domingo, 27 de abril de 2025

Ao Domingo Há Música


Reflexão em Tempo de Guerra

 E se o homem tivesse aprendido,
ao longo dos anos que passaram,
que todo o esforço despendido,
em guerras e lutas que massacraram
 
os campos, populações e riquezas,
e, com tudo isso, nada ganharam,
a não ser fome, pestilência e pobreza,
as quais, por todo o lado, devastaram
 
os ganhos que antes tinham valido
uma vida de paz e bem murada
– não seria bom tê-lo aprendido?
 
Será que uma vida ordenada
e calma é difícil de haver?
Estará além do nosso poder?
                    10.03.2022
Eugénio Lisboa, in Poemas em tempo de guerra suja, Guerra & Paz Editores, Setembro de 2022, p.25



Matei o meu Inimigo

Andei perdido na guerra,
procurando o inimigo:
vasculhei toda a terra,
de abrigo em abrigo.
 
Como seria o seu rosto?
Como se comportaria?
Seu ódio estaria exposto?
Que faria? Correria?
 
Matar-me-ia com fúria?
Matá-lo-ia com medo?
Gritaria uma injúria?
Um de nós, trinchado e quedo?
 
Empalei-o e abracei-o,
colocando-o no chão.
Com cuidado, observei-o:
era, horror!, o meu irmão!
                27.03.2022
Eugénio Lisboa, in Poemas em tempo de guerra suja, Guerra & Paz Editores, Setembro de 2022, p 44

Transcrevem-se este dois poemas de Eugénio Lisboa, para introduzir o tema musical deste domingo, - um fervoroso apelo à paz. Quer nos poemas quer na composição musical é impossível não sentir compaixão perante o flagelo da guerra, da mortandade do Homem.
Eis essa singular e belíssima peça , que nunca cessa de nos comover com superlativa intensidade.  Fosse ela capaz de comover e pacificar o mundo inteiro.

Benedictus, de  Karl Jenkins - A meditation for peace and an open heart, com Karl Jenkins a reger a London Philharmonic Orchestra, Mike  Brewer o National Youth Choir of Great Britain e Guy Johnston, no violoncelo.
A música sublime do Benedictus, de Karl Jenkins, é um belo apelo à paz e a um coração aberto... “Benedictus” é o 12º andamento da sua obra muito maior "O Homem Armado", que tem como subtítulo "Uma Missa pela Paz". 
 "The Armed Man" é essencialmente uma peça anti-guerra escrita pelo compositor galês em 1999 e originalmente dedicada às vítimas da crise do Kosovo. Combina textos do Ordinário da Missa com outras fontes religiosas e históricas, incluindo o apelo islâmico à oração, a Bíblia (por exemplo, os Salmos e o Apocalipse) e o Mahabharata. Os escritores cujas palavras aparecem na obra incluem Rudyard Kipling, Alfred Lord Tennyson e Sankichi Toge, que sobreviveu ao bombardeamento de Hiroshima, mas morreu mais tarde de leucemia. “Benedictus” é a palavra latina para “bênção”
O vídeo é de Jonathan Van Valin em https://www.AssistTheSpirit.com.

 

sábado, 26 de abril de 2025

Um Adeus ao Papa Francisco

Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo! Conforme a sua grande misericórdia, ele nos regenerou para uma esperança viva, por meio da ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, 
1 Pedro 1:3 
 
 Papa Francisco, na Praça de S. Pedro , em  2021, 
durante a pandemia, para celebrar a missa .


Neste dia, gostaria que todos nós renovássemos a esperança e renovássemos a nossa confiança nos outros, incluindo aqueles que são diferentes de nós, ou que vêm de terras distantes, trazendo costumes, modos de vida e ideias desconhecidos! Pois todos somos filhos de Deus.
Gostaria que renovássemos a nossa esperança de que a paz é possível, escreveu o Papa Francisco.




