quinta-feira, 9 de abril de 2026

A saudade de Eugénio Lisboa

Eugénio Lisboa ( 25 Maio 1930 - 9 Abril 2024)

 

O narrador comum narra como qualquer coisa mais ou menos podia acontecer. O bom narrador faz acontecer qualquer coisa diante dos nossos olhos como se estivesse presente. O mestre narra como se qualquer coisa acontecida há muito tempo acontecesse de novo.
         Hugo von Hofmannnsthat 


Recordar Eugénio Lisboa, numa data evocativa da sua morte, 9 de Abril de 2024, é sempre um exercício doloroso para quem  teve o privilégio de  o conhecer. O vazio que deixou apenas fica menos opressivo pela leitura da sua obra. A sua voz retorna como se se infiltrasse nas páginas para nos fazer acreditar que não está ausente. A sua presença impõe-se tal é a magia da sua escrita transformando esse exercício  num exercício de extrema riqueza.
Eugénio Lisboa, num pequeno ensaio " O tal prazer da escrita", de 20 de Junho de 2023, afirmava o seguinte:

A escrita é muitas coisas mas é também uma forma de salvação: ela descobre, ela acicata a memória, fecha-nos às aflições do momento, mergulhando-nos num universo prodigioso, escudado e inacessível às turbulências exteriores. E cura-nos, pela alegria que nos dá o encontrar as palavras certas para exprimir o inefável.

É nesse universo prodigioso que qualquer dos seus leitores mergulha. As palavras certas  encontradas por este exímio escritor curam-nos pela alegria que nos dá ao encontrar o inefável salvífico.
Eugénio Lisboa tem uma obra plural . Volumosa e diversa. Em todos os géneros, em que ela se estende,  ressalta sempre o escritor profundamente culto, de uma  extraordinária erudição  que tem por trás o homem sensível, de uma extrema humanidade e de uma  simplicidade contagiante.
Entre mais de  meia centena de obras, publicou sete livros de Memórias sob o título "Acta Est Fabula" e não cinco como tinha planeado. Ao fazê-lo permitiu um novo fôlego às Letras Portuguesas. 
No Volume III de  Acta Est Fabula, Memórias -III - Lourenço Marques Revisited, informa  de que:

Escrever memórias, passados os oitenta, é um atrevimento. Planeá-las em cinco volumes é pura loucura. Ninguém me podia assegurar que viveria o tempo suficiente para os escrever todos. 
A razão de saltar do primeiro para o terceiro volume ( sem redigir o segundo) é simples: tenho 83 anos e nada me garante que terei vida para redigir os ambiciosamente sonhados 5 volumes. Gostaria em todo o caso, de poder deixar escritos os tomos que dizem respeito à minha vida em África. Foi lá que comecei, mesmo que não vá ser lá que acabo. Esses dois livros, eu devo-os à cidade de Lourenço Marques e ao espaço africano e ao mar africano e à luz africana. Faço questão de pagar essa dívida. O resto será feito se os deuses deixarem.  

Eugénio Lisboa é um prodigioso  mestre, "narra como se qualquer coisa acontecida há muito tempo acontecesse de novo." Pinta em palavras a sua África . Há uma  estranha coincidência de o dia do seu aniversário ( 25 de Maio de 1930) ser também, a partir de 1972, o Dia de África já que  Eugénio Lisboa  tem uma alma africana, embora  Homem de várias pátrias."
 
AQUELA ÁFRICA NÃO ACABAVA

A África, onde nasci, sobrava.
Era África por todos os lados,
olhava-se e nunca mais acabava,
nasciam pra sempre laços sagrados.

Nascer ali era ver o começo
de tudo: a areia da praia, o mar,
a chuva grossa, o sol quente, sem preço,
os mistérios do sexo a acenar.

A grandeza prometia grandeza,
os sonhos em nós não eram mesquinhos!
Visávamos grande, com a certeza

de irmos abrir bem novos caminhos!
Estar bem dentro daquele continente
não era dado a pequenina gente!
                             17.03.2024
Eugénio Lisboa

E recordar Eugénio Lisboa é reler a sua  obra. Nela está o poeta, o ensaísta , o singular crítico literário, o memorialista , o diarista, o cronista,  um dos maiores vultos da Literatura Portuguesa dos séculos XX e XXI.
MEMENTO MORI

Este mar não vai desaparecer.
O que vai desaparecer sou eu.
Este mar vai continuar a ser.
Deixar de vê-lo é destino meu.

Continuará a espelhar o sol,
que, de mim, para isso, não precisa.
Estender-se-á como vasto lençol
o mar que tem grandeza por divisa.

O mundo existia antes de mim,
porque há ser que convive com não ser.
Haverá mundo, depois do meu fim

e ser que ignora o meu não ser.
Está bem assim porque é natural,
embora pareça demencial.
                      19.01.2023
Eugénio Lisboa
LE ROI SE MEURT

Ouvir o anúncio da minha morte
foi como ouvir uma língua estranha:
deram-me um esquisito passaporte,
sem dizerem se é pra vale ou montanha.

Pouco me vale reinar em qualquer Espanha,
a morte quer é haver-se comigo.
Porquê mostrar, a mim, sua gadanha,
achará que sou, pra ela, um perigo?

O que perturba é ela conhecer-me,
parecer saber, de há muito, quem sou,
andar atrás de mim a envolver-me!

Mas agora o momento chegou:
ser rei já muito pouco adianta,
quando a morte me aperta a garganta.
                         01.03.2024
Eugénio Lisboa

NOTA: LE ROI SE MEURT é o título de uma notabilíssima peça de teatro, de Eugène Ionesco, que vi, encenada em Paris. Como o título me convinha, roubei-lho. É assim que se faz.

Até sempre , Eugénio Lisboa. Que saudade, querido amigo!

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