segunda-feira, 22 de julho de 2024

Otto René Castillo, poeta e guerreiro guatemalteco

Otto René Castillo
Otto René Castillo, poeta e revolucionário guatemalteco
Quem acede aos registos literários sobre Otto René Castillo depara-se com esta informação: "poeta y revolucionario guatemalteco. Murió asesinado por el ejército de su país el 19 de marzo de 1967 en la Sierra de las Minas."
Manoel de Andrade, poeta brasileiro, que tal como Otto Castillo, viveu a experiência do exílio na América Latina , escreveu um excelente artigo sobre este heróico poeta do qual transcreveremos alguns excertos. " O sonho e o martírio de um poeta" é o título do artigo que faz parte de um extenso livro, sobre as memórias da sua diáspora por um continente mergulhado no despotismo dos "tempos sujos" da ditadura, onde a luta também era feita pelos poetas guerrilheiros. Esse  livro ,"Nos rastros da utopia, uma memória crítica da América Latina, nos anos 70", tornou-se um importante  e valioso documento dessa época  , editado pela Escrituras Editora, em 2014. 


Intelectuais apolíticos

Um dia
os intelectuais
apolíticos
do meu país
serão interrogados
pelo homem
simples
do nosso povo.


Serão perguntados
sobre o que fizeram
quando
a pátria se apagava
lentamente,
como uma fogueira frágil,
pequena e só.

(...)
Ninguém lhes perguntará
sobre suas justificações
absurdas,
crescidas à sombra
de uma mentira rotunda.
Nesse dia virão
os homens simples.
Os que nunca couberam
nos livros e versos
dos intelectuais apolíticos,
mas que vinham todos os dias
trazer-lhes o leite e o pão,
os ovos e as tortilhas,
os que costuravam a roupa,
os que manejavam os carros,
cuidavam dos seus cães e jardins,
e para eles trabalhavam,
e perguntarão,
“Que fizestes quando os pobres
sofriam e neles se queimava,
gravemente, a ternura e a vida?”
Intelectuais apolíticos
do meu doce país,
nada podereis responder.
Um abutre de silêncio vos devorará
as entranhas.
Vos roerá a alma
vossa própria miséria.
E calareis,
envergonhados de vós próprios
Otto René Castillo
Sierra de las Minas, Guatemala

