terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Amar e envelhecer


Amar
Enquanto somos amados somos compreendidos sem palavras.

Amar é... 
sorrir por nada e ficar triste sem motivos,
é sentir-se só no meio da multidão,
é o ciúme sem sentido,
o desejo de um carinho; 
é abraçar com certeza e beijar com vontade,
é passear com a felicidade, 
é ser feliz de verdade!

Envelhecer
"Envelhecer é o único meio de viver muito tempo. A idade madura é aquela na qual ainda se é jovem, porém com muito mais esforço. O que mais me atormenta em relação às tolices de minha juventude não é havê-las cometido... e sim não poder voltar a cometê-las. Envelhecer é passar da paixão para a compaixão. Muitas pessoas não chegam aos oitenta porque perdem muito tempo tentando ficar nos quarenta. Aos vinte anos reina o desejo, aos trinta reina a razão, aos quarenta o juízo. O que não é belo aos vinte, forte aos trinta, rico aos quarenta, nem sábio aos cinquenta, nunca será nem belo, nem forte, nem rico, nem sábio... Quando se passa dos sessenta, são poucas as coisas que nos parecem absurdas. Os jovens pensam que os velhos são bobos; os velhos sabem que os jovens o são. A maturidade do homem é voltar a encontrar a serenidade como aquela que se usufruía quando se era menino. Nada passa mais depressa que os anos. Quando era jovem dizia: “Verás quando tiver cinquenta anos”. Tenho cinquenta anos e não estou vendo nada. Nos olhos dos jovens arde a chama, nos olhos dos velhos brilha a luz. A iniciativa da juventude vale tanto a experiência dos velhos. Sempre há um menino em todos os homens. A cada idade lhe cai bem uma conduta diferente. Os jovens andam em grupo, os adultos em pares e os velhos andam sós. Feliz é quem foi jovem  na juventude e feliz é quem foi sábio na velhice. Todos desejamos chegar à velhice e todos negamos que tenhamos chegado. Não entendo isso dos anos: que, todavia, é bom vivê-los, mas não tê-los."

Nota: Não são mencionados  o autor ou autores destes textos por  não ser certa a sua atribuição. Assim, apresentamos as nossas desculpas pelo lapso que consideramos merecer aprovação pela beleza desta escrita.

domingo, 17 de janeiro de 2021

Ao Domingo Há Música

torga  de  Trás-os -Montes

Lisboa , 17 de Janeiro de 1985

Ímpeto

No cais deserto onde embarquei outrora,
Sonho agora
Outra aventura igual.
Fui Portugal
Na minha meninice.
Quem diz que já não posso
Rezar um padre-nosso 
E partir em seu nome na velhice?
Miguel Torga, Diário XIV,   p1422

Neste domingo , 17 de Janeiro de 2021, evocamos um grande poeta português, Miguel Torga , falecido a 17 de Janeiro de 1995. Este  poema escreveu-o dez anos antes da sua morte, sendo a entrada do seu Diário desse dia.
A sua escrita marcou-me profundamente,   de tal modo que, enquanto estudante universitária, tinha como objectivo acabar o curso com uma tese sobre Miguel Torga. Nesse tempo , Miguel Torga era, além de poeta e de notável  prosador,  um médico otorrinolaringologista,  radicado em Coimbra. Dele conhecia toda o obra publicada e a mulher, Andrée Crabbé Rocha, professora na minha Faculdade de Letras,  em Lisboa.  Nunca o conheci pessoalmente. Fiquei, sim, fascinada pela sua escrita que revisito  com encanto redobrado até hoje. As minhas estantes exibem  ostensiva e provocatoriamente a sua obra completa.
Ao tentar organizar esta habitual rubrica  musical, foi-me  impossível não assinalar a data  em que se perdeu mais um homem que procurou incessantemente  o redentor  caminho da Luz,  semeando sempre iluminados poemas, telúricos contos e um gigantesco Diário.  Num belo artigo sobre Miguel Torga , Eugénio Lisboa  afirma o seguinte:  "Como todos os grandes escritores, Miguel Torga acolheu e acarinhou, dentro de si, um mundo de contradições. Lega-nos uma vasta obra feita de palavras apetecidamente trabalhadas, ao mesmo tempo que nota, poucos anos antes de morrer, que “sempre a experiência [lhe] ensinou que os momentos mais significativos da nossa condição, por embargo ou pudor, são mudos”. Dito de outro modo, o cultivo continuado e apaixonado do verbo levou-o à descoberta do valor insigne do silêncio. Por outro lado, tendo passado toda uma vida a comunicar com o leitor, em prosa e em verso, conclui, numa anotação do seu último volume do Diário (com data de 10.9.1991), que: “Ninguém sabe nada de ninguém. Morremos inéditos. Tanto que tenho dito de mim, por palavras e obras, e pasmo diariamente diante da incompreensão dos mais íntimos. Foi inútil e inglório todo o meu esforço para ser transparente aos olhos do mundo. (...) Fiquei a ser, não o poeta que realmente sou, mas o monstro que me inventaram.” Ou ainda, e de forma mais sucinta e acutilante: “Vamos para a sepultura secretos como viemos. E sempre a fazer, laica ou religiosamente, sinceras confissões.” Inutilidade de toda a escrita? Futilidade de toda a intervenção? Conclusão final – pessimista – de um escritor que arriscou a liberdade na luta pelo ideal de uma pátria a viver em democracia? É verdade que, no mesmo Diário, e em data muito próxima, Torga regista isto: “Afirmei recentemente que o meu verdadeiro rosto, presente ou futuro, está nos livros que escrevi.” Mas que “verdadeiro rosto” se é, como ele próprio insinua, mais do que provável que o irão desfigurar? Esta obsessão relativa ao indecifrado segredo que todos nós – e em especial, ele, Torga – levamos para o túmulo irriga-lhe, de resto, as páginas do último volume do Diário. Noutro ponto, volta à carga, com ênfase reveladora: “E cada novo livro que publico”, sublinha ele, “é apenas mais um S.O.S. que, por descargo de consciência, lanço engarrafado ao mar das montras. Se o embrulho for encontrado em qualquer praia por alguém, e a mensagem lida e entendida, óptimo. Se não for, paciência. Nunca as nossas inquietações e angústias podem ser inteiramente partilhadas. Ao fim e ao cabo, todos vivemos e morremos em segredo. O mais profundo e significativo de nós em nenhuma circunstância vem à luz do solo. Principalmente ao bico da pena dos que mais se explicam e confessam mascarados de penitentes, e são quase sempre mestres consumados do disfarce. Santos Agostinhos há poucos.” A inculcação do número reduzido de Santos Agostinhos, isto é, de confessados dilacerantemente sinceros, aliados à verificação assumida de que “o mais profundo de nós em nenhuma circunstância vem à luz do sol” [sublinhado nosso], leva à conclusão não demasiado abusiva de que o autor de Bichos se não inclui entre os pares do autor de A Cidade de Deus. "
Miguel Torga morreu a 17 de Janeiro de 1995, às 12h e 33m, no Instituto de Oncologia, em Coimbra. No dia seguinte, foi sepultado em campa rasa no cemitério de S. Martinho de Anta. Passam, hoje, 26 anos sobre a sua morte.
Montserrat Caballe pôde rezar, em vida, um sentido padre-nosso. Ei-la numa magnifica interpretação de Padre Nuestro,  música composta por Jose María Cano (MECANO) para o Encontro Mundial de las Familias, celebrado em Valência, Espanha,  em 8 de Julho de 2006. 

