terça-feira, 6 de setembro de 2022

Adriano Moreira completa 100 anos

 
Adriano Moreira nasceu a 6 de Setembro de 1922, em Grijó. Completa , hoje , 100 anos.  Tem sido homenageado no país, em diferentes modos e ritmos. Enquanto homem de saber, intelectualmente inquieto, teve uma longa intervenção pública. Escolhemos dois registos videográficos que completam o excelente artigo de Viriato Soromenho Marques ,publicado no jornal Diário de Noticias de hoje. 
Ao Professor,  saudamos estes longos e jubilosos anos.
Adriano Moreira - um século português na vertigem do mundo
por Viriato Soromenho Marques
"Poucas personalidades têm a fortuna de projectar a sua idade biográfica na escala dos séculos, que é o tempo próprio apenas de povos e civilizações. Ainda menos são aquelas que pelo seu pensamento e intervenção na realidade se transformam numa fonte incontornável para o debate onde se consolida a memória comum e se forma a movente consciência coletiva. No caso português, essa personalidade parece-me coincidir com a figura complexa e multifacetada de Adriano Moreira, que hoje completa um século de existência.
SEIS PERÍODOS DE UM PERCURSO
Uma vida tão longa pode ser dividida em diferentes períodos. Contudo, desde a conclusão da sua licenciatura em Direito, no distante ano de 1944, até aos dias de hoje, temos na sua vastíssima obra - concretizada, entre outros modos de expressão, em ensaios, tratados e artigos académicos, pareceres e diplomas jurídicos, conferências, intervenções parlamentares, crónicas de imprensa, entrevistas - um testemunho continuado da sua meditação sobre o mais vertiginoso século da história humana, tendo como fulcro essencial, mas sempre em diálogo com todos os outros nexos de interesse global, o destino de Portugal, como povo e cultura. Uma preocupação com o país, que integra e articula uma necessidade de compreender a (des)ordem do mundo, as suas contradições, as suas tendências e ciclos. É nessa avaliação do todo englobante, que Adriano Moreira tenta situar o que ameaça Portugal e o que o país pode esperar. Isso constitui uma espécie de método, que com modulações, mas sem rutura, poderemos encontrar em todas as fases do seu percurso. Primeiro, no período de formação académica e início da carreira profissional, até final da década de quarenta. Segundo, numa etapa fundamental de amadurecimento e consolidação de uma vocação universitária atenta aos problemas mais agudos do país, onde a teoria e o trabalho de campo se completam, até final da década de cinquenta. Terceiro, no mais breve, intenso e marcante entrosamento da sua vida pessoal com a do país, entre 1960 e 1962, como responsável da política ultramarina, quando as placas tectónicas da história mundial retiravam a base de sustentação do Euromundo, essa mistura de sonho e pesadelo dos impérios europeus. Quarto, na longa travessia do deserto, nessa espécie de exílio interno nos últimos doze anos do Estado Novo, a que se junta o exílio propriamente dito, no Brasil, após a revolução de 25 de Abril de 1974. Quinto, no seu regresso a um país que o acolheu e redescobriu, como professor, líder político e deputado na Assembleia da República, entre 1980 e 1995. Sexto, na transformação do que poderia ser um tempo de merecido repouso, numa contínua e generosa disponibilidade para aceder a múltiplas solicitações e convites das mais diversas instituições, para partilhar o seu saber."
Viriato Soromenho Marques, em artigo publicado no DN de 06.09.2022

Marcel Aymé


 

