quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

As palavras em poemas

Corpo de Esperança

Começam por ti todos os versos...

...e um dia as aves voarão o céu até aos teu olhos,
as crianças hão-de pisar teu corpo de alegria
com seus risos, seus tácitos encontros com o invisível
e seu secreto esquecimento.

Num chão de cousas desapercebidas
terão passado sobre ti os reinos, as filosofias e os namorados,

E tu repousas, nua, no coração do Silêncio,
como uma estrela dentro do céu

Neste curto espaço entre nós e a morte
tão mal gastamos nossa longa despedida!

Tu, amor de quem não sei o nome
de onde não sei a sorte,
vais passar além deste poema que era teu
e assim, de morte construída,
teus passos vão enchendo a minha vida.

Outro nome será flor sobre teus lábios,
e outros dedos tocarão a límpida frescura
dos teus ombros quase d’água
e saberão de cor o horizonte branco do teu corpo...

E assim iremos de olhos futuros,
tu, envelhecendo da minha ausência,
eu, a erguer-te na curva da esperança,
e outra mão vai desmanchar a tua trança
e hei-de beijar teu rosto onde não eras
e serás só o que há antes das horas mais tristes.

Neste curto espaço entre nós e a morte,
onde me vais perdendo,
onde te vou buscando,
nosso amor se vai embora alimentando
a despedida;

não porque morra o tempo em teus braços,
mas a vida.
Vítor Matos e Sá, em Poesia de Vítor Matos e Sá, edição de Ana Paula C. Mendes, ed. Campo das Letras, 2000

Convite

Nesta fase em que só o amor me interessa
o amor de quem quer que seja
do que quer que seja
o amor de um pequeno objecto
o amor dos teus olhos
o amor da liberdade
o estar à janela amando o trajecto voado
das pombas na tarde calma
nesta fase em que o amor é a música de rádio
que atravessa os quintais
e a criança que corre para casa
com um pão debaixo de um braço
nesta fase em que o amor é não ler os jornais
podes vir podes vir em qualquer caravela
ou numa nuvem ou a pé pelas ruas
- aqui está uma janela acolá voam pombas -
podes vir e sentar-te e falar com as pálpebras
pôr a mão sob o rosto e encher-te de luz
porque o amor meu amor é este equilíbrio
esta serenidade de coração e árvores.
Egito Gonçalves, in «366 Poemas que Falam de Amor", antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Quetzal Editores
Em busca das palavras

Quem me dera encontrar palavras fortes,
recheadas de coisas e de sons,
tesouros ocultos em caixa-forte,
agrestes com suas cores e tons,
palavras sexuadas e gulosas,
capazes de fremir e de dar fruto,
palavras destemidas e afrontosas,
visando o relativo e o absoluto,
palavras cheias de escuro e de luz,
recheadas de amor e tempestade,
com passada que namora e seduz,
palavras que ocultam mais de metade,
mas dizem que baste para assustar,
palavras bem sedentas de tumulto,
feitas somente para magoar,
cheiinhas, para o caso, de insulto,
palavras que assassinam o canalha,
mas sabem abençoar S. Francisco,
palavras afiadas como navalha,
que, do pescoço infame, fazem petisco,
palavras que são fogo e que queimam,
palavras que ameaçam e cumprem,
palavras que desfloram e que teimam,
palavras que os lordes da guerra estuprem,
palavras fortíssimas, necessárias,
duras, fortes, doces, imprescindíveis,
palavras clássicas, bem centenárias,
que tornem os nossos sonhos possíveis!
                         28.01.2024
Eugénio Lisboa, poema inédito

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Os sons do frio


Froid
les rues sont pleines, mais tout est vide, des regards glissent, sans un mot. les mains tremblent, les âmes se cachent, dans le silence de trop. le monde se couvre de verre, les voix s’éteignent dans l’air. et moi, je cherche encore, une chaleur quelque part.
(...)

Élise de Lune, em  Décembre. 
Élise de Lune, em  Froid.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Pensamentos de Oscar Wilde para uso de Jovens

 

Máximas para Uso dos Jovens*
por Oscar Wilde

- Na nossa existência, o primeiro dever é ser o mais artificial possível; o segundo ainda ninguém conseguiu descobrir qual é.