A Basílica de Santa Maria Maggiore  que  o  Papa Francisco escolheu e onde será hoje  sepultado. 

sexta-feira, 25 de abril de 2025

Contar de Abril

CONTAR DE  ABRIL
por Baptista-Bastos
" Contarás de Abril o assombro, o desassossego, as súbitas visões de beleza longamente sonhadas, o assanhamento da hora vesperal; o renascer, meu e teu. Contarás de Abril instantes serenos, salivados de paz, o perfil de casas, as ruas  docemente nossas que rimam connosco, as ternuras vagabundas, a utilidade dos gestos, o murmúrio discreto e comovido. Contarás de Abril instantes serenos, salivados de paz, o perfil de casas, as ruas docemente nossas que rimam connosco , as ternuras vagabundas, a utilidade dos gestos, o murmúrio discreto e comovido. Contarás de Abril os gritos, as imprecações, as cóleras, o idioma ressurecto na fraternidade de frases efusivas, no estertor. Contarás de Abril aquele haver viagem, aquele cheiro antigo de chuva de infância, a peca sombra, o chouto curto, o bêbado de rua que te assustou, temulento, a frugal manhã. Contarás de Abril o lado esquerdo da madrugada; cíclicos, os sismos: o chão em fissuras laceradas; de vagarosa, a capa da terra a recobrir o oco, as galerias naturais do ódio, onde rebramia o mar, sobre o qual haviam colocado o pinho e pedra e reconstruído a cidade, longa história de uma frustração. Contarás de Abril, os passos. Contarás de Abril , os sons , ínsitos na paisagem nocturna, nas betesgas. Contarás de Abril que me viste trajado de briche e holandilha, seteira ao ombro, num baixel de antigamente, soletrando palavras felizes, sem direcção nem sentido, como tudo o que é feliz. Contarás de Abril, aos meus filhos, filhos teus, que os meus olhos míopes, ardidos, urbanos, ficaram cheios de um ofício de dizer coisas singelas, humildes e absurdas: como amor, liberdade. Contarás de Abril os idos, e os que voltaram; os que ficaram e ficam. Contarás de Abril as pequenas pilhas de palavras, armazenadas numa necessidade que inventei; e as nossas almas ledas e limpas; e os braços que se estendem a outros abraços; e a cordialidade de anotarmos em nome, um número, uma flor; e os balaios sem reticências de mágoas, cheios, os balaios,  de trissos de aves, de pássaros remotos de que ignorávamos a voz ou havíamos esquecido o toque e a fímbria. Contarás de Abril que na nossa terra já não nos dói a velhice e que os rios são todos nossos e íntimos e claras e livres. Contarás de Abril a espessura mágica, o punho reflexo, o dia de água, a lágrima, a vontade de sermos e de estarmos, o límpido grito, a forma inconsútil, o beijo proliferante, o vermelho e a brisa, as bambilenas vagantes nos sopros, o livor das coisas, a maravilha discreta de assear a vida, o caminhar, os semideiros, os rostos nesta dócil pausa e neste imenso perdão. Contarás de Abril as casas de mil sóis, a imponderável descoberta dos sussurros, a brancura inadiável da perseverança, o resplendente varar dos dias, a feira alvoraçada das horas. Contarás de Abril  a visão e o visto. Contarás de Abril as mãos dadas. Contarás de Abril o renascer da essencial frescura.
Contarás de Abril.
Contarás , meu amor." 
Baptista-Bastos , " Contar de Abril", in " ABRIL, ABRIL, Textos de Escritores Comunistas, (DORL)", Edições Avante, Lisboa 1975.
 Revolução

Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta

Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício

Como a voz do mar
Interior de um povo

Como página em branco
Onde o poema emerge

Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação

Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas, Editorial Caminho

Venha Abril

Abril desgosta ainda tanta gente!
A liberdade faz tanto mau sangue!
Por que será que um viver deprimente,
que deixa o espírito exangue,

atrai ainda tanto militante
de causas brutais e assassinas?
O passado não serviu de purgante?
Para que servem as vossa oficinas,

