sábado, 5 de novembro de 2022

A igualdade e a causa da liberdade estão ligadas



INTRODUÇÃO
por Alexis de Tocqueville
"Entre os objectos novos que, durante a minha estada nos Estados Unidos, atraíram a minha atenção, nenhum feriu mais vivamente os meus olhos do que a igualdade das condições. Descobri sem dificuldade a influência prodigiosa que este primeiro facto exerce sobre a marcha da sociedade; dá ao espírito público uma certa direcção, uma certa feição às leis; aos governantes máximas novas, e hábitos particulares aos governados.
Muito cedo reconheci que este mesmo facto estende a sua influência bastante para além dos costumes políticos e das leis, e que obtém não menos império sobre a sociedade civil do que sobre o governo: cria opiniões, faz nascer sentimentos, sugere usos e modifica tudo o que não produz.
Assim pois, à medida que estudava a sociedade americana, eu via cada vez mais, na igualdade das condições, o facto gerador do qual parecia descender cada facto particular, e encontrava-o a todo o momento à minha frente como um ponto central sobre o qual iam convergir todas as minhas observações.
Reportei então o meu pensamento ao nosso hemisfério, e pareceu-me que nele distinguia qualquer coisa de análogo ao espectáculo que me oferecia o novo mundo. Vi a igualdade das condições que, sem ter atingido como nos Estados Unidos os seus limites extremos, deles se aproximava todos os dias cada vez mais; e essa mesma democracia, que reinava sobre as sociedades americanas, pareceu-me na Europa avançar rapidamente a caminho do poder.
A partir desse momento concebi a ideia do livro que aqui será lido. Opera-se entre nós uma grande revolução democrática; todos a vêem, mas nem todos a julgam da mesma maneira. Uns consideram-na como uma coisa nova, e, tomando-a por um acidente, esperam poder ainda detê-la; ao passo que outros a julgam irresistível, porque lhes parece ser o facto mais contínuo, mais antigo e mais permanente que se conhece na história.
Reporto-me por um momento ao que era a França há setecentos anos: encontro-a dividida por um pequeno número de famílias que possuem a terra e governam os habitantes; o direito de mandar passa então de geração em geração juntamente com as heranças; os homens não têm senão um meio só de agirem uns sobre os outros; não se depara senão com uma única origem do poder, a propriedade fundiária.
Mas eis que acaba de se implantar a democracia e que em breve se estenderá o poder político do clero. O clero abre as suas fileiras a todos, ao pobre e ao rico, ao plebeu e ao nobre; a igualdade começa ao plebeu e ao nobre; a igualdade começa a penetrar através da Igreja no seio do governo, e aquele que de outro modo teria vegetado como servo numa eterna escravatura, vai colocar-se assim como padre no meio dos nobres, e instalar-se amiúde acima dos reis. À medida que com o tempo a sociedade se torna mais civilizada e mais estável, as diferentes relações entre os homens tornam-se mais complicadas e mais numerosas. A necessidade das leis civis faz-se vivamente sentir. Nascem então os legistas; saem do recinto obscuro dos tribunais e do reduto poeirento dos arquivos, e vão tomar assento na corte do príncipe, ao lado dos barões feudais cobertos de arminho e de ferro. Os reis arruínam-se nas grandes empresas; os nobres esgotam-se nas guerras privadas; os plebeus enriquecem no comércio. A influência do dinheiro começa a fazer-se sentir sobre os assuntos do Estado. O negócio é uma nova fonte que se abre ao poder, e os financeiros tornam-se um poder político desprezado e adulado. Pouco a pouco, as luzes difundem-se; observa-se o despertar do gosto da literatura e das artes; o espírito torna-se então um elemento de sucesso; a ciência é um meio de governo, a inteligência uma força social; os letrados intervêm nos negócios públicos. À medida contudo que se descobrem novas vias de alcançar o poder, vemos que diminui o valor do nascimento. No século XI, a nobreza era de um preço inestimável; é já comprada no século XIII; a primeira nobilitação tem lugar em 1270, e a igualdade acaba por ser introduzida no governo pela aristocracia mesma. Nos setecentos anos que acabam de se escoar, aconteceu por vezes que, para lutarem contra a autoridade real ou para arrebatarem o poder aos seus rivais, os nobres dessem algum poder político ao povo. Mais frequentemente ainda, vimos os reis fazerem participar no governo as classes inferiores do Estado, no propósito de enfraquecer a aristocracia. Em França, os reis mostraram-se os mais activos e os mais constantes dos niveladores. Quando foram ambiciosos e fortes, trabalharam em vista de elevar o povo ao nível dos nobres; e quando foram moderados e fracos, permitiram que o povo se pusesse acima deles. Uns ajudaram a democracia pelos seus talentos, os outros pelos seus vícios. Luís XI e Luís XIV cuidaram de abaixo do trono tudo igualizar, e Luís XV acabou por se pôr ele mesmo com a sua corte ao rés do pó. Desde que os cidadãos começaram a possuir a terra por outros modos que não eram os da tenência feudal, e desde que, uma vez conhecida a riqueza mobiliária, esta pôde por seu turno criar influência e dar poder, não se fizeram descobertas nas artes, não se introduziram novos aperfeiçoamentos no comércio e na indústria, sem que se criassem como que outros tantos elementos de igualdade entre os homens. A partir desse momento, todos os procedimentos que se descobrem, todas as necessidades que nascem, todos os desejos que reclamam satisfação, são progressos em direcção ao nivelamento universal. O gosto do luxo, o amor da guerra, o império da moda, as paixões mais superficiais do coração humano como as mais profundas, parecem trabalhar de concerto para empobrecer os ricos e para enriquecer os pobres. Desde que os trabalhos da inteligência se tornaram fontes de força e de riquezas, passou a ter de se considerar cada desenvolvimento da ciência, cada conhecimento novo, cada ideia nova, como um germe de poder posto ao alcance do povo. A poesia, a eloquência, a memória, as graças do espírito, os fulgores da imaginação, a profundidade do pensamento, todos estes dons que o céu repartiu ao acaso, aproveitaram à democracia, e ainda quando se acharam na posse dos seus adversários, continuaram a servir a sua causa, pondo em relevo a grandeza natural do homem; as suas conquistas alargaram-se pois com as da civilização e das luzes, e a literatura foi um arsenal aberto a todos, aonde os fracos e os pobres foram cada dia buscar armas. Quando se percorrem as páginas da nossa história, não se encontram por assim dizer grandes acontecimentos que de há setecentos anos a esta parte não tenham vindo a mostrar-se favoráveis à igualdade. As cruzadas e as guerras dos ingleses dizimam os nobres e dividem as suas terras; a instituição das comunas introduz a liberdade democrática no seio da monarquia feudal; a descoberta das armas de fogo igualiza o vilão e o nobre no campo de batalha; a imprensa oferece iguais recursos à sua inteligência; o correio vem depor a luz no limiar da cabana do pobre como à porta dos palácios; o protestantismo sustenta que todos os homens se encontram igualmente em estado de procurar o caminho do céu. A América, ao ser descoberta, apresenta à fortuna mil novas vias, e entrega ao obscuro aventureiro as riquezas e o poder. Se, a partir do século XI, examinardes o que de cinquenta em cinquenta anos se passa em França, não deixareis de vos aperceber de que, no termo de cada um desses períodos, uma dupla revolução se operou no estado da sociedade. O