 
Miguel Torga foi galardoado com vários prémios .  Em 1989, recebeu o Prémio Camões, sendo  o primeiro autor a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa. O prémio foi entregue em Ponta Delgada, no âmbito das comemorações do 10 de Junho, numa cerimónia presidida pelo Presidente da República, Mário Soares. No dia 2 de Junho, foi-lhe atribuída a condecoração de Oficial na Ordem das Artes e Letras, da República Francesa. 
Ponta Delgada, 10 de Junho de 1989
"Uma vida longa dá para tudo. Para se nascer obscuramente em Trás-os-Montes, mourejar adolescente em Terras de Santa Cruz, percorrer, solidário, na idade adulta, os actuais países lusófonos em luta pela independência, visitar, alanceado, na velhice, o que resta do Oriente português, e receber agora, nestes patrícios e paradisíacos Açores, um prémio sob a égide de Camões. Nos intervalos, ser cidadão a tempo inteiro, com profissão tributada e deveres cívicos assumidos, e poeta rebelde, cioso da sua liberdade de criador, numa época atribulada, de guerras, tiranias políticas, campos de concentração, terrorismo, bombas atómicas e outros flagelos […]"
Miguel Torga ,(Diário XV, 1990)
 
Eis um registo  sobre a vida e obra de Miguel Torga, com a  análise despretensiosa e reveladora do Pe. Augusto Cabral.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

No rastro da Utopia

Cochabamba , um  departamento do " eixo central " da Bolívia . 
Cochabamba, a terceira maior cidade da Bolívia.
VII - A revolta indígena na Bolívia
Visita a comunidades indígenas. A história de Julián Apaza Nina
por Manoel de Andrade
 "Terminara o Congresso de Poetas e com toda disponibilidade de tempo, aceitei o convite do pintor Atílio Carrasco para conhecer duas comunidades indígenas nas vizinhanças de um povoado chamado Quillacollo a uns quinze quilómetros de Cochabamba.  Ele conhecia alguns chefes das comunidades quíchuas da vizinhança e sobretudo um velho curaca (chefe), cuja sabedoria comentara dias antes e que foi o primeiro a visitarmos naquela manhã.  Quando chegámos, por volta das 10 horas, ele estava sentado sobre um banco de troncos ao lado da porta de sua casa, num ayllu nas redondezas do povoado. Tinha perto de sessenta anos; cobria-se com uma leve manta com listas de cores fortes e usava um chapéu indicando sua condição de curaca.  Sua expressão era respeitável e serena. Os olhos apertados e mansos como todo o tipo andino. Feições fortes, o grande nariz inclinado sobre a boca, os lábios grossos sempre prenunciando um sorriso e as maçãs do rosto eram salientes e firmes como as pequenas colinas da região. Não sei se pela amizade que tinha com Atílio, fugia da idiossincrasia impenetrável que pude observar dos habitantes indígenas dos ayllus quando em contato com os brancos. O velho patriarca, de sorriso aberto, irradiava paz e empatia ao acenar para os comuneiros que por ali passavam. Diante de minha curiosidade por uma imagem num pequeno altar no interior de sua casa, contou-me a história da Virgem de Urkupiña, segundo a qual uma bela mulher e um menino apareciam naquela região a uma jovem camponesa com a qual brincavam. O facto foi constatado pelo pároco do local e pelos pais da menina e, então, a história virou milagre, devoção e festa. Construiu-se uma igreja no local das aparições, a Virgem passou a ser padroeira de Quillacollo  e, ao longo dos anos, a peregrinação vinda de toda a Bolívia, fez do facto religioso um dos maiores eventos nacionais, associado às tradições, ao folclore. A festa que se fazia em sua homenagem, no mês de agosto, na qual ele e sua comunidade participavam com suas roupas típicas.

      Falava de tudo com um profundo respeito e religiosidade. De Deus, da Pacha Mama, da comunidade, do sol, da chuva e das colheitas com uma imensa gratidão pela vida. Contou-nos que falava com as plantas, com o vento e que as lhamas e as ovelhas o entendiam. Falou-nos de um passado recente em que a terra não lhe pertencia, do trabalho árduo, e o cansaço que foi chegando com a velhice, da parte da produção que tinha que entregar como imposto, mas que sempre perdoou os maus patrões que teve. Havia tanta espiritualidade em seu olhar, tanta transparência em suas palavras e isso era admirável num homem socialmente tão simples, um índio sem cultura, mas com uma profunda noção moral da vida, da verdade, do perdão, do real significado do cristianismo, enfim uma religiosidade cujo templo era a Natureza e cujo culto era feito no sacrário do próprio coração. Seu nome era Tomás, e nunca o pude esquecer, ele e o seu nome, porque a sua imagem humana sempre me fez lembrar a personagem do livro “A Cabana do Pai Tomás”, da escritora abolicionista americana Harriet Beecher Stowe, que eu lera na juventude. Tal como o sofrido e solidário escravo negro Tomás - personagem em torno do qual giram, na novela, as vítimas e os algozes da abominável escravidão nos Estados Unidos -, assim era a personalidade calma e bondosa do velho sábio quíchua, um ser humano de sentimentos puros, cheio de amor pelo Criador e  criaturas e sem nenhum ressentimento pelos sofrimentos por que passara muitos anos --- segundo me contou Atílio  ---  nas mãos dos encomenderos, num sistema agrário que marcara com desprezo  e desumana servidão a sua vida desde a infância, antes que as terras bolivianas fossem devolvidas aos seus verdadeiros donos.

