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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Exílio

Não conhecias esse reino
essa cidadela de detritos, pressentimentos e punhais
essa arquitetura vertical, opaca e silenciosa
essas casas que não falam
esse outono permanente
esse calendário de incertezas 
esse abismo se adentrando pelo tempo
suas sombras soluçantes
seus indiferentes passageiros
e esta penumbra de tarântulas, teias e domínio.

Vinhas dos litorais do sul
de caminhos claros e águas transparentes.
Convivias com a linha do horizonte
e o encanto assobiava nos teus lábios.
Vinhas dos diálogos calorosos
de gestos francos e de sonoras vizinhanças.
Agora aqui estás...a suportar a  inconsumada  infância
teu cálice e tua sede
tua âncora enterrada nas areias da saudade.

Desterrado do teu mundo mais real
caminhas com cautela nesse mapa do espanto
avançarás, contudo...à revelia das perplexidades, avançarás...
na labareda dos teus gestos, avançarás...
avançarás e contudo avançarás sabendo que essa existência é o teu exílio.
Exilado pela violência diária e planetária
pela sorte desigual das criaturas
pelo desamparo que suplica em cada esquina
Exilado pela audácia da maldade
pelas sombras que espreitam os teus passos.
Exilado pela desesperança dos povos oprimidos
pela agenda ensangüentada dos vencidos
e por saberes que há um homem-bomba programado pra explodir.
Exilado por uma mídia alienante  
pelo varejo desse shopping global que é o mundo
Exilado pelos falsos criadores da “beleza”
por essa passarela de desfiles e aparências
exilado por esse hedonismo insinuante                                                      
e pelo estupro público da decência.                 
Exilado pelos  trustes  e a tirania da cultura
pelo marketing da irreverência e do deboche
e por essa satânica sonoridade.
Exilado pelos códigos da impunidade
pela fisiologia plural da corrupção
pela cínica retórica do poder
e pelo odor insuportável das nossas “eminências”.
Exilado numa Terra devastada
na agonia que bóia sobre as águas
e no martírio da seiva incendiada.
Exilado por que não tens escolha
por que um átomo de urânio poderá  aniquilar-te
exilado porque todos somos responsáveis
exilados pela impotência ante a fome e a miséria do mundo.
Exilado como tantos outros anônimos exilados...
exilados como tu, no recinto sincero e inegociável  da consciência.

Mas tu não viverás no minguante
porque teus olhos não conhecerão a mortalha
e porque a eternidade não é uma fantástica charneca.
Por que tu habitas o território indevassável da beleza
e a poesia é a tua fonte sonora e transparente
a tua voz de prelúdio e sinfonia.
Água e linfa é o teu canto
e é relva, é caule e é semente
é o teu lírio solitário, teu delírio
tua senha inviolável para o encanto
tua militância e o teu despojamento.
É o teu amor maior
porque é o teu peixe e o teu pão multiplicado
o teu abraço solidário de sobrevivente
teu incessante garimpar
uma alquimia é o teu cantar
panacéia, ambrosia, ‘a palavra essencial’
o teu mais doce idioma e o teu deslumbramento
teu porto, tua rua, tua praça principal.
É o teu sonho sempre vivo e navegante
um albatroz voando sobre o mar,
nas asas peregrinas da esperança,
ontem, hoje e sempre a navegar.
 Manoel de Andrade,   Curitiba, Agosto de 2005, in “ Cantares”, Ed. Escrituras, S.Paulo, Brasil

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O Nordeste do Jangadeiro

          “(...)canto meu sonho quando canto os que viveram o mar
           que aportaram em países distantes
           e conheceram homens de muitas raças...”
                      Manoel de Andrade, Canção para os homens sem face, 1968
                                                           in “ Poemas para a Liberdade”

