é hoje ministro e que provavelmente conhece mal a obra e a personalidade do autor de O CRIME DO PADRE AMARO, mas conhece bem a arte de se tornar visível, à boleia de uma péssima ideia.
No Panteão de Paris, estão apenas os restos mortais de 75 personalidades, e a esmagadora
maioria dos grandes escritores franceses não está lá. Dos escritores do século XX está lá só UM, André Malraux, e não estão lá Anatole France, André Gide, Marcel Proust, Henry de Montherlant, Romain Rolland, Paul Valéry, Paul Claudel, Colette, Georges Duhamel, Roger Martin du Gard, François Mauriac, Julien Green, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus, Aragon, Jean Giraudoux, Marcel Aymé, Maurice Barrès, Antoine de Saint-Exupéry, Jean Anouilh, Raymond Queneau, Jacques Prévert, Jules Supervielle, Saint-John Perse, Jean Giono, Georges Simenon, etc.
NÃO ESTAR no Panteão está portanto longe de ser uma humilhação ou apenas razão de melancolia. Digamos que a melhor companhia até está cá fora e é cá fora, em Tormes, que Eça deve ficar. E ficará muito bem: estou certo de que assim o diria, se pudesse falar.”
Eugénio Lisboa, 27.04.2023
O PANTEÃO
por Eugénio Lisboa
O Panteão de um escritor são os seus leitores. Se estes não continuarem a existir, não há Panteão que os salve. Eça está, há muito e para sempre, no seu feliz Panteão: os leitores que o admiram e, na sua afiada e inovadora língua, se banham.
Uma das grandes forças da visão e da estilística de Eça foi sempre uma elegante e nobre distanciação da pompa, que considerava cómica e apenas bom material para uma desenfastiada chacota. Quem leu as inesquecíveis e contundentes páginas de UMA CAMPANHA ALEGRE, se tiver alguma sensibilidade e algum pudor, ficará assustado ao antecipar o que vão ser as palavras eriçadas que as “entidades” de colarinho engomado lhe vão fazer chover em cima (caso isso aconteça…), no próximo dia 27. Eça vai ter de dar muitas voltas, no túmulo, a tentar destemidamente evitar que lhe remexam nos ossos. E não vale a pena invocar a autoridade de eminências académicas, para justificar o injustificável: os textos e a vida do escritor falam por si. Deixemo-nos de hesitações eruditas e de talvez mas contudo: Eça abominaria ir para o Panteão. Bolas, leiam-lhe a obra com olhos de ver e ler! E deixem-se de pedir a opinião de “autoridades” académicas: consultem os textos! Arre!
 