nobre terá baixado na escala social, o plebeu nela ter-se-á elevado; um desce, o outro sobe. Cada meio século os aproxima, e em breve se  tocarão. E isto não é somente o caso particular de França. Seja para onde for que volvamos o olhar, aperceber-nos-emos da mesma revolução que prossegue em todo o universo cristão. Por toda a parte vimos os diversos incidentes da vida dos povos acabarem por aproveitar à democracia; todos os homens a ajudaram com os seus esforços; os que tinham em vista concorrer para os seus sucessos e os que não pensavam servi-la; os que combateram por ela e os que se declararam embora seus inimigos; todos foram impelidos conjuntamente pela mesma via, e todos trabalharam em comum, uns contra sua vontade, outros sem o saberem, cegos instrumentos nas mãos de Deus. O desenvolvimento gradual da igualdade é pois um facto providencial. Tem deste os principais caracteres: é universal, é duradouro, escapa dia após dia ao poder humano, todos os acontecimentos e do mesmo modo todos os homens serviram o seu desenvolvimento. Seria sensato pensar que um movimento social que vem de tão longe possa ser suspenso por uma geração? Poderá pensar-se que depois de ter destruído a feudalidade e vencido os reis, a democracia recuará perante os burgueses e os ricos? Irá deter-se agora que se tornou tão forte e os seus adversários tão fracos? Para onde vamos, então? Ninguém poderia dizê-lo; porque os termos de comparação nos faltam já: as condições são mais iguais nos nossos dias entre os cristãos do que alguma vez foram noutro tempo e noutra região do mundo; assim a grandeza do que foi feito impede a previsão do que se pode fazer ainda. Todo o livro que aqui se vai ler foi escrito sob a impressão de uma espécie de terror religioso produzida na alma do autor pela visão desta revolução irresistível que avança desde há tantos séculos através de todos os obstáculos, e que vemos ainda hoje avançar por entre as ruínas por ela feitas. Não é necessário que Deus fale directamente para que possamos descobrir sinais certos da sua vontade; basta que examinemos a marcha habitual da natureza e a tendência contínua dos acontecimentos; sei, sem que o Criador levante a voz, que os astros seguem no espaço as curvas que o seu dedo traçou. Se prolongadas observações e meditações sinceras levassem os homens dos nossos dias a reconhecer que o desenvolvimento gradual e progressivo da igualdade é ao mesmo tempo o passado e o porvir da sua história, essa descoberta só por si daria a esse desenvolvimento o carácter sagrado da vontade do senhor soberano. Querer deter a democracia pareceria então ser lutar contra o próprio Deus, e não restaria às nações senão acomodarem-se ao estado social que lhes impõe a Providência. Os povos cristãos parecem-me oferecer nos nossos dias um espectáculo assustador; o movimento que os arrebata é já forte o bastante para que não se possa suspendê-lo, e não é ainda tão rápido que se tenha de desesperar de o dirigir: a sua sorte está entre as suas mãos; mas em breve lhes escapará. Instruir a democracia, reanimar se for possível as suas crenças, purificar os seus costumes, regular os seus movimentos, substituir pouco a pouco a ciência dos assuntos à sua inexperiência, o conhecimento dos seus verdadeiros interesses aos seus instintos cegos; adaptar o seu governo aos tempos e aos lugares; modificá-lo segundo as circunstâncias e os homens: tal é o primeiro dos deveres a impor-se aos que nos nossos dias dirigem a sociedade. Uma ciência política nova é necessária a um mundo inteiramente novo. Mas é em tal que pouco pensamos: colocados no meio de um rio rápido, fixamos obstinadamente os olhos nos poucos destroços que ainda se avistam na margem, enquanto a corrente nos arrasta e nos empurra de costas para os abismos. Não há povos na Europa entre os quais a grande revolução social que acabo de descrever tenha feito progressos mais rápidos do que entre nós; mas foi sempre ao acaso que entre nós ela avançou. Nunca os chefes do Estado pensaram em preparar coisa alguma antecipando a sua chegada; ela fez-se contra eles ou sem que eles o soubessem. As classes mais poderosas, mais inteligentes e mais morais da nação não procuraram apoderar-se dela, a fim de a dirigirem. A democracia foi pois abandonada aos seus instintos selvagens; cresceu como essas crianças, privadas dos cuidados paternos, que se ensinam a si mesmas nas ruas das nossas cidades, e que não conhecem da sociedade senão os seus vícios e as suas misérias. Parecia ignorar- -se ainda a sua existência, quando se apoderou de imprevisto do poder. Cada um se submeteu então com servilismo aos seus ínfimos desejos; adoraram-na como a imagem da força; quando depois se viu enfraquecida pelos seus próprios excessos, os legisladores conceberam o projecto imprudente de a destruírem em vez de procurarem instruí-la e corrigi-la, e sem quererem ensiná-la a governar, não pensaram senão em repeli-la do governo. De onde resultou que a revolução democrática se operou no material da sociedade, sem que se houvesse feito, nas leis, nas ideias, nos hábitos e nos costumes, a mudança que teria sido necessária para tornar essa revolução útil. Assim temos a democracia, menos o que deve atenuar os seus vícios e pôr em realce as suas vantagens naturais; e vendo já os males que ela acarreta, ignoramos ainda os bens que pode dar-nos. Quando o poder real, apoiado na aristocracia, governava sossegadamente os povos da Europa, a sociedade, no meio das suas misérias, gozava de vários géneros de felicidade, que dificilmente se podem conceber e apreciar nos nossos dias. O poderio de alguns súbditos levantava barreiras intransponíveis à tirania do príncipe; e os reis, sentindo-se de resto revestidos aos olhos da turba de um carácter quase divino, bebiam, nesse mesmo respeito que faziam nascer, a vontade de não abusarem do seu poder. Colocados a uma distância imensa do povo, os nobres punham contudo na sorte do povo essa espécie de interesse benevolente e tranquilo que o pastor concede ao seu rebanho; e, sem verem no pobre um seu igual, olhavam pelo seu destino, como por um encargo depositado pela Providência entre as suas mãos. Não tendo concebido a ideia de um outro Estado social que não o seu, não imaginando que poderia alguma vez igualar-se aos seus chefes, o povo recebia as benesses daqueles e não discutia os seus direitos. Amava-os quando eram clementes e justos, e submetia-se sem custo e sem baixeza aos seus rigores, como a males inevitáveis que o braço de Deus lhes enviasse. O uso e os costumes tinham de resto estabelecido limites à tirania e implantado uma espécie de direito até mesmo no meio da força. Não tendo o nobre o pensamento de que quisessem arrancar-lhe privilégios que cria legítimos; olhando o servo a sua inferioridade como um efeito da ordem imutável da natureza, concebe-se que tenha podido estabelecer-se uma espécie de benevolência recíproca entre estas duas classes cuja sorte fora tão diferentemente repartida. Viam-se então na sociedade, desigualdade, misérias, mas nela não eram degradadas as almas. Não é o uso do poder ou o hábito da obediência que deprava os homens, é o uso de uma força que consideram como ilegítima, e a obediência a um poder que olham como usurpado e como opressor. De um lado estavam os bens, a força, os ócios, e com eles a busca de luxos, os refinamentos do gosto, os prazeres do espírito, o culto das artes; do outro, o trabalho, a grosseria e a ignorância."
Alexis de Tocqueville, in Da Democracia na America, Relógio D’Água Editora, pp.31-35

