terça-feira, 23 de janeiro de 2024

O Lugar

O Lugar 
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"Quando acordara naquele dia não enxergara de imediato onde estava. A sua vida nos últimos anos obrigara-a a mudar constantemente de lugar, pelo que invariavelmente quando acordava tinha dificuldade em reconhecer o quarto.
Assim, quando respirou fundo e abriu bem os olhos e os sentidos todos começaram a funcionar, pareceu-lhe ouvir a seu lado um ruído descompassado, pesado e quase ofegante. Sentou-se na cama e viu-se num quarto sombrio, com uma claridade tenuemente difusa que lhe  mostrava mais duas camas, onde jaziam também dois vultos que não foi capaz de identificar.
Então, recordou a noite anterior. Tinham-na levado para o Lugar. Ali estava ela no meio de estranhos, não imaginando sequer quem eram eles, mas compartilhando já o quarto.
Apesar de tudo em qualquer das casas por onde andara, até na que deixara de lhe pertencer, tinha tido sempre um quarto só para ela. Os filhos tinham preservado essa sua necessidade mínima de independência. E era lá que se renovava e se refortalecia para os combates que foram sucessivamente travados num plano aparente de desigualdade. Ela fora sempre vencedora., pois estava íntegra e inteira . Nunca fora tão forte a sua energia interior. Conseguira resistir aos desmandos dos filhos e aceitara de face lavada a entrada no Lugar.
E assim começava o primeiro dia da mudança mais radical e inesperada da sua vida. Sozinha no meio de tanta gente.
Como a história da vida por vezes trai. Tenta-se construí-la de uma maneira e ela desenrola-se de outra. Quando os filhos eram crianças, tinha sonhado criá-los a todos em casa, confrontando firmemente Mário Alberto que, de acordo com a época, teimava em interná-los em colégios para usufruírem de uma rígida educação. Sempre considerou que o ambiente familiar era o melhor suporte para um crescimento saudável, regulador de qualquer educação.
Todos estudaram em bons colégios particulares, mas em regime de externato. Assustava-a a ideia de os ver isolados entre estranhos, repartindo o quarto na noite grande e dominadora. Só a filha mais velha foi internada na fase da adolescência, aos catorze anos, quando completou o antigo 5º ano do ensino liceal para seguir um curso de línguas estrangeiras, num colégio afamado que ficava distante.
Tornou-se uma jovem rebelde e fez um casamento desastroso com o tal inglês desvairado que a deixou sem meios e com três filhos. Foi  convertendo-se numa mulher amargurada e azeda. Atribuiu sempre ao internamento e, por tal, à consequente separação do ambiente familiar este evoluir da sua personalidade.
Afinal a história escrevia-se agora contra ela. Eram os filhos que  a tinham internado. E a noite grande e dominadora tinha sido passada num quarto partilhado a três.
Levantou-se e lá ao fundo descobriu uma porta. Era a casa de banho. Era grande, interior, mas bem iluminada por uma profusa luz artificial. Estava limpa e dispunha de uma grande banheira e de uma zona separada para o duche. Abriu as torneiras e a água começou a jorrar aquecida e transparente.
-“Que alívio”. Poderia tomar um bom banho e depois começar a reconhecer o Lugar.
Acabado o banho retornou para o quarto e os vultos continuavam inertes nas camas impossibilitando o seu reconhecimento. As respirações prosseguiam ofegantes com intervalos irregulares, ora roncando sinistramente ora sibilando titubeantemente. Seriam estas as suas companheiras dos tempos vindouros?
Tinha de sair rapidamente do quarto e libertar-se deste ambiente desolador. As forças necessitavam de ser retemperadas , como que num  processo preventivo de defesa.
- Será que poderei sobreviver neste Lugar? - pensou pela primeira vez em surdina e até com medo de se ouvir.                                
-Bom dia. Como passou a noite? Agrada-lhe este quartinho? Pode crer que é dos mais pequenos e por tal mais adequado à sua situação.
