sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A 16 de Janeiro de 1605 ...


16 de Janeiro de 1605, publicada em Madrid a obra de Miguel Cervantes , “Dom Quixote “
"Em 16 de Janeiro de 1605, Miguel de Cervantes, então próximo dos 60 anos, publicou em Madrid a primeira parte de O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha. Naquele dia, os romances de cavalaria e a mentalidade medieval como um todo receberam um golpe mortal. No livro, que é considerado a obra fundadora da literatura espanhola, Cervantes narra a saga de um nobre que sonhava com aventuras incríveis de cavalaria mas não conseguia ver a miséria da realidade que o cercava.
A história começa num  vilarejo da região de Castela-La Mancha, vasta planície localizada ao sul da capital espanhola, Madrid. Ali, vivia um Alonso Quijano, também escrito Alonso Quixano, o verdadeiro nome do fidalgo D. Quixote, tão apaixonado por romances de cavalaria que perdeu o juízo. Certo dia, abandonou a sobrinha, a governanta e os empregados domésticos e partiu, montado num cavalo  de nome  Rocinante, armado unicamente com uma espada e tendo sobre a cabeça uma bacia de fazer a barba como capacete. Providenciados o cavalo e  a armadura, resolve lutar para provar o seu amor por Dulcineia de Toboso, uma mulher imaginária. 
Quixote mistura fantasia e realidade, como se estivesse  num romance de cavalaria. Transforma obstáculos banais (como moinhos de vento ou ovelhas) em gigantes e exércitos de inimigos.
Inspirado por alucinações, Quijano tomou uma estalagem por castelo, onde se fez armar cavaleiro. Acabou convencendo o seu ambicioso vizinho, Sancho, a se tornar seu escudeiro. Tendo cismado em defender os pobres e oprimidos, não faltariam a ele aventuras reais ou imaginárias: lutar contra moinhos de vento, libertar presos das galés e fazer penitência na cordilheira de Serra Morena. 
É derrotado e espancado inúmeras vezes, sendo batizado de "Cavaleiro da Fraca Figura", mas sempre se recupera e insiste nos seus objetivos.
Só volta para casa quando é vencido em batalha por outro cavaleiro e forçado a abandonar a cavalaria. Longe da estrada, fica doente e acaba morrendo. Nos seus momentos finais, recupera a consciência e pede perdão aos seus amigos e familiares.
O encanto da obra nasce do descompasso entre o idealismo do protagonista e a realidade na qual ele actua. Cem anos antes, Quixote teria sido um herói a mais nas crónicas ou romances de cavalaria, mas  enganara-se no século. A sua loucura residia no anacronismo. Isso permitiu ao autor fazer uma sátira de sua época, usando a figura de um cavaleiro medieval em plena Idade Moderna para retratar uma Espanha que, após um século de glórias, começava a duvidar de si mesma.
No capítulo VIII do livro, há um episódio emblemático em que Dom Quixote, ao chegar a uma planície, confunde cerca de trinta moinhos de vento com gigantes, decidindo enfrentá-los sozinho. Sancho, o  seu escudeiro, ainda tenta alertá-lo da ilusão, mas Quixote insiste e parte para o ataque a um dos moinhos, sendo derrubado juntamente com o seu cavalo Rocinante por uma das pás.
Em seguida, Sancho vai ao socorro do seu mestre e  questiona-o  sobre como pôde cometer tamanho engano. Quixote responde, insistindo na ilusão, que aquilo era obra do mago Friston, que tinha transformado os gigantes em moinho para impedir a sua glória.
Esse episódio é a origem da expressão "lutar contra moinhos de vento", que acabou por se tornar um termo universal, usado até hoje para descrever situações onde se cria uma percepção errada de um adversário ou de um cenário. O que poderia ser um mero moinho de vento pode ser erradamente ampliado em algo gigantesco, surreal. Traduzindo isto para os tempos modernos, todos nós devemos saber escolher as batalhas que merecem o nosso tempo e a nossa energia. Talvez a chave seja ser um pouco mais como o Sancho Panza e menos como o “cavaleiro da triste figura”, e compreender o que faz andar a mó do moinho.

— A aventura vai encaminhando os nossos negócios melhor do que o soubemos desejar; porque, vês ali, amigo Sancho Pança, onde se descobrem trinta ou mais desaforados gigantes, com quem penso fazer batalha, e tirar-lhes a todos as vidas, e com cujos despojos começaremos a enriquecer; que esta é boa guerra, e bom serviço faz a Deus quem tira tão má raça da face da terra.
— Quais gigantes? — disse Sancho Pança.
— Aqueles que ali vês — respondeu o amo — de braços tão compridos, que alguns os têm de quase duas léguas.
— Olhe bem Vossa Mercê — disse o escudeiro — que aquilo não são gigantes, são moinhos de vento; e os que parecem braços não são senão as velas, que tocadas do vento fazem trabalhar as mós.

Dom Quixote é considerada a grande criação de Cervantes. O livro é um dos primeiros das línguas europeias modernas e é considerado por muitos o expoente máximo da literatura espanhola, apontado como o primeiro romance moderno, tendo influenciado várias gerações de autores que se seguiram. 
As suas personagens parecem ter pulado do livro para o imaginário contemporâneo, sendo representadas através de diversos meios (pintura, poesia, cinema, música, entre outros)
Em princípios de Maio de 2002, o livro foi escolhido como a melhor obra de ficção de todos os tempos. A votação foi organizada pelo Clubes do Livro Noruegueses e participaram escritores de reconhecimento internacional."
Fonte "Cais da Memória" e outros.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Quem foi Nostradamus ?

Michel de Nostredame, famosamente conhecido como Nostradamus,
 retratado numa xilogravura de 1810, da autoria de Charles Canivet.
INTERFOTO / Alamy Stock Photo.

