quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Paraliteratura?

Num tempo em que muitos dos escaparates de algumas Livrarias e das grandes superfícies comerciais exibem os livros escalonados pela quantidade de exemplares vendidos, os célebres top 10 ou top 20, interrogamo-nos, com excessiva estranheza, por que não figuram outros autores e outros livros. Os escritores, que admiramos, estão expostos em estantes  mais discretas. Obrigamo-nos a procurá-los num lugar mais recôndito da Livraria.
Por que razão se destacam os livros por esse critério? Será que ser conhecido socialmente dá notoriedade e grandeza a uma escrita? Terá a máquina publicitária  a capacidade de transformar um   informe registo escrito num best seller? 
Há um leque de livros cujos autores são figuras dos Media, desportistas, videntes, figuras do  denominado  jet set, etc. Os livros que produzem apostam na exposição mediática dos seus autores. Que tipo de serviço prestam as Editoras publicando estes livros? Servirão a Cultura? Defenderão a Literatura ou olharão apenas para os próprios interesses comerciais  tendo como finalidade primeira o  aspecto económico, o lucro?
Propusemo-nos abordar este conceito de texto escrito a que  chamam Paraliteratura. Para o efeito, consultámos o Dicionário de termos literários. 
PARALITERATURA
"Termo com que se designam todas as formas não canónicas de literatura (auto-ajuda, folhetins romanescos, literatura cor-de-rosa, romance ultra-light, literatura de cordel, literatura oral e tradicional, banda desenhada, literatura marginal, pornográfica, policial e popular, etc.) que em regra não são aceites por certos eruditos, certas instituições académicas ou certos meios de comunicação. A vantagem da designação paraliteratura (em vez de infraliteratura) reside no tom não depreciativo que o prefixo para- tem, uma vez que remete para tudo aquilo que fica na margem de e não necessariamente tudo aquilo que não entra na categoria de um clássico, por exemplo. Também não fica garantido que um género paraliterário não se torne numa dada época um género maior de literatura. Os géneros principais (romance, textos de poesia e textos de teatro) não foram géneros maiores em todas as épocas. O que permanece hoje é a ideia de que todo o texto que se refugie numa categoria não convencional é porque pertence a um género marginal de literatura a que convém então o nome de paraliteratura. O problema é que muitas vezes esta classificação resulta da aplicação arbitrária de um critério de qualidade que não corresponde inteiramente ao rigor de uma classificação científica. Um romance policial, por exemplo, pode ter grande qualidade, pode ser uma obra-prima e pode rivalizar com qualquer outro tipo de romance no que respeita ao domínio das mais apuradas técnicas literárias. Ora, daqui se infere que atribuir a todos os romances policiais a categoria de paraliteratura pode ser uma atitude redutora e ideologicamente reprovável. Esta designação corre os mesmos riscos de todas as sub-classificações do texto literário que estão à mercê do juízo de comunidades de leitores. Por outro lado, pode-se argumentar que o que faz a literatura ser maior ou menor não é o juízo do leitor, porque a obra em si mesma transporta uma literariedade que é incompatível com juízos de valor subjectivos. Qualquer adversário da estética da recepção defenderá esta posição. Como a realidade nos mostra que muitas vezes a literatura existe enquanto for entendida como produto de difusão, desprezar o papel do leitor na decisão do que deve ser literatura e o que deve ser paraliteratura pode ser inconsequente. O caso da ficção científica pode ser pertinente: o género fixou-se de tal forma como espaço literário autónomo e perfeitamente resguardado de preconceitos em relação à sua índole literária que se torna difícil aceitar hoje que se trate de paraliteratura como sempre foi visto."
Carlos Ceia: s.v. “Paraliteratura", E-Dicionário de Termos Literários (EDTL), coord. de Carlos Ceia
Bibliografia:
Alain-Michel Boyer: La Paralittérature (1992); Bernard MOURALIS, As Contraliteraturas (Coimbra, 1982); Daniel Couégnas: Introduction à la paralittérature (1992); Myrna Solotorevsky: Literatura¾Paraliteratura: Puig, Borges, Donoso, Cortazar, Vargas Llosa (1988); Marc Angenot et al.: La Paralittérature: textes (1974); Noel ARNAUD, Francis Lacassin e Jean Tortel (dir.), Entretiens sur la paralittérature (1970).

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Há lugares onde o espírito morre

