quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Passageiro de destino


Biografia

             Para Marco Pólo Passos

Cheguei com dezessete anos de esperança...
sem recurso
sem norte
sem uma referência sequer.
Passageiro de destino,
trazia uma ferida aberta pela súbita orfandade
e na memória um coração paterno destroçado.
Trazia uma única saudade,
o coração ancorado na distância
e um sonho prometido no sacrário da alma.

Numa mala de papelão
trazia os meus tesouros:
um terno de formatura azul-marinho,
o diploma ginasial,
minhas primeiras letras
e uma certidão de nascimento desbotada.

Uma escada lúgubre e empinada
o quarto mais barato da pensão
seis metros enquadrados
partilhados com um motorista de ônibus urbano... rude e desonesto,
o telhado inclinado sobre as camas
o arrulho amoroso das pombas
uma clarabóia que se abria para o céu
um aluguel adiantado
a matrícula no colégio público
o “sortido” dos primeiros dias
o pão nosso dos últimos dias
o derradeiro centavo

a fome
o terceiro dia
o desencanto
e a imensa solidão do mundo.

Um banco solitário
um pânico silencioso, resignado e calmo
a morte na alma.
As horas passam
os transeuntes passam
indiferentes à minha dieta de água e impotência.
À luz do meio dia... uma discreta agonia
e de repente... um grito...
meu apelido da infância...
um abraço inesperado, fraterno e conterrâneo...
quando...? onde...? como...? venha comigo Lelo...

................................................................................

obrigado Marco Polo por aquela bandeja farta
pelos primeiros amigos
por tudo...
e sobretudo...
obrigado
pela tua mão invisível, Senhor...
que desde sempre amparou meus passos.

Manoel de Andrade, Curitiba, Junho de 2003, in " Cantares ", Ed. Escrituras, S.Paulo, Brasil

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Actualidade europeia em cartoon

The Daily Cartoon, in "The Independent"


Cartoon Elias o sem abrigo, de R.Reimão e Aníbal F
in "Jornal de Notícias"
Cartoon de Rodrigo, publicado no Caderno de Economia do" Expresso" em 10 de Dezembro de 2011

A maior chuva de estrelas de 2011

"A chuva de meteoros Gemínidas, a mais potente do ano, vai alcançar, esta Quinta-feira de madrugada, a sua máxima actividade, podendo ser avistada até Sexta-feira a partir de quase todos os lugares da Terra.
A chuva de estrelas baseia-se naquilo a que vulgarmente chamamos estrelas cadentes e que são restos deixados pelos cometas na sua órbita em volta do Sol em locais que a Terra atravessa periodicamente.
Mas o espectáculo desta semana é diferente, por as partículas espaciais não serem restos de um cometa, mas de um estranho objecto rochoso designado 3200 Faetón, que liberta escombros empoeirados, as chamadas Gemínidas.
A Agência Espacial norte-americana (NASA) desafia os internautas a assistirem esta noite em directo à "chuva de estrelas" através da Internet, pela página "Up All Night with NASA".
Os especialistas da NASA responderão em directo às dúvidas dos internautas desde o Centro Marshall para Voos Espaciais a partir das 23.00 horas locais (04.00 horas de quinta-feira em Portugal continental).
A lua dificultará a observação da "chuva de estrelas", mas se o céu estiver limpo prevê-se que possam ser observadas cerca de 40 Gemínidas por hora."In JN, 14 de Dezembro de 2011

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A sorte de ter nascido

“ A saudade que dói mais fundo - e irremediavelmente - é a saudade de nós.”
                                                                                  Mário Quintana