Quem foi Nostradamus – e por que razão as suas previsões ainda nos entusiasmam?
por Erin Blakemore
"Muito antes das teorias do TikTok, Michel de Nostredame cativou a Europa com as suas previsões assustadoramente precisas. Aqui está a história do médico da peste, cuja vida foi tão interessante quanto as suas profecias.
Michel de Nostredame, famosamente conhecido como Nostradamus,  médico e astrólogo francês é famoso pelas suas profecias, mas muitas delas são vagas e abertas a interpretações.
O que nos reserva o futuro… e como acabará o mundo? São perguntas tentadoras – para as quais, há muitos séculos, o médico e autoproclamado profeta Nostradamus sempre afirmou conhecer as respostas. As suas famosas previsões eram desde confusas a assustadoras e os seus acólitos acreditam que algumas delas, feitas no século XVI, ainda hoje se aplicam. As suas alegadas profecias para 2025 incluíram guerras longas, uma peste e uma bola de fogo que poderia destruir a Terra.
Com efeito, Nostradamus é tão conhecido pelas suas previsões que o seu nome é mencionado em 1672 num dos primeiros usos documentados da palavra “prognosticação” em língua inglesa.
Mas o homem que alguns consideram um profeta não era um ser divino. Era um médico, ervanário e autor de carne e osso, cujas previsões ousadas o tornaram conhecido na tumultuosa Europa renascentista. Apresentamos-lhe Michel de Nostradame, mais conhecido como Nostradamus.
Quem foi Nostradamus?
Michel de Nostradame nasceu em Saint-Rémy-de-Provence, em França, em Dezembro de 1503. (Os historiadores discordam quanto à data exacta.) Os seus pais eram o filho de um notário e a filha de um proeminente médico local. Nostradame casou-se duas vezes durante a vida e teve oito filhos.
A França renascentista, como o resto da Europa, esteve imersa em conflitos religiosos durante o seu tempo de vida e isso exerceu um impacto considerável no jovem Nostradame. A sua família era judaica, mas converteu-se ao catolicismo quando a Provença se tornou parte do Reino de França em 1486. Embora os judeus tivessem um longo passado na região, no final do século XV, as autoridades disseram-lhes que, ou se convertiam, ou seriam expulsos, por isso, Michel foi criado como católico.
O jovem Nostradame estudou latim, grego, hebraico e medicina antes de frequentar a Universidade de Avinhão, ainda durante a adolescência. Terminou o bacharelato em medicina na década de 1520, embora a sua faculdade tenha encerrado devido à peste bubónica, enquanto ele ainda era aluno.
Médico da peste e a inquisição
Depois de concluir os seus estudos formais, Nostradame passou algum tempo a viajar por França para estudar plantas medicinais e tratar vítimas da peste, uma das doenças mais temidas da época.
Os historiadores acham que ele foi expulso da Universidade de Montpellier, onde estudou em seguida, por ter praticado o ofício “manual” de ervanário, e discordam quanto à possibilidade de ele ter regressado para terminar o doutoramento.
Praticar medicina na França renascentista significava tratar doenças como a peste. No entanto, a medicina da época também envolvia práticas actualmente consideradas não-científicas, como alquimia, astrologia e profecia. Estas práticas não conseguiram salvar a mulher de Nostradamus, cujo nome se perdeu no tempo, nem os seus dois filhos. Morreram na década de 1530, provavelmente de peste. 
Devastado, o médico também enfrentava outros problemas. Em 1538, foi ouvido a condenar a execução de uma estátua religiosa – palavras que lhe valeram uma acusação de heresia e o levaram a ser arrastado e apresentado à Inquisição em 1538. Uma acusação de heresia teria destruído a sua reputação localmente e uma condenação significaria execução. Contudo, o tribunal absolveu-o e ele voltou a viajar, especializando-se no tratamento da peste.
Alguns dos remédios de Nostradame parecem ter funcionado, pois ele foi sempre encontrando trabalho. O sucesso de alguns dos seus remédios dependia, possivelmente, de práticas de higiene como recomendar beber água potável. Outros, como os seus comprimidos de rosas, baseavam-se no uso de ervas e flores. A sua prática poderia também envolver alquimia, astrologia e outras práticas esotéricas actualmente consideradas não-científicas. No entanto, os seus pacientes ficaram suficientemente satisfeitos com os resultados para espalharem palavra sobre as suas competências. Científicos ou não, os métodos utilizados pelo médico para tratar a peste tornaram-no conhecido em França ao longo da década seguinte – e tanto o seu trabalho, como a sua obra escrita, começaram a ganhar fãs em sítios importantes.
As previsões poéticas de Nostradamus
O médico e astrólogo francês, cujo nome foi amplamente latinizado como Nostradamus, começou a escrever almanaques anuais na década de 1550, baseados na sua suposta “habilidade” de fazer previsões acertadas sobre os eventos e as condições meteorológicas do ano seguinte. Estas publicações, baratas e populares, tornaram-se conhecidas pelos seus prognósticos poéticos e apresentaram Nostradamus a um público mais vasto.
A fama de Nostradamus conquistou-lhe alguns clientes de estatuto elevado, ansiosos por uma previsão pessoal e política. Em 1555, ele previu que um “jovem leão” – designação que se pensava ser um código alusivo ao brasão de armas do rei Henrique II de França— morreria em combate e, no ano seguinte, a rainha de França, Catarina de Médici, e o seu filho, Charles IX, visitaram o profeta.
Quando Henrique II morreu efectivamente no dia 10 de Julho de 1559, devido a um ferimento sofrido num torneio de justa, o acontecimento gerou aquilo a que o historiador Denis Crouzet chamou“uma sensação de catástrofe iminente”.
A linguagem vaga e floreada do médico protegia-o a si próprio e à pessoa no centro da profecia de erros, humilhação e acusações de charlatanismo, contribuindo para a sua reputação e mistério ao longo do tempo. Como Michelle Pfeffer, da Universidade de Oxford, escreveu para The Conversation, a astrologia e a prognosticação eram comummente praticadas na altura e particularmente populares entre as elites.
Naquela época, a Europa já era dominada por conflitos religiosos e sociais, à medida que a Reforma ia criando tensões entre católicos e protestantes, a desigualdade social causava agitação e as profecias e os boatos chamavam a atenção do público. Muitas destas divergências deram lugar a conflitos, incluindo guerra civil, durante a vida de Nostradamus.
Criticado por católicos e protestantes, Nostradamus defendia as suas profecias, publicando um grande livro cheio delas e continuou a publicar os seus populares almanaques, mesmo depois de ser preso durante um curto período por publicar o seu trabalho sem autorização da igreja. Morreu no dia 1 de Julho de 1566, provavelmente de gota. Os historiadores e o público discutiram sobre os milhares de previsões que ele fez ao longo da sua vida – e, aparentemente, validaram-nas – desde então.
O que Nostradamus previu — e o que aconteceu de verdade
Embora a aparente previsão de Nostradamus sobre a morte de Henrique II lhe tenha conquistado fama em vida, o seu nome persistiu graças a outras profecias que alguns acreditam ter-se concretizado.
Talvez a mais espantosa tenha sido a previsão específica de que, por volta de 1558, “O Senado (Parlamento) de Londres irá condenar o seu rei à morte”. Em 1649, aconteceu exactamente isso: Carlos I foi decapitado por traição após um conflito com o Parlamento que acabou por dar origem a uma guerra civil em Inglaterra.
“Como até os cépticos terão de reconhecer, foi uma afirmação notável”, escreveu o biógrafo Ian Wilson. Na mesma profecia, Nostradamus previu que Londres seria “incendiada por bolas de fogo em três vezes vinte mais seis”. Em 1666, ocorreu efectivamente um incêndio em Londres, destruindo enormes parcelas da cidade.
As pessoas da época não se tinham esquecido das profecias de Nostradamus – e não pararam de procurar acontecimentos que pudessem corresponder à sua concretização nos anos que se seguiram. Os fãs do médico que via o futuro atribuíram tudo desde a revolução francesa (“um casal” que resultará em “tempestade–fogo–sangue”), a ascensão de Napoleão (um imperador “porque custará bastante caro ao Império”), e a ascensão de Hitler (“o maior inimigo de toda a raça humana”) a Nostradamus.
Contudo, muitos dos seus prognósticos vagos também não se tornaram realidade e existe uma longa história de figuras políticas e culturais que reinterpretaram e até interpretaram mal Nostradamus para reforçar os seus próprios objectivos.
Alguns dos que não tiveram pudor em utilizar as profecias de Nostradamus a seu favor foram os líderes do Terceiro Reich. O propagandista Joseph Goebbels incorporou as profecias na sua propaganda, utilizando-as para semear dúvidas e angariar apoio para o esforço de guerra nazi. Nostradamus também foi invocado por grupos extremistas, tornando-se um veículo de transmissão de ideologias.
Também se atribuem a Nostradamus previsões sobre o fim do mundo, mas essa profecia ainda não se tornou realidade. Ele profetizou que, em Julho de 1999, “viria do céu um grande Rei de terror”. As suas previsões alimentaram o medo do juízo final e as preocupações com a forma como o suposto bugY2K iria afectar os sistemas informáticos aumentaram.
O astrónomo francês continua a ser interpretado, lido e estudado por pessoas interessadas em profecias e prognosticação.
Mais de 500 anos após a sua morte, Nostradamus continua a entreter e a confundir – e continua a haver muitas pessoas interessadas nas suas profecias. “A profecia continua a moldar as esperanças e os medos de indivíduos, grupos, estados e de todo mundo em relação ao futuro”, escreveu o historiador Stephen Bowd na Encyclopedia of Millennialism and Millennial Movements. Afinal, quem não quer conhecer o futuro – ou achar que é possível fazê-lo?"
Artigo publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Este nosso mundo lido por um grande poeta

