segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Cet amour

Cet amour
Si violent
Si fragile
Si tendre
Si désespéré
Cet amour
Beau comme le jour
Et mauvais comme le temps
Quand le temps est mauvais
Cet amour si vrai
Cet amour si beau
Si heureux
Si joyeux
Et si dérisoire
Tremblant de peur comme un enfant dans le noir
Et si sûr de lui
Comme un homme tranquille au milieu de la nuit
Cet amour qui faisait peur aux autres
Qui les faisait parler
Qui les faisait blémir
Cet amour guetté
Parce que nous le guettions
Traqué blessé piétiné achevé nié oublié
Parce que nous l'avons traqué blessé piétiné achevé nié oublié
Cet amour tout entier
Si vivant encore
Et tout ensoleillé
C'est le tien
C'est le mien
Celui qui a été
Cette chose toujours nouvelle
Et qui n'a pas changé
Aussi vraie qu'une plante
Aussi tremblante qu'un oiseau
Aussi chaude aussi vivante que l'été
Nous pouvons tous les deux
Aller et revenir
Nous pouvons oublier
Et puis nous rendormir
Nous réveiller souffrir vieillir
Nous endormir encore
Rêver à la mort
Nous éveiller sourire et rire
Et rajeunir
Notre amour reste là
Têtu comme une bourrique
Vivant comme le désir
Cruel comme la mémoire
Bête comme les regrets
Tendre comme le souvenir
Froid comme le marbre
Beau comme le jour
Fragile comme un enfant
Il nous regarde en souriant
Et il nous parle sans rien dire
Et moi j'écoute en tremblant
Et je crie
Je crie pour toi
Je crie pour moi
Je te supplie
Pour toi pour moi et pour tous ceux qui s'aiment
Et qui se sont aimés
Oui je lui crie
Pour toi pour moi et pour tous les autres
Que je ne connais pas
Reste là
Là où tu es
Là où tu étais autrefois
Reste là
Ne bouge pas
Ne t'en va pas
Nous qui sommes aimés
Nous t'avons oublié
Toi ne nous oublie pas
Nous n'avions que toi sur la terre
Ne nous laisse pas devenir froids
Beaucoup plus loin toujours
Et n'importe où
Donne-nous signe de vie
Beaucoup plus tard au coin d'un bois
Dans la forêt de la mémoire
Surgis soudain
Tends-nous la main
Et sauve-nous.              
Jacques Prévert, in Paroles , Paris, Gallimard(1946)

 
"Cet amour", numa fascinante interpretação de Serge Reggiani.

domingo, 13 de fevereiro de 2022

Ao Domingo Há Música

A Música oferece muitas emoções, transporta-nos. Tem a faculdade de trazer o tempo, de ir procurar as nossas lembranças. A Música encoraja-nos ,  fortalece-nos. 

Aretha Franklin, cantora norte-americana (1942-2018)

Somos feitos de memórias. Podemos recuar e viajar no tempo. Trazemo-lo para um reencontro com algo que nos marcou.  A Música é  sempre um dos mais procurados reencontros porque  tem o poder de arrastar várias memórias.  As emoções são-lhe próprias.  
O reencontro deste domingo é com alguém que me fascinou há muitos anos. Chamam-lhe The Boss. Será um título maior, apadrinhado por  milhões de admiradores. Encontro-me entre aqueles que apenas lhe chama a voz. Uma voz que tem direito a reserva  no retábulo dos  cantores de culto.  
Regresso a ele com frequência e  com o mesmo prazer inicial. Uma voz inconfundível que soube impregnar de magia os sons de um  soberbo universo. Será talvez " The Boss" desse território musical. E que admirável foi  tê-lo descoberto e continuar a descobri-lo.
Bruce Springsteen , em One Minute You're Here (Official Audio), do Álbum "Letter To you".
 
Bruce Springsteen e a Sessions Band , em If I Should Fall Behind (Live In Dublin), do Springsteen songbook.
  
Bruce Springsteen, em Dream Baby Dream. Vídeo editado por   Thom Zimny, filmado por  Chris Hilson. A produção audio é de Ron Aniello com Bruce Springsteen e a mistura de Bob Clearmountain. 
"Dream Baby Dream" é uma composição de  Alan Vega and Martin Rev.
 