No final dos anos sessenta, quando o Brasil e a América Latina viviam um obscurantismo democrático dominado por ditaduras infames, Manoel de Andrade foi obrigado a abandonar o seu país por motivos políticos.
“ O Bardo Errante ” é o retrato dessa época onde o poeta e memorialista de Curitiba vai relatando as vivências que o marcaram. Conforme já publicámos, Manoel de Andrade foi, em 1968, à descoberta do Nordeste brasileiro que não conhecia. O enorme mapa brasileiro composto por uma pródiga diversidade configurava uma difícil percepção da realidade física e humana de todo o seu território . "Nesse amplo contexto, o enredo político de minha história pessoal em 68 começa no primeiro dia de março. Cada vez mais ansioso para entender a dimensão sócio-económica e política brasileira e amadurecido ideologicamente pela leitura dos grandes teóricos de esquerda, contudo ignorando muito da nossa realidade social, decidi, no início daquele ano, conhecer a região nordeste para complementar minha educação política " recorda Manoel de Andrade em " O Bardo Errante".
A riqueza descritiva e a autenticidade da paisagem humana que nos são apresentadas nesta obra ainda em laboração, convocam-nos para publicar um novo excerto.
Jangadeiro, tela de Raimundo Cela

O jangadeiro
"Quando tomei o rumo do nordeste, conhecia muito pouco do meu país e do meu povo. Foi uma inesquecível aventura de trinta dias, desde Curitiba até São Luís do Maranhão, pelo litoral e a volta pelo sertão, num percurso feito num fusca cobrindo catorze estados brasileiros que totalizou, com o regresso, quinze mil quilómetros.
Para um brasileiro do sul, o nordeste era, quarenta anos atrás, um país à parte. Outro clima, outra vegetação, outro povo, outra maneira de expressar-se musicalmente, poeticamente, religiosamente. Outra maneira de ver e de sentir a vida, um sentimento trágico e telúrico do seu mundo, vivenciado num cotidiano de abandono e, paradoxalmente, de esperança. (...) De todas as aventuras que passei, acontecimentos insólitos que presenciei, pessoas excepcionais que conheci e dos tantos fatos inesquecíveis, trago ainda, nas paisagens da memória, a expressão grata e audaciosa de dois retratos humanos: o jangadeiro do litoral e o vaqueiro do sertão.
Era meu primeiro dia em Fortaleza. O sol baixava avermelhado e a ventarola do carro me soprava o ar acariciador da brisa marítima. Passavam das seis da tarde quando cheguei à praia de Iracema, imortalizada pelo romance do escritor cearense José de Alencar. O mar quase calmo, de uma escura cor alaranjada, refletia as tonalidades metálicas do horizonte onde a luminosidade agonizava nos esplendores do crepúsculo. Todo o ambiente estava carregado dessa atmosfera aromática e refrescante que baixa no entardecer dos trópicos. Nas mesinhas dos bares as pessoas chegando e eu estacionando o carro para buscar o meu lugar. (...) Ali estava Iracema, com sua intimidade de praia pequena, sua areia finíssima e branca, fazendo justiça à fama que tinha pela sua beleza. Havia muitas jangadas na areia e algumas chegando, ao longe. Acheguei-me a um grupo de jangadeiros que conversavam em torno de um varal de redes onde alguns deles consertavam os furos das malhas.
– No Rio Grande do Norte vi algumas jangadas, mas eram bem menores que estas, disse ao homem fornido, de uns cinquenta anos, com um aspecto digno e comunicativo, estampado num rosto de bronze marcado por profundas rugas que corriam bem vincadas entre os pômulos e a boca.
– É que o Ceará é a terra dos jangadeiros --- exclamou ele sentando-se na borda de uma daquelas frágeis balsas de cortiça. Voltou a olhar-me, perguntando:
– De onde vem?
– Do Paraná – respondi.
– E que o traz tão longe? Não parece turista. – Comentou certamente vendo minha imagem empoeirada e em desalinho.
– Conhecer um pouco da nossa terra e especialmente o nordeste..., ouviu fazendo um gesto de aprovação com a cabeça. Aproveitei o momento de silêncio e perguntei- lhe:
– E pescam muito longe?
– Depende..., as jangadas pequenas saem de manhã e voltam à tardinha. Pescam entre dez e vinte milhas. Nós pescamos em alto mar, entre cinquenta e sessenta milhas da costa. Saímos num dia e voltamos no outro.
– E se lá no oceano vocês pegam uma tormenta?
– Já enfrentámos tantas, e muitas jangadas nunca voltaram. O mar tem suas manhas, mas nós crescemos em cima de uma jangada e se não pescamos, não temos como dar de comer aos nossos filhos.
Impossível relembrar tantas conversas que tive com os jangadeiros durante os cinco dias que estive em Fortaleza. Todas as tardes eu voltava à praia de Iracema. Bebia a água-de-coco, enquanto meu olhar navegava com as jangadas que chegavam do horizonte, velas triangulares bojadas pelos alísios que, ao entardecer, sopram do mar. Na véspera de minha viagem a São Luís do Maranhão, fui jantar na casa de um chará, e por isso nunca esqueci seu nome. Manoel tinha lá seus quarenta anos e me levara, por alguns cruzeiros, a dar uma volta de jangada pela manhã e depois de uma cerveja, na chegada, já éramos amigos. O caldo de peixe ainda fervia e seu aroma recendia no ambiente, quando cheguei ao anoitecer. Uma casinha de madeira, fogão de lenha e a privada lá fora, no quintal. Aquela pobreza digna que lembrava minha adolescência em Itajaí. (...) O filho mais velho era também jangadeiro e antes da comida nos sentámos os três num banco sob um caramanchão de arbustos que havia em frente da casa, onde havia também um cajueiro e um pé de araçá. Presenteei meu amigo com uma garrafa da cachaça Pitu, que eu trazia desde Pernambuco e esse foi nosso aperitivo. Depois entrámos para jantar. Sobre a mesa um panelão com caldo de garoupa e o pirão escaldado com farinha de mandioca enfeitado de coentro. Não tive vergonha de comer, relembrando os caldos de peixe, o pirão e o peixe frito com que alimentei minha infância na Praia de Piçarras, em Santa Catarina. Mas faltou o tomate e a alfavaca, temperos que, pelo que vi, não são muito usados no nordeste. Depois da sobremesa de rapadura voltámos satisfeitos ao caramanchão onde ficámos até quase meia-noite trocando nossas culturas. Quando me despedi uma das filhas de Manoel veio entregar-me uma garrafa com areias de cores várias formando um desenho horizontal do mar com várias jangadas.