P. S. – Entrou, ontem, em tribunal. uma Providência Cautelar, para travar esta idiota trasladação. Vamos ver se a festa se azeda.
Eugénio Lisboa, 20.09.2023
Eça de Queirós não era “pessoa de bem”
por Eugénio Lisboa
“Meter Eça no  Panteão, para o amaciar, é o mesmo que ter metido Santana Lopes no governo para o calar. Aos reguilas, é costume querer domesticá-los, dando-lhes presentes, sinecuras, ministérios, academias e penduricalhos. Meter o Eça no Panteão é querer fazer crer que ele não escreveu A RELÍQUIA ou A CAPITAL (talvez a obra-prima do “roman noir”, em Portugal). Panteonizar Eça é intrujar as pessoas, fingindo que o Eça não é o Eça. É querer enterrá-lo, definitivamente, numa falsa “respeitabilidade”, que ele nunca teve nem quis ter (não me perguntem onde ele “diz” isso, toda a sua magnífica obra O DIZ por ele). Não concebo nem um Juvenal nem um Jonathan Swift, num Panteão romano ou inglês, caso estes existissem. Há escritores, músicos, pintores que não são misturáveis com a pompa solene dos Panteões. Não se trata de se não merecerem uns aos outros: trata-se tão só de não serem COMPATÍVEIS, tal como a água e o azeite não serem miscíveis, mesmo sem se discutirem os seus méritos). Eu não vejo o intemerato Swift a ser benzido por um cardeal aparatoso, como não vejo um gato a obedecer a um cão. E gosto muito de gatos e de cães. Molière nunca entrou na Academia e Stendhal também não. A “vieille guarde” de Napoleão disse “merda” ao general Wellington e preferiu ser trucidada a render-se. Eça, diplomata nunca vendido ao discurso suave, jamais se rendeu ao bempensismo. Querem capturá-lo agora, depois de morto. Querem fazer dele “pessoa de bem”, segundo os códigos de comportamento da gente de extrema-direita. A mesma gente a que Bertrand Russell chamava “nice people”, da qual fez o mais demolidor diagnóstico de que tive conhecimento. Eça não era “pessoa de bem”, selon Ventura, como não eram “pessoas de bem” Aristófanes, Juvenal, Voltaire, Molière (sobretudo o de TARTUFO), Bocage, António Vieira, entre outros.
O que um escritor “diz” não é só ou não é, sobretudo, o que ele diz explicitamente. O que ele realmente diz é o que toda a sua obra inculca. Eça não diz ostensivamente que não quer ir para o Panteão, mas toda a sua obra o grita. Isto, que não tem validade jurídica, devia tê-la para os seus herdeiros, se, improvavelmente, tivessem lido, com mão diurna e nocturna, a obra do seu antepassado. Conversei um dia com um descendente de Eça, que tinha Eça de Queirós no seu apelido, o qual descendente me confessou, com toda a candura, não ter lido um único livro do seu ilustre antepassado. Não seria interessante fazer um miúdo escrutínio às leituras dos dezasseis bisnetos favoráveis à trasladação? Aqui fica, grátis, a sugestão.”
Eugénio Lisboa, 26.09.2023
TRASLADAÇÃO DOS RESTOS MORTAIS
DE EÇA DE QUEIROZ PARA O PANTEÃO
por Eugénio Lisboa
“O Supremo Tribunal Administrativo decidiu a favor dos herdeiros de Eça de Queiroz, que desejam a trasladação dos seus restos mortais para o Panteão Nacional. A lei, bem ou mal interpretada por esse tribunal, deu-lhes razão. A razão dos herdeiros, apoiada na lei jurídica, ganhou. A justiça à memória do escritor, não. A lei escrita obriga, muitas vezes, à injustiça. Não é a primeira vez que lei e justiça se opõem. E não será a última. E já vem, pelo menos, dos tempos remotos de Antígona.
O funeral do autor de O CRIME DO PADRE AMARO vai, provavelmente, ter os ritos da trasladação abençoados, com a aprovação comovida dos que herdaram o nome, mas não o espírito, do grande escritor, por um qualquer dignitário da Igreja. E o criador do Conselheiro Acácio vai ter de ouvir, lá no assento etéreo, onde se encontra, as beatas e conselheirais palavras de um qualquer orador que ali vai buscar os seus quinze minutos de glória. Espero que, na urna onde os seus ossos se encontrarem, haja espaço suficiente para ecoar o som da inconfundível gargalhada que ali se vai percutir.
É bem verdade: os grandes homens nem sempre têm os herdeiros que os conhecem e os merecem. Por isso, o grande George Steiner propunha que as viúvas desses grandes homens – no sentido muito lato de “viúvas” – deviam, à cautela, ser lançadas à pira, para evitar desacatos. É uma proposta que merece a mais séria consideração das mentes legislativas.”
Eugénio Lisboa, 20.10.2023 

domingo, 5 de janeiro de 2025

Ao Domingo Há Música


Silêncio

É o silêncio que pedes, 
E é silêncio que peço.
Mas o poema é o som dos leves passos
De uma aventura.
Se nada ouves,
Se nada ouço, 
É que não há Poesia.
E, então, 
Ai de nós 
E da nossa harmonia!
Miguel Torga, Diário V


Neste primeiro domingo de 2025, as canções que se apresentam têm apenas em comum a partilha de belíssimas  vozes, em duetos   singulares.
Tudo as diferencia  quer na melodia  quer  no ritmo quer  na sonoridade quer na própria construção harmónica das peças. São   belas e distintas.  Trazem-nos a doce  alma longínqua de terras desconhecidas e o pulsar de um coração que mora em qualquer um de nós. 

Jacob Collier , em A Rock Somewhere [feat. Anoushka Shankar & Varijashree Venugopal] num espectáculo em Amesterdão.
-Para celebrar a nomeação do A Rock Somewhere para o Grammy de Melhor Performance Musical Global, aqui está a nossa  primeira apresentação ao vivo da música juntos em Amesterdão, informa Jacob Collier.
Jacob Collier – Piano & Vocals. Anoushka Shankar – Sitar. Varijashree Venugopal – Vocals Audio mix by: Jacob Collier & Ben Bloomberg.Video editing & grading by: Jacob Collier & Doddsy. Filmed by: Doddsy, Lina Holt, Mateusz Szymankiewicz & Jeroen Zondag Artist Management / Creative:Francesca Haincourt. 
 