“Entre uma infinidade de hipóteses de não teres nascido, saiu-te a sorte de teres nascido. Se te tivesse saído a “sorte grande”, haveria gente que se admiraria de isso te ter acontecido. Tu mesmo dirias talvez que parecia um “sonho”, que era inacreditável, que ainda não tinhas caído em ti do assombro. Mas essa sorte foi a de um número entre dezenas de milhares ou mesmo centenas. Mas teres nascido é ter-te saído a sorte entre biliões e biliões e biliões de hipóteses negativas. Saiu-te o número inscrito numa areia do universo. Tens pois o privilégio incrível de veres o sol, as flores, os animais. De ouvires as aves e o vento. De e todavia, como esqueces isso tão facilmente. Breve tudo se te apagará em silêncio. Breve a oportunidade de estares vivo cessou. Provavelmente ninguém mais saberá que exististe. E mesmo dos que o souberem, não se saberá um dia. Num momento não muito longínquo morrerá o último homem sobre a face da Terra. Esse é, aliás, o momento da tua própria morte, porque tu és o primeiro e o último homem que nasceu. Tudo é rápido e contingente e miraculoso. Tudo é rápido e sem consequências. A única consequência és tu e a vida que viveres. Não a desperdices. Não inutilizes a fabulosa sorte que te calhou. Vê. Ouve. Pára, escuta e olha, que a morte vai a passar. E terás cumprido ao menos, para com o universo, um pouco do teu dever de gratidão."
Vergílio Ferreira, in “Pensar”, Bertrand Editora, 1992, 3ª Edição

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

E Há os Amigos


"Tenho horror a hospitais – os frios corredores, as salas de espera, ante-salas da morte – mais ainda a cemitérios onde as flores perdem o viço; não há flor bonita em campo santo!
Possuo, no entanto, um cemitério meu, pessoal, eu o construí e inaugurei há alguns anos, quando a vida me amadureceu de sentimento. Nele enterro aqueles que matei, ou seja, aqueles que para mim deixaram de existir, morreram, os que um dia tiveram a minha estima e a perderam.
Quando um tipo vai além de todas as medidas e, de facto, me ofende, já com ele não me aborreço, não fico enojado ou furioso, não brigo, não corto relações, não lhe nego o cumprimento. Enterro-o na vala comum de meu cemitério – nele não existem jazigos de família, túmulos individuais; os mortos jazem em cova rasa, na promiscuidade da salafrice, do mau carácter. Para mim, o fulano morreu, foi enterrado, faça o que faça já não pode me magoar.
Raros enterros – ainda bem! – de um pérfido, de um perjuro, de um desleal, de alguém que faltou à amizade, traiu o amor, foi por demais interesseiro, falso, hipócrita, arrogante – a impostura e a presunção me ofendem fácil. No pequeno e feio cemitério, sem flores, sem lágrimas, sem um pingo de saudade, apodrecem uns tantos sujeitos, umas poucas mulheres, uns e outras varri da memória, retirei da vida.
Encontro na rua um desses fantasmas, páro a conversar, escuto, correspondo às frases, às saudações, aos elogios, aceito o abraço, o beijo fraterno de Judas. Sigo adiante, o tipo pensa que mais uma vez me enganou, mal sabe ele que está morto e enterrado."
Jorge Amado , in “ Navegação de Cabotagem, Apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei ”, 1992, Editora Europa–América, Mem- Martins


Os Amigos

Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.

Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia", Iniciativas Editoriais, Lisboa, 1958

Aos Amigos

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

Herberto Helder, in “ Ofício Cantante”, Lisboa, Assírio & Alvim, 2009



Os Amigos
no regresso encontrei aqueles
que haviam estendido o sedento corpo
sobre infindáveis areias

tinham os gestos lentos das feras amansadas
e o mar iluminava-lhes as máscaras
esculpidas pelo dedo errante da noite

prendiam sóis nos cabelos entrançados
lentamente
moldavam o rosto lívido como um osso
mas estavam vivos quando lhes toquei
depois
a solidão transformou-os de novo em dor
e nenhum quis pernoitar na respiração
do lume

ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar
a flor que murcha no estremecer da luz
levei-os comigo
até onde o perfume insensato de um poema
os transmudou em remota e resignada ausência

Al Berto, in "Sete Poemas do Regresso de Lázaro"


