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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Uma praga resistente

"Vieram coxos, cegos e paralíticos , com muita lamúria suplicar o remédio de seus males: porém nada de milagres e saíram como entraram."
                                                Colecção Moreira -" Sentenças da Inquisição"

O AMIGO “CUNHA” (I)
                        por Varela Pires
" Quem não ouviu falar no Cunha? Digam lá!... Pelo menos uma ou duas vezes já ouviram falar dele, caramba!... Não afirmem que não!?... Eu sei que o conhecem. De certeza. Ora, vamos lá a puxar por essas cabecinhas…
Ó, esse Cunha, raios o partam!... Ainda estão indecisos? Ainda o não reconhecem?!... Lembrem-se, façam um esforço, pois!… Desculpem-me a brejeirice, o enfado, a falta de polimento de maneiras, quando falo dele. É o reflexo de lhe conhecer os métodos, as manhas, os “golpes” que usa a qualquer momento e em qualquer parte.
Ah!... Vejam, só! Já se lembram dele, pois então!... Sim! Sim! Esse mesmo, em que estão a pensar. O amigo Cunha!... E se ele é importante, bolas!...
Quem nesta negregada vida nunca lhe apertou a mão ou nos acasos de “aperto” não lhe segredou ao ouvido o que pretendia, desgraçado é ou desgraçado foi. Ou, então, nunca foi amado pelos deuses e é um triste, não haja dúvida!...
Ah!... Esse incontornável amigo Cunha!… Ora aqui… Ora ali… Ou até mais além… Sereno, mas inúmeras vezes apressado. Cumprimenta, em certas ocasiões, empertigado, olhando-nos de soslaio. Faz que não nos vê, em muitas outras situações em que cruzamos com ele. O malandrete!... E rodopia, esgueira-se pelas esquinas, some-se nos corredores, fechando ou abrindo portas, conforme a necessidade dos que o solicitam. Introduz-se insuspeito e com habilidade nos gabinetes. Sempre pronto “ao cavaco” com quem melhor lhe possa servir os interesses dos seus protegidos.
Serviçal (quantas vezes, servil também!...), útil (se o é!!!...), influente, quase imprescindível, para servir um e outro. Infiel a muitos, já se vê!... Nunca amigo certo de ninguém.
Vai sugerindo, alvitrando, tocando no braço, trocando olhares cúmplices, melífluo, todo ele sorrisos e gentileza, mesmo quando está a perder “jogando a feijões”… Cochichando com um secretário, gargalhando com um adjunto, esportulando o contínuo, mesureiro com a minissaia da telefonista, doce com a jovem assessora do senhor presidente, prometendo o que não tem, oferecendo o que já teve, “emprenhando” os ouvidos dos directores com lisonja e elogios fúteis, tão agradáveis de escutar, música de deuses.
Aí o temos, viscoso, escorregadio, a escapulir-se por entre os dedos… quando o queremos tocar ou agarrar. Surge apressado na hora “H”, esquecido das outras, tão importantes como esta.
O Cunha! Brioso, cunhíssimo!...
Há quanto tempo o não viam?... Uhm!...
Tão invisível, como envolvente. Subtil, como persistente. Necessário, como promíscuo. Anjo, como mafarrico cruel. Desprezível, como desejado. Tão procurado, como retido. Tão real, como imaginário. Presente, milhentas vezes. Ausente, outras tantas, ou mais! O seu paradeiro? Ah! Queriam?!... Queriam saber-lhe a morada?! Ah!... Não se atrevam!... Não sejamos ingénuos! O Cunha nunca confessa onde dorme (se é que dorme!...) ou onde reside, as lojas onde compra os fatos de marca. Paira por aí. Somente.
Que amigão, o Cunha! Vejam só. Ele é afilhado do gerente, como sobrinho do director. É primo chegado de qualquer deputado, como compadre do procurador. É colega do comissário, como parente do ministro. É enviado secreto, como “homem de mão”, de qualquer Partido Político. O que calha! O que convém…
Amigo do peito e do papel “selado” ou coisa que o valha, em variadíssimas ocasiões. Indispensável, numas. Uma praga, noutras! Todos o detestam, mas todos eles nunca o podem dispensar definitivamente em qualquer momento da vida. Só os tolos e os suicidas lhe dizem “não”. Os que já nada têm a perder, infelizmente.
Ah!... O Cunha! Santo para um. Abominável, para os que restaram. Grande “cunha”, bolas!!!... Inacessível em quantas horas de aflição, esse malandro! Amigo providencial, amigo do peito para quem o tem à mão de semear. Pois, então!...
Solene, como um político importante. Insinuante, como um banqueiro. Matemático, quando os números são perfeitamente dispensáveis. Engenhoso, quando a engenharia política é a porta de entrada para tudo, menos para a pobreza e para a ruína.
Sacerdote, quando o altar e turíbulo do incenso se metem no assunto. Frade, quando o magistério de influência cheira a sacristia. A sotaina também nunca lhe ficou mal! Sem uma ruga, sequer. O Paço Episcopal é-lhe familiar, conhece-lhe todos os ângulos. Não precisa fazer-se anunciar. A mitra, meus senhores?!... A mitra?!.... Quantas vezes lhe foi solicitada!... E colocou-a temporariamente, porque tamanha era a necessidade. E nas procissões, segue piedoso e recolhido titubeando padres-nosso e ave-marias atrás do andor principal, enchendo os tímpanos com a fanfarra. Até o sacro Chapéu Cardinalício, depois de uma ida a Roma, já lhe assentou divinamente na cabeça, em certo dia de Pentecostes!...
Minha, nossa!... Lampeiro, esperando sempre recompensa ou mais-valias… aí segue o nosso (a nossa) Cunha. Sonha como um poeta, esmaga qualquer dialéctica dos filósofos, toma o café matinal com o presidente, almoça com ministros, lancha com deputados, janta com os banqueiros, toma o seu cálice de “porto seco” à noite com um juiz, sabiamente divagando sobre a importância de um pequeno país se fazer ouvir nos areópagos internacionais, nem que se tenha de ferrar um valente murro na mesa, lá em Bruxelas."
(Continua) VARELA PIRES

