terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

A Cidade

 

A escrita tem as suas próprias leis de perspectiva, de luz e de sombras, como a pintura e a música. Se nasces com elas, perfeito. Se não, aprende-as. Em seguida, reorganiza as regras à tua maneira.” 
                                          Truman Capote
 
 
A Cidade 
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"Vista da Ponte a Cidade parece  intemporal e sem dúvida fascina-me  o seu casamento com o rio e com o mar num braço aberto , mas foi sempre assim. Nunca passou esse fascínio para dentro dela. Acabrunhava -me a sua traça virada de costas para o rio e anulada qualquer ligação com o Mar pela muralha intransponível de prédios gigantescos, enfileirados para o turismo em massa  da sua Praia.
Há ,contudo, uma certa emoção ao contemplá-La da Ponte, principalmente à chegada, apresentando-se imponente no seu reflexo nas águas do Rio e deixando soltar uma paz adormecida na sombra de tanta casa anónima que vista deste ângulo não é possível identificar.
É esse anonimato que explica a minha relação  com a Cidade e vinte anos da minha vida. Não foi um caso de amor e muito menos de  paixão que me levou para a Cidade. Era mais um lugar para viver que acumulava privacidade com um elemento paisagístico natural imprescindível para mim, a ÁGUA.
Não tinha muito dinheiro nem sequer conhecia o mercado imobiliário.  Tinha vindo para o Sul  e como as praias estavam desertas , emprestaram-me uma casa numa Vila à beira mar, situada perto da Cidade. Era um empréstimo a prazo, pois no Verão teria de sair.
Aprendi alguns anos mais tarde que a privacidade e o anonimato são fantasmas de outro tempo e de outra cidade que não esta . Foi contudo já  muito tarde essa minha descoberta, não evitando todos estes acontecimentos que continuam  vivos na minha memória.
A Ponte atraiçoou-me . Ainda hoje a miragem é perfeita , tentando oferecer-nos uma imagem da Cidade que não é real.
Acredito que o onírico foi sempre um traço importante na construção das percepções que tenho da realidade. Vivi muito tempo concertando sonhos que se desfaziam em verdades dolorosas. E a Cidade foi uma verdade ludibriada."
Maria José Vieira de Sousa, in O Livro que não vou escrever, 2015

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

O que resta?

