sexta-feira, 24 de junho de 2022

A vergonha destes dias


 



 O mundo pode e deve parar Putin.

Uma história exemplar


UMA HISTÓRIA EXEMPLAR
por Eugénio Lisboa
“Quando, em 1978, fui para Londres, na qualidade de conselheiro cultural da nossa embaixada, contaram-me uma história que nunca mais esqueci. Foi-me contada pelo chanceler, Fernando Mendes, homem competentíssimo, de quem me viria a tornar amigo.
Fora trabalhar, na embaixada, ainda muito novo e logo a seguir ao fim da segunda guerra mundial, quando, em Inglaterra se vivia num regime de muito severo racionamento de tudo, incluindo bens alimentares. Passava-se ali uma “fome de rabo”. Fernando Mendes dava-nos pormenores impressionantes da forma como se vivia mal, naqueles tempos de frugalidade. E, como era costume com os ingleses, a frugalidade era para todos, incluindo ministros e até para a família real, no Palácio de Buckingham.
Para ilustrar isto, de forma impressiva, contou-me a história da ida da nossa famosa violoncelista, Guilhermina Suggia, a Londres, nesse período de austeridade, para ali dar um concerto. Tendo ficado hospedada, no Palácio de Buckingham, como convidada da família real, ali comia as suas refeições. Depois de um jantar frugalíssimo, como era de regra, Suggia foi dar o concerto, a meio do qual, desmaiou… de fome. Sim, que o violoncelo exige um grande dispêndio de energia! Isto é um exemplo do espírito de cidadania democrática, que, nessa altura, em muito contrasta com o que se passa nas democracias ditas populares, nas quais o povo passa a tal fome de rabo, enquanto os senhores do poder e adjacentes passam a viver em palácios sumptuários, como aconteceu, por exemplo, em Budapeste, ou em condomínios de luxo, onde nada falta. Vi isso em Moçambique, no princípio da independência, quando os Senhores do poder popular, se recusavam a beber os melhores vinhos a não ser em copos de cristal, surripiados “alfandegariamente” e “legitimamente” a portugueses que dali partiam, sem saberem para que destino e com uma mão à frente e outra atrás. E afirmavam, alto e bom som, que “tinham direito”, um direito que, curiosamente, se não estendia ao resto do povo. Isto passou e passa-se, de resto, em todas as democracias populares, sem excepção. Mas não se passava, e não por acaso, na decadente e burguesa democracia inglesa. Os regimes julgam-se por actos e decisões e não por palavreado sonoro e oco. Não há maiores depredadores do que os indivíduos cheios de razão histórica e de legitimidade ideológica. Para eles, vale tudo, até o massacre em massa dos adversários políticos, como foi o caso de um dos piores poetas que já existiram e que se chamou Agostinho Neto.”
Eugénio Lisboa, em 22.06.2022 

quinta-feira, 23 de junho de 2022

Lá , antigamente

 
Lá, as coisas tinham dimensões Índicas.
As trovoadas eram mesmo a sério.
Juro-vos que estas coisas são verídicas
e não puras balelas do império.
 
As irmãs Brontë enchiam-me as medidas
e desvairava com a Senhora de Rênal!
Eram amores que deixavam feridas,
como se fossem na vida real.
 
Na vida real, também os havia:
amei (às escondidas), a valer,
uma menina que quase não via!
 
E dava-me um enorme apetecer,
vê-la, chegada, airosa, da Manhiça,
linda e amorosa comigo. Chiça!
                               23.06.2022
Eugénio Lisboa

Dois anos, Lana!

 

Um homem da povoação de Neguá, na costa da Colômbia, conseguiu subir às alturas do céu.

À volta, contou. Disse que, lá de cima, contemplara a vida humana. E disse que éramos um mar de foguinhos.(...)

Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não há dois fogos iguais. Há fogos grandes, fogos pequenos e fogos de todas as cores.

