terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Um recanto europeu diferente

Image caption
Baarle-Nassau, na Holanda, abriga mais de 20 enclaves belgas
 Foto: Andrew Eames
A cidade europeia em que a fronteira entre dois países divide casas ao meio
Por Andrew Eames ,BBC Travel , 25 Dezembro 2017

"Um recanto sossegado no norte da Europa chama a atenção por uma anomalia geográfica - muitas das suas casas são divididas por uma fronteira internacional, que passa no meio das propriedades.
Desta forma, um casal pode deitar-se na mesma cama, mas dormir em países diferentes. E há quem mude de lugar a porta principal da casa  para obter vantagens económicas.
Não muito longe da fronteira com a Bélgica, o município holandês de Baarle-Nassau abriga cerca de 30 enclaves belgas, conhecidos como Baarle-Hertog.

Image caption As fronteiras da região não foram definidas até 1995, quando o último lote de terra foi concedido à Bélgica | Foto: Andrew Eames

Toda essa confusão remete à Idade Média, quando lotes de terra foram divididos entre diferentes famílias da aristocracia local. Baarle-Hertog (hertog significa "duque" em holandês) pertenceu ao duque de Brabante, enquanto Baarle-Nassau era propriedade da Dinastia Nassau.
Quando a Bélgica declarou a independência dos Países Baixos, em 1831, as duas nações ficaram embaralhadas de tal forma que os sucessivos regimes que assumiram foram dissuadidos de definir suas áreas de jurisdição exactas.
As fronteiras não foram estabelecidas até 1995, quando o último lote restante da "terra de ninguém" foi concedido à Bélgica.

Diferenças

Dos cerca de 9 mil moradores da região, aproximadamente três quartos têm passaporte holandês.

Image caption As fronteiras são marcadas por cruzes brancas nas calçadas, indicando 'NL' de um lado e 'B' no outro | Foto: Toerisme Baarle

O município holandês também detém, de longe, a maior parte de terra -76 quilómetros quadrados, em comparação com os 7,5 quilómetros quadrados belgas.
À primeira vista, não é fácil distinguir os territórios, que poderiam ser confundidos com qualquer cidade típica holandesa.
Mas, depois de algum tempo, as diferenças se tornam evidentes. Há marcações nas calçadas - cruzes brancas com 'NL' num lado e 'B' no outro - e bandeiras ao lado dos números das casas para indicar a que país pertencem.
Além disso, as propriedades holandesas são mais padronizadas que a dos vizinhos belgas. As suas calçadas são cobertas por limoeiros, com galhos cuidadosamente podados e trançados como parreiras de uva.
Já a parte belga tende a ter uma diversidade arquitectónica maior.
Se o visitante tiver o ouvido bom, também pode diferenciar os sotaques, explica Willem van Gool, presidente do escritório de turismo de Baarle. Embora a língua francesa seja ensinada nas escolas belgas, o holandês é o idioma principal de ambas as comunidades.
"Com os belgas é mais como um dialecto, e com os holandeses, (o som) é mais ... limpo", observa van Gool.

Image caption Muitos prédios em Baarle-Nassau e Baarle-Hertog são divididos ao meio pela fronteira | Foto: Toerisme Baarle

Esse facto, aliado à abordagem menos usual das residências no lado belga, levou parte dos holandeses a menosprezar os vizinhos.
"Nos dias em que as aulas nas escolas acabavam ao mesmo tempo, os jovens brigavam", lembra van Gool.
Mas isso acabou na década de 1960, quando os dois prefeitos da cidade (um holandês e um belga) alteraram os horários das escolas e determinaram que o clube juvenil promovesse interacções positivas entre os jovens.

Harmonia

Hoje, muitos moradores de Baarle-Nassau e Baarle-Hertog têm dupla cidadania - um passaporte belga e um holandês.
O convívio pacífico das duas nações atraiu, inclusive, o interesse de assessores do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, por ser um exemplo de como duas comunidades diferentes podem viver juntas em harmonia.
Será então que a confusão geopolítica trouxe vantagens para Baarle-Nassau e Baarle-Hertog? Certamente atrai turistas, diz van Gool.
"O número de lojas, hotéis e cafés que temos seria mais adequado para uma cidade de 40 mil habitantes, em vez de 9 mil. E quando as lojas belgas fecham no domingo, as holandesas não (fecham)", explica.