O que resta? Notas de Giorgio Agamben
"A única coisa que possuímos e podemos conhecer com alguma certeza é o passado, enquanto o presente é, por definição, difícil de se apreender e o futuro, que não existe, pode ser inventado de cabo a rabo por qualquer charlatão".
O comentário é de Giorgio Agamben, filósofo italiano, em artigo publicado por Quodlibet e reproduzido pelo blog Flanagens, 13-06-2017. A tradução é de Vinícius N. Honesko.
Essas notas reproduzem parte da intervenção no Salão do Livro de Turim, no dia 20 de Maio de 2017.
Eis as notas:
1. “Tenho tamanha desconfiança no futuro que faço projetos só para o passado”. Essa frase de Flaiano – um escritor cujos trocadilhos devem ser levados extremamente a sério – contém uma verdade sobre a qual vale a pena refletir. O futuro, como a crise, é de fato hoje um dos principais e mais eficazes dispositivos do poder. Que ele seja acenado como um ameaçador pesadelo (empobrecimento e catástrofes ecológicas) ou como um radiante porvir (como pelo doentio progressismo), em todo caso, trata-se de dar a ideia de que nós devemos orientar nossas ações e nossos pensamentos unicamente por ele. Isto é, que devemos deixar de lado o passado, que não se pode mudar e que é, portanto, inútil – ou, no máximo, deve ser conservado em um museu –, e, quanto ao presente, que por ele devemos nos interessar apenas na medida em que serve para preparar o futuro.
Nada de mais falso: a única coisa que possuímos e podemos conhecer com alguma certeza é o passado, enquanto o presente é, por definição, difícil de se apreender e o futuro, que não existe, pode ser inventado de cabo a rabo por qualquer charlatão.
Desconfiem, tanto na vida privada quanto na esfera pública, de quem lhes oferece um futuro: esse aí está quase sempre procurando capturá-los ou enganá-los. “Jamais permitirei à sombra do futuro”, escreveu Ivan Illich, “de pousar sobre conceitos por meio dos quais procuro pensar o que é e o que foi”. E Benjamin observou que na recordação (que é algo diversa da memória como imóvel arquivo) nós agimos, na realidade, sobre o passado, o tornamos de algum modo novamente possível. Flaiano tinha então razão ao nos sugerir fazer projetos sobre o passado. Só uma investigação arqueológica sobre o passado pode nos permitir ter acesso ao presente, enquanto um olhar dirigido unicamente ao futuro nos expropria, com nosso passado, também do presente.
2. Imaginem entrar numa farmácia e pedir um remédio de que têm necessidade urgente. O que fariam se o farmacêutico lhes respondesse que tal remédio foi produzido há três meses e, portanto, não está disponível? É exatamente isso que hoje acontece ao entrar numa livraria. O mercado editorial se tornou hoje um Absurdistão no qual a circulação exige que o livro seja mantido na livraria pelo menor tempo possível (com frequência não mais de um mês). Como consequência, o próprio editor programa livros que devem exaurir suas vendas – se acontecem – a termo breve e renuncia a construir um catálogo que possa durar no tempo. Por isso, eu – que ainda assim permaneço sendo um bom leitor – tenho cada vez mais desgosto ao entrar numa livraria (naturalmente existem exceções), onde as bancadas são ocupados apenas pelas novidades e onde é cada vez mais difícil encontrar o remédio (isto é, o livro) de que tenho vital necessidade. Se livreiros e editores não se voltarem contra esse sistema, em boa medida imposto pelas grandes distribuidoras, não deveremos nos espantar se as livrarias desaparecerem. Da mesma forma como surgiram, não poderemos nem mesmo por elas chorar.
3. Nicola Chiaromonte certa vez escreveu que a pergunta essencial, quando consideramos nossa vida, não é o que tivemos ou o que não tivemos, mas o que resta dela. O que resta de uma vida – mas também e ainda antes: o que resta de nosso mundo, o que resta do homem, da poesia, da arte, da religião, da política, hoje que tudo com que estávamos habituados a associar a essa realidade tão urgente está desaparecendo ou até mesmo se transformando a ponto de se tornar irreconhecível? Ao entrevistador que lhe perguntava “o que resta, para a senhora, da Alemanha em que nasceu e cresceu?”, Hannah Arendt respondeu: “resta a língua”. Mas o que é uma língua como resto, uma língua que sobrevive ao mundo do qual era expressão? E o que nos resta quando nos resta apenas a língua? Uma língua que parece não ter mais nada a dizer e que, todavia, obstinadamente resta e resiste, e da qual não podemos nos separar? Gostaria de responder: é a poesia. O que é, com efeito, a poesia senão o que resta da língua depois que desta desativaram uma a uma as normais funções comunicativas e informativas?
Lembro que Ingeborg Bachmann certa vez me disse que não era capaz de ir ao açougue (talho)2 e pedir: “me dê um quilo de bife”. Não creio que quisesse dizer que a língua da poesia é uma língua mais pura, que se encontra além da língua que usamos nos açougues ou em outros usos cotidianos. Creio, antes, que a língua da poesia seja o indestrutível que resta e resiste a toda manipulação e a toda corrupção, a língua que resta mesmo depois do uso que dela fazemos nos SMS e nos tweet, a língua que pode ser infinitamente destruída e todavia permanece, assim como alguém escreveu que o homem é o indestrutível que pode ser infinitamente destruído. Essa língua que resta, essa língua da poesia – que é também, creio eu, a língua da filosofia – tem a ver com o que, na língua, não diz, mas chama. Isto é, com o nome. A poesia e o pensamento atravessam a língua em direção ao nome, àquele elemento da língua que não discorre e não informa, que não diz algo sobre algo, mas nomeia e chama.
Um breve texto que Italo Calvino costumava dedicar aos amigos como seu “testamento espiritual” se fecha com uma série de frases quebradas e quase sem fôlego: “tema da memória – memória perdida – o conservar e o perder aquilo que se perdeu – aquilo que não se teve – aquilo que se teve atrasado – aquilo que levamos atrás – aquilo que não nos pertence...”. Eu creio que a língua da poesia, a língua que resta e chama, chama justamente o que se perde. Vocês sabem que tanto na vida individual quanto na coletiva a massa das coisas que se perdem, a profusão dos ínfimos, imperceptíveis eventos que todo dia nos esquecemos, é tão ilimitada que nenhum arquivo ou nenhuma memória poderia contê-la. O que resta, a parte da língua e da vida que salvamos da ruína, tem sentido apenas se intimamente tem a ver com o perdido, se é de algum modo para1 este, se o chama pelo nome e responde em seu nome. A língua da poesia, a língua que resta, nos é cara e preciosa pois chama o que se perde. Porque o que se perde é de Deus."
IHU, Revista do Instituto Humanitas Unisinos , Junho de 2017
Notas:
1 Agamben utiliza o termo “per”, que pode ser traduzido tanto por “para” como por “por”. Já em seus textos sobre o poeta espanhol José Bergamín – em específico, sobre “A decadência do analfabetismo” – o filósofo se utiliza desse jogo: o falar para e o falar por (em lugar de). É claro que também é toda a argumentação que Agamben levanta a respeito do “testemunho” em, sobretudo, “O que resta de Auschwitz”.
2 Nota de LP
Sobre  Giorgio Agamben

