quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Este nosso mundo lido por um grande poeta

Eugénio Lisboa (Maio 1930-Abril 2024)
Eugénio Lisboa lia o mundo com a sagacidade de um poeta brilhante. Registava , em poemas intemporais, a sua visão. Tem vários livros de poesia publicados. Era um poeta fecundo e, até ao final da sua vida,  nunca deixou de escrever.
Recordamo-lo sempre, com um infindo apreço a par de uma majestosa gratidão. Eis alguns poemas inéditos que retratam sublimemente este nosso tempo.


Cantiguinha de Escárnio e Maldizer

Quanto mais vivo, mais convencido fico de que este planeta
é usado por outros planetas como um asilo de alienados.
               George Bernard Shaw

Neste enorme asilo de lunáticos,
que é este planeta onde vivo,
onde se dá palco aos mediáticos,
sem nunca serem passados ao crivo,

onde as luzes são para os fanáticos,
sempre enormemente assertivos,
mesmo que sejam brutalmente asnáticos,
aldrabões e muito rebarbativos,

neste globo insano, irei morrer,
eu e mais alguns, sem culpa nenhuma,
a quem aconteceu aqui nascer

e aqui viver, como quem arruma
depressa a trouxa, para poder partir
desta bagunça que nem dá pra rir!
03.09.2023
Eugénio Lisboa

Em deslouvor das epopeias


As epopeias só celebram guerras,
matanças e cornos assinalados,
corridas tontas por plainos e serras,
gritos, berros, brados misturados,

viagens míticas e mentirosas,
milagres mais ou menos inventados,
ninfas e putas muito dadivosas,
guerreiros dementados, abraçados

a efebos doces e epicenos.
A sujidade muito prolongada,
de vez em quando, os líricos acenos,

que embelezam a caca celebrada.
Trata-se de verso alevantado,
promovendo terreno mal mijado!
01.12.2023
Eugénio Lisboa

Glosa sobre o fanatismo

O fanatismo embrutece
ou a estupidez fanatiza?
A burrice não me enternece
e o fanático barbariza.

O fanático tem certezas,
onde certezas não existem:
estão repletas de bichezas
que são nocivas e persistem.

A fé não é conhecimento,
pelo menos, até mais ver.
Transforma o mundo em turbulento
e estupora o bom viver.

Crê quem desiste de entender,
por isso o crente é perigoso:
quando não sabe convencer,
vira tirano afanoso.

O fanático não tolera
aquilo que não compreende:
torna-se logo uma fera,
filha bastarda de duende!
25.10.2023
Eugénio Lisboa


Dou isto à meditação dos actuais “iluministas”, totalmente embevecidos com os fanáticos que por aí proclamam, aos gritos, um óbvio desejo de hegemonização religiosa do planeta, para maior glória de um deus soturno e nada misericordioso, que veneram. Eles nem sequer escondem ao que vêm. E os “iluministas” acolhem-nos de braços abertos, decididos a serem, por eles, devorados. Já se tem visto e a História, afinal, repete-se.
O fanatismo e a ignorância militante são os maiores inimigos actuais deste pobre planeta. E o bem intencionismo enviesado dos “iluministas” dá à catástrofe uma boa ajuda.

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