- As pessoas honestas criaram o mito da imoralidade para explicar a curiosa atracção que exerce sobre aqueles que o não são.

- Os que não estabelecem a diferença entre alma e corpo não possuem nem uma nem o outro.

- As pessoas bem-educadas contradizem os outros. Os sábios contradizem-se a si próprios.

- Nada do que acontece realmente tem a menor importância.

- Quando se atinge a idade adulta, a seriedade torna-se pesada.

- Quem diz a verdade cedo ou tarde será desmascarado.

- Só se pode ter a esperança de perdurar na memória dos comerciantes se não lhes pagarmos as facturas.

- Não existem crimes vulgares, mas a vulgaridade é um crime.

- A vulgaridade são os outros.

- Só as pessoas superficiais se conhecem.

- O tempo é uma perda de dinheiro.

- Devemos ser sempre um pouco inverosímeis.

- As boas resoluções padecem de uma fatalidade: tomamo-las sempre demasiado tarde.

- Um excesso ocasional de elegância só pode ser resgatado por um perpétuo excesso de educação.

- Em matéria de comportamento, qualquer preocupação com o bem e o mal é sinal de uma paragem no desenvolvimento intelectual.

- A ambição é o último refúgio dos falhados.

- Uma verdade deixa de ser verdadeira a partir do momento em que alguém lhe acrescenta a fé.

- Durante os exames, os imbecis fazem perguntas às quais os sábios não podem responder.

- As vestes gregas são inestéticas por natureza. Só o corpo deve revelar o corpo.

- É preciso ser uma obra de arte, ou ser portador de uma obra de arte.

- Todas as épocas permanecem na história devido aos seus anacronismos.

- Os velhos acreditam em tudo. As pessoas de idade madura desconfiam de tudo. Os jovens sabem tudo.

- A ociosidade é a condição da perfeição. O objectivo da perfeição é a juventude.

- Há qualquer coisa de trágico na enorme quantidade de jovens que, hoje em Inglaterra, se iniciam na vida com um perfil perfeito e acabam por exercer uma qualquer profissão útil.

- Amar-se a si próprio é iniciar uma história de amor que durará toda a vida.


* Sob o título «Phrases and Philosophies for the Use of the Young», estas máximas (de que editamos aqui uma selecção) foram publicadas nas três primeiras páginas da The Chameleon, uma revista criada por um estudante de Oxford, John Francis Bloxam, em1894. O texto foi usado contra Wilde nos processos que lhe foram movidos em 1895.
Oscar Wilde ,in Pensamentos, Relógio D’Água Editores, Novembro de 2011, pp.23-25.

Sobre o livro:
«Possuo os gostos mais simples», comentou certa vez Oscar Wilde, «fico sempre satisfeito com o melhor.»
Neste livro, os leitores irão encontrar uma selecção de comentários de Oscar Wilde sobre arte, natureza humana, moral, sociedade, política, história e vários outros temas. Epigramas, aforismos e citações — retirados das várias peças de Wilde, dos seus ensaios, romances e ainda de conversas, artigos e cartas — configuram um pensamento sofisticado sob uma aparência paradoxal, divertida ou provocadora.
Como escreveu J. L. Borges: «Lendo e relendo Wilde ao longo dos anos, reparo num facto de que os seus admiradores não parecem sequer ter suspeitado: o facto comprovado e elementar de que Wilde quase sempre tem razão (…) Oscar Wilde é um desses escritores privilegiados que existem sem necessitarem de aprovação dos críticos, nem sequer dos leitores. O prazer que retiramos da sua companhia é irresistível e constante.».

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Um Epílogo


Um Epílogo
Quando estes poemas parecerem velhos,
e for risível a esperança deles:
já foi atraiçoado então o mundo novo,
ansiosamente esperado e conseguido
- e são inevitáveis outros poemas novos,
sinal da nova gravidez da Vida
concebendo, alegre e aflita, mais um mundo novo,
só perfeito e belo aos olhos de seus pais.
E a Vida, prostituta ingénua,
terá, por momentos, olhos maternais.
Jorge de Sena, in Coroa da Terra Assírio &Alvim

domingo, 4 de janeiro de 2026

Ao Domingo Há Música

Esperança

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E — ó delicioso voo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…
Mario Quintana, Antologia poética (2015).