Sobre o autor e o livro:
"Alexis de Tocqueville (Paris,1805- Cannes,1859) surge-nos hoje como um dos primeiros teóricos da modernidade. Quer se trate da filosofia, da política ou da sociologia, a sua principal obra, Da Democracia na América, surge-nos como referência obrigatória.
Editada em Paris pela primeira vez em 1835, Da Democracia na América tornou célebre o jovem autor, considerado de imediato um herdeiro de Montesquieu devido à capacidade de observação, elegância de estilo e serenidade de pensamento. Foi isso que levou Dilthey a considerar, alguns anos depois, Tocqueville como «o maior pensador político desde Aristóteles e Maquiavel».
São dois os temas fundamentais abordados em Da Democracia na América. A parte inicial trata das instituições norte-americanas como expressão dos costumes e do estilo de vida e aborda os princípios em que se baseia um Estado democrático. Descreve o funcionamento dos três poderes da União, a estrutura e fundamentos do poder judicial, os corpos legislativos e a organização do poder executivo federal. Examina o sistema bipartidário, a importância das associações, o poder da maioria e as suas consequências. Esta primeira parte termina com uma série de capítulos destinados a avaliar a influência dos costumes e da religião na organização do sistema democrático.
Na segunda parte do livro, elabora-se uma teoria do Estado democrático que é o grande contributo de Tocqueville para a filosofia política. O aspecto decisivo está, segundo Tocqueville, na igualdade de condições que impera na sociedade norte-americana: «como ninguém difere dos seus semelhantes, ninguém poderá exercer um poder tirânico, pois, neste caso, os homens serão perfeitamente livres, porque serão de todo iguais; e serão perfeitamente iguais, porque serão de todo livres».
A igualdade e a causa da liberdade estão indissociavelmente ligadas.
Quase dois séculos depois da sua primeira edição, Da Democracia na América continua a demonstrar a sua indiscutível actualidade na ciência política."