Otto René Castillo: O sonho e o martírio de um poeta
por Manoel de Andrade
"Em meados de 1969, um exilado político guatemalteco me contou, em Santiago do Chile, a incrível história de um poeta queimado vivo em seu país. Em fins de 1970, quando de minha passagem pela Nicarágua, alguns intelectuais de esquerda e militantes sandinistas também comentaram sobre o poeta-guerrilheiro Otto René Castillo, supliciado até a morte pela ditadura da Guatemala, em 1967. Mas foi com os relatos dos poetas salvadorenhos que passei a construir a imagem heroica desse grande revolucionário.
Cheguei em San Salvador em janeiro de 1971 e, pelas referências que levava, de pronto fiz contato com alguns poetas salvadorenhos. A poesia borbulhava na Capital e uma jovem geração de excelentes poetas comandava a vida intelectual do país. Conheci alguns deles, e partilhei bons momentos de literatura, política e debate ideológico com Manlio Argueta, José Roberto Cea, Roberto Armijo, o veterano Tirso Canales e, o mais jovem deles, Alfonso Quijada Urias. Todos, na época, na média dos 30 anos e quase todos, com várias premiações em diversos certames literários centro-americanos. Esses poetas, — integrantes de um grupo de brilhantes poetas, que ficou conhecido como a “Geração Comprometida”— alistaram seus versos nas trincheiras das lutas sociais e muitos deles foram perseguidos, encarcerados, torturados e exilados por empunhar a bandeira de um dos povos mais oprimidos e massacrados da América. Guardo há quarenta anos as palavras fraternas que Tirso Canales escreveu ao me presentear a coletânea poética De aqui em adelante, onde partilha suas 200 páginas com Argueta, Armijo, Cea e Quijada Urias. Foram ele e Manlio Argueta que me falaram da solidária relação ideológica e literária que os ligou a Otto René Castillo em San Salvador, onde chegou exilado, em 1954, após o golpe do coronel Carlos Castillo Armas contra o governo democrático de Jacobo Arbenz, na Guatemala.
Filho de uma família de classe média, Otto René Castillo nasceu em 1936 em Quetzaltenango, a segunda cidade do país. Sua precoce militância estudantil e revolucionária o obriga, com apenas 18 anos, a fugir da Guatemala e asilar-se em El Salvador, onde sobrevive trabalhando como vigia, pintor de parede e vendedor de livros. Apesar das dificuldades, ingressa na Universidade e entra numa fecunda fase de organização política e produção poética, despertando a atenção dos círculos de cultura salvadorenha ao ganhar, com apenas 19 anos, o Prêmio Centro-Americano de Poesia o qual lhe abre as portas da imprensa para a publicação de seus poemas. Sua poesia dessa época traz a marca de uma profunda nostalgia da pátria, cantando a dor de seu povo oprimido e a condição em que sobreviviam as comunidades indígenas, secularmente exploradas pelas oligarquias agrárias e as grandes empresas bananeiras norte-americanas. (...) Apesar da sua juventude, revela-se um intelectual influente, enfatizando a necessidade de engajamento da arte e da literatura com as circunstâncias político-sociais por que passava o cenário centro-americano da época, governado pelos títeres do imperialismo norte-americano como os Somosas, Duvaliers, Trujillos etc. Com esse espírito, desfralda a bandeira da poesia com as cores das lutas sociais, seguindo os sulcos das primeiras trincheiras poéticas abertas no Continente, por César Vallejo, Miguel Hernandez, Nicolas Guillén e Pablo Neruda.
Seus três anos de exílio em El Salvador foram assinalados por uma intensa atividade política e literária. Nesse período, por várias vezes cruzou clandestinamente as fronteiras da pátria para manter-se informado dos planos revolucionários, cujas sementes de justiça social e liberdade germinariam alguns anos depois, nos embates da longa Guerra Civil, que por 36 anos mergulharia o país nas águas sangrentas de um imenso massacre social.
(...) ao terminar seus estudos na Alemanha, regressa em 1964 a seu país, reiniciando sua apaixonada militância política e cultural ao partilhar as atividades clandestinas da luta armada com a direção do Teatro Municipal da Cidade de Guatemala. Contudo, no ano seguinte, quando se preparava para filmar, nas montanhas, as atividades guerrilheiras das Forças Armadas Rebeldes (FAR), é preso e novamente enviado para o exílio. Pela sua capacidade e coerência ideológica, as organizações revolucionárias da Guatemala o nomeiam representante do país no Comitê Organizador do Festival Mundial da Juventude a realizar-se na Argélia e, com essa missão, percorre a Alemanha, Áustria, Hungria, Chipre, Argélia e Cuba, onde se detém por alguns meses a fim de vivenciar toda a rica experiência social e política com que a Revolução Cubana instalava o socialismo no país.(...)ao chegar à Guatemala em 1966, Otto René Castillo retoma a bandeira pela dignidade do seu povo. De uma pátria onde 90% da população não tinha terra para semear sua própria sobrevivência. Uma pátria de excluídos, socialmente abandonados à própria sorte e onde 70% de seus irmãos não aprendera a ler. Ele sabia que sem a guerra ninguém iria repartir a terra e é nesse impasse na história de seu povo que incorpora-se às Forças Armadas Rebeldes (FAR) comandadas por César Montes, ocupando-se do setor de Propaganda e Educação da Frente Edgar Ibarra. Cerca de um ano depois, em março de 1967, quando parte da Frente deslocava-se pelo relevo selvagem, no leste montanhoso do país, confrontou-se com inimigos fortemente armados e, nesse combate, caiu Otto René Castillo e sua companheira, a guerrilheira Nora Páiz. O enfrentamento se deu em Sierra de las Minas, entre a coluna guerrilheira e as tropas mercenárias do governo de Julio César Méndez Montenegro. Conta-se que, nesse embate, somente teria sobrevivido Pablo Monsanto que, cerca de 40 anos depois, disputou, pelas forças de esquerda, a presidência do país."

