| O Axolotle encontra-se distribuído no México. Habita nos lagos e permanece na água toda a vida. O Axolotle é um anfíbio tem nome asteca , que significa “monstro aquático”. |
por Gabriel García Márquez
"Um problema sério que nossa realidade desmedida cobra da literatura é a insuficiência das palavras. Quando falamos de um rio, o mais longe que pode chegar um leitor europeu é imaginar algo tão grande como o Danúbio, que tem 2.790 quilómetros. É difícil que imagine, se não se descrever , a realidade do Amazonas, que tem 5.500 quilómetros de comprimento. Em Belém do Pará, onde ele é mais largo do que o mar Báltico, não é possível ver a outra margem. Quando escrevemos a palavra “tempestade”, os europeus pensam em relâmpagos e trovões, mas dificilmente vão conceber o mesmo fenómeno que nós queremos representar. A mesma coisa ocorre, por exemplo, com a palavra “chuva”. Na cordilheira dos Andes, segundo a descrição feita para os franceses por um francês chamado Xavier Marimier, há tempestades que podem durar até cinco meses.
Portanto, seria necessário criar todo um sistema de palavras novas para o tamanho de nossa realidade. Os exemplos dessa necessidade são intermináveis. F.W. Up de Graff, um explorador holandês que percorreu o alto Amazonas no início do século XX, disse que encontrou um arroio de água fervente onde se faziam ovos cozidos em cinco minutos, e passara por uma região onde não se podia falar em voz alta porque se desatavam aguaceiros torrenciais. Em algum lugar da costa caribenha da Colômbia vi um homem fazer uma oração na frente de uma vaca que tinha vermes na orelha, e vi cair os vermes mortos enquanto transcorria a oração. Aquele homem garantia que podia conseguir a mesma cura a distância se lhe fizessem a descrição do animal e indicassem o lugar em que se encontrava. Em 8 de Maio de 1902, o vulcão Mont Pele, na ilha de Martinica, destruiu em poucos minutos o porto de Saint-Pierre e matou e sepultou em lava a totalidade de seus trinta mil habitantes. Menos um: Ludger Sylvaris, o único preso da população, protegido pela estrutura invulnerável da cela individual que construíram para que ele não pudesse escapar.
Gabriel García Márquez, em “Crónicas – obra jornalística: 1961-1984”. tradução Leo Schlafman. Record, 2019.
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