segunda-feira, 4 de abril de 2022

Uma pequena confusão

Uma pequena confusão
por Eugénio Lisboa
“Há uma grande expectativa – que espero venha a ser confirmada – quanto à nova Ministra da Ciência, Elvira Fortunato. Ela é, consabidamente, uma investigadora de reputação internacional, facto de que todos os portugueses devem sentir-se orgulhosos. Por ser uma grande investigadora, acaba de ser escolhida para aquele Ministério. Será o ministério uma consequência lógica do talento de investigadora de Elvira Fortunato? Será aquilo que faz de uma pessoa um grande pesquisador o mesmo que faz dele um grande gestor? O Professor de Física, Robert Openheimer, era conhecido como um grande Professor de Física, mas, como investigador, nada que se comparasse com outros físicos que ele dirigiu e coordenou, no laboratório de Los Alamos, para a produção da primeira bomba atómica. O talento que se exigia para a gestão daquela empresa não era o mesmo de que necessitava a investigação.  Enrico Fermi era muito maior físico do que Openheimer, mas, naquele projecto, era seu subordinado, porque o que ele sabia fazer – investigar – não era aquilo de que a direcção do projecto necessitava: capacidade de gestão e de delicado diálogo com as autoridades políticas. Openheimer foi o talentoso gestor e coordenador de talentosos investigadores, nesse campo, infinitamente acima dele. De igual modo, Robert McNamara, quando era vice-presidente da FORD, não sabia nada de mecânica nem de automóveis, mas sabia imenso de gestão e de como tomar decisões. Depois disso, foi ministro da defesa de Kennedy, sem ser militar nem saber grande coisa de guerras nem de táctica ou estratégia, mas, mais uma vez, sabia gerir e tomar decisões. A seguir, foi dirigir o Banco Mundial e não consta que a sua especialidade fosse a vida bancária. O nosso saudoso Ministro Mariano Gago não valia, como investigador, o mesmo que vale Elvira Fortunato, mas foi um grande Ministro da Ciência, que deu um notável pontapé de saída à investigação, em Portugal. Um investigador é uma coisa e um gestor é outra coisa muito diferente.
No caso de Elvira Fortunato ter, em si, a dupla vocação de grande gestora e de grande investigadora, tudo bem. Mas não se lhe pode exigir as duas vertentes ao mesmo tempo, nem isso costuma acontecer. Nas decisões dos nossos políticos, há, muitas vezes, algum provincianismo e uma grande incapacidade de saberem separar as águas. Não me consta que algum nadador tenha jamais sido Ministro do Mar. DISTINGUO!"
Eugénio Lisboa, 04.04.2022

