quarta-feira, 15 de abril de 2020

Music for Hope

No domingo de Páscoa, 12 de Abril de 2020 , Andrea Bocelli deu um concerto na Catedral de Milão , Music for Hope, como mensagem  de esperança , amor e cura para Itália e para o mundo. O concerto foi transmitido , em directo, pelo YouTube.
Ao longo dos anos muitos concertos foram promovidos por artistas em nome da solidariedade , em busca de uma nova esperança.
Recordamos outros  dois  concertos que tocaram o mundo.

USA for Africa 1985 , em We are the World, canção de Michael Jackson e de Lionel Richie . Vários artistas uniram-se para apoiar África. Apresentaram-se nesta sequência: * Lionel Richie 0:22 * Stevie Wonder 0:30 * Paul Simon 0:40 * Kenny Rogers 0:51 * James Ingram 0:57 * Tina Turner 1:02 * Billy Joel 1:10 * Michael Jackson 1:16 * Diana Ross 1:29 * Dionne Warwick 1:46 * Willie Nelson 1:59 * Al Jarreau 2:06 * Bruce Springsteen 2:12 * Kenny Loggins 2:19 * Steve Perry 2:25 * Daryl Hall 2:33 * Michael Jackson 2:39 * Huey Lewis 2:46 * Cyndi Lauper 2:51 * Kim Carnes 2:59 * Bob Dylan 3:45 * Ray Charles 4:39 * Stevie Wonder & Bruce Springsteen 4:51 * Bruce Springsteen 5:29 * James Ingram 6:11 * Ray Charles.

Luciano Pavarotti, Brian Eno, Bono, The Edge, em Miss Sarajevo, em Setembro de  1995, num dos muitos espectáculos que Pavarotti  promoveu pelo mundo para apoio a causas humanitárias.

terça-feira, 14 de abril de 2020

Conselhos aos idosos

CONSELHOS AOS IDOSOS
DE CHRISTINE LAGARDE E OUTROS BENFEITORES

A Senhora Christine Lagarde
acha que os velhos vivem demais;
p’ra que a economia se resguarde
há que apressar os ritos finais.

Um senhor da América do Norte
pede aos idosos compreensão:
por favor não esperem pela morte,
façam-no pela vossa própria mão.

Tudo, é claro, a bem da economia,
nada a ver com qualquer heresia:
são, todos, religião e harmonia,
missa, terço e ave-maria!

Mas viver não é exagerar,
há que cuidar sempre dos cifrões:
p’rá economia não parar,
metam os velhos à vida travões!
                                                      14.04.2020
Eugénio Lisboa,
que ficou muito preocupado com a economia do globo, que ele tem estado, sem ser por mal, a prejudicar.

Poesia em tempo de peste

A NOVA NAU CATRINETA
(em redondilha maior como manda a tradição)

Lá vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar!
Pegai, bardos na caneta,
há muito que anunciar!

Havia um lindo planeta,
muito bom de habitar:
nem estrela nem cometa
o podiam molestar.

Era limpo todo o ar
que ali se respirava!
Dava gosto ir ao mar
que era grande e ondeava!

O vizinho acudia
se ao lado alguém chorava:
no coração dele ardia
o desejo de ajudar.

Usava-se o necessário
que a terra boa dava,
mas sabia-se quão precário
era o bem que ali guardava.

E assim se foi vivendo,
com tal conta e medida,
que no mundo foi havendo
abundância bem sortida.

E ninguém ali buscava,
por mais que o desejasse,
ter mais do que precisava
p’ra que o ar se não estragasse.

Mas o bicho da ambição
deu aos homens tal saber,
tal desejo e compulsão,
que a terra deu em tremer!

Os rios e mares sujos,
atmosfera corrompida,
estes foram males cujos
frutos queimaram a vida.

Chegou o mundo a tal abismo,
tão perto de se perder,
que fico perplexo e cismo:
que futuro vai haver?