Eugénio Lisboa (Maio 1930-Abril 2024)
Eugénio Lisboa lia o mundo com a sagacidade de um poeta brilhante. Registava , em poemas intemporais, a sua visão. Tem vários livros de poesia publicados. Era um poeta fecundo e, até ao final da sua vida,  nunca deixou de escrever.
Recordamo-lo sempre, com um infindo apreço a par de uma majestosa gratidão. Eis alguns poemas inéditos que retratam sublimemente este nosso tempo.


Cantiguinha de Escárnio e Maldizer

Quanto mais vivo, mais convencido fico de que este planeta
é usado por outros planetas como um asilo de alienados.
               George Bernard Shaw

Neste enorme asilo de lunáticos,
que é este planeta onde vivo,
onde se dá palco aos mediáticos,
sem nunca serem passados ao crivo,

onde as luzes são para os fanáticos,
sempre enormemente assertivos,
mesmo que sejam brutalmente asnáticos,
aldrabões e muito rebarbativos,

neste globo insano, irei morrer,
eu e mais alguns, sem culpa nenhuma,
a quem aconteceu aqui nascer

e aqui viver, como quem arruma
depressa a trouxa, para poder partir
desta bagunça que nem dá pra rir!
03.09.2023
Eugénio Lisboa

Em deslouvor das epopeias


As epopeias só celebram guerras,
matanças e cornos assinalados,
corridas tontas por plainos e serras,
gritos, berros, brados misturados,

viagens míticas e mentirosas,
milagres mais ou menos inventados,
ninfas e putas muito dadivosas,
guerreiros dementados, abraçados

a efebos doces e epicenos.
A sujidade muito prolongada,
de vez em quando, os líricos acenos,

que embelezam a caca celebrada.
Trata-se de verso alevantado,
promovendo terreno mal mijado!
01.12.2023
Eugénio Lisboa

Glosa sobre o fanatismo

O fanatismo embrutece
ou a estupidez fanatiza?
A burrice não me enternece
e o fanático barbariza.

O fanático tem certezas,
onde certezas não existem:
estão repletas de bichezas
que são nocivas e persistem.

A fé não é conhecimento,
pelo menos, até mais ver.
Transforma o mundo em turbulento
e estupora o bom viver.

Crê quem desiste de entender,
por isso o crente é perigoso:
quando não sabe convencer,
vira tirano afanoso.

O fanático não tolera
aquilo que não compreende:
torna-se logo uma fera,
filha bastarda de duende!
25.10.2023
Eugénio Lisboa


Dou isto à meditação dos actuais “iluministas”, totalmente embevecidos com os fanáticos que por aí proclamam, aos gritos, um óbvio desejo de hegemonização religiosa do planeta, para maior glória de um deus soturno e nada misericordioso, que veneram. Eles nem sequer escondem ao que vêm. E os “iluministas” acolhem-nos de braços abertos, decididos a serem, por eles, devorados. Já se tem visto e a História, afinal, repete-se.
O fanatismo e a ignorância militante são os maiores inimigos actuais deste pobre planeta. E o bem intencionismo enviesado dos “iluministas” dá à catástrofe uma boa ajuda.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Gronelândia um território escondido à vista de todos na Terra

Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu… como seriam felizes as mulheres
à beira-mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado
          Al Berto,  Medo

  

GREENLAND: The Most Remote Place on Earth | 4K Travel Documentary 
"Está em território de ursos polares. Gronelândia. No meio do oceano, encontra-se uma massa de terra três vezes maior que a França, onde vivem apenas 50.000 pessoas. Um local sem estradas a ligar as cidades, onde os trenós puxados por cães e os helicópteros são os únicos "meios de transporte" que o podem levar para a frente. A Gronelândia não se parece com nenhum lugar que já tenha visitado. Parece mais um planeta escondido à vista de todos na Terra. 
Assim, vamos além dos limites do mapa e entrar num mundo onde a natureza ainda reina absoluta."