Morreu Lygia Fagundes Telles

Lygia Fagundes Telles, com Pum-Gati

"Uma das maiores escritoras brasileiras de todos os tempos, a paulista Lygia Fagundes da Silva Telles morreu neste domingo (3), aos 98 anos. A informação foi divulgada pelo colunista Ancelmo Góis, do jornal O Globo, e confirmada por Lucia Riff, agente da autora. Estava em casa,  quando faleceu.
Membro  da Academia Brasileira de Letras (ABL), Lygia publicou o primeiro livro de contos, Porões e sobrados, em 1938, quando tinha apenas 15 anos. Era a quarta ocupante da Cadeira nº 16 da ABL, tendo sido eleita em outubro de 1985, na sucessão de Pedro Calmon. A escritora também era formada em Direito, tendo cursado a Faculdade de Direito do Largo do São Francisco.
Com uma carreira repleta de honrarias, recebeu o prémio Camões, o mais importante da língua portuguesa, em 2001 pelo reconhecimento de sua obra. Também venceu por três vezes Jabuti: 1966, 1974, 1996. 
Prosadora, Lygia  destacou-se entre os contistas brasileiros surgidos na segunda metade do século XX ao lado de nomes como Rubem Fonseca e Dalton Trevisan. Seminário dos ratos e Antes do baile verde são dois de seus principais livros de narrativas curtas. Em 2018, a Companhia das Letras reuniu todos os contos da autora na antologia Os contos. Ela também escreveu romances de sucesso, como Ciranda de pedras e As meninas, ambos adaptados para o audiovisual.
Quarta filha do casal Durval de Azevedo Fagundes e Maria do Rosário Silva Jardim de Moura, nasce na capital paulista, em 19 de abril de 1923, Lygia de Azevedo Fagundes, na rua Barão de Tatuí. Seu pai, advogado, exerceu os cargos de delegado e promotor público em diversas cidades do interior paulista (Sertãozinho, Apiaí, Descalvado, Areias e Itatinga), razão por que a escritora passa seus primeiros anos da infância mudando-se constantemente. Cresce a ouvir histórias contadas pelas pajens e por outras crianças. Em pouco tempo, começa a criar os seus próprios contos e, em 1931, já alfabetizada, escreve nas últimas páginas de seus cadernos escolares as histórias que irá contar nas rodas domésticas. Como ocorreu com todos nós, as primeiras narrativas, que escutou,  falavam de temas aterrorizantes, com mulas-sem-cabeça, lobisomens e tempestades.
O seu pai gostava de frequentar casas de jogos, levando Lygia consigo "para dar sorte". Diz a escritora: "Na roleta, gostava de jogar no verde. Eu, que jogo na palavra, sempre preferi o verde, ele está em toda a minha ficção. É a cor da esperança, que aprendi com meu pai."
Em 1936,  os pais se separam, mas não se desquitam.
“Porão e sobrado” é o primeiro livro de contos publicado pela autora, em 1938, com a edição paga por seu pai. Assina apenas como Lygia Fagundes.
No ano seguinte termina o curso fundamental no Instituto de Educação Caetano de Campos, na capital paulista. Ingressa, em 1940, na Escola Superior de Educação Física, naquela cidade. Ao mesmo tempo, frequenta o curso pré-jurídico, preparatório para a Faculdade de Direito do Largo do São Francisco.
Terminado o curso de Direito, em 1946, só três anos depois a escritora publica, pela editora Mérito, seu terceiro livro de contos, “O cacto vermelho”. O volume recebe o Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras.
Casa-se com o jurista Goffredo da Silva Telles Jr., seu professor na Faculdade de Direito que, na ocasião, 1950, era deputado federal. Muda-se, em virtude desse facto, para o Rio de Janeiro, onde funcionava a Câmara Federal.
Com seu retorno à capital paulista, em 1952, começa a escrever o primeiro romance, Ciranda de pedra. Na fazenda Santo Antônio, em Araras - SP, de propriedade da avó de seu marido, para onde viaja constantemente, escreve várias partes desse romance. Essa fazenda ficou famosa na década de 20, pois lá reuniam-se os escritores e artistas que participaram do movimento modernista, tais como Mário e Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e Heitor Villa-Lobos.
Em Março de 2001, foi agraciada com o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade de Brasília (UnB)."
Artigo composto com informação retirada da imprensa literária brasileira
Lygia Fagundes Telles

Publicámos, neste espaço, alguns trechos de Lygia Fagundes Telles. Sendo uma excelente contista , deixou um acervo muito rico composto numa prosa límpida e sedutora. Lê-la é sempre um momento de prazer e de requintada  delícia. 
..Gosto de me preparar para escrever. Eu não escrevo de qualquer jeito - de camisola, de pijama. Eu gosto de me arrumar! Escrever é o meu ofício e quero estar arrumada para ele. Dentes escovados, banho tomado, uma roupa, pronto: agora vou trabalhar.
Lygia Fagundes Telles 
A minha tiazinha falava muito na falta que lhe fazia esse ombro amigo, apoio e diversão, envelheceu procurando um. Não achou nem o ombro nem as partes, o que a fez chorar sentidamente na hora da morte, Mas o que você quer, queridinha?! a gente perguntava. Está com alguma dor? Não, não era dor. Quer um padre? Não, não queria mais nenhum padre, chega de padre. Antes do último sopro, apertou desesperadamente a primeira mão ao alcance: “É que estou morrendo e não me diverti nada!””
 Lygia Fagundes Telles, in "A disciplina do amor"
Lygia Fagundes Telles, Antonio di Benedetti e Clarice Lispector, 1974.