Estes foram os anúncios
que a Nau Catrineta trouxe:
os anúncios serão prenúncios
de Alguém com uma fouce?
                                    12.04.2020
Eugénio Lisboa,
pedindo desculpa, pelo atrevimento, aos trovadores d’antanho que congeminaram os versos da primeira Nau Catrineta.
Lourenço Marques
TOADA AFRICANA,
COM HEPTASSÍLABOS
EM FORMA DE ESCUDO
                                 
                                              Ao João Filipe Bugalho

Há já muitos, muitos anos,
onde o espaço era imenso,
naqueles meridianos,
onde o sol era intenso,
naqueles anos, dizia,
em que a vida era doce
e o amor florescia,
por mais dura que fosse
a luta do dia a dia,
era ali que acontecia,
que tudo se dilatava,
que o tamanho aumentava
de tudo o que era bom,
que assim nos sustentava,
naquela imensa baía,
ouvindo, do mar, o som!
Tendo assim experimentado
o sabor do paraíso,
já não é, digo eu, preciso
temer o assalto tentado
pela peste que nos tenta:
ter vivido nos alenta!

O passado sempre conta
quando o vírus já desponta!
                              10.04.2020
Eugénio Lisboa, 
que está muito consciente de que isto não é a “Toada de Portalegre”, dedicada ao Francisco Bugalho, mas é o que se pode arranjar nesta emergência e vai dedicada ao João Filipe Bugalho, que nos tem mimoseado com magníficos exemplos da sua arte consumada.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