ó poetas que acham que a linguagem
não passa de estéril masturbação
e é só subserviente pajem

dos que preferem castrar a canção?
Venha Abril para nos incomodar
e fazer, mais uma vez, acordar!
            25.04.2023
Eugénio Lisboa, poema inédito


Grândola, vila morena

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina, um amigo
Em cada rosto, igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto, igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola, a tua vontade

Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Zeca Afonso, in “Cantigas de Maio”
Zeca Afonso,  em  Grândola, Vila Morena.

quinta-feira, 24 de abril de 2025

O teu livro

O teu livro
por 
Fiódor Dostoiévski
“Deixa-me dizer-te, meu caro, pode bem acontecer que vás através da vida sem saber que debaixo do teu nariz existe um livro no qual a tua vida é descrita em todo o detalhe. Aquilo do qual nunca te deste conta antes, vais relembrando aos poucos, assim que comeces a ler esse livro, e encontras e descobres… alguns livros tu lês e lês e não lhe consegues encontrar qualquer sentido ou lógica, por mais que tentes. São tão “espertos” que não consegues perceber uma palavra daquilo que dizem… Mas esse livro que talvez esteja logo debaixo do teu nariz, tu lês e sentes-te como se tivesses sido tu próprio a escrevê-lo, tal como – como é que hei-de dizer ? – tal como tivesses tomado posse do teu próprio coração – qualquer que este possa ser – e o tivesse virado do avesso de forma que as pessoas o consigam ver, e descrito com todos os detalhes – tal e qual como ele é! E como isto é simples, meu Deus! Porquê, eu próprio poderia ter escrito este livro! Porquê, de facto, porquê é que eu próprio não escrevi este livro!”
Fiódor Dostoiévski, in Gente Pobre, Editorial Presença

quarta-feira, 23 de abril de 2025

Do livro falemos


"A 23 de Abril de 1616 perderam-se dois gigantes da literatura mundial, dois precursores cuja obra revolucionaria o estilo de escrita e de conceção da criação literária: Cervantes e Shakespeare. Esta coincidência é a razão pela qual o dia 23 de Abril foi escolhido para celebrar o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor.
Ao celebrarmos o livro, celebramos atividades – escrita, leitura, tradução, publicação – através das quais o ser humano se eleva e se realiza; e celebramos, fundamentalmente, as liberdades que as tornam possíveis. O livro é o ponto de encontro das mais essenciais liberdades humanas, nomeadamente a liberdade de expressão e de edição.
Estas liberdades são frágeis. Enfrentam imensos desafios, do questionamento dos direitos de autor à diversidade cultural, passando pelas ameaças físicas às quais estão hoje expostos autores, jornalistas e editores, em muitos países. Estas liberdades continuam a ser negadas, num momento em que são atacadas escolas e destruídos livros e manuscritos.
É nosso dever proteger estas liberdades no mundo inteiro, promovendo a leitura e a escrita para combater o analfabetismo e a pobreza, fortalecer os baluartes da paz bem como proteger e valorizar as profissões e os profissionais do livro."
Direcção Geral da UNESCO


Do livro falemos

Um livro torna-me muito mais livre.
Um livro abre-me imensas portas.
Antes do livro, era semilivre.
Sem livro, as portas estavam tortas

e não abriam. Mas os livros abrem
portas, mesmo se tortas, porque sabem
endireitar tudo o que está torto
e ressuscitar tudo o que está morto.

Porque o livro tem vida e saber
e, muitas vezes, tem até sabor.
O saber dá-nos imenso poder