      Depois de tantas histórias e estórias e beber boa “chicha”[95] ele nos levou para mostrar sua agricultura na encosta de um monte onde um milharal exibia as espigas barbadas. Na subida passamos no meio de um rebanho de ovelhas e lhamas e descemos com a visão de pomares, plantações de coca e muita terra lavrada com batata, verduras e ervas medicinais. Ensinou-nos que as plantas devem ser colhidas conforme a lua porque a seiva caminha entre as folhas e as raízes. Que no crescente se colhem as plantas com folhas, porque a seiva está na superfície, e no minguante se colhem os tubérculos, como a beterraba e a cenoura, porque a seiva está na raiz. E assim também as plantas lunares, como a alface se colhem ao amanhecer e as solares, durante o dia. Que toda poda deve ser feita no minguante e no inverno quanto a seiva dorme nas raízes. Disse que as plantas são seres sensíveis, que têm memória, conhecem as pessoas que convivem e reagem emocionalmente ao carinho e à agressão.[96] O velho índio parecia ter uma aliança mística com a natureza e conhecer os segredos materiais e espirituais das coisas fazendo justiça à imagem respeitada do amauta, considerados os homens mais sábios na corte do Império Inca. Depois falou-nos da terra repartida. Disse-nos que a reforma agrária feita pelo Presidente Paz Estensoro, em 1953, devolveu a ele e a todos os camponeses bolivianos não só a terra, mas também o próprio respeito, antes esmagado pela oligarquia rural. Disse que o indígena sem a sua terra não é ninguém, que a terra, a Pacha Mama, era a mãe bondosa que nunca deixava seus filhos com fome e que agora eles tinham dignidade,  porque cada ayllu, cada família, tinha o seu pedaço de terra e eram livres depois de quatrocentos anos.[97]
Na parte da tarde fomos visitar um outro ayllu. Era uma comunidade aymara, todos unidos pela consanguinidade. Foi então que ouvi, pela primeira vez, o nome e a história de Túpac Catari, o maior líder aymara na guerra contra os espanhóis, que nascera em 1750, num povoado de uma comarca do altiplano chamado Sicasica. A história foi-nos contada por um velho curaca da comunidade. Mascava coca e era tido como o amauta (sábio) da região.

      -- Túpac Catari foi o Túpac Amaru boliviano. --- Começou ele e continuou contando que ao nascer ele foi chamado Julián Apaza Nina, mas em homenagem ao grande caudilho peruano Túpac Amaru e ao cacique de Chayanta, Tomás Catari, mudou seu nome para Túpac Catari.             

         Contou-nos o velho amauta que Julián Túpac Catari ficou órfão aos sete anos,  sendo adotado como um serviçal por um padre espanhol. Posteriormente trabalhou como padeiro e cresceu atento à exploração e às crueldades por que passavam os povos aymaras e quíchuas nas mãos dos colonizadores. A cultura harmónica e solidária que herdara de seus antepassados chocava-se com a prática odiosa e rapinante com que os espanhóis tratavam seus irmãos indígenas, obrigando-os a entregar os frutos da terra como forma de tributo. Na ausência da produção ou do valor do imposto em dinheiro, eram obrigados a trabalhar num regime de semi-escravidão nas minas ou nas fazendas sob as ordens cruéis do encomiendero.[98] Testemunha itinerante de tantos atos desumanos nas comunidades e fazendas por onde passava, presenciando, perplexo, as injustiças que sangravam o destino de seu povo, assassinado por autoridades, sacerdotes católicos e mestiços, aguardava o momento para atuar no extenso cenário das lutas sociais de sua pátria.
Tomás Catari
 Tomás Catari: a odisseia de um índio.

    A grande revolta indígena, na região andina, começou em 1780 liderada pelo cacique Túpac Amaru II. Simultaneamente, na Bolívia, então chamada Alto Peru, Tomás  Catari, um índio revoltado por ter o seu posto de cacique usurpado pelo mestiço Blas Bernal, na localidade de Chayanta, iniciou, em 1877, uma longa querela judicial na qual foi sempre prejudicado e várias vezes aprisionado pelo corregedor Alós Flores, com o apoio venal dos tribunais da Real Audiência de Charcas, na época sede do governo espanhol na Bolívia. Em face dos desmandos e da corrupção tributária de Blas Bernal, Tomás Catari polariza o descontentamento social na região, onde além dos impostos escorchantes, predominava a cruel obrigação da mita mineira de Potosi, aonde chegavam as grandes levas de mitayos peruanos para o trabalho mortal nas minas de Cerro Rico. Tomás Catari inicia a revolta liderando os ayllus (clãs de indígenas andinos) guerreiros, em San Pedro de Macha, no departamento de Potosi, não para derrubar o governo colonial como queria Túpac Amaru, mas para denunciar o poder local exercido por caciques mestiços e o corregedor da província pela conduta corrupta e fraudulenta e como usurpadores na cobrança dos impostos.[98] A fama e a coragem de Tomás surgiu em 1777, quando --- revoltado com os excessos da administração local, o desrespeito à sua hierarquia indígena (curaca) e a autonomia das comunidades agrárias  --- viajou 600 léguas,[99] ou seja, 3.600 quilómetros até Buenos Aires, a pé  --  porque aos índios era proibido andar a cavalo  -- para exigir respeito aos direitos indígenas ante as novas autoridades do Vice-reinado do  Rio da Prata, cuja autonomia, em relação ao Vice-reinado de Lima, fora decretada, no ano anterior, pelo rei da Espanha.

Se trata de una verdadera odisea para um indio sin recursos materiales, sin conocimiento del idioma, obligado a caminar a pie las 600 leguas que hay desde su pueblo, ubicado en la altiplanicie andina, hasta la capital del Vireinado. Llega a Buenos Aires a fines de 1778 .[101]

Tomás Catari voltou gratificado com o apoio às suas reivindicações, avalizadas e documentadas pelo Vice-rey Juan José de Vértiz. Contudo, ao chegar à Bolívia, foi detido sob o pretexto de perturbar a cobrança de impostos. Libertado meses depois, foi preso novamente em 1779 pelas denúncias e protesto contra o regime criminoso do trabalho indígena, mas no caminho conseguiu fugir pela ação dos seus seguidores. Posteriormente, em face da ameaça que sua grande liderança representava para as autoridades coloniais, é aprisionado novamente em 1780 e mantido em incomunicabilidade. Diante dessa nova injustiça contra seu líder, explode a revolta entre os indígenas da região. A prisão é destroçada e Tomás Catari é libertado. Enquanto aguardava ordem de Túpac Amaru  --- com quem estava em contato por emissários diretos  ---, para atacar La Paz, foi preso novamente, e de surpresa, por uma força mercenária comandada pelo mineiro Manuel Álvares Villarroel, tão explorado e tão andino como ele, e atirado a um precipício em Chataquila, em 15 de janeiro de 1781. [102] O assassinado de Tomás Catari levou a uma sublevação violenta na região de Potosi. O assassino, Álvares, mero instrumento das autoridades coloniais, foi morto pelas mãos dos índios enfurecidos e o próprio Vice-Rei de Buenos Aires mandou investigar a cumplicidade das autoridades no assassinato do caudilho.