Quantas coisas práticas, estranhas e lindas ouvi naquelas três horas de conversa sobre o mar e os jangadeiros. O jangadeiro é filho e neto de jangadeiro e essa descendência dificilmente trocará o mar pela terra. As jangadas menores medem três metros por oitenta centímetros e as maiores chegam a ter nove metros de comprimento por dois de largura. Manoel me disse que uma jangada pode emborcar, mas não submerge nunca, e as grandes jangadas podem suportar o peso de três a quatro mil peixes. Quando o sol nasce já navegam em alto mar. Às quatro horas da manhã já estão “botando pro mar” e no fim da tarde ou no dia seguinte “dão de vela” para a terra. Contaram-me que lá fora não se conversa, não se canta ou assobia. Qualquer som pode afugentar os peixes. O único que pode falar ou bramir sua cólera é o mar. Ouvir seu monólogo, sua voz de barítono, sentir seu balanço, sua quietude, sua dimensão horizontal, suas águas calmas beijarem carinhosamente seus pés, essa é a linguagem que fala à sua alma. Além da voz das águas, só o silêncio.
No sul diz-se que são supersticiosos, mas essa não foi a minha impressão.A sua pobreza e as arriscadas condições de trabalho fizeram dele um homem sem medo e sem outra crença que não seja a esperança de voltar com o que necessita para sobreviver. Manoel me contou histórias de grandes jangadeiros que eram chamados de mestres. Os relatos quase lendários contam de mestres que viram navios-fantasma atravessando por cima das jangadas e de estranhas canções que foram ouvidas em alto mar.
Para o jangadeiro cada viagem é uma aventura que se renova.A sua vida é uma batalha diária contra o mar e contra o vento. Alguns não regressam nunca mais, contudo o mar será sempre a sua vocação irresistível e a fatalidade faz parte da sua opção pelo mar. Amará o mar por toda a sua vida e sua alma está vinculada a essa singular fidelidade. Os nordestinos do sertão emigram para as grandes cidades da região e para o sul do país, mas os pescadores jamais deixam o litoral. Simples, anônimo, solitário e destemido, o jangadeiro é um titã. É o gigante da costa nordestina e poucos navegantes em todo o mundo poderão igualá-lo em ousadia e destreza.
Contudo, é um gigante esquecido. Em suas precárias condições de vida e apesar de ir buscar tão longe e com tanto risco o alimento para a população da costa, Manoel me disse que os jangadeiros não recebiam nenhuma atenção do poder público. Ao cabo de alguns anos, quando sua jangada apodrece, é quase impossível, para eles, comprar uma nova embarcação. Tem que lutar só, orgulhosamente só, contra o mar e a pobreza."
Manoel de Andrade, in “ O Bardo Errante”, Livro de Memórias em laboração , Brasil (Curitiba).