A Correspondência de Jorge de Sena

A CORRESPONDÊNCIA DE JORGE DE SENA
Por Eugénio Lisboa
"A epistolografia portuguesa não é, como outras,  de outras nações, particularmente rica, embora se possam assinalar alguns exemplos de escritores que nos deixaram espécies significativas: a Marquesa de Alorna, o Cavaleiro de Oliveira, Herculano, Garrett, Oliveira Martins, Eça de Queirós, Antero de Quental, Manuel Laranjeira e Mário de Sá-Carneiro deixaram-nos um legado não totalmente despiciendo Mas nenhum nos deixou um volume de epístolas que possa medir-se com os legados imponentes de um Rousseau (2500 cartas), Voltaire (20 000) ou Flaubert, com os seus cinco sumarentos volumes na Bibliothèque de la Pléiade, ou, mais próxima de nós, a correspondência abundante de um André Gide ou de um Roger Martin du Gard ou de um George Bernard Shaw, entre outros.  No caso de alguns destes escritores, há mesmo quem neles prefira a sua correspondência (pelo seu vigor, proximidade e vivacidade) ao restante da obra de criação literária. É o caso de Voltaire e também o de Flaubert. Prefaciando uma recolha de 906 cartas do autor do Dicionário Filosófico, Jacqueline Hellegouarc’h não hesitou em afirmar que considerava a correspondência deste grande agitador de ideias e defensor de causas célebres como “um dos monumentos mais imponentes da nossa literatura”. O mesmo se poderia dizer da vitalíssima correspondência de Flaubert. Seja como for, estes monumentais acervos fazem parte integrante do canon literário dos seus autores e não são apenas um anexo à obra de criação que eles produziram. A correspondência de Flaubert está, no mínimo, em pé de igualdade com a Madame Bovary ou a Educação Sentimental. O mesmo se poderia, até certo ponto, dizer de Voltaire, de Roger Martin du Gard, de Antero ou de Eça de Queirós. As cartas destes, se serviram um propósito de comunicação, têm também o estatuto da mais elevada literatura. Então, pergunto: e o que se passa com a volumosa correspondência que nos legou Jorge de Sena e que foi sendo publicada, postumamente, graças ao esforço empenhado da sua viúva Mécia de Sena?
De Jorge de Sena, conhecemos, actualmente, tomos de correspondência dirigidos a treze destinatários: Guilherme de Castilho, Mécia de Sena, José Régio, Vergílio Ferreira, Taborda de Vasconcelos, Eduardo Lourenço, Duarte Moreira Leite, Sophia de Mello Breyner, José-Augusto França, Raul Leal, Delfim Santos, António Ramos Rosa e João Gaspar Simões. A maioria destas cartas foi escrita sobretudo depois de Sena ter saído de Portugal, para ir viver, primeiro no Brasil, depois, nos Estados Unidos da América, nunca mais tendo regressado ao seu país natal. Afastado dos seus amigos e confrades de literatura, restava-lhe, como meio de comunicação, a epístola. A ela recorria destemidamente, apesar da repetidamente alegada falta de tempo. De facto, tanto no Brasil como nos EUA, Jorge de Sena entregou-se a fundo às suas funções de docente, investigador e escritor, não se poupando, em nenhum destes pelouros. Mesmo assim, fazendo das fraquezas forças, deu-se igualmente à epistolografia, não raro caracterizada por longuíssimas e pormenorizadíssimas missivas, nas quais se explicava, se defendia de alegados ataques enviesados, dava conta, miudamente, do seu emprego do tempo, dava curso à sua amargura crescente, no que respeitava ao Portugal que deixara para trás, invectivando, acusando, lamentando-se… Tudo, numa prosa direita, vigorosa, cheia de circunvoluções bem congeminadas, embora nem sempre, aqui e ali encolerizada e vingativa, mas nunca flácida ou morna. Será isto literatura? Será isto arte, susceptível de se medir com a estatura do poeta, do ficcionista, do ensaísta e do historiador? Creio bem que sim. Cito uma passagem de uma recensão crítica que fiz à correspondência de Sena com João Gaspar Simões: “Há, no vastíssimo acervo epistolográfico de Sena, cartas admiráveis, de densidade informativa, de vigor, de penetração crítica, de generosidade na entrega de si, de reflexão teórica, de observação fina e aturada; e há outras onde, não tudo, mas algumas passagens são claramente de antologia, a reter, para   estudo e divulgação.” No entanto, desde logo, acrescentava: “Mas há, por outro lado, momentos de mau feitio, de ressaca, de ressentimento agressivo, de ajuste de contas, de grande violência, que deixam mau travo na boca e desfeiam, de algum modo, o conjunto, que seria, de outro modo, inigualável.” Tudo visto, mesmo com estes senões, o conjunto epistolográfico de Jorge de Sena mantém-se de pé, inteiro, vigoroso, destemidamente interpelativo e desarrumador – e deve, fora de qualquer dúvida, ser inserido no canon literário do autor de Sinais de Fogo, por serem, indiscutivelmente, exercícios de exímia criação literária.  
As cartas de Jorge de Sena são de uma grande riqueza e variedade de tópicos e pontos de vista. E, sempre, de uma grande intensidade ou, se preferirem uma imagem eléctrica, de uma grande amperagem. O brasileiro António Cândido, que Sena muito estimava, caracterizou assim a correspondência do autor de Metamorfoses: “Sena escrevia cartas longas, vibrantes, de uma qualidade que as tornava verdadeiros textos literários, abrindo-se nelas frequentemente com a veemência que o caracterizava.” A estas características altamente positivas poder-se-ia opor, no que diz respeito à escrita de Sena, uma certa tendência para um estilo às vezes demasiado hermético, quando não à beira do opaco – o que se verifica, aliás, não só na sua correspondência, mas em toda a sua obra. José Régio, por mais de uma vez lhe fez essa reserva, como por exemplo, numa carta que lhe dirigiu em 20.02.1947, nestes termos: “Quem tem um pensamento rico – e o Sena tem-no – pode bem procurar ser um bocadinho mais claro, que nada tem a perder.” E continua a sua crítica, acusando Jorge de Sena de “fechar-se nessa forma de uma economia às vezes quase desdenhosa”. Cinco anos mais tarde, numa carta de 13.03.1952, Régio voltará à carga, o que não deixa de ser significativo: “”Pelo menos no sentido corrente do qualificativo - , Você nem sempre é suficientemente claro; a até às vezes parece comprazer-se num hermetismo que nem sempre lhe assegura uma pronta compreensão.” Outra característica a que já atrás aludimos, de passagem, incomodava também o autor de As Encruzilhadas de Deus, que em carta de o9.02.1947, lhe observa frontalmente: “Quando conversarmos lhe direi que só me desagrada, às vezes, nos seus escritos, um tom de azedume, desconfiança, não sei quê, que acho impróprios de um rapaz que ainda não vi ter razões de queixa contra a Natureza ou o Destino.”
O isolamento em que Sena se sentia viver, no Brasil e, sobretudo, nos EUA, e a falta de reconhecimento dos seus pares, em Portugal, induzem nele, algumas vezes, reacções de auto-afirmação claramente desafiadora e desproporcionada. Numa carta a Eduardo Lourenço, de Madison, por exemplo, Sena desabafa com mais do que alguma incontinência: “Eu não preciso que ninguém me diga que sou um dos maiores poetas da língua portuguesa, um dos contistas mais originais, um dos críticos mais sérios e importantes, autor de algum do teatro mais significativo do século. Eu sei que sou.” Não admira que Régio, em carta de 1952, lhe tenha atirado o remoque: “Nós dois, meu caro Sena, a respeito de megalomania, batemo-nos bem.”
As cartas de Jorge de Sena são ricas em impressões acutilantes sobre o Brasil e os EUA e também em tópicos como o exílio, o estilo, o romantismo e o neo-classicismo, a crítica de livros, Portugal e a saudade de amigos, prémios literários, a impossibilidade do regresso, a morte (meditações sobre), a proibição de publicar em Portugal, Lisboa revisitada em 1968, etc., além dos que já ventilei. E seja dito de passagem que anoto aqui apenas a ponta visível do iceberg, deixando de lado, por falta de espaço, a imensa parte que fica submersa.
Dizia Goethe – e já citei isto noutra ocasião – que, ao pormos de lado cartas que nunca voltamos a ler e que acabamos por destruir, estamos a fazer desaparecer “a mais bela e e a mais imediata respiração da vida.” No caso de Sena, felizmente, essa bela respiração da vida foi salva graças ao cuidado do escritor em guardar as cartas que escreveu e as que recebeu e ao esforçado empenho de Mécia de Sena em as publicar postumamente."
Eugénio Lisboa - (Resumo da conferência proferida na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no colóquio ali realizado nos dias 17 e 18 de Outubro,  publicado no Jornal de Letras  nº 1280, de 23 de Outubro  a 5 de Novembro de 2019 .)

