domingo, 18 de maio de 2025

Ao Domingo Há Música


Hum Hum Hum Hum
Sou que nem água 
Solta no chão
Danço nas asas
De um furacão 
Esta é a minha casa 
Eu sigo o destino
Eu sou a estrada 
 Eu sou, Eu sou, Eu sou  

Nem sempre as canções  se impõem  pelas palavras rebuscadas que possam ter. Insinuam-se , por vezes , apenas por uma pequena palavra que legenda um som e nos impulsiona para lá do momento. É o que pretendem as canções que seleccionámos , cantadas em português.

Gisela João, em Que Amor Não Me Engana , do Álbum Inquieta. Canção de José Afonso.
   
 Buba Espinho e Bandidos do Cante, em É Tão Grande o Alentejo.
   
 Calema e Sara Correia, em Respirar.
 
Sílvia Pérez Cruz e Salvador Sobral, em Hoje já não é tarde. Música e letra de Luísa Sobral.
 

sábado, 17 de maio de 2025

A indiferença num povo livre

A indiferença num povo livre
por Antero de Quental
"Um dos piores sintomas de desorganização social, que num povo livre se pode manifestar, é a indiferença da parte dos governados para o que diz respeito aos homens e às cousas do governo, porque, num povo livre, esses homens e essas cousas são os símbolos da actividade, das energias, da vida social, são os depositários da vontade e da soberania nacional.
Que um povo de escravos folgue indiferente ou durma o sono solto enquanto em cima se forjam as algemas servis, enquanto sobre o seu mesmo peito, como em bigorna insensível se bate a espada que lho há-de trespassar, é triste, mas compreende-se porque esse sono é o da abjecção e da ignomínia.
Mas quando é livre esse povo, quando a paz lhe é ainda convalescença para as feridas ganhadas em defesa dessa liberdade, quando começa a ter consciência de si e da sua soberania... que então, como tomado de vertigem, desvie os olhos do norte que tanto lhe custara a avistar e deixe correr indiferente a sabor do vento e da onda o navio que tanto risco lhe dera a lançar do porto; para esse povo é como de morte este sintoma, porque é o olvido da ideia que há pouco ainda lhe custara tanto suor tinto com tanto sangue, porque é renegar da bandeira da sua fé, porque é uma nação apóstata da religião das nações - a liberdade!"
1862 
Antero de Quental, in Prosas da Época de Coimbra, Livraria Sá da Costa Editora, Abril de 1982

sexta-feira, 16 de maio de 2025

Vem comigo

O poema vai na direção do outro. Ele espera juntar-se entregue e desocupado. A obra solitária do poeta escarificando a matéria preciosa das palavras é o acto de expulsar um face a face. O poema torna-se diálogo – ele é frequentemente diálogo perdido,… reencontra, caminhos de uma voz para um tu vigilante.
                              Emmanuel Levinas

Eternidade

Vens a mim
pequeno como um deus,
frágil como a terra,
morto como o amor,
falso como a luz,
e eu recebo-te
para a invenção da minha grandeza,
para rodeio da minha esperança
e pálpebras de astros nus.

Nasceste agora mesmo. Vem comigo.
Jorge de Sena, in Perseguição, Tipografia Atlântida, de Coimbra, 1942

Sem data

Esta voz com que gritei às vezes
não me consola de só ter gritado às vezes.
Está dentro de mim como um remorso, ouço-a
chiar sempre que lembro a paz de segurança estulta
sob mais uma pedra tumular sem data verdadeira.
Quando acabava uma soma de silêncios,
gritava o resultado, não gritava um grito.
Esta voz, enquanto um ar de torre à beira-mar
circula entre as folhas paradas,
conduz a agonia física de recordar a ingenuidade.
Apetece-me explicar, agora, as asas dos anjos.

27/1/42

Jorge de Sena, in Perseguição, Tipografia Atlântida, de Coimbra, 1942

quinta-feira, 15 de maio de 2025

Guerras


1ª Guerra Mundial ,(1914-1918)

