quinta-feira, 23 de abril de 2026

Celebrar o Livro


 

Tudo no mundo existe para algum dia terminar num livro.
           Stéphane Mallarmé
Tenho para mim que sou essencialmente um leitor . Como sabem , eu me aventurei na escrita, mas acho que o que li é muito mais importante do que o que escrevi. Pois a pessoa lê o que gosta, porém não escreve o que gostaria de escrever e sim o que é capaz de escrever.
            Jorge Luís Borges

"O Dia Mundial do Livro é comemorado, desde 1996 e por decisão da UNESCO, a 23 de Abril. Trata-se de uma data simbólica para a literatura, já que, segundo os vários calendários, neste dia desapareceram importantes escritores como Cervantes e Shakespeare, entre outros. A ideia da comemoração teve origem na Catalunha: a 23 de Abril, dia de São Jorge, uma rosa é oferecida a quem comprar um livro. Mais recentemente, a troca de uma rosa por um livro tornou-se uma tradição em vários países do mundo."
Celebrar o livro é celebrar a vida. Os leitores não vivem sem livros. Sou uma leitora "estabelecida" de tantos anos de exercício e de actividade constante. O livro é o fiel e inseparável companheiro que me tem acompanhado ao longo da vida. Cresci, fiz-me gente, deixei o chão pátrio, viajei , percorri mundo e levei sempre comigo os livros celebrados e amados que me fizeram cativa. No regresso, o acervo vinha permanente e singularmente maior. Creio que não há livraria, que se preze, que não tenha sido visitada, namorada e assediada por estes olhos que não cessam de cintilar perante os escaparates e as suas mais recônditas prateleiras. Não há enlevo maior do que aquele que nos é provocado por páginas mestras de grandes escritores. Todos eles me influenciaram. Todos eles me formaram. Todos eles me  enamoraram ao longo da vida.  E , por dever,  por gratidão e por inefável deleite , a voz que se escuta, neste dia  e neste espaço , é deles.

Do livro falemos

Um livro torna-me muito mais livre.
Um livro abre-me imensas portas.
Antes do livro, era semilivre.
Sem livro, as portas estavam tortas

e não abriam. Mas os livros abrem
portas, mesmo se tortas, porque sabem
endireitar tudo o que está torto
e ressuscitar tudo o que está morto.

Porque o livro tem vida e saber
e, muitas vezes, tem até sabor.
O saber dá-nos imenso poder

e o sabor dá-nos muito prazer!
O livro sabe, pode e contenta,
condimentado com sal e pimenta!
02.11.2022
Eugénio Lisboa, in Soneto , Modo de Usar, Editora Guerra & Paz, Abril de 2024, p 82