domingo, 21 de julho de 2024

Ao Domingo Há Música



Tudo no mundo é frágil, tudo passa...
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
           Florbela Espanca, Livro de Sóror Saudade

De  tudo se enche a vida. Frágil, precária compõe-se de  momentos ora de grande força  ora de intensa debilidade  que relegam a certeira finitude de que,  desde o seu devir, vem ferida. E são esses grandes momentos que lhe dão  a cor e o sal  . Entre eles, estão fascinantes momentos  provocados por  vozes de gente que soube dar à música  a  magia , o encantamento  que nunca cessarão  de nos tocar. Uma dessas vozes maiores   foi Luciano Pavarotti ( 1935-2007).  O mundo rendeu-se-lhe e o espólio que lhe deixou continuará a fasciná-lo.
Ei-lo em alguns dos célebres concertos que partilhou com outros cantores amigos.

Zucchero  e Pavarotti , em Miserere. num concerto no  Royal Albert Hall, Londres.
 
 Luciano Pavarotti e  James Brown , em It's A Man's World.
 
Eric Clapton ,  Luciano Pavarotti e  East London Gospel Choir, em  Holy Mother .
 
Luciano Pavarotti  e  Lucio Dalla , em Caruso.
  

sexta-feira, 19 de julho de 2024

Viajar pelo Mundo

 Na viagem, um homem tem de levar consigo saber, se quer trazer saber.
                Samuel  Johnson, James Boswell, Life of Jonhson
 
Around The World 4K - Scenic Relaxation Film .(Filme panorâmico de relaxamento com música calmante.)
" A nossa terra é o lar de inúmeros lugares belos. Desfrute deste filme cénico de relaxamento em 4K com imagens de todo o mundo. Das falésias marítimas das Ilhas Faroé às montanhas da África do Sul, este filme mostra a nossa Terra de um novo ponto de vista. Locais: Venezuela, Ilhas Faroé, Sardenha, Dolomitas, Suíça, Noruega, Havai e África do Sul."