Sara Bareilles  e Rufus Wainwright interpretam  She Used to Be Mine , junto ao   Kennedy Center. 
Sara Bareilles, cantora "pop icon" ,  artista multi-facetada e activista,  juntou-se ao famoso tenor Rufus Wainwright e à National Symphony Orchestra para uma magnífica interpretação da muito aclamada peça do teatro musical “She Used to Be Mine” , no esgotado Concert Corredor do Kennedy Center. Neste concerto de retrospectiva de carreira, Sara viaja pela sua vida e carreira como artista, partilhando emoções e muitas vezes histórias cómicas de experiências que moldaram o seu caminho.
 

sábado, 4 de janeiro de 2025

Os livros de 2025

Os meus livros de Janeiro
a que peito irão bater
por Manuel S. Fonseca


"Se eu disser que o livro é um coração e que esse coração só bate no peito do leitor, acreditam em mim? Se não acreditam em mim, pelo menos acreditem nos meus autores, António Costa Silva e Fernando Venâncio: os romances que eles escreveram são corações à procura de um peito.
Desconseguiram Angola é o romance que, em dor e riso, em angústia e (des)esperança, António Costa Silva – sim, esse que foi nosso ministro, mas que viveu em Angola a utopia e o quase fuzilamento – criou como homenagem aos que, mesmo no olho de um furacão de caos e miséria, fazem prevalecer o riso limpo: «a farra estava nice… Luanda de sábado à noite.» Tanta dor, tanto humor.
Já Fernando Venâncio – sim, o autor do perfeito Assim Nasceu uma Língua – vai, no seu romance Os Esquemas de Fradique, em busca do coração dessa personagem que fugiu dos livros de Eça para a vida. Tudo se passa hoje, numa vida malandra, em beijos, cinemas e boa comida e bebida, e tudo se passa em longínquos «ontens», que nos revelam de Fradique a descendência, as amantes, a vocação até para espião do rei. Tão bem escrito.
E se querem saber a razão de o coração de Primo Levi nunca ter deixado de bater no seu peito, apesar do cativeiro em Auschwitz, vão ter de ler este O Homem que Salvou Primo Levi, de Carlo Greppi. Descobrirão Lorenzo, homem das obras, e uma história real de compaixão, que nos faz acreditar no humano: ó que esplêndido coração, agora na celebração dos 80 Anos da Libertação de Auschwitz.
E 2025 é também o ano em que celebramos os 80 anos do Fim da II Guerra Mundial. O que se passou, depois, na vencida Alemanha? O professor Emmanuel Droit, ao leitor que anda à caça de diamantes, explica tudo, numa narrativa densa, em A desnazificação, pós-história do III Reich: quem se escondeu, quem assumiu responsabilidades, quem «nada viu, nada ouviu» de 1933 a 1945.
Voltando aos meus leitores: o que eu gosto do leitor sonhador e individualista, que tudo reinterpreta, fazendo de cada livro trampolim para a cada ideia associar mais ideias. São esses os leitores que vão querer ler Inteligência Artificial, Bênção ou Maldição, de Diogo Freitas, um empreendedor e CEO que não teme a polémica: jura-nos que a IA veio para ficar, mas que com a IA veio também uma caixa de Pandora de malefícios, agora exposta nas 160 páginas deste livro.
E para os leitores que no sentido de cada frase mordem as delícias das camadas de um mil folhas, guardei duas gemas filosóficas: O Ouriço e a Raposa,  de Isaiah Berlin e Como é que é ser um morcego, de Thomas Nagel.
Berlin, em O Ouriço e a Raposa, a propósito da filosofia da história de Tolstoi, ensina-nos que uma raposa sabe muitas pequenas coisas, enquanto o ouriço se obstina a saber só uma coisa muito importante. Shakespeare era uma raposa, Marx, um ouriço. E o leitor? Não sei se pelo ouriço ou pela raposa, o livro esgotou: aqui está reeditado, novinho em folha.
Já o filósofo Thomas Nagel apanhou um grande susto quando um morcego lhe entrou no escritório lá de casa. E o morcego? Terá ficado tão assustado como ele? Combinando filosofia, psicologia e neurociência, Como É Que É Ser um Morcego é uma revolucionária digressão sobre «a consciência», sobre o «objectivo» e o «subjectivo»: pode a experiência subjectiva ser objecto de uma descrição objectiva? Um ensaio que exige à ciência uma expansão que acomode o que não está de acordo com a concepção física da objectividade.
Sete livros da Guerra e Paz para leitores que sabem que só se reconhece uma verdade profunda pelo facto do seu oposto ser também uma verdade profunda.
 