Voltou-se e viu uma mulher robusta de meia idade com um uniforme branco semelhante àquele que geralmente era usado pelas enfermeiras. Embora não visse bem, enxergava com algumas limitações principalmente da vista esquerda, pelo que por vezes havia pormenores que lhe escapavam, mas desta vez viu nitidamente um rosto pretensamente sorridente, colmatado por uns olhos grandes e azuis que pareciam duas facas afiadas brilhando na contraluz. Fixando um pouco mais esses olhos concluiu que eram abrasivos , daqueles que pretendiam invadir a alma dos outros para se apossarem de tudo o que nela existe.
Com o tempo descobriu que aqueles olhos não sorriam, antes eximiam um riso profundamente trágico e predador.
- Bom dia. Como está escuro e vejo mal, não posso ainda dimensionar o quarto, mas não será possível ter um privativo, já que não estou habituada a repartir o quarto.
- Bem se vê que pisa o Lugar pela primeira vez. Nestas instituições não existem quartos privativos. Eles são sempre compartilhados porque a política definida tem como objectivo a protecção dos hóspedes, não os mantendo isolados privilegiando deste modo a sua segurança. Este que lhe foi atribuído era o único disponível  com  apenas três camas.
- Então terei que ficar neste quarto. Poderei saber quem são as minhas companheiras?
- Claro e com todo o prazer. São umas senhoras respeitáveis de grande estirpe e reputação.
A senhora da cama junto à janela chegou há um mês e tem um problema cardíaco que a deixou inválida. Tem 75 anos e é viúva de um Juiz. Não tem filhos, nem família.
A outra é uma senhora de 68 anos que tem uma doença pulmonar, que lhe provoca insuficiência respiratória necessitando constantemente de oxigénio. As forças já a tinham abandonado quando aqui chegou, há mês e meio. Os filhos internaram-na logo após a morte do marido, um arquitecto conceituado que deixou uma obra imensa e uma fortuna considerável. Era ele que cuidava dela.
- Quer dizer que sou a única que não estou doente e que me basto a mim própria?
- Efectivamente a senhora não aparenta estar doente, mas terá de obedecer às regras que esta casa estabeleceu, pelo que só  se basta a si própria no aspecto da locomoção. Hoje ser-lhe-á dada uma planta do Lugar, bem como o regulamento interno que deverá ler atentamente para que a sua estadia se desenvolva em harmonia com esta organização. Seja bem-vinda, minha senhora. Eu vou ser a sua curadora nesta casa. A mim deve reportar todas as suas necessidades e se lhe aprouver também poderá informar-me de todas as suas dificuldades. E agora vou levá-la à sala das refeições para que possa tomar o pequeno almoço.
- É muito gentil... Veremos o que me espera - pensou ela.
A voz desta mulher era demasiado grave, mais parecia um falso contralto desafinado. Chamava-se Genoveva e era uma solteirona recalcada. Lembrava um animal em situação latente de cio que, indefinidamente e com raiva contida, ia aguardando uma presa macho que teimava em não chegar. Estava no seu natural habitat pois ia aprisionando outras vítimas, enquanto não chegava a eleita.
No dia anterior nada tinha visto, porque chegara à noite. Era então a  hora de ver onde estava.
Atravessaram um grande salão, àquela hora totalmente vazio e desembocaram numa sala clara, cheia de pequenas mesas, mas apenas com meia dúzia de pessoas, cabisbaixas, parecendo ausentes e alheias à sua passagem.
Foi conduzida para uma mesa junto à janela que estava vaga, já que  não tinha ninguém.
- Esta será a sua mesa. É aqui que doravante lhe serão servidas todas as refeições.  
Sentou-se e esperou que lhe servissem o pequeno almoço.
O silêncio era total, quase avassalador. Eram apenas sete horas da manhã, talvez por isso a sala estivesse praticamente vazia e talvez por isso ninguém falasse.
Emergiam na sua mente muitas interrogações, mas por ora estava concentrada nas paredes desta sala. Transportavam –na   para   um ambiente longínquo e familiar.
As paredes eram forradas a madeira e a pedra. Iniciavam-se com madeira , carvalho maciço, que partia do soalho e prosseguiam em  pedra robusta e consistente até ao tecto. Eram magníficas.
Na casa da sua infância  existiam muitas   paredes edificadas  com a junção destes dois materiais. Fora assim que tinha descoberto e assimilado que formavam uma simbiose útil e perfeita porque resistia incólume à passagem do tempo, além de emprestar à casa uma peculiar atmosfera de requintada sobriedade."
Maria José Vieira de Sousa, in O Lugar, memórias de um romance, Junho de 2008, pp 5-9