GRANDES ESCRITORES QUE O NOBEL IGNOROU
I – Marcel Aymé
por Eugénio Lisboa
"Alguns dos mais fabulosos escritores do século XX foram completamente ignorados pelos soturnos juízes da Academia sueca, a troco de verdadeiras mediocridades que o tempo já esqueceu e, noutros casos, há de esquecer.
Hoje escolho, entre os ignorados, Marcel Aymé, porque ando a ler, fascinado e deliciado, a sua colectânea de historietas, fábulas, invenções, fantasias, achados, modestamente intitulada ENJAMBÉES.
Aymé é um prodigioso narrador, um humorista surpreendente e ferino, um escritor de enorme inventiva e fantasia, um manipulador genial das palavras, um ventilador da língua, um lírico originalíssimo, um autor dramático de prodigiosa força – a sua peça, LA TÊTE DES AUTRES é uma das sátiras mais contundentes que conheço, em qualquer língua - , um observador minucioso do mundo real e também do sobrenatural, um fabulista do mais alto gabarito, um irresistível contador de histórias para todas as idades e estações.
Seguramente ficará para os vindouros, porque nasceu já clássico e permanecerá eternamente jovem e sedutor. Um escritor que é criminoso não ler, porque não lê-lo é desperdiçar um dos grandes prazeres da vida. Os do Nobel ignoraram-no porque a palavra “humorista” os assusta, esquecendo-se que a maior parte dos verdadeiros humoristas (não confundir com gracejadores) são gente do mais sábio e do alcance mais universal que existe. De Aristófanes, passando por Molière, até aos mais recentes P. G. Wodehouse, Mark Twain, O. Henry, Woody Allen, Stephen Leacock, James Thurber, Damon Runyon, Tom Sharpe, Evelyn Waugh,  entre muitos outros, todos estes grandes observadores e originalíssimos comentadores do mundo que nos rodeia – e sempre grandes desbravadores dos recursos da língua em que escreveram – são, a meu ver, dos mais indiscutíveis benfeitores da humanidade: pelo que nos ensinam e porque nos iluminam e divertem. Mark Twain é bem maior, mais durável, mais eternamente jovem e provocador do que muitas das nulidades sombrias que o Nobel galardoou mas não consagrou.
Aymé é um genial desbravador de territórios maravilhosos e inexplorados, é um cantor da música sibilina das palavras, é um portentoso aproximador de palavras improvavelmente associáveis. É um génio da sedução, por várias vias, é, em suma, um dos verdadeiramente grandes.
O filósofo, conde de Keyserling, passando um dia por Paris, perguntou ao poeta Paul Valéry: “Quem é o vosso maior escritor vivo?” Valéry respondeu prontamente: “É Montherlant, mas não convém dizê-lo.” O mundo literário tem destes interditos.”
Eugénio Lisboa, 05.09.2022

Foi desde sempre o Mar



Mar Absoluto
Foi desde sempre o mar,
E multidões passadas me empurravam
como o barco esquecido.
 
Agora recordo que falavam
da revolta dos ventos,
de linhos, de cordas, de ferros,
de sereias dadas à costa.
 
E o rosto de meus avós estava caído
pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas,
e pelos mares do Norte, duros de gelo.
 
Então, é comigo que falam,
sou eu que devo ir.
Porque não há ninguém,
tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.
 
E tenho de procurar meus tios remotos afogados.
Tenho de levar-lhes redes de rezas,
campos convertidos em velas,
barcas sobrenaturais
com peixes mensageiros
e cantos náuticos.
 
E fico tonta.
acordada de repente nas praias tumultuosas.
E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos.
"Para adiante! Pelo mar largo!
Livrando o corpo da lição da areia!
Ao mar! - Disciplina humana para a empresa da vida!"
Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas.
A solidez da terra, monótona,
parece-mos fraca ilusão.
Queremos a ilusão grande do mar,
multiplicada em suas malhas de perigo.
 
Queremos a sua solidão robusta,
uma solidão para todos os lados,
uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo,
e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.
 
O alento heróico do mar tem seu pólo secreto,
que os homens sentem, seduzidos e medrosos.
 
O mar é só mar, desprovido de apegos,
matando-se e recuperando-se,
correndo como um touro azul por sua própria sombra,
e arremetendo com bravura contra ninguém,
e sendo depois a pura sombra de si mesmo,
por si mesmo vencido. É o seu grande exercício.
 
Não precisa do destino fixo da terra,
ele que, ao mesmo tempo,
é o dançarino e a sua dança.
 
Tem um reino de metamorfose, para experiência:
seu corpo é o seu próprio jogo,
e sua eternidade lúdica
não apenas gratuita: mas perfeita.
 
Baralha seus altos contrastes:
cavalo, épico, anêmona suave,
entrega-se todos, despreza ritmo
jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, mas é desfolhado, cego, nu, dono apenas de si,
da sua terminante grandeza despojada.
 
Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões:
água de todas as possibilidades,
mas sem fraqueza nenhuma.
 
E assim como água fala-me.
Atira-me búzios, como lembranças de sua voz,
e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino.
 
Não me chama para que siga por cima dele,
nem por dentro de si:
mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom.
Não me quer arrastar como meus tios outrora,
nem lentamente conduzida.
como meus avós, de serenos olhos certeiros.
 