Muito se escreveu sobre Lygia Fagundes Telles. Grandes escritores  deixaram registado  o que pensavam sobre esta senhora da Literatura brasileira. Eis dois pequenos registos:

Quem conhece a Lygia de perto, isto é, quem convive com ela, não imagina que esse monstrinho escreva essas coisas… góticas – como se diz por aqui. Porque você é dos melhores papos que conheço, das presenças mais agradáveis e fáceis. Estar com você é muito bom e a gente não se sente com necessidade de usar nenhuma máscara, de escolher palavras ou ficar na defensiva. E como é que uma menina esportiva, extrovertida, produz esse tipo de literatura dramática e densa? Não a estou censurando, ao contrário, estou me admirando. Há contos seus que ficam perseguindo a gente por muito tempo [...] 
Erico Verissimo, em carta a Lygia Fagundes Telles (Virginia/EUA, 1966)

Com Lygia há o hábito de se escrever que ela é uma das melhores contistas do Brasil. Mas, do jeitinho como escrevem, parece que é só entre as mulheres escritoras que ela é boa. Erro: Lygia é também entre os homens escritores um dos escritores maiores. - escreveu Clarice Lispector .

Breve Meditação sobre o Poder


Breve Meditação muito singela
sobre o Poder (absoluto)

1

A história dos poderosos
é uma história de crimes:
eles são sempre ardilosos
nas regras dos seus regimes.

2


Poderoso é criminoso
e não há poder sem crime:
o poder é monstruoso
e já nada o redime.

3

O pecado capital
é a fome de poder:
ter poder torna fatal
pôr o mundo a arder.

4

Todo o poder corrompe
e o poder absoluto,
por todo o lado, irrompe,
impetuoso e bruto.

5

Se há cura para o poder,
ela só pode ser uma:
vigiá-lo sem temer
e não permitir a bruma!
                03.03.2022
Eugénio Lisboa

domingo, 3 de abril de 2022

Ao Domingo Há Música

 

Casta Diva che inargenti
Queste sacre antiche piante,
A noi volgi il bel sembiante
Senza nube e senza vel.
Tempra tu de' cori ardenti,
                                          Tempra ancor lo zelo audace,
                                          Spargi in terra quella pace
                                          C
he regnar tu fai nel ciel.

 

Aida Garifullina , em  Casta Diva , da ópera Norma de Vincenzo Bellini, sob a direcção da Maestrina  Keri-Lynn Wilson. O registo foi extraído da  AIDS Gala, Berlim 2021, numa produção de RBB.
Norma é uma Grande sacerdotisa da Gália, na época da ocupação romana (50 AC); os Druidas vêm pedir-lhe a sua autorização (a sua bênção) para se revoltarem contra os ocupantes, mas Norma convence-os de que não chegou ainda a altura de o fazer, movida pelo seu amor secreto, que era romano. Casta Diva é uma prece que Norma dirige à Lua, para que acalme os espíritos revoltosos dos Druidas, confessando o seu amor e dizendo que tudo fará para o proteger.

sábado, 2 de abril de 2022

Os tiranos

 

OS TIRANOS
1
Os tiranos bombardeiam,
os tiranos escavacam,
os tiranos incendeiam,
os tiranos esburacam.
 
2
 
Ferem, mutilam e matam,
com frieza de lagarto.
Dão ordens e não acatam
e não nasceram de parto.
 
3
 
Sendo ursos mal lambidos,
ficam sempre mal formados:
abortos tão mal brunidos
são piores que capados.
 
4
 
Fingem que têm sentidos,
pretendem que têm calores,
mas têm arrefecidos
os sítios onde há ardores
 
5
 
Tirano rima com frio
e rima com ameaça:
ele mata com ferro frio
e chafurda na desgraça!
                02.04.2022
Eugénio Lisboa

sexta-feira, 1 de abril de 2022

A obscena adversativa



A OBSCENA ADVERSATIVA

Há uns humanistas de pacotilha,
que usam habilmente a adversativa:
estão sempre providos com a cartilha,
opondo ao fim da guerra a assertiva
adversativa.

Condenam firmemente a guerra, MAS
observam que é preciso ter em conta
outros factos, contextos e problemas:
e disparam a adversativa tonta
e pronta.