        Além das informações que me deu o velho curaca, pouco se sabe sobre a origem de Tomás Catari. Embora tenha vivido numa comunidade aymara, seu sobrenome Catari é de origem quichua e significa réptil venenoso, assim como Túpac Amaru significa serpente do fogo. Os historiadores se ressentem de informações sobre a idade, a origem e afirmam que era analfabeto. [103]

        Era um índio pobre, mas prestigiado por amigos influentes de toda a província onde interpunha suas reivindicações em favor de seus direitos e das comunidades indígenas. Líder nato, a um gesto seu poderia levantar-se imediatamente 20 a 30 mil índios.

 En la información  sumária secreta mandada efectuar por Manuel de la Bodega el 12 de octubre de 1780, a fin de averiguar en qué medida los indígenas de su corregimiento estabam ligados con los de Chayanta, declaró el alcalde  indio Manuel Ari que aquéllos se levantaríam “al instante que se les prevenga por Tomás Catari”. (…) “No deja de ser digno de atención el hecho de que el corregidor Alós considere que Catari está en condiciones de movilizar entre 20 y 30 mil índios.[104]

    Por ter sido assassinado antes de explodir a rebelião no Alto Peru,  frustrou-se, historicamente ,  sua capacidade de movimentação militar e seu talento como um chefe guerreiro.

     Precursor e principal aliado de Túpac Amaru na grande revolta indígena do fim do século XVIII, sua grandeza estava no carisma da sua personalidade iluminada pelos ideais de justiça, um caráter inquebrantável, cristalino e puro e um espírito de luta social marcado por uma abnegação sem limites pelos direitos dos índios pobres e desprezados. Como não falava o castelhano, por certo não pode mostrar com palavras sua íntima imagem,

Pero fue, como hemos dicho, entre los suyos donde descolló y donde pudo mostrar sin intérpretes lo que valía; fueron también los indios quienes estaban en mejores condiciones que los españoles para apreciar sus aptitudes y virtudes. Y ellos, pobres y incultos, exteriorizaban su admiración por el caudillo a su manera, arrodillándose ante él y besándole la mano o el poncho que vestía, considerándolo redentor y casi una divindad. [105]

Cerco de la Paz

3. Túpac Catari  e o cerco de La Paz.

        Segundo os historiadores o nome de Túpac Catari era, até então desconhecido, quando surge como um destacado caudilho no cerco de La Paz, em Março de 1781, época em que se calcula que tivesse trinta anos de idade. Até então a única figura guerreira que ameaçava a capital do Alto Peru era o próprio Túpac Amaru, cuja estrondosa vitória, em 17 de Novembro do ano anterior, sobre as tropas espanholas em Sangarará, deixara o pânico nos documentos que naquela época circulavam entre as autoridades da Real Audiência de Charcas.  Pouco se sabe sobre a personalidade de Túpac Catari porque os documentos que a ele se referem foram escritos por seus inimigos e, portanto são marcados pela parcialidade e pelo ódio. Muitas informações provêm do Diário de Sebastián Segulora, comandante de La Paz durante o sitio da cidade. Contrariando as afirmações preconceituosas de Segurola  --- que o chamava de índio ordinário e de origem miserável --- opinião que foi repetida pelos historiadores oficiais ao se referirem circunstancialmente à rebelião de 1780-1781, no Alto Peru  ---,   e do Frei Matias Borda, do qual teria sido sacristão e que o desprezava chamando-o de índio ridículo, o historiador Boleslao Lewin, baseado em ampla documentação, nega que Tupac Catari  fosse um órfão desvalido e que tenha exercido os ofícios de sacristão e padeiro, mas que era um comerciante de coca – entenda-se folhas de coca, que era normalmente consumida para abrandar a fome desde os tempo do incário --  e de tecidos.[106] 

       Contrariando a opinião dos seus detratores espanhóis, Lewin cita, embora desconsidere as ressentidas opiniões que procuravam denegrir odiosamente a imagem de Túpac Catari- en  el origen del enorme ascendente de Tupac Catari sobre las masas indígenas, de cuyas vidas y haciendas disponía en forma ilimitada durante muchos meses, por más que hubo tentativa individuales de destituirlo de su cargo. [107] 

          A liderança e os objetivos estratégicos de Túpac Catari tiveram início quando ele organizou, com Bartolina Sisa, sua mulher, um exército de 40.000 índios que, no início de 1781, conquistou as províncias de Sicasica, Carangas Pacajes, Yungas Omasuyos e Chucuito.   Em seguida, o caudilho aymara avança em direção a La Paz e, em 13 de março de 1781, inicia o primeiro sítio à atual capital da Bolívia, onde foram mortos 10.000 espanhóis, numa população que contava 23.000 habitantes entre brancos e mestiços.  Cumpre aqui ressaltar que, a par do cerco de Cuzco por Túpac Amaru, o sítio de La Paz, por Túpac Catari, estão entre as ações militares mais destacadas na grande revolta indígena de 1780-1781.

        Diante da fome que começou a matar os habitantes de La paz, Túpac Catari propôs a entrega das armas e das autoridades para levantar o cerco. Diante do rechaço das exigências, o bloqueio continuou e era tal a coragem dos índios em seus ataques, que causavam assombro aos próprios inimigos. Contudo a falta de armas de fogo por parte do exército indígena impedia um ataque frontal às forças espanholas. Foi neste período que vários mestiços foram presos e fingiram aderir ao comando de Túpac Catari. Um deles Mariano Murillo, depois de descoberto, teve os braços cortados que foram enviados a comandante Segurola com uma carta de desafio aos espanhóis e de desprezo ao frade Matias Borda, coparticipante da traição.

       Diante do impasse, Ignácio Flores, presidente da Real Audiência de Charcas, chega, em 1º de julho de 1781, com um exército para socorrer La Paz. O exército indígena se retira estrategicamente para o alto da cidade, mas em 4 de agosto o exército de Flores se retira, deixando apenas 80 soldados veteranos e quatro companhias de milicianos. As tropas rebeldes iniciam o segundo cerco, de 64 dias, à La Paz, agora com o reforço de Andrés Túpac Amaru, sobrinho de Túpac Amaru, que depois de tomar Sorata, em 4 de agosto, inundando a cidade com a construção de um dique, tentou a mesma estratégia em La  Paz, mas a obra rebentou antes do tempo não causando o resultado esperado. Diante do agravamento da situação  em La Paz, as autoridades de Lima  e Buenos Aires enviaram seus exércitos para enfrentar as tropas indígenas.

4. A bravura de Bartolina Sisa. Tupac Catari é traído  e executado.

      Enquanto isso, Bartolina Sisa, à frente de um pequeno exército de aymaras com armas primitivas derrotara 400 espanhóis na Batalha de Chuquiago. Traída, foi aprisionada em 2 de julho de 1781  e entregue aos espanhóis. Indómita, diante das torturas, não se abateu até o momento da morte aos 26 anos. Executada quase um ano depois do marido, em 5 de setembro de 1782, Bartolina Sisa, tal como Micaela Bastidas, esposa de Túpac Amaru, teve um grande papel como combatente da rebelião. Ambas secundaram seus maridos na condução das tropas indígenas participando abertamente nos combates.