"Se há um filósofo característico do presente é Giorgio Agamben. Nasceu em Roma em 1942, mas  a sua obra globalizada não pode desligar-se das suas atividades em  França, Inglaterra e Alemanha, entre outros países em que trabalhou. É fácil  detectar a influência de Martin Heidegger, Walter Benjamin e Michel Foucault, mas também as de Kafka e do situacionista Guy Debord. Agamben chegou à Universidade para estudar Direito, mas se inclinou pela filosofia depois de assistir entre 1966 e 1968 a alguns seminários com Martin Heidegger. Foi o mesmo período, recorda, em que descobriu Benjamin: “Dois autores muito diferentes. Um era o contraveneno do outro”. “A ética moderna, desde Kant, se constitui como uma ética do dever, dominada pelo imperativo. Tentei criticar a ética do dever e substituí-la por uma doutrina, procedente do mundo clássico, que valorize a ideia de felicidade, a vida boa. Em um sentido político. O dever é uma ideia de origem cristã. O homem é um ser em dívida. Isso significa dever: estar em dívida.” IHU,Revista do Instituto Humanitas Unisinos

domingo, 4 de fevereiro de 2024

Ao Domingo Há Música

 "Sou sempre fadista e sinto-me como um guardião de uma tradição que é muito importante na nossa cultura". É com estas palavras que se define Ricardo Ribeiro. Proferiu-as no lançamento  do seu novo álbum,  "Terra que Vale o Céu", a  27 de Outubro de 2023, 
E sobre este novo álbum  , o  prestigiado critico  e musicólogo Rui Vieira Nery acrescenta  «Ricardo Ribeiro convida-nos a regressarmos com ele às raízes mais profundas da tradição fadista, ainda que iluminadas agora por um percurso pessoal de amadurecimento e descoberta que o fez passar por outras músicas do Sul que cantam também a paixão, a perda, a solidão e a dor. É por isso que o seu fado é cada vez mais um fado antigo que sabe a novo, mas ao mesmo tempo um fado novo que sabe a antigo. É um testemunho simultâneo de continuidade e modernidade, com a marca única de uma voz e de um canto inconfundíveis, a abrir o terceiro século da história do Fado com a consciência sábia do passado e os olhos abertos para o presente e para o futuro».
Com  dois belíssimos registos, desse magnífico álbum, se compõe o apontamento musical deste domingo.

Ricardo Ribeiro , em Sodade Meu Bem Sodade, do Álbum "Terra que Vale o Céu". Canto tradicional com arranjo de Zé do Norte. 
Guitarra Portuguesa: José Manuel Neto; Viola: Carlos Manuel Proença e Baixo: Daniel Pinto. 
Gravado por Nuno Simões.Misturado e masterizado por André Tavares. Produção musical e arranjos por Carlos Manuel Proença. Produção executiva por Becas do Carmo.