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

Ítaca

Se partires um dia de volta a Ítaca,
pede que o caminho seja longo,
rico de experiências, rico de saber.
Não temas lestrigões nem os ciclopes,
nem nunca o Posidon furibundo;
não acharás aqueles seres na tua rota,
se for alto o teu pensamento
e sutil emoção mantiveres em teu corpo e teu espírito.
Nem ciclopes, nem lestrigões,
nem o Posidon bravio acharás nunca,
se tu mesmo não os trouxeres em tua alma,
se a tua própria alma não os puser diante de ti.

Pede que o caminho seja longo!
Sejam numerosas as manhãs de verão nas quais tu,
com prazer, com felicidade,
aportes em baías nunca vistas;
demora-te em empórios da Fenícia
e compra belas mercadorias,
madrepérola e coral, e âmbar, e ébano,
perfumes deliciosos e diversos;
quanto puderes, investe em perfumes,
voluptuosos e delicados.
Visita muitas cidades do Egito e,
com avidez, aprende dos seus sábios.

Guarda Ítaca sempre na memória.
A tua meta é lá chegar.
Mas não apresses a viagem.
Melhor é que ela dure longos anos,
e que chegues à tua ilha na velhice,
com o que tiveres ganho pela estrada,
sem esperar que Ítaca te enriqueça.

Ítaca te presenteou uma bela viagem.
Sem Ítaca, não terias te aventurado.
Mas nada além ela te dará.
Mesmo que a encontres pobre, Ítaca não terá te enganado.
Rico em saber e em vida, como voltaste,
entendes, por fim, o que significa uma Ítaca.