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

MORRER

J.M.W. Turner, 1810.
Morrer é nunca mais ir conhecer
tanta coisa bela que se vai criar,
é dizer adeus ao que vai haver,
é ir estar ausente do abrasar.

Estar morto é não ter acontecido,
é o estado de antes de nascer,
é o retorno ao ainda não ter sido,
é o que quer que seja o não ser.

Para o morto, não há qualquer recurso,
não existem, na morte, tribunais.
Está fechado qualquer percurso,

naqueles territórios radicais!
O morto é muito mais que esquecido,
tornou-se um fantasma descabido.
                              04.11.2022
Eugénio Lisboa

André Ventura, a Lusofonia e um texto de Mia Couto

André  Ventura, a Lusofonia e um texto de Mia Couto
por Eugénio Lisboa
“André Ventura declarou, num daqueles surtos de originalidade que o caracterizam, que a derrota de Jair Bolsonaro era um enorme prejuízo para a Lusofonia. Ora a derrota do destruidor da Amazónia, da cultura brasileira, da vida dos mais pobres e da dignidade humana, não é uma perda nem para o Brasil, nem para Portugal, nem para os restantes países da Lusofonia, nem para a humanidade em geral. Pelo contrário: todos ficaram melhor com o seu afastamento do poder, naquele país irmão. Bolsonaro não tinha os requisitos mínimos para um chefe de Estado: nem inteligência, nem sensibilidade, nem cultura política, para não falar de cultura tout.court, nem de dignidade de chefe de Estado: é um homem grosseiro, como ficou amplamente demonstrado, no modo como procedeu, quando da visita do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa ao Brasil, por ocasião da celebração bicentenária. E também pelo modo rasteiro e abrupto como respondeu a uma repórter portuguesa, troçando da língua portuguesa falada em Portugal, como se o berço dela tivesse sido o Brasil, onde, segundo ele, estaria a pronúncia canónica da língua em que Eça teria (mal) imitado Machado de Assis…
Foi a esta desastrada e pouco patriótica declaração do líder do CHEGA que o admirável escritor Moçambicano Mia Couto deu uma firme e bela resposta. Mia Couto é, como sabem todos os que o conhecem, não só um grande escritor em língua portuguesa, que soube inovar e acrescentar, com indiscutível talento, mas também um homem de uma integridade e coragem, à prova de qualquer vírus. Foi, pois, um escritor oriundo da terra onde nasci e que considero uma das duas pátrias que tenho, quem veio destemidamente meter na ordem um dos mais perigosos vírus que ameaçam a sociedade portuguesa: a extrema-direita de André Ventura. E, de caminho, defender a língua que domina como poucos e tem ACRESCENTADO, como é de ofício de todo o criador literário. A língua portuguesa tem –se inovado, tem crescido, tem-se diversificado e enriquecido, não apenas com os grandes mestres dela, que viveram em Portugal (Fernão Lopes, Camões, Vieira, Camilo, Eça, Pessoa), mas também com outros de outras latitudes, que lhe adicionaram outro sal e outra pimenta (Machado de Assis, Graciliano Ramos, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Luis Bernardo Honwana, José Craveirinha, Luandino Vieira, José Eduardo Agualusa, entre muitos, muitos outros).
Toda esta riqueza e muita outra que aqui não referi está sempre ameaçada pelos políticos ignorantes e grosseiros, para quem a cultura e a ciência são sempre um perigo e, no mínimo, uma chatice cara e um desperdício.
O desaparecimento de Bolsonaro não é uma perda para ninguém: é uma esplendorosa benesse! Disse-o com a maior clareza a comunidade brasileira emigrada para vários países do mundo, incluindo Portugal. Disse-o com o voto. Mia Couto disse-o com o instrumento em que se sagrou mestre: a língua portuguesa. Ameaçada, como tudo o que é bom, pelos ego-maníacos que só sabem agredir e destruir.”
Eugénio Lisboa, 03.11.2022

OSCAR WILDE

  

A vida imita a arte, dizia
Wilde, que tudo sempre invertia,
a bem do nosso encanto e alegria,
enquanto a si e a nós divertia.
 