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Dois Pensamentos sobre Tolerância e Tirania

DOIS PENSAMENTOS

SOBRE TOLERÂNCIA E TIRANIA
por Eugénio Lisboa
 
Não devemos aceitar sem qualificação o princípio de tolerar os intolerantes, caso contrário, corremos o risco de destruição de nós próprios e da própria tolerância.
Karl Popper
 
Um déspota aceita facilmente que os seus súbditos o não amem, desde que se não amem uns aos outros.
Alexis de Tocqueville
 
Vale a pena ter sempre em mente estes dois pensamentos. O de Popper, talvez o maior estudioso da democracia, desde Platão, põe-nos de sobreaviso contra os “apaziguadores”,  que permitiram que Hitler ascendesse ao poder absoluto, na Alemanha, não por via de um golpe de Estado, mas sim pela tolerância não qualificada, que sempre abre as portas aos tiranos. A mesma estafada conversa do artigo de António Barreto, hoje, no Público. Não quero nem nunca serei “tolerante” com o CHEGA, porque ele quer silenciar e destruir pessoas como eu e eu não estou disposto a consenti-lo. Se a democracia tem de ser ligeiramente imperfeita, para travar a ascensão do CHEGA, SO BE IT! Se a República de Weimar, depois de ter metido Hitler na cadeia, o tivesse deixado lá ficar, ter-se-ia evitado a morte de muitas dezenas de milhões de homens e mulheres e, também, a vergonha do Holocausto: eterna nódoa no percurso do ser humano por este planeta. Quando a tolerância tolera a intolerância, suicida-se. O artigo de António Barreto é um convite ao suicídio da democracia e da tolerância de viver.”
Eugénio Lisboa, 12.02.2022

E encerrar-me todo num poema

 

Fotografia

Ainda me lembro: as dúvidas
que nasciam por entre os teus dedos,
e as tuas mãos que se transformavam em
folhas de uma vegetação abstracta…
Era de manhã, quando o ar frio encrespava
a pele e a humidade batia no rosto
como os fios de uma teia invisível. Era
a hora em que nenhum táxi parava, nem
se podia andar pelos passeios sem
atolar os pés de lama. No café,
porém, um calor nascia no intervalo
de um aquário: o teu amor. E como o peixe
que bate no vidro sem saber para onde ir
andava às voltas, procurando a saída
para te encontrar enquanto tu
sacudias a água dos cabelos e, sem te
importares comigo, sorrias, como
nenhuns outros lábios sabiam sorrir,
até hoje.
Nuno Júdice, in A fonte da vida, Quetzal, 1997

ANVERSO
 
Dormias. Eu acordo-te.
A manhã imensa oferece-nos a ilusão de um princípio.
Esqueceras-te de Virgílio. Aqui estão os hexâmetros.
Trago-te muitas coisas.
As quatro raízes dos Gregos: a terra, a água, o fogo, o ar.
Um só nome de mulher.
A amizade da lua.
As claras cores do atlas.
O esquecimento, que purifica.
A memória que escolhe e redescobre.
O hábito, que nos ajuda a sentir que somos imortais.
A esfera e as agulhas que dividem o intangível tempo.
A fragrância do sândalo.
As dúvidas a que chamamos, não sem alguma vaidade, metafísica.
A curva do bastão que a tua mão aguarda.
 O sabor das uvas e do mel.
 
 
REVERSO
 
Recordar quem dorme
é um acto vulgar e quotidiano
que poderia fazer-nos tremer.
Recordar quem dorme
é impor ao outro a interminável
prisão do universo
do seu tempo sem ocaso nem aurora.
É revelar-lhe que é alguém ou algo
que está sujeito a um nome que o expõe
e a um acervo de ontens.
É inquietar a sua eternidade.
É carregá-lo de séculos e estrelas.
É devolver ao tempo um outro Lázaro
carregado de memória.
É desonrar a água do Letes.
Jorge Luís Borges, obras completas 1975-1985 vol. III , a cifra (1981), trad. Fernando Pinto do Amaral,  Editorial Teorema,1998

e encerrar-me todo num poema,
não em língua plana  mas em língua plena. 
Herberto Helder, in " A Morte sem Mestre", Porto Editora, 2014, p 53