sábado, 22 de outubro de 2011

GENTE , Grande Gente

 O AUGUSTO E A MARGUERITE
                      E O CARLOS PAREDES
   Por Varela Pires
 Se houve alma em que a simplicidade e a bondade se acasalaram melhor, essa alma pertenceu a Augusto Gil, o poeta que não se levava a sério… Sim! O Augusto Gil, Notário e Conservador do Registo Civil, autor do “Luar de Janeiro”, da “Alba Plena”, da “Balada da Neve”…
 Nascido na alta e fria cidade da Guarda, o poeta veio a formar-se em Direito em Coimbra, e por Lisboa andou ganhando a vida como amanuense, envolvido numa certa aura boémia inesquecível e vertiginosa.
Quem ainda se lembra dos livros escolares do Ensino Primário trazerem… “Batem leve, levemente/ Como quem chama por mim/ Será chuva, será gente? / Gente não é certamente/ E a chuva não bate assim…” Quem?...
Não foi apenas um poeta romântico, melancólico, mas também dotado de uma fina perspicácia e de uma ironia singular. Como pessoa, o Gil foi de uma bondade excepcional, que convocava amigos em cada encontro. Incapaz de trair ou caluniar alguém, foi vítima de alguns que abusaram da sua bonomia de alma. Porém, a hipocondria também nunca o largou, e por fim acolheu-se à cama, então já verdadeiramente doente.
Encetou muito cedo um namoro com a filha de um médico, gente abastada da cidade da Guarda, pertencendo a uma classe social a que o Gil nunca aspirou. Namoro contrariado por razões económicas... No entanto, sempre fiel a essa relação, ele esperou 23 anos!... Esperaram ambos pelo falecimento dos pais da jovem senhora, para se registarem oficialmente como casados. E juntos, viveriam somente 6 anos!...  Coisas, que a sociedade desse tempo e os seus quês e porquês geravam!... E igualmente uma estranha forma de anularem o futuro, a independência e a vida dos filhos.
 Os poetas embelezam tudo quanto tocam. Não é Eugénio?!... Não é Herberto?!... Não é Manuel Madeira?!... Pois, num dos momentos em que não fazia jus ao seu talento, o Augusto Gil escreveu, como que zombando dele próprio. “Antes eu não tivesse algum talento / E fosse o parvo alegre que além vem…”.
O Augusto Gil era uma alma feita de excelência.
 Marguerite Yourcenar. Escritora francesa, historiadora, poetisa, crítica de arte e de literatura. A primeira mulher a ser eleita para a Academia da França. Tinha então 77 anos. Na sua obra é difícil saber onde começa a autobiografia e acaba a ficção, ou onde se inicia a ficção e termina a autobiografia. Isso sucedeu com outros escritores, como Balzac, Guy de Maupassant, Charlles Dickens, e os nossos Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro.
Órfã de mãe desde muito cedo, aversa à vida religiosa que lhe destinavam, Marguerite preferiu sempre uma original forma de “vagabundagem” por esse mundo fora, paixão que ela definia como…  “Só se está bem , onde não se está…”. Assim torna-se viajante impenitente… Marguerite Yourcenar esteve por duas vezes em Faro, e frequentou o centenário “Café Aliança”, hoje infeliz e estranhamente encerrado pelas autoridades. Este encerramento, de uma das mais célebres salas da Cultura Algarvia, é um dos exemplos das muitas vergonhas por que vamos passando…
 Marguerite adquiriu a nacionalidade americana, foi companheira durante cerca de 40 anos de Grace Frick, que morreu de cancro. Aos 75 anos apaixona-se pelo jovem músico e fotógrafo Jerry Wilson de 28 anos, seropositivo, que morre de meningite em 1986, numa viagem à Índia.
 Aos 84 anos, Marguerite vai ao encontro da morte, quando é acometida por um grave acidente vascular cerebral. Apesar dos seus múltiplos amores, Marguerite “recordou” sempre a mãe que não conheceu, e morre na mais completa solidão. 
 A autora de “Memórias de Adriano”, de “A Obra ao Negro”, e de “O Tempo, esse Grande Escultor…” nasceu só e acabou só, como qualquer mortal.
Carlos Paredes, o exímio músico e guitarrista. O compositor genial. Conhecemo-nos no Hospital de São José. Ganhava a vida como funcionário dos Hospitais Civis de Lisboa, como arquivista das películas radiográficas.
Trabalho humilde e honrado, mas pago miseravelmente. Todo o dia sem ver o sol, à luz eléctrica, metido num cubículo poeirento e húmido, adjacente à sala de arquivo.
Ali, quebrando os olhos, quase ostracizado, passava o Carlos Paredes o seu dia a dia. Ali fechado, quase ia cegando o maior génio da música tocada com guitarra portuguesa, que haveria após cada actuação de abafar em aplausos as maiores salas de espectáculo.
Assim se tratavam (e tratam ainda…) em Portugal os maiores artistas!... Os mesmos, que internacionalmente são considerados excepcionais e colocados na galeria dos grandes génios!VARELA PIRES        