Konstantínos Kaváfis,145 Poemas, São Paulo, Odysseus, 2006

domingo, 21 de janeiro de 2024

A difícil arte de admirar

A difícil arte de admirar

por Eugénio Lisboa

Aquele que deseja a rosa
deve respeitar o seu espinho
André Gide
 
“A admiração é algo de nobre, mas esconde compartimentos sombrios. Num deles, habitam, encafuados, a inveja e o ciúme, que precedem a frustração e o rancor. A admiração pode ser ou parecer que é motor de arranque para uma emulação construtiva. É, por exemplo, o caso do grito dado muito cedo por Victor Hugo: “Quero ser Chateaubriand ou nada!” Isso levou-o aos píncaros de ser Victor Hugo, o maior poeta da língua francesa. Mas o querer ser alguém que se admira pode implicar uma alquimia produtora de vinagre ou mesmo de veneno. Admirar está cheio de armadilhas. A pior é a do amor supostamente não correspondido. O “Quero ser Chateaubriand ou nada” descamba, não raro, no ódio vesgo a Chateaubriand. Não foi o caso de Hugo, ou o de Barrès ou o de Montherlant, que terão tido esse sonho: porque, tinham eles próprios, génio de sobra. Mas foi, no século passado, nos anos trinta, quarenta, cinquenta, o caso do “Eu quero ser Régio”, anseio de tantos jovens que, depois, não se cansaram de denegri-lo, de persegui-lo, de odiá-lo… de invejá-lo, tanto mais e tanto mais zangadamente, quanto mais ele se mostrava insubornável e admiravelmente independente. Que os novos acrescentadores de poesia ou de ficção se crispassem e o farpeassem – merece uma certa compreensão e atenuante: os que lavram o mesmo território, tendem a não se verem com particular carinho uns aos outros. Wilde, com a finíssima perspicácia que o caracterizava, observou que os deuses, ao correrem nas suas carroças, fazem tanta poeira para os lados, que se não conseguem ver uns aos outros. Claudel não via Gide, Gide não via Proust, Tolstoi não via Shakespeare e o sereno, ponderado e objectivo Martin du Gard não via Balzac (este, felizmente, viu Stendhal). Mas isto diz respeito aos que metem a mão na massa, isto é, aos criadores de arte. Mas que, por essa mesma altura, críticos, ensaístas encartados, professores, gente a quem compete outra objectividade, outra capacidade de perspectiva, gente que devia ver-se como verdadeiros guardiães do património, que gente desta sacudisse para o caixote do lixo uma grande e invulgar figura como o autor de MAS DEUS É GRANDE, de O PRÍNCIPE COM ORELHAS DE BURRO, de A CHAGA DO LADO, de JACOB E O ANJO, de HISTÓRIAS DE MULHERES, de A VELHA CASA, de EM TORNO DA EXPRESSÃO ARTÍSTICA, de ENSAIOS DE INTERPRETAÇÃO CRÍTICA, que um autor de uma obra vasta e de invulgar quilate fosse assim levianamente descartado, como imprestável, pergunto: que país é este? Que clercs são estes? Somos assim tão ricos que possamos dar-nos ao luxo de desprezar pepitas destas? Dizia Malraux que “uma das mais altas qualidades de um homem que não é um animal é ser capaz de admirar”. Infelizmente, entre nós, a capacidade de admirar merece sério escrutínio: quem se admira, como se admira, por que se admira e por que se deixa de admirar, para passar a desprezar e atacar. Observava um não muito conhecido escritor francês que “há no homem, quase sempre, duas vozes que falam simultaneamente: a admiração e a inveja”. À mínima suspeita de amor mal correspondido, a primeira torna-se na segunda, com particular rancor incluído… Vi isso acontecer, em muitos casos, com o grande escritor de Vila do Conde e de Portalegre. Jovens escritores, ambiciosos e gulosos de glória, cedo concluíam que o sóbrio e muito ocupado escritor, professor, jornalista, colecionador de antiguidades e cuidadoso e muito requisitado epistológrafo, além de assíduo frequentador de salas de cinema, não tinha disponível, para eles e para a promoção deles, todo o tempo e energia a que se julgavam com direito: receita infalível para o amor se transformar em azedume de má catadura. Vi, quando, na casa do escritor, em Vila do Conde, passei a pente fino as cartas que religiosamente guardara, a adulação ali manuscrita pela mão de jovens e empertigados autores que, depois, se passaram, com armas e bagagens, para o outro lado: o da denegrição.
A admiração que visa ser escada de acesso a uma promoção do admirador não traz felicidade. Os poetas, às vezes, dizem-no melhor e de maneira mais curta: “O segredo da felicidade reside em admirar sem desejar” (Carl Sandburg, poeta americano).”
Eugénio Lisboa
, 21.01.2024