No primeiro domingo de 2026 , a Esperança é a  tal "louca" que conduz o nosso apontamento. A Música é de Johann Strauss que , com vivacidade , nos transporta para um mundo onde a Esperança nunca deve desaparecer. Segui-la, persegui-la, agarrá-la, capturá-la para a renovar a cada novo dia é a aposta mais ajustada.
Brindemos , então , a   um novo e harmonioso  ano . 


De Johann Strauss II [1825 - 1899] ,  Waltz Roses from the South , (Valsa Rosas do Sul), (Op. 388) e Diplomat Polka ( Op.448). 
Interlúdios de Ballet da Ópera Estatal de Viena.  Concerto de Ano Novo de 2026. 
"20 Anos Depois de 2006: John Neumeier e o Director Criativo da AKRIS, Albert Kriemler, criam os Interlúdios de Ballet para o Concerto de Ano Novo 
O Concerto de Ano Novo da Filarmónica de Viena teve lugar a 1 de Janeiro de 2026, pela primeira vez sob a direção musical do canadiano Yannick Nézet-Séguin. Tal como nos anos anteriores, foi transmitido em directo pela ORF (Austríaca Radiodifusão)
.  
"Os interlúdios de bailado deste ano para o Concerto de Ano Novo da Filarmónica de Viena foram criados pelo conceituado coreógrafo John Neumeier. Os figurinos são da autoria de Albert Kriemler, Director Criativo da marca de moda AKRIS. Vinte anos após a sua primeira colaboração no Concerto de Ano Novo de 2006, os dois artistas criaram novamente mundos oníricos e glamorosos para dois interlúdios. As filmagens da valsa "Rosas do Sul" e da "Polka do Diplomata", de Johann Strauss II, decorreram no MAK – Museu de Artes Aplicadas de Viena – e em exteriores e também ,  no interior do Palácio Hofburg, sob a direção de Michael Beyer. A famosa Rosa Vienense da coleção do MAK é a peça central dos interlúdios. A coreografia, criada por Ketevan Papava, Timoor Afshar, Natalya Butchko, Géraud Wielick, Gaia Fredianelli e Calogero, será apresentada por Failla, juntamente com Alaia Rogers-Maman e Victor Cagnin, na PolKa Diplomática. O público irá experienciar uma exploração coreograficamente bem-humorada da diplomacia, da burocracia e do serviço público. A peça será interpretada por Alessandro Frola, o primeiro bailarino do Ballet Estatal de Viena desde esta temporada, juntamente com Natalya Butchko, Gaia Fredianelli, Anita Manolova, Tatiana Mazniak e Laura Cislaghi. 
"Para a valsa, dançaram os bailarinos principais Ketevan Papava e o recém-nomeado bailarino principal Timoor Afshar, bem como Natalya Butchko e Géraud Wielick, Gaia Fredianelli e Calogero Failla, e Alaia Rogers-Maman e Victor Cagnin. A Polka dos Diplomatas foi dançada ao lado de Alessandro Frola, Natalya Butchko, Gaia Fredianelli, Anita Manolova, Tatiana Mazniak e Laura Cislaghi. Michael Beyer é o encenador responsável pelas sequências de bailado, pré-gravadas em agosto de 2025, e vai também liderar a equipa de televisão com 14 câmaras para a emissão de 1 de Janeiro." O Concerto de Ano Novo será novamente comentado em directo pela apresentadora cultural Teresa Vogl. (Fonte: https://tv.orf.at/neujahrsko1314.html)."
Este vídeo contém material visual de outras fontes, por exemplo, da ZDF/ORF.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Algo mais sobre literatura e realidade

O Axolotle encontra-se distribuído no México. Habita nos lagos e permanece 
na água toda a vida. O Axolotle é um anfíbio tem nome asteca , que significa
 “monstro aquático”.
 