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Passageiro de destino


Biografia

             Para Marco Pólo Passos

Cheguei com dezessete anos de esperança...
sem recurso
sem norte
sem uma referência sequer.
Passageiro de destino,
trazia uma ferida aberta pela súbita orfandade
e na memória um coração paterno destroçado.
Trazia uma única saudade,
o coração ancorado na distância
e um sonho prometido no sacrário da alma.

Numa mala de papelão
trazia os meus tesouros:
um terno de formatura azul-marinho,
o diploma ginasial,
minhas primeiras letras
e uma certidão de nascimento desbotada.

Uma escada lúgubre e empinada
o quarto mais barato da pensão
seis metros enquadrados
partilhados com um motorista de ônibus urbano... rude e desonesto,
o telhado inclinado sobre as camas
o arrulho amoroso das pombas
uma clarabóia que se abria para o céu
um aluguel adiantado
a matrícula no colégio público
o “sortido” dos primeiros dias
o pão nosso dos últimos dias
o derradeiro centavo

a fome
o terceiro dia
o desencanto
e a imensa solidão do mundo.

Um banco solitário
um pânico silencioso, resignado e calmo
a morte na alma.
As horas passam
os transeuntes passam
indiferentes à minha dieta de água e impotência.
À luz do meio dia... uma discreta agonia
e de repente... um grito...
meu apelido da infância...
um abraço inesperado, fraterno e conterrâneo...
quando...? onde...? como...? venha comigo Lelo...

................................................................................

obrigado Marco Polo por aquela bandeja farta
pelos primeiros amigos
por tudo...
e sobretudo...
obrigado
pela tua mão invisível, Senhor...
que desde sempre amparou meus passos.

Manoel de Andrade, Curitiba, Junho de 2003, in " Cantares ", Ed. Escrituras, S.Paulo, Brasil

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Brasil, terra de contrastes

                                      “Vamos pátria a caminhar, eu te acompanho”
                                                                                   Otto René Castillo