Na Crisântemo, juntando-se a três livros anteriores de Sigmund Freud, sobre os sonhos, o narcisismo e o princípio do prazer, chega agora, em nova tradução, Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade, alto escândalo de 1905. Freud sustenta que a perversão sexual faz parte da natureza humana, e aqui se inauguram conceitos como o complexo de castração, complexo de édipo e inveja do pénis. Uma inveja de livro.
Contemporâneo e português é o livro Liderar é um Acto de Amor. Fábio Castro, o autor, confessa-se: «A parentalidade é o melhor curso de autoconhecimento que alguma vez experimentei.» E liga, com razão, a parentalidade é uma profunda transformação da vida pessoal e familiar. Mas também da vida profissional. Uma boa surpresa, sem perversões.

Na Euforia, o ano começa com o sabor transgressor (perverso?) do pecado. De Sierra Simone, a quem já devíamos o bestseller Padre, publicamos agora Pecador:  a mesma liberdade erótica, com Deus de novo à mistura. A protagonista vai, em breve, ser freira. Mas há uma cama (ou várias) a separá-la da vocação.

E vamos lá sair da cama, que 2025 e as livrarias estão à espera dos leitores para lhes porem no peito um merecido coração. "
Manuel S. Fonseca, editor  da Guerra & Paz

Planeamento Editorial JAN-JUN 2025

Janeiro
— Adivinhas de Pedro e Inês, de Agustina Bessa-Luís (Prefácio de Inês Pedrosa)
— Prestidigitação, de Maria Stepánova
— Os Hereges de Duna (5.º volume da série Duna), de Frank Herbert
— Uma Leitura do Génesis, de Marilynne Robinson
— Os Meus Amigos, de Hisham Matar
— Fronteira, de Can Xue
— A Visão das Plantas, de Djaimilia Pereira de Almeida (Reedição)

Fevereiro
— Have Ya Got Any Castles, Baby, de Ana Teresa Pereira
— Não É ainda o Pânico, de Rui Nunes
— Destroçado, de Hanif Kureishi
— A Casa Sombria, de Charles Dickens (tradução de Paulo Faria)
— Carpinteiros, Levantai alto a Cumeeira; Seymour: Uma Introdução, de J. D. Salinger
— O Estranho Desaparecimento de Esme Lennox, de Maggie O’Farrell
— Casa do Capítulo: Duna (6.º volume da série Duna), de Frank Herbert
— Mestre Gato ou o Gato das Botas, de Charles Perrault
— A Bailarina, de Carlos Vasconcelos

Março
— Fidalguia sem Maquia É Gaita Que não Assobia, de Luís Aguiar-Conraria (Prefácio de Fernanda Câncio)
— Luto sem Bússola, de Carme López Mercader
— Paz ou Guerra, de Mikhail Shishkin
— Boulder, de Eva Baltasar
— Franny e Zooey, de J. D. Salinger

Abril
— A Singularidade Está mais Próxima, de Ray Kurzweil
— A Revolução dos Cravos: O Dia em que a Ditadura Portuguesa Caiu, de Alex Fernandes
— Songlight, de Moira Buffini (1.º volume de The Torch Trilogy)
— As Sete Idades, de Louise Glück (Prémio Nobel da Literatura 2020)
— Investigações Filosóficas, de Ludwig Wittgenstein
— Submundo, de Don DeLillo
— Homem em Queda, de Don DeLillo