Desafios e negociações

Mas as complexidades mostram-se  latentes principalmente quando se trata de infraestruturas. As licenças para construção podem ser especialmente complicadas, segundo Leo van Tilburg, prefeito do município belga, cuja câmara municipal é dividida pela fronteira.
Por causa da localização, a Bélgica teve que pedir permissão holandesa para construir parte do prédio da prefeitura - a área é delimitada por uma faixa iluminada que atravessa a sala de reuniões.
Desta forma, grande parte do tempo de Tilburg é dedicado a resolver questões relacionadas ao fornecimento de serviços - como educação, água, infraestrutura - em parceria com sua homóloga holandesa, Marjon de Hoon.
Pavimentar estradas é sua maior dor de cabeça, uma vez que as rodovias podem cruzar várias vezes as fronteiras em poucas centenas de metros. Há ainda problemas em relação à rede de esgoto.
"A estrada sobre a qual o tubo está sendo instalado pode ser toda belga, mas quem paga se a tubulação tiver que ser ampliada por causa de casas holandesas nas proximidades? E quem paga pela iluminação pública, onde a calçada é belga, mas a luz ilumina janelas holandesas? ", questiona Tilburg.
"(Mas) se houver 100 problemas, 98 deles não serão um problema - após muitas discussões, é claro", esclarece.
Tudo é uma questão de negociação.

Brechas jurisdicionais

Dado que as leis de planeamento urbano da Bélgica são menos restritivas que as da Holanda, há vantagens claras em instalar a porta principal da casa em território belga.

Image caption Kees de Hoon (à direita) contornou uma proibição holandesa para construção instalando uma segunda porta no prédio, no lado belga da fronteira | Foto: Andrew Eames

Kees de Hoon, que tem passaporte holandês, queria reformar o prédio onde mora. Mas a porta principal do edifício ficava na Holanda e ele não conseguiu permissão da prefeitura holandesa.
Ele resolveu o problema instalando uma segunda porta principal, adjacente à primeira, mas do outro lado da fronteira.
Agora, com um prédio com duas portas, um de seus apartamentos é holandês, e os outros três são belgas.
Kees não é o único a aproveitar as brechas jurisdicionais. Muitas famílias e empresários estabelecidos na região  beneficiaram de alguma forma.
O caso mais evidente é de um antigo banco que foi construído bem em cima da fronteira, de modo que a papelada pudesse ser levada de um lado para o outro do prédio, sempre que fiscais da receita de uma determinada nacionalidade solicitassem.
Embora a exploração de brechas não seja tão comum actualmente, não pude deixar de imaginar os dias de glória da flexibilização fronteiriça. O gado que misteriosamente mudava de pasto durante a noite. O estoque de uma loja adquirido num país e vendido no outro sem passar pela receita...
"É um assunto sobre o qual os moradores gostam de falar", concorda van Gool.
"E isso foi feito em ambos os lados da fronteira", acrescenta.

Pontos de atrito

Isso não significa que não haja atrito entre as duas jurisdições. Na Holanda, a idade mínima para consumo de álcool é 18 anos, mas os belgas podem beber legalmente a partir dos 16 anos. Então, se um garçon holandês se recusar a servir um bando de adolescentes, eles podem simplesmente atravessar a rua.
Além disso, as diversas lojas de fogos de artifício localizadas nas partes belgas são fonte de irritação para as autoridades holandesas. Nos Países Baixos, a venda e o transporte de fogos de artifício são ilegais (excepto no Ano Novo).
Assim, ao fim da minha visita a Baarle-Nassau / Baarle-Hertog em Novembro, eu tive que passar polícia holandesa, que estava revistando todos que saíam da cidade.
Tudo indica que, nesta expiência de cooperação entre fronteiras, ainda há questões pendentes a serem resolvidas."
Leia a versão original desta reportagem (em inglês) na BBC Travel.

domingo, 24 de dezembro de 2017

No Domingo de Natal Há Música

"Mas tinham vivido o Amor, essência daquela doutrina que ainda não tinha sido pregada e ninguém registara ainda. No mais íntimo dos seus corações tinham sentido aquela verdade: « O que fizerdes ao mais pequeno e ao mais ínfimo a Mim e o fareis».
E naquela noite, em que os animais falaram, as flores abriram o esplendor  das suas pétalas nas trevas, como se as entregassem à luz do meio-dia, as pedras puderam deslocar-se para se dessedentarem  nos regatos mais próximos, adormeceram com a criança aconchegada, entre eles. 
Longe, a estrela fazia descer a sua cascata de fogo sobre Belém de Judá."
                                                            Luísa Dacosta
                                                            Matosinhos, Natal de 88 
Luísa Dacosta, in " Natal com Aleluia", Obras Completas , Edições Asa

A verdade pode sempre descer nas vozes e sons de quem dá à melodia a forma íntima que entra no coração de cada um e de todos nós.
Feliz Natal.