Aceita-me apenas convertida em sua natureza:
plástica, fluida, disponível,
igual a ele, em constante solilóquio,
sem exigências de princípio e fim,
desprendida de terra e céu.
 
E eu, que viera cautelosa,
por procurar gente passada,
suspeito que me enganei,
que há outras ordens, que não foram ouvidas;
que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos,
e o mar a que me mandam não é apenas este mar.
 
Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças,
mas outro, que se parece com ele
como se parecem os vultos dos sonhos dormidos.
E entre água e estrela estudo a solidão.
 
E recordo minha herança de cordas e âncoras,
e encontro tudo sobre-humano.
E este mar visível levanta para mim
uma face espantosa.
 
E retrai-se, ao dizer-me o que preciso.
E é logo uma pequena concha fervilhante,
nódoa líquida e instável,
célula azul sumindo-se
no reino de um outro mar:
ah! do Mar Absoluto.
Cecília Meireles, in Mar absoluto: Retrato Natural,  Editora Record/Altaya , 1997 , 1ª Edição

domingo, 4 de setembro de 2022

Ao Domingo Há Música


CANTAMOR

Se de ti colho as flores que em minha casa
fazem explodir de luz os corredores
e afago a solidão que trago acesa
acima de outras dores

se de lembrar-te apenas o perfil
mil vezes morro e sinto que outras mil
me cumpre renascer

se no teu corpo bebo a madrugada
que ladeia  de paz a longa estrada
que tenho de correr

pois não hei-de cantar-te meu amor?
Torquato da Luz, Caliban, 3/4

A aurora, o  despertar do dia traz, além da beleza do raiar da luz,  a esperança de mudança , de uma redenção que crie um pouco do paraíso que todo e qualquer ser humano sonha. 
Há vozes que permitem sonhá-lo. Lisa Gerrard é uma grande artista que, ao longo da sua carreira,  nunca deixa de surpreender. Ei-la num novo projecto,   revelador do seu extraordinário  talento.
Lisa Gerrard & Marcello De Francisci , em  "When The Light Of Morning Comes“ (Official Video), do Álbum  'Exaudia', cujo  lançamento completo aconteceu a 26/08/2022.
Melodia vocal composta e interpretada por Lisa Gerrard. 
Music Track composta, interpretada, produzida,  masterizada por Marcello De Francisci . Gravação de  Atlantic Curve | Schubert Music Publishing .
  

Lisa Gerrard & Marcello De Francisci, em  'Until We Meet Again' (Official Video ), do Álbum  Exaudia.
Melodia vocal composta e interpretada por Lisa Gerrard.
   
Lisa Gerrard & Marcello De Francisci , em 'EXAUDIA' (Vídeo Oficial) , do  Álbum Exaudia (Exaudia' - Um termo usado quando um monarca concede uma audiência a um cidadão do reino e, como resultado, consente  um desejo.) 
Melodia vocal composta e interpretada por Lisa Gerrard. Music Track composta, interpretada, produzida,  masterizada por Marcello De Francisci . Gravação de  Atlantic Curve | Schubert Music Publishing .
 

sábado, 3 de setembro de 2022

O IDEÓLOGO CATA-PIOLHOS



Os textos fazem muitas comichões
a quem os lê, procurando piolhos.
Há nos textos gazelas e leões,
inacessíveis a quem usa antolhos.
 
Não fica ao alcance dos cata-piolhos
fruir a grandeza do elefante:
eles tapam os olhos com ferrolhos
e não topam, do nariz, nada adiante.
 
A arte é feita para ser fruída
por quem a ama e bem a entende.
Não é feita para ser destruída
 
por tolo que a ela não ascende.
O ideólogo cata-piolhos
tem só trambolhos, em lugar de olhos.
                               22.08.2022
Eugénio Lisboa
 
Eu, até há pouco tempo, pensava que esta espécie de cata-piolhos ideológico era uma raça felizmente extinta. Infelizmente, continua por aí, ignorante, teimosa, de olhar enviesado, desconfiando de tudo quanto é arte verdadeira, odiando tudo quanto não é ideologia pura e dura e tendo uma não erradicável nostalgia de tempos e regimes em que os vigilantes estavam atentos, sinalizando, sem ambiguidades, a arte que não se podia fazer e aquela que se devia fazer. Mas houve um muro que caiu e um paraíso ideológico que se desfez. Restam uns patéticos poucos, que dão continuidade ao peditório. Felizmente, para eles, vivem num regime político horrível, que lhes dá plena liberdade de continuarem alienados, cantando e rindo. 