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Globos de Ouro 2026


Wagner Moura em cena no filme 'O Agente Secreto', do diretor Kleber Mendonça Filho

A lista completa dos vencedores do Globos de Ouro 2026

"Os vencedores dos Globos de Ouro foram  anunciados durante a 83ª cerimônia de entrega, neste domingo (11/1). O evento é apresentado pela comediante Nikki Glaser. Os vencedores  de cada categoria estão indicados em negrito.
Os Globos de Ouro 2026 é o prémio  em que  jornalistas ao redor do mundo escolhem os melhores de 2025 no cinema e na TV. A participação brasileira nesta edição é considerada histórica. Dirigido por Kleber Mendonça Filho, o filme O Agente Secreto alcançou um feito raro ao disputar três categorias de peso: Melhor Filme de Drama, Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Filme de Drama, com Wagner Moura. O número de indicações estabelece um novo recorde para o cinema brasileiro  na premiação.
A primeira vencedora da noite foi Teyana Taylor, como melhor atriz coadjuvante em filme por “Uma batalha após a outra”.
“O agente secreto” venceu como melhor filme em língua não-inglesa e melhor ator de drama, com Wagner Moura.

Melhor Filme – Drama
“Frankenstein”
“Hamnet: A vida antes de Hamlet” (VENCEDOR)
“O agente secreto”
“Valor sentimental”
“Foi apenas um acidente”
“Pecadores”.

Melhor Ator – Drama
Wagner Moura, “O agente secreto” (VENCEDOR)
Joel Edgerton, “Sonhos de trem”
Michael B. Jordan, “Pecadores”
Oscar Isaac, “Frankenstein”
Dwayne Johnson, “Coração de lutador: The Smashing Machine”
Jeremy Allen White, “Springsteen: Salve-me do desconhecido”

Melhor Atriz – Drama
Jessie Buckley, “Hamnet: A vida antes de Hamlet” (VENCEDORA)
Renate Reinsve, “Valor sentimental”
Jennifer Lawrence, “Morra, amor”
Julia Roberts, “Depois da caçada”
Tessa Thompson, “Hedda”
Eva Victor, “Sorry, baby”

Melhor Filme – Comédia ou Musical
“Bugonia”
“Nouvelle Vague”
“Blue Moon
“Marty Supreme”
“No other choice”
“Uma batalha após a outra” (VENCEDOR)

Melhor Ator – Comédia ou Musical
Timothee Chalamet, “Marty Supreme” (VENCEDOR)

Leonardo DiCaprio, “Uma batalha após a outra”
Ethan Hawke, “Blue moon”
George Clooney, “Jay Kelly”
Jesse Plemons, “Bugonia”
Lee Byung Hun, “No Other Choice”

Melhor Atriz – Comédia ou Musical
Chase Infiniti, “Uma batalha após a outra”
Rose Byrne, “Se eu tivesse pernas, eu te chutaria” (VENCEDORA)
Amanda Seyfried, “The testament of Ann Lee”
Emma Stone, “Bugonia”
Cynthia Erivo, “Wicked: Parte 2”
Kate Hudson, , “Song Sung Blue: Um sonho a dois”

Melhor Ator Coadjuvante
Benicio Del Toro, “Uma batalha após a outra”Jacob Elordi, “Frankenstein”
Paul Mescal, “Hamnet: A vida antes de Hamlet”
Sean Penn, “Uma batalha após a outra”
Adam Sandler, “Jay Kelly”
Stellan Skarsgard, “Valor sentimental” (VENCEDOR)

Melhor Atriz Coadjuvante
Elle Fanning, “Valor sentimental”
Emily Blunt, “Coração de lutador: The Smashing Machine”
Ariana Grande, “Wicked: Parte 2”
Inga Ibsdotter Lilleaas, “Valor sentimental”
Amy Madigan, “A hora do mal”
Teyana Taylor, “Uma batalha após a outra” VENCEDORA

Melhor Direção em filme
Paul Thomas Anderson, “Uma batalha após a outra” (VENCEDOR)

Ryan Coogler, “Pecadores”
Guillermo Del Toro, “Frankenstein”
Jafar Panahi, “Foi apenas um acidente”
Joachim Trier, “Valor sentimental”
Chloe Zhao, “Hamnet: A vida antes de Hamlet”

Melhor Roteiro em filme
Paul Thomas Anderson, “Uma batalha após a outra” (VENCEDOR)
Ronald Bronstein, Josh Safdie, “Marty Supreme”
Ryan Coogler, “Pecadores”
Jafar Panahi, “Foi apenas um acidente”
Chloé Zhao, Maggie O’Farrell, “Hamnet: A vida antes de Hamlet”
Eskil Vogt, Joachim Trier, “Valor sentimental”

Melhor Filme em Língua Não-Inglesa
“Foi apenas um acidente”
“No other choice”
“O agente secreto” (VENCEDOR)
“Valor sentimental”
“A voz de Hind Rajab”
“Sirāt”

Melhor Animação
“Arco”
“Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba – Castelo Infinito”
“Elio”
“Guerreiras do K-Pop” (VENCEDOR)

“Little Amélie or the Character of Rain”
“Zootopia 2”

Melhor Trilha Sonora Original de filme
Hans Zimmer, “F1”
Alexandre Desplat, “Frankenstein”
Max Richter, “Hamnet: A vida antes de Hamlet”
Jonny Greenwood, “Uma batalha após a outra”
Ludwig Göransson, “Pecadores” (VENCEDOR)
Kangding Ray “Sirāt”

Melhor Canção Original
“Dream as One” – Miley Cyrus, Simon Franglen, Mark Ronson e Andrew Wyatt, “Avatar: Fogo & cinzas”
“Golden”, “Guerreiras do K-Pop” (VENCEDOR)
“I Lied to You” – Raphael Saadiq, Ludwig Göransson, “Pecadores”
“No place like home” – Stephen Schwartz, “Wicked: Parte 2”
“Train Dreams” – Nick Cave, Bryce Dessner, “Sonhos de trem”
“The Girl in the Bubble” – Stephen Schwartz, “Wicked: Parte 2”