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A Indignação saiu à rua

"Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida."
Manuel da Fonseca, in "Poemas Dispersos"

Cartoon de Rodrigo.(Expresso)

Ao olharmos diariamente o que acontece neste nosso mundo , concluimos que o pesadelo do desespero está a tomar conta dele. A crise que nasceu a Ocidente emerge assustadoramente pelo planeta por entre a indiferença de quem comanda. E quem comanda é o lucro, a sede de riqueza a qualquer preço, a ganância feita regra e lei. A miséria há muito tempo foi sempre presente nos países onde o olhar nunca enxergou a pradaria. A aridez do deserto era-lhes imposta.
Mas a volúpia cresceu e o homem deixou-se cair nas teias em que foi insidiosamente aprisionado. Os ideais de bem-estar eram convencional e estrategicamente propagados em repetidas imagens de vazia felicidade consumista. Os índices de desemprego, a exploração das debilidades económicas levaram muitas famílias a novos estados de pobreza que se criam erradicados. A apatia e a fatalidade marcaram os primeiros tempos deste novo estado crísico. Os jovens, os mais atingidos porque sem futuro não se realizam, estavam em silêncio e esse silêncio confrangia uma geração que apostara na luta por ideais de justiça social, de liberdade e de paz , enfim , por ideologias onde a exploração do Homem não tinha espaço.
Ora, de acordo com a notícia do jornal Expresso, a taxa de desemprego em Portugal foi a quarta mais elevada da OCDE em Agosto com 12,3 por cento, quando a média dos 34 países desta entidade se fixou em 8,2, revelou a organização e para os países com dados disponíveis em Agosto, dentro da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), só Espanha (21,2 por cento), Irlanda (14,6 por cento) e Eslováquia (13,4 por cento) se encontravam com taxas de desemprego superiores a Portugal.Nos 34 países da OCDE havia 44,3 milhões de pessoas desempregadas em Agosto, superior em 10,4 milhões de pessoas face a agosto de 2008.
Sendo os jovens, aqueles que maior dificuldade têm no acesso ao emprego, era inevitável o término do seu silêncio. Os Indignados estão nas ruas do Mundo vestindo novas formas de protesto. Se a forma é essa, ainda não se sabe, mas que a indiferença abre a porta à exploração, ao totalitarismo e à miséria controlada já todos nós sabemos.
Baptista-Bastos escreveu um artigo de opinião sobre os Indignados. A força, que marca a sua escrita, leva-nos a transcrevê-lo.