e o sabor dá-nos muito prazer!
O livro sabe, pode e contenta,
condimentado com sal e pimenta!
            02.11.2022
Eugénio Lisboa, in Soneto , Modo de Usar, Editora Guerra & Paz, Abril de 2024, p 82
Sou uma leitora completamente dependente desse vício impune que é a leitura. Tenho uma biblioteca razoável com milhares de livros. Leio e releio com prazer desmedido esses livros , embora me surpreenda com alguns tesouros que , na gula incontinente da compra, não tive tempo de ler . Alguns descubro, num golpe esporádico de sorte, alinhados à sombra de outros, já saboreados em devido tempo. Outros há que se acotovelam numa mesa, à espera de uma voraz disponibilidade de consumo, para que se não confundam com todos os outros já degustados e bem arrumados pelas prateleiras.
Talvez para aqueles, que visitam este blog, não seja uma surpresa este gosto infindo pelos livros. Foram os livros que possibilitaram a criação e manutenção deste espaço. Vive de leituras e da aprendizagem que delas ficaram. Renova-se e enforma-se de outras numa consanguinidade quase pura e impertinente. E, por isso, vos recomendo, de novo, a leitura  desse maravilhoso Manual , um cânone para o leitor relutante , Vamos Ler,  de Eugénio Lisboa, que pretende ser o guia  para aquele que vai iniciar-se nos prazeres infindos da leitura, da descoberta do Mundo dos Livros.
Na perspectiva do editor, Manuel Fonseca , se ele pudesse escolher os pontos fortes deste livro, sublinharia três 
1 .  É um pequeno cânone da literatura portuguesa que propõe a todos os leitores, mesmo aos que dizem não gostar de ler, os 50 livros e 35 autores portugueses com que vale a pena começar.
2. É um cânone diferente dos outros. Além dos leitores fiéis, que vão delirar com as pequenas provocações, o livro quer sobretudo oferecer um cânone a quem quer começar a ler ou mesmo ao leitor irregular.
3. Este é um livro que vive a literatura e a leitura com alegria e nos propõe livros cuja leitura nos oferece viagens de prazer e de grande emoção.

Celebrar o livro é , pois, mergulhar nele por milhares de razões , mas a mais importante está nestas palavras que  Eugénio Lisboa teceu no seu precioso cânone " Vamos Ler":
«A leitura é, para os grandes leitores, um prazer, uma instrução e uma terapêutica… não há dúvida de que a grande literatura nos abre grandes e novas perspectivas sobre o mundo em que vivemos: fala-nos de lugares e de pessoas, de ideias e de emoções, de conflitos humanos e de aventuras que nos enriquecem.»

terça-feira, 22 de abril de 2025

Relembrar Francisco

Papa Francisco cumprimenta à chegada da audiência geral semanal
 na Praça de São Pedro, Vaticano, 15 de Novembro de 2023
© Gregorio Borgia/Copyright 2022 The AP. All rights reserved