O brilho do irlandês ofuscava,
influenciava e perturbava.
Nos paradoxos que ele lançava,
havia uma luz que abrasava!
 
Ser ou não ser brilhante, eis a questão:
queimados ao brilho daquele sol,
valia tudo, excepto a razão.
 
Aquele luminescente farol,
em lugar de evitar o naufrágio,
fazia dele cintilante apanágio!
                            03.11.2022
Eugénio Lisboa

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

No aniversário de Manoel de Andrade


Completa,  hoje,  oitenta e dois anos o poeta de Curitiba. Homenageá-lo é escutar a melodia dos seus poemas, que  se eleva em magistral sinfonia  porque  tem, como acordes, o coração de uma América Latina, sonhada e percorrida de lira na mão.
Um poema basta para que a sua voz nos transporte para lá do Atlântico , num histórico  trajecto que só ele é capaz de conduzir. 
A Manoel de Andrade,  o nosso agradecimento e sentidas felicitações.

Machu Picchu , Peru

América, América...
 
Trago ainda na alma o mapa dos caminhos
Meus versos riscam teu dorso para marcar um tempo único e
                                                                                 [perfumado.
América, América,
Ali, entre o musgo e as rochas, o abismo florescido.
Acolá, o milho semeado e a colheita rumorosa.
Entre serras e quebradas vai o colla dedilhando sua flauta.
É seu hino à pachamama modulando o silêncio do altiplano.
 
Canto meu enredo de viandante,
passo a passo rumo ao norte e à alvorada.
Quantos atalhos, meu Deus, quantas fronteiras!
A travessia ao entardecer no Titicaca,
o Illimani batido pelo sol,
e aquela noite sob as estrelas em Macchu Picchu.
Ah! este aguaceiro vem agora molhar minha saudade,
e tudo me chega como um recanto do passado,
e se hoje digo amigos e digo hermanos,
ouço nossos passos ecoando nas vielas seculares de Quito e
                                                                                 [de La Paz.
 
Abre teu cântaro, ó Poesia, e dá-me um punho de rocio para
                                                                              [escrever-te
porque ainda não te cantei quanto quisera.
América, América,
que canção para mim soará mais bela que tuas sílabas de
                                                                               [encanto?
 
 
 
Canto o sul de Anahuác,
falo de uma América primeira,
asteca, quiché, chibcha, quéchua, mapuche e guarani,
essa América materna,
botânica e ancestral,
sangrada por Cortez, Pizarro e por Valdivia.
 
Canto a América que vivi
uma só pátria e violentada,
submetida pelas garras perversas do Império.
Vi tuas trincheiras abertas,
o fulgor do teu rosto renascido da utopia,
tuas bandeiras de sonhos
feitas de plumas e veias transparentes.
Os campos todos semeados
e o porvir tatuado em cada gesto.
Tudo era aroma na gleba cultivada,
nos brotos germinava a esperança
e nossas pálpebras se abriam para o amanhã.
 
Depois as densas trevas sobre o sul,
o chumbo cruel,
os labirintos da dor e das atrocidades.
E eis que gemem os cravos e gemem as rosas,
geme a vida ainda em botão.
Mancho este verso para nomear Garrastazu, Bordaberry,
                                                             [Videla e Pinochet.
Para denunciar a verdade sufocada
e os rastros genocidas do terror.
Para falar das valas clandestinas,
das ossadas do Atacama
e dos “voos da morte” para o mar
Meu réquiem para trinta mil argentinos,
meu canto para as crianças da ditadura,
para os sobreviventes e suas cicatrizes,
para a viuvez e a orfandade
para las Madres de Plaza de Mayo e suas lágrimas perenes.
 
América, América,
quarenta anos se passaram
e tuas feridas ainda emergem da tragédia!
Eis porque denuncio a face perversa dos condores,
os teus generais malditos.
Canto a ti, América,
teu nevado esplendor tantas vezes torturado,
América de tantas agonias e massacres,
ouço-te ainda na voz melancólica dos charangos, quenas e
                                                                            [zamponhas,
chorando por la matanza de San Juan, em Potosi.
Uma América de lágrimas,
traída em Cajamarca,
esquartejada em Cusco,
sacrificada em La Higuera.
executada em Trelew, El Frontón, Villa Grimaldi e no
                                                                     [Dói-Codi.
 
Perdão... pelo meu canto,
ele é também assim: um áspero clarim ao entardecer.
Distante, tão distante,
no tempo e nos andares,
e hoje, em busca de mim mesmo,
ainda abrigo o mesmo combativo coração.
Não sei o que te espera, América,
os anos correram inquietantes e velozes
restando um mundo com seu som intolerável
 
Por um momento digo basta,
há tanta dor nessas memórias.
Meu pensamento em prece, e num lampejo, viaja ao sul do
                                                                                     [Chile.
Lá, muito além do Bio-Bio, há um golfo deslumbrante.
Vou em busca de Arauco,
lá lutaram meus heróis, Caupolicán e Galvarino.
Foi lá onde viveu Lautaro e onde vive Frederico.
Vou para rever o cone nevado do Antuco
rever o vale e a Cordilheira,
o seu dossel verdejante, onde se gesta a vida.
Vou para relembrar uma baía de barcos,
para construir uma paisagem na alma,
uma tenda de luz para um amigo.
                                       Curitiba, 20 de dezembro de 2013
Manoel de Andrade
, in “ As palavras no espelho”, Escrituras Editora, 2018, pp. 243-246

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Do livro falemos

 
Um livro torna-me muito mais livre.
Um livro abre-me imensas portas.
Antes do livro, era semilivre.
Sem livro, as portas estavam tortas
 
e não abriam. Mas os livros abrem
portas, mesmo se tortas, porque sabem
endireitar tudo o que está torto
e ressuscitar tudo o que está morto.
 