   

Ricardo Ribeiro,  em Terras de Um Mar Interior, do Álbum "Terra que Vale o Céu". Letra e Música de Amélia Muge.
Viola: Carlos Manuel Proença; Baixo: Daniel Pinto e Percussão:Jarrod Cagwin. 
Gravado por Nuno Simões.Misturado e masterizado por André Tavares. Produção musical e arranjos por Carlos Manuel Proença. Produção executiva por Becas do Carmo.

 

sábado, 3 de fevereiro de 2024

Metamorfose

 
Transformei-me finalmente num gato,
isto é, aprendi a bem viver:
trabalho e chatices não acato
e porreiríssimo é o lazer!
 
Viver com gatos ajuda a ser sábio,
e a descobrir tesouros escondidos :
em vez de frequentar o alfarrábio,
observar o felino bem flectido.
 
Os olhos do gato inculcam mistérios,
que muito importa desvendar:
antes isso que conquistar impérios,
 
que apenas servem para devastar.
O gato é o melhor instrutor
e, do bom viver, o melhor gestor!
                          03.02.2024
Eugénio Lisboa

Poeta dos Povos

Lago Sarmiento, Chile
Poeta dos Povos
por Pablo Neruda
"  A América do Sul foi sempre terra de oleiros. Um continente de cântaros. Esses cântaros que cantam sempre os fez o povo. Fê-los com barro e com as suas mãos. Fê-los com argila e com as suas mãos. Fê-los de pedra e com as suas mãos. Fê-los de prata e com as suas mãos.
Sempre quis que se vissem na poesia as mãos do homem. Sempre desejei uma poesia com impressões digitais. Uma poesia de greda para que cante nela a água.  Uma poesia de pão, para que todo o mundo a coma.
Só a poesia dos povos sustenta esta memória manual.
Enquanto os poetas se encerravam nos laboratórios, o povo continuou a cantar com o seu barro, a sua terra, os seus rios, os seus minerais. Produziu flores prodigiosas, epopeias surpreendentes, amassou folhetins, descreveu catástrofes. Celebrou os heróis, defendeu os seus direitos, coroou os santos, chorou os mortos.
E tudo isto fê-lo à pura mão. Essas mãos foram sempre desajeitadas e sábias. Foram cegas, mas quebraram as pedras. Foram pequenas , mas tiraram os peixes do mar. Foram obscuras, mas procuravam a luz.
Por isso esta poesia tem esse sortilégio do que foi criado com as coisas naturais. Esta poesia do povo tem esse timbre do que deve viver à intempérie, suportando a chuva, o sol, a neve e o vento. É poesia que deve passar de mão em mão. É poesia que se deve mover no ar como uma bandeira. Poesia que foi golpeada, que não tem a simetria grega dos rostos perfeitos. Tem cicatrizes no seu rosto alegre e amargo.
Não dou um louro a estes poetas do povo. São eles que me oferecem a força e inocência que deve informar toda a poesia. São eles que me fazem tocar a sua nobreza material, a sua superfície de couro, de folhas verdes, de alegria.
São eles , os poetas populares, os poetas obscuros, que me mostram a luz. "
( Prólogo para o livro  A Lira Popular , editado em Santiago do Chile, a 6 de Março de 1966.)
Pablo Neruda, in Nasci para Nascer, Publicações Europa-América, 1978, pp. 117-118

Graham Greene e o cinema

 