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Do Rio de Janeiro a Berlim

Chegada
por João Ubaldo Ribeiro
"Quem não estiver apto a disputar o pentatlo nos Jogos Olímpicos não deve viajar do Rio de Janeiro a Berlim no que as companhias aéreas chamam de “classe económica”, embora saibam que se trata de um eufemismo para “vagão de búfalos” (exceção feita à comida, já que a dos búfalos é certamente melhor). Foi o que pensei, ao levantar-me, um pouco antes da hora do pouso, para batalhar com os outros búfalos por um lugar na fila do banheiro. Qualquer um que tenha participado de um evento desse tipo o trará sempre na memória — aquela coleção tocante de velhotas ansiosas, jovens senhores de tornozelos entrelaçados e olhos cravados no teto, damas de bolsa na mão fingindo que vão ali apenas para retocar a maquilhagem, um cavalheiro de ar severo que mira seus antecessores na fila com evidente rancor, a indignação geral contra a gordinha que acaba de entrar e fechar a porta levando consigo um exemplar de A montanha mágica, um menino de nariz escorrendo explicando à mãe que não se responsabiliza pelo que pode acontecer, se não lhe conseguirem uma vaga imediatamente.
Pentatlo não, decatlo, penso outra vez, ao descermos em Frankfurt, submergindo em sacolas e maletas, e descobrirmos que nossa conexão para Berlim deve ser feita em A-23, logo à direita de A-42, atrás de B-28, passando pelo controle de passaportes ou, se preferirmos algo mais simples, só três quilómetros mais distante, à esquerda de A-17, ignorando o corredor B e indo direto ao objetivo, não sem antes nos submetermos à inspeção de bagagem em A-15E. Tentamos ambas as hipóteses. No curso de umas duas horas, entramos numa fila de passageiros para Bangladesh, saímos no último instante para uma fila de turistas italianos interessados em visitar as vitrines de mulheres de Hamburgo, assinamos uma petição a favor da independência da Lituânia achando que estávamos nos inscrevendo na lista de passageiros para Berlim, quase nos incorporamos a um grupo japonês que ia conhecer a Bolsa de Frankfurt e, finalmente, escorregamos sem querer de uma esteira rolante que nos conduziria a Bad Homburg sem escalas e, ao levantarmos os olhos, nos achamos — milagre! — diante de A-23. Minha filha Chica, de seis anos, exausta mas aliviada como todos nós, fez um comentário. 
— A  Alemanha é maior do que o Brasil, hem, pai?
— Não. O Brasil é muito maior. 
— Pode ser, mas o aeroporto aqui de Fanfu é maior do que o Brasil, não é, não?
— Ah, isso é, cabem uns cinco Brasis aqui dentro — concordei, despencando numa cadeira, olhando em torno e me dando conta pela primeira vez de que estava mesmo na Alemanha e, se tudo corresse como previsto, ainda estaria por muito tempo. 
Por que a Alemanha? Sim, há várias explicações, digamos, superficiais ou parciais: fui convidado pelo DAAD,[1] vivo de escrever e, portanto, posso trabalhar em qualquer lugar, tenho amigos aqui etc. etc. Mas isto não satisfaz, porque sei, embora não possa explicar, que existe algo mais entre este país e eu, algo misterioso. Fico imaginando se não teria sido alemão numa vida pregressa. Se Shirley McLaine teve tantas vidas pregressas, por que não posso haver tido pelo menos uma? Olho para o senhor sisudo a meu lado, com uma peninha faceira adornando seu chapéu, em amável contraste com sua expressão austera. Sim, talvez eu tenha sido alguma vez um bávaro, um gordinho chamado Johannes, famoso em toda Munique pela capacidade de consumir cerveja em quantidades industriais — um bávaro como outro qualquer, pensando bem. Quase viro para esse meu conterrâneo e lhe dirijo um sorridente “Grüss Gott!”. Mas me contenho. Posso ter sido bávaro em outra vida, mas, infelizmente, para a presente encarnação brasileira, não trouxe comigo meus conhecimentos da língua alemã, que hoje falo com menor desenvoltura do que falaria um homem de Neandertal. 
O devaneio, contudo, não passa. Esta minha ligação com a Alemanha, eu sempre voltando aqui, meus livros lidos aqui, tantos amigos aqui, sentindo-me tão bem aqui... Claro, meu sobrenome pode ser traduzido como Bach. Claro, claro, minha outra encarnação foi na qualidade de parente do Johann Sebastian, limpando o cravo que meu primo tão bem temperava e fazendo outros servicinhos em Brandemburgo, inclusive os que meu talento musical permitia, tais como acionar os foles do órgão da igreja. É, pode ser, pode ser. 
O embarque é anunciado, entro no avião distraído, ainda preocupado com minha elusiva identidade alemã. E me encontrava no século XVIII, num baile em Magdenburg, em vistoso uniforme militar e de olho na bela filha do Bürgermeister, quando Chica me interrompeu as reminiscências com uma cotovelada.
 — Pai, pai, Berlim! Berlim! Sim, Berlim! 
Levantei-me, arrepanhei sacolas e maletas, encaminhei-me de peito erguido para a saída. Berlim, vida nova, a História desenrolando alguns de seus mais empolgantes capítulos à minha frente, glórias e emoções logo ali, a esperar-me de braços abertos. 
Hélas! — como exclamou Napoleão, no dia em que, em certo prado de Waterloo, tive oportunidade de vê-lo, na minha então condição de alferes de um regimento prussiano. As coisas nem sempre são previsíveis, seja para os Bonaparte, seja para os Bach. E eis que, hoje aqui, pleno residente de Berlim, não disponho de glórias para contar-vos, mas de histórias quiçá melancólicas, tais como a do Tartamudo do Kurfürstendamm, a do Fantasma do Storkwinkel e a do Moscão da Schwarzbacher Straβe. Histórias que contaria agora, se me permitisse o espaço, mas que contarei depois, se vos permitir a paciência. Ich bin ein Berliner, como já se disse antes."
João Ubaldo Ribeiro, in Um brasileiro em Berlim, Editora Objectiva, pp. 3, 4