domingo, 12 de abril de 2020

Ao Domingo Há Música

Estes cânticos ouço repetidamente,
Hoje, atravessam o ar chuvoso e baço,
as ruas desertas, as janelas fechadas da manhã de domingo.
Não são a várias vozes do coro que os canta,
mas num cadenciado uníssono de fiéis devotos
fazendo por chegarem todos em congregação 
juntos às Portas do Céu.
Jorge de Sena, in " Visão Perpétua"


Um domingo de Páscoa que chega nesta Primavera de 2020  .  Vem num tempo diferente:  o tempo  de  um imposto recolhimento , o tempo das ruas desertas . 
Lá fora, as marcas dos nossos passos diluem-se numa ausência colectiva.  Deixámos de estar, mas continuamos a ser. Somos . E ao sermos , permitamos que os cânticos congreguem, em uníssono,  os nossos corações para um Futuro que nos rejunte e  resgate o Mundo.


De Wolfgang Amadeus Mozart, "Laudate Dominum,  de Vesperae solennes de Confessore K. 339"(1780), uma excelente interpretação na magnífica voz de Lina Dambrauskaite, acompanhada pelo  Bel  Canto Choir Vilnius e Raminta Gocentiene ao piano. Este registo foi efectuado num concerto  do Bel Canto Choir Vilnius, "An Evening With Bel Canto",  na  St. Catherine Church, em  Vilnius, a 6 de Novembro de  2010. 

Laudate Dominum omnes gentes
Laudate eum, omnes populi
Quoniam confirmata est
Super nos misericordia eius
Et veritas Domini  in aeternum

Gloria Patri et Filio et Spiritui Sancto
Sicut erat in principio
Et nunc, et semper
Et in saecula saeculorum
Amen, Amen, Amen, Amen

sábado, 11 de abril de 2020

Poesia inédita em tempo de peste

À MINHA GATINHA ÍSIS

É esta a cativa
que me tem cativo,
só com ela vivo
por pouco que viva.