"Eu tinha dois ou três anos, tenho agora sessenta, e o apelo da luz é o mesmo, como se dela tivesse nascido e só a ela não pudesse deixar de regressar. Entre o primeiro crepúsculo e o último, sempre o corpo todo se deixou penetrar por esse ardor que se fazia carícia na parte mais diáfana e imponderável do ser, e a que, se não lhe chamarmos luz também, não saberemos nunca que nome dar."
20.11.85
Eugénio de Andrade, in Vertentes do Olhar (1987)
"Há lugares onde o espírito morre a fim de que nasça uma verdade que é a sua própria negação. Quando estive em Djemila, havia vento e sol, mas isso é outra história. O que é preciso dizer, em primeiro lugar, é que ali reinava um vasto silêncio, pesado e compacto – algo semelhante ao equilíbrio de uma balança. Pios de pássaros, o som da flauta de três orifícios, um patear de cabras, rumores que vinham do céu e outros tantos ruídos compunham o silêncio e a desolação desses lugares.
(...) Por esse árido esplendor andáramos a vagar o dia inteiro. Pouco a pouco, o vento, que mal se percebia no inicio da tarde, pareceu-nos crescer com o passar das horas e ocupar novamente toda a paisagem. Soprava de uma abertura entre as montanhas longínquas, a leste, chegava apressado do fundo do horizonte e vinha cabriolar em cascatas por entre as pedras e o sol. Sem parar, zunia com força através das ruínas, girava num circo de pedras e de terra, banhava os montões de blocos devastados pelo granizo, envolvia cada uma das colunas com seu sopro e depois ia derramar-se com gemidos incessantes sobre o foro que se abria ao céu.
Sentia-me estalar ao vento como os mastros de um navio. Esvaziado pela metade, os olhos a arderem e os lábios crestados, minha pele secava a um ponto tal que não mais me pertencia. Antigamente, graças a ela eu decifrava a escritura do mundo. Nela o vento costumava traçar os sinais de sua ternura ou de sua cólera, aquecendo-a com seu hálito de verão ou mordendo-a com seus dentes de gelo. No entanto, tão longamente roçado pelo vento, sacudido durante mais de uma hora e aturdido de tanto resistir, acabei por perder a consciência do contorno do meu próprio corpo.
Tal um seixo polido pelas marés, assim estava eu, polido pelo vento, desgastado até a alma. Sentia-me parcela daquela força que me fazia oscilar; cada vez uma parte maior dela; até que finalmente eu era essa própria força, confundindo as pulsações do meu sangue com as grandes batidas sonoras do coração omnipresente da natureza.
(...) Logo, difundido pelos quatro cantos do mundo, descuidado, esquecido de mim mesmo, sou este vento e, no vento, estas colunas e este arco, estas lajes que exalam calor e estas montanhas pálidas que circundam a cidade deserta. E jamais senti com tanta intensidade, e a um só tempo, o desprendimento de mim mesmo e a minha presença no mundo."
Albert Camus,in  Núpcias, O Verão, Círculo do Livro

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

E começo aqui...

"e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa não é a viagem mas o começo da por isso meço por isso começo escrever mil páginas escrever milumapáginas para acabar com a escritura para começar com a escritura para acabarcomeçar com a escritura por isso recomeço por isso arremeço por isso teço escrever sobre escrever é o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em milumanoites miluma-páginas ou uma página em uma noite que é o mesmo noites e páginas mesmam ensimesmam onde o fim é o comêço onde escrever sobre o escrever é não escrever sobre não escrever e por isso começo descomeço pelo descomêço desconheço e me teço um livro onde tudo seja fortuito e forçoso um livro onde tudo seja não esteja um umbigodomundolivro um umbigodolivromundo um livro de viagem onde a viagem seja o livro o ser do livro é a viagem por isso começo pois a viagem é o começo e volto e revolto pois na volta recomeço reconheço remeço um livro é o conteúdo do livro e cada página de um livro é o conteúdo do livro e cada linha de uma página e cada palavra de uma linha é o conteúdo da palavra da linha da página do livro um livro ensaia o livro todo livro é um livro de ensaio de ensaios do livro por isso o fim-comêço começa e fina recomeça e refina e se afina o fim no funil do comêço afunila o comêço no fuzil do fim no fim do fim recomeça o recomêço refina o refino do fum e onde fina começa e se apressa e regressa e retece há milumaestórias na mínima unha de estória por isso não conto por isso não canto por isso a nãoestória me desconta ou me descanta o avesso da estória que pode ser escória que pode ser cárie que pode ser estória tudo depende da hora tudo depende da glória tudo depende de embora e nada e néris e reles e nemnada de nada e nures de néris de reles de ralo de raro e nacos de necas e nanjas de nullus e nures de nenhures e nesgas de nulla res e nenhumzinho de nemnada nunca pode ser tudo pode ser todo pode ser total tudossomado todo somassuma de tudo suma somatória do assomo do assombro e aqui me meço e começo e me projeto eco do comêço eco do eco de um começo em eco no soco de um comêço em eco no oco de um soco no osso e aqui ou além ou aquém ou láacolá ou em toda parte ou em nenhuma parte ou mais além ou menos aquém ou mais adiante ou menos atrás ou avante ou paravante ou à ré ou a raso ou a rés começo re começo rés começo raso começo que a unha-de-fome da estória não me come não me consome não me doma não me redoma pois no osso do comêço só conheço o osso o osso buço do comêço a bossa do comêço onde é viagem onde a viagem é maravilha de tornaviagem é tornassol viagem de maravilha onde a migalha a maravilha a apara é maravilha é vanilla é vigília é cintila de centelha é favilha de fábula é lumínula de nada e descanto a fábula e desconto as fadas e conto as favas pois começo a fala.
Haroldo de Campos, in fragmento 1 - Canto galático do livro "Galáxias". São Paulo: Editora 34, 2004.