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Para ler com impune prazer

                                     
                                                                            
A sós, os dois.
Isto é, livro e leitor.
Este não quer saber de terceiros,
não quer que interpretem,
que cantem, que dancem um poema.
O verdadeiro amador de poemas ama em silêncio…
Mario Quintana 

Sou uma leitora completamente dependente desse vício impune que é a leitura. Tenho uma biblioteca razoável com milhares de livros. Leio e releio com prazer desmedido  esses livros  , embora me surpreenda com alguns tesouros que , na gula incontinente da compra, não tive tempo de ler . Alguns descubro, num golpe esporádico de sorte, alinhados à sombra de outros, já saboreados em devido tempo. Outros há que se acotovelam numa mesa, à espera  de uma  voraz disponibilidade de consumo, para que se não  confundam com todos os outros já  degustados e bem arrumados pelas prateleiras. 
Talvez para aqueles, que visitam este blog, não seja uma surpresa este gosto infindo pelos livros. Foram  os livros que  possibilitaram a criação e manutenção deste espaço. Vive de leituras e da aprendizagem que delas ficou. Renova-se e enforma-se de outras numa consanguinidade quase  pura e impertinente. 
E se a silly season se deu por extinta e a rentrée se desenha , é tempo de lançamento de livros , de apontar leituras e até de visitar uma Feira do Livro , que chega fora de um tempo a que nos habituou.
 
Quanto a livros novos , começo por um excelente livro de poesia que traduz, com magistral  acuidade poética,  um tempo que se viveu e se vive: a Guerra suja desencadeada por um terrível alucinado invasor - Putin.  
Com a chancela da Editora Guerra & Paz, Poemas  em Tempo de Guerra Suja , de Eugénio Lisboa, é um livro que nos enleva pela perfeição artística de cada poema. Toca-nos fundo pela mágoa , pela dureza , pela raiva,   pela angústia e por um inconformismo ético que só a palavra oriunda de uma magnífica oficina poética é capaz de traduzir. 
No site da Editora pode ser lido o seguinte:
"A indignação é o combustível de Poemas em Tempo de Guerra Suja, o novo livro de Eugénio Lisboa. Actualíssima, a obra reúne os poemas que o poeta, ensaísta e crítico literário foi escrevendo em plena invasão da Ucrânia pelas tropas russas e nos quais Eugénio Lisboa reage a quente, com comoção e revolta, à devastação e aos crimes de guerra que têm vindo a manchar este ano de 2022. Um livro contra a guerra, mas, acima de tudo, contra Putin, Poemas em Tempo de Guerra Suja chega à rede livreira nacional no próximo dia 6 de Setembro, numa edição Guerra e Paz com a força de mil homens. O livro poderá ainda ser adquirido, nas Feiras do Livro de Lisboa e do Porto, que decorrem até 11 de Setembro.
«Preferia não ter escrito este livro, sinal de que não tinha havido uma guerra que, de resto, continua a haver. Um tirano, antigo espião de uma ditadura sangrenta, alimentando sonhos megalómanos de retorno a um império de má memória, promoveu a invasão e a destruição da Ucrânia e, dentro de mim, a indignação que é o sangue destes versos.» 
Tendo consciência de que, embora haja grande literatura contra a guerra, escrita em todos os tempos e latitudes, a denúncia dos seus horrores não impediu que outras guerras surgissem depois, o poeta, ensaísta e crítico literário Eugénio Lisboa decidiu não baixar os braços."
Não Matarás!, o novo  livro de  Teresa Martins Marques, que acaba de ser lançado. Trata-se de  um arrojado romance sobre um grande acontecimento político italiano, o rapto de Aldo Moro. Misterioso e repleto de sombra, este trágico acontecimento é o centro de todo esta obra. A leitura trará revelações e um olhar profundo sobre a investigação que tem sido feita nos últimos anos . Assim, no site da Editora Gradiva, chancela desta obra, poderá ler o seguinte:

"Roma, Via Fani, 16 de Março de 1978. O sequestro de Aldo Moro durante 55 dias, o massacre da sua escolta e finalmente o seu assassínio. Que abalariam a Itália e chocariam o mundo. E acabariam com os três maiores partidos políticos italianos. Reivindicado pela organização terrorista Brigate Rosse, quem foram realmente os seus mandantes? Este livro acompanha a investigação rigorosa que, nos últimos anos, tem vindo a lume na Itália, mostrando a rede de cumplicidades nacionais e internacionais, na origem dos crimes.
Teresa Martins Marques, com ligações à Itália, a quem a personalidade, o carácter e a acção de Aldo Moro cativaram e o crime horrorizou. Chocada com a recusa do governo democrata-cristão e do Partido Comunista em negociar com o grupo terrorista a sua libertação, leu tudo o que sobre o assunto se escreveu, falou com colaboradores, amigos, alunos e familiares, e ligou os fios que até hoje ninguém quis ou se atrevera a ligar. Numa escrita de uma fluência singular, a autora junta os dados e reconstitui o que só numa obra de «ficção» podia ser contado. O rapto de Moro não foi para negociar. Foi para matar."
A par destas duas novas obras, há uma série de lançamentos que não comentarei .Pretendo indicar alguns livros recentes  que me tornaram refém de uma leitura compulsiva e inebriante. Eu, que leio obstinadamente, dei por mim a regressar aos meus tempos de jovem, quando a leitura de um empolgante  livro  anulava  qualquer outra tarefa ou compromisso.    


De Amim Maalouf, Escalas do Levante foi uma surpreendente descoberta, embora conheça bem este magnífico escritor por outras interessantes leituras. Há, contudo, neste livro uma tal  beleza,  dada quase como perdida,  no desenho peculiar da personagem principal, Ossyane, o protagonista de uma trágica história de encontros e desencontros que nos prende  do princípio ao fim. Li-o  em mergulho fulminante  , tal e qual como fazia nos meus dias de jovem leitora rebelde.
Marcador é a chancela desta edição , onde está aposta a  sinopse deste tocante romance: 
"Escalas do Levante era o nome que se atribuía antigamente ao rosário de cidades mercantis através das quais os viajantes da Europa chegavam ao Oriente.
De Constantinopla a Alexandria, passando por Esmirna, Adana ou Beirute, essas cidades foram, durante muito tempo, lugares de mistura onde conviviam línguas, costumes e crenças. Universos frágeis a que a História lentamente deu forma antes de os derrubar, quebrando, de passagem, inúmeras vidas.
A personagem central deste romance, Ossyane, é um desses homens de destino desviado. Da agonia do Império Otomano às duas guerras mundiais e às tragédias que, ainda hoje, dilaceram o Médio Oriente, a sua vida não pesará mais do que uma palha na tempestade. Pacientemente, recorda a sua infância principesca, a avó demente, o pai revoltado, o irmão desonrado, a sua estada na França ocupada e o encontro com a sua amada fugitiva, Clara, os seus momentos de fervor, de heroísmo e de sonho. E, depois, a descida aos infernos.
Despojado do seu futuro e da sua dignidade, privado das alegrias mais simples, que lhe resta? Um amor à espera. Um amor tranquilo, mas poderoso. Talvez, no fim de contas, mais poderoso do que a própria História."

Como Poeira ao Vento, um livro admirável de Leonardo Padura . Intenso e longo é um excelente romance. A revolução cubana, que tantas promessas trazia , fez crescer uma geração empenhada em ser melhor, em aprender, em sacrificar-se para se valorizar e melhorar um país. Mas a verdadeira face de uma falsa ideologia  revelou-se  e  traiu essa geração que se viu numa encruzilhada sem futuro, sem progresso. A fome e a miséria grassaram . O universo perfeito dos iguais não passou  de uma falácia , de uma iniquidade onde havia alguns  iguais e a maioria numa desigualdade atroz.  
Acompanhando um grupo de amigos de formação universitária, personagens fortes deste romance, acompanha-se a história de Cuba até ao tempo  hodierno.  Obrigados pelo medo , pela fome, pela  falta de futuro acabam por fugir ou sair da ilha e sentir o desenraizamento de refugiado. Um livro de grande fôlego. 
Na sinopse aposta no site da Porto Editora, que publicou o livro, lê-se: 
"O dia começa mal para Adela, jovem nova-iorquina de ascendência cubana, ao receber um telefonema da mãe. Há mais de um ano que as duas estão zangadas, porque não só Adela se mudou para Miami, como vive com Marcos, um jovem havanês recém-chegado aos Estados Unidos, por quem se perdeu de amores e que a mãe rejeita pelas suas origens. Como se isso não bastasse, nesse dia Marcos mostra a Adela uma fotografia sua em criança com o grupo de amigos dos pais, autodenominado o Clã. E quando, entre aqueles rostos, Adela reconhece um que lhe é particularmente familiar, o seu mundo ameaça ruir."
Como poeira ao vento é a história de um grupo de amigos que sobreviveu a um destino de exílio e dispersão em Barcelona, no extremo Noroeste dos Estados Unidos, em Madrid, em Porto Rico, em Buenos Aires… Que lhes fez a vida, a eles que se amavam tanto? Que aconteceu com os que partiram e com os que decidiram ficar? Como é que o tempo passou por eles? Tornarão a uni-los o magnetismo do sentimento de pertença e a força dos afectos? Ou serão as suas vidas como poeira ao vento?