quarta-feira, 17 de julho de 2024

Um mundo para mim II


Chalets da Praia da Polana, Lourenço Marques

Começar (cont.)
por Eugénio Lisboa
“Lembro‑me, lembro‑me...de um mês que passámos na praia, num daqueles chalets baratos, de aluguer, logo no começo da estrada que levava ao Palmar. O meu irmão Fernando fora operado e o médico aconselhara um mês de praia, para recuperar. Como os casinhotos pertenciam à Câmara, o preço era baixíssimo e a minha mãe lá faria a ginástica financeira necessária para aguentar o barco a flutuar (mal). O meu pai ia todos os dias aos Correios e voltava à noite (ele nunca soube o que fossem férias e rosnava quando os seus subordinados as pediam). A vida no pequeno chalet era também uma experiência: não havia quartos, dormíamos todos no chão e gostávamos! Passávamos o dia na praia e grande parte dele dentro de água. Haveria tubarões? Mesmo que houvesse, achávamos que se não viriam meter connosco. Comíamos com um apetite voraz, depois de passeios pelo Palmar, que era, para nós, uma espécie de reinvenção do Paraíso. O oceano atraia‑nos e, ao mesmo tempo, amedrontava‑nos. Certo dia, de maré viva, ficámos dentro do chalet, transidos, perante aquela ameaça monstruosa, mesmo ali em frente, a dois passos de nós. E acabaria por chegar‑nos a notícia de dois irmãos que se tinham metido num barco, para irem à pesca, a cavalo naquelas ondas gigantescas. Acabaram devorados por uma onda maligna e monstruosa. O pavor da notícia quase destruiu a magia das férias. De repente, a praia, o chalet, a alegria das refeições, a vitalidade dos corpos – tudo se iluminou de uma luz sinistra. Nada era seguro, nada duraria, éramos umas pobres jangadas mal aviadas e vulneráveis à violência infame do oceano encolerizado. A vida aconchegada com a família e os amigos era boa mas estava ameaçada.
O poeta americano Carl Sandburg diz, do mar, uma coisa terrível, que eu, naquela altura, não conhecia, mas que exprime muito bem aquilo que então sentia: “O mar”, dizia ele, “fala uma língua que as pessoas bem educadas não repetem. É um calão de colossal hiena, sem respeito por ninguém.” Olhava‑se para aquelas ondas gigantes e percebia‑se que, com aquilo, não havia diálogo possível. Nem pedido humilde nem oração (para os crentes) que pudesse valer. Aquilo saía para fora da nossa compreensão. Tinha aparecido de repente, sem aviso, uma massa gigantesca e boçal, feroz e impiedosa. Vinha de propósito para nos desarrumar certezas e, desapiedadamente, destruir o prazer de existir. O Índico zangado e de dimensões obscenas foi uma das mais cruéis revelações da minha infância. Quando aquilo acabou, dirigi‑me à praia, tacteando a areia a medo e a olhar o mar com ar desconfiado: e se aquilo, inesperadamente, se zangasse de novo? E eu nem tivesse tempo de fugir? Perdera, de todo, a confiança.
Outra experiência, ainda durante o período do Largo Albasini, contribuiu para reforçar a intuição que já tivera da nossa vulnerabilidade e efemeridade. Como disse, a nossa casa situava‑se a um nível mais baixo que o do Largo e das ruas. A suster as terras, tinham construído um muro de betão: entre o nível mais alto e o nível mais baixo, junto ao muro, havia um desnível de um pouco mais de um metro. Um dia, encontrava‑me eu e os meus irmãos sentados em cima do muro, a vermos a banda passar, quando, subitamente, vindo da Latino Coelho, em direcção ao Largo, vimos um motociclista, conduzindo a uma velocidade desvairada. Entrou no Largo, descontrolado, e, para nosso pavor, vimo‑lo dirigir‑se para cima de nós.Mal tivemos tempo para saltar para o nível mais baixo e vê‑lo passar por cima das nossas cabeças, indo‑se estatelar contra uma pequena árvore, que logo ficou cheia de sangue. Escapáramos por um triz, mas podíamos perfeitamente não ter escapado. A nossa infalibilidade de seres protegidos saía dali completamente esfacelada. Confirmávamos, mais uma vez, que a vida afinal era uma lotaria e não era garantido que nos saísse sempre o bilhete premiado...”
Eugénio Lisboa, in “Acta Est Fabula Memórias – I  - Lourenço Marques (1930- 1947)” , Opera Omnia Editora, Novembro de 2012 , pp. 34-35