Manoel de Andrade, poeta brasileiro, residente em Curitiba, foi uma das muitas vítimas da Ditadura que durante 21 anos (1964-1985), dominou o Brasil sob o regime militar. A ameaça da perseguição e da tortura pendeu sobre todos aqueles que não comungavam as ideias repressoras desse regime. Muita gente valorosa foi impelida a exilar-se, foi perseguida, sofreu sevícias e tortura e outra foi brutalmente assassinada.Em 1969, Manoel de Andrade viu-se obrigado a abandonar o seu país e a viver a experiência do exílio na América Latina . Nessa época obscura e tenebrosa muitos intelectuais e gente valorosa empurrados para o exterior da sua pátria e, em nome da Liberdade e da Justiça social, ergueram as vozes juntamente com tantas outras vozes da América latina. Desse tempo, Manoel de Andrade guarda Memórias que está traduzindo em palavras numa extensa obra, ainda em construção, que será publicada oportunamente. Pelo interesse literário , pelo valor emocional, pela riqueza documental e pelo rigor histórico que esse registo memorialista detém, já publicámos alguns excertos dessa obra e outros se seguirão.
Manoel de Andrade nasceu no Sul do Brasil. Sendo o Brasil um pais multifacetado e de grande dimensão, as distâncias que separam o Norte do Sul permitem que diversas regiões tenham traços muito diferenciados e que, devido à sua extensão, a descoberta de novos horizontes se faça também entre muros. Em 1968, Manoel de Andrade foi descobrir o Nordeste brasileiro que não conhecia. Dessa viagem, incluida na Primeira Parte das Memórias, em curso, extraímos o seguinte registo:
Pôr-de-sol no Sertão
" (…) O ano de 1968 chegara ao seu último quartel respirando o pressentimento de uma surda e sinistra ameaça por trás dos biombos do poder. O país, desde o golpe militar de 64, seguia sua trajetória nebulosa e inquietante. Sentiam-se os agudos sintomas sociais de uma crise potencial que, dia a dia, vinha cavando as suas imperceptíveis trincheiras e radicalizando as suas posições para o enfrentamento. As palavras, no plano político, haviam perdido a sua opção pelo diálogo e os atos e os fatos iam desfigurando sempre mais a face institucional da nação.
Aquele ano foi um período marcante na história política do Brasil, na vida de muitos brasileiros com uma visão crítica do seu tempo e na minha própria vida de jovem cidadão recém formado em Direito e estudante de História. Na verdade, a década de 60, por inteira, foi uma fase de grande torvelinho político e cultural, de contestações e debates de valores. Um período marcado pela rebeldia da juventude no mundo inteiro e o explícito confronto de gerações. Foi o tempo das grandes revisões no ideário das esquerdas e onde foram lançadas as sementes das mais belas utopias.
Nesse amplo contexto, o enredo político de minha história pessoal em 68 começa no primeiro dia de março. Cada vez mais ansioso para entender a dimensão sócio-económica e política brasileira e amadurecido ideologicamente pela leitura dos grandes teóricos de esquerda, contudo ignorando muito da nossa realidade social, decidi, no início daquele ano, conhecer a região nordeste para complementar minha educação política. Queria ter um contato vivo com o povo nordestino, conhecer de perto sua sacrificada paisagem humana e geográfica, cuja miséria eu apenas conhecia pincelada nos quadros de Portinari, descrita nas páginas de Josué de Castro, de Graciliano Ramos e defendida pelas bandeiras das Ligas Camponesas, infelizmente arrancadas das mãos de Francisco Julião pelo golpe militar de 1964. Com esse propósito, em Março de 1968, tirei férias como funcionário público e parti para o nordeste.
(…)O nordeste brasileiro, em todos os sentidos, é uma região de contrastes. A estreita faixa costeira, que se estende da Bahia até o Pernambuco traz ainda o trauma ambiental do ciclo da cana-de-açúcar cuja monocultura, nos séculos XVI e XVII, devastou a Mata Atlântica transformando parte da região em grandes e áridas savanas. Mas sempre subindo, rumo ao norte, pude ver zonas de vegetação abundante, regadas por chuvas que caem durante todo o ano e constantemente refrescadas pela brisa acariciante dos ventos alísios. (…)Mas nem tudo era pitoresco nas paisagens que iam se abrindo naquele meu descobrimento do sertão. À medida que penetrava pelos caminhos daquele mundo estranho, quase mágico e dolorosamente verídico, os acontecimentos foram delineando, ante meu espanto, o rosto humano do Nordeste. As expressões visíveis da dor, da resignação e da impotência iam reescrevendo meus ingénuos conceitos de justiça social. O dantesco quadro ia da miséria e da exploração extremas até ao abuso e à arbitrariedade elevadas ao nível da violência física e moral, e não se tratava de pobreza, mas sim da miséria absoluta onde se extingue qualquer traço da dignidade humana. Contaram-me que as pessoas mais empobrecidas tinham de pagar durante toda a vida por um caixão e por um pedaço de terra para serem sepultadas. Que os agentes funerários traficavam com a superstição e atrocidade moral. Segundo eles, aquele que não tivesse sua sepultura seria, eternamente, uma alma penada e seu cadáver, deixado em campo aberto, seria – e era em muitos casos – o banquete de certos animais e das aves da rapina.
Muitas dessas histórias e tantas outras estórias me contavam os vaqueiros, que estavam por todas as partes do sertão. Fiquei na região da caatinga uma semana, dormindo sempre no próprio carro. Com o passar dos dias conheci mais de perto a alma dos vaqueiros e, por isso, fui aprendendo a admirá-los. A sua palavra sincera e solidária chega a imantar o coração do viajante à vivência de um mundo onde o individuo não perdeu os valores reais da condição humana. Que diferença brutal entre esse mundo e o relacionamento humano na vida urbana onde, quase sempre, o egoísmo e a hipocrisia se mascaram em cada palavra e em cada gesto. Em sua praticidade e na sua maneira simples de interpretar as coisas, o vaqueiro do sertão nordestino é tão sábio como os próprios sábios. A vida solitária e itinerante e o trabalho duro, arriscado e aventureiro, forjaram sua alma com o aço e a poesia. Com sua pele castigada, seu porte viril e sua honra de homem imaculada; com seus gestos precisos e a rapidez com que toma uma decisão; pela altivez do seu caráter e ao vê-lo montado em seu alazão – cavalo e cavaleiro vestidos de couro – o vaqueiro é a figura escultural do interior nordestino. Conhece todos os segredos do sertão e, quando persegue as reses perdidas na caatinga, é mestre consumado nesse ofício. Suspenso num só estribo e agarrado com uma das mãos à crina do cavalo, pega com a outra a cauda do boi na disparada e, de um puxão, atira-o ao solo com as patas pra cima e, com incrível rapidez, pula do cavalo amarrando-lhe as patas.