Melhor destaque em bilheteria
“Avatar: Fogo & cinzas”
“F1”
“Guerreiras do K-Pop”
“Missão: Impossível — O acerto final”
“Pecadores” (VENCEDOR)
“Superman”
“A hora do mal”
“Wicked: Parte 2”
“Zootopia 2”

Melhor Série – Drama

“The Diplomat”
“The Pitt” (VENCEDOR)
“Pluribus”
“Ruptura”
“Slow horses”
“The White Lotus”

Melhor Ator – Série de Drama
Sterling K. Brown, “Paradise”
Diego Luna, “Andor”
Gary Oldman, “Slow horses”
Mark Ruffalo, “Task”
Adam Scott, “Ruptura”
Noah Wyle, “The Pitt” (VENCEDOR)

Melhor Atriz – Série de Drama
Kathy Bates, “Matlock”
Helen Mirren, “Mobland”
Britt Lower, “Ruptura”
Bella Ramsey, “The Last of Us”
Keri Russell, “A diplomata”
Rhea Seehorn, “Pluribus” (VENCEDORA)

Melhor Série – Comédia ou Musical
“Abbott elementary”
“O urso”
“Hacks”
“Ninguém quer”
“Only murders in the building”
“O estúdio” / ‘The Studio’ (VENCEDOR)

Melhor Ator – Série de Comédia ou Musical
Adam Brody, “Ninguém quer”
Steve Martin, “Only Murders in the Building”
Martin Short, “Only Murders in the Building”
Seth Rogen, “O estúdio” (VENCEDOR)
Jeremy Allen White, “O urso”
Glen Powell, “Chad Powers”

Melhor Atriz – Série de Comédia ou Musical
Kristen Bell, “Ninguém quer”
Ayo Edebiri, “O urso”
Selena Gomez, “Only Murders in the Building”
Natasha Lyonne, “Poker face”
Jenna Ortega, “Wandinha”
Jean Smart, “Hacks” (VENCEDORA)

Melhor Minissérie
Antologia ou Telefilme“Adolescência” (VENCEDOR)
“All her fault”
“O monstro em mim”
“Black mirror”
“Morrendo por sexo”
“A namorada ideal”

Melhor Ator em Minissérie, Antologia ou Telefilme
Jacob Elordi, “The narrow road to the deep north”
Paul Giamatti, “Black Mirron”
Jude Law, “Black Rabbit”
Stephen Graham, “Adolescência’ (VENCEDOR)
Charlie Hunnam, “Monster: a história de Ed Gein”
Matthew Rhys, “O monstro em mim”

Melhor Atriz em Minissérie, Antologia ou Telefilme
Claire Danes, “O monstro em mim”
Rashida Jones, “Black Mirror”
Amanda Seyfried, “Long bright river”
Sarah Snook, “All her fault”
Michelle Williams, “Dying for sex” (VENCEDORA)
Robin Wright, “The girlfriends”

Melhor Ator Coadjuvante – Série
Owen Cooper, “Adolescência” (VENCEDOR)
Billy Crudup, “The morning show”
Walton Goggins, “The White Lotus”
Jason Isaacs, “The White Lotus”
Tramell Tillman, “Ruptura”
Ashley Walters, “Adolescência”

Melhor Atriz Coadjuvante – Série na TV
Carrie Coon, “The White Lotus”
Erin Doherty, “Adolescência” (VENCEDORA)
Hannah Einbinder, “Hacks”
Catherine O’Hara, “O estúdio”
Parker Posey, “The White Lotus”
Aimee Lou Wood, “The White Lotus”

Melhor performance de comédia stand-up na TV
Bill Maher
Brett Goldstein
Kevin Hart
Kumail Nanjiani
Ricky Gervais (VENCEDOR)
Sarah Silverman

Melhor Podcast
“Call Her Daddy“
“Armchair Expert with Dax Shepard”
“Good Hang with Amy Poehler” (VENCEDOR)
“SmartLess”
“The Mel Robbins Podcast“
“Up First from NPR“

 Fontes:Revista Prosa&Verso, em colaboração com a BBC

domingo, 11 de janeiro de 2026

Ao Domingo Há Música

 Aonde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.
Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética

A força dos sonhos,  talvez, como afirma o poema,  nos possa escudar  do soçobro das ilusões,  da utopia. 
Talvez seja  capaz de suportar as intempéries que teimam surgir em cada esquina deste nosso tempo. 
Talvez os sons deste domingo, em novas  vozes,  possa pintar  o dia com   novas cores. 

Tyler Braden , em  Try Losing One (Official Music Video).
   
Morgan Wade , em Stay ,  (OurVinyl Sessions).
 
Billie Eilish, em  We Were a Poem Torn in Half (2026)
“We Were a Poem Torn in Half é um single poético e emotivo sobre uma relação que parecia bela, mas incompleta — uma história de amor feita de versos inacabados e verdades frágeis. Esta performance feita por fãs, ao estilo de Billie Eilish, capta a dor artística, as metáforas subtis e a dor silenciosa de se desfazer antes que a história pudesse terminar. "
  

sábado, 10 de janeiro de 2026

Primeira Eleição Presidencial em Portugal


PRIMEIRA ELEIÇÃO DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA (1911)

Manuel de Arriaga foi o primeiro Presidente da República eleito em Portugal. A eleição realizou-se no Parlamento, três dias após a aprovação da Constituição de 1911.
Na sessão de dia 23 de agosto de 1911, é aprovado o programa do escrutínio, apresentado pelo Presidente da Assembleia Nacional Constituinte, Anselmo Braamcamp Freire:

