segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O Sermão da Montanha

Manoel de Andrade

Manoel  de Andrade é um profícuo poeta de Curitiba , Brasil. Tem uma vasta obra publicada, iniciada no tempo das lutas estudantis no Brasil, de que se tornou simbólica  A Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro, no tempo da ditadura . Obrigado a exilar-se , correu a América Latina, que definhava sob o jugo de governos autoritários. Durante o tempo da diáspora, escreveu empenhados poemas que se condensaram em dois aplaudidos livros de poesia. Após o regresso ao Brasil, publicou as memórias desse tempo de exílio, de bardo guerreiro, que são um poderoso e rico documento da história da América Latina na luta contra a tirania.
Acabamos  de receber, o que nos torna muito honrados,  um novo poema deste extraordinário poeta que confidencia o seguinte: 
“ Há alguns dias fiz um poema sobre o Sermão da Montanha.
   Escrevi algures que
Esta passagem, constante dos capítulos 5, 6 e 7 de Mateus foi tão estudada e comentada ao longo dos tempos que vale aqui fazer uma singela reflexão lembrando de dois fatos tão significativos na história do cristianismo. Moisés subiu a uma montanha para receber os Mandamentos da Lei e Jesus subiu a um monte para nos enviar os mandamentos do coração. Entre tantas referências, por certo a mais expressiva foram as palavras de Mahatma Gandhi (1869 – 1945) quando, numa de suas reflexões, afirmou que “Se se perdessem todos os livros sacros da humanidade e só se salvasse O Sermão da Montanha, nada estaria perdido.” (1) Essa sábia dedução de um homem tão iluminado como Ghandi indica que essa marcante passagem do Evangelho resume todo o fundamento moral do Cristianismo. Santo Agostinho escreveu o livro “Sobre o Sermão do Senhor na Montanha” onde analisa em profundidade cada detalhe da mensagem incomparável de Jesus. Martinho Lutero (1483 – 1546) dedicou ao texto vários sermões em Wittenberg, publicados em 1532 e Francois Mauriac (1885 – 1970), o grande mestre do romance francês, que descreveu Jesus em seu livro O Filho do Homem e foi laureado com o prêmio Nobel de Literatura de 1952, comentando o mais belo discurso do Divino Mestre, afirmou: "Quem nunca leu o Sermão da Montanha, não é capaz de saber o que é o cristianismo". E mesmo diante de tanta reverência, no Ocidente, essa mensagem sublime de Jesus foi deformada pela poderosa tutela “teocrática” que tinha a Igreja sobre a consciência das pessoas. A vigilância pela pureza dogmática mantida pela intolerância do Santo Ofício negava todo o elevado significado da compaixão, da caridade e do perdão que marcaram indelevelmente as palavras de Jesus. Nascida à sombra arbitrária da cura pontifícia e do trono imperial, a Inquisição marcou o desprezo absoluto pelo significado da fé, do amor e da esperança contida no Sermão da Montanha, restando às vítimas do poder eclesiástico, o desespero, a ruína e a crença na perdição irreparável da salvação da própria alma.
Finalmente, é indispensável acrescentar que no Sermão da Montanha, contido no Evangelho de Mateus, está descrito o nosso mais belo “caminho” para nos dirigir a Deus. É lá que Jesus nos ensina a orar com humildade e respeito ao Criador, proferindo a mais perfeita e a única prece que nos ensinou: o Pai Nosso.
 
O SERMÃO DA MONTANHA
 
Seguido da multidão
Jesus abre o coração
pra dizer sua Verdade.
Aos vindos da Galileia,
aos da Síria e da Judeia,
e pra toda a humanidade.
 
E com uma graça tamanha,
lá do alto da montanha,
todos fomos consolados.
Na humildade e a mansidão,
e os puros de coração,
como os bem-aventurados.
 
E com Seu verbo divino,                  
fez do amor o seu hino                    
pelo amparo e a compaixão.                       
Consolou os perseguidos            
pelos insultos sofridos
e aos que choram de aflição.
 
Abençoou quem tem fome,
e aos que sofrerem em seu nome,
com a divina recompensa.
Bendisse a paz e a concórdia,
o amor e a misericórdia
com as mais sublimes sentenças.
 
Aos doze que o seguiam,
ante as missões que viriam,
deu a pureza e o sabor.
Chamo-os de “o sal da terra”,
 pois o insosso não tempera,
o divino ágape do amor.
 
E no seu saber profundo,
Disse: “Sois a luz do mundo”,
tal qual brilha uma cidade.
Pois não se acende o lampião,
pra se cobrir com um tampão,
mas pra iluminar a Verdade.
 
Veio pra dar cumprimento,
 da Lei, nos Dez Mandamentos,
e nada fique esquecido.
E quem ante a Lei for réu,
passe a Terra e passe o Céu,
tudo há de ser cumprido.
 
 
Ante a lei do Talião
Jesus propôs o perdão.
Nem por olho, nem por dente.
Se te ferirem a direita,
torne a ofensa desfeita
com a esquerda sorridente.
 
Mestre da filosofia,
disse com sabedoria:
Amai vossos inimigos.
Fazei o bem ao rival
ora por quem te fez mal
pra ter a paz como abrigo.
 
No momento da oração,
é no altar do coração
que Deus ouve  teu pedido.
Sem debulhar um rosário,
pede apenas o necessário
e o que for merecido.
 
Jesus no alto do Monte
Fez do Pai Nosso uma ponte
pra buscar o Criador.
Santificando o seu nome,
dando o pão pra nossa fome
e o perdão ao ofensor.
 
Não junte aqui teu tesouro,
que a ferrugem rói o ouro
e onde te rouba o ladrão.
Pela pratica do bem,
faz teu tesouro no Além
e guarda no coração.
 
Nunca descuides de crer
que Deus te há de prover
do que te falta na vida.
Seu amor não deixa ao léu
nem mesmo as aves do céu
às quais não falta a comida.
 
Na poesia do Mestre
 os puros lírios campestres
não conhecem a fiação.
Mas disse que a natureza
as vestem com mais beleza
que o manto de Salomão.
 
Esse é o Sermão do Monte,
tão belo como o horizonte.
Uma canção do humanismo.
É o saber mais profundo
que se conhece no mundo
pela voz do Cristianismo.
          Curitiba, 10 de janeiro de 2026
Manoel de Andrade, poema inédito

7 comentários:

  1. Manoel, grande poeta de longa data, dissemina a palavra com paixão, abre aos incautos a razão.

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  2. Manoel , poeta brasileiro! Belo Poema! Relembrando o profundo ensinamento do Mestre Jesus , O Sermão da Montanha!

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  3. Muito bom mesmo gratidão

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  4. Maravilhosas palavras poéticas de amor e caridade. Parabéns seu Manoel.

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  5. Parabéns, linda poesia!!

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  6. Sempre muito inspirado, e inspirador! Lindo poema!!

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