É querer a paz, sim, mas devagar,
como em Alcácer Quibir se morria.
Gostam da paz, sim, mas de acautelar
e preservar também a nostalgia
da utopia!
              01.04.2022
Eugénio Lisboa

Não , não é lícito matar

Fiodor Dostoiewski

I
Marx e Dostoiewski
por Alberto Moravia
 " Tomemos por exemplo, o melhor e mais famoso dos romances de Dostoiewski: Crime e Castigo. Esta obra-prima será por muito tempo uma chave indispensável para se compreender tudo quanto aconteceu na Rússia e na Europa nos últimos cinquenta anos. Quem é Raskolnikov? Um intelectual anterior ao marxismo, indignado com as condições de injustiça social e de miséria abjecta da Rússia czarista, decidido  a praticar uma acção demonstrativa, simbólica, contra estas condições . Raskolnikov não havia lido Marx e admirava Napoleão, modelo, para todo o século XIX, do super-homem; mas é sintomático que, ao contrário do stendhaliano Julien Sorel, outro admirador de Napoleão, ele não sonhasse com a grandeza mas sim com a justiça. E que o seu ódio se dirigisse contra um usurária, ou seja contra o caso limite da exploração do homem, segundo a fórmula marxista. Quem é pois a usurária? É a burguesia europeia que guarda na pasta os títulos industriais, fruto do esforço operário, que vive de rendas sobre o proletariado nacional e colonial, e tudo isso sem se dar conta, com consciência tranquila. É um símbolo, em suma, não muito diferente , no fundo da figura convencional do banqueiro da sátira antiburguesa, gordo e de barriga  cheia, como chapéu alto e pasta , a pança enorme envolta num colete branco, as mãos  cheias de anéis  faiscando raios.
Raskolnikov, embora não tendo lido Marx  e considerando-se um super-homem  para além do bem e do mal , era também já, em embrião, um comissário do povo; e de facto os primeiros comissários do povo surgiram daquela mesma classe da « inteligenzia» à qual pertencia Raskolnikov e possuíam as mesmas ideias , a mesma sede de justiça social, a  mesma  terrível coerência  ideológica , a mesma inflexibilidade na acção.  E o dilema de Raskolniov  é o mesmo dos comissários do povo e de Estaline: « Para o bem da humanidade  é lícito ou não matar a velha usurária ( ler-se: liquidar a burguesia)? » Portanto, porquê tanta aversão por parte dos comunistas contra Dostoiewski?
A razão é muito simples. O ódio de Raskolnikov contra a usurária tem uma origem cristã. Este ódio na realidade  é o ódio da Idade Média cristã contra o negócio e o lucro , a inconciliabilidade do Evangelho com a banca e as percentagens do juro. Este ódio, esta inconciliabilidade colocaram durante séculos a banca  e o comércio nas mãos dos judeus até ao dia em que os povos cristãos da Europa ( e primeiro de todos, o italiano) se aperceberam de que era possível ser-se banqueiro e comerciante e, ao mesmo tempo, boa gente temerosa de Deus, em paz consigo própria e com a religião. Mas Raskolnikov  pertencia , como de  resto os comissários do povo e Estaline, a um país ainda medieval no qual a banca e o comércio se encontravam na mão de restritos grupos sociais  e raciais , um país atrasado, de camponeses agarrados a um cristianismo ainda primitivo e místico. Assim, para Raskolnikov, a banca e o comércio são a usura, e a burguesia europeia e russa que pratica a usura , a usurária; então, é necessário matar a usurária ou seja, liquidar a burguesia.
Mas neste ponto as duas estradas , até aqui unidas, de Dostoiewski e dos marxistas , bifurcam-se: « Eliminemos a usurária e vamos para a frente. Depois da morte da usurária começará uma nova sociedade sem classes nem usura. A criação dessa sociedade justifica amplamente o assassínio da usurária.» Em vez disso, Dostoiewski, que se manteve cristão, depois de nos ter conduzido pela mão através de todas as fases do delito que sem dúvida havia meditado, acarinhado e aprovado mil vezes no seu coração, com um súbito volta-face, desaprova repentinamente Raskolnikov ou seja, os marxistas, isto é , Estaline , e diz:  «Não , não é lícito matar, mesmo que seja por bem da humanidade. Cristo disse: não matarás.» E de facto Raskolnikov arrepende-se, lê o Evangelho juntamente com Sónia. Dostoiewski envolve o fim do seu romance numa aura mística. : « Aqui começa uma nova história, a história da renovação gradual  de um homem, a história da sua  gradual regeneração, da sua passagem gradual de um mundo para outro, do seu progresso para uma nova realidade até ali ignorada .» Os marxistas em vez disso, teriam concluído: «Aqui começa a revolução.»