“Aberta a sessão, o Presidente anunciará ao Congresso que vai proceder-se à eleição do Presidente da República e organizará a mesa da eleição com os dois secretários permanentes e dois escrutinadores.
2.° Os Deputados conservar-se-ão nos seus lugares, e, à medida que forem sendo chamados, responderão – presente – dirigindo-se à mesa da presidência pela escada da direita, e entregando a lista ao Presidente, que a lançará na urna. Os Deputados que tenham votado descerão pela escada da esquerda.
3.° Concluída a primeira chamada, decorridos cinco minutos, proceder-se-á a nova chamada e, finda esta, passar-se-á à contagem do número de votantes e das listas entradas na urna.
4.° Se o número de listas conferir com o número de votantes, proceder-se-á ao apuramento de votos; de contrário, proceder-se-á a nova eleição.
5.° Os nomes contidos nas listas serão lidos em voz alta e anunciado o número de votos que cada um deles obtém.
6.° Terminado o apuramento, o Presidente anunciará os nomes dos candidatos votados e o número de votos obtidos por cada um deles, e, seguindo o disposto na Constituição, dirá quem é o eleito ou se tem de proceder-se a nova eleição.
7.° Proclamando o resultado definitivo, o Presidente do Congresso mandá-lo-á anunciar ao candidato eleito, que sairá da sala, com todos os demais candidatos, depois de ter votado, convidando-o a vir tomar o compromisso a que se refere o artigo 43.° da Constituição.
8.° Qualquer membro do Congresso pode fazer observações à mesa, exclusivamente sobre as operações eleitorais.
9.° Em relação aos indivíduos estranhos ao Congresso, observar-se-á rigorosamente o disposto nos artigos 155.º e 156.° do Regimento, que dizem:

"Artigo 155.° O Presidente deverá advertir os espetadores quando nas galerias houver algum rumor, se for dado algum sinal de aprovação e desaprovação.

§ único. Se esta advertência não for suficiente, deverá o Presidente mandar despejar a galeria ou galerias em que se houverem infringido as disposições policiais deste Regimento.

Artigo 156.° Os empregados de polícia da Assembleia poderão prender em flagrante delito a pessoa ou pessoas que, dentro do edifício respetivo, cometerem qualquer desordem ou outro delito, e fá-los-ão conduzir à estação policial competente, mais próxima, onde prestarão os esclarecimentos que puderem servir de fundamento ao auto que ali se levantar, dando imediatamente parte à mesa do que houver ocorrido".

Na sessão de 24 de agosto, procede-se então ao escrutínio. O Presidente do Parlamento, “agitando a campainha”, anuncia o resultado:
“Manuel de Arriaga – 121 votos
Bernardino Luis Machado Guimarães – 86 votos
Duarte Leite Pereira da Silva – 4 votos
Sebastião de Magalhães Lima – 1 votos
Alves da Veiga – 1 votos
Listas brancas – 4 votos
Está, portanto, eleito Presidente da República o Sr. Dr. Manuel de Arriaga.
Viva o Sr. Presidente da República Portuguesa!

Toda a Assembleia de pé corresponde unanimemente a este viva. Associando-se, entusiasticamente, também, as galerias.
Salvas de palmas estrugem demoradamente por toda a sala, dando-se muitos e repetidos vivas à República, à Pátria livre, à união do partido republicano, à união republicana, etc., etc.

O Sr. Primeiro Secretário faz ondular por sobre a mesa da Presidência a bandeira nacional.

Nesta altura, assume a presidência o Sr. Vice-Presidente, Sr. Augusto Monjardino, enquanto o Sr. Presidente da Assembleia se dirige ao corredor dos Passos Perdidos para trazer o Sr. Dr. Manuel de Arriaga, a fim de prestar o seu compromisso.
(…)
Pouco depois, entra na sala, acompanhado do Sr. Presidente e vários outros Srs. Deputados, o Sr. Presidente da República.
Uma grandiosa salva de palmas reboa por toda a sala, soltando-se vivas ao Presidente da República e à República Portuguesa, correspondidos entusiasticamente pelas galerias.
O Sr. Presidente da República, na Presidência, agradece comovido, agitando o chapéu.
O Sr. Primeiro Secretário agita a bandeira nacional.
Faz-se silêncio.
O Sr. Presidente da República: – Lê o seguinte:

Compromisso
Afirmo solenemente pela minha honra, manter e cumprir com lealdade e fidelidade a Constituição da República: observar as leis; promover o bem geral da Nação; sustentar e defender a integridade e independência da Pátria Portuguesa.

Nova salva de palmas acolhe as últimas palavras proferidas pelo Sr. Presidente da República.
O Sr. Presidente (agitando a campainha): – Peço silêncio. 
Estabelece-se profundo silêncio na sala.

O Sr. Presidente da República Portuguesa (Manuel de Arriaga): – Meus Senhores: esta Assembleia Nacional Constituinte acaba de depositar nas minhas débeis mãos um tesouro quatro vezes precioso: o da Liberdade, em nome da qual trataremos, com o auxílio de todos os que vierem em volta de nós, de eliminar todos os privilégios que, sendo mantidos à custa da depressão e ofensa dos nossos semelhantes, são para mim malditos.
Depositou, além da Liberdade, uma coisa sagrada acima de todas: a Honra da Pátria.
Perante o estrangeiro e perante a nossa consciência, nós vamos honrar, com os nossos sacrifícios, por uma solidariedade inevitável, uma triste herança – a do passado, cheio de compromissos por culpas que não são nossas – encontraremos, no entanto, na alma do povo, energias bastantes para nos redimirmos aos olhos do mundo.
Nas virtudes democráticas buscaremos os elementos da nossa regeneração.
Não falemos mais nos erros dos contrários depois de os condenarmos, porque as virtudes da democracia valem bastante para esquecermos os inimigos da Pátria.
Há outro tesouro, principalmente, precioso: o Povo Português – este tutelado de séculos que está completamente desvalido, sem a luz da justiça moderna!...
É necessário acalentar aquelas almas, enriquecer e arrotear aqueles corações perdidos para a Verdade, para a Justiça e para o Amor.
Este o objectivo mais dilecto do meu coração – os oprimidos.
Resta-me lembrar a simpática missão de chamar à conciliação, à paz, à ordem, à harmonia social a família portuguesa, em nome da Liberdade, em nome da República, em nome da nossa libérrima Constituição.
Segundo os princípios nela consignados, e sob a intervenção directa do povo soberano, deixarão de existir, como até agora, opressores e oprimidos; daí o antagonismo irritante das classes ligadas pela fatalidade e pela força e não, como de hoje em diante, pelo Amor e pela Justiça – cumpre-nos fazer do nosso Estatuto a Cidade Santa do Direito Moderno; conseguir que este direito seja tão invejado pelos nossos inimigos, como outrora o foram as cidades de Atenas e de Roma.
Hão de vir para nós os que de nós fugiram. Em nome da Pátria e da Liberdade, nós aqui estamos para os receber.
E, a vós, o tributo inalterável da minha gratidão, por confiardes num velho que pouco vale, mas que poderá muito com o vosso auxílio.