[1] Deutscher Akademische Austauschdienst — Entidade alemã que convida artistas para passar temporadas em Berlim. (N. do A.)

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Esta voz sem palavras


"Agostinho dizia «'Bem' – tu escutas esta palavra e respiras fundo, tu a ouves e suspiras». E ele afirma que o homem não pode exprimir em palavras o sentido mais profundo, a riqueza que se esconde na noção de ‘bem’, assim como sua completa realização: "Dizer, não se pode; calar, também não... Mas o que fazer, se não é possível falar e não dá para calar? Exultai! Jubilate! Levantai a voz sem palavras da vossa profunda felicidade!". Esta "voz sem palavras" (ou uma de suas formas) é: a música! Contudo, ela não é só a voz da felicidade, mas também a voz sem palavras da infelicidade, da carência pela ausência, da frustração, da tristeza, do desespero (a meta não é alcançável sem mais, pois pode ser íngreme e também pode ser dada por perdida!)". No desenrolar mais profundo da realização do ser, mesmo onde a linguagem não se expressa, encontra-se esse impulso natural (também do espírito!). "Daí se segue", diz Kierkergaard "que a música se acha relacionada à fala, tanto precedendo, como sucedendo, manifestando-se como primeiro e como último". A música produz um âmbito de silêncio; nela, a alma entra ‘nua’, por assim dizer, sem a "veste" da oralidade "que se enrasca em todos os espinhos" Paul Claudel


Flying over Africa, de John Barry pela London Symphony Orchestra, sob a direcção do maestro Richard Kaufman. 
John Barry (1933 - 2011), nascido na cidade de York, norte da Inglaterra, foi um compositor e maestro britânico que compôs bandas sonoras para mais de 100 filmes e programas de televisão. Entre elas , onze filmes de Ian Fleming, com o espião James Bond: Dr. Não, Da Rússia com amor, Goldfinger, Thunderball, You Only Live Twice, On Her Majesty's Secret Service, Diamonds Are Forever, The Man with the Golden Gun, Moonraker, Octopussy, A View to a Kill, and The Living Daylights. 
Este trecho pertence à  banda sonora do filme "Out of Africa - África minha", realizado por Sydney Pollack, com Robert Redford e Meryl Streep nos principais papéis. O filme resulta da adaptação de um romance da escritora dinamarquesa Karen Blixen, Den afrikanske Farm .

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Eventos e Novidades Literárias

Nas livrarias a 8 de Fevereiro:

Claire Somaglino, cartografia de Claire Levasseur
Venha às pirâmides, cruze-se com os faraós e os reinados deles, neste atlas que revela todos os segredos de 30 dinastias da grande civilização do Nilo. Lindo: preciosidade de uma colecção soberba.

Walt Whitman
Um dos grandes poemas da história da literatura. Flui como um rio pujante de vida: a natureza e os corpos, o sexo e a sexualidade como expressão do «eu» levam-nos do deslumbramento à vertigem. Para ler em voz alta.

Vanda Pinheiro Lopes
O livro que gostaríamos de ter tido quando andávamos à descoberta do que queríamos ser e fazer na vida! Este é um livro de coaching vocacional: para jovens, pais, professores, empreendedores e líderes.

Howard S. Becker
Um clássico da sociologia da canábis inédito em Portugal. Becker guia-nos pelo caminho certo: só o conhecimento e consciência podem dar prazer. Um livro que cruza a academia e a rua. Para olharmos de outro modo para um simples charro.
Nas livrarias a 22 de Fevereiro:

O Labirinto Literário de Miguel Torga,
Norberto Veiga
Esta é uma viagem prodigiosa e séria à obra de Miguel Torga. Livro a livro. Mas é também uma viagem à dimensão humana que o labirinto da obra – poesia, prosa, diários – espelha.

