sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Sobre Mona Lisa ou Gioconda , a obra de Leonardo da Vinci

Porque se chama “Mona Lisa” à “Gioconda”?
por Abel G.M.
“A “Mona Lisa”, também conhecida como “Gioconda”, é um dos quadros mais famosos de Leonardo da Vinci. Mas sabia que o seu nome original era outro?
A Gioconda é uma das obras mais famosas de Leonardo da Vinci. Exposto no Museu do Louvre de Paris, é, seguramente, o retrato mais famoso da história. É considerado uma obra-prima devido ao uso de técnicas inovadoras como o sfumato e o halo de mistério que exala, especialmente o seu enigmático sorriso.
O retrato representa a esposa de um comerciante florentino, Francesco del Giocondo, daí o nome de Gioconda. Contudo, a pintura é mais conhecida por outro nome: Mona Lisa. No Renascimento, era comum as pessoas darem alcunhas às obras de arte que, por vezes, se tornavam mais famosas do que o seu nome oficial.
No caso deste quadro, qual dos nomes é o “oficial”? Na verdade, nenhum dos dois, já que o título original desta obra era Retrato de Lisa Gherardini, esposa de Francesco del Giocondo. La Gioconda e La Mona Lisa são os nomes populares que acabaram por se tornar mais conhecidos do que o oficial, que tem pouca garra e é um pouco comprido.
Quem era a Mona Lisa?
A mulher retratada é, provavelmente, Lisa Gherardini, a terceira esposa de Giocondo, que enviuvara pela segunda vez. “Mona” é uma grafia antiga da palavra italiana “monna”, um diminutivo medieval de “madonna”, ou seja, “senhora”. Portanto, este segundo nome significa simplesmente “a senhora Lisa”.
O quadro foi encomendado por Giocondo por volta do ano 1503, provavelmente para comemorar o nascimento do seu segundo filho. Os retratos eram um luxo reservado às classes altas e eram encomendados em ocasiões especiais. Francesco queria um retrato que representasse a virtude e a beleza da sua esposa, que, na altura, teria cerca de 25 anos.
A identidade de Lisa Gherardini como a modelo da Mona Lisa é a hipótese mais generalizadamente aceite, pois é corroborada pelas crónicas da época, incluindo os escritos de Giorgio Vasari, biógrafo de artistas do Renascimento. Ainda assim, devido ao halo de mistério existente em torno da modelo e do seu misterioso sorriso, surgiram várias hipóteses alternativas, desde se tratar da mãe do pintor até ser um auto-retrato do próprio Leonardo.
A paisagem de fundo também permaneceu um mistério ao longo dos séculos e diversos historiadores da arte tentaram relacioná-la com um sítio concreto, que pudesse fornecer pistas sobre o passado do artista. Apesar disso, as opiniões dividem-se entre quem pensa que se trata de uma paisagem real e quem ache que foi inventada: há que ter em conta que, para aquele tipo de encomendas, o importante era o sujeito e o fundo era escolhido para realçar a pessoa retratada.
A história do quadro encerra um mistério adicional: a pintura nunca foi entregue à família. Leonardo conservou a obra consigo até à sua morte em 1519. Pensa que tal se deva ao facto de ele a utilizar como um exercício contínuo para aperfeiçoar as suas técnicas, ou que a encomenda tenha sido interrompida por circunstâncias desconhecidas.
Aquando da morte de Leonardo, ou pouco antes, o quadro passou para a posse do rei francês Francisco I, que o comprou pelo valor de 4.000 escudos de ouro, que, ao câmbio actual, equivaleriam a entre 700.000 e um milhão de euros: uma autêntica pechincha, uma vez que é o retrato mais famoso da história.”
Artigo publicado em National Geographic , Janeiro de 2025
A paisagem atrás de Mona Lisa: muitas teorias, poucas certezas
por Àlex Sala
"O plano de fundo de A Gioconda é um sítio real? Vários especialistas identificaram-no, “sem sombra de dúvida”, em sítios diferentes.
“Fim do mistério”, “Notícia bombástica”, “Terramoto no mundo da arte”. "Encontraram um pormenor da Mona Lisa que passara despercebido durante 500 anos”.
São afirmações tão categóricas como recorrentes nos meios de comunicação e nas redes sociais sobre a pintura mais icónica da história da arte. O último exemplo surgiu há pouco: o historiador da arte Silvano Vinceti afirma ter encontrado, após um estudo exaustivo realizado ao longo de anos, o sítio exacto no qual Leonado da Vinci se inspirou para pintar a paisagem da Gioconda. Ele garante que se trata da localidade de Laterina, na província de Arezzo.
Há um ano, porém, a historiadora da arte Carla Glori (também após um estudo minucioso) situou a vista em Bobbio, na província de Piacenza, a quase 300 quilómetros de distância... Antes deles, outros “especialistas” tinham situado, “sem sombra de dúvida”, a vista atrás da Gioconda em sítios diferentes.
Quem estará certo? Será o fundo da pintura mais famosa da História da Arte um sítio real? Talvez estejam todos equivocados e a vista atrás da varanda na qual a protagonista posa seja uma paisagem imaginária, mas todos defendem as suas hipóteses com firmeza e exibem como aval os anos que dizem ter passado a investigar no terreno, em busca dos mais variados documentos que sustentem as suas teses.
A ponte de Buriano, construída no século XIII, sobre o rio Arno, 
nas proximidades de Arezzo.
A ponte de Schrödinger
Vinceti e Glori são os últimos de uma lista de “caçadores de paisagens leonardianos” que garantem ter encontrado o sítio exacto representado na Mona Lisa.
Há um elemento que se repete nestas teorias: a pequena ponte situada no canto inferior do quadro, à direita do espectador. Este pormenor aparentemente minúsculo permitiu desenvolver a grande maioria das teorias sobre a localização da paisagem: um viaduto que pode ficar em diferentes lugares da geografia italiana, uma espécie de “ponte de Schrödinger”. A primeira hipótese moderna sobre a localização exacta dessa ponte data de 1992, quando o historiador de arte Carlo Starnazzi identificou o viaduto como a Ponte Buriano, que atravessa o rio Arno nos arredores de Arezzo.
O já falecido Starnazzi, um paleontólogo apaixonado por Leonardo, foi o primeiro (que se conheça) a aventurar-se na proposta de uma localização exacta e reafirmou a sua teoria ao assinalar vários pontos da pintura que correspondem à paisagem observável a partir do Castelo Quarata, situado a 70 metros de altura e a dois quilómetros da ponte.
As outras paisagens
O facto de haver um cartaz nessa mesma ponte indicando que aquele é o lugar retratado pelo génio florentino e a abertura de um Museu da Ponte da Gioconda e Leonardo da Vinci em Arezzo não impediram uma série de autores de proporem as suas próprias alternativas. É o caso de Carla Glori, que no ano passado mudou a ponte davinciana para um local muito distante.