O desvio entre Dostoiewski e os marxistas é devido a uma consideração diferente do que é o mal. Para os marxistas  o mal é a usurária, ou seja a burguesia; Dostoiewki , tendo primeiramente aceite esta tese, repudia-a e chega à conclusão cristã de que o mal não é tanto a usurária quanto o meio usado, isto é a violência. Este mal  de Dostoiewski no romance, não é somente representado pela morte violenta da usurária, mas também e sobretudo pela outra, da inocente e piedosa Lizaveta, irmã da usurária, que Raskolnikov mata, para suprimi uma testemunhado seu crime. Afinal para os marxistas , na realidade omal não existe desde que se trate unicamente de um mal social que pode ser liquidado  com a revolução. Em vez disso, para Dostoiewwski o mal existe como facto individual no coração de cada homem e exprime-se exactamente nos meios violentos dos quais se serve a revolução. Os marxistas lavam com a justificação histórica e social mesmo as consciências mais negras , Dostoiewski nega esta lavagem e afirma a existência ineliminável do mal."
Alberto Moravia, in Um mês na U.R.S.S., Edição Livros do Brasil, Lisboa, pp.15,16,17, 18
Nota
Alberto Moravia  fez uma viagem à U.R.S.S. que condensou no livro que acabámos de assinalar.  No primeiro capítulo , relata a visita à casa do escritor Fiódor Dostoiewski , em Leninegrado, actualmente São Petersburgo,   a cidade que este grande escritor russo considerava  a  "mais abstracta e intencional em todo mundo". Uma cidade  que foi berço de poetas , escritores , dramaturgos como  Alexandre Pushkin, Nikolai Gogol, Alexandre Blok ,  Osip Mandelstam. Tal como Dostoiewsk,  há outros grandes nomes que não nascidos  em São Petersburgo ,  aí  viveram e morreram , de que é exemplo o famoso compositor Piotr Ilitch Tchaikovsky. Quem  visita esta cidade  na actualidade , encontra  sumptuosas obras arquitectónicas , mas também indeléveis marcas do rasto de valiosos intelectuais.
No início do primeiro capítulo deste livro, Alberto Moravia explica as razões da visita à casa de Dostoievski, escritor que muito admirava: "Uma mulher de meia-idade debruça-se de uma das escadas e pergunta-nos se queremos visitar o apartamento no qual habitou , por muito tempo, Dostoiewski.
Respondemos-lhe que viemos para isso e seguimo-la escada acima . É uma escada ampla, de desenho brutal e sinistro: paredes enegrecidas manchadas de humidade (...). A escada é sombria , de uma tristeza atroz, e estamos na Primavera.
(...) Por que razão parei eu a descrever esta escada? Porque esta é a escada pela qual ia e vinha Dostoiewski, que habitou durante anos este casarão; mas é também a escada pela qual ia e vinha o herói de Dostoiewski, Raskolnikov, antes e depois do assassínio da usurária. Não só , porque estou aqui acompanhado de dois estudiosos de Dostoiewski, os quais me informam de que esta é sem dúvida a casa na qual habitava Raskolnikov; embora sendo ao mesmo tempo aquela em que habitava o autor de Crime e Castigo. Noutros termos, a identificação de Dostoiewski com Raskolnikov foi completa, colocou Raskolnikov no próprio apartamento, mesmo no próprio quarto, fê-lo mover-se pelas mesmas escadas e de um modo geral por todos os lugares que ele próprio frequentava, naquele tempo, em Petroburgo. "

Sagesse de chatte



Sagesse de chatte
Poema a pedido da minha gatinha
 
A minha linda gatinha
vive muito bem sem guerras:
quando alguma se avizinha,
pensa logo noutras terras.
 
Guerras não são o seu forte,
por ter outras preferências:
sossego é o seu norte
e tem outras apetências:
 
ter papinha a horas certas,
sonecas condimentadas,
muitas festas não incertas
e fofuras programadas!
 
Quer elogios modestos:
digam que pertence ao escol,
devido aos seus lindos gestos,
dos mais belos sob o sol.
 
Nada de exagerado,
mas os gatos sabem bem
que o felino foi criado
pra que os não felinos pasmem.
                     31.03.2022
Eugénio Lisboa