domingo, 7 de janeiro de 2024

Ao Domingo Há Música

 

Quando ouvi esta voz
que se eleva em surdina em meu ouvido e diz 
frases tão conhecidas?

Quando foi que senti
estes dedos amigos nos meus dedos 
este aperto de mão 
tão comovidamente prolongado?
      Mário Dionísio, Os Amigos desconhecidos,
      As solicitações e emboscadas (1945)


Há comoções que acontecem inesperadamente. Uma palavra, um som, uma voz. E não que venham apenas em surdina. Soltam-se, em magia,  para que a emoção da descoberta se renda à proposta do momento.
Assim fazem estas vozes ,   desde os primeiros acordes. 

HAEVN & Neco Novellas, em  Trade It For The Night (Live in Carré Amsterdam).Uma grande interpretação de  HAEVN & Neco Novellas, acompanhados pelas vozes de Marijn van der Meer e G-Roots Gospel Choir. Ao Piano estão  Jorrit Kleijnen; na Guitarra,  Bram Doreleijers; no Baixo,  Robin van Baaren.Drums e Illan Voshol; na  Bateria,  Illan Voshol  e nas Cordas, Jens Lynen Lilit Poghosyan, Evelien Jaspers, Pablo Kleinsmann, Hessel Moeselaar, Geerten Feller, Antonis Pratsinakis, Bence Huszar.

 