Graham Greene e o cinema
por Eugénio Lisboa
"Passou em 2 de Outubro do ano passado (2004) o primeiro centenário do nascimento de Graham Greene, de quem William Golding disse que “será lido e lembrado como o mais acabado cronista da consciência e da ansiedade do século XX”. Frequentemente classificado como “romancista católico”, Greene, cuja conversão ao catolicismo teve algo de oportunismo, recusava tal classificação, dizendo ser mais justo tê-lo como um católico que também escrevia romances. Aliás, sobre este debatido e ardido ponto, creio ter sido o conhecido romancista, ensaísta e professor David Lodge quem, com maior agudeza, poder de síntese e felicidade, situou a questão, ao afirmar: “O catolicismo, como um sistema público de leis e de dogmas, está muito longe de ser uma chave adequada para a ficção de Greene. Há uma boa dose de provas, internas e externas, de que o catolicismo, na ficção de Greene, não é um corpo de crença que requeira exposição e que peça um acordo ou um desacordo categóricos, mas antes um sistema de conceitos, uma fonte de situações e um reservatório de símbolos, por meio dos quais ele consegue ordenar e dramatizar certas intuições sobre a natureza de experiência humana – intuições a que chegou antes e independentemente da sua adopção da fé católica. Visto a esta luz”,  concluía o autor de Changing Places, “o catolicismo de Greene pode ser tido não como um fardo estropiador da liberdade artística, mas, sim, como um fundo artístico positivo.”
Entre nós, não digo que o centenário desta figura maior, sedutora e inquietante da literatura do século XX tenha passado despercebido (Sintra e Cascais, por exemplo, assinalaram a efeméride), no entanto não lhe foi dado o relevo que indiscutivelmente merecia.
Sendo para muitos conhecido, menos como o grande romancista que foi – Brighton Rock, The Power and the Glory, The Ministry of Fear, The Heart of the Matter, The End of the Affair, The Quiet American, The Comedians, The Honorary Consul e The Human Factor são marcos incontornáveis da grande ficção do século XX – do que como o responsável por filmes como The Third Man e The Fallen Idol, parece adequado dedicar algumas palavras à ambígua relação de Greene com a sétima arte. Essas relações não foram nem simples nem lineares: houve sempre um misto de fascínio, de algum amor, de algum desprezo e, até, de alguma gratidão.
Greene recordava aqueles depressivos anos trinta, na esteira do grande “crash” económico de 1929, durante os quais o pobre escritor não tinha dinheiro nem para pagar o gramofone, nem para cumprir a prestação do seguro de vida. Os anos quarenta – guerra e imediato pós-guerra – não foram melhores: com o papel racionado, mesmo os escritores bem acolhidos pelo público tinham as suas vendas limitadas, o que parecia não ser do conhecimento de jornalistas, que invejavam aqueles escritores inadvertidamente considerados como... “best-sellers”. A verdade é que os números contavam uma história bem diferente. Num artigo de 1958, “The Novelist and the Cinema – A Personal Experience”, Greene abre-nos os olhos para esta realidade, nestes termos: “Posso apenas dar conta do meu caso e registar que, depois de onze anos [de labuta] e de onze livros [publicados], os números da minha primeira edição tinham aumentado em 500 exemplares – de 2500 impressos, do meu primeiro livro, para 3000, do meu décimo primeiro. Nesses anos”, acrescenta Greene, com alguma melancolia,” nem a BBC, nem o Central Office of Information se tinham tornado os patronos de um jovem autor ou, nos da minha idade, de um autor-não-assim-tão-jovem.”
Um recurso para o autor que se não podia sustentar a si e à sua família só com o produto da venda dos seus romances residia na ingrata tarefa de fazer recensões críticas de livros para os jornais: tarefa “mortífera”, achava Greene, por ter que dar o seu tempo e a sua atenção a obras que “eram, claramente, alimento para os vermes”.