Julian Lloyd Webber interpreta Karl Jenkins' Benedictus", no Welsh Millennium Centre, Cardiff, a  10 de Fevereiro de 2014.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Para Ler em Dezembro

ESCLARECIMENTO
por Eugénio Lisboa
"Tinha planeado que o 5º seria o último volume desta saga memorialística a que, em 2012, dera início e, em 2016, concluí. Tinha apenas congeminado acrescentar-lhe, em 2017, um “anexo”, com o diário das viagens feitas durante o período coberto pelo 5º volume (1995 – 2015). Não inserira, no volume, este diário, apenas para não o tornar demasiado volumoso. Com a sua publicação separada, em 2017, a obra ficaria finalmente terminada. O que se pudesse passar, depois de 2015, já não teria que ver com estas memórias, ficando, se ficasse, apenas registado no meu diário. Aconteceu, porém, que a vida – a minha e a da Maria Antonieta – não continuou, depois de 2015, numa rotina mais ou menos aprazível. Entre 2015 e 2016, algo de profundamente perturbante e dramático aconteceu à MA: uma súbita doença que levou à amputação de uma perna e, menos de um ano depois, ao seu falecimento. Publicar um livro de memórias que ignorasse este acontecimento, como se nada se tivesse passado, pareceu-me inconcebível e quase afrontoso. A perda da MA foi um dos acontecimentos mais perturbantes de toda a minha vida e um dos que mais me marcou de modo profundo e irremediável. Por isso resolvi acrescentar agora este desolador epílogo ao acervo memorialístico que, em 2012, sem qualquer certeza de o poder levar a bom termo, iniciei. Nele descrevo, o melhor que posso, o período de doença e morte, da minha companheira de 57 anos."
Eugénio Lisboa , in Acta est Fabula, Memórias Epílogo 2015-1017, Opera Omnia Editora, 185 páginas, Novembro de 2017

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Prova da existência de Deus


"Quando escutamos Bach, vemos germinar Deus. Sua obra é geradora de divindade. Depois de um oratório, de uma cantata ou de uma «Paixão», Ele tem que existir. Do contrário, toda a obra do Cantor seria uma ilusão desagarradora.
….e pensar que tantos teólogos e filósofos perderam tantos dias e tantas noites buscando provas da existência de Deus, esquecendo-se da única…" E.M. Cioran , in Lacrimi şi sfinţi
Johann Sebastian Bach (1685 - 1750), em MAGNIFICAT - D-Dur BWV 243 (1723,1730), com Anna Nesyba ( Soprano) Monteverdichor Würzburg, Monteverdi Ensemble sob a direcção do Maestro Matthias Beckert.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

O amor é antipolítico

O amor é uma poderosa força antipolítica
“O amor, em virtude de sua paixão, destrói o ‘entre’, esse espaço que nos relaciona com outros e nos separa deles. Enquanto dura o seu encanto, o único ‘entre’ que pode inserir-se no meio de dois amantes é a criança, o próprio produto do amor. A criança, esse ‘entre’ com que os amantes agora estão relacionados e mantêm em comum, é representativa do mundo onde ela também os separa; é uma indicação de que eles inserirão um novo mundo no mundo existente. Por meio da criança, é como se os amantes retornassem ao mundo do qual seu amor os expeliu. Mas essa nova mundanidade, resultado e único final possíveis de um caso de amor, é, num certo sentido, o final de um amor, que deve superar novamente os padrões ou ser transformado em outro modo de estar juntos. O amor por sua natureza não é mundano, e é por isso — não por raridade — que é não apenas apolítico, mas antipolítico, talvez a mais poderosa de todas as forças antipolíticas humanas.”
Hannah Arendt, em A Con­dição Hu­mana, Relógio D'Água Editores

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Fica comigo

Stay with me darling
Stay with me darling
Let us lose ourselves in the moonlight
Lose ourselves
As we find

That there's nothing I could say that would make you go away
No danger I was in and you wouldn't step in the way
I’m not alone anymore
This love's unconditional

Sway with me darling
Just sway with me darling
Let us lose ourselves in the moment
Lose ourselves
As we both find

There’s nothing you could say
That would make me go away
No danger you were in and I wouldn't step in the way
You’re not alone, anymore
‘Cos this love’s unconditional

Oh Lord when will I breathe again
And when will I stop smiling
Somehow you made me believe again
That this is love

And this love's unconditional
Oh this love's unconditional
This love's unconditional
Freya Ridings - Unconditional (Live at St. Pancras Old Church)