Cantar em português


domingo, 18 de setembro de 2016

Ao Domingo Há Música

                 
                               Tu perguntas , e eu não sei, 
                                eu também  não sei o que é o mar.
                                (...)
                                Às vezes o mar é uma figura branca
                                cintilando entre os rochedos 
                                Não sei se fita a água
                                ou se procura
                                um beijo entre conchas transparentes.
                                Eugénio de Andrade, "Mar, Mar e Mar"

Setembro é o mês que anuncia uma outra época  . Um mês que retoma o curso do quotidiano laboral e  prepara o Outono.
O mar é a reminiscência dos dias de lazer ou das noites de folia para quem o não tem no horizonte.
Vê-lo é sempre uma nova descoberta.
Ei-lo  nos belissimos acordes  de Ernesto Cortazar , em "When The Waves Dance", uma composição da sua autoria que integra o Álbum "Blue Waters".

sábado, 17 de setembro de 2016

"O Bailado" por Teixeira Pascoais

O Bailado por Teixeira Pascoais

Rapidamente quero aqui anunciar  o admirável livro em prosa O Bailado, que o grande poeta Teixeira Pascoais  acaba de publicar. Mais tarde voltarei a ocupar-me desenvolvidamente da sua obra extraordinária de poeta e da sua concepção profunda da vida.
Teixeira Pascoais  quase se despiu de palavras e reduziu a sua arte à condição de fantasma. À primeira vista nem se dá por ele. Tem a sua hora, mas nessa hora  as coisas que ele nos diz baixinho, e que no tumulto passaram desapercebidas, atingem o fundo dos fundos. Nenhum outro poeta português tem como ele o sentido trágico da vida.
A história duma alma, as dedadas com que a vida vai modelando uma alma , com dor  ou com riso - outro riso...- eis o que é em síntese este livro O Bailado . "Que fantástica  dor dramatiza  um velho caminho",  escreve algures o poeta. Pois este livro é também um caminho cheio de fantasmas, onde ele deixou impressas as suas pegadas. O chão ficou dorido. Livro profundo como a vida , porque é a mesma vida. " Por mais que rias e gracejes,  caro leitor e amigo,  lá no fundo, bem no fundo, és a tristeza , o medo e a morte... Talvez todos os homens pudessem escrever um livro extraordinário, fazendo a história  da sua alma, mas só aos Poetas é dado ouvi-la e , através dela, interpretarem o universo - a tristeza, o medo e a morte..."
Raul Brandão, in Seara Nova, 14 de Janeiro de 1922, p. 166

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Cartão de aniversário a meu pai

Meu querido pai
Partiste há tanto tempo.  Que falta me fazes. Há em mim  a memória de ti. Como tudo se iluminaria se ainda te pudesse ouvir.  Nem sempre me chega  o som da tua voz. Perde-se na distância que te retém,  ficando apenas o silêncio das palavras que me dizias .  Quando te  recupero, revejo-te inteiro na figura do pai que sempre foste. Aquele que permanecia presente apesar de tanta vida a separar-nos. Sabia-te para mim desde aquele contrato primeiro que estabeleceu  a minha existência. Eras a minha paternidade . Viva e imprescindível.  Viste-me crescer. Fomos amigos  e irmãos de muitas cumplicidades. Não sei quantas vezes me admoestaste  ou exigiste que me superasse. Sei apenas que te amava e que nunca permitiste que a saudade nos apagasse. 
Vivi longe de ti, quando a vida me fez construir uma outra. Uma lonjura que reduzias. Chegavas sem que nada te impedisse. E tantas eram as palavras que a celebração era uma festa continuada num tempo sem partida.
Que falta me fazes, pai.  Nunca abdiquei de ti. Partiste. Deixaste-me. Tudo tem sido tão diferente sem ti. Há uma ausência que se veste todos os dias de saudade. 
Saudade  que  dói quando se enforma do vazio da tua presença real, do teu jeito de estar. Saudade que  aquece quando se faz no calor doce de uma memória de afectos e da segurança de uma personalidade forte que me  marcou indelevelmente.
Saudade que me chega mais intensa neste dia do teu aniversário. Sempre o festejaste. Enchias o dia com essa celebração. Preparada com rigor, era um dos grandes acontecimentos familiares. E o sorriso  brilhava nos teus olhos. Estavas feliz entre e com os teus. 
Parabéns, pai. Sorri . Estou contigo. Certamente os outros estão quase a chegar.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Zorba the greek

Anthony Quinn, em  " Zorba the greek," um filme de 1964 de Michael Cacoyannis, um cineasta grego , nomeado por cinco vezes   para os prémios da Academia ,( Oscares) . Distinguido  com  outros prémios, foi um dos cineastas gregos mais premiados da história. Michael Cacoyannis foi também o responsável pela remontagem na Broadway, em 1983, de um musical baseado neste  filme. Morreu em 25 de Julho de 2011, aos 89 anos, em Atenas, Grécia. O filme foi a adaptação ao cinema do romance Zorba the greek ou Life and Adventures of Alexis Zorbas"  da autoria do escritor grego Nikos Kazantzakis , publicado pela primeira vez em 1946, na Grécia.