sábado, 6 de janeiro de 2024

Novidades Literárias para 2024


Novidades Literárias para 2024
O lançamento de vários autores inéditos em Portugal, um livro de memórias de Manuel Alegre, o Prémio Leya 2023 e um romance póstumo de Gabriel Garcia Marquez são algumas das novidades das editoras livreiras para o ano 2024.
“Não há pássaros aqui”, de Victor Vidal, vencedor do Prémio Leya, chega em abril às livrarias, no mesmo mês em que a Dom Quixote publica “Filhos da fábula”, novo romance de Fernando Aramburu, em que o autor espanhol de “Pátria” volta à temática da ETA e o fim da luta armada.
Pela mesma altura, a Dom Quixote lança também em Portugal uma escritora canadiana, Sarah Bernstein, com o seu “Estudo para a obediência”, romance finalista do Prémio Booker 2023, bem como a correspondência inédita de John le Carré, sob o título “Um espião em privado - As cartas de John le Carré 1945-2020”.
Antes disso, chega o novo romance de Zadie Smith, “A fraude”, baseado em factos históricos, um romance da espanhola Pilar Adón, autora inédita em Portugal, que arrecadou vários prémios literários, intitulado “De bestas e aves”, o livro brasileiro vencedor do National Book Award e finalista do prémio Jabuti, “A palavra que resta”, de Stênio Gardel, e o livro de memórias de Manuel Alegre, “Memórias minhas”.
No dia 6 de março, a Dom Quixote publica, em lançamento mundial, “Vemo-nos em agosto”, romance póstumo de Gabriel Garcia Marquez, e ainda no mesmo mês publica “O arco-íris”, de Yasunari Kawabata, romance ainda inédito em Portugal, do escritor japonês Prémio Nobel da Literatura, assim como um outro livro finalista do Prémio Booker 2023, intitulado “A filha única”, da escritora mexicana Guadalupe Nettel.
Outras novidades deste grupo editorial são os romances “Os rostos”, sobre uma mulher no limite da loucura, de Tove Ditlevsen, autora de “Trilogia de Copenhaga”, e “Desertar”, de Mathias Énard, escritor francês vencedor do Prémio Goncourt, que aqui reflete sobre o que a guerra faz aos aspetos mais íntimos da vida.
A Porto Editora estreia também duas autoras em Portugal, uma sul-coreana, contemporânea, de quem publica “Kim Jiyoung, Born in 1982”, e uma escritora inglesa do século XVIII, que assinou sob o pseudónimo Sophia uma pessoa de interesse, de quem vai editar “A mulher não é inferior ao homem”, uma obra sobre a igualdade de género, escrita em 1739.
O primeiro romance centra-se na vida exemplar de Kim Jiyoung, que ainda assim não deixa de ser alvo de críticas, acusações ou desprezo, retratando a realidade de uma jovem sul-coreana e os profundos impactos da desigualdade de género na vida das mulheres.
O segundo é considerado uma das “primeiras obras protofeministas e é um manifesto que apela à mudança, instando os leitores a questionarem e a confrontarem as estruturas que perpetuavam a desigualdade”.
A Porto Editora lança também “Mercury Pictures Presents”, de Anthony Mara, a história de uma mulher que teve de se reinventar para sobreviver, mudando-se da Itália de Mussolini para o ‘glamour’ da Los Angeles dos anos 1940, e reedita o primeiro título publicado na coleção Dois Mundos, “O Livro de San Michele”, de Axel Munthe, na Livros do Brasil, quando a chancela cumpre 80 anos de existência.
A “biografia literária” de Alexandre O’Neill, de Maria Antónia Oliveira, foi revista e aumentada, para a celebração do centenário do autor, e vai ser publicada na Assírio e Alvim.
A Edições 70 tem novas coleções, dedicadas à Liberdade e à Igualdade, e vai publicar clássicos de Maquiavel e Nietzsche, ao passo que a chancela literária do grupo Almedina, a Minotauro, lança as histórias de dois casais talentosos que fizeram história nas artes plásticas e na música pop: “Frida Kahlo & Diego Rivera” e “John Lennon e Yoko Ono”, ambos de Francesca Ferretti de Blonay
“Brancura luminosa” é o novo romance do norueguês Jon Fosse, Prémio Nobel da Literatura, e o primeiro desde a conclusão da sua “Septologia”, que chega pela Cavalo de Ferro, enquanto a Elsinore vai publicar um novo romance da chilena Alia Trabucco Zerán, autora de “Limpa”, desta vez uma ‘road trip’ sul-americana de três jovens, a braços com a pesada herança política do Chile, intitulada “A Subtração”.
A Alfaguara estreia em Portugal aquela que o grupo Penguin Random House afirma ser “uma das mais eminentes escritoras de língua inglesa da atualidade”, Jamaica Kincaid, com o romance “Annie John” que conta “uma história sublime e universal sobre desenraizamento, identidade e laços de família”.
Entre os destaques da editora Relógio d’Água, conta-se “Maniac”, de Benjamín Labatut, autor de “Um terrível verdor”, em que o autor chileno volta a refletir sobre o que acontece quando as maiores mentes humanas se confrontam com as maiores questões do universo, desta vez centrado no matemático John von Neumann.
Outras novidades são a publicação de mais um livro da irlandesa Claire Keegan (“A uma hora tão tardia”), de quem já foi publicado “Acolher” e “Pequenas coisas como estas”, um romance epistolar da italiana Natalia Ginzburg, “Caro Michele”, e o terceiro volume da trilogia “Lembrança da Terra do Passado”, de Liu Cixin, “O fim da morte”.
A editora destaca ainda a publicação do mais recente livro de contos da escritora Lydia Davis, “Os nossos estranhos” (lançado este ano nos Estados Unidos), um romance original de 2018 da escritora chinesa Can Xue, várias vezes apontada como favorita ao Nobel, intitulado “Fronteira”, e o novo do autor irlandês Sebastian Barry, “Para lá da memória”.
A Editorial Presença inicia o ano com o lançamento inédito em Portugal de um clássico italiano de 1961 sobre a máfia, da autoria de Leonardo Sciascia, "O Dia da Coruja", e com a publicação da prequela de “Um homem em declínio”, do escritor japonês Osamu Dazai, intitulada “As flores do riso”.
Outras novidades são duas autoras inéditas em Portugal, de quem a editora vai publicar obras premiadas: “E Três Maçãs Caíram do Céu”, da escritora russa de origem arménia Nariné Abgarian (traduzido por Nina e Filipe Guerra), e “Notes on an Execution”, da norte-americana Danya Kukafka.
A Guerra e Paz dedica parte das suas publicações de 2024 à comemoração dos 50 anos do 25 de Abril, como é o caso de “Antes do 25 do Abril: Era Proibido”, uma versão atualizada do livro de António Costa Santos, “50 Anos de Abril no Algarve”, de Ramiro Santos, e um livro organizado por Manuel S. Fonseca e ilustrado por Nuno Saraiva, cujo título, ainda provisório, é “25 de Abril, no Princípio Era o Verbo”.
Outra aposta da editora é um livro entrevista a Pedro Abrunhosa, feito por José Jorge Letria, intitulado “Gostava muito de escrever sobre o silêncio”.
Na coleção Os livros não se rendem, dedicada a ensaios, sairão a “História do fascismo”, de Emilio Gentile, e “Inglaterra, uma elegia”, de Roger Scruton.
A Tinta-da-China vai publicar logo em janeiro uma nova edição de “História da Bela Fria”, da escritora Teresa Veiga, que inclui um conto inédito."
Lusa