Ao Domingo Há Música

Trailer do filme Maestro
Foi com curiosidade que vi o filme Maestro. Descobrir, na tela, um maestro que conheci ao longo de alguns anos , seria um desafio fascinante e surpreendente. Recordava os inúmeros concertos para jovens na televisão (Young People's Concerts), entre 1954 e 1989, assim como os  exuberantes e primorosos concertos de obras clássicas e de algumas obras  da sua própria autoria, como o musical  West Side Story, Candide  e On the Town.
O filme Maestro  é a história da relação entre Leonard Bernstein e Felicia Montealegre Cohn Bernstein e um retrato deste singular e carismático maestro. Da sua paixão pela música até à fama, como o primeiro maestro americano de renome mundial, nunca deixando de  compor.  É verdadeiramente uma imponente e singular história de amor, interpretada por Bradley Cooper como Leonnard Bernstein e Carey Hannah Mulligan como Felicia Montealegre. A produção é de Bradley Cooper, embora o filme fosse inicialmente um projecto de Steven Spielberg, este continuou a desempenhar funções de produtor, em parceria com Martin Scorsese e Todd Phillips.
No filme, é recriada a histórica interpretação  da Symphony No. 2 in C minor, "The Resurrection Symphony", de Gustav Mahler, por Bernstein. Uma  belíssima peça de  arquivo,  da respectiva  apresentação em  1973, recentemente restaurada. Nessa extraordinária interpretação,  Leonard Bernstein dirige  a Orquestra Sinfónica de Londres,  a soprano Sheila Armstrong, a mezzo-soprano Janet Baker e o Coro do Festival de Edimburgo, na Catedral de Ely, em Cambridgeshire, Inglaterra. 
Eis esse  fantástico registo, onde ressalta a dinâmica e exuberante figura de Leonard Bernstein. 

 

sábado, 20 de janeiro de 2024

Uma saborosa escrita

Alguns saborosos  trechos, extraídos do livro "Caderno H", de Mario Quintana: 

Notícias de Bizâncio
"Como distinguir entre “história” e estória”, eu que sempre acredito em tudo? Eu, o leitor modelo. Caso contrário, não seria uma ofensa ao poder criador dos autores? Esse monstrinho foi a última novidade que importamos de Bizâncio, a qual, aliás, acaba de ser bombardeada com a abolição dos acentos discriminatórios, conforme a imprensa amplamente noticiou. Bendito bombardeio que um gramático vigente, no entanto, classificou de “reforminha” e um ex-deputado de “leizinha”... como se nada significasse a morte fulminante dos escavadores de cemitério, dos que desenterraram o verbo “aquelar” enquanto voejava em torno, como um espírito-santo lá deles, o fantasma alado do passarinho “toda”.
 
Do impossível convívio
O mais trágico dessas reuniões sociais é que elas são compostas unicamente de terceiros.
 
De como a história se repete
E eis que ressurge agora o novo homem das Cruzadas, isto é, das palavras cruzadas...
 
Mas seja lá como for
Decifrar palavras cruzadas é uma forma tranquila de desespero.
 
Ela
Mas que haverá com a Lua, que, sempre que a gente a olha, é com um novo espanto?
 
Página de história
De uma História Universal editada no século XXXIII: “Os homens do Século XX, talvez por motivos que só a miséria explicaria, costumavam aglomerar-se inconfortavelmente em enormes cortiços de cimento. Alguns atribuem o facto a não se sabe que misterioso pânico ao simples contacto da natureza; mas isto é matéria de ficcionistas, místicos e poetas... O historiador sabe apenas que chegou a haver, em certas grandes áreas, conjuntos de cortiços erguidos lado a lado sem o suficiente espaço e arejamento, que poderiam alojar vários milhões de indivíduos. Era, por assim dizer, uma vida de insectos – mas sem a segurança que apresentam as habitações construídas por estes”.
 
Seu verdadeiro crime
O que eles jamais perdoaram a Oscar Wilde é que ele era profundo sem ser chato.
 
Fatalidade 
O que mais enfurece o vento são esses poetas inveterados que o fazem rimar com lamento.
 
Camuflagem
A esperança é um urubu pintado de verde.
 
Ser e não ser
Para algo existir mesmo – um deus, um bicho, um universo, um anjo... – é preciso que alguém tenha consciência dele. Ou simplesmente que o tenha inventado.
 