Neste contexto, a saída era, obviamente, o cinema: vender os seus direitos de autor para adaptações dos seus livros ao cinema ou escrever, ele próprio, guiões para filmes, baseados em livros de terceiros, ou ainda, escrever directamente para o cinema, sem prévia existência de um romance de partida. De tudo isto viria ele a beneficiar ou a sofrer...
Em 1932 Greene conseguiu vender à 20th Century Fox o seu quarto romance – Stamboul Train – por 1500 libras. Tinha, nessa altura, no banco, a modestíssima quantia de 30 libras, a mulher estava grávida e fora-lhe recusado um emprego no Catholic Herald porque, muito à inglesa, lhe achavam habilitações excessivas. As 1500 libras da Fox vieram permitir-lhe continuar a escrever por algum tempo, sem preocupações de maior. Dois anos depois, em 1934, vendeu os direitos de outro romance – A Gun for Sale - à Paramount, por 2500 libras. Não era uma fortuna, ao contrário do que propalava a inveja clássica dos jornalistas, mas permitiram ao escritor continuar a escrever sem grandes angústias ou insónias. Por tudo isto, Greene pôde afirmar que o seu primeiro sentimento, quando falava de filmes, era o de gratidão, porque foram eles que lhe permitiram, num período crucial, continuar a sua carreira de escritor. E dava até exemplos de outros escritores “better than myself” que tiveram iguais motivos de gratidão: William Faulkner, Ernest Hemingway... Isto, pelo que diz respeito à gratidão. Depois, vem o resto...
O resto, tem, por exemplo, que ver com o tratamento que os produtores de cinema dão ou fazem dar aos livros adaptados ao écran. Uma das situações é a de o autor do livro não ser o autor do “script” baseado no seu livro. Greene observava, com alguma merecida ferocidade, que, quando um autor vende um livro a Hollywood vende-o mesmo, totalmente, sem apelo, nem agravo. Os contratos na Meca do cinema, dizia ele, são compridíssimos, compactos e espessos como o próprio romance de que se apoderam, mas, tudo aquilo pode ser resumido numa fórmula muito simples: o autor não tem quaisquer direitos sobre a adaptação. O produtor pode alterar tudo o que lhe apetecer: pode mesmo, insinuava Greene, transformar uma tragédia de judeus, no East End de Londres, numa comédia musical passada em Palm Springs. Nem sequer tem qualquer obrigação de manter o título do livro embora, de modo geral e por razões comerciais, este seja preservado. No entanto, no caso do romance The Power and the Glory, talvez o primeiro grande romance de Greene, o título não foi respeitado no filme que John Ford dirigiu a partir do livro: o título, belíssimo, passou a ser, no écran, The Fugitive. O pior porém não foi a traição feita ao título: outros agravos maiores se seguiram, que foram atingir a própria essência da narrativa. Por exemplo, o romance lidava com um padre mexicano bêbado, que tivera uma filha bastarda e que, mesmo aos tropeções e com alguma cobardia à mistura, lá ia levando a cabo o seu ministério de sacerdote, durante as brutais perseguições religiosas, no México dos anos trinta. O filme que Ford  dirigiu passou a ser a história de um padre extremamente pio, muito heróico e nada alcoólico, visto que a bebedeira deixou, no filme de o afligir. E, para tudo ser edificantemente a preto e branco, a filha bastarda do padre (no romance) passou a ser (no filme) a filha ilegítima do polícia que o perseguia... Como observava Greene, com mais do que alguma filosofia, “uma pessoa habitua-se a estas coisas. Ganhamos o dinheiro, podemos continuar a escrever por mais um ano ou dois, não há grande razão de queixa.”