1ª Guerra Mundial ,(1914-1918)
GUERRAS, GUERRAS, GUERRAS
por Eugénio Lisboa
 
Either man will abolish war,
or war will abolish man.
       Bertrand Russell
 
"A primeira guerra mundial (1914 – 1918) foi uma medonha carnificina, com a qual todos perderam, vinte milhões morreram, entre militares e civis, imensos ficaram mutilados, física e mentalmente, e alguns de boa vontade acharam que este açougue iria servir de vacina contra futuros holocaustos, porventura mais mortíferos. Outros, até, que tinham experimentado o odor fétido da podridão dos cadáveres, nesses esgotos, que eram as trincheiras, infectadas por ratos e piolhos (Barbusse, Vercel, Dorgelès, Remarque, Duhamel, este, como médico), escreveram assinaláveis e inesquecíveis livros, com o objectivo de imprimirem, com vigor, nos imaginários atormentados dos sobreviventes, a recordação do horror que convinha, para todo o sempre, evitar. Jean Giono, grande romancista francês, enorme prosador e destemido ser humano incapaz de matar, andou, contra toda a probabilidade, quatro anos daquela guerra, persistentemente vivo e de espingarda ao ombro, recusando-se a disparar um tiro fosse contra quem fosse. Da sua companhia, sobreviveu ele e o capitão da mesma. Dos seus admiráveis Écrits Pacifistes, extraio esta curta e impressiva passagem: “Eu não consigo esquecer a guerra. Gostaria de a esquecer. Passo, por vezes, dois dias ou três sem pensar nisso e, bruscamente, revejo-a, sinto-a, oiço-a, sofro-a mais uma vez. E tenho medo. Esta noite é o fim  de um belo dia de Julho. A planície, lá em baixo, tornou-se completamente arruivada. Vamos cortar o trigo. O ar, o céu, a terra estão imóveis e calmos. Passaram-se vinte anos. E, vinte anos depois, apesar da vida, das dores e dos momentos de felicidade, não me sinto lavado da guerra. O horror desses quatro anos está sempre comigo. Trago comigo a marca deles. Todos os sobreviventes carregam essa marca.” A marca foi de tal fundura, que Giono jurou nunca mais participar em guerra nenhuma e cumpriu-o. E pagaria a factura pesada por ter recusado fazê-lo, por ocasião da segunda guerra mundial, não tendo esquecido os horrores da primeira: REFUS D’OBÉISSANCE!
Roger Martin du Gard que acabara de ter um respeitável mas modesto triunfo com a publicação do seu romance JEAN BAROIS, no ano anterior, e viria a celebrizar-se com a sua admirável saga familiar, LES THIBAULT, fez a guerra no serviço de ambulâncias, isto é, recolhendo os feridos, estropiados e moribundos, sinistro corolário do pior que a aventura humana tem a oferecer: a guerra, como pífia e mortífera forma de solucionar conflitos de interesses. O contacto quotidiano com essa paisagem de um absurdo goyesco e sangrento, fá-lo-ia, como a Giono, considerar que a guerra era o mal absoluto, não a aceitando, em situação nenhuma, como solução de desentendimentos. E manteve esta resolução, mesmo durante os primeiros tempos da guerra contra Hitler. E só, quando informações fidedignas lhe chegaram ao conhecimento, sobre o que o nazismo significava, decidiu que este talvez viesse a provar ser um mal ainda superior à guerra.
Duhamel, médico e escritor e amigo de Martin du Gard, de asa também ferida, ao contacto com os mutilados e moribundos do conflito, escreveria páginas alucinantes sobre aquele horrível sorvedouro de sangue. A Europa terá, ali, perdido milhares de promissores talentos, pondo fim à sua supremacia no mundo. E terá perdido, até, alguns homens de génio, ainda em embrião. É que a guerra tem só uma virtude: é democrática, mata, por igual, imbecis e homens de valor. A guerra não é EXCLUSIVA, pelo contrário, é assombrosamente INCLUSIVA.
Seja como for, um punhado de homens, um pouco por toda a parte, tentaram dar ardente testemunho de todos aqueles horrores, para tentar que aquela guerra fosse a última das guerras. Porém, vinte anos depois, a humanidade estava envolvida noutra ainda mais mortífera. Será que o inferno não ensina a evitá-lo? Vivemos actualmente, com um sinistro magarefe aqui à porta, que a pretexto de históricos sonhos imperialistas e saudoso do tempo de um império assassino e cheio de boa consciência, encetou uma violação do direito internacional, invadindo um vizinho que o incomodava e dava jeito incorporar no seu seio ansioso por maior volume. Há quem, no Ocidente, use de uma filologia enviesada e assaz masoquista, para justificar todas as agressões, violações e genocídios de um agressor que é alegadamente “pessoa de bem”. Talvez valesse a pena reeditar e mantê-las no mercado, bem à vista, as obras de autores que souberam dar veemente notícia dos horrores da guerra.”
Eugénio Lisboa, 08.10.2023

quarta-feira, 14 de maio de 2025

Um poema e um abraço


Dai-me um nome

Dai-me um nome, um só nome
para tudo quanto voa:
cardo pedra romã.