Francisco foi o primeiro papa latino-americano
por Luciana Taddeo Derla Cardoso e Felipe Pereira
"Argentino Jorge Mario Bergoglio tinha como foco os pobres, os refugiados e o combate à crise climática 
Jorge Mario Bergoglio nasceu, no seio de uma família de origem italiana, no dia 17 de dezembro de 1936, em Buenos Aires. Era o mais velho de cinco filhos e foi criado no bairro portenho de Flores.   
Até se tornar pontífice, ele percorreu um longo caminho na Igreja Católica, foi arcebispo na capital argentina e marcou a história do país.  
Como seus avôs sempre conversavam no idioma nativo, ele afirma que o piemontês, dialeto italiano, foi sua língua materna. Esse era apenas um dos seus vínculos com a Europa: as notícias da Segunda Guerra Mundial na rádio e a reação dos pais ao escutarem sobre as atrocidades de Adolf Hitler o marcaram quando pequeno. 
Mas a infância de Bergoglio, no bairro portenho de Flores, foi profundamente argentina. Todos os domingos, ele ia com toda a família assistir aos jogos do San Lorenzo de Almagro, clube no qual o pai jogava basquete e do qual ele se tornou admirador apaixonado. 
O clube foi fundado por Lorenzo Massa, um padre. Ele também frequentava a missa com a avó Rosa na Basílica de San José de Flores e estudou em algumas escolas católicas. No internato salesiano, aos 12 anos, sentiu pela primeira vez a vocação sacerdotal. 
Na autobiografia “Vida – Minha História Através da História”, lançada em Abril de 2024, Francisco conta que chegou a conversar com um padre do internato sobre isso e fez algumas perguntas, mas que o desejo permaneceu adormecido, até se manifestar definitivamente nos anos 1950. 
Ele conta, inclusive, que chegou a ter uma namorada. Bergoglio a descreve como “uma menina muito doce, que trabalhava no mundo do cinema e que depois casou-se e teve filhos”. 
Depois dela, já no seminário, ele teve “uma pequena paixão”. “É normal, ou não seríamos seres humanos”, explicou no livro, relatando que a conheceu no casamento de um tio e ficou encantado.   
“Ela virou a minha cabeça com a sua beleza e inteligência. Por uma semana, fiquei com a sua imagem na mente, e foi difícil conseguir rezar! Depois, felizmente, passou e me dediquei de corpo e alma à minha vocação”, relata, qualificando o episódio como uma “provação”.  
Na adolescência, Bergoglio formou-se em técnico em química pela Escola Técnica Industrial e chegou a fazer estágio num laboratório de análises químicas. 
Mas em 21 de setembro de 1953, quando estava a caminho de um encontro com amigos para um piquenique, sentiu necessidade de entrar na Basílica de Flores, que costumava frequentar. 
Durante a confissão, ele conta que “algo estranho aconteceu”, mudando a sua vida para sempre: “Eu estava maravilhado por ter encontrado Deus subitamente. Ele estava lá me esperando, antecipou-se a mim”, descreveu na sua autobiografia. 
“Mais do que um piquenique com os amigos! Eu estava vivendo o momento mais bonito da minha vida, estava me entregando totalmente nas mãos de Deus!”, detalhou no livro. 
Francisco não falou com ninguém da família do chamamento para o sacerdócio até obter o seu diploma. Também não contou para os amigos, com os quais jogava bilhar, falava de política e dançava tango. Mas em 1955, quando já tinha que escolher a faculdade, decidiu conversar com o pai. 
Segundo Francisco, ele ficou contente. O temor era contar para a mãe. “Sabia que ela não aceitaria minha escolha, e por isso, inventei que estudaria Medicina”, explicou. Mas um dia, limpando a casa, ela viu os seus livros de teologia, e não aceitou bem a revelação. 
Apesar do pedido materno para que ele fizesse uma faculdade e depois decidisse, Bergoglio entrou no seminário arquidiocesano aos 19 anos. 
Dois anos depois, ainda no seminário, conta que se viu à beira da morte, quando todos os colegas pegaram uma gripe. Todos se curaram, mas a febre dele não cedia.  
“Um dia eu piorei: minha temperatura corporal estava altíssima, e o reitor, assustado, levou-me correndo ao Hospital Sírio-Libanês. Fui diagnosticado com uma séria infecção, e naquele dia tiraram um litro de líquido dos meus pulmões”, contou. 
O pontífice dizia dever a vida à freira italiana Cornelia Caraglio que o acompanhou no hospital e lhe administrou doses de penicilina adicionais , ao perceber que as prescritas pelos médicos estavam baixas demais. 