                                         Eduardo Galeano, O Livro Dos Abraços



Lana é a minha neta mais nova. Faz hoje dois anos. É um ser ainda pequenino , dotado de uma grande história. Uma história que, se fosse vista das alturas, não teria o brilho que ela merece. Tudo isso se deve a uma circunstância que lhe é estranha. Nasceu num tempo empestado pela pandemia. E vive agora num mundo massacrado por uma guerra. A Lana não sabe disso. Apenas é capaz de verificar que também há sorrisos para lá das máscaras. Descobriu-o há pouco tempo. E foi uma grande descoberta para uma menina que, sem mais,  cativa e nos prende ao seu olhar.

Linda e feliz, a Lana não percepciona o que os homens fizeram  e continuam a fazer ao mundo . O seu mundo é um mar de descobertas em construção. Não há dia que lhe escape . Tudo se conjuga para que tente um novo feito. Aprendeu a andar para poder decidir onde  quer chegar. Verborreia enquanto discursa para nos  fazer entender que sabe o que quer.  Observa e reflecte a seu modo para mimetizar o que concluiu. 

É assim a Lana. Entrou nas nossas vidas há dois anos. E nada foi mais o mesmo. Se a aprendizagem se medisse , era ela quem venceria. Ensinou-nos vida e fez-nos aprender que há sempre um depois  , um  novo amanhã que desconhecemos. Um futuro que se encheu de muita cor que só ela sabe escolher. Talvez  a vida seja apenas isso:  amar incondicionalmente um ser que nos chega em tempo de adversidade para transformar os nossos dias. 

A Lana não o sabe ainda. Mas se de lá de cima o mundo é um mar de foguinhos, ela é aquele que tem todas as cores.

Parabéns, querida Lana.

quarta-feira, 22 de junho de 2022

O sentido que tudo tem

 
 
Fazer sentido faz algum sentido?
Se faz sentido, que sentido faz?
Será o sentido por nós pretendido?
De que será tal sentido capaz?
 
Fazer sentido não é ter mentido?
Todo o sentido que nós fabricamos,
mesmo o sentido muito sentido,
não será ilusão que alimentamos?
 
Um sentido bem cheio de sentido
é o sentido que a realidade tem?
Ou é só um sentido concebido
 
e que fica, do sentido, aquém?
Passo a vida a querer um sentido
e cada vez me sinto mais perdido!
                                    22.06.2022
Eugénio Lisboa

On the Nature of Daylight

   

On the Nature of Daylight, de  Max Richter , pela  Camerata Nordica, no  Borgholm Castle. 
Violin: Colin Scobie, Cédric Robin. Viola: Vladimir Percevic. Cello :Sabina Sandri-Olsson, Zéphyrin Rey-Bellet. Double bass: Zéphyrin Rey-Bellet. DoP: Matthew Gormly. 
Drone: Gormly/Rey-Bellet. Director: Jackson Walton .Sound production: Zephyrin Rey-Bellet.  Filmed in Borgholm Slott ,  March 2022.

terça-feira, 21 de junho de 2022

Um novo dia

UM NOVO DIA
 
Cada dia que em nós amanhece
devia ser o mundo a começar:
belezas que ainda se não conhece
e estão ali para nos deslumbrar.
 
Descobrirmos uma nova inocência,
de Adão e Eva no Paraíso:
redescobrir, da maçã, a ciência,
com todo o ardor que é preciso.
 
Reaprender o mar e a grande praia,
o gozo grande de andar quase nu,
os prazeres novos que se ensaia,
 
com outros condimentos no menu.
Redescobrir um mundo tão complexo
é tão bom como descobrir o sexo.
                                  21.06.2022
Eugénio Lisboa