terça-feira, 16 de julho de 2024

Um mundo para mim

 Lourenço Marques, Moçambique
Começar
por Eugénio Lisboa
"O nosso mundo – o meu e dos meus irmãos, o Fernando, mais velho do que eu um ano, e o Ilídio, mais novo também um ano – era o do Largo João Albasini, do Alto‑Mahe, com incursões pela Latino Coelho, paralela à 24 de Julho, para o lado do aeroporto e das Mahotas. Na Latino Coelho, havia a loja do sr. Pimentel, onde passávamos as tardes a “lançar” piões, que ele nos deixava “experimentar”, ainda que não tivéssemos dinheiro para consumar a compra. É que não tínhamos mesmo cheta. Namorávamos os piões, os amendoins e as castanhas de caju, mas era tudo platónico.
Havia, também, a praia, enorme, de boa areia fina, e um Índico que nunca mais acabava. Falar do mar é um risco, porque acabamos a fazer retórica barata e o mar não o merece. O gozão do Flaubert, caçoando com as banalidades sumptuosas que os poetas para aí virados debitam de vez em quando, aludindo ao mar, dizia do líquido elemento, no seu Dictionnaire des Idées Reçues: “Donne de grandes pensées”. Grandes pensamentos, acho que o Índico não mos deu, por então, mas deu‑me grandes visões e estranhas ambições. Um dia, cavalgaria o oceano e iria por ali fora ver outras terras e outras gentes. Estava‑me prometida uma grande viagem.
Nestes anos de infância e, depois, de alguma adolescência, eu e os meus irmãos tínhamos, aparentemente, pouco a que nos agarrar, visto que não havia dinheiro e a minha mãe se via obrigada a fazer malabarismos com o pouco que havia. Mas nunca nos faltou boa comida nem atenção à saúde (na Cruz do Oriente, no Alto‑Mahe, e no Hospital Miguel Bombarda, porque era de borla). Não se compravam livros (só uma ou outra vez, às escondidas...), não tínhamos telefonia (nós dizíamos “rádio”), nem telefone, nem dinheiro para diversões e a roupa passava de uns para outros. Mas tínhamos espaço e todo um mundo para observar (e, às vezes, “conquistar”) e com que aprender. O Largo João Albasini era um mundo prodigioso e a vizinhança de outro que não ficava muito longe dali: o mercado indígena, o Xipamanini. Muitos anos mais tarde, já depois de licenciado em engenharia, casado e com filhos, levei ao Xipamanini os célebres Jograis de S. Paulo e, mostrando‑lhes aquele mundo, perguntei candidamente ao Ruy Afonso, o criador do grupo: “Ruy Afonso, o Xipamanini não faz lembrar o Brasil?” Ao que o jogral respondeu:“Não faz lembrar... O Xipamanini é o Brasil!”
Quando, aos domingos, íamos ao Xipamanini, sentia que entrava num mundo de magia: a batata‑doce, o piripiri, a tcintchiva, os gigantescos bolos mata‑fome faziam‑me salivar. As capulanas de cores muito acesas, os instrumentos musicais de sonoridades estridentes e reboladas, tudo ali nos dizia África e não Europa (e, contudo, o que nós sonhávamos com a Europa!)
O clima de Lourenço Marques era (e é...) um clima subtropical: quente ou muito quente, durante nove meses, e temperado, nos restantes três. A humidade relativa, no verão, atinge os 98%. A estação das chuvas é o verão, sendo o “inverno” um período delicioso: sol e temperaturas amenas. O governo em Lisboa, a bem da unidade do Império, decretara que o ano lectivo nas colónias deveria sintonizar com o da metrópole: abertura das aulas em Setembro, fecho em Junho‑Julho, o que levava os alunos a terem aulas no pior período do ano (calor, humidade e chuva) e férias no mais ameno. Sem qualquer justificação: de facto, se o ano lectivo decorresse entre Março e Novembro, poupavam‑se as crianças e os adolescentes à tortura de terem aulas em clima tão agressivo. Havia, é claro, os alunos do 7.º ano que, terminando o curso liceal em Novembro, só no ano seguinte, em Outubro, poderiam ingressar na universidade, em Portugal (visto que, em Moçambique, não existiam, nessa altura, estudos superiores). Mas os alunos que, por ano, iam estudar para Portugal eram tão poucos que não se justificava sacrificar tantas centenas por causa de um punhado: até porque o ano de atraso na carreira dos finalistas poderia ser aproveitado no reforço da aprendizagem e numa melhor preparação para a entrada na universidade. Porém, como é, de resto, frequente – e não só em ditadura! – a ideologia passa à frente dos interesses da saúde, do conforto e da razão.
Seja como for, durante todo o período da minha infância e adolescência, nunca dei por que o clima me incomodasse. Nunca tinha conhecido outro, portanto... Mesmo quando, após uma correria ou uma zaragata, em pleno verão, ficava a pingar suor, com a camisa encharcada e  as faces a arder, não me parecia que houvesse ali qualquer particular desconforto. Era assim o mundo ou, pelo menos, aquele que eu conhecia. Pegar no cão e “fazer” a pé a compridíssima 24 de Julho, até à praia e volta, ao meio dia, com o sol a pino e a castigar com força – era canja!
         (Faço aqui uma interrupção porque me assaltam escrúpulos.Lanço, neste papel, memórias que me parecem importantes – a mim. Escrever memórias é tentar imprimir a marca de eternidade a momentos, para nós inesquecíveis e inesquecidos, intensos, mágicos, às vezes, quase insuportavelmente vivos... mas que serão, para outros, provavelmente despidos de interesse. Captar a atenção destes, a sua cumplicidade, atrai‑los a esta narrativa de minúcias e convence‑los de que estes momentos foram realmente algo de especial – eis a tarefa gigantesca do memorialista. Tarefa impensável, se calhar impossível, mas que, de quando em quando – uma vez num milhão – resulta... A loucura está em convencermo‑nos de que a nossa vez é essa “uma num milhão”. É que é mesmo muito difícil dar, com palavras, a intensidade das emoções que nos assaltaram numa idade em que elas nos marcam como nunca mais voltará a acontecer. Diderot dizia que, para falar de Mozart, seria preciso mergulhar a caneta no arco‑iris. Eu não sei onde seria preciso mergulhar a caneta com que agora tento ressuscitar todos os grandes momentos iniciáticos da minha infância e adolescência. Mas tento, de qualquer modo, fazer o melhor que posso: até porque me parece que não há arco‑iris que me resolva a dificuldade...)
Eugénio Lisboa, in Acta Est Fabula, Memórias – I  - Lourenço Marques (1930- 1947), Opera Omnia Editora, Novembro de 2012 , pp.30-33