Maio
— Embaixada a Calígula, de Agustina Bessa-Luís
— Problema 7, de Richard Flanagan (Vencedor Baillie Gifford Prize)
— Tokyo Ueno Station, de Yu Miri
— Segurar, de Anne Michaels (Vencedor Giller Prize 2024)
— A Espada Brilhante, de Lev Grossman
— Obra de Uma Vida, Rachel Cusk
— Visita, de Jenny Erpenbeck
— Mishima ou a Visão do Vazio, de Marguerite Yourcenar
— Os Costumes do País, Edith Wharton
— Conversas entre Amigos, de Sally Rooney
— Os Anéis de Saturno, de W. G. Sebald
— Duna III (Romance Gráfico), de Frank Herbert, adaptado por Brian Herbert e Kevin J. Anderson
— Três Histórias de Esquecimento, de Djaimilia Pereira de Almeida (Reedição)

Junho
— Os Lobos da Floresta da Eternidade, de Karl Ove Knausgård
— A Empregada e o Professor, de Yoko Ogawa
— Hyperion, de Dan Simmons
— On the Calculation of Volume (Om udregning af rumfang I), de Solvej Balle
— Os Emigrantes, de W. G. Sebald
— Analectos, de Confúcio
— Fogos, de Marguerite Yourcenar
— Henrique VI, Parte I, de William Shakespeare (Projecto Shakespeare)
— Henrique VI, Parte II, de William Shakespeare (Projecto Shakespeare)
— Esse Cabelo, de Djaimilia Pereira de Almeida (Reedição)

Os livros que vão ser lançados em 2025 que não pode perder

"A editora LeYa anunciou as suas apostas para o primeiro trimestre d e 2025. Se precisa de sugestões de leitura esta notícia é para si.
Na literatura em língua portuguesa, durante os três primeiros meses do ano, serão publicados, pela Dom Quixote, o novo romance de Afonso Reis Cabral (O Último Avô), sete anos depois de Pão Açúcar, o livro que assinala a estreia de Luísa Sobral (Nem Todas as Árvores Morrem de Pé), o novo volume de contos de Fernando Pinto do Amaral (Contos Suicidas) e a história autobiográfica do brasileiro Marcelo Rubens Paiva (Ainda Estou Aqui), que lançou o filme com o mesmo título na corridas aos Óscares do próximo ano.

A Editorial Caminho, na mesma área, apresenta um novo livro de Germano Almeida (Crime nas Correntes d’Escritas), um lúcido e hilariante primeiro romance do até aqui conhecido apenas como poeta Paulo Teixeira (Não Digas o Que a Baiana Tem) e o regresso de Ondjaki e António Jorge Gonçalves (O Tempo do Cão). Já a Casa das Letras preparou para este início de ano a publicação do novo livro de Francisco Moita Flores (Agora e na Hora da Nossa Sorte).

Na ficção estrangeira, a Dom Quixote destaca o romance da mais recente Prémio Nobel da Literatura, a sul-coreana Han Kang (Despedidas Impossíveis), o também novo da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (Inventário de Sonhos), o finalista do Booker Prize da argentina Selva Almada (Não é um Rio), o do americano Amor Towles (Mesa para Dois), as estreias em português do venezuelano Rodrigo Branco Calderón (Simpatia), que em Fevereiro estará na Póvoa de Varzim para participar em mais edição do festival literário Correntes d’Escritas, e do italiano Gianni Solla (O Ladrão de Cadernos) e, para além desses, uma nova edição de um há muito esgotado livro do austríaco Joseph Roth (Fuga Sem Fim).

Os mais recentes do japonês Haruki Murakami (A Cidade e as Muralhas Incertas) e do espanhol Arturo Pérez-Reverte (O Problema Final) serão respectivamente publicados pela Casa das Letras e pela ASA, que também editará o romance épico da chinesa Ann Liang (O Lamento dos Rios).

Na área da não ficção, salienta-se o livro coordenado por Rui Ramos, José Luís Cardoso, Nuno Gonçalo Monteiro e Isabel Corrêa da Silva (Dicionário Crítico da Revolução Liberal, 1820-1834), o trabalho da jornalista norte-americana Annie Jacobsen (Guerra Nuclear – Um Cenário) e o novo livro do filósofo Alain de Botton (Uma Viagem Terapêutica). Os três terão a chancela Dom Quixote.

A ASA, no mesmo género, lançará o novo ensaio do italiano Antonio Scurati (Fascismo e Populismo), e a Lua de Papel os mais recentes livros de Scott Galloway (A Álgebra da Riqueza), de Dr. Gabor Maté (No Reino dos Fantasmas Famintos) e de Jordan B. Peterson (Nós, os que Lutamos com Deus). Na Casa das Letras sairá a biografia do actor que deu corpo e alma a uma das mais notáveis e adoradas personagens televisivas alguma vez inventadas: o Kramer de Seinfeld, de Michael Richards (Entradas e Saídas).