Após estas palavras, toda a Assembleia solta vivas, frementes de entusiasmo, ao Presidente da República, à Pátria, etc.
As galerias, com verdadeiro transporte, associam-se do mesmo modo, dando palmas e correspondendo aos vivas.
O Sr. Presidente da República agradece da Presidência.”

A Ilustração Portuguesa, de 4 de Setembro de 1911, descreve os momentos seguintes:
“Alguns vultos da democracia soltaram vivas à união do partido republicano e no meio de uma trovoada de aplausos, um clamor de entusiasmo o chefe de Estado apareceu ao povo.
Salvavam os navios de guerra, içavam-se nos mastros, festivamente, as bandeiras; a artilharia troava e em terra o hino nacional ouvia-se, tocado pelas bandas dos regimentos postados na Avenida das Cortes. Estralejavam girandolas; um piquete de lanceiros chegava diante da Assembleia para escoltar o automóvel onde o Presidente da República iria até ao Palácio de Belém, que fica sendo a secretaria da presidência em vista do Parlamento não ter votado uma morada oficial para o primeiro magistrado da República.”
Manuel José de Arriaga Brum da Silveira nasceu na Horta (Açores) em 1840. Licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimbra e foi advogado, escritor e professor liceal de inglês.
Integrou o Directório do Partido Republicano em 1890-1893 e 1897-1898. Em 1882 e 1890, foi eleito deputado pela minoria republicana, destacando-se pelas duras críticas às políticas vigentes.
Após a Revolução de 5 de Outubro de 1910, foi Reitor da Universidade de Coimbra, Procurador-Geral da República e Deputado à Assembleia Nacional Constituinte.
No seu mandato como Presidente da República (1911-1915), Manuel de Arriaga procurou a conciliação de todas as forças políticas, tal como anunciado no seu discurso de posse.
A situação social e política no país, com as dissidências dentro do Partido Republicano, as incursões monárquicas e a eclosão da Grande Guerra perturbaram os seus objectivos.
Em Janeiro de 1915, procurando a estabilidade política, nomeou o general Pimenta de Castro como chefe de um governo supra-partidário de cariz ditatorial. Quatro meses depois, a Revolução de 14 de Maio derrubaria a ditadura de Pimenta de Castro, obrigando Manuel de Arriaga a renunciar ao mandato presidencial.
Morreu dois anos depois, em Lisboa, a 5 de Março de 1917, deixando um testemunho da sua acção enquanto Presidente da República – Na primeira Presidência da República portuguesa.
Em 2003, a Assembleia da República concedeu honras de Panteão Nacional a Manuel de Arriaga (Resolução n.º 49/2003). A cerimónia de homenagem e trasladação do antigo Presidente da República para o Panteão teve lugar no dia 16 de Setembro de 2004. " Comunicar, Boletim da Assembleia da República, JAN-16

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Os livros de Janeiro da Guerra & Paz e da Gradiva


"Que frio está lá fora. Peço licença para me enfiar nessa manta a que o(a) caro(a) leitor(a) se aquece. E por cima da manta vamos correr o álbum dos livros de Janeiro. Por esta ordem: Guerra e Paz, Euforia, Gradiva. "
Manuel S. Fonseca, Editor

Os meus livros de Janeiro
por Manuel S. Fonseca
"Quero lá, querem lá os meus leitores saber do frio de Janeiro quando têm à mão as edições afrodisíacas da Guerra e Paz, a começar por A Mitologia Grega de A a Z, de Luc Ferry, obra povoada de Afrodites (ou Vénus), de Eros e da embriaguez de Dionísio: a desordem e a volúpia dos deuses gregos, a companhia de sereias e musas faz deste livro e dos seus mistérios uma leitura abrasadora. De Os Livros Não se Rendem, colecção patrocinada pela gentileza e amor aos livros da Fundação Manuel António da Mota e da Mota Gestão e Participações.
Agora encostem-se sem preconceitos a António Botto se querem sentir o calor do que era um escândalo para o Portugal dos anos 50: no Caderno Proibido, como lhe chamou Botto, há nudez e abraços violentos, mas também a ternura de, e cito, «foder um corpo delgado, / Seios duros, pequeninos […]/ Ancas descidas de mocinho…». Nunca publicado até hoje, este erotíssimo inédito foi organizado e prefaciado pelo professor Victor Correia.
Um muito mais contemporâneo afago dos corpos, eis o que inunda as narrativas ficcionadas (ficcionadas?) que o romancista Virgílio Castelo (sim, também é actor) assina em Consumo Obrigatório. Uma viagem por boîtes, discotecas, bares bem ou mal-afamados, viagem que é a autobiografia de toda uma geração: a sua, caro leitor?
Depois disto, de que outra coisa vos iria falar que não fosse de lendas e contos de fadas. Só queria que tivessem o livro na mão. É das coisas mais bonitas que já fiz na vida: chama-se Lendas e Contos de Fadas Japoneses e das suas 144 páginas, 47 são de ilustrações japonesas deslumbrantes, de cores arrebatadoras. Por este livro, Deus e os demónios perdoar-me-ão todos os desacatos que me queiram arrolar: quem não quer ler contos como «O cortador de bambu e a criança da lua» ou «O pardal com a língua cortada»? É o primeiro de uma série: a seguir vêm aí os contos de fadas chineses.
Parece também um conto de fadas: um homem fala a uma multidão e declara bem-aventurados os mansos e humildes, os perseguidos e os que sofrem. O homem tem 30 anos, dá pelo nome de Jesus Cristo, e essa pequena maravilha retórica, o Sermão da Montanha, que nos instiga a amar os nossos inimigos e a oferecer a outra face a quem nos agrida, é uma das mais belas utopias já ditas e escritas por nós, os humanos. Agora, com uma apresentação que eu, Manuel S. Fonseca, assino, o Sermão da Montanha junta-se ao Cântico dos Cânticos ou à Alegoria da Caverna, na colecção Livros Brancos.
O professor de filosofia Alexander Douglas dá, creio eu, eco ao Sermão, quando nos avisa contra a obsessão do eu. Leiam um dos mais lúcidos livros do ano passado no Reino Unido: Contra a Identidade, A Sabedoria de Escapar do Eu, diagnóstico de uma das grandes aflições contemporâneas.
Venha de lá o passado. De um historiador medievalista, Pierre Bauduin, Os Vikings é uma magnífica e actualizadíssima apresentação de uma civilização que nos desafia. Não se esqueçam das violências e pilhagens, mas leiam-no para descobrir mil outras facetas de uma civilização pletórica.
Em Janeiro, dois estudos e um sombreiro? De provérbios nada sei, mas sei que vou publicar dois estudos com mérito. Macau: A Última Transição – Vasco Rocha Vieira (1991-1999), é um rigoroso trabalho de fundo do historiador Alfredo Gomes Dias. Temos a honra de o publicar em parceria com a Fundação Jorge Álvares.
Tal como em parceria com a Academia Militar e o Instituto Universitário Militar se publica Guerra e Disrupção, textos de dez especialistas sobre estratégia e ciência militar, com coordenação de Luís Barroso, António Paulo Duarte e Pedro Ferreira.
Reservo os últimos suspiros de Janeiro para duas fortes e convictas apostas polémicas. Primeiro para o extraordinário e tocante Refém, de Eli Sharabi. Eli foi um dos judeus raptados pelo Hamas no 7 de Outubro e esteve em cativeiro 491 dias. Narra esse tormento de forma crua, directa, sem rodeios. Terão a mulher e as duas filhas sobrevivido? Um documento que dói e fere muito mais do que qualquer ficção.
Ecrãs, um desastre sanitário, da neurologista Servane Mouton, é um panfleto brilhante sobre o uso dos ecrãs, dos smartphones, e sobre os terríveis efeitos detectados. Baseado nos mais recentes estudos, este livrinho, que se lê de um fôlego, com bela tradução de Miguel Graça Moura, é um vivíssimo alerta: «antes que seja tarde demais.»