domingo, 14 de julho de 2024

Ao Domingo Há Música

Celebra-se , hoje,  o  Dia Nacional de França  que  tem como origem a  tomada da Bastilha,  a 14 de Julho de 1789, durante a Revolução Francesa. Por todo o país , há  eventos celebrativos . 
A França foi pioneira nos direitos humanos ao fixar-se nas três grandes balizas : Liberdade, Fraternidade e Igualdade. Tem vivido momentos de grande expectativa que têm sido  ultrapassados por essa  força humanística que sempre a animou.
Fomos à memória musical do nosso tempo francês. Encontrámos alguns nomes da canção francesa que encheram muitos dos nossos dias.

Françoise Hardy , uma talentosa voz francesa que  nos deixou no início de Junho passado , em L'Amitié, (remix 2011 / 2023).

    

L' Amitié

Beaucoup de mes amis sont venus des nuages
Avec soleil et pluie comme simple bagage
Ils ont fait la saison des amitiés sincères
La plus belle saison des quatre de la terrre

Ils ont cette douceur des plus beaux paysages
Et la fidélité des oiseaux de passage
Dans leur coeur est gravée une infinie tendresse
Mais parfois dans leurs yeux se glisse la tristesse

Alors ils viennent se chauffer chez moi
Et toi aussi tu viendras

Tu pourras repartir au fin fond des nuages
Et de nouveau sourire à bien d'autres visages
Donner autour de toi un peu de ta tendresse
Lorsqu'un autre voudra te cacher sa tristesse

Comme l'on ne sait pas ce que la vie nous donne
Il se peut qu'à mon tour je ne sois plus personne
S'il me reste un ami qui vraiment me comprenne
J'oublierai à la fois mes larmes et mes peines

Alors peut-être je viendrai chez toi
Chauffer mon coeur à ton bois

Comme l'on ne sait pas ce que la vie nous donne
Il se peut qu'à mon tour je ne sois plus personne
S'il me reste un ami qui vraiment me comprenne
J'oublierai à la fois mes larmes et mes peines

Alors peut-être je viendrai chez toi
Chauffer mon coeur à ton bois

Alors peut-être je viendrai chez toi
Chauffer mon coeur à ton bois

.
 
Georges Moustaki, em  Chanson pour elle.
Slimane e le Chœur Symphonique de Paris , em  Les moulins de mon cœur. Composição de Alan Bergman,  Marilyn Bergman e Michel Legrand.
 
Léo Ferré , em Avec le temps (enregistrement TSR, 1973).
 
Charles Aznavour, em Hier encore. Música e letra de Charles Aznavour.

domingo, 9 de junho de 2024

Ao Domingo Há Música


Celebram-se amanhã , dia 10 de Junho , quinhentos anos do nascimento de Luís Vaz de Camões. Muito se tem escrito sobre este grande poeta nacional. Seleccionamos um pequeno texto, escrito por Eugénio Lisboa, que não cessaremos  de celebrar ( deixou-nos no passado dia 9 de Abril), que, na sua  arguta ironia,  faz uma leitura ideológica   do célebre soneto de Camões, de acordo com os ditames deste dias que correm.
A Música deste domingo canta  Camões  e, com ela, nos despedimos para iniciar uma pausa.
Até sempre!
 