Algo mais sobre literatura e realidade
por  Gabriel García Márquez
"Um problema sério que nossa realidade desmedida cobra da literatura é a insuficiência das palavras. Quando falamos de um rio, o mais longe que pode chegar um leitor europeu é imaginar algo tão grande como o Danúbio, que tem 2.790 quilómetros. É difícil que imagine, se não se descrever , a realidade do Amazonas, que tem 5.500 quilómetros de comprimento. Em Belém do Pará, onde ele é mais largo do que o mar Báltico, não é possível ver a outra margem. Quando escrevemos a palavra “tempestade”, os europeus pensam em relâmpagos e trovões, mas dificilmente vão conceber o mesmo fenómeno que nós queremos representar. A mesma coisa ocorre, por exemplo, com a palavra “chuva”. Na cordilheira dos Andes, segundo a descrição feita para os franceses por um francês chamado Xavier Marimier, há tempestades que podem durar até cinco meses.
— Quem não viu essas tormentas — diz — não poderá fazer uma ideia da violência com que se desenvolvem. Durante horas inteiras os relâmpagos se sucedem rapidamente à maneira de cascatas de sangue e a atmosfera treme sob a agitação contínua dos trovões, cujos estampidos repercutem na imensidão da montanha.
A descrição está longe de ser uma obra-prima, mas bastaria para estremecer de horror o europeu menos crédulo.
Portanto, seria necessário criar todo um sistema de palavras novas para o tamanho de nossa realidade. Os exemplos dessa necessidade são intermináveis. F.W. Up de Graff, um explorador holandês que percorreu o alto Amazonas no início do século XX, disse que encontrou um arroio de água fervente onde se faziam ovos cozidos em cinco minutos, e passara por uma região onde não se podia falar em voz alta porque se desatavam aguaceiros torrenciais. Em algum lugar da costa caribenha da Colômbia vi um homem fazer uma oração na frente de uma vaca que tinha vermes na orelha, e vi cair os vermes mortos enquanto transcorria a oração. Aquele homem garantia que podia conseguir a mesma cura a distância se lhe fizessem a descrição do animal e indicassem o lugar em que se encontrava. Em 8 de Maio de 1902, o vulcão Mont Pele, na ilha de Martinica, destruiu em poucos minutos o porto de Saint-Pierre e matou e sepultou em lava a totalidade de seus trinta mil habitantes. Menos um: Ludger Sylvaris, o único preso da população, protegido pela estrutura invulnerável da cela individual que construíram para que ele não pudesse escapar.
Seriam necessários vários volumes para expressar a realidade incrível do México. Depois de estar aqui quase vinte anos, poderia passar ainda horas inteiras, como fiz tantas vezes, contemplando uma vasilha de feijões dançarinos. Nacionalistas benevolentes me explicam que sua mobilidade se deve a uma lã viva que têm por dentro, mas a explicação parece pobre: o maravilhoso não é que os feijões se movimentem porque têm uma lã dentro, e sim que tenham uma lã dentro para que possam se mover. Outras das estranhas experiências de minha vida foi o meu encontro com o axolotle. Julio Cortázar conta num de seus relatos que conheceu o axolotl no Jardin des Plantes, em Paris, num dia em que queria ver leões. Ao circular diante dos aquários, conta Cortázar, “passei por cima os peixes vulgares até dar com o axolotle.” E conclui: “Fiquei olhando-o por uma hora, e saí, incapaz de outra coisa.” Ocorreu-me a mesma coisa, em Pátzcuaro, só que não o contemplei por uma hora, e sim uma tarde inteira, e voltei várias vezes. Mas havia algo ali que me impressionou mais do que o animal em si, e era a placa pendurada na porta da casa: “Vende-se xarope de axolotle.”
Essa realidade incrível alcança sua densidade máxima no Caribe, que, a rigor, estende-se (pelo norte) até o sul dos Estados Unidos, e, pelo sul, até o Brasil. Não se imagine que é um delírio expansionista. Não: o Caribe não é apenas uma área geográfica, como certamente crêem os geógrafos, mas uma área cultural muito homogénea.