Vamos e vejamos e no vai e vem chegamos à EUFORIA:

A chancela que a Rita Fonseca criou ganhou a carta de alforria. Cresceu em 2025 213% em relação ao ano anterior e tem um público definido, muito específico. Passa por isso, agora, a ter uma newsletter própria, tal como terá o seu próprio site.
Despeço-me, ainda assim, dizendo-vos que em Janeiro há dois romances sufocantes. Em Tóxico, de Nicole Blanchard, a heroína casa primeiro com um homem abusivo e apaixona-se, depois, por um recluso perigoso. Se há beijos intoxicantes? Bom, no mínimo.
Já a autora Navessa Allen (há 52 semanas no top do NYT bestsellers) oferece-nos O Crime de São Valentim e deixa-nos uma inquietação: pode alguém ser enterrado vivo por mero acaso?
Que 2026 seja o ano de alguns prodígios e que esses prodígios sejam da nossa GRADIVA.

Começa, agora, em Janeiro de 2026, a nova Gradiva, e da mão de Guilherme Valente, seu fundador, para a minha mão passa o mesmo testemunho, como se estivéssemos numa corrida de estafetas. O livro que inaugurou esta casa editora há 45 anos é o primeiro livro desta nova vida da Gradiva: Delírio e Sonhos na Gradiva de Jensen, de Sigmund Freud. Tal como o Guilherme, acredito no valor simbólico de um livro que exala o perfume do que Freud chamou a «cura pela sedução e pelo amor». Para começar em beleza, é este o primeiro dos oito títulos Gradiva deste mês.
E agora aligeiremos: tem estado um frio de rachar. Para aplacar os lobos de Inverno pedi ajuda ao Calvin & Hobbes, de Bill Watterson. À lareira ou entre cobertores, Calvin & Hobbes, O Ataque dos Demónio da Neve resgata-nos e devolve-nos a alegria, o riso e o sorriso, desenho a desenho, em edição novinha em folha.
Passam os Invernos e o nosso descontentamento não nos deslarga: tanta é a sede e fome de plenitude, a sede e fome de perfeição! E é sobre essa busca espiritual, essa busca de uma harmonia universal, que nos escreve Luís Portela, em Ser Espiritual, da Evidência à Ciência. Prometo-vos uma viagem de um prazer inebriante – e de um rigoroso desafio – do que a série da RTP, «Para Além do Cérebro», foi há pouco veículo, uma viagem que nos religa a uma outra dimensão, a da Energia Universal. Utopia? E será que viver sem utopia é viver?
E por que utopia – ou só realidade – nos guia Carlos Fiolhais em A Inteligência Artificial de A a Z? Com mestria, Fiolhais, porventura o nosso melhor pedagogo, leva-nos da entrada «agentes inteligentes» à entrada «Zuckerberg», preparando-nos para o avassalador mundo de amanhã: a inteligência de Fiolhais disseca a complexa Inteligência Artificial. Um choque? Sim, enciclopédico.
E há um novo livro na colecção Ciência Aberta: de Elói Figueiredo e C. Matias Ramos, A Ciência Descobre, a Engenharia Cria. O subtítulo, «uma visão em doze axiomas e meio» deixa-me tão perplexo como encantado, e o que me tranquiliza é que Carlos Fiolhais, no posfácio, me jura tratar-se de «uma magnífica introdução à engenharia». Com o apoio mecenático do dstgroup e o patrocínio da Ordem dos Engenheiros, este é o livro que nos ensina que a função da engenharia é simplificar, mas que se o risco se minimiza, tal não significa que se anule. Axiomas.
Há dois livros de Janeiro que nos fazem pensar a Europa, a do passado e a do futuro. Um, O Esplendor das Amizades: A experiência portuguesa de Edgar Morin, é coordenado por Guilherme d’Oliveira Martins e é um esplêndido relato do que era o Portugal da ditadura e de como os católicos do Tempo e o Modo descobriram a Europa através de Edgar Morin e de como Morin descobriu, em amizade, o melhor de Portugal.
Já em O Mundo de Amanhã: Uma Europa Soberana e Democrática, o austríaco Robert Menasse partilha a morna angústia do nosso tempo europeu, cheio de dúvidas, défices e conflitos, procurando, ainda assim, arrancar desse pântano um frágil módico de esperança. A fragilidade será uma arma?
Onde começa e onde acaba a fragilidade em Ian McEwan? Na delicadeza das ideias ou na argúcia psicológica? Na sua narrativa tão minudente? E de onde surge, abrupto, o simbolismo quase brutal desses Cães Pretos, que dão título a este romance humano, demasiado humano? Que cães são esses? Autênticos, só cosa mentale, metafóricos? A verdade é que são vorazes e ferozes.
São os livros Gradiva de Janeiro. Oito: da ciência ao cartoon, do pensamento à grande ficção."
Manuel S. Fonseca, editor da Guerra & Paz