Na Banda Desenhada, a ASA publicará, entre outros, Um Oceano de Amor, de Gregory Panaccione e Wilfrid Lupano, Hoka Hey, de Neyef, e Bobigny 1972, de Marie Bardiaux-Vaiente e Carole Maurel.

Já no infanto-juvenil destacam-se o romance juvenil de António Mota (Espera por Mim) e o conto de Luísa Ducla Soares (Meninos de Todas as Cores) que ganha nova vida numa edição ilustrada por Sandra Serra."
Margarida Lopes, Sapo

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Para além do horizonte


Uma ave
( Postal)

Num céu verde , mais uma ave,
pairando, livre. leve e pura.
Junto ao sol, intrépida nave, 
avança lisa  - e segura.
Londres ,05.04.1984 
Eugénio Lisboa, in A matéria Intensa, Editora Peregrinação, Baden/Suiça,1985, p.47


Linha

A linha do horizonte leve fina
é o começo de um limite. Dilata
o espaço que imaginamos. Mina
os destinos: salvam-se os de prata.
Para além do leve horizonte frio
fica um mundo desconhecido nosso:
para ele ascendemos como um rio
que arrastasse um sereno alvoroço.
Eugénio Lisboa, in A matéria Intensa, Editora Peregrinação, 
Baden/Suiça, 1985, p 48