Vaqueiros em barro de Vitalino Leila

Contam-se muitas fantasiosas histórias sobre certos vaqueiros. A aventura e o mistério envolvem a vida dos mais famosos. Ninguém sabe onde vivem, nem onde nasceram. Aparecem nas fazendas nas épocas de reunir o gado, participam das grandes vaquejadas e depois desaparecem. Alguns são aclamados pelo povo por suas façanhas e têm uma mulher em cada canto da região. Montam com uma incrível destreza, cruzando o sertão como relâmpagos, aparecendo e desaparecendo em instantes entre as matas da caatinga. O mestre Vitalino, um escultor popular pernambucano, gravou, magistralmente, a sua imagem equestre em seus bonecos de barro.
(…)O nordeste do jangadeiro do litoral e do vaqueiro do sertão foi o nordeste cuja paisagem ficou sentimentalmente retratada em meu coração. Aquele nordeste humanamente grande e desde sempre humilhado. Esse nordeste onde a carência alimentar leva à morte por inanição e que Josué de Castro denunciou, com todas as letras, em seu livro "Geografia da Fome". Um nordeste castigado implacavelmente pela natureza e escravizado pelo coronelismo e a cumplicidade dos governantes. O nordeste combativo e heroico, tantas vezes falsificado pelos historiadores de academias e simplificado pela gratuidade dos folcloristas. "
Manoel de Andrade, in “ O Bardo Errante”, (Livro de Memórias em construção), Brasil (Curitiba)

sábado, 3 de setembro de 2011

Poemas do Amanhecer

Madrugada

Vens dos baluartes do silêncio
e de silêncio em silêncio tu caminhas
apalpando as horas
como uma esfinge acuada pela noite.

Véspera de todos os destinos
chegas vestida pela aragem e a penumbra
pelo farol das constelações e a figuração dos signos
pois só  os astros conhecem teus segredos
e eis porque são inconfessáveis os teus vultos
gestos sem ribalta num teatro de amantes
e de conspiradores.

És o remanso da criatura
o  repouso das palavras
o murmúrio dos elementos
um felino que caminha sobre a relva
um pio solitário
um latido na distância. 

Marchas pelo ventre da noite
na cadência inexorável do tempo
passo a passo rumo ao alvorecer
e é tão sutil tua chegada
porque caminhas na melodia mágica do silêncio
no rastro e no sigilo dos teus passos...
Uma telúrica canção és tu
um surdo cantochão
uma elegia que a luz ofuscará.