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Rubem Braga e os sete portugueses

Sete portugueses salvam uma tarde de Rubem Braga
por Ferreira Fernandes, 15.11.2022

“Agora dedica-se também à falta de ócio de nos dar a ler o português mais simples e lindo.” Ferreira Fernandes pega na iniciativa da Tinta-da-China de promover a literatura brasileira em Portugal, para nos brindar com uma crónica de Rubem Braga, “talvez o maior dos cronistas jornalísticos da língua portuguesa”.
Na Mensagem (Quem Somos) gostamos de gostar. Daí, este nosso gostar de falar dos nossos vizinhos – concidadãos lisboetas – que não se limitam a distribuir peixe, mas ensinam a pescar tainhas. Pode ser um casal de expatriados maduros que organizam jardins coletivos no bairro ou a editora Bárbara Bulhosa, da Tinta-da-China, que lhe deu agora para organizar aulas sobre autores brasileiros.
O negócio dela tem sido vender livros. Agora dedica-se também à falta de ócio de nos dar a ler o português mais simples e lindo: Bárbara Bulhosa põe quem sabe de literatura brasileira a falar de seis encantadores da palavra. Aqui, na Mensagem, Álvaro Filho faz notícia dessa obra de beneficência pública – o Projeto Tinteiro, escola e oficina – que em sessões semanais se dedica a Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Manuel Bandeira, João Guimarães Rosa e Rubem Braga.
Este último, Rubem Braga (1913-1990), merece uma nota especial: praticou quase exclusivamente o género de crónica jornalística. Começou aos 15 anos, terminou 62 anos depois, fazendo crónicas, por vezes ao ritmo diário, em vários títulos de jornais brasileiros. Quantas? Diz a lenda que foram 15 mil, das quais mil recolhidas em antologias. Mas o mais notável nele é a quantidade de crónicas suas que, cada uma, é uma bênção literária. Rubem Braga é talvez o maior dos cronistas jornalísticos da língua portuguesa (talvez, porque há também o Nelson Rodrigues).
Um reputado crítico literário, Antônio Candido (Prémio Camões, 1998), escreveu muito sobre as crónicas jornalísticas: narrativas curtas, de linguagem assumida do dia-a-dia, sem a perspetiva de quem escreve do alto da montanha… E isso, em vez de defeito, pode ser uma vantagem: “A vida ao rés-do-chão” é o nome de célebre ensaio de Candido sobre as crónicas jornalísticas brasileira.
“Graças a Deus”, escreveu o crítico, explicando: ao ser escrita no rés-do-chão “ela fica perto de nós.” Na tradição da crónica jornalística brasileira há atenção generosa com a gente comum – o cronista vê o efémero desdenhado pelo analista e cultua as palavras simples e as fórmulas imaginativas de quem quer encantar, em vez de lecionar.
Há uma ironia do tamanho de um arranha-céus no facto do maior dos cronistas brasileiros, em vez de rés-do-chão, ter morado, de 1963 ao fim da vida, num jardim suspenso, no último andar de um edifício em Ipanema, Rio de Janeiro. Lá no cimo foi a famosa “cobertura do Braga”, com coqueiros e cajueiros, ele recebia Vinícius e Chico Buarque, à altura do vizinho morro da favela do Cantagalo.
Rubem Braga com amigos e cronistas na varanda da cobertura.
Entre eles, Vinicius de Moraes, Fernando Sabino e Carlinhos Oliveira
 (Divulgação da Exposição no Museu da Língua Portuguesa)