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

As emoções da Literatura são eternas

Sobre os clássicos
por Jorge Luis Borges
"Escassas disciplinas haverá de maior interesse que a etimologia: isto se deve às imprevisíveis transformações do sentido primitivo das palavras, ao longo do tempo. Dadas essas transformações, que podem atingir as raias do  paradoxal, de nada ou de pouquíssimo nos servirá para o esclarecimento de um conceito a origem de uma palavra. Saber que cálculo, em latim, quer dizer "pedrinha" e que os pitagóricos  as usaram  antes da invenção dos números, não nos permitem dominar os mistérios da álgebra; saber que hipócrita era actor, e pessoa, máscara, não é nenhum instrumento valioso para o estudo da ética. Analogamente, para fixar o que hoje em dia  entendemos por clássico, é inútil saber que esse adjectivo descenda do latim classis, frota, que  a seguir ganharia o sentido de ordem. (De passagem, recordemos a formação análoga de ship-shape.)
O que é, agora, um livro clássico? Tenho à mão as definições de Eliot, de Arnold e de Sainte-Beuve, sem dúvida razoáveis e luminosas, e ser-me-ia muito grato estar de acordo com esses ilustres autores, mas não vou consultá-los.  Já completei sessenta e tantos anos; na minha idade, as coincidências ou as novidades importam menos do que aquilo que julgamos verdadeiro. Limitar-me-ei , portanto, a declarar o que  sobre esse ponto tenho pensado.
O meu primeiro estímulo foi uma História da Literatura Chinesa (1901) de Herbert Allen Giles. No seu  capítulo segundo li que um dos cinco textos canónicos que Confúcio promulgou é o Livro das Transformações ou I Ching, feito de 64 hexagramas, que esgotam as possíveis combinações  de duas linhas  inteiras. Um dos esquemas, por exemplo, consta de duas linhas inteiras, de uma partida, e de três inteiras, verticalmente dispostas . Um imperador pré-histórico tê-los-ia descoberto na casca de uma das tartarugas sagradas. Leibniz julgou ver nos hexagramas um sistema binário de numeração; outros, uma filosofia enigmática; outros, como Wilhelm, um instrumento para a adivinhação do futuro, visto que as 64 figuras correspondem às 64 fases de qualquer empreendimento ou processo; outros ainda, um vocabulário de certa tribo; outros, um calendário. Lembro-me de que Xul Solar costumava reconstruir esse texto com palitos ou fósforos. Para os estrangeiros, o Livro das Transformações corre o risco de parecer uma mera chinoiserie; mas gerações milenares de homens  cultíssimos têm-no lido e relido com devoção e continuarão a lê-lo. Confúcio declarou aos seus discípulos que se o destino lhe oferecesse mais cem anos de vida, consagraria metade deles ao seu estudo e ao dos comentários, ou alas.
Deliberadamente escolhi  um exemplo extremo, uma leitura que reclama um acto de fé. Chego, agora, à minha tese. Clássico é aquele livro que uma nação ou um grupo de nações ou o longo tempo decidiram ler como se nas suas páginas tudo fosse deliberado, fatal, profundo como o cosmos e capaz de interpretações sem fim. Previsivelmente, essas decisões variam. Para os Alemães e os Austríacos,  o Fausto é uma obra genial; para outros, uma das mais famosas formas do tédio, como o segundo Paraíso de Milton ou a obra de Rabelais. Livros como o Livro de Job, A Divina Comédia”, Macbeth (e, para mim, algumas das sagas do Norte) prometem uma longa imortalidade, mas nada sabemos do futuro, esalvo que diferirá do presente.Uma preferência pode muito bem ser uma superstição.
Não tenho vocação de iconoclasta. Pelos anos trinta,  sob a influência de Macedónio Fernández, acreditava que a beleza é privilégio de uns poucos autores; agora sei que é comum e que  nos espreita nas casuais páginas  do medíocre ou num diálogo de rua. Assim, o meu desconhecimento das letras malaias ou húngaras é total, mas tenho a certeza de  que se o tempo me oferecesse a oportunidade para o seu estudo, iria encontrar  nelas  todos os alimentos que requer o espírito . Além das barreiras linguísticas, intervêm as barreiras políticas ou geográficas. Burns é um clássico na Escócia; no sul do Tweed,  interessa menos que Dunbar ou que Stevenson. A glória de um poeta depende, em suma, da excitação ou da apatia das gerações de homens anónimos que a põem à prova, na solidão das bibliotecas.
As emoções que a literatura suscita são  talvez eternas, mas os meios têm  constantemente de variar, nem que seja de um modo levíssimo, para não perderem a sua virtude. Vão-se gastando à medida que os reconhece o leitor  Daí o perigo de se afirmar que existem obras clássicas e que o serão  para sempre.
Cada qual  descrê da sua arte e dos seus artifícios. Eu, que me resignei a pôr em dúvida a indefinida perduração  de Voltaire ou Shakespeare, acredito  (nesta tarde, num dos últimos dias de 1965) na de Schopenhauer e na de Berkeley.
Clássico não é um livro (repito-o) que necessariamente possua tais ou tais méritos; é um livro que as gerações dos homens, instadas por diversas razões, lêem com prévio fervor e com uma misteriosa lealdade."
Jorge Luis Borges, in Nova Antologia Pessoal, Quetzal Editores, Outubro de 2017, pp. 303-306