A recuperação foi longa, e o papa revelou que chegou a preparar-se para morrer. Como resultado da pleurisia, inflamação que atinge as membranas dos pulmões, e a formação de três quistos, Bergoglio teve que retirar o lobo superior do pulmão direito. A intervenção cirúrgica foi com as melhores técnicas da época.  Pode imaginar o tamanho dos cortes e o quanto sofri”, descreveu Francisco sobre o procedimento, realizado em 1957. 
Em 1958, ele entrou no noviciado da Companhia de Jesus. Bergoglio formou-se em Filosofia na Universidade Católica de Buenos Aires, em 1960, e ensinou Literatura e Psicologia no Colégio Imaculada, na Província de Santa Fé, e no Colégio do Salvador, em Buenos Aires.  
Também se formou em Teologia em 1969 e foi ordenado padre aos 32 anos. Emitiu os últimos votos na Companhia de Jesus em 1973. Liderou a comunidade de jesuítas durante a década de 1970, no meio da ditadura militar argentina.   
Por seis anos, até 1986, foi reitor da Faculdade de Filosofia e Teologia de San Miguel.   
Papel na ditadura 
Uma das grandes polémicas que o envolvem refere-se justamente ao seu papel na ajuda a perseguidos políticos da ditadura. Ele chegou a ser acusado, na Argentina, de omissão e até colaboração na prisão dos padres jesuítas Orlando Yorio e Francisco Jalic, em 1976. 
Na sua autobiografia, o papa diz que a acusação é caluniosa e conta que falou com o ditador Jorge Rafael Videla e Emilio Massera, outro líder da junta militar que governava o país, para interceder pelos jesuítas. Eles acabaram soltos após cinco meses de prisão e torturas. 
Ele também relata ter feito contatos para a libertação de outro catequista, e que chegou a ajudar um perseguido parecido com ele a se disfarçar de padre e fugir da Argentina com o seu cartão de identidade. 
“Arrisquei muito daquela vez porque, se o tivessem descoberto, sem dúvida o teriam assassinado e vindo atrás de mim”, contou. 
Naquela votação, quando o seu nome atingiu dois terços das preferências e ele foi aplaudido, o cardeal brasileiro Dom Cláudio Hummes, Arcebispo Emérito de São Paulo, aproximou-se, deu-lhe um beijo e disse: “Nunca se esqueça dos pobres”. 
“Foi ali que escolhi o nome que teria como papa: Francisco”, contou no seu livro. A decisão, tomada após as palavras do brasileiro, foi uma homenagem a São Francisco de Assis, conhecido por ter exercido a vida religiosa na simplicidade e a dedicar - se aos pobres. 
Além de ser escolhido como o primeiro papa sul-americano, Francisco foi o primeiro pontífice não europeu em mais de 1.200 anos, desde o sírio papa Gregório III, que liderou a Igreja Católica entre 731-741. 
Hábitos discretos e posicionamentos fortes 
O Papa Francisco sempre evitava aparições nos media, utilizava o transporte público e não frequentava restaurantes. Porém, tinha opiniões e algumas atitudes consideradas “extravagantes” para a Igreja Católica. 
Como em 2015, quando junto do grupo de rock progressivo Le Orme, lançou um disco chamado “Wake Up!”.  
Em 2019, durante uma visita aos Emirados Árabes Unidos, o papa se encontrou com Ahmed Al-Tayeb, Grande Imã de Al-Azhar, em Abu Dhabi. Eles assinaram o Documento sobre a Fraternidade Humana. 
Francisco convidou os seus clérigos e os leigos para que se opusessem ao aborto e à eutanásia.   
Trabalhou para restaurar a credibilidade do Vaticano, abalada por escândalos financeiros e denúncias de abusos sexuais.   
Em abril de 2014, pediu perdão pelos casos de pedofilia cometidos por sacerdotes da Igreja Católica.  
Foi forçado a reduzir o ritmo das viagens internacionais por causa de fortes dores no joelho direito. Para se poupar, passou a cumprir muitos dos compromissos em uma cadeira de rodas.   
Papa diplomata   
Francisco também tinha um lado diplomata, e usou a influência do Vaticano para tentar ajudar na solução de conflitos.  
Mediou, por exemplo, conversas pela reaproximação entre Estados Unidos e Cuba. Também fez dezenas de apelos pelos direitos dos refugiados e criticou os países que fecharam as portas para os imigrantes.  
Sempre foi um duro crítico da guerra da Ucrânia e chorou em público ao lembrar dos ucranianos que sofriam com a invasão da Rússia. 
E continuou, apesar do agravamento dos problemas de saúde, manifestando preocupação com o bombardeio de civis em Gaza. Mesmo hospitalizado, o Papa continuou fazendo ligações diárias para uma paróquia na região, para acompanhar a situação. 
Com o jeito informal nas palavras e nos gestos, cativou milhões de fiéis. "