Um só nome, para o desejo
ser na manhã corola
de cal, cotovia,

chama subindo
baixando até ser incêndio
de amor rente ao chão.

Um só nome para que tudo,
rosa excremento mar,
possa entrar numa canção.
Eugénio de Andrade, in Os Lugares do Mundo, Assírio &  Alvim Editores, Junho de 2013, p.13
Dá-me um abraço - Miguel Gameiro
Dá-me um abraço

Dá-me um abraço que seja forte
E me conforte a cada canto
Não digas nada, que nada é tanto
E eu não me importo

Dá-me um abraço, fica por perto
Neste aperto, tão pouco espaço
Não quero mais nada, só o silêncio
Do teu abraço

Já me perdi sem rumo certo
Já me venci pelo cansaço
E estando longe
Estive tão perto
Do teu abraço

Dá-me um abraço, que me desperte
E me aperte, sem me apertar
Que eu já estou perto, abre os teus braços
Quando eu chegar

É nesse abraço que eu descanso
Esse espaço que me sossega
E quando possas dá-me outro abraço
Só um não chega

Já me perdi sem rumo certo
Já me venci pelo cansaço
Estando longe
Estive tão perto
Do teu abraço

Já me perdi sem rumo certo
Já me venci pelo cansaço
E estando longe
Estive tão perto
Do teu abraço

Já me perdi sem rumo certo
Já me venci pelo cansaço
E estando longe
Estive tão perto
Do teu abraço

Estando longe
Estive tão perto
Do teu abraço
Miguel Gameiro

terça-feira, 13 de maio de 2025

Ave Maria

Nossa Senhora de Fátima
Neste dia , 13 de Maio, é festejado, em Portugal , o dia de Nossa Senhora de Fátima.  Acorrem a essa localidade milhares de católicos  , enchendo uma praça em fervorosa manifestação de fé .
Existem uma  variedade de composições dedicadas a Maria , ou seja , uma série de Ave Maria  , publicada, ao longo dos anos, pelos  mais recentes  compositores de música ligeira e popular aos mais célebres compositores de música clássica. 
Eis algumas  dessas belíssimas "Ave Maria", interpretadas por grandes vozes. 
 
Amália Rodrigues, em Ave Maria fadista, com Letra de  Gabriel de Oliveira e Música de Francisco Viana ( Vianinha ).
 
Maria Bethânia, em Ave Maria no Morro (Jayme Redondo e Vicente Paiva).
 
1 - Elina Garanca em Ave Maria, de Pietro Mascagni. Esta peça, originalmente conhecida como Intermezzo Sinfonico, faz parte da Cavalleria Rusticana de Pietro Mascagni.
Cavalleria rusticana é uma ópera num acto único de Pietro Mascagni, estreada em 17 de Maio de 1890 no Teatro Costanzi, em Roma. 
2 - Elina Garanca, em Ave Maria, de William Gomez.
Esta Ave Maria foi concebida pelo compositor e virtuoso de guitarra clássica William Gomez, nascido em Gibraltar em 1939. A composição, comumente chamada de Ave Maria de Gomez foi posteriormente arranjada para orquestra por um conterrâneo , o maestro Karel Chicon, e foi cantada pela mezzo-soprano Elina Garanca, esposa do maestro, em vários concertos sinfónicos. Desde a sua apresentação com orquestra e solista, a música alcançaram  admiradores por todo o mundo.
   
Andrea Bocelli, em Ave Maria, de Gullio Caccini, acompanhado pelos coros e Orquestra da Academia Nacional de Santa Cecília, sob a direcção do Maestro Myung-Whun Chung. 
Ária extraída do Álbum Sacred Arias. Na realidade, não foi Gullio Caccini (1551-1618) quem a compôs, mas Vladimir Vavilov (1925-1973) quem editou e registou a sua composição como obra anónima em 1970 e a publicou por si próprio. Gravou-a na editora Melodia em 1972. Foi popularizada por Andrea Bocelli e especialmente pela soprano letã Inessa Galante, que a gravou em 1995.
 
Aida Garifullina, em Ave Maria , de Franz Peter Schubert , compositor austríaco, 1797- 1828 .
   
A beleza da actriz  Olivia Hussey, em Ave Maria , de Michat Lorenc (compositor polaco, nascido em 1955), na minissérie (Inglesa e italiana) Jesus of Nazareth (1977).
  
