quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Quem foi Nostradamus ?

Michel de Nostredame, famosamente conhecido como Nostradamus,
 retratado numa xilogravura de 1810, da autoria de Charles Canivet.
INTERFOTO / Alamy Stock Photo.

Quem foi Nostradamus – e por que razão as suas previsões ainda nos entusiasmam?
por Erin Blakemore
"Muito antes das teorias do TikTok, Michel de Nostredame cativou a Europa com as suas previsões assustadoramente precisas. Aqui está a história do médico da peste, cuja vida foi tão interessante quanto as suas profecias.
Michel de Nostredame, famosamente conhecido como Nostradamus,  médico e astrólogo francês é famoso pelas suas profecias, mas muitas delas são vagas e abertas a interpretações.
O que nos reserva o futuro… e como acabará o mundo? São perguntas tentadoras – para as quais, há muitos séculos, o médico e autoproclamado profeta Nostradamus sempre afirmou conhecer as respostas. As suas famosas previsões eram desde confusas a assustadoras e os seus acólitos acreditam que algumas delas, feitas no século XVI, ainda hoje se aplicam. As suas alegadas profecias para 2025 incluíram guerras longas, uma peste e uma bola de fogo que poderia destruir a Terra.
Com efeito, Nostradamus é tão conhecido pelas suas previsões que o seu nome é mencionado em 1672 num dos primeiros usos documentados da palavra “prognosticação” em língua inglesa.
Mas o homem que alguns consideram um profeta não era um ser divino. Era um médico, ervanário e autor de carne e osso, cujas previsões ousadas o tornaram conhecido na tumultuosa Europa renascentista. Apresentamos-lhe Michel de Nostradame, mais conhecido como Nostradamus.
Quem foi Nostradamus?
Michel de Nostradame nasceu em Saint-Rémy-de-Provence, em França, em Dezembro de 1503. (Os historiadores discordam quanto à data exacta.) Os seus pais eram o filho de um notário e a filha de um proeminente médico local. Nostradame casou-se duas vezes durante a vida e teve oito filhos.
A França renascentista, como o resto da Europa, esteve imersa em conflitos religiosos durante o seu tempo de vida e isso exerceu um impacto considerável no jovem Nostradame. A sua família era judaica, mas converteu-se ao catolicismo quando a Provença se tornou parte do Reino de França em 1486. Embora os judeus tivessem um longo passado na região, no final do século XV, as autoridades disseram-lhes que, ou se convertiam, ou seriam expulsos, por isso, Michel foi criado como católico.
O jovem Nostradame estudou latim, grego, hebraico e medicina antes de frequentar a Universidade de Avinhão, ainda durante a adolescência. Terminou o bacharelato em medicina na década de 1520, embora a sua faculdade tenha encerrado devido à peste bubónica, enquanto ele ainda era aluno.
Médico da peste e a inquisição
Depois de concluir os seus estudos formais, Nostradame passou algum tempo a viajar por França para estudar plantas medicinais e tratar vítimas da peste, uma das doenças mais temidas da época.
Os historiadores acham que ele foi expulso da Universidade de Montpellier, onde estudou em seguida, por ter praticado o ofício “manual” de ervanário, e discordam quanto à possibilidade de ele ter regressado para terminar o doutoramento.
Praticar medicina na França renascentista significava tratar doenças como a peste. No entanto, a medicina da época também envolvia práticas actualmente consideradas não-científicas, como alquimia, astrologia e profecia. Estas práticas não conseguiram salvar a mulher de Nostradamus, cujo nome se perdeu no tempo, nem os seus dois filhos. Morreram na década de 1530, provavelmente de peste. 
Devastado, o médico também enfrentava outros problemas. Em 1538, foi ouvido a condenar a execução de uma estátua religiosa – palavras que lhe valeram uma acusação de heresia e o levaram a ser arrastado e apresentado à Inquisição em 1538. Uma acusação de heresia teria destruído a sua reputação localmente e uma condenação significaria execução. Contudo, o tribunal absolveu-o e ele voltou a viajar, especializando-se no tratamento da peste.
Alguns dos remédios de Nostradame parecem ter funcionado, pois ele foi sempre encontrando trabalho. O sucesso de alguns dos seus remédios dependia, possivelmente, de práticas de higiene como recomendar beber água potável. Outros, como os seus comprimidos de rosas, baseavam-se no uso de ervas e flores. A sua prática poderia também envolver alquimia, astrologia e outras práticas esotéricas actualmente consideradas não-científicas. No entanto, os seus pacientes ficaram suficientemente satisfeitos com os resultados para espalharem palavra sobre as suas competências. Científicos ou não, os métodos utilizados pelo médico para tratar a peste tornaram-no conhecido em França ao longo da década seguinte – e tanto o seu trabalho, como a sua obra escrita, começaram a ganhar fãs em sítios importantes.
As previsões poéticas de Nostradamus
O médico e astrólogo francês, cujo nome foi amplamente latinizado como Nostradamus, começou a escrever almanaques anuais na década de 1550, baseados na sua suposta “habilidade” de fazer previsões acertadas sobre os eventos e as condições meteorológicas do ano seguinte. Estas publicações, baratas e populares, tornaram-se conhecidas pelos seus prognósticos poéticos e apresentaram Nostradamus a um público mais vasto.