No Caribe, aos elementos originais das crenças primárias e concepções mágicas anteriores ao descobrimento, somou-se a abundante variedade de culturas que confluíram nos anos seguintes num sincretismo mágico cujo interesse artístico e cuja própria fecundidade artística são inesgotáveis. A contribuição africana foi forçada e ultrajante, mas afortunada. Nessa encruzilhada do mundo, forjou-se um sentido de liberdade incomparável, uma realidade sem lei nem rei, onde cada um sentiu que era possível o que quisesse sem limites de qualquer espécie: e os bandoleiros amanheciam convertidos em reis, os fugitivos em almirantes, as prostitutas em governadoras. E também o contrário. 
Nasci e cresci no Caribe. Conheço-o país a país, ilha a ilha, e talvez daí provenha minha frustração de que nunca me aconteceu nada nem pude fazer algo que seja mais assombroso do que a realidade. O mais longe a que pude chegar foi a transposição com recursos poéticos, mas não há uma só linha em nenhum de meus livros que não tenha sua origem num fato real. Uma dessas transposições é o estigma do rabo de porco que tanto inquietava a estirpe dos Buendía em Cem anos de solidão. Poderia recorrer a outra imagem qualquer, mas pensei que o temor do nascimento de um filho com rabo de porco era o que menos probabilidade tinha de coincidir com a realidade. Logo que o romance começou a ser conhecido, surgiram em diferentes lugares das Américas confissões de homens e mulheres que tinham algo semelhante a um rabo de porco. Em Barranquilla, um jovem se apresentou aos jornais: nascera e crescera com aquele rabo, mas não revelara a ninguém, até que leu Cem anos de solidão. Sua explicação era mais assombrosa do que seu rabo. 
— Nunca disse que o tinha porque me dava vergonha, mas agora, lendo o romance e ouvindo as pessoas que o leram, dei-me conta de que é uma coisa natural.
Pouco depois, um leitor me mandou o recorte da foto de uma menina de Seul, capital da Coréia do Sul, que nasceu com um rabo de porco. Ao contrário do que eu pensava quando escrevi o romance, cortaram o rabo da menina de Seul e ela sobreviveu.
Minha experiência de escritor mais difícil foi a preparação de O outono do patriarca. Durante quase dez anos li tudo o que pude sobre os ditadores da América Latina, e em especial do Caribe, para que o livro que pensava escrever se parecesse o menos possível com a realidade. Cada momento era uma desilusão. A intuição de Juan Vicente Gómez era mais penetrante do que uma verdadeira faculdade divinatória. O doutor Duvalier, no Haiti, mandou exterminar os cães pretos no país, porque um de seus inimigos, tentando escapar da perseguição do tirano, despira-se de sua condição humana e se transformara em cão preto. O doutor Francia, cujo prestígio de filósofo era tão extenso que mereceu um estudo de Carlyle, fechou a República do Paraguai como se fosse uma casa, e só deixou aberta uma janela para que entrasse a correspondência. Antonio López de Santa Anna enterrou a sua própria perna em funeral esplêndido. A mão cortada de Lope de Aguirre flutuou rio abaixo durante vários dias, e os que a viam passar estremeciam de horror, pensando que mesmo naquele estado a mão assassina podia erguer um punhal. Anastasio Somoza García, na Nicarágua, tinha no pátio de sua casa um jardim zoológico com jaulas de dois compartimentos: num deles estavam as feras e no outro, separado apenas por uma grade de ferro, encerrados os seus inimigos políticos.
Martínez, o ditador teosofista de El Salvador, mandou forrar com papel vermelho toda a iluminação pública do país, para combater uma epidemia de sarampo, e inventara um pêndulo que colocava sobre os alimentos antes de comer, para verificar se estavam envenenados. A estátua de Morazán que ainda existe em Tegucigalpa é em realidade do marechal Ney: a comissão oficial que viajou a Londres para buscá-la resolveu que era mais barato comprar esta estátua esquecida num depósito do que mandar fazer uma autêntica de Morazán. 
Em síntese, nós, escritores da América Latina e do Caribe, temos de reconhecer, com a mão no coração, que a realidade escreve melhor. O nosso destino, e talvez a nossa glória, é tentar imitá-la com humildade, e da melhor maneira possível."
Gabriel García Márquez,  em  “Crónicas – obra jornalística: 1961-1984”. tradução Leo Schlafman. Record, 2019.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Os verdadeiros pensadores não temem