Evidentemente, se de casa ele via os favelados era à distância e se escrevia sobre uma viúva na praia (e há uma crónica inesquecível sobre ela) era um pouco inventado. Manuel Bandeira, outro dos seis escritores brasileiros apresentados pelo Projeto Tinteiro, dizia de Rubem Braga que ele era sempre bom, mas “quando não tem assunto então é ótimo”.
Não ter assunto quer dizer bastarem-lhe os homens. Ter a generosidade de os olhar, e o gosto de falar deles – é simples. No projeto de uma editora portuguesa que pretende não deixar esquecer grandes escritores brasileiros, não conheço mais adequada crónica do que a escolho para a Mensagem e a seguir descrevo.
Na quarta-feira, 28 de março de 1956, no Diário de Notícias, jornal do Rio de Janeiro, aparecia a habitual crónica quotidiana, assinada por Rubem Braga. No dia anterior ele tinha-se cruzado com dois taxistas, três porteiros, um zelador do prédio ao lado e um qualquer vizinho, todos os sete portugueses, todos modestos, mas com um ingénuo fascínio: pelo navio Vera Cruz, em particular, e pelos barcos, em geral. Esse encontro múltiplo e breve “me salvou a tarde de ontem”, dizia o cronista, na crónica do dia seguinte.
A crónica inicial tinha por título “Navio”, talvez por ser publicada numa estreita coluna de jornal [ver foto]. Dois anos depois, a crónica volta a ser publicada na revista Manchete, a 7 de junho de 1958, um autoplágio compensado por um título maior “O Português e o Navio”, permitido pela página inteira que a revista dedicou à crónica. Finalmente, a editora Record, Rio de Janeiro, 1960, reuniu a antologia Ai de ti, Copacabana – que já teve mais de vinte edições – e deu à citada crónica o título “Os Portugueses e o Navio”.
Embora com o título da antologia, a crónica de Rubem Braga, tal como apareceu na edição inicial, no jornal Diário de Notícias, do Rio de Janeiro, em 1956, fica aqui publicada na Mensagem:

Os Portugueses e o Navio
Rubem Braga Direitos de Autor
por Rubem Braga
"Antônio Maria (1) contou que uma vez ia num táxi guiado por um chofer português, velho, bigodudo, calado, de cara triste. Quando o carro chegou à praia, o chofer viu um barco e exclamou, apontando, com o braço esticado, os olhos brilhantes, num tom de descoberta, desafio e alegria:
– Olha o navio pequenino!
Essa fascinação dos portugueses pelos navios me salvou a tarde de ontem. Eu tinha de ir à Alfândega e, portanto, passar pela Praça Mauá. O português do volante vinha praguejando contra o calor, contra os outros carros, contra tudo. Antes dele, eu vi o Vera Cruz (2) encostado no cais, e disse: “Olhe o Vera Cruz, que navio bonito!”.
Ele recebeu isso como um elogio pessoal e começou a falar do navio com entusiasmo, até conhecia um maquinista de bordo e visitara todo o gigante – tem oito andares, mas tem elevador.
Pelas cinco e pouco, ao voltar para casa, me tocou outro volante português. Na altura do Flamengo, divisei o navio, que marchava para a saída da barra, e resolvi elogiar novamente o barco, para ver o efeito. Foi maravilhoso. “É realmente, é realmente, é um belo navio!”
Fiz notar que o Brasil não tinha nenhum navio de passageiros tão grande e tão bonito, e isso animou ainda mais o homem. Acabou confessando que em sua opinião não era somente o Brasil que não possuía um navio assim; país nenhum do mundo. Os ingleses, os americanos, os franceses, os italianos têm bons navios, sim, bons navios, mas nenhum tão bonito. “O senhor não acha”?
Desconversei: “Esse aí eu vou ver passar de minha janela em Ipanema”. Discordou: o navio tinha grande velocidade e cortava muito caminho por onde ia. Discutimos um pouco, eu jogando no táxi dele, e ele apostando no navio.
Em Copacabana voltamos a ver o barco, na altura da Ilha Cotunduba. Fiz lhe ver que eu estava ganhando a aposta: “Já passamos na frente”. Ele balançou a cabeça: “Agora é que ele vai desenvolver a velocidade”.
Na Vieira Souto ele teve de se render à evidência. O navio mal apontava no Arpoador e nós já estávamos perto do Posto 8. Mas ele arrumou uma explicação: “O comandante mandou tocar devagar para os passageiros verem a paisagem”.
Fiz uma reflexão: “Quer dizer que é assim: o navio a ver a paisagem e a paisagem a ver o navio.” E graças a isso, quando lhe paguei a corrida, ele me perguntou se eu era poeta: “Isto que o senhor disse eu vou repetir à patroa”.
O casal de portugueses da portaria conversava com o porteiro do lado e o zelador do edifício da frente, todos portugueses. Dei a notícia: “O Vera Cruz está passando lá no mar”.
“O Vera Cruz! O Vera Cruz!”. E saíram todos para a praia; no caminho arrebanharam mais um português que passava: “O Vera Cruz, homem, venha depressa, venha!”
E lá se foram a correr, os pedros álvares cabrais."

(1)-Antônio Maria (1921-1964) foi um cronista do Rio de Janeiro e autor de sucessos musicais
(2)- Vera Cruz, transatlântico português, assíduo na rota para o Brasil, nas décadas de 1950 e 60

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Ler Raul Brandão


Ler Raul Brandão
por Eugénio Lisboa
“Peguei, ao acaso, no segundo volume das MEMÓRIAS de Raul Brandão, que já frequentara por várias vezes, e mais uma vez me tomou de assalto aquela voz única, serenamente meditativa,
inocentemente destemida e cândida, ao revelar-nos a balbúrdia, o desconchavo, os lados baixos, oportunistas, violentos e até assassinos, da 1ª República. É uma paisagem negra, de grande pintor, que viu e conviveu com importantes actores daquele período conturbado, que nos conduziu a quase cinquenta anos de Estado Novo. Raul Brandão não era monárquico nem tinha saudades da monarquia. Pintava só o que via e nada escondia. Diz coisas tremendas, conta factos, incidentes, conversas, que nos deixam atordoados. Com objectividade, sem ênfase, sem excesso de efeitos, sem espírito de fofoquice, como os grandes cronistas da antiguidade. Quando diz que Júlio Diniz morreu virgem ou que os testículos de Latino Coelho pareciam duas castanhas piladas, não está a fazer literatura com especiarias indiscretas, mas simplesmente a dizer o que lhe vinha ao conhecimento, sem nunca carregar no traço. É um pintor, aparentemente imperturbado, mas, no fundo, terrivelmente angustiado. Faz-nos retratos inesquecíveis de Mouzinho de Albuquerque, nos últimos dias da sua vida, antes de se suicidar, de Teófilo Braga, entrincheirado na sua avareza balzaquiana, mesmo no funeral da sua devotada mulher, exigindo repetidamente um funeral barato e não permitindo que vestissem à morta um dos seus melhores vestidos, porque era um desperdício… O mesmo homem, de simplicidade franciscana, que pedia desculpa por sair da Academia mais cedo, porque a sua empregada doméstica estava doente e ele tinha de ir cozer umas couves. De Guerra Junqueiro, que idolatrava, como poeta e como filósofo, deixa-nos também um portentoso retrato. Junqueiro era, de certo, um grande poeta, que as gerações de hoje ou não reconhecem ou não conhecem, mas o filósofo que nunca foi, e que Brandão e outros exaltaram, esteve na origem do célebre ensaio em que António Sérgio tiroteia implacavelmente o mito de pensador colado à figura do autor de OS SIMPLES.
Vale a pena ler e reler estes três volumes de memórias de Raul Brandão, nas quais uma atrevida candura se alia, sem dificuldade, a uma inocente indiscrição. “
Eugénio Lisboa, 03.01.2024