O pesadelo de Estaline

O conto , que se vai apresentar, foi extraído   de uma  magnifica obra de Bertrand Russell - "Contos".  A  Terceira Parte   dessa obra  é dedicada    a uma curiosa 
 série  de textos que   tem como título "Pesadelos". Estas histórias foram  publicadas pela primeira vez sob o título de Nigtmares of Eminent Persons and Other Stories, em 1954 por The Bodley Head.
Russell  antecede-as com a seguinte introdução:
" Os Pesadelos que se seguem podem chamar-se Indicações para a Saúde Mental. Cada paixão isolada é, no seu isolamento, insana; a sanidade mental pode definir-se como uma síntese de insanidades. Cada paixão dominante gera um pesadelo ,  por vezes na forma de um explícito  e consciente fanatismo, por vezes numa timidez paralisante, por vezes num  inconsciente ou subconsciente terror que só encontra expressão em sonhos. O homem que deseje conservar a sanidade mental num mundo perigoso deve despertar no seu próprio espírito um Parlamento de receios em que cada um por sua vez  seja decretado absurdo por todos os outros. Os que sonharam os pesadelos que se seguem não adoptaram esta técnica; esperemos que o leitor tenha mais juízo." 
Bertrand  Russell, in Contos , Parceria A. M. Pereira, Lda. , 1973, p 309

O pesadelo de Estaline 
( Escrito antes da morte de Estaline)

Amor vincit omnia
por Bertrand Russell
" Estaline depois de muitos tragos de vodka  misturados com pimenta vermelha, adormeceu na sua cadeira. Molotov, Malenkov e Beria, com os dedos sobre os lábios, avisaram familiares intrusos para não interferirem no repouso do grande homem. Enquanto eles o vigiavam, Estaline teve um sonho, e o que sonhou é o que se segue: 