Uma interpretação ideológica de um soneto de Camões
por Eugénio Lisboa
“Todos conhecem aquele belíssimo soneto de Camões, que começa assim: “Alma minha gentil que te partiste”, seguindo-se-lhe treze versos, cada um mais belo do que o anterior.
Tem havido o mais variado leque de interpretações deste poema, que vale uma literatura, incluindo a inevitável “interpretação” biografista, que vê, na “alma minha” uma alusão à amante chinesa, morta afogada , no célebre naufrágio na foz do rio Mekong. Nesse naufrágio, cujas circunstâncias, em pormenor, se desconhecem, Camões teria salvo, a nado, OS LUSÍADAS, mas não conseguiu salvar da morte a sua Dinamene. Até aqui, tudo bem. As teses biografistas têm o interesse que têm, embora não sejam exactamente interpretações de um texto. Dizer que, sem o conhecimento biográfico deste episódio, o soneto ficaria incompreensível, é um rotundo disparate. O poema deve ser interpretado pelo que o poeta lá pôs e não pelas circunstâncias que estiveram na origem da sua escrita.
Mas, à luz de uma minha experiência recente, relacionada com o modo como alguns poemas meus têm sido “interpretados” por ideólogos superaquecidos, estranho que a mesma receita ideológica ainda não tenha sido aplicada ao imortal soneto de Camões. Uma coisa deste gosto: Camões era europeu, branco; Dinamene era chinesa, amarela. Amor, amor, raça aparte. Entre salvar uma inferior chinesa e OS LUSÍADAS, o bardo não hesitou, exibindo um conhecido preconceito racista: salve-se o manuscrito, pereça a chinesa. A partir daqui, o crítico ideológico esquecia os achados poéticos, as lindas metáforas, a linguagem poética de uma inventiva sem igual, e mergulhava, a fundo, nos malefícios das “descobertas”, do racismo, do colonialismo, da exploração do homem pelo homem, do capitalismo selvagem, dando Camões como um peão de forças malévolas e um precursor mal avisado do racismo do século XXI. Por que não? As redes sociais andam cheias deste tipo de sondagens. Vou terminar, contando uma história verdadeira, de que tomei conhecimento, no meu tempo de estudante de engenharia. Vivia na Av. Guerra Junqueiro, muito próxima do Instituto Superior Técnico. Frequentava então uma Pastelaria Mexicana, que ainda existe, a qual era também frequentada por um ideólogo da esquerda dura, obcecado com a ideologia e com Marx. Conta-se que, na sua primeira noite de núpcias, quando finalmente se libertou dos amigos e se fechou no quarto com a noiva, depois de se meter na cama com ela, debruçou-se carinhosamente sobre a amada e perguntou-lhe: “Você já leu O CAPITAL, de Karl Marx?” Consta que o casamento durou poucos dias e até se percebe porquê. Aquela pergunta cabia tanto naquela circunstância, como o racismo cabia no imortal soneto de Camões."
Eugénio Lisboa, em 14.08.2023

Amália Rodrigues, em Alma minha , soneto de Luís Vaz de Camões e Música  de Carlos Gonçalves. À  Guitarra Portuguesa: Carlos Gonçalves e Fontes Rocha ,  à  Viola: Jorge Fernando e à Viola Baixo: Joel Pina.
Com que voz chorarei meu triste fado, 
que em tão dura prisão [paixão] me sepultou,
 que mor não seja a dor que me deixou 
o tempo, de meu bem desenganado? 

 Mas chorar não se estima neste estado, 
onde suspirar nunca aproveitou;
 triste quero viver, pois se mudou 
em tristeza a alegria do passado. 

 [Assi a vida passo descontente,
 ao som nesta prisão do grilhão duro 
que lastima o pé que o sofre e sente!] 

 De tanto mal a causa é amor puro, 
devido a quem de mi tenho ausente
 por quem a vida, e bens dela, aventuro. 
Luís Vaz de Camões

Camané & Mário Laginha , em  Com Que Voz . Poema de Luís Vaz de Camões e Música de Alain Oulman.