Porque o livro tem vida e saber
e, muitas vezes, tem até sabor.
O saber dá-nos imenso poder
 
e o sabor dá-nos muito prazer!
O livro sabe, pode e contenta,
condimentado com sal e pimenta!
                                02.11.2022
Eugénio Lisboa

Conselhos aos que visam a glória a qualquer custo


Os estrategas da glória não usam
a coragem, como arma dilecta:
a glória não gosta dos que abusam
de uma ousadia que a afecta!
 
Visar a glória exige cuidado:
nunca atacar o nicho desejado,
e nunca apoiar o pestiferado.
Louvar, de vez em quando, o frustrado,
 
mesmo que patife, dá resultado.
Não cultivar, em excesso, a virtude
é conselho de amigo avisado.
 
Convém ver o terreno que se pisa
e aquele a quem o texto alude.
Um só erro e adeus para-brisa!
                               01.11.2022
Eugénio Lisboa

terça-feira, 1 de novembro de 2022

A vida tem outras facetas que não o puro horror

Prefácio
Daphne Merkin
“Ter graça não é fácil. Como bem saberá quem já tenha passado uma festa a ouvir piadas secas, vendo-se forçado a rir, pouco mas educadamente, o desejo de ser engraçado é ambição de muitos mas dom de poucos. Então no papel, onde não se pode contar com timings, gestos e expressões faciais para pontuar ou enfatizar uma piada, fazer rir pode revelar-se tarefa ainda mais árdua. Noutros tempos, que parecem já bem distantes, a arte de ter graça, a arte da escrita do género de textos humorísticos que o The New York Times designava por «casuals», era praticada por sumidades de dedos ágeis como Robert Benchley, Dorothy Parker, George S. Kaufman e S. J. Perelman. Nos dias de hoje, ter graça, especialmente no prelo, parece constituir, em grande parte, tarefa mais laboriosa e elaborada — gerando sorrisos de reconhecimento, talvez, mas dificilmente risos e, menos ainda, ataques de riso.
E depois temos Woody Allen. Muitos dos seus ditos espirituosos, pronunciados seja nos ensaios, seja nos filmes, estão completamente embebidos no tecido da nossa cultura. «Se de facto houver um Deus… o pior que se pode dizer dele é que o seu trabalho deixa muito a desejar» [Love and Death/Nem Guerra, nem Paz]. Outros são menos conhecidos, mas igualmente memoráveis, baseando-se o seu efeito numa associação inesperada entre alusões high-brow e humor low--brow: «Trabalhei com Freud em Viena. Desentendemo-nos a respeito  do conceito de inveja do pénis. Freud achava que  devia circunscrever-se às mulheres.» [Zelig] 
Uma das minhas  tiradas preferidas é uma sátira ao tipo de memorialista portentoso que parte do princípio de que todos estão interessados nas suas revelações, e por isso tenta, de forma irritante, dissimular o seu rasto. O dito encontra-se em «Seleções dos Blocos de Apontamentos Allen», o primeiro texto de Without Feathers/Sem Penas, a sua segunda coletânea, publicada em 1975. (A primeira foi Getting Even/Para Acabar de Vez com a Cultura, publicada em 1971.) «Será que me devo casar com W.? Só se ela me disser as outras letras do seu nome.» Uma terceira coletânea, Side Effects/Efeitos Secundários, foi publicada  em 1980, e uma quarta, Mere Anarchy /Pura Anarquia, em 2007.Temos igualmente a paródia à delicada observação de Emily Dickinson, que cumpre a função de epígrafe de Without Feathers   («Hope is the thing with feathers»), que  Allen corrige de forma laboriosa e hilariante: «Como estava errada Emily Dickinson. A esperança não é “aquela coisa com penas”. A coisa com penas, na verdade, é o meu sobrinho. Tenho de o levar a um especialista em Zurique.» Sem esquecer a abertura de «Examinar Fenómenos Psíquicos»: «É inquestionável que existe um mundo nunca visto. O problema é saber a que distância está do centro da cidade, e a que horas fecha.» Talvez o texto mais precioso do livro, porém, seja «A Prostituta de Mensa», acerca de uma aluna de uma  escola de elite, de 18 anos, que tem uma vida dupla como call girl. A matrona para quem ela trabalha tem um mestrado  em Literatura Comparada, e a especialidade da rapariga é envolver os clientes em discussões intelectuais. Consegue discorrer interminavelmente sobre Moby Dick («O extra do Simbolismo») e a ausência de subestrutura de pessimismo em Paraíso Perdido. O texto é simplesmente genial — e separador de águas. Poderíamos prosseguir indefinidamente. Without Feathers foi publicado,  por mais que custe a crer, há quase meio século, e passou quatro meses na lista de campeões de vendas do New York Times. Cimentou a reputação de Allen como humorista cerebral, uma extensão da persona dócil e infeliz  dos seus filmes, mas com um desvio quase impercetível da sua personalidade submissa e autodepreciativa para uma figura  de autoridade ligeiramente (ligeiramente