A Terceira Guerra Mundial realizara-se e fora perdida. Estaline era cativo dos Aliados Ocidentais. Mas estes , tendo observado  que os julgamentos  de Nuremberg geravam simpatia  pelos nazis , decidiram desta vez adoptar um plano diferente : entregaram Estaline a uma delegação de Quakers eminentes  que afirmaram que mesmo ele,  pelo poder do amor, podia ser levado ao arrependimento e à vida de um cidadão decente.
Foi decidido que, até o seu trabalho espiritual estar completo, as janelas do quarto de Estaline  deviam ser reforçadas com grades , não fosse ele tornar-se  culpado de um acto temerário , e não se lhe devia permitir o uso de facas, não fosse ele, numa fúria, atacar as pessoas interessadas na sua regeneração . Instalaram-no confortavelmente em duas salas de uma velha casa de campo, mas com as portas fechadas à chave, excepto durante  uma hora  do dia  quando, em companhia de quatro musculosos Quakers, era levado para um passeio rápido em que o encorajavam a admirar as belezas  da natureza e a gozar o canto da cotovia. Durante o resto do dia podia ler e escrever , mas não lhe consentiam nenhuma literatura que fosse considerada inflamatória. Deram-lhe a Bíblia, o Pilgrim's Progress e Uncle Tom's Cabin. E uma vez ou outra, como presente, os romances de Charlotte M. Yonge. Não tinha tabaco , nem álcool, nem pimenta vermelha. Cacau podia tomar a qualquer hora do dia ou da noite, visto o mais eminente dos seus guardiães ser fornecedor dessa bebida inocente. Chá e café permitiam-lhe moderadamente, mas não em quantidades que interferissem com o repouso nocturno.
Pelo espaço de uma hora , de manhã e à tardinha, os graves  cavalheiros  a cujo cuidado Estaline  tinha sido entregue explicavam-lhe os princípios da caridade cristã e a felicidade que ele podia ainda gozar se reconhecesse a sua sabedoria. A tarefa das discussões recaiu em especial em três homens  contados entre os mais sábios que esperavam trazê-lo à luz.  Esses homens eram Mr. Tobias Toogood , Mr. Samuel Swete e Mr. Wilbraham Weldon.
Estaline conhecera esses homens nos dias  da sua grandeza . Não muito antes de rebentar a Terceira Guerra Mundial, eles tinham viajado até Moscovo para o acusar e se esforçarem por o convencer dos seus erros.  Falaram-lhe de benevolência universal e amor cristão. Referiram-se em termos inflamados às alegrias da mansidão, e tentaram convencê-lo de que havia mais felicidade em ser amado do que em ser temido. Durante um tempo Estaline escutou-os com uma paciência fruto do espanto, e depois exclamou:
- O que é que os senhores sabem das alegrias da vida? - a sua voz trovejava. - Como conhecem pouco do prazer intoxicante  de dominar toda uma nação pelo terror, sabendo que quase toda a gente nos deseja a morte  e que ninguém a pode executar , sabendo que os nossos inimigos do mundo inteiro estão comprometidos em tentativas fúteis para adivinhar os nossos pensamentos secretos, sabendo que o nosso poder há - de sobreviver ao extermínio não só dos nossos inimigos mas também dos nossos amigos! Não, cavalheiros, a maneira de viver que me oferecem não me atrai. Regressem às vossas velhas pretensões de lucro doiradas de fingida piedade, e deixem-me com a minha mais heroica maneira de viver.
Os Quakers, frustrados de momento, voltaram à pátria a esperar uma oportunidade melhor. Estaline, derrotado e no seu poder, talvez se mostrasse mais tratável. Mas por estranho que parecesse, ele continuava teimoso. Eram homens com muita prática  de delinquência juvenil, de desenredar complexos  e de os guiar, com gentil persuasão, à crença de que a honestidade é a melhor política.
- Mr. Estaline - disse Tobias Toogood - esperamos que compreenda agora a loucura de vida a que até aqui aderiu. Já não falo na desgraça que trouxe ao mundo, porque isso o senhor afirmar-me-á que pouco lhe importa. Mas medite no que fez a si próprio.   Caiu da posição mais alta para a condição de humilde prisioneiro, devendo os confortos que ainda tem ao facto de os seus carcereiros não seguirem as suas máximas.  As cruéis alegrias de que nos falou quando da nossa visita, nos dias da sua grandeza, já não são suas. Mas se derrubar a barreira do orgulho, se se arrepender, se aprender  a encontrar a felicidade  dos outros, talvez ainda tenha algum contentamento tolerável e algum objectivo para o resto dos seus dias.
Nesta altura, Estaline pôs-se de pé  de um salto, exclamando:
- Vá para o diabo, seu hipócrita ranhoso. Não compreendo nada do que diz, se  não que você está em cima e eu à sua mercê, e que você achou maneira  de insultar a minha infelicidade  de um modo mais irritante e mais humilhante do que tudo quanto inventei nos meus castigos.
- Oh, Mr. Estaline - disse Mr. Swete - como pode ser tão injusto e tão maldoso? Não vê que nós só temos para consigo as mais benevolentes atenções? Não vê que lhe desejamos salvar a alma, e que deploramos a violência  e o ódio que promoveu entre os seus amigos? Não desejamos  humilhá-lo, e pudesse o senhor ao menos apreciar a grandeza terrena no seu verdadeiro valor, e veria que é um escape à humilhação que lhe estamos a oferecer.
- Isto é realmente de mais - gritou Estaline . - Quando era pequeno, escutava conversas dessas no meu seminário georgiano, mas não é conversa que um homem crescido possa escutar com paciência. Quem me dera acreditar no Inferno, que ficaria à espera do prazer de ver a vossa suavidade dissipada pelas chamas abrasadoras.
- Oh, que vergonha, meu caro Mr. Estaline! - disse Weldon. - Não se excite , porque é só através da calma que atingirá a sabedoria do que lhe estamos a tentar mostrar.
Antes que Estaline pudesse retorquir, Mr. Toogood interveio mais uma vez:
- Estou certo, Mr. Estaline, de que um homem com a sua inteligência não pode ficar para sempre cego à verdade , mas, de momento, está cansado e sugiro que uma calmante chávena de cacau talvez seja melhor para si do que o chá indevidamente estimulante que tem estado a beber.
Estaline não se pode conter por mais tempo . Pegou no bule  e atirou-o à cabeça de Mr. Toogood. O líquido escaldante caiu-lhe pela cara abaixo, mas Mr. Toogood disse apenas:
- Bem, bem , Mr. Estaline, isso não é argumento. 
Num paroxismo de raiva, Estaline acordou. Por um instante a raiva continuou , e Estaline descarregou-a sobre Molotov, Malenkov e Beria, que estremeceram pálidos. Mas conforme as nuvens do sono se afastaram, a raiva evaporou-se, e Estaline confortou-se com um longo gole de vodka e pimenta vermelha."
Bertrand Russell,  in Contos , Parceria A. M. Pereira, Lda. , 1973, pp. 365 - 368