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Momento musical


When the cold of winter comes 
Starless night will cover day 
In the veiling of the sun 
We will walk in bitter rain 

 But in dreams
 I can hear your name
 And in dreams

 We will meet again 
 When the seas and mountains fall 
And we come, to end of days
 In the dark I hear a call 

Calling me there,
 I will go there
 And back again

.
Christine Nonbo Andersen & The Danish National Symphony Orchestra, em The Breaking of the  Fellowship, composição de Howard Shore. 
Em Junho de 2019, The Danish Broadcast Corporation (DR) realizou  um concerto com a designação de  “FANTASYMPHONY – ONE CONCERT TO RULE THEM ALL”, interpretado por  The Danish National Symphony Orchestra, The Danish National Concert Choir, The Danish National Junior Choir, com vários solistas , sob a direcção do Maestro Christian Schumann.

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

ANO NOVO

Um novo ano que promete pouco:
mais pobreza, mais fome, mais guerras,
ao leme, frequentemente, um louco,
semeando caos por plainos e serras.
 
O homem tornado mais engenhoso,
mas infinitamente menos sábio:
a destruir, tornado poderoso,
olvidando o saber do alfarrábio.
 
Um mundo de gadgets atarantados,
consumidos por gente alienada,
olhando pra sinais amontoados.
 
Uma horda de gente estonteada,
perante o Titanic a afundar-se,
sem ânimo sequer para salvar-se.
                              02.01.2023
Eugénio Lisboa

A fantástica evidência

«O que há a redimir é a adequação deste milagre brutal de nos sabermos uma evidência iluminada, de nos sentirmos este ser que é vivo, se reconhece único no corpo que é ele, na lúcida realidade que o preenche, o identifica nas mãos que prendem, na boca que mastiga, nos pés que firmam, de nos descobrirmos como uma entidade plena, indispensável, porque ela é de si mesma um mundo único, porque tudo existe através dela e é impossível que esse tudo deixe de existir, porque ela irrompe de nós como a pura manifestação de ser, e o «ser» é a única realidade pensável — o que há a redimir é a adequação desta fantástica evidência que nos cega e a certeza de que ela está prometida à morte, de que o seu destino é a impossível e absoluta certeza do não-ser, da pura ausência, da totalidade nula, da pura irrealidade. »
Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro, Quetzal Editores

 Risquer

 Aimer, c'est risquer le rejet.
 Vivre, c'est risquer de mourir.
 Espérer, c'est risquer la déception.
 Essayer, c'est risquer l'échec.
 
 Risquer est une nécessité.
 Le plus grand des dangers,
 C'est de ne pas risquer.
 D'être enchaîné dans ses certitudes
 Comme un esclave.
 
 Seul celui qui ose risquer
 Est vraiment libre !
Anonyme 

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

2024


Que novo rumo tome o mundo. Que novas chamas inspirem a Humanidade. Que se extingam os conflitos armados  e que a Paz seja uma realidade.
Assim se faça 2024.
 
 Epic Female Vocal, em Golden Flames.