Sobre os "indignados"
por Baptista-Bastos
Tudo indica que o capitalismo está sem resposta para os desafios que lhe estão a surgir, um pouco por todo o lado. Os "indignados" dos oitenta países que se manifestaram no último fim- de-semana constituem um sinal, entre muitos outros, do mal-estar das populações. O empreendimento totalitário do "mercado" começa a fazer emergir novas formas de cidadania, com o pessoal mais novo a repegar nas bandeiras dos seus pais e a dar um outro sentido à resistência ideológica. Os turiferários do sistema podem esbracejar contra o movimento geral de protesto, alegando que o capitalismo tem sempre encontrado formas de se renovar, mas os seus argumentos não passam de autolimitações de recurso. A verdade é que os sinais são facilmente apreensíveis e negar ou contornar esta recomposta versão da luta de classes é tapar o sol com a peneira.
Sempre que nos mobilizamos estamos a decidir. E, lentamente embora, tudo induz a uma mudança considerável de mentalidades. Os mais jovens, sendo os porta-vozes do descontentamento generalizado, não se contentam com ser sujeitos passivos daquilo que lhes impõem. Os modernos mecanismos de informação e de relação uns com os outros representam uma etapa importante dos laços sociais, reatados, com outros métodos, após décadas de manipulação e de propaganda.
A verdadeira dimensão da acção dos "indignados" é, ainda, imprevisível e, acaso, não imaginável quanto aos resultados finais; no entanto, a própria distribuição assimétrica do protesto admite o renascimento de uma certa forma de convívio. Ora, o poder sempre combateu a convivialidade para discricionariamente governar, mesmo em democracia.
Algumas débeis adaptações que o capitalismo tem feito às exigências históricas nasceram das acções conjuntas dos "indignados" dessas épocas. O "equilíbrio pelo terror", da guerra-fria, permitia algumas cedências, e uma confortável estabilização das classes trabalhadoras. A implosão do "socialismo real" e a queda do Muro inverteram, ou subverteram, como se queira, o estado de coisas. Esta situação concebeu um desafio ético, que o capitalismo ignora e espezinha, como se está duramente a ver. A ausência de discussão e de debate, a ascensão de uma Direita integrista e intolerante criaram um vácuo insuportável, a que a Esquerda não soube ou não quis dar resposta, por inércia, incompetência e traição.
Os "indignados" emergem, inorganicamente, à margem dos partidos e das organizações sindicais, pela simples razão de que não se sentem representados
nem defendidos. Este tipo de iniciativas, sem fórmulas nem linhas regulamentadas, pode fazer despertar os nossos adormecimentos e as nossas fatigadas indiferenças. E repor em causa as origens dos poderes que dominam os valores morais, e nos causam desgraça, infelicidade e medo.
Baptista-Bastos em Artigo de Opinião ,publicado no DN, em 19/10/2011

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Portugal dos pobrezinhos

Ontem, duas notícias divulgadas pela Lusa entraram em agónica luta. Se a primeira lançava a semente da esperança , a segunda expulsava-a do futuro  dos portugueses. Portugal assistiu, em horário nobre, à comunicação do Primeiro Ministro a que se refere a segunda notícia.Uma avalanche de penalizações e de precariedade existencial desabou sobre todos nós, povo deste país. Um atestado de desgovernação nacional ao longo do tempo por políticos inaptos, ineptos, indecorosos e inequivocamente inaceitáveis conduziram-nos à miséria, ao descalabro , ao limbo da sobrevivência. E onde estão eles ? O que se apresentou , assume-se condoído e sem responsabilidade por este processo suicida. Os outros andam lá fora ou por aí, incólumes, gracejando e alvitrando,  imunes ao desaire que nos lançaram. E repetem -se. Sempre  o mesmo discurso, as mesmas palavras , o mesmo cânone. A culpa é dos outros que se foram, ou seja,   da herança desconhecida que os sucessivos governos vão recebendo das findas  governações.
Impostos, desemprego, despedimentos, redução de salários, de subsidios de férias e de Natal , de assistência na saúde e na educação, alargamento do horário de trabalho foi o anúncio de  uma sequência tenebrosa de medidas que toda conjugada nos conduz ao desespero, à miséria e ao espectro terrível da fome. E eis que somos nós e apenas nós, povo deste país, que vai suportar a iniquidade de tanta danosa governação.
Onde chegamos meu pobre , pobre Portugal. Onde nos colocaram, meu pobre , pobre Portugal. Para onde iremos, meu pobre , pobre Portugal? E que seremos, meu pobre, pobre Portugal?
Para que se visualizem as notícias a que se alude,  faz-se a  sua transcrição, bem como alguns textos para uma plural e fugaz  reflexão.

Notícias da Lusa:
1-O presidente executivo do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira disse ontem que Portugal ainda não é um caso de sucesso, mas pode vir a ser, e que os investidores conhecem agora melhor a Europa por causa da crise.
2- O primeiro-ministro afirmou hoje que nunca pensou ter de anunciar aos portugueses «medidas tão severas» como a eliminação dos subsídios de férias e de Natal, expansão do horário de trabalho no sector privado em meia hora por dia, cortes muito substanciais no sector da saúde e da educação. "Temos de salvaguardar o emprego", justificando-as com uma «derrapagem orçamental» da responsabilidade do anterior executivo do PS.
«Nunca nos deveríamos ter permitido chegar a este ponto. Quando fui eleito primeiro-ministro nunca pensei que tivesse de anunciar ao país medidas tão severas e tão difíceis de aceitar», afirmou Pedro Passos Coelho, numa declaração ao país, na residência oficial de São Bento.
Segundo o primeiro-ministro, «os desvios na execução orçamental de 2011 relativamente ao que estava previsto no programa de assistência [económica e financeira a Portugal] são superiores a 3 mil milhões de euros» e obrigaram o Governo PSD/CDS-PP a reforçar as medidas previstas.Diário Digital / Lusa


Já Foste Rico e Forte e Soberano

Já foste rico e forte e soberano,
Já deste leis a mundos e nações,
Heróico Portugal, que o gran Camões
Cantou, como o não pôde um ser humano!