Ideias que nem sequer estão erradas
por Eugénio Lisboa
A principal qualidade do estilo é a clareza.
Aristóteles

A clareza é a boa fé dos filósofos.
Vauvenargues

Falar obscuramente, qualquer um
consegue; com clareza, raríssimos.
Galileu Galilei

"O grande físico Wolfgang Pauli (1900 – 1958), que ganhou o Prémio Nobel da Física, em 1945, apadrinhado nada menos que por Einstein, era conhecido pela sua destemida frontalidade e ferina ironia. Ficou também conhecido por ter cunhado uma expressão que se tornou célebre: quando aspirantes a cientistas lhe propunham, para avaliação, teses estapafúrdias, sem pés nem cabeça, Pauli despachava-as, furiosamente, classificando-as de “not even wrong” (nem sequer erradas). Isto é, não tinham sequer dignidade para poderem ser consideradas erradas: não estavam certas nem erradas, porque não eram coisa nenhuma. É, provavelmente, a pior classificação que se pode dar a um trabalho qualquer: "not even wrong".
Confesso que, com uma frequência inquietante, leio textos de escritores muito festejados, premiados, traduzidos, apaparicados, aos quais me apetece pôr o carimbo com o diagnóstico mortífero de Pauli; "not even wrong". São textos que fazem parte de uma cultura que venera o obscuro, o opaco impenetrável, como valores insignes a promover. Como se o opaco e o obscuro fossem garantias de maturidade e profundidade. Como se por detrás daquelas ejaculações nevoentas, se escondessem tesouros apetecidos. O culto do arrevesado, do complicado, do “profundote” é, muito pelo contrário, um sintoma de aflitiva insegurança e imaturidade. É querer esconder uma total ausência de pensamento por detrás de um arrazoado pretensioso. Os verdadeiros pensadores não temem, antes procuram, a formulação mais simples, que desvele, sem mais embaraços, aquilo que descobriram. É a “boa fé dos filósofos”, de que falava o amável Vauvenargues, que Voltaire tanto admirava e estimava. Quem se aninha confortavelmente no obscuro, encontra-se inesperadamente parceiro do arbitrário e do atrabiliário. Passa-se o mesmo com os que, em vez do belo, nos servem o “bonito”. Já tenho respondido a quem me propõe um pensamento arrebicado e cheio de nevoeiro: “O que disse deve estar certo.” E, perante a perplexidade do meu interlocutor, esclareço: “Não percebi nada do que o Sr. disse e, na dúvida, é-se a favor do réu.”
Tudo isto me leva a uma velha convicção, na qual estou longe de me encontrar desacompanhado, de que seria, mais do que aconselhável, fundamental, que todos os cursos de letras incorporassem uma disciplina obrigatória, particularmente bem pensada e estruturada, de história da ciência. Sublinho: obrigatória e urgente. Talvez isto acabasse por incutir a muitos homens de letras algum respeito pelo asseado das ideias e da formulação delas. E também de respeito pelas palavras.
Até para a elaboração de metáforas se exige algum asseio, para se não cair no arbitrário quimicamente puro. Com uma desejada e suave passagem pela ciência, talvez se evitassem pérolas como estas, que desoladamente colho, hoje mesmo, num periódico lisboeta: 1) “Pões um animal no meio de um nevoeiro – que metade tapa, metade mostra – e o animal fica metade anjo, na metade que não se vê”; 2) “uma máquina de fumos na imaginação, lá dentro da cabeça, e a metáfora e a invenção surgem”; 3) “A máquina de fumos e de nevoeiro, como máquina de inventar, máquina de produzir metáforas por minuto quadrado”. Fico-me por aqui: Esta das “metáforas por minuto quadrado” é suficientemente ilustrativa do meu ponto de vista: uma pequena passagem pelo mundo da ciência não faz mal a ninguém."
Eugénio Lisboa, 15.12.2021

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Um Hino Glorioso de Ano Novo

 