         Diante da chegada dos dois exércitos fortemente armados as tropas indígenas suspendem o cerco em La Paz, quando a cidade estava a um passo da rendição. Enquanto Andrés Túpac Amaru dirigiu seus índios para o Santuário de Peñas, Túpac Catari retira-se para os montes de Pampajasi, nos arredores da cidade, fustigando os espanhóis, mas em fins de outubro é fortemente atacado e se retira também para o Santuário de Peñas.

      O exército indígena avançou até Charcas onde foi derrotado pelas tropas realistas vindas de Buenos Aires. No início de Novembro, Túpac Catari dirigiu-se a Achacachi , na costa do Lago Titicaca, para refazer as tropas que lhe restavam. Os espanhóis recorreram então à traição para prender o grande caudilho aymara, entrando em contaco com seu amigo, o índio Tomás Inca Lipe, que na noite de 10 de novembro revelou o paradeiro de Túpac Catari, num lugar chamado Chinchaya. El traidor recibió en recompensa una medalla por su “lealtad” y el gobierno del pueblo de Achacachi, de donde fue oriundo y donde ejecutó la aleivosia.[108]

     Depois de interrogado e torturado por vários dias, Túpac Catari foi executado na capital do país , em 31 de novembro de 1781. Cortaram-lhe a língua depois de dizer Solamente a mi me matam... Volveré y seré millones. [109]  Amarraram-no a quatro cavalos e o esquartejaram com machados e espadas. Sua  cabeça ficou exposta na praça principal de La Paz e os braços e pernas foram expostos em outras cidades, durante 10 meses. A sua mulher e sua irmã Gregoria Apaza tiveram a mesma sorte meses depois. Seus restos foram queimados e as cinzas foram jogadas ao vento."
Manoel  de Andrade , in Nos rastros da Utopia, uma memória crítica da  América Latina  nos anos 70, Escrituras Editora, São Paulo , Brasil , 2014, pp. 211-221  

Saiba mais sobre Manoel de Andrade   AQUI

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95] A chicha é uma bebida fermentada produzida pelos povos indígenas dos Andes cuja fabricação remonta ao tempo dos Incas. Consiste na mastigação d o milho por mulheres jovens e cuspí-lo em um caldeirão de água fervida. Depois da alguns dias de fermentação a mistura se transforma chicha.
[96] Naquela época eu achei que havia muita fantasia nas suas palavras mas cerca de 30 anos depois me caiu na mão um livro curioso: A vida secreta das plantas, dos norte-americanos, Peter Tompkins e Christofher Bird, editado no Brasil, em 1988, pelo Círculo do Livro. A obra, quando lançada nos Estados Unidos ficou durante seis meses encabeçando a lista das mais vendidas. Em suas 377 páginas os autores falam dos pioneiros e das modernas pesquisas sobre as plantas enfatizando, contudo, sua descrição sobre as experiências de Cleve Backster, um técnico do FBI e perito em polígrafos (um aparelho para detectar a mentira), que, por volta de 1967, conectando os eletrodos de sua máquina às folhas de uma dracena, foi suspreendido com as mudanças gráficas do aparelho demonstrando reações semelhantes a um ser humano. Os registros produzidos da planta indicavam que ela tinha memória, pressentimentos e demonstravam emoções de prazer e de dor, de afeição e de medo conforme as experiências produzidas. Ante a ideia de Backster de queimar a folha da planta, esta entrou em pânico, demonstrando ter advinhado seu pensamento. Os autores, depois de vasta pesquisa, revelam que as plantas têm vida inteligente, apresentando seu trabalho como uma constatação científica e não como uma visão mística e ocultista.
97]Diferente da reforma agrária que começava a ser implementada no Peru, onde as fazendas seriam transformadas em unidades de produção coletiva, na Bolívia a real reforma agrária feita por Paz Estenssoro, em 1953, devolveu aos indígenas, em forma de lotes individuais para cada família, as terras do ayllu --  unidade familiar incaica  --  que lhes haviam sido usurpadas desde a conquista pelos espanhóis e repassadas aos fazendeiros criollos pelo sistema de encomiendas.
[98]    . Para se entender a economia, a sociedade e a exploração do trabalho indígena no sistema colonial espanhol é indispensável saber que a exploração das minas de prata foi a principal atividade econômica no Vice-Reinado do Peru. A mão de obra indígena era empregada na mita e na encomienda, que  eram formas diferenciadas de escravidão.A mita, instituída pelos incas, obrigava os homens (mitayos) das tribos dominadas a trabalhar em suas minas, e o sistema foi adotado pelos colonizadores, mas não somente para o trabalho nas minas e somente abolido em 1791. A encomienda, criada pelos espanhóis, era a exploração do trabalho de uma comunidade indígena por um colono, que em troca pagava um tributo, pela produção agrícola, à autoridade espanhola e se obrigava em troca a cristianizar os indígenas.
 A sociedade colonial era estratificada pelo nascimento e pela cor. Os chapetones, nascidos na Espanha, detinham os mais altos cargos coloniais. Os criollos eram os descendentes espanhóis nascidos na América, brindados com as grandes extensões de terra, a exploração das minas e os grandes cargos militares e administrativos. Os mestiços, filhos do branco com o índio, eram livres, e exerciam  atividades  comuns. A imensa maioria da população era indígena, submetida aos t
rabalhos forçados.
[99] O espaço limitado que disponho na organização desses relatos de viandante desmerece a gloriosa história da revolta indígena na região andina, no fim do século XVIII. Contudo é imprescindível trazer aos leitores brasileiros, ainda que em poucos traços, um quadro quase desconhecido desse heroísmo libertário contra o colonizador espanhol que aqui, no Brasil, só tem paralelo num único grande exemplo: o martírio solitário de Tiradentes.
[100] Para se ter uma ideia da distancia dessa viagem de ida e volta, imagine-se, no Brasil, uma pessoa fazer, à pé, um percurso equivalente de ida e volta de Porto Alegre, no extremo sul do país, a Recife, no Nordeste do Brasil.
[101]       LEWIN, Boleslao. La Rebelión de Túpac Amaru. Havana: Editorial de Ciências Sociales, 1972. t. I. p. 354.“Se trata de uma verdadeira odisséia para um índio sem recursos materiais, sem o conhecimento da língua, forçado a andar a pé as 600 léguas  que existem entre sua aldeia, localizada no altiplano andino, e a capital do Vicereinado. Chega à  Buenos Aires em 1778.” (Tradução e nota do autor.)
[102]    Essa era uma triste característica das lutas indígenas no período colonial no altiplano e no Chile: índios na condição de servos e escravos, por dinheiro, covardia ou traição, delatam ou matam outros índios que lutam pela liberdade dos demais. Os grandes exemplos foram Lautaro, Tupac Amaru e Tupac Catari. Mas a história do Brasil registra também seus delatores. No passado Domingos Fernandes Calabar se uniu aos holandeses na conquista do Arraial de Bom Jesus, bastião da resistência luso-brasileira em Pernambuco. e Joaquim Silvério dos Reis entregou Tiradentes aos portugueses. Na atualidade a legislação brasileira resolveu premiar a delação através da lei 8.072, numa vergonhosa demonstração de que o Estado se mostra incapaz de investigar e punir os criminosos, incentivando o favor jurídico através da traição.
[103] Existem ainda poucos estudos sobre a revolta índígena de Chayanta e Sicasica, além da clássica La Revolución India do historiador boliviano Fausto Reinaga,  (La Paz: 1969) e a Historia de La Rebelión de Túpac Catari – 1781-1782, de Maria Eugenia Del Valle de Siles. (La Paz: 1990). O que existe é uma farta documentação à espera de pesquisadores e estudiosos, sobretudo, no Arquivo Nacional da Bolívia. Pelo que sabemos, alguns pesquisadores, ligados ao Departamento de História da Universidad Mayor de San Andrés, de La Paz, e entre esses Silvia Arce, Magdalena Cajías e Eugenia Muñoz, trabalham na investigação desses documentos. Em 1970, tive a oportunidade de ler, em La Paz, La Revolución Índia de Fausto Reinaga, cujas páginas abriram meu interesse pela história das rebeliões indígenas na região andina e particularmente pela figura de Túpac Amaru, o grande precursor da emancipação dos países americanos.
[104] LEWIN, Boleslao. Op. Cit., p.382.
"Na informação sumária secreta mandada efetuar por Manuel de la Bodega em 12 outubro de 1780, a fim de verificar em que medida os indígenas do seu município estabam ligados aos de Chayanta, declarou o prefeito índio Manuel  Ari que aqueles se levantaríam  " no instante que sejam prevenidos por Thomas Catari. "(...) " Não deixa de ser digno salientar o fato de que o corregedor Alós considere que  Catari está em condições de mobilizar entre 20 e 30 mil índios." (tradução e nota do autor)
[105]Mas foi, como dissemos, entre os seus, onde se destacou e onde ele pode mostrar, sem intérpretes, o seu valor; foram também os índios que estavam em melhores condições do que os espanhóis  para apreciar as suas aptidões e virtudes. E eles, pobres e incultos, exteriorizavam sua admiração pelo caudilho a sua maneira, ajoelhando-se diante dele e beijando-lhe a mão ou o poncho que vestia, considerando-o um redentor e quase uma divindade.” (tradução e nota do autor)
[106] LEWIN, Boleslau. Idem., p. 527
[107] LEWIN, Boleslau. Idem., p. 529.  “
“A origem da enorme ascendência de Túpac Catari sobre as massas indígenas, de cujas vidas e  fazendas dispunha de forma ilimitada durante muitos meses, por mais que houvesse tentativa individuais para destituí-lo de seu cargo”
[108] LEWIN, Boleslau. Idem., p. 545.O traidor recebeu como recompensa uma medalha  por sua “lealdade” e a prefeitura do povoado de Achacachi, de onde era oriundo e onde executou sua deslealdade.
[109] SILES, María Eugenia del Valle de.  Historia de la Rebelión de Tapac Catari – 1781-1782. La Paz, Editorial Don Bosco, 1990.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Para ficar o universo equilibrado