Zombando do furor do mar insano,
Os teus nautas, em fracos galeões,
Descobriram longínquas regiões,
Perdidas na amplidão do vasto oceano.

Hoje vejo-te triste e abatido,
E quem sabe se choras, ou então,
Relembras com saudade o tempo ido?

Mas a queda fatal não temas, não.
Porque o teu povo, outrora tão temido,
Ainda tem ardor no coração.

Saúl Dias, in "Dispersos (Primeiros Poemas)" Júlio Maria dos Reis Pereira, irmão de José Régio, foi poeta do movimento da «Presença», assinando os poemas com o nome de Saúl Dias.

A Cegueira da Governação
"Príncipes, Reis, Imperadores, Monarcas do Mundo: vedes a ruína dos vossos Reinos, vedes as aflições e misérias dos vossos vassalos, vedes as violências, vedes as opressões, vedes os tributos, vedes as pobrezas, vedes as fomes, vedes as guerras, vedes as mortes, vedes os cativeiros, vedes a assolação de tudo? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Príncipes, Eclesiásticos, grandes, maiores, supremos, e vós, ó Prelados, que estais em seu lugar: vedes as calamidades universais e particulares da Igreja, vedes os destroços da Fé, vedes o descaimento da Religião, vedes o desprezo das Leis Divinas, vedes o abuso do costumes, vedes os pecados públicos, vedes os escândalos, vedes as simonias, vedes os sacrilégios, vedes a falta da doutrina sã, vedes a condenação e perda de tantas almas, dentro e fora da Cristandade? Ou o vedes ou não o vedes. Se o vedes, como não o remediais, e se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Ministros da República, da Justiça, da Guerra, do Estado, do Mar, da Terra: vedes as obrigações que se descarregam sobre vosso cuidado, vedes o peso que carrega sobre vossas consciências, vedes as desatenções do governo, vedes as injustiças, vedes os roubos, vedes os descaminhos, vedes os enredos, vedes as dilações, vedes os subornos, vedes as potências dos grandes e as vexações dos pequenos, vedes as lágrimas dos pobres, os clamores e gemidos de todos? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais?" E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos." Padre António Vieira, in "Sermões"

sábado, 1 de outubro de 2011

América Latina, Terra de redentores

“Para nós, não se trata de reformar a propriedade privada, mas de aboli-la; não se trata de disfarçar os antagonismos de classe, mas de abolir as classes; não se trata de melhorar a sociedade existente, mas de estabelecer uma nova...
Nosso grito de guerra tem de ser sempre: a revolução permanente!”
K. Marx. In “Mensagem à Liga Comunista”, 1850