Teu corpo de orvalho e de enigmas
é uma vestal sagrada
aceso santuário
ungindo a luz e o movimento.
Negros são teus olhos
clareando lentamente sobre a relva
e sobre as águas.
                                                                
Colhida no noturno imenso
és imensa ao ressurgir raiada
das abissais aldeias da sombra e do mistério.
Chegas enfim para morrer na aurora palpitante
taça de luz
cântaro de fogo
arquétipo planetário da esperança
no esplendor de todo amanhecer.
Manoel de Andrade,  Curitiba, Abril de 2004, in “ Cantares” Ed. Escrituras, S. Paulo, Brasil

Aurora

Não direi que me encantas mais do que o silêncio
porque é assim que despertas as aves e os caminhos.
Meus olhos também nascem pelo parto da esperança
porque vivo na imortalidade
renascendo em cada dia.

Deixa-me rever em prece tua face ressurgida
porque tua luz é sempre uma catarse.
Teu olhar estende as linhas  do horizonte
e toda a paisagem é  então uma ventura
e já não és mais nada
porque desfaleces no seio da beleza.

Repara como sou pequeno diante do teu rosto amanhecido
mas como é grande o que em mim te contempla.
Para renascer basta-me apenas  teu momento
tua humilde majestade
tuas pétalas de fogo
e essa corola ardente
porque não  peço nada mais que a tua luz
inaugurando o mundo em cada alvorecer
e que nunca me encontres cego ou vencido.
Manoel de Andrade,  Curitiba, Abril de 2004, in “ Cantares” Ed. Escrituras, S. Paulo, Brasil

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Pierre Seghers

  
Pierre  Seghers : uma aventura chamada poesia  
                                                                             por Manoel de Andrade           
                                                                       
                                       «Si la poésie ne vous aide pas à vivre, faites autre chose.
                                        Je la tiens pour essentielle à l’homme autant que les battements de son cœur »
                                                                                  Pierre Seghers, « Le Temps des merveilles»
                                                                 