O homem que lê

Eu lia há muito. Desde que esta tarde
com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil.
Olhei as suas páginas como rostos
que se ensombram pela profunda reflexão
e em redor da minha leitura parava o tempo. —
De repente sobre as páginas lançou-se uma luz
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde... em todas elas.
Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem.
Então sei: sobre os jardins
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. —
E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:
o que está disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.
E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa. 
Rainer Maria Rilke, in  O Livro das Imagens, Relógio D'Água
Manoel de Andrade, grande poeta brasileiro, recorda: Há alguns anos, numa entrevista que dei para Oscar Ambrosio, da UNESP (Universidade Estadual Paulista, ele me perguntou; "O que é ser poeta?' eu respondi:
Ser poeta ( ou escritor) é estar disposto a uma aventura imprevisível, uma viagem sem a certeza de um destino, porque o poeta é um ser desgarrado do mundo, vivendo no âmago de seu próprio desterro. É empunhar a bandeira da beleza num mundo cada vez mais cruel, marcado pela insensibilidade, pela irreverência, pelo hedonismo e por um consumismo alienante. Mas ainda assim é preciso encarar esse desafio. Para ser poeta é imprescindível ter sido bem amamentado pelo leite materno do idioma, para mergulhar no insondável oceano do conhecimento fazendo da leitura o seu pão de cada dia e assim descobrir o segredo das palavras, o poder mágico das metáforas, a estesia e o carinho do lirismo, e expressar este misterioso saber na sua criação literária.
Mas é também um processo de auto descobrimento. Um compromisso com o mundo, com a liberdade e o amor. Ser poeta é escavar na alma uma trincheira de esperança e conquistar o direito imperecível de sonhar.
A gente não se faz poeta, a gente nasce poeta e a poesia um dia surge misteriosamente neste mágico território do coração humano. O poema surge como uma brota uma semente, como uma inquietude íntima, no significado misterioso de uma palavra, de uma frase, e é como uma gestação, um filho que palpita no útero da alma, que nasce um dia no primeiro verso, e não nos larga mais. Fica conosco dia e noite, semanas e ate meses até que possa estar emancipado para cumprir sua missão no mundo. Só então ele está realmente pronto, legitimado pelo encanto e só então podemos nos libertar de seu próprio encanto
É assim que acontece comigo. Vivo e convivo intimamente com um poema, numa relação absoluta, mas só depois que ele realmente está pronto é que eu posso, finalmente, me libertar dele.
Os usos da Literatura
por Eugénio Lisboa
“A literatura instrui-nos, dá-nos prazer, educa-nos, abre-nos portas inesperadas para o mundo e para dentro de nós, torna-nos inquiridores e aventureiros, escuda-nos contra os pestilentos ratos de esgoto, mostra-nos que há tragédia mas, também, momentos de alegria sublime, expõe-nos aos mais diversos rostos do amor, desde a Assia, de Turguenev, por mim descoberta, na adolescência, passando pela Natasha ou pela Karenina, de Tolstoi, pela pequena Jane Eyre, frágil, mas firme, declarando, tremendo, a um portentoso Rochester: “We are equal!”, assim pisando, pela primeira vez, um feminismo forte, destemido e não perverso, ou pela inesquecível Gise, da grande saga francesa, de Martin du Gard, sem esquecer as imortais protagonistas de Stendhal, Mme de Rênal e a esplendorosa Sanseverina (e a Vanina Vanini?).
A literatura torna-nos fortes, quando, mergulhando-nos nos mais fundos abismos da condição humana, verificamos que, após tal mergulho, afinal, prevalecemos. Quando, com catorze ou quinze anos, verifiquei, pela pena do grande O’Neill, que a América triunfal e poderosa, se tornara herdeira dos grandes trágicos gregos e de um dilacerado Strindberg, percebi que atravessar tudo aquilo e continuar vivo era um milagre de força. Senti que valia a pena viver. O mesmo se passou com os grandes romances e novelas de Dostoiewsky. Fiodor Sologub iniciou-me, sem me destruir, nos mundos da loucura, por via do seu protagonista do perturbante romance O DEMÓNIO MESQUINHO (na tradução portuguesa, A LOUCURA DE PEREDONOV). Sally Salminen deu-me a vida inteira, num belo romance arrumado em ilhas escandinavas. Hemingway deu-nos heróis e heroínas inesquecíveis, os horrores da guerra e da guerra civil e a invencível fragilidade que se aninha nos peitos mais fortes. Mas tentou “salvar-nos”, com uma singular promessa: o homem pode ser destruído, mas não vencido.
Ler os trágicos gregos, a seguir à morte do meu irmão, purgou-me e salvou-me, em vez de me destruir. A tragédia lava e redime.
Os grandes cómicos, Molière ou Wodehouse, encheram-me de sol e de água fresca. O grande Pirandello fez-me rir, dilacerando-me e tornando-me desconfiado, isto é, prevenido.