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Ao correr da máquina

Ao correr da máquina 
por Clarice Lispector
"Meu Deus, como o amor impede a morte! Não sei o que estou querendo dizer com isso: confio na minha incompreensão, que tem me dado vida instintiva e intuitiva, enquanto que a chamada compreensão é tão limitada. Perdi amigos. Não entendo a morte. Mas não tenho medo de morrer. Vai ser um descanso: um berço enfim. Não a apressarei, viverei até a última gota de fel. Não gosto quando dizem que tenho afinidade com Virgínia Woolf (só a li, aliás, depois de escrever o meu primeiro livro): é que não quero perdoar o fato de ela se ter suicidado. O horrível dever é ir até o fim. E sem contar com ninguém. Viver a própria realidade. Descobrir a verdade. E, para sofrer menos, embotar-me um pouco. Pois não posso mais carregar as dores do mundo. Que fazer, se sinto totalmente o que as outras pessoas são e sentem? Eu vivo na delas mas não tenho mais força. Vou viver um pouco na minha. Vou me impermeabilizar um pouco mais. – Há coisas que jamais direi: nem em livros e muito menos em jornal. E não direi a ninguém no mundo. Um homem me disse que no Talmude falam que há coisas que se podem contar a muitos, há outras a poucos, e outras a ninguém. Acrescento: não quero contar nem a mim mesma certas coisas. Sinto que sei de umas verdades. Mas não sei se as entenderia mentalmente. E preciso amadurecer um pouco mais para me achegar essas verdades. Que já pressinto. Mas as verdades não têm palavras. Verdades ou verdade? Não, nem pensem que vou falar em Deus: é um segredo meu.
Está fazendo um dia lindo de outono. A praia estava cheia de um vento bom, de uma liberdade. E eu estava só. E naqueles momentos não precisava de ninguém. Preciso aprender a não precisar de ninguém. É difícil, porque preciso repartir com alguém o que sinto. O mar estava calmo. Eu também. Mas à espreita, em suspeita. Como se essa calma não pudesse durar. Algo está sempre por acontecer. O imprevisto me fascina.
Com duas pessoas eu já entrei em comunicação tão forte que deixei de existir, sendo. Como explicar? Olhávamo-nos nos olhos e não dizíamos nada, e eu era a outra pessoa e a outra pessoa era eu. É tão difícil falar, é tão difícil dizer coisas que não podem ser ditas, é tão silencioso. Como traduzir o profundo silêncio do encontro entre duas almas? É dificílimo contar: nós estávamos nos olhando fixamente, e assim ficamos por uns instantes. Éramos um só ser. Esses momentos são o meu segredo. Houve o que se chama de comunhão perfeita. Eu chamo isso de: estado agudo de felicidade. Estou terrivelmente lúcida e parece que estou atingindo um plano mais alto de humanidade. Foram os momentos mais altos que jamais tive. Só que depois… Depois eu percebi que para essas pessoas esses momentos de nada valiam, elas estavam ocupadas com outras. Eu estivera só, toda só. É uma dor sem palavra, de tão funda. Agora vou interromper um pouco para atender o homem que veio consertar o toca-discos. Não sei com que disposição voltarei à máquina. Música não ouço há bastante tempo pois estou procurando me dessensibilizar. Mas um dia desses fui pegada desprevenida, ao ver o filme Cada um vive como quer. Tinha música e eu chorei. Não é vergonha chorar. É vergonha eu contar em público que chorei. Pagam-me para eu escrever. Eu escrevo, então.
Pronto, já voltei. O dia continua muito bonito. Mas a vida está muito cara (isso por causa do preço que o homem pediu pelo conserto). Preciso trabalhar muito para ter as coisas que quero ou de que preciso. Acho que livros não pretendo nunca mais escrever. Só vou escrever para este jornal. Eu queria um emprego de poucas horas por dia, digamos duas ou três horas, e que me fizesse (o emprego) lidar com pessoas. Tenho jeito para isso, embora pareça um pouco ausente às vezes. Mas, quando estou com uma pessoa verdadeira, fico verdadeira também. Se vocês pensam que vou recopiar o que estou escrevendo ou corrigir este texto, estão enganados. Vai é assim mesmo. Só que lerei para corrigir erros datilográficos.
A propósito de uma pessoa de quem estou me lembrando agora e que usa uma pontuação completamente diferente da minha, digo que a pontuação é a respiração da frase. Acho que já disse uma vez. Escrevo à medida de meu fôlego. Estarei sendo hermética? Porque parece que em jornal se tem de ser terrivelmente explícito. Sou explícita? Pouco se me dá.
Agora vou interromper para acender um cigarro. Talvez volte à máquina ou talvez pare por aqui mesmo.
Voltei. Estou agora pensando em tartarugas. Quando escrevi sobre bichos, disse, de pura intuição, que a tartaruga era um animal dinossáurico. Depois é que vim a ler que é mesmo. Tenho cada uma. Um dia vou escrever sobre tartarugas. Elas me interessam muito. Aliás, todos os seres vivos, que não o homem, são um escândalo de maravilhamento. Parece que, se fomos modelados, sobrou muita matéria energética e formaram-se os bichos. Para que serve, meu Deus, uma tartaruga? O título do que estou escrevendo agora não devia ser “Ao correr da máquina”. Devia ser mais ou menos assim, em forma interrogativa: “E as tartarugas?” E quem me lê se diria: é verdade, há muito tempo que não penso em tartarugas. Agora vou acabar mesmo. Adeus. Até sábado que vem. "
Clarice Lispector,  em crónica publicada no Jornal do Brasil, de 17.04.1971 e recolhida no livro "Todas as crónicas", Rocco, Rio de Janeiro, 2018, pp.390-393

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

Não estamos sós


We Are Not Alone 

This world has ears and rocks have eyes
Nature loves to hide
The world is a bush full of fiery eyes
Nature loves to hide
I was observed and unaware
I've travelled a lot unaware
I was observed, I was observed
We are not alone (good news for my heart)
Nick Cave e Warren Ellis

Neste primeiro dia de 2025, a poderosa voz  de um grande cantor traz-nos memórias de um mundo diferente e talvez  a renovar.
Que venha  2025.

Nick Cave e  Warren Ellis,  em Push the Sky Away,   num espectáculo na  Sydney Opera House.
Nick Cave and Warren Ellis apresentam uma triunfante versão de "Push the Sky Away" gravada, no seu concerto Film Music, em Dezembro de 2019, com a Orquestra Sinfónica de Sydney e os Coros da Filarmónica de Sydney.

 
Nick Cave & Warren Ellis , em  We Are Not Alone (La Panthère des Neiges).
A Pantera da Neve é um documentário francês realizado por Marie Amiguet e Vincent Munier e lançado em 2021. Acompanha a viagem de Vincent Munier e Sylvain Tesson no Tibete, em busca do leopardo-das-neves. É uma adaptação da história A Pantera da Neve, de Sylvain Tesson, vencedor do Prémio Renaudot 2019. Estreado na secção Cinema para o Clima do Festival de Cannes 2021, o filme venceu o César de melhor documentário nos Césars 2022, além do Lumière de melhor documentário nos Lumières 2022.