Preciso de alguém
"Que me olhe nos olhos quando falo.
Que ouça as minhas tristezas e neuroses com paciência.
Preciso de alguém, que venha brigar ao meu lado sem precisar ser convocado; alguém Amigo o suficiente para dizer-me as verdades que não quero ouvir, mesmo sabendo que posso odia-lo por isso.
Neste mundo de cépticos, preciso de alguém que creia, nesta coisa misteriosa, desacreditada, quase impossivel de encontrar: A Amizade.
Que teime em ser leal, simples e justo, que não vá embora se algum dia eu perder o meu ouro e não for mais a sensação da festa.
Preciso de um Amigo que receba com gratidão o meu auxílio, a minha mão estendida.
Mesmo que isto seja pouco para as suas necessidades.
Preciso de um Amigo que também seja companheiro, nas farras e pescarias, nas guerras e alegrias, e que no meio da tempestade, grite em coro comigo:
"Nós ainda vamos rir muito disso tudo"
Não pude escolher aqueles que me trouxeram ao mundo, mas posso escolher o meu Amigo.
E nessa busca empenho a minha própria alma, pois com uma Amizade Verdadeira, a vida se torna mais simples, mais rica e mais bela..."
Charles Chaplin


A um ausente

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.

Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.


Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu,
enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o acto sem continuação, o acto em si,
o acto que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?


Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.


Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.


Carlos Drummond de Andrade, In “Antologia poética (selecção e prefácio de Massaud Moisés)”, Lisboa, Portugália, 1965, Colecção “Poetas de Hoje”

Perguntei a um sábio

Perguntei a um sábio,
a diferença que havia
entre amor e amizade,
ele me disse essa verdade...
O Amor é mais sensível,
a Amizade mais segura.
O Amor nos dá asas,
a Amizade o chão.
No Amor há mais carinho,
na Amizade compreensão.
O Amor é plantado
e com carinho cultivado,
a Amizade vem faceira,
e com troca de alegria e tristeza,
torna-se uma grande e querida
companheira.
Mas quando o Amor é sincero
ele vem com um grande amigo,
e quando a Amizade é concreta,
ela é cheia de amor e carinho.
Quando se tem um amigo
ou uma grande paixão,
ambos sentimentos coexistem
dentro do seu coração.


William Shakespeare


Espera

Na volta do mar
espreito
teu vir
teu ir
tua ausência.

Na volta do mar
deixo meus gestos de adeus.

Luisa Ducla Soares, in " A Maresia e o Sargaço dos Dias", Edições Asa

domingo, 11 de dezembro de 2011

Ao Domingo Há Música

Sob os magníficos acordes  do piano  em " Kiss the rain ", produzidos pelas mãos  ágeis de Yurima,  recordar as palavras de Eugénio de Andrade no poema "Pequena elegia para Domingo" é o exercício musical  que se propõe para este 11 de Dezembro de 2011, Domingo de um Inverno anunciado.



Pequena elegia chamada Domingo

O domingo era uma coisa pequena.
Uma coisa tão pequena
que cabia inteirinha nos teus olhos.
Nas tuas mãos
estavam os montes e os rios
e as nuvens.
Mas as rosas,
as rosas estavam na tua boca.

Hoje os montes e os rios
e as nuvens
não vêm nas tuas mãos.
(Se ao menos elas viessem
sem montes e sem nuvens
e sem rios...)
O Domingo está apenas nos meus olhos
e é grande.
Os montes estão distantes e ocultam
os rios e as nuvens
e as rosas.

Eugénio de Andrade, «As Mãos e os Frutos» in Poesia, Porto, Fundação Eugénio de Andrade, 2005, 2.ª ed.

sábado, 10 de dezembro de 2011

A Natureza-Morta na Europa


No  Documentário sobre a exposição "A Natureza-Morta na Europa. 1840-1955", Neil Cox, o comissário científico da exposição,  fala sobre os desafios na concepção da categoria da natureza-morta na era moderna e sobre o desenvolvimento da exposição.
Uma exposição que tem tido uma afluência extraordinária de visitantes  e que ficará patente ao público até 8 de Janeiro de 2012, na Galeria de Exposições da Sede da Fundação Calouste Gulbenkian.
Relembrar e contemplar o fulgor artistico europeu é uma alternativa à visão actual de uma Europa em convulsão.



