quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

As palavras em poemas

Corpo de Esperança

Começam por ti todos os versos...

...e um dia as aves voarão o céu até aos teu olhos,
as crianças hão-de pisar teu corpo de alegria
com seus risos, seus tácitos encontros com o invisível
e seu secreto esquecimento.

Num chão de cousas desapercebidas
terão passado sobre ti os reinos, as filosofias e os namorados,

E tu repousas, nua, no coração do Silêncio,
como uma estrela dentro do céu

Neste curto espaço entre nós e a morte
tão mal gastamos nossa longa despedida!

Tu, amor de quem não sei o nome
de onde não sei a sorte,
vais passar além deste poema que era teu
e assim, de morte construída,
teus passos vão enchendo a minha vida.

Outro nome será flor sobre teus lábios,
e outros dedos tocarão a límpida frescura
dos teus ombros quase d’água
e saberão de cor o horizonte branco do teu corpo...

E assim iremos de olhos futuros,
tu, envelhecendo da minha ausência,
eu, a erguer-te na curva da esperança,
e outra mão vai desmanchar a tua trança
e hei-de beijar teu rosto onde não eras
e serás só o que há antes das horas mais tristes.

Neste curto espaço entre nós e a morte,
onde me vais perdendo,
onde te vou buscando,
nosso amor se vai embora alimentando
a despedida;

não porque morra o tempo em teus braços,
mas a vida.
Vítor Matos e Sá, em Poesia de Vítor Matos e Sá, edição de Ana Paula C. Mendes, ed. Campo das Letras, 2000

Convite

Nesta fase em que só o amor me interessa
o amor de quem quer que seja
do que quer que seja
o amor de um pequeno objecto
o amor dos teus olhos
o amor da liberdade
o estar à janela amando o trajecto voado
das pombas na tarde calma
nesta fase em que o amor é a música de rádio
que atravessa os quintais
e a criança que corre para casa
com um pão debaixo de um braço
nesta fase em que o amor é não ler os jornais
podes vir podes vir em qualquer caravela
ou numa nuvem ou a pé pelas ruas
- aqui está uma janela acolá voam pombas -
podes vir e sentar-te e falar com as pálpebras
pôr a mão sob o rosto e encher-te de luz
porque o amor meu amor é este equilíbrio
esta serenidade de coração e árvores.
Egito Gonçalves, in «366 Poemas que Falam de Amor", antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Quetzal Editores
Em busca das palavras

Quem me dera encontrar palavras fortes,
recheadas de coisas e de sons,
tesouros ocultos em caixa-forte,
agrestes com suas cores e tons,
palavras sexuadas e gulosas,
capazes de fremir e de dar fruto,
palavras destemidas e afrontosas,
visando o relativo e o absoluto,
palavras cheias de escuro e de luz,
recheadas de amor e tempestade,
com passada que namora e seduz,
palavras que ocultam mais de metade,
mas dizem que baste para assustar,
palavras bem sedentas de tumulto,
feitas somente para magoar,
cheiinhas, para o caso, de insulto,
palavras que assassinam o canalha,
mas sabem abençoar S. Francisco,
palavras afiadas como navalha,
que, do pescoço infame, fazem petisco,
palavras que são fogo e que queimam,
palavras que ameaçam e cumprem,
palavras que desfloram e que teimam,
palavras que os lordes da guerra estuprem,
palavras fortíssimas, necessárias,
duras, fortes, doces, imprescindíveis,
palavras clássicas, bem centenárias,
que tornem os nossos sonhos possíveis!
                         28.01.2024
Eugénio Lisboa, poema inédito

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