De Johann Sebastian Bach,  Singet dem Herrn (BWV 190), um Hino Glorioso de Ano Novo.
O Maestro Sebastjan  Vrhonik dirige a  Orquestra e Coro  Carinthian Baroque Orchestra Concertino (Spalla): Pianista: Alina Kolomiets.
"O magnífico movimento de abertura da cantata de J.S. Bach,  Singet dem Herrn ein neues Lied (Cantai ao Senhor um cântico novo), BWV 190,  captura a alegria explosiva, a grandiosidade arquitectónica e a profundidade espiritual de uma das criações mais festivas de Bach, composta especificamente para as celebrações de Ano Novo. 
Bach tinha uma ambição  com esta obra, em Leipzig . O compositor  apresentou  a Cantata BWV 190 pela primeira vez em 1 de Janeiro de 1724, o seu primeiro Ano Novo em Leipzig. Para compreender a força desta música, é preciso entender o momento. A Pressão do primeiro "Jahrgang" .  Bach era Thomaskantor (1)  há apenas sete meses. Tendo passado do serviço na corte em Köthen para a agenda extenuante da igreja luterana, enfrentava uma imensa pressão do público, do conselho da cidade e das autoridades teológicas. Esta obra de grande escala, com trompetes e tímpanos, foi uma declaração definitiva da sua supremacia e autoridade artística. 
O Quadro Litúrgico é  a Festa do Santo Nome. O dia 1 de Janeiro é também a Festa do Nome de Jesus. Todo o conceito da cantata está permeado pelo simbolismo do Nome. Para o crente daquela época, entrar num ano novo incerto — repleto de guerras ou pragas potenciais — só era possível no "Nome de Jesus".  A música aqui serve não apenas como prazer estético, mas como um escudo espiritual para o futuro. 
O Coro de Abertura é  um Triunfo da Polifonia O movimento de abertura é uma obra-prima estrutural de polifonia simultânea, combinando dois mundos musicais inteiramente diferentes num todo coerente. O Chamado Bíblico (O Presente): O coro canta energicamente o texto do Salmo 149 num ritmo dançante: "Singet dem Herrn ein neues Lied" (Cantai ao Senhor um cântico novo). Esta música, cheia de impulso rítmico, simboliza a alegria e a antecipação do futuro. A Fundação Litúrgica (A Eternidade): Simultaneamente, embutida na textura orquestral e vocal como um rio poderoso, encontra-se na antiga melodia (cantus firmus) do Te Deum alemão – o coral luterano "Herr Gott, dich loben wir" (Senhor Deus, nós Te louvamos). 
Ao unir o "Cântico Novo" com o "Velho Hino" estabelecido, Bach simboliza musicalmente uma verdade profunda: só caminhamos seguros para o futuro desconhecido se nos apoiarmos na fé estabelecida do passado. 
A Cantata BWV 190 carrega uma história dramática. É um milagre de reconstrução. O manuscrito original dos dois primeiros movimentos foi danificado e parcialmente perdido ao longo dos séculos. O que  se ouve é o resultado de uma meticulosa reconstrução musicológica. As partes que faltavam para três trompetes, tímpanos e três oboés foram reescritas com base nas regras estritas do contraponto e harmonia de Bach, restaurando a obra ao seu pleno esplendor barroco."

(1)Thomaskantor (Cantor de São Tomás) é o nome comum dado ao director musical do Thomanerchor Leipzig, um coro de rapazes de renome internacional fundado em Leipzig em 1212. O título histórico oficial do Thomaskantor em latim, Cantor et Director Musices, descreve as duas funções de cantor e director. Como cantor, preparava o coro para as apresentações em quatro igrejas luteranas: Thomaskirche (São Tomás), Nikolaikirche (São Nicolau), Neue Kirche (Igreja Nova) e Peterskirche (São Pedro). Como diretor, organizava a música para eventos da cidade, como eleições municipais e homenagens. Os eventos relacionados com a universidade aconteciam na Paulinerkirche. 
J.S. Bach foi o Thomaskantor mais famoso, de 1723 a 1750.
Leipzig possui uma universidade que remonta a 1409 e é um centro comercial, tendo acolhido uma feira comercial mencionada pela primeira vez em 1165. A cidade tem sido predominantemente luterana desde a Reforma Protestante. O cargo de Thomaskantor na época de J.S. Bach foi descrito como "um dos mais respeitados e influentes cargos musicais da Alemanha protestante".