A Perspectiva das Coisas. A Natureza-morta na Europa. 1840 - 1955
Até 8 Jan 2012
Todos os dias das 10:00 às 20:00
Encerra às segundas
Galeria de Exposições da Sede
da Fundação Calouste Gulbenkian

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Angola: poesia e civilização


Bailarina negra
A noite
(Uma trompete, uma trompete)
fica no jazz

A noite
Sempre a noite
Sempre a indissolúvel noite
Sempre a trompete
Sempre a trépida trompete
Sempre o jazz
Sempre o xinguilante jazz

Um perfume de vida
esvoaça
adjaz
Serpente cabriolante
na ave-gesto da tua negra mão

Amor,
Vênus de quantas áfricas há,
vibrante e tonto, o ritmo no longe
preênsil endoudece

Amor
ritmo negro
no teu corpo negro
e os teus olhos
negros também
nos meus
são tantãs de fogo
amor
.
António Jacinto* , in “ Poemas 1961”

*António Jacinto, cujo nome completo é António Jacinto do Amaral Martins, nasceu em Luanda em 1924 e faleceu em 1991. Orlando Távora é o pseudónimo utilizado por António Jacinto como contista. Por razões políticas esteve preso entre 1960 e 1972. Militante do MPLA, foi co-fundador da União de Escritores Angolanos, membro do Movimento de Novos Intelectuais de Angola e participou activamente na vida política e cultural angolana. Foi empregado de escritório e técnico de contabilidade, Ministro da Educação de Angola e Secretário de Estado da Cultura.
Obra poética: “Poemas, 1961”


Monangambé  (contratado)
Naquela roça grande
não tem chuva
é o suor do meu rosto
que rega as plantações;
Naquela roça grande
tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue
feitas seiva.

O café vai ser torrado
pisado, torturado,
vai ficar negro,
negro da cor do contratado.
Negro da cor do contratado!

Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:

Quem se levanta cedo?
quem vai à tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendém?
Quem capina e em paga recebe desdém
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta angolares
"porrada se refilares"?

Quem?
Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer?
- Quem?
Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?

Quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande
- ter dinheiro?
- Quem?

E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:

- "Monangambééé..."

Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo
e esquecer diluído
nas minhas bebedeiras

- "Monangambéé...'"

António Jacinto, in " Poemas, 1961"

Ruínas de Mbanza Kongo


Angola: Ruinas de Mbanza Kongo candidata-se a Património da Humanidade
"A coordenadora da candidatura das ruínas de Mbanza Kongo, Angola, a património da humanidade afirmou Quarta-Feira, 7 de Dezembro, que o Governo tem até Julho de 2012 para apresentar o dossiê à UNESCO e considerou que já existem indícios para sustentar a inscrição.
Segundo a arqueóloga Sónia da Silva António, a coordenadora do Projecto «Mbanza Kongo, cidade a desenterrar para preservar», do Ministério da Cultura angolano, decorrem actualmente os trabalhos de escavação na área classificada daquela cidade para procurar as provas arqueológicas de que a antiga capital do reino do Kongo tem um valor universal excepcional.
Formado no século XIII, o reino do Kongo tinha seis províncias e ocupava parte dos actuais territórios de República Democrática do Congo (RDC), Congo Brazzaville, Gabão e Angola. Mbanza Kongo ainda hoje preserva as ruínas daquela que pode ter sido a primeira Sé Catedral erguida ao sul do Saara, denominada Kulumbimbi e construída no século XVI, testemunha da presença portuguesa na região.
Sónia António, que desde segunda-feira se encontra em Mbanza Kongo acompanhada de dois arqueólogos da Universidade de Yaoundé, Camarões, para mais uma missão científica, reconheceu que ainda há muito por pesquisar, mas que existem já indícios que podem sustentar a inscrição das ruínas na agência das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).Notícia in “ Ciência Hoje”