Nesta altura do campeonato, estou a ouvir o sussurro de um qualquer rato de esgoto: “Este tipo quer-nos convencer de que leu tudo e mais alguma coisa.” Responderei, como respondeu D’Annunzio a Gide: sim, li tudo, na esperança de encontrar finalmente A OBRA-PRIMA.”
Eugénio Lisboa, em 17.07.2023
George Steiner (1929-2020). (Foto: Wikimedia Commons)
Os Que Queimam os Livros
por George Steiner
"Os que queimam os livros, que proscrevem e matam os poetas, sabem rigorosamente o que fazem. O poder indeterminado dos livros é incalculável. É indeterminado precisamente porque o mesmo livro, a mesma página pode ter efeitos inteiramente díspares sobre os seus leitores. Pode exaltar ou aviltar; seduzir ou repelir; intimar à virtude ou à barbárie; expandir a sensibilidade ou banalizá-la. Em termos extremamente desconcertantes, pode fazer uma e outra coisa, quase no mesmo momento, num impulso de resposta tão complexo, tão rápido na sua alternância e tão híbrido que nenhuma hermenêutica, nenhuma psicologia poderá predizer ou calcular a sua força. Em diferentes momentos da vida do leitor, um livro despertará reflexos inteiramente diferentes. Não há na experiência humana fenomenologia mais complexa do que a dos encontros entre texto e percepção, ou, como Dante notou, entre as formas da linguagem que excedem o nosso entendimento e as ordens de compreensão frente às quais a nossa linguagem se revela insuficiente: la debilitate de lo’nielleto e la cortezza del nostro parlare.
(…) O encontro com o livro, como com o homem ou a mulher, que vai mudar a nossa vida, muitas vezes num instante de reconhecimento que se ignora , puro acaso talvez. O texto que nos converterá a uma fé, nos ligará a uma ideologia, dará à nossa existência um fim e um critério, podia estar à nossa espera nas prateleiras da estante de ocasião, dos livros desbotados ou dos saldos. Pode estar ali, poeirento e esquecido, numa prateleira de estante exactamente ao lado do volume de que andamos à procura. A sonoridade estranha das palavras impressas na capa envelhecida pode deter o nosso olhar: Zaratustra, Westoslicher Divan, Moby Dick, Horcynus Orca. Enquanto um texto sobrevive, algures à face da terra, ainda que num silêncio que nada vem quebrar, continua susceptível de ressureição. Walter Benjamin ensinava–o, Borges elaborou a sua mitologia: um livro autêntico nunca é um livro impaciente. Pode esperar séculos até despertar um eco vivificador. Pode estar à venda com cinquenta por cento de desconto numa estação de comboio, como o primeiro Celan que por acaso descobri e abri. A partir desse momento fortuito, a minha vida transformou-se, e eu tentei aprender “ uma língua a Norte do futuro”.
Trata-se de uma transformação dialéctica. As suas parábolas são as da Anunciação e da Epifania. Conhecemos tão mal a génese da criação literária! Não temos por assim dizer qualquer acesso à neuroquímica possível do acto de imaginação e dos seus procedimentos. Até mesmo o rascunho informe de um poema é já uma etapa muito tardia na viagem que conduz à expressão e ao gesto performativo. O crepúsculo , o “ antes da madrugada” e as pressões no sentido da expressão que se exercem no subsconsciente são para nós quase imperceptíveis. Mais concretamente: como é possível que alguns traços sobre uma tabuinha de argila, riscos de pena ou de lápis que muitas vezes mal chegam a ser legíveis num frágil pedaço de papel, constituam uma persona – uma Beatriz , um Falstaff, uma Anna Karenina- cuja substância, para um sem-número de leitores ou espectadores, excede a própria vida na sua realidade, na sua presença fenomenal, na sua longevidade social e encarnada? ( Este enigma da persona fictícia, mais viva, mais complexa do que a existência do seu criador e do seu “receptor” – que homem ou que mulher tem a beleza de Helena, a complexidade de Hamlet, ou é tão inesquecível como Emma Bovary? –tal é a questão decisiva, mas também a mais difícil, da poética e da psicologia.)
(…) O conceito de leitura, encarado como um processo que na sua raiz releva da colaboração , é convincente. O leitor sério trabalha com o autor. Compreender um texto , “ ilustrá-lo” no quadro da nossa imaginação, da nossa memória e da nossa representação combinatória, é, na medida dos nossos meios , recriá-lo. Os maiores leitores de Sófocles e de Shakespeare são os actores e os encenadores que dão às palavras a sua carne viva. Aprender um poema de cor é encontrá-lo a meio-caminho na viagem sempre maravilhosa da sua chegada ao mundo. Numa “ leitura bem feita” (Péguy), o leitor faz dele qualquer coisa de paradoxal: um eco que reflecte o texto, mas que lhe responde também com as suas próprias percepções, as suas necessidades e os seus desafios. As nossas relações de intimidade com um livro são, portanto, efectivamente dialécticas e recíprocas : lemos o livro, mas, mais profundamente talvez, é o livro que nos lê.” 
George Steiner, in  Os Logocratas, Relógio D’Água Editores

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