A fama de Nostradamus conquistou-lhe alguns clientes de estatuto elevado, ansiosos por uma previsão pessoal e política. Em 1555, ele previu que um “jovem leão” – designação que se pensava ser um código alusivo ao brasão de armas do rei Henrique II de França— morreria em combate e, no ano seguinte, a rainha de França, Catarina de Médici, e o seu filho, Charles IX, visitaram o profeta.
Quando Henrique II morreu efectivamente no dia 10 de Julho de 1559, devido a um ferimento sofrido num torneio de justa, o acontecimento gerou aquilo a que o historiador Denis Crouzet chamou“uma sensação de catástrofe iminente”.
linguagem vaga e floreada do médico protegia-o a si próprio e à pessoa no centro da profecia de erros, humilhação e acusações de charlatanismo, contribuindo para a sua reputação e mistério ao longo do tempo. Como Michelle Pfeffer, da Universidade de Oxford, escreveu para The Conversationa astrologia e a prognosticação eram comummente praticadas na altura e particularmente populares entre as elites.
Naquela época, a Europa já era dominada por conflitos religiosos e sociais, à medida que a Reforma ia criando tensões entre católicos e protestantes, a desigualdade social causava agitação e as profecias e os boatos chamavam a atenção do público. Muitas destas divergências deram lugar a conflitos, incluindo guerra civil, durante a vida de Nostradamus.
Criticado por católicos e protestantes, Nostradamus defendia as suas profecias, publicando um grande livro cheio delas e continuou a publicar os seus populares almanaques, mesmo depois de ser preso durante um curto período por publicar o seu trabalho sem autorização da igreja. Morreu no dia 1 de Julho de 1566, provavelmente de gota. Os historiadores e o público discutiram sobre os milhares de previsões que ele fez ao longo da sua vida – e, aparentemente, validaram-nas – desde então.
O que Nostradamus previu — e o que aconteceu de verdade
Embora a aparente previsão de Nostradamus sobre a morte de Henrique II lhe tenha conquistado fama em vida, o seu nome persistiu graças a outras profecias que alguns acreditam ter-se concretizado.
Talvez a mais espantosa tenha sido a previsão específica de que, por volta de 1558, “O Senado (Parlamento) de Londres irá condenar o seu rei à morte”. Em 1649, aconteceu exactamente isso: Carlos I foi decapitado por traição após um conflito com o Parlamento que acabou por dar origem a uma guerra civil em Inglaterra.
“Como até os cépticos terão de reconhecer, foi uma afirmação notável”, escreveu o biógrafo Ian Wilson. Na mesma profecia, Nostradamus previu que Londres seria “incendiada por bolas de fogo em três vezes vinte mais seis”. Em 1666, ocorreu efectivamente um incêndio em Londres, destruindo enormes parcelas da cidade.
As pessoas da época não se tinham esquecido das profecias de Nostradamus – e não pararam de procurar acontecimentos que pudessem corresponder à sua concretização nos anos que se seguiram. Os fãs do médico que via o futuro atribuíram tudo desde a revolução francesa (“um casal” que resultará em “tempestade–fogo–sangue”), a ascensão de Napoleão (um imperador “porque custará bastante caro ao Império”), e a ascensão de Hitler (“o maior inimigo de toda a raça humana”) a Nostradamus.
Contudo, muitos dos seus prognósticos vagos também não se tornaram realidade e existe uma longa história de figuras políticas e culturais que reinterpretaram e até interpretaram mal Nostradamus para reforçar os seus próprios objectivos.
Alguns dos que não tiveram pudor em utilizar as profecias de Nostradamus a seu favor foram os líderes do Terceiro Reich. O propagandista Joseph Goebbels incorporou as profecias na sua propaganda, utilizando-as para semear dúvidas e angariar apoio para o esforço de guerra nazi. Nostradamus também foi invocado por grupos extremistas, tornando-se um veículo de transmissão de ideologias.
Também se atribuem a Nostradamus previsões sobre o fim do mundo, mas essa profecia ainda não se tornou realidade. Ele profetizou que, em Julho de 1999, “viria do céu um grande Rei de terror”. As suas previsões alimentaram o medo do juízo final e as preocupações com a forma como o suposto bugY2K iria afectar os sistemas informáticos aumentaram.
O astrónomo francês continua a ser interpretado, lido e estudado por pessoas interessadas em profecias e prognosticação.
Mais de 500 anos após a sua morte, Nostradamus continua a entreter e a confundir – e continua a haver muitas pessoas interessadas nas suas profecias. “A profecia continua a moldar as esperanças e os medos de indivíduos, grupos, estados e de todo mundo em relação ao futuro”, escreveu o historiador Stephen Bowd na Encyclopedia of Millennialism and Millennial Movements. Afinal, quem não quer conhecer o futuro – ou achar que é possível fazê-lo?"
Artigo publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.

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