apenas) maior, que comenta o mundo absurdo que a rodeia. Permanecem a subtonalidade característica da melancolia — aquilo que o próprio Allen designou por anedonia (a incapacidade de apreciar  as coisas) — e o ponto de vista urbano, bem como a perspetiva pessimista que tem algo de absurdo e dá cor a tudo  aquilo que vê, desde amor, sexo e morte até aos monumentos  da cultura. Numa secção designada «Prognosticação», e de novo em «Examinar os Fenómenos Psíquicos», cita os ditos  ostensivamente sábios de um conde do século XVI  chamado Aristónides. «Vejo uma grande pessoa» — anuncia este sábio — «que inventará um dia em favor da Humanidade uma  peça de vestuário a usar sobre as calças para as proteger ao  cozinhar. Chamar-se-á “abron” ou “aprone”.» (Aristónides referia-se, claro está, ao avental.) Se se pode classificar os comediantes como prodígios, como se faz com os pianistas asiáticos de 13 anos, então  Allen cumpre indubitavelmente os requisitos. Começou a  vender piadas aos 15 anos e foi irradiado da Universidade de Nova Iorque por ser demasiado assíduo a faltar às aulas,  e trabalhava pouco e era demasiado pouco atento. Escassos  anos depois, Allen escrevia guiões para episódios especiais  de Sid Caesar, criando piadas em ritmo de fogo de rajada. Trabalhou com Mel Brooks, Larry Gelbart, Carl Reiner e  Neil Simon, e era capaz de se sentar à máquina de escrever, reza a lenda, quinze horas a fio, produzindo piadas e ditos espirituosos sem parar. (Aqui não há bloqueio do escriba.)  Durante os anos 60, prosseguiu a sua carreira atuando como  standup comedian em Greenwich Village, no The Bitter End  e no Cafe Au Go Go. Ao mesmo tempo, escrevia e realizava  comédias slapstick como Take the Money and Run /O Inimigo Público (1969), Bananas (1971), Sleeper /O Herói do  Ano 2000 (1973) e Love and Death /Nem Guerra, nem Paz (1975). Ainda me lembro de ir ver Take the Money and Run na qualidade de adolescente resistente, género tenta-lá-fazer-me-rir-vá, e irromper em gargalhadas sonoras quando Allen,  desempenhando o papel de assaltante de bancos frustrado,  exibe um letreiro onde se lê: «I have a gub»*(1)
E agora, senhoras e senhores, e membros não-binários do  público leitor, a vossa paciência será recompensada. O auteur dos olhos tristes regressou mais de quinze anos após a sua última coletânea com um novo livro intitulado Gravidade  Zero. Alguns dos textos aqui presentes foram publicados na  The New Yorker, enquanto outros foram escritos expressamente para esta nova obra. Entre estes últimos inclui-se uma  pungente short story de cinquenta páginas intitulada «Crescer em Manhattan», quintessencialmente allenesca na sua mistura de nostalgia romântica e incredulidade de  sobrolho-levantado perante «mais uma contradição de um mundo especialmente concebido para que ele jamais o entenda». O duplo de Allen é Jerry Sachs, 22 anos, nado e criado  em Flatbush num «prédio de apartamentos de tijolo vermelho cujo nome homenageava um patriota. O Ethan Allen. Pensava por vezes para consigo que o nome melhor para o  espaço, considerando o seu exterior encardido, o átrio banal  e o porteiro habitualmente ébrio, seria Benedict Arnold». Sachs trabalha na sala do correio de uma agência teatral,  contra o desejo da mãe, «mulher perpetuamente desprovida  de encantos» de que se tornasse farmacêutico. O membro  mais referenciado da sua família é um primo que «pronuncia  as palavras como Abba Eban». Sachs vive num «apartamento  de um só quarto, acanhado e sem elevador, em Thompson Street» e importuna a mulher, Gladys (um nome perfeito  para uma primeira esposa), que trabalha numa agência imobiliária e frequenta à noite o City College com o intuito de  se tornar professora, com a sua «ladainha de queixas psicossomáticas». Sachs é um apaixonado por Manhattan na sua  fase mais requintada, dos tempos do El Morocco e do Gino’s,  quando as «pessoas bonitas travavam diálogos inteligentes  a bebericar cocktails num cenário Cedric Gibbons». Num dia de primavera, está sentado no seu banco preferido do lado poente do lago dos barcos à vela quando  uma rapariga adorável chamada Lulu, de olhos violeta que  «projetam uma sofisticada forma de estar urbana» se senta  na outra ponta do banco. Quando a informa de que está a escrever uma peça «acerca de uma mulher judia que se vê  forçada a fazer opções existenciais», Lulu interrompe-o para lhe dizer que a sua tese versou filosofia alemã. «O Conceito da  Liberdade na Poesia de Rilke». Entusiasma-se com a ideia de Sachs dar um tratamento cómico a esses temas, e ele reage  em conformidade: «A aprovação dela fez-lhe deslocar a  calota da cabeça, levantar voo como um disco voador e dar a volta ao sistema solar antes de regressar à base.» A partir  daí, pelo menos durante algum tempo, os dois embrenham-se em kismet — até ao momento em que a relação vai por  água abaixo, devido a uma proposta de orgia que Lulu não  quer perder, e à qual Sachs, pelo contrário, se opõe: «Não  me classificaria como ansioso», declara, irritado, «por não me apetecer fazer sexo com o Mormon Tabernacle Choir.»  