A tua ausência

A tua ausência resume
Como um grito a minha vida.
Sou tu, ao longe —
Até quando?

Sou ausência, a tua ausência.
Fiquei deserto de mim.

Sou dois olhos marejados
Cravados no horizonte.
                          3.10.62
Alberto de Lacerda, in Exílio, Colecção Poetas de Hoje, Editora Portugália, 1 edição
Para ficar o universo
Equilibrado de novo
Para que a terra não fosse
Aos poucos arrefecendo
Teu rosto junto a meu rosto
Tudo o mais a esse ritmo
Simplesmente obedecendo
                         28-2-1965
Alberto de Lacerda, in Oferenda II, Imprensa Nacional- Casa da Moeda, Lisboa 1994 i
A um Deus desconhecido
Estou à espera do sol
Que há-de passar de novo
Nesta varanda

As raparigas de bronze lânguido
Da minha infância
Continuam a passar nesta varanda
Mesmo quando as não vejo

O sol
O sol há-de surgir
Os dez raios de oiro
Das tuas mãos desconhecidas

Como te chamas? 
                            23-2-1965
Alberto de Lacerda, in Oferenda II, Imprensa Nacional- Casa da Moeda, Lisboa 1994 

No sol que a pouco e pouco declinando
Irá meus sonhos transportar à noite
Revejo em fuga aquele esplendor de quando
O trigo se alternava com a foice.

Era a imagem de uma tarde infinda,
Redoma aberta de uma luz doirada.
Certos amigos não tinham ainda
Desaparecido ao voltar da estrada.

Ficou esse horizonte na lembrança,
Linha a perder de vista no olhar.
E é este o sol, o mesmo, na mudança,
E é este o trigo, a foice, e à noite, o luar.

O amor, a própria morte nos aumenta
Sua luz obscura — que nos alimenta.
                 Yêvre-le-chatel, 25 de Junho 90
Alberto de Lacerda
, in Átrio, Imprensa Nacional- Casa da Moeda, Lisboa 

 Saiba mais  sobre   Alberto de Lacerda e a sua poesia AQUI

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

O Trabalho , a Morte e a Doença

[ 1903]