Mapa do norte de Itália com as localizações propostas para a paisagem da Gioconda.

Após uma profunda investigação, esta historiadora da arte decidiu publicar a sua teoria, segundo a qual o viaduto retratado por Leonardo da Vinci é a Ponte Jorobado de Bobbio, que atravessa o rio Trebia, afluente do Pó, 200 quilómetros a norte de Florença. Glori afirma que, nessa época, Leonardo estava a supervisionar a execução de uns murais dedicados a Galeazzo Sanseverino no castelo de Malaspina dal Verme, em Bobbio. Esta teoria tem uma outra variação, segundo a qual a protagonista da pintura não é Lisa Gerhardini, mas outra mulher.
Silvano Vinceti, o último especialista a publicar uma proposta, trouxe a ponte de volta para os arredores de Arezzo, mas um pouco mais para leste. Para o historiador italiano, a ponte reproduzida na tábua é, sem dúvida, a ponte “etrusco-romana de Romito”, que atravessava o rio Arno em Laterina, cerca de 60 quilómetros a sul de Florença e que, segundo o historiador, era “muito transitada” no início do século XVI. Esta tese seria reforçada pela presença de Leonardo no vale do rio Arno, onde realizou trabalhos de engenharia hidráulica ao serviço de César Bórgia e mais tarde do gonfaloneiro de Florença, Pier Soderini.
Vinceti descartou as duas teorias anteriores porque as pontes de Buriano e do Jorobado têm seis arcadas e o viaduto reproduzido por Leonardo na Mona Lisa tem quatro arcadas. Apesar de a ponte de Romito só ter um arco actualmente, sabe-se que possuía quatro enquanto esteve em funcionamento, o que levou o especialista a defender esta localização como a correcta.
Vinceti garante ter analisado vários documentos históricos e comparou inúmeras imagens captadas por drones e fotografias para chegar à sua conclusão. Chegou até a reconstruir o aspecto da ponte, que, na sua opinião, se assemelhava muito à que figura na Mona Lisa.
Temos ainda o caso de Olivia Nesci e Rosetta Borchia, uma geóloga e uma artista, respectivamente, que, na primeira década do século, pensaram ter identificado os contornos do fundo da Gioconda junto à confluência do ribeiro Senatello e do rio Marecchia, no antigo Ducado de Urbino. As suas teorias levaram à construção de diversos miradouros na pequena localidade de Pennabilli (Emilia Romagna), que estabelecem uma correspondência entre as formações rochosas da pintura e os acidentes geográficos que os visitantes podem observar in situ.
A geomorfóloga Nesci explica as diferenças entre a paisagem actual e a da obra de Leonardo da Vinci, dizendo que os rios seriam muito mais largos há 500 anos e que os lagos seriam uma invenção leonardiana.
O magnetismo da Gioconda
fascínio exercido pela Gioconda ao longo dos últimos 500 anos conduziu, em diversas ocasiões, a um estudo obsessivo dos seus elementos. Todos queriam encontrar pormenores secretos, leituras simbólicas e mensagens codificadas e o público acolheu cada uma das novas teorias como verdades irrefutáveis. O desenvolvimento é sempre o mesmo: a “incrível” descoberta faz impacto nos meios de comunicação de todo o mundo, que repetem a “novidade” de forma maciça e a notícia inunda as páginas da Internet e as redes sociais de todo mundo durante uns dias, antes de cair para sempre no mais profundo esquecimento.
Este fascínio é retroalimentado pelos meios de comunicação, que publicam qualquer novidade sobre uma pintura até ao limite em busca de cliques, e por um público que as consome avidamente para as ignorar pouco depois. Como teorizado por Andy Warhol quase 500 anos após a morte de Leonardo da Vinci, todos os especialistas em Leonardo têm direito aos seus 15 minutos de fama antes de serem novamente devorados pelo esquecimento e pelo anonimato. E assim continuará a ser até que, no ano seguinte, alguém apresente a sua nova teoria, tão fundamentada como as anteriores, sobre o local que se esconde atrás da pintura mais icónica da humanidade."
Artigo publicado originalmente em castelhano em nationalgeographic.com.es., 

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