Na casa onde vivo
é ela quem manda:
se ali estou activo,
é que ela comanda.

A minha gatinha,
de porte altivo,
mantém-me cativo
co’a sua patinha.

É esta a cativa
que me tem cativo,
só com ela vivo
por pouco que viva.
                                         9.04.2020
Eugénio Lisboa,
lembrando-se vagamente de um poema de Camões, um seu colega em poesia, que também passou maus bocados.

Era a época da Páscoa

"Era, também, na Páscoa que apareciam, na Quinta, os cordeiros  ou anhos. Ofereciam-nos ao meu pai sempre nessa época. Geralmente,  juntavam quatro ou cinco que ficavam a pastar no campo. Para nós, era, então, o tempo da adopção. Cada um se apropriava, de imediato, de um deles. E até os baptizávamos, em cerimónia solene.(...) As nossas brincadeiras passavam a  incluir esses pequenos animais.  A erva era a fonte da sua alimentação. Enchíamos  gamelas de  verde e tenrinha erva colocando-as em frente do anho adoptado . A disputa começava quando um deles esgotava  a dose. Acreditávamos que era esse o jeito de lhes revelar o carinho que tínhamos. Creio que chegávamos a obrigá-los a rejeitar esse alimento, tal era a nossa insistência em proporcioná-lo.
Ficavam connosco durante algum tempo, até que, repentinamente, desapareciam. Inquietos, corríamos a Quinta na  infantil esperança e no ingénuo engano de os encontrar.  Era a desilusão total , quando um dos empregados nos dizia que os tinham vindo buscar nem nos acudia a curiosidade de saber para onde. O desencanto era tão profundo que nos limitávamos a encarar como um facto irreversível. Aliás, não era usual nesse tempo  questionar as decisões/ informações dos adultos. Por nós, não perpassava a mais ténue suspeita de que o destino dos nossos recém adoptados animais seria  compor as refeições típicas da Páscoa. O cuidado  de não permitir às crianças, que nós éramos, qualquer hipótese de descoberta do destino dos animais, prevalecia sobre qualquer outro. Ninguém  deixava escapar alguma pista que nos levasse a tentar defender os animais que tanto acariciávamos e  críamos como pertença indissolúvel, indestrutível.
As nossas brincadeiras incluíam esses pequenos animais e outros desafios. Vivíamos essa época, com muita alegria e sã vivacidade. Apanhavam-nos nas férias pascais. Os dias escoavam-se entre  muita  actividade que se nos oferecia ou  que engendrávamos. O  ar , embora fosse tempo de algum frio, trazia em si a frescura suave dos dias amenos que a prodigiosa natureza anunciava.

No Norte, a Páscoa era uma festa muito celebrada. Não havia aldeia, vilarejo ou cidade que não tivesse a visita pascal , no Domingo de Páscoa. Era o Compasso que se mantém ainda  em muitas zonas nortenhas. Nessa época da minha infância , não recordo o rigor  da Quaresma e da Semana Santa. Senti-o , pela primeira vez, quando já estava em Lisboa, num colégio religioso  que frequentei até ao 5º ano liceal, hoje (2018) correspondente ao 9º ano.
Ora a visita pascal era uma das tradições mais arreigadas da Páscoa. O Pároco  visitava as casas. Vinha acompanhado de uma escolta constituída pelo sacristão e alguns jovens que assistiam o serviço religioso, na respectiva igreja. Fazia-se anunciar por uma forte sineta que indicava a sua chegada. Transportava a cruz de Jesus, como símbolo da  Ressureição, que todos beijavam ou simulavam beijar. Creio que atiravam beijos para o ar.
A entrada da Quinta , como os caminhos que levavam às casas, era atapetada por pétalas de flores e folhas de algumas plantas e de  hera. Marcava a direcção que levava à porta principal da casa.  De  acordo com a tradição, havia uma mesa posta com alguma doçaria e vinhos, onde se destacava o vinho do Porto para recepção ao Padre e sua comitiva. O Pão-de-Ló era o bolo que simbolizava a Páscoa como que o gémeo do Bolo Rei do Natal. Nessa época, era normal encontrar espalhados pela sala de jantar e copa, alguns desses bolos que chegavam como oferta. As amêndoas doces de vários tipos entravam também à disputa com a demais doçaria. Nas férias , a minha mãe ia ao Porto abastecer- se de  algumas guloseimas  ligadas à Páscoa. Recordo o curioso interesse que nos davam as amêndoas de licor. Não pelo licor mas pelos variados formatos com que se apresentavam. Eram uma tentação para o olhar de uma criança. Havia, ainda,  as amêndoas de chocolate , as torradas  e os variados ovos  para compor  o típico cardápio doce da festa pascal.
O que realmente me acode dessa festa são os cheiros, os sabores, o convívio familiar, à roda de um mesa farta e grande e, também, a chegada do Compasso pela manhã, que obrigava o meu pai a sair da cama, quando a sineta já se fazia ouvir, no portão da Quinta. Esperava até ao último momento para não perder o repouso matinal que tanto apreciava ao Domingo."
Maria José Vieira de Sousa, in «O livro que já escrevi», pp.151-154.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Prece de gratidão