Luciano Pavarotti , em  Ave Maria {Bach / Gounod}.
Ave Maria é uma oração celebrada nas culturas de origem latina. O compositor romântico francês Charles Gounod sobrepôs a sua melodia a uma versão ligeiramente modificada do Prelúdio nº 1 em Dó Maior, do compositor alemão Johann Sebastian Bach. Esta peça foi publicada em 1853 com o nome "Méditation sur le Premier Prélude de Piano de S. Bach". A composição original de Bach data de 1722.
 

segunda-feira, 12 de maio de 2025

Pensamento do dia

Patriotismo e Governo
[ 1900]
III
por  Lev Tostoi
 " As classes governantes têm nas suas mãos  as tropas, o dinheiro, a escola, a religião, a imprensa. Nas escolas  atiçam nas crianças o patriotismo, com histórias que descrevem o seu povo como o melhor de todos os povos e sempre justo; atiçam nos adultos esse mesmo sentimento por meio de espectáculos, solenidades , monumentos , de uma imprensa patriótica mentirosa; acima de tudo , atiçam o patriotismo praticando toda a espécie  de injustiças e brutalidades contra outros povos, despertam neles a hostilidade contra o seu próprio povo e usam depois essa hostilidade para excitar a hostilidade no seu próprio povo."
Lev Tolstoi, in Os Últimos Escritos , Relógio D'Água Editores, Setembro 2018, p 74

domingo, 11 de maio de 2025

Ao Domingo Há Música

Maison

Où va-t-on ?

Quand on n’a plus de maison ?

Les fleurs sous le béton,

Maman,

Dis-le-moi,

Où va-t-on ? 


Est-ce qu’un jour on sait vraiment ?

Ou est-ce qu’on fait semblant, tout le temps ?

Où va le cœur quand il se perd ?

Dans les doutes et les hivers ?

Pourquoi les jours se ressemblent ?

Est-ce qu’on finit par voir ce qu’on assemble ?

Maman, dis-le-moi.


Au-delà,

De l’orage il y a

De l’amour, de l’amour, de l’amour,

Quand le ciel s’ouvre,

Tout redevient calme

Et tout va bien.


Où va-t-il ?

Le bonheur, ce fil fragile,

Quand il vacille et se brise ?

Maman, dis-le-moi,

Où va-t-il ?


Pourquoi le monde semble si grand,

Quand on devient un peu plus grand qu’avant ?

Que deviennent les rêves qui s’enfuient ?

Et les souvenirs qu’on oublie ?

Est-ce que j’aurai toujours des questions ?

Peut-être que j’en ferai des chansons.

Maman, dis-le-moi.


Au-delà,

De l’orage il y a

De l’amour, de l’amour, de l’amour,

Quand le ciel s’ouvre,

Tout redevient calme

Et tout va bien.

Lili Poe


Há dias e dias. Uns inspiradores, outros cinzentos e ainda outros que nada são . Cumprem-se porque o calendário o obriga. Mas,  se  o mundo e a vida têm de ser compostos de mudança, como  dizia o poeta,   há dias que nos arrebatam por um simples estímulo. E esse pode ser a música. E nela, uma voz , um som , um compasso ou tudo o que explode em harmonia e sonoridade. Assim é, quando as vozes  se expandem na sua beleza pura  , de uma musicalidade natural e mágica. Foi por elas que aqui venho para partilhar três grandes vozes  que me encantaram. 
Que vos encante também.

Emilio Piano ft. Lucie  , em Maison.
Music: Emilio Piano, Wojciech Urbański, Lili Poe, Józef RusinowskiLyrics: Lili Poe Strings: AUKSO Chamber Orchestra of the City of Tychy under the direction of Marek MośCello solo: Joanna Urbańska-MiksztaOrchestration: Krzysztof FalkowskiStrings recording & mix: Krzysztof Kurek Vocal recording engineer: Julien SabourinSound editing: Łukasz Palkiewicz, Dawid PłonkaMix/mastering: Marcin CisłoMusic producer: Wojciech Urbańsk

 Emma Kok,  aos 16 anos, em  Voilà, na  German ZDF TV Fundraiser 'Ein Herz Fur Kinder'.
   
Amira Willighagen , em  Your Love ( "Once Upon A Time In The West") Dec. 2nd 2017 Amira interpreta  Your Love, tema do filme "Era Uma Vez No Oeste", composto por Ennio Morricone. É acompanhada pela Metropole Orchestra e pelo Inspirational Community Gospel Choir. Este vídeo foi gravado pela emissora pública holandesa Omroep MAX para o  espetáculo anual MAX Proms. Gravado a 2 de Dezembro de 2017 em Utrecht (Holanda) e transmitido a 25 de Dezembro.