O culto ao "caudillo" e o mito revolucionário dominaram a história da América Latina.Octavio Paz revindicou a sua raiz democrática e , agora, Mário Vargas llosa é o líder intelectual e moral daqueles que esperam o triunfo da liberdade. O autor deste texto interpreta a história independente e moderna do continente, fala do mito do homem forte, do heroi providencial, e analisa a revolução como arauto de uma nova aurora.
Tierra de redentores
         por  ENRIQUE KRAUZE  em Babelia , El Páis, 01/10/2011
"No uno sino dos fantasmas recorren la historia independiente y moderna de América Latina: el culto al caudillo y el mito de la Revolución. Los pensadores liberales del siglo XIX abjuraron de ambos. En Facundo -su obra clásica sobre el telúrico caudillo Facundo Quiroga, "sombra terrible" de las pampas-, Sarmiento recreó al prototipo del poder personal en el siglo XIX latinoamericano, el dueño de vidas y haciendas, hombre de horca y cuchillo, símbolo de Barbarie opuesta a la Civilización. Publicada en 1845, aquella obra tuvo una brillante descendencia, primero en el Nostromo de Conrad y más tarde en una larga sucesión de novelas sobre dictadores: Tirano Banderas de Valle-Inclán, El Señor Presidente de Miguel Ángel Asturias, Oficio de difuntos de Arturo Uslar Pietri, Yo, el Supremo de Augusto Roa Bastos y las dos antitéticas creaciones de García Márquez y Vargas Llosa: El otoño del Patriarca y La Fiesta del Chivo. Por lo que hace a la Revolución, a pesar del influjo romántico de la Revolución Francesa, en el siglo XIX el concepto se entendió como una ruptura ilegítima y violenta del orden legal. En ese mismo sentido lo emplea Conrad para describir a su turbulenta Costaguana: la Revolución como la otra vertiente de la Barbarie. Pero al despuntar el siglo XX, con el advenimiento de la Revolución mexicana y la bolchevique, una lenta trasmutación comenzó a operar en la realidad y la imaginación de nuestros países: la crítica del caudillo se transformó en culto al hombre fuerte, al héroe providencial; y la Revolución adquirió el prestigio de una nueva aurora de justicia para los pueblos. En la larga vigencia del culto heroico y el mito de la Revolución convergen dos autores clásicos: Thomas Carlyle y Carlos Marx. Al ensayista e historiador escocés se debe la idea de que la historia no tiene más sentido del que le confiere la biografía de los "Grandes Hombres", en particular la de los inspirados "héroes" políticos como Oliver Cromwell o el Doctor Francia, que prescindieron de las instituciones democráticas por considerarlas una parafernalia inútil. (Varios tiranos latinoamericanos como el venezolano Juan Vicente Gómez, a quien un reconocido historiador llamó "Hombre de Carlyle", siguieron ese libreto). A propósito de la Historia de la Revolución Francesa de Carlyle, Carlos Marx (que lo admiraba) escribió en 1850: "Le corresponde el crédito de haber combatido en la arena literaria a la burguesía... de una manera, por momentos, revolucionaria". El problema -agregaba Marx- es que "a sus ojos, la apoteosis de la Revolución se concentra en un solo individuo... Su culto a los héroes... equivale a una nueva religión". Pero también Marx creía que la apoteosis de la Revolución se concentraba en un solo protagonista... colectivo: el proletariado, las masas. Y ese culto, con el tiempo, "equivalió" también a "una nueva religión". El siglo XX probó que las simpatías entre ambos pensadores eran mayores que sus diferencias: solo se requería la aparición de un héroe carlyleano que asumiera la Sagrada Escritura de Marx. Ese personaje fue Lenin, y tras él irrumpieron en la escena varios otros: "El Dios trascendente de los teólogos...", escribió Octavio Paz, "baja a la tierra y se vuelve 'proceso histórico'; a su vez, el 'proceso histórico' encarna en este o aquel líder: Stalin, Mao, Fidel".
La sacralización de la Historia en la persona de un héroe produce la figura política de los "redentores". En América Latina el proceso tuvo antecedentes populares en la guerra de independencia mexicana y en los movimientos mesiánicos de Brasil (que Vargas Llosa recreó en su clásica novela La guerra del fin del mundo), pero su versión moderna -a mi juicio- nace del agravio contra Estados Unidos a partir de la guerra de 1898. Todavía Martí, el último liberal del XIX, pudo soñar con una constelación de repúblicas americanas, orientadas al progreso y respetuosas entre sí. Pero las actitudes imperiales del "monstruo" en cuyas entrañas había vivido (y cuya democracia y dinamismo había admirado) terminaron por decepcionarlo. Con su muerte murió también el proyecto de una América homogénea e igualitaria. Había que imaginar y construir otra América, distinta y opuesta a la del Norte. Movido por ese agravio, el pensador uruguayo José Enrique Rodó publicó en 1900 un opúsculo que influyó en el destino político e intelectual de "Nuestra América". Se titulaba Ariel y postulaba un "choque de civilizaciones" entre la superior espiritualidad de Hispanoamérica y la "barbarie" materialista de Estados Unidos.
Conforme avanzó el siglo, las más diversas corrientes ideológicas (el nacionalismo, el anarquismo, el socialismo, el marxismo, el indigenismo y aun el fascismo) fueron deudoras, en diversa medida, del idealismo "arielista" y encarnaron en personajes con ideas o actitudes "redentoras", como las del mexicano José Vasconcelos (que quiso ser presidente para "salvar a México" y vio en América Latina la cuna de una "Raza Cósmica") o las más terrenales del peruano José Carlos Mariátegui (que profetizó la convergencia revolucionaria entre el marxismo y el indigenismo). Tras la guerra civil española, América Latina se escindió entre fascistas y socialistas (con poco espacio para los liberales) pero a ambas corrientes las vinculaba aquel resentido desprecio contra el yanqui. Hasta un personaje ajeno al universo de los libros como Eva Perón, la "santa de los descamisados", lo albergaba.
En 1959, cuando el Ariel seguía siendo lectura obligada en las escuelas del continente, una santísima dualidad de redentores apareció en el escenario y cumplió la profecía de Rodó: Fidel y el Che. Mi generación los veneró. Debido a ellos, la Revolución -palabra mágica, concepto histórico, promesa de redención social- volvía a adquirir, acrecentado, el viejo hechizo de la Revolución mexicana o rusa. Era fácil adoptarla: una pasión excitante, un libreto sencillo y una inmediata gratificación del narcisismo moral. Y era imposible evadirla: estaba en las aulas y los cafés, en las páginas literarias, los suplementos culturales y la oferta editorial. La filiación de izquierda había dejado sus ámbitos habituales de la primera mitad del siglo XX (los sindicatos, las infinitas sectas, los partidos subterráneos o proscritos) para refugiarse en el mundo de la cultura y la academia, donde se volvió hegemónica. Y como el neotomismo en tiempos coloniales, la doctrina marxista alcanzó el rango de canon irrefutable."
Enrique Krauze (Ciudad de México, 1947) publicará el próximo día 6 Redentores. Ideas y poder en América Latina (Debate). Es director de la revista Letras Libres, cuya edición española celebra diez años, con actos en el Círculo de Bellas Artes de Madrid, del 5 al 7 de octubre. Enrique Krauze conversará allí con Mario Vargas Llosa (viernes, 7, a las  19.30).www.enriquekrauze.com
Leia o artigo completo em :Tierra de redentores

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Revisitar a obra de Ernest Hemingway


Baptista-Bastos, homem da escrita e da palavra, publicou um artigo sobre a obra de Hemingway. A importância da releitura dos grandes escritores universais é um dos cânones do ensino da Literatura. Os grandes cultores da palavra foram e serão sempre óptimos leitores.
Hemingway ocupa um lugar de excelência na Literatura Universal. O rigor, a fragância, a frescura, a profundidade, a genialidade, a surpresa, a conflitualidade, a mestria, a intensa actualidade da sua escrita permanecem em toda a sua obra. Revisitá-la é um imperativo.