Prece de gratidão

Eu te agradeço, Senhor,
ser filho do Teu amor
e herdeiro do Universo.
Ser cantor dessa beleza,
ter um lugar nessa mesa,
pelo sabor do meu verso.

Senhor, muito obrigado,
pelos pais bons e honrados
e pelas lições da pobreza.
Pelo café com farinha,
por tudo que eu não tinha
e que fez minha riqueza.

Pelo meu corpo perfeito,
pela poesia em meu peito
e os anos da minha idade.
Por todo dever cumprido,
pelo amparo recebido
e o céu da imortalidade.

Eu Te agradeço também
pela semente do bem
plantada no meu pomar.
Pela doçura desse fruto
não ter me tornado um bruto 
e ter aprendido a amar.

Pela água da minha fonte,
pela linha do horizonte
e um sonho de marinheiro.
Pelo meu mar de criança
e o meu barco de esperança
percorrendo o mundo inteiro.

Pelo pão, pelo abrigo,
pelo abraço do amigo,
por Teu carinho invisível.
Agradeço-Te com veemência
esta paz na consciência
e a minha fé invencível.

Pela luz que me ilumina
desde a antiga Palestina
na alegria e na dor.
Por quem sou, pelo que sei,
por Moisés trazendo a Lei,
por Jesus trazendo o amor.

Senhor, eu Te agradeço
pela dor e o tropeço
quando ensinam uma lição.
Ninguém paga sem dever
e a Lei obriga a colher
o efeito da nossa acção.

Pela sapiência contida
no pergaminho da vida,
na magia e na razão.
Agradeço-Te a minha parte,
pela ciência, pela arte
e pela Grécia de Platão.

Por Cabral no rumo certo,
pelo Brasil descoberto,
pela pátria e o cidadão.
Pelo herói da Inconfidência,
o Grito da Independência
e a bênção da Abolição.

Pelas lições da História,
pelo povo e a sua glória
na busca da liberdade.
E pela Humanidade inteira,
quando erguer sua bandeira
pela paz e a verdade.

Grato sou por ter um sonho,
sonhar com um mundo risonho
numa paz contagiante.
Ver este Brasil fecundo,
como o coração do mundo,
em um porvir deslumbrante.

Agradeço o bom combate,
e ter encarado esse embate,
com o coração despojado.
Com Tua luz nos meus passos,
a fraternidade em meus braços
e o meu sonho preservado.

Contigo, Senhor, sou forte,
tenho um fanal, tenho um norte:
amor, sensibilidade.
Eu moro na melodia,
na música, na poesia
e no farol da verdade.

Muito obrigado, Senhor
pelo trabalho e o suor,
pelo que dei e recebi.
Quando chegar meu momento,
se eu tiver merecimento,
me leva pra junto de Ti.
                                      Curitiba, Dezembro de 2002
Manoel de Andrade, in " As palavras no Espelho", Editora Escrituras, São Paulo, Brasil, 2018, pp. 255-258