Fome Vermelha, A guerra de Estaline contra a Ucrânia, de Anne Applebaum, é um livro envolvente , de um grande rigor histórico que nos exige  uma leitura atenta . A revelação dos métodos tenebrosos de Estaline para arrasar um povo leva-nos a confirmar que há sempre um novo  tirano para continuar a história trágica do mal , como acontece com Putin.
Eis a resenha deste precioso  documento , resultado de uma profunda investigação:
"Em 1932-3, quase quatro milhões de ucranianos morreram de fome, tendo sido deliberadamente privados de alimentos. É um dos episódios mais devastadores da história do século XX. Com autoridade e detalhes sem precedentes, Fome Vermelha investiga como isso aconteceu, quem foi o responsável e quais foram as consequências.
É o relato mais completo já publicado desses terríveis eventos.
Fome Vermelha baseia-se num manancial de material de arquivo e em testemunhos em primeira mão disponíveis apenas desde o fim da União Soviética, bem como no trabalho de estudiosos ucranianos em todo o mundo. Inclui relatos da fome por aqueles que sobreviveram, descrevendo o que os seres humanos podem fazer quando enlouquecidos pela falta de alimentos. Mostra como o Estado soviético, impiedosamente, usou a propaganda para pôr os vizinhos uns contra os outros, a fim de expurgar elementos supostamente antirrevolucionários. Também regista as acções de indivíduos extraordinários que fizeram todo o possível para aliviar o sofrimento.
Em paralelo com a fome, deu-se um ataque aos líderes culturais e políticos da Ucrânia, e posteriormente entrou-se num período de negação acerca desses acontecimentos. Os relatórios dos censos foram falsificados e a memória foi obliterada. Alguns jornalistas ocidentais acolheram a linha soviética, outros rejeitaram-na corajosamente e foram perseguidos. As autoridades soviéticas estavam empenhadas em obrigar a Ucrânia a abandonar as suas aspirações nacionais, e em enterrá-la juntamente com os seus milhões de vítimas. Fome Vermelha, um triunfo da erudição e da empatia humana, é um marco na recuperação daquelas memórias e daquela história. E mostra até que ponto o presente é moldado pelo passado."

Nota: Aconselho,  ( a quem puder ) , visitar as Feiras do Livro (Lisboa e Porto) ,  perder-se por lá ,entre os stands das diversas editoras,  e responder ao incessante apelo dos livros.

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Morituri Te Salutant


Ave Caesar, Morituri te Salutant, pintura de Jean-Léon Gérôme (1859)
                             
MORITURI TE SALUTANT
 
Nem o sol nem a morte se encaram
de frente, disse-o um moralista.
Quando todas as esperanças se apagaram
e nada já ofusca a nossa vista,
 
o sol e a morte não amedrontam
e os que vão morrer vos saúdam:
há muito tempo – os anos não se contam - ,
dizendo: “Morituri te salutant”,
 
os gladiadores olhavam a morte
de frente e caíam, olhando o sol.
Havia que dar ao morrer um porte
 
que desse, a gente de um pequeno escol,
a arte de morrer bem levantado,
mesmo sendo o gesto desperdiçado.
                                   01.09.2022
Eugénio Lisboa 

Gato que dorme na praia

Foto de Onésimo Teotónio Almeida

Um gatinho deitado na praia,
tendo em fundo o mar azul sossegado,
impede que o universo descaia
e saia do seu rumo calculado.
 
O sossego do gato é agulha
de bússola que nunca se engana:
a dormir, tranquilo, o gato patrulha
a paz universal, doce nirvana.
 
Um gato que dorme cuida tão bem
do estado saudável do mundo,
que se torna óbvio que não convém
 
retirá-lo do seu sono profundo.
O gato que dorme, a tudo alheio,
mitiga, com beleza, nosso anseio.
                               28.08.2022
Eugénio Lisboa