De qualquer forma, tratando-se de uma criação de Woody  Allen, nunca esperaríamos que a felicidade viesse para ficar, verdade? Há mais dezoito histórias mais curtas que abordam todos os temas, desde candidatos a atores falhados representados  por agentes como Toby Munt da Associated Parasites  até às origens da Galinha General Tso, passando pelo pied--à-terre com «enorme mansão em Belgravia» onde residem  o Duque e a Duquesa de Windsor, preocupando-se o Duque  com a criação de um nó de gravata Windsor aceitável e a melhor forma de fazer um laço enquanto a Duquesa, «tentando ocupar o tempo, treina a Watusi a partir de um diagrama de passos colado no chão». Um ensaio, «Park Avenue, Último Andar, Obrigatório Vender — Ou Saltar», escalpeliza  a ganância e os esquemas paralelos do mercado imobiliário,  enquanto outro descreve um cavalo que se aventura na pintura a óleo e se transforma num artista requisitado. «Contas de Manhattan» traz-nos Abe Moskowitz, que «caiu morto de ataque cardíaco e reencarnou sob a forma de lagosta», após o que a história resvala para uma paródia do arquivigarista Bernie Madoff, que escapa por pouco a ser ele próprio transformado em lagosta. Outra história transforma o Monopólio  no jogo da vida real, jogado com paradas altas por antigos sócios do Lehman Brothers. Outra aborda o  caso de um grupo de galinhas recalcitrantes, enquanto outra debate a  virtude de diversas almofadas, cuja conversa é situada no London Explorers Club. Há uma rápida e astuta deambulação pela cultura woke e, como não podia deixar de ser, Hollywood, com o seu faux glitz e pseudo-hierarquias, é alvo de frequentes surras.
Indo direto ao assunto: Allen não perdeu pitada da sua capacidade de entretenimento e deleite, quer o faça através do seu estilo intencionalmente pomposo, incluindo a utilização confusa de palavras caras, barrocas ou obscuras — gewgaw, afflatus, syncope, callipygian, crepuscular — quer inventando nomes disparatados, mas estranhamente adequados às suas personagens, como Hal Roachpaste, Ambrosia Wheelbase, Hugh Forcemeat, Panufnik, Morey Angleworm, Grossnose… a lista é interminável. Temos igualmente o borrifar pródigo de referências eruditas, de Scriabin, Reinhold Niebuhr e La Rochefoucald até Strindberg e Turgenev. E também, já agora, para não ser acusado de demasiado rebuscado, Miley Cyrus.
Mais impressionantes, porventura, para uma académica caduca como eu própria, são as alusões a expressões como «exaltação das cotovias», ou «o mar atormentado por gongos» de W. B. Yeats. Se escutar com atenção, poderá ouvir a característica execução de Allen por detrás das palavras — as consoantes dentilabiais, o tom neutro, mas melancólico, a passagem repentina e brusca da mais normal e plebeia das observações para comentário absolutamente desvairados. Nestes tempos cada vez mais escuros que são os nossos,  quando um biltre baixote de olhos estreitos parece apostado  em semear caos e sofrimento no mundo, uma das poucas pausas que nos resta poder fazer na tristeza e no desespero são o toquezinho ligeiro de humor e as irrupções ostensivas de rebaldaria, que nos recordam que a vida tem outras facetas que não o puro horror. Nunca como agora foi tão importante fazer os palhaços entrar em cena. Woody Allen que entre pois em cena.”
Daphne Merkin,  em 
Prefácio a Zero Gravity , de Woody Allen, Ediçoes 70, pp.11-18
 
WOODY ALLEN
"Woody Allen é argumentista, realizador e actor. Stand-up comedian, tem também vasta obra publicada em livro. Vive em Manhattan, no Upper East Side, com a mulher, Soon-Yi, e as duas filhas de ambos, Manzie e Bechet. Apaixonado pelo jazz e entusiasta do desporto. Nas suas próprias palavras, lamenta nunca ter feito um grande filme, embora afirme que ainda está a tentar.
Sinopse
ZERO GRAVITY
é o quinto livro de textos humorísticos de Woody Allen, um artífice de prosa hilariante que conquistou um alargadíssimo séquito de leitores desde os seus clássicos Pura Anarquia, Sem Penas, Getting Even e Side Effects. Sejam os textos sobre cavalos que pintam, carros que pensam ou a vida sexual de celebridades, Woody Allen é sempre original, sofisticado, extremamente observador e, o mais importante, implacavelmente engraçado."

*(1) - Em vez de " I have a gun. " [N. do T.]