Fábula 
"Há entre os índios da América do Sul  a seguinte lenda:
Dizem que no princípio Deus criou os homens de tal maneira que eles não precisavam de trabalhar, não precisavam de habitações , nem de roupas, nem de comida, viviam todos até aos cem anos e não conheciam quaisquer doenças.
Passou-se algum tempo, e quando Deus olhou para ver  como os homens viviam, viu que eles, em vez  de se alegrarem com a  sua vida, cada qual preocupado apenas consigo próprio, andavam desavindos uns com os outros e tinham organizado uma vida com a qual não só não se alegravam, como a maldiziam.
Então Deus disse para consigo: isto é porque vivem separados, cada qual para si.  E para que não fosse assim, Deus  fez com que os homens  não pudessem viver sem trabalhar - para não sofrerem com o frio e a fome, teriam que construir habitações , cavar a terra, cultivar e colher frutos e cereais.
O trabalho vai uni-los  - pensou Deus -, um sozinho não consegue  cortar  e transportar  a madeira e construir uma casa, sozinho não pode preparar as ferramentas, semear e colher, fiar, tecer e costurar roupas. Eles compreenderão que quanto mais unidos trabalharem , mais produzirão e melhor viverão. E isso há-de uni-los.
Passou mais algum tempo, e Deus veio uma vez mais ver como viviam os homens.
Mas os homens viviam pior do que antes. Trabalhavam juntos - não podiam deixar de o fazer - mas não em comum. Estavam divididos  em pequenos grupos , e cada grupo procurava roubar aos outros o seu trabalho, e todos se estorvavam uns aos outros , gastavam tempo e forças na luta, o que era mau para todos.
Tendo visto que assim também não estava bem, Deus decidiu fazer com que as pessoas não conhecessem a hora da sua morte e pudessem morrer em qualquer momento. E anunciou-lhes isso. 
Sabendo que qualquer um deles pode morrer em qualquer momento, pensou Deus, não vão, pelos cuidados da vida que pode acabar a qualquer momento, zangar-se uns com outros e estragar  as horas  de vida que lhes estão destinadas.
Mas não foi isso que aconteceu. Quando Deus voltou para ver como viviam agora os homens, viu que a vida deles não tinha melhorado.
Os mais fortes, aproveitando-se do facto de que as pessoas podiam morrer em qualquer momento, submetiam os mais fracos, matando alguns  e ameaçando os outros de morte. E estabeleceu-se  uma vida em que só os fortes e os seus descendentes não trabalhavam, e viviam entediados com a ociosidade. Os fracos trabalhavam para além das suas forças e sofriam por falta de descanso. Uns e outros  receavam-se e odiavam-se mutuamente. E a vida dos homens tornara-se ainda mais infeliz.
Ao ver isto, Deus, para remediar as coisas, decidiu usar um último meio: enviou à humanidade toda a espécie de doenças, compreenderiam que os saudáveis tinham de ter pena dos doentes e ajudá-los para que , quando eles próprios adoecessem, os saudáveis os socorressem.
E Deus deixou outra vez os homens. Mas quando voltou para ver como eles viviam agora, viu que desde que ficaram sujeitos às doenças , a vida dos homens se tornara ainda pior. As mesmas doenças que, na ideia de Deus , deviam unir os homens , tinham-nos dividido ainda mais. Aqueles homens que obrigavam pela força os outros  a trabalharem , obrigavam-nos também pela força a cuidar deles na doença e por isso não se preocupavam eles próprios com os doentes. E aqueles que eram forçados a trabalhar para os outros  e a cuidar dos doentes , estavam tão extenuados pelo trabalho, que não podiam cuidar dos seus próprios doentes  e deixavam-nos sem ajuda. E para que a vista dos doentes não perturbasse os prazeres dos ricos , criaram umas casas onde os doentes sofriam e morriam sem a simpatia daqueles que tinham pena deles , mas entregues nas mãos de pessoas contratadas, que tratavam os doentes não apenas sem piedade, mas até com repugnância. Além disso, como o maior parte das doenças era considerada contagiosa, receavam o contágio e não se aproximavam dos doentes e afastavam-se mesmo de quem tratava deles.
Então Deus disse para consigo: se nem mesmo este meio consegue levar os homens a compreenderem onde está  a sua  felicidade, deixá-los aprender à  sua custa, pelo sofrimento.  E Deus deixou os homens entregues  a si próprios.
E deixados entregues a si próprios, os homens  viveram muito tempo sem compreenderem que podem e devem ser felizes. Só nos últimos tempos alguns deles começaram a compreender que o trabalho não deve ser um espantalho para uns e uma escravidão para os outros , mas deve ser uma ocupação comum  e feliz para todos, que una todas as pessoas; começaram a compreender que com a constante ameaça da morte para cada um de nós, a única coisa racional para qualquer pessoa consiste em passar alegremente , em concórdia  e amor , os anos , os meses, as horas e os minutos concedidos a cada qual; começaram a compreender que a doença não só não deve ser motivo de divisão, mas , pelo contrário, deve ser motivo de amor e de união entre todos."
Lev Tolstoi, in Os últimos escritos (1882-1910), Relógio d'Água Editores, Lisboa, Setembro de 2018, pp.144,145, 146 