A escrita 
Um trouxe a mirra, o outro o incenso, o terceiro o ouro.
Incenso e mirra evaporaram-se... Mas e o ouro?
Os textos nada dizem quanto à aplicação do ouro!
 
Na solidão da noite 
Os velhos espelhos adoram ficar no escuro das salas desertas. Porque todo o seu problema, que até parece humano, é apenas o seguinte: - reflexos? ou reflexões? 
 
A mestra e os alunos
Dizem que a História é a mestra da vida. Mas como é que os seus protagonistas incorrem sempre nos mesmos erros? Não lhes aproveitou em nada o exemplo dos antecessores reprovados.
É que lhes acontece o mesmo que com os leitores de novelas policiais: cada qual sonha com o crime perfeito. O crime que compensa.
 
Pequena tragédia brasileira
A Bem-Amada queria devorar o coração do Poeta.
- Mas, - disse ele – só terás um pedacinho... Porque noventa por cento pertence aos Editores.
 
Refinamentos
Escrever o palavrão pelo palavrão é a modalidade atual da antiga arte pela arte.

Veneração
Ah, esses livros que nos vêm às mãos, na Biblioteca Pública e que nos enchem os dedos de poeira. Não reclames, não. A poeira das bibliotecas é a verdadeira poeira dos séculos.

O anti-hamlet
O que nos atrai no 007 é que ele é o tipo do herói anti-shakespeariano. Nada de casos de consciência. Não é como esse pobre príncipe Hamlet que, para cometer meia dúzia de crimes, passa todo o tempo falando sozinho...

Mágica divina
O cristianismo acabou com o sofrimento transformando o sofrimento em prazer, como o atesta a alegre legião dos mártires e essa gente que, a cada golpe, exclama: “Seja o que Deus quiser!”

Poesia & lenço
E essas que enxugam as lágrimas em nossos poemas com defluxos em lenços... Oh! tenham paciência, velhinhas... A poesia não é uma coisa idiota: a poesia é uma coisa louca!

Dona Glorinha no circo
Dona Glorinha estava que não podia! Aquele homem que rodava no espaço, cada vez mais rápido, e preso apenas pelos dentes a uma roldana... Dona Glorinha sentia doerem-lhe os dentes, não os de agora, os outros... Dona Glorinha não pôde mais. E bradou, em meio do suspense geral: “Basta, cruel!”

“A poesia é necessária”
Título de uma antiga seção do velho Braga na Manchete. Pois eu vou mais longe ainda do que ele. Eu acho que todos deveriam fazer versos. Ainda que saiam maus, não tem importância. É preferível, para a alma humana, fazer maus versos a não fazer nenhum. O exercício da arte poética representaria, no caso, como que um esforço de auto-superação.
É fato consabido que esse refinamento do estilo acaba trazendo necessariamente o refinamento de alma.
Sim, todos devem fazer versos. Contanto que não venham mostrar-me.

Contradições
... mas o que eles não sabem levar em conta é que o poeta é uma criatura essencialmente dramática, isto é, contraditória, isto é, verdadeira.
E por isso é que o bom de escrever teatro é que se pode dizer, com toda a sinceridade, as coisas mais opostas.
Sim, um autor que nunca se contradiz deve estar mentindo.

Essa não!
Lili teve conhecimento dos antípodas, na escola. Logo que chegou em casa, começou a deitar sabença pra cima da cozinheira. Falou, falou, e, como visse que Sia Hortênsia não estava manjando nada, ergueu no ar o dedinho explicativo:
– Imagine só que quando aqui é meio-dia lá na China é meia-noite!
– Credo! Eu é que não morava numa terra assim...
– Mas porquê, Sia Hortênsia?
– Uma terra onde o dia é de noite... Cruzes!

Das frases históricas
Desconfio que essas frases históricas foram inventadas pelos historiadores, pois como poderiam os grandes homens ter tido, todos eles, aquele mesmo estilo de dramalhão?