          Neste verão, em Paris, entre tantos encantos e recantos vistos e revistos, destaco aqui apenas o que mais me interessou como poeta: uma exposição no Museu Montparnasse sobre o grande poeta e editor Pierre Seghers, denominada “Pierre Seghers – Poésie, la vie entière
       Seghers não foi somente o mais célebre editor de poesia do século XX, mas sobretudo  um combatente da liberdade. Nascido em Paris em 1906, onde morreu aos 81 anos, Seghers  em 1938, solidariza-se com a causa libertária da Guerra Civil Espanhola juntando-se a  escritores e artistas que, sob a tutela editorial de Paul Éluard, divulgam seus poemas nas edições clandestinas da revista “Commune”. É  a época em que ele conhece o editor espanhol Louis Jou, o amigo e mestre que o inspira a fundar sua primeira editora, a “Edición de la Tour”, em Villeneuve-les-Avignon. 
          Ainda em 1938 publica “Bonne  Espérance”, seus primeiros poemas reunidos. Com a França invadida pelo exército alemão  ele compreende que  guerra e  poesia são duas faces da mesma moeda e que um poema pode ser uma forma de resistir e de lutar, um grito de liberdade, uma lírica bandeira que resolveu desfraldar naquele primeiro ano da guerra publicando a revista dos Poetas-Soldados, chamada  “PC-39” ou “Poètes casqués”, direcionada para a poesia engajada na resistência, apesar da censura imposta pela ocupação alemã. No ano seguinte, seguindo  os passos de Louis Aragon e apoiado por Éluard, lança uma nova revista chamada “Poésie 40”, e depois, 41 e 42.   
           Em 1944, Seghers dá seu nome à Editora ao transferi-la para Paris. Em 1945 publica “Le Domaine Public” e adere ao Partido Comunista. Nesta nova fase ele revoluciona  a  arte editorial lançando os primeiros modelos de livros de bolso e, sonhando tornar a poesia acessível a todos, lança  sua grande obra como editor-poeta, a série “Poètes d’aujourd’hui”, cujo primeiro título, dedicado a Paul Élouard, consagra-o como precursor na edição  de poetas contemporâneos. Desta célebre coleção, com 256 títulos de poetas de todo o mundo, 147 obras  são mostradas na Exposição de Montparnasse. É  emocionante para um poeta e para os amantes da poesia ver o nome de tantos e tão grandes  poetas ali reunidos, lado a lado,  “vivos” através da obra que deixaram. A maioria são franceses e são muitos para citá-los nos limites deste texto, mesmo aqueles que inspiraram nossos versos da juventude. Lá estavam também Walt Whitman, Federico García Lorca e Fernando Pessoa que desde  sempre viveram na aldeia de minh’alma.  Encontrei nossos Manuel Bandeira e Vinicius de Moraes e os hispanoamericanos Marti, Neruda, Vallejo, Asturias, Guillén, Ruben Dario, Carrera Andrade, Octavio Paz. Entre  tantos espanhóis estive diante de António Machado, Rafael Alberti, Miguel Hernandez, Juan Ramón Jimenez e Luiz Cernuda e segue com poetas consagrados  do mundo inteiro.
         Entre manuscritos, cartas, fotografias e obras inéditas, vê-se livros abertos em páginas autografadas para Pierre Seghers, reconhecendo a grandeza incomparável de sua dedicação à poesia e expressa em frases  comoventes de poetas como Paul Élouard, Pierre Reverdy, Leopold Sédar Senghor e outros.
         A poesia e a música, como as mais elevadas expressões da alma humana, foram compeendidas pela grande sensibilidade do poeta Seghers, quando disse que a canção e a poesia são irmãs e eis porque publica a biografia de grandes cantores como Aznavour, Brassens, Ferré, como também uma coleção inédita chamada “Poesia e Música” e obras com partituras de  Chopin, Vivaldi, Schubert, Beethoven, Bach, etc.
         Mas não é somente isso. Há densas antologias sobre a poesia chinesa, sobre a arte poética e dramática. Seghers publicou o teatro de Lorca, Ionesco, Pirandelo, Arrabal. A filosofia de Buda, Hegel, Heráclito, Garaudy, Marcuse, Heidegger. O pensamento de sábios como Freud, Oppenheimer, Leonardo da Vinci, Weisenberg, Teilhard de Chardin  e Newton.  Seghers foi  um embaixador da criação lírica do seu tempo  e da  memória da cultura universal,  publicando edições preciosas  sobre a arte na Música, na Literatura, na Pintura e na Política. Não esqueceu de contar a vida de cineastas como Antonioni, Buñuel, Godard, Fellini, Kurosawa, Hitchcock, Polanski e de revolucionários como Mao Tse Tung  e Che Guevara.
         Em 1969, Pierre Serghers cede sua parte na Editora para Robert Laffont e dedica-se exclusivamente a escrever, nascendo daí obras como “La Résistance et ses Poètes 1939-1945”,  “Le Livre d’Or de la Poésie Française”  e  “Anthologie des Poètes Maudits du XX siècle”. E contudo, apesar da importância de sua obra como poeta e ensaísta, é pela incondicional atenção que deu à poesia, como editor, que neste verão sua memória é  reverenciada em importantes  jornais franceses , relembrada por intelectuais de toda a França e, com justiça, consagrada nesta exposição em Paris.  
     Creio que esta exposição, aberta até 7 de outubro,  será para muitos, como foi para mim, uma grata e misteriosa descoberta. É como se, pela primeira vez, alguém nos revelasse a real importância da poesia. Seus segredos, sua transcendência,  seu luminoso itinerário na história, seu mágico significado no coração dos homens. Foram mais de dois mil poetas publicados  em seus cinquenta anos de editor. É  como se naquelas salas tudo estivesse impregnado do seu amor pela poesia, porque sua vida foi tão somente  uma aventura chamada “poesia”. E é dessa palavra que nascem as raízes  do combatente, do editor e do escritor. Num país com um Panteão com tantos heróis, uma glória singular: a glória de uma vida inteira dedicada à poesia.
                                                                              Paris, 6 de agosto de 2011