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

O terrível ano português de 1755

 
 Terramoto em Lisboa 1755 | História de Portugal

O terramoto de Lisboa de 1755 e o racionalismo ibérico
por José Antonio González Alcantud | Abr 4, 2020
"O dia de Todos os Santos de 1755 produziu em Lisboa um grande terramoto que foi seguido, uma hora depois, por um maremoto gigantesco e um conjunto de incêndios que acabaram por destruir a cidade e provocar comoção por toda a Europa. Nos lamentos posteriores a esta destruição, os encantos e riquezas de Lisboa eram colocados ao mesmo nível de Paris ou Londres.
A magnitude e a transcendência desta catástrofe fez conscientes os filósofos ilustrados, que emocionados reflectiram sobre ela, tanto nas questões físicas como filosóficas. Entre os mais emocionados, temos Voltaire e Kant. Voltaire questionava-se sobre o absurdo desta catástrofe com um poema que dizia: “Filósofos enganados que gritam: Tudo está bem. Acudam e vejam estas ruínas espantosas!“. Na sua obra, “Cândido”, em que a protagonista tem a sorte de ser naif, simples. Voltaire voltar a expor, de forma particular, os autos de fé com aqueles que queriam procurar culpados, independentemente de serem hereges, judeus ou candidos.
Ao jovem Kant, pela sua parte, conduziu aquele fenómeno que interpela a razão ela mesma. E isso deu o ponto de partida para que se reflectisse sobre uma terminologia física, chegando a sugerir que Lisboa, de futuro, tivesse um sistema edificação mais adequado a sua realidade geológica, empregando materiais mais ligeiros e alinhando as casas de uma maneira distinta, para que o movimento que havia provocado todos este drama fosse amortizado, caso houvesse uma repetição no futuro. Kant, mesmo crente, interrogava-se directamente pelas causas racionais: como funcionava a pressão da água, os fogos, etc. Uma das causas dos incêndios que atingiram Lisboa, que acabou por causar algum ridículo, já que eles foram alimentados pelas velas usadas nas igrejas no dia dos mortos. Mas, para Voltaire, o assunto era mais denso do que para Kant e desafiava directamente a existência de Deus e que se ele existisse não poderia tolerar todo esse sofrimento.
O terramoto sentiu-se em toda a península ibérica. Em Cádiz, o bispo retirou a sua batina, se não houvesse mais fraude na cidade, através da intercessão junto do santo Emygdio, protector contra terramotos. Naquele tempo, passaram os jovens de um frade capuchinho, de ordem inferior, aqueles que cultivavam a fé dos simples, nas crenças mais directas e elementares. O impacto deste terramoto foi acentuado e levou a que o conhecido Frei Diego José de Cádiz, que já era conhecido como homem santo, atacou na sua pregação com uma oratória forte contra os “políticos, estadistas, filósofos e libertinos”, que eram a origem do mal que levou a estas catástrofes naturais. Durante sua pregação pelos templos da cidade, e percorrendo o ambiente rural circundante, ele fez parecer que este flagelo era um castigo divino. Essa simples ideia e de origem medieval teve origem no século XVI com as danças da morte, de grande beleza estética e magistralmente retratada por Holbein, jovem, enquanto Dürer representou esta catástrofe como os quatro cavaleiros do Apocalipse. O discurso iconográfico, que durante séculos se repetiu em todas as partes da Europa central e do norte, e que acontece depois de qualquer catástrofe como a peste negra, agora ecoou novamente nas almas simples do povo de Cádiz com a pregação ardente do irmão Diego, mas sem isto dar origem a nenhum movimento messiânico.
Talvez aconteceu porque os habitantes da península Ibérica, apesar do seu catolicismo particular, foram muito mais racionais do que aquilo que nos fizeram ver na resposta aquele desastre natural e a resposta dada em Portugal, e que levou a reconstrução de Lisboa pela mão do Marquês de Pombal, que era visto como um incrédulo e um ateu. Foram iniciados vários projectos de reconstrução e triunfou o racionalismo. E o que ainda é mais importante: não se produziu ali nenhum movimento milenaristas notável, como aqueles que se enraizaram com tanta frequência na Europa Central.
Assim, os mais esclarecidos começaram a promover a observação da natureza, seguindo os ditames de filósofos como Leibniz. Hoje, ao visitar o observatório de Palermo, de origem claramente maçónica, localizado num antigo palácio normando, constitui uma experiência do triunfo da razão sobre a adversidade. Do mesmo modo, uma ordem religiosa estritamente ibérica, como é o caso da Companhia de Jesus, (expulsa de Portugal pelo Marquês de Pombal) começou no século seguinte, no século XIX, a abrir observatórios astronómicos e a registrar com precisão os movimentos naturais. De Madrid, a Lisboa, de Havana às Filipinas. Observatórios jesuítas, que tiveram uma grande difusão, registo de tufões, terramotos, etc.
Graças a esta disposição histórica racionalista dos povos ibéricos e latinos, que exemplifica-se no dia após o terramoto de Lisboa de 1755, a Europa de hoje não pode, isto por causa do flagelo do Covid-19, culpar o sul e as suas imprecisões e indolências, já que o estudo de catástrofes naturais é um tema que atravessou a Europa no seu conjunto e muito notavelmente comprometeu o sul do continente. Esta é a hora!"
José Antonio González Alcantud é catedrático de antropologia social da Universidade de Granada e académico correspondiente da Real Academia de Ciencias Morales y Políticas de Espanha. Prémio Giuseppe Cocchiara 2019 aos estudos antropológicos. 

 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Onde fica o espaço para a felicidade?


Sabedoria de Vida é Usufruir o Presente
por Arthur Schopenhauer
"Não permitir a manifestação de grande júbilo ou grande lamento em relação a qualquer acontecimento, uma vez que a mutabilidade de todas as coisas pode transformá-lo completamente de um instante para o outro; em vez disso, usufruir sempre o presente da maneira mais serena possível: isso é sabedoria de vida. Em geral, porém, fazemos o contrário: planos e preocupações com o futuro ou também a saudade do passado ocupam-nos de modo tão contínuo e duradouro, que o presente quase sempre perde a sua importância e é negligenciado; no entanto, somente o presente é seguro, enquanto o futuro e mesmo o passado quase sempre são diferentes daquilo que pensamos. Sendo assim, iludimo-nos uma vida inteira.
Ora, para o eudemonismo, tudo isso é bastante positivo, mas uma filosofia mais séria faz com que justamente a busca do passado seja sempre inútil, e a preocupação com o futuro o seja com frequência, de modo que somente o presente constitui o cenário da nossa felicidade, mesmo se a qualquer momento se vier a transformar-se em passado e, então, tornar-se tão indiferente como se nunca tivesse existido. Onde fica, portanto, o espaço para a nossa felicidade?"
Arthur Schopenhauer, in “A Arte de Ser Feliz”,  Editor: Martins Fontes, Janeiro de 2001

domingo, 10 de janeiro de 2021

Ao Domingo Há Música

Na rua do silêncio
é tudo muito mais ausente 
até foge o luar 
e até a vida é pranto 

não há juras de amor
não há quem nos lamente
e o sol quando lá vai 
é pra deitar quebranto (x2)

na rua do silêncio
o fado é mais sombrio
e as sombras de uma flor 
não cabem lá também 

a rua tem destino
e o seu destino frio
não tem sentido algum 
não passa lá ninguém (x2) 

na rua do silêncio
as portas tão fechadas 
e até o sonho cai 
sem fé e sem ternura 

na rua do silêncio 
há lágrimas cansadas
na rua do silêncio 
é sempre noite escura 
 António Sousa Freitas 

Carlos do Carmo faleceu  no primeiro dia deste 2021. Tinha 81 anos e já se despedira dos palcos  .Realizara  o último concerto da carreira a 9 de Novembro de 2019, no Coliseu dos Recreios de Lisboa. Nesse dia, recebeu a chave da sua cidade, Lisboa.  O fim da sua carreira fora anunciado algum tempo antes  por considerar  não ter a capacidade de outros  para continuar a cantar :  "É o ano em que vou fazer 80 anos. 80 anos é uma idade. Será o ano da despedida, sem amarguras, sem azedumes."
Pisou inúmeros palcos em Portugal e no Mundo. Ovacionado, acarinhado e premiado emprestou a sua inconfundível voz ao Fado e a muitas outras  canções . Ora acompanhado pelos tradicionais instrumentos do fado, viola e guitarra, ora por uma orquestra ou apenas pelo piano,  Carlos do Carmo nunca deixou de erguer com singular sonoridade  e perfeita harmonia tudo o que interpretava. O seu desaparecimento entristece, mas a voz e a obra continuarão  a afirmar a intemporalidade do seu talento.
 
Na rua do silêncio, a voz de  Carlos do Carmo, num espectáculo do Casino Estoril,  em 08 de Junho de 2004,  integrado na série "O Fado do Público".
 
Carlos do Carmo,  com Bernardo Sassetti  ao piano,  em O Sol.

Carlos do Carmo e Camané, em Por Morrer Uma Andorinha.  Este dueto está incluído no CD Fado é Amor, editado em 2013.
 
Carlos do Carmo, em Os putos . É uma das mais famosas composições do  longo repertório de Carlos do  Carmo,  com letra   do poeta  José Carlos Ary dos Santos e música do cantor/compositor  Paulo de Carvalho.
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