Hemingway: a palavra como atributo da honra
Por Baptista Bastos
"A polémica sobre o pretenso envelhecimento da obra de Hemingway não faz sentido. Como é absurda a insistência na qualificação de quem é melhor: ele, ou Fitzgerald ou Faulkner. São todos muito bons; e há mais alguns outros. Ainda há dias estive a reler "Do outro lado do rio, entre as árvores", por alguns críticos de sebenta considerado um romance menor, e voltei a regalar-me não só com a escrita, poderosa e límpida, como com a profundidade do que ele queria dizer, e disse. A influência exercida por este escritor maior e insistentemente trabalhador, é enorme e perdura. Vittorini, em Itália; Duras e Vailland e Blondin, em França; Garcia Hortelano, em Espanha, muitos outros mais, sempre se reclamaram da sua tutela. Em Portugal, Cardoso Pires e Abelaira e eu próprio lemos os livros dele com mão diurna e mão nocturna. Aliás, na parede do meu canto da escrita está uma foto de Hemingway, obtida por Youssuf Karsh, que se tornou quase mítica. De vez em quando olho-o e sorrio-lhe, como se faz a uma pessoa de família.Todos aqueles que andamos no batente da palavra devíamos, volta e meia, reler o grande escritor. Não só os clássicos, "O Adeus às Armas", "Por quem os Sinos Dobram", "Fiesta", "O Velho e o Mar"; mas, também, e talvez sobretudo, "As Verdes Colinas de África" e "Morte de Tarde". Tanto este como aquele não constituem meros exercícios de valentia (o que seria grotesco); são, isso sim, graves meditações sobre a natureza do homem, o carácter precário da vida, e a funda transcendência do homem.Não esqueçamos de que ele era leitor da Bíblia, tendência justificada e explicada pela índole da sua educação. E as leituras do texto sagrado não só lhe inculcaram a premência da morte e a fragilidade da condição humana como o ensinaram uma técnica narrativa repleta de sinédoques e de alegorias, gramaticalmente servida pela insistência nas adversativas e nas copulativas. Tal e qual como as parábolas. Além do que Hemingway era um devorador de livros, nunca ocultando a admiração por Stendhal e, um pouco estranhamente, por Pio Baroja, o espanhol que era o contrário absoluto da sua maneira de ser. A violência que ele via em Espanha era, creio, determinada pelo individualismo que reflectia a própria procura do «eu.» Associava essa tipicidade ao seu peculiar temperamento. Tomou partido pelos republicanos na Guerra Civil, o que lhe valeu o ódio dos franquistas. Escreveu textos admiráveis, pelo estilo e pela originalidade da visão, sobre o conflito espanhol. E há um, "Os Táxis de Madrid "(incluído num dos dois volumes de Hemingway by Line), uma pequena obra-prima de jornalismo e de literatura. Em quatro páginas, ele condensa o espírito e a barbaridade de uma guerra que deixaria cicatrizes nos espanhóis e no mundo.A emoção que transmitia não era fingida. Acreditava no poder das palavras e nos sentimentos que elas pudessem transmitir. Era vaidoso, impulsivo, ciumento, birrento e vingativo. E é um dos maiores prosadores da história da literatura universal. Uma obra que se renova no encontro com outros leitores de outras gerações. Quando se suicidou, por não poder escrever em consequência da destruição da memória, a revista francesa Paris-Match imprimiu um título perfeito: «O Gigante que não quis Envelhecer.» Baptista Bastos em Artigo de Opinião, publicado no DN, em 2 de Julho de 2011

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Portugal, um país transformado em lixo?