Outro caso penoso e altamente frustrante foi o da adaptação cinematográfica do romance The Quiet American. O filme, da responsabilidade do prestigiado realizador, Manckiewicz, traía da maneira mais descarada o alto teor explosivo do romance. Se a obra de Greene lhe ganhou para sempre o ódio do “establishment” mais patrioteiro dos Estados Unidos, devido à sua análise crítica do comportamento da América no Vietname, o filme, observaria Greene, “era uma verdadeira obra de desonestidade política. Torna o americano extremamente sensato e o inglês um pateta nas mãos dos comunistas. E”, acrescenta, “ o «casting» era simplesmente pavoroso: Phuong, a rapariga vietnamita era desempenhada por uma italiana.” Num ensaio publicado no ano seguinte, Graham Greene seria ainda mais violento, afirmando: “Poder-se-ia acreditar que o filme foi feito deliberadamente para atacar o livro e o seu autor. Mas o livro baseava-se num conhecimento muito mais profundo da guerra da Indochina do que aquele que os americanos possuíam e sou suficientemente vaidoso para acreditar que o livro irá sobreviver alguns anos ao filme incoerente de Manckiewcz.”
Apesar de tudo isto, repetimos que Graham Greene nunca deixou de sentir uma justa gratidão para com uma arte que o ajudara a sobreviver como escritor. No entanto, o autor de The Heart of the Mater, punha a isto uma grande reserva, visto ter chegado à conclusão de que o escritor nunca deve aceitar ser o empregado de ninguém senão de si próprio.”
O outro aspecto da sua ligação ao cinema – pelo menos tão frustrante como o de ver os seus próprios livros adaptados ao  écran – foi o de aceitar ser “script-writer” de filmes inspirados em livros da autoria de terceiros. “Este aspecto da minha associação com os filmes”, viria ele a dizer, em 1958, “é o que mais lamento e, no futuro, gostaria de evitá-lo, se os impostos mo permitirem.” Um exemplo gritante deste tipo de frustração deu-se com a adaptação ao cinema, por ele feita, de uma pequena novela de John Galsworthy (o autor de The Forsythe Saga). A  novela, intitulada The First and the Last (encontra-se traduzida em português e incluída na saudosa colecção “As Melhores Novelas dos Melhores Novelistas, da Editorial Inquérito) contava, em resumo, uma história bastante sensacional: um assassino não apanhado pela justiça mata-se, depois de saber que um inocente pagara, com a forca, pelo seu crime. Terminado o “script”, Greene teve a surpresa amarga de verificar que o British Board of Film Censors proibia que o cinema falasse de suicídios e de erros judiciários... Sem estes dois pilares da novela de Galsworthy, lá se ia a história. Mesmo assim, imagine-se como!, o filme fez-se e nele se passearam Laurence Olivier e Vivien Leigh, nada empenhados na história, mas profundamente empenhados um no outro...
De outro filme, The Green Cockatoo, de que foi “script-writer”, Greene sentia tanta vergonha, que preferia não falar nele. A crítica ao filme justifica a vergonha do autor do “script”.
Mas foi com The Third Man, por si escrito directamente para a  pantalha, e com o inesquecível The Fallen Idol, de que escreveu o “script” inspirado num conto também seu, que o autor de The Comedians atingiu o apogeu feliz das suas relações com a sétima arte: a este período chamava ele os seus “halcyon years” ( dias de tranquilidade).
Eis um resumo muito resumido dos principais marcos da relação complexa de Graham Greene com o cinema. Embora muitas vezes frustrante, dessa relação ficou uma gratidão duradoura e os “anos de tranquilidade” que lhe foram oferecidos por dois indiscutíveis triunfos: uma relação frutuosa, apesar de tudo. Num texto aparecido, já tarde na sua vida, no livro Ways of Escape (1980), o autor de Terceiro Homem resume assim o se percurso e a conclusão a que chegou: “A minha experiência de escrever para o cinema tem sido afortunada e feliz e, contudo, com que alívio regressei depois àquele negócio de um só homem, àquela privacidade de um compartimento no qual assumo a responsabilidade inteira pelo fracasso.”
Eugénio Lisboa, em Ipsissima Verba, LER, 2005 