Sonho
Um poema que ao lê-lo, nem sentirias que ele já estivesse escrito, mas que fosse brotando, no mesmo instante, de teu próprio coração.

Tempo
Coisa que acaba de deixar a querida leitora um pouco mais velha ao chegar ao fim desta linha.
Mario Quintana, em " Caderno H", ‎ Alfaguara Editora, 1ª edição (5 Janeiro 2013)

Sobre o livro
"Ao longo de décadas, Mario de Miranda Quintana, (Alegrete, 30 de Julho de 1906 — Porto Alegre, 5 de Maio de 1994),   poeta, tradutor e jornalista brasileiro, publicou no jornal Correio do Povo, de Porto Alegre, o seu "Caderno H", feito de poesia, humor, sabedoria. Da crónica ao poema, passando pelas frases cheias de espírito, esses cadernos foram os grandes responsáveis pela consagração popular de sua literatura. A cada novo trecho do Caderno, nos deparamos com a união singular, tão característica de Quintana, da inteligência com a intuição reveladora. Assim como no enquadramento jornalístico original, ao serem colocados em forma de livro, os textos deste Caderno H, por sua própria organização fragmentária, fornecem alimento cotidiano à inteligência do leitor comum, apaixonado por literatura. Um clássico brasileiro. Na era do Twitter, este Caderno H ganha uma atualidade surpreendente. Que a poesia e a prosa de Quintana tinham lugar assegurado no cânone da literatura brasileira do século XX era algo fora de discussão. Mas a comunicação ainda mais veloz do século XXI, comunicação em tempo real, encontra, nestes textos, modelo e inspiração. Os aforismos e prosas curtas do Caderno H, na sua diversidade aberta para o infinito (é o infinito no sucinto), são lições de como conjugar intuição e raciocínio, humor e sentimento, crónica e reflexão, circunstância e perenidade. A presente edição propicia ao leitor contemporâneo, o encontro.  E ao leitor veterano, o reencontro com ideias e histórias que, de tão repetidas e citadas, praticamente já fazem parte de repertório de provérbios e frases feitas da cultura literária brasileira mais ampla. Fruto de erudição e sensibilidade, Caderno H foi o livro de Quintana que mais decisivamente o transformou num escritor popular, aquele cujos escritos se inscrevem no subconsciente de uma língua."
Em 1980, Mario Quintana foi galardoado com o Prémio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras e,  em 1981, com o Prémio Jabuti de Personalidade Literária do Ano.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

MEMENTO MORI

Este mar não vai desaparecer.
O que vai desaparecer sou eu.
Este mar vai continuar a ser.
Deixar de vê-lo é destino meu.
 
Continuará a espelhar o sol,
que, de mim, para isso, não precisa.
Estender-se-á como vasto lençol
o mar que tem grandeza por divisa.
 
O mundo existia antes de mim,
porque há ser que convive com não ser.
Haverá mundo, depois do meu fim
 
e ser que ignora o meu não ser.
Está bem assim porque é natural,
embora pareça demencial.
                       19.01.2023
Eugénio Lisboa

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

O pavão


O pavão
por Rubem Braga
"Eu considerei a glória de um pavão ostentando  o esplendor de suas cores ; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas de água em que a luz se fragmenta, como em um  prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.
Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz o seu esplendor ; seu grande mistérios é a simplicidade.
Considerei, por fim, que assim é o  amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico."
Rubem Braga , in Desculpem tocar no assunto, Edições Tinta-da-China, Lisboa, Outubro de 2023,  p 160

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Interlúdio Musical

 

Clarinet Concerto in A major, K.622 , de Wolfgang Amadeus Mozart, pela Iceland Symphony Orchestra   e  Arngunnur Árnadóttir, no clarinete , sob a direcção do Maestro Cornelius Meister.