É a agressão a Portugal, em toda a linha. Murro da Moody’s atiram-nos para o balde do lixo. É a notícia que corre mundo e paralisa o país.
"Enquanto nos entretínhamos a elogiar o programa e o Governo, surge o murro no estômago, dado pela Moody’s, uma das agências de rating que não acredita em Portugal. Caímos no lixo ao primeiro assalto. Mas o ‘entretenimento do elogio’ não se limitava à discussão interna. O porta-voz da Comissão Europeia para os Assuntos Económicos, Amadeu Altafaj, referiu até que as medidas previstas no programa de Passos iam além do que se exigia.
Portugal parecia ter entrado no rumo, com políticas austeras, que os portugueses teriam de compreender e que os próprios escolheram: o plano da troika estava desenhado, com o consentimento dos três partidos mais votados, que representam uma ampla maioria no Parlamento e, claro está, uma esmagadora percentagem de votos nas Legislativas."
in PTjornal (
Moody’s. Murro no estômago. Primeiro assalto)
Portugal endividado já não tem direitos, já não se afirma, já não tem voz e talvez nem lugar marcado na orla ocidental da Europa. Portugal endividado é um país marginalizado. De glorioso país de navegadores passou a derrotado país de incumpridores. Um país pirata cuja existência se deve processar à margem do mundo. Assim dixit os novos donos do mundo: as agências de rating, produto inovador de uma sociedade desregulada onde o capital reina em total cegueira e, ainda mais, em incompreensível e consequente aceitação.
Compreender que Portugal está em grave situação deficitária não é um acto que exija esforço. A evidência dos resultados e o permanente caos das contas públicas são tão flagrantes que foi obrigado a recorrer à ajuda externa. Os compromissos assumidos no contrato de empréstimo  passaram a prevalecer e a desenhar o programa do novo governo. A independência financeira perdeu-se no labirinto que foi tecendo em anos de desnorte consecutivo. Se Portugal era pobre ,  ficou mais pobre  e muita   miserabilidade passou a raiar . Deixou muita gente na rua, muitos no patamar do infortúnio e mais ainda engrossarão as filas do desespero, da inevitabilidade  do desemprego. O país está em estado crísico muito forte. Todos o sabem, todos o sabiam, todos o diziam. Mas estar em pobreza, em miséria financeira, em situação de dívida e viver de saldo emprestado sob juros milionários não transforma um país em lixo, apenas o expõe ao voraz apetite dos abutres.
 Ai América, América que será de ti sem agências de rating?    

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Da esmola esquecida à pobreza vivida


Crescemos num país onde pedir esmola fazia parte do quotidiano. A pobreza expunha-se e reservava  lugares próprios para mendigar. Espalhava-se nas ruas autodelimitando o  espaço de cada um, nas entradas dos mercados , dos cinemas, das igrejas e nos corredores do Metropolitano. Pedir e dar juntavam-se em reciprocidade convencionada e, por vezes, automatizada. Elevar a voz,  em compasso dorido, determinava  um baixar de olhar para a mão estendida, pronta para a recolha da dádiva. Parcas, reduzidas e insuficientes as moedas caíam descompassadamente. A miséria crescia, espalhava-se, multiplicava-se e o país aceitava.  Nas escolas aprendia-se a bem tratar os pobres . Nas igrejas invocava-se o reino dos pobres como sendo o reino de Deus. As famílias  promoviam  a poupança  contrapondo a existência de fome no país. E a miséria era uma da nossas  fatalidades , bem  portuguesa, tal qual  o tamanho e a localização do país. Para alguns era  um dos traços do génio português. Por esse mundo , ainda distante e não globalizado, nem sequer Portugal era designado por país periférico, já que a Europa, manta de retalhos, partilhava  apenas a mesma ancestral cultura multifacetada. O eixo da pobreza que nos atravessava,  fixava-nos no extremo ocidental de um continente onde  ambos, qual hóspede e hospedeiro, coabitavam   em  escuso e recíproco desconhecimento .
 Para Fernando Pessoa," recordar não é reviver, é apenas verificar com dor que fomos outra coisa cuja realidade essencial não nos é permitido recuperar. Vimos da sombra e vamos para a sombra. Só o presente é nosso, mas que é o presente senão a linha ideal que separa o passado do futuro? Assim toda a vida é fragmentária, a personalidade una é uma ilusão, não podemos apreender em nós uma constante que nos identifique."
A heteronímia pessoana produziu uma excelente obra literária que é portuguesa, mas o mesmo não aconteceu a  Portugal. Viemos da sombra , continuamos na sombra e vamos para a sombra? A pobreza continua em nós revestida de outras expressões em heteronímia actualizada. A visão condoída do pobre emergente de uma fatalidade lusitana não resistiu aos cravos de Abril. Contudo, o paradigma brutal da miséria apenas evoluiu  em direitos constitucionais previstos num estado social que nunca funcionou em plenitude. A incúria crescente dos governantes não estimulou a justiça social. A penúria tradicional  não foi extirpada, mas sim  reformulada porque passou a  atingir  diversas camadas sociais que, de crise em crise, foram engrossando a lista de novos pobres em tudo diferentes daqueles que piedosamente nos ensinaram  a respeitar. Portugal abriu-se ao mundo e  novos horizontes foram rasgados. A Europa recebeu-o, posicionando-o numa periferia subalterna que o agrilhoa. E ao colocar-se no mundo  a voracidade económica globalizou-o. E a escassez  foi massificada ,a falta de recursos implantada, o acesso ao trabalho restringido. A  mundialização fez da pobreza  a reificação dos excluídos, a maior indignidade banalizada. 
Maria José Vieira de Sousa, em artigo de opinião.