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

QUO VADIS?

 

Sombra de um sonho de um vale já perdido,
sombra de uma sombra desvanecida,
frágil memória de um mundo ardido,
voláteis matérias de uma vida
 
queimadas por nada, talvez por tudo.
Nada fica de grandezas sonhadas,
no vazio de um universo mudo:
tudo foram só esperanças logradas.
 
Pensar foi empresa votada ao nada.
Fazer foi pior: ou foi, só, o mesmo?
De tudo fica só a força alada
 
(no caso de ficar...) perdida a esmo,
em outro início talvez transformada:
tudo recomeçado, tudo o mesmo.
                    12.11.2013
Eugénio Lisboa

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Parar para viver


Essencial também é parar para viver
por Anselmo Borges
“Olhamos e perguntamos: “Que anda esta gente toda a fazer?” A resposta é simples, sempre a mesma: “A viver.” É isso: a viver.
O problema é este: são tantas as vezes em que se não dá por isso: o milagre que é viver! Assim, numa sociedade na qual o perigo maior é a alienação - viver no fora de si -, quando a política se tornou um espectáculo tantas vezes indecoroso, quando a mentira e a corrupção imperam, quando Deus foi substituído pelo Dinheiro e o mundo se tornou globalmente perigoso, com a Terceira Guerra Mundial em curso, embora ainda só “aos pedaços”, como diz Francisco, é essencial parar, fazer uma pausa. Porquê e para quê? Como disse Juan Ramón Jiménez: “Devagar, não tenhas pressa, porque aonde tens de ir é a ti mesmo".
E lembrei-me do meu querido amigo jesuíta Juan Masiá, professor de Filosofia em Tóquio, e de um dos seus livros, precisamente com o título: Vivir. Espiritualidad en pequeñas dosis. “Deixo-me acariciar pela brisa, saboreio a experiência de estar vivo, sentir palpitar a minha vida. E penso: viver, que maravilha e que enigma! Paro em silêncio a saborear esta vivência. Estou vivo, mas a minha vida supera-me: não é só minha, nem a controlo. Viver é ser vivificado pela Vida que nos faz viver.” A Vida vive-te, vive na Vida!
E aí estão as tarefas para a espiritualidade: dar-se conta do viver; agradecer por a Vida nos fazer viver, nos vivificar: vivemos graças à Fonte da Vida; darmos vida uns aos outros, na compaixão e na ajuda mútua para nos libertarmos. “O que é o mar? O que permite o peixe nadar. O que é o ar? O que permite o pássaro voar. O que é o Nada e o Vazio? A Vida que te faz viver. Vejo a ervita entre as gretas do pavimento. Donde lhe virá a força para abrir passagem entre o asfalto? Palpo aqui uma Presença latente. Não sei quem é. Mas brotam lágrimas de agradecimento.” Então, morrer não é senão sair para dentro da Vida verdadeira, definitiva e eterna: “Vida no seio da Vida da vida.”
No meio do rebuliço estonteante, é decisiva a pausa e o silêncio. Chama-se cultura da pausa à tradição oriental de dar importância aos silêncios numa conversa, aos intervalos entre as palavras, aos vazios nas letras, aos espaços livres na arquitectura, ao não dito na mensagem, à receptividade na contemplação. Parar para ouvir o silêncio e contemplar: em vez de olhares para ti e olhar para mim, deixemo-nos olhar ambos pela “Realidade-Assim-Sempre-Presente, cuja aura comum nos envolve”.
Deixa o eu superficial, transcende, descendo até ao eu profundo e ao “Assim-Sempre-Presente”, que se manifesta. Sem pausas de silêncio, como poderíamos ouvir uma mensagem ou uma sinfonia? Sem intervalos, margens e vazios nas letras e entre as frases, como poderíamos ler e entender? E verdadeiramente viver?
O que é a liberdade? “Agir de acordo com o melhor de si mesmo.” Mas eu não sou eu sozinho. Perguntou ao jesuíta o monge budista: “Em que é que a sua religião e a nossa se parecem?” E respondeu: “Vós falais do amor de Deus e nós da compaixão do Buda. Mas nem vós, nem nós praticamos. É nisso que mais nos parecemos.”
E como se reza? “Crer, viver e conviver” era o lema de um encontro de meditação e espiritualidade inter-religiosa, sendo um terço dos participantes budistas, a maioria sem ligação religiosa, e uma minoria católicos. E ali se elaborou, com todos de acordo, colocando em duas colunas o “Pai Nosso” cristão e uma paráfrase do partilhar a espiritualidade inter-religiosa, a “Oração à Vida, a partir da vida”: “Fonte da Vida, que estás na vida, que estás na minha vida, que estás em toda a parte, vivificando tudo. Que nos demos conta de que o Reinado da Vida vem e o construamos, vivificando-nos, dando vida uns aos outros e em tudo dando um sim à Vida. Que recebamos força de viver, fortaleza de corpo e espírito com pão de vida e esperança. Que nos capacitemos para conviver em reconciliação, recebendo e dando perdão, e para conviver com as pessoas mais desfavorecidas, com quem é diferente e com quem nos mostra inimizade. Que sejamos libertos de todo o mal: do mal no nosso interior e do mal que vulnera as relações humanas. Que dê fruto o trabalho pela libertação do mal social.” Jesus ensinou: “Quando rezardes, dizei: Obrigado, Abbá, Pai e Mãe nossa. Dá-nos o pão do futuro no presente. Reconcilia-nos e livra-nos do mal.”
E também me lembrei da oração de Fernando Pessoa:
“Senhor,
Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no Céu e na Terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.
Torna-me puro como a água e alto como o Céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos, nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faz com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.
Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.
Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a Lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.
Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.”
Ah! E não vou esquecer o Nobel da Literatura Juan Ramón Jiménez: “Devagar, não tenhas pressa, porque aonde tens de ir é a ti mesmo.” E lá no fundo de ti é o Mistério, o mistério da Vida.
Anselmo Borges, Padre e professor de Filosofia, em artigo publicado no DN de 20 de Janeiro de 2024