 
LINA , em Desamor, com Poema de Luís Vaz de Camões e Música de José Francisco Cavalheiro Jr. Ao piano John Baggott e na Guitarra Portuguesa Pedro Viana.
 

sábado, 8 de junho de 2024

Há Viagens e Viagens


Veneza, Itália

Iguaçu


Há Viagens e Viagens
por Eugénio Lisboa
                                                     Heureux qui comme Ulysse,
                                                     a fait un bon voyage.
                                                                                            Du Bellay

«Quase ninguém é indiferente ao apelo à viagem. E quase toda a gente inveja Ulisses, que, se não fez, exactamente, uma boa viagem, como canta Du Bellay, perpetrou, pelo menos, uma longuíssima e acidentada odisseia de retorno.
Há gostos para tudo. Du Bellay invejava Ulisses. Gide torcia o nariz à odisseia do grego, porque, no fim da viagem, esperava-o Penépole, que, para sempre, o iria amarrar ao lar. Exaltava, em contrapartida, Sindbad, o das Mil e Uma Noites, por ser livre como um passarinho: no fim da viagem, esperava-o, não uma amarra, mas uma nova viagem. Para Gide, também, uma viagem era apenas o prefácio à viagem seguinte, em contraste com a de Ulisses, que não passou de uma obrigatória navegação de regresso. Gide tinha igualmente um lar à espera, em Cuverville, mas fazia de conta que não dava por isso, e traiu, tanto quanto pôde – e sem complacências – a sua fiel Penélope que, para o caso, se chamava Madeleine. O que ele queria, está-se a ver, era copiar, com “gusto” e mesmo frenesi, o fluir libérrimo do marinheiro Sindbad. 
Viajar tem boa e tem má imprensa. Há quem elogie, há quem diga mal e há quem, simplesmente, se aborreça. O actor e escritor Al Boliska propôs uma definição célebre que hoje anda citada por todo o lado: “Viajar de avião”, disse ele, “são horas de tédio interrompidas por puro terror.” Ainda assim, Boliska só critica o viajar de avião, não todo o viajar. Mas há quem demita qualquer espécie de viagem. O conhecido romancista Paul Theroux, com obra assinalável transposta para o cinema, observava que “viajar só é glamoroso em retrospecto”, isto é, só funciona depois de terminada a viagem, ao contá-la, ao serão, aos amigos. William Trevor dizia o mesmo, de outra maneira: “Ele só viajava para poder voltar para casa”, isto é, o melhor da viagem era o regresso. Nem Ulisses foi tão longe: suspeito que gostou mais da ida do que da volta
De entre os demolidores do mito da viagem, citarei o talvez mais antigo (será?): Sócrates, que disse, imaginem, esta barbaridade: “Vê um promontório, uma montanha, um mar, um rio e viste tudo.” Como se não houvesse rios e rios, promontórios e promontórios, cidades e cidades! Quem pode ser de opinião que o Amazonas é o mesmo que qualquer pífio afluente de um rio de trazer por casa… Quem pode afirmar que ver Leiria é o mesmo que ver Paris ou Veneza! Ou como se Florença fosse o mesmo que Alguidares de Baixo! Ou como se o Iguaçu não diferisse grande coisa das pindéricas “cascatas” da Namaacha, da minha saudosa infância africana!
Claro que é preciso saber viajar, saber ver e, sobretudo, gostar de ver. Viajar por viajar é inútil e fica caro. Como dizia o outro, não vale a pena dar a volta ao mundo só para contar o número de gatos que há em Zanzibar.(…)
Viajar – o convite à viagem! Há quem proteste em termos paradoxais: “É pena”, dizia Chesterton, “as pessoas viajarem por países estrangeiros; estreita-lhes de tal maneira o espírito.” Sterne, no seu imenso Tristram Shandy, não vai tão longe, mas faz uma recomendação: “Um homem deve também conhecer alguma coisa do seu próprio país, antes de ir para o estrangeiro.”(...)
“Viajar é quase como falar com homens de outros séculos”, dizia Descartes. (...).»
Eugénio Lisboa, em ensaio publicado no JL