Frei Manuel de S. José, o Duende de Madrid,
José Barreto
Um frade carmelita português pôs em brasa a corte espanhola no séc. xviii. Num jornal clandestino, zurziu sem piedade a governação. Era, ao mesmo tempo, espião do rei português. Este é quase um livro policial, quase um livro de espionagem. Tomara John le Carré!

O Português à Descoberta do Brasileiro,
Fernando Venâncio
Que delícia. A língua de brasileiros e de portugueses enrola-se neste livro. Estarão os brasileiros a influenciar e a corromper a forma de os portugueses falarem a língua? Venâncio responde e abre as portas ao futuro com um pontapé no traseiro do AO90.

José Miguel Leal da Silva: Entra Química e Minas,
Maria João Alexandre
Uma colecção única. «Histórias de Liderança» relatam as biografias de gestores, engenheiros, empreendedores. Nesta, Leal da Silva, com a sua paixão pela evolução tecnológica, dá um contributo admirável à indústria em Portugal.

Eunice Muñoz: Fotobiografia,
Fátima Morais
Com mais de uma centena de fotos, numa edição de luxo, no formato 21 x 28, este é um testemunho histórico: década a década, a vida, as peças de teatro, os filmes e as séries e novelas televisivas a que Eunice ofereceu o seu talento de actriz.
 


Georges Bensoussan
Esta é a História dos factos, dos locais, dos métodos: o Atlas de uma viagem aterradora ao coração do crime nazi, um crime sem precedentes. Texto e mapas de um genocídio.

Simone Weil
Cuidado, esta Simone é a Weil, com W e não com V. Morreu na II Guerra Mundial e era indomável. Em Portugal, teve uma epifania mística e este livro interroga as nossas ideias básicas de direitos humanos.
Organização de Victor Correia
Os mais belos poemas da Grécia e da Roma antigas, pelos melhores tradutores, oferecem um panorama deslumbrante da sexualidade clássica. Que inveja, nestes tempos de novos puritanos!
Marquês de Sade
O melhor romance de Sade. Monumental, desbragado e subversivo. Sade transgride aqui todos os tabus e a sua heroína, Juliette, mergulha além dos limites, como se o corpo humano fosse inesgotável.
Alexandre Fernandes
Sim, é um livro de dieta, uma dieta de 21 dias, mas é uma dieta com uma condição, a de uma revisão emocional: as suas emoções e sentimentos são a chave do êxito.


Roger Scruton
A tradição filosófica ainda é o que era e, com a apresentação de Roger Scruton, a tradição filosófica de Descartes a Wittgenstein ainda é melhor do que era. A grande filosofia ocidental explicada com clareza e fluidez.
Paulo Nogueira
Na era da cacofonia estridente das guerras culturais, este Manifesto quer ser um santuário da liberdade de expressão. Será hoje a liberdade de expressão um luxo em extinção? Não perca nem um capítulo deste livro irreverente e insolente.
Raphaël Glucksmann
Que raiva! É tudo apocalíptico, o clima, o populismo, o mundo financeiro. É o fim do mundo e parece que ninguém pode fazer nada. Este é o grito de revolta, o apelo à geração que pode e vai mudar tudo.
Oscar Wilde
Em tribunal, na Inglaterra vitoriana, Oscar Wilde é acusado de um crime: ser sodomita. Mais do que debater sexualidades, Wilde faz do tribunal um teatro para uma portentosa defesa da total liberdade da arte.
Guerra e Paz editores: porque é preciso virar a página

CAM em Movimento

Enquanto o edifício do Centro de Arte Moderna se encontra encerrado para obras de remodelação, continuamos a trabalhar para levar a arte para além dos muros da Fundação, estendendo-se a toda a área metropolitana de Lisboa.
CAM em Movimento é uma programação fora de portas que envolve mostras com obras da Coleção e intervenções site-specific de artistas convidados.
A programação será lançada em diferentes fases e conta com várias surpresas, desde intervenções em comboios nas linhas de Cascais e Sintra a projetos criados de raiz para contentores marítimos instalados em diferentes locais da cidade.
As obras da coleção do CAM serão também protagonistas em diferentes palcos, como foi o caso da exposição Coleção de Arte Britânica do CAM, que decorreu entre outubro de 2021 e janeiro de 2022 na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais.


MÚSICA

12, 13 e 15 fev, Paris, Girona, Barcelona
A Orquestra Gulbenkian e a pianista Maria João Pires apresentam-se na Philharmonie de Paris, marcando a abertura da Temporada Cruzada França-Portugal e o início de uma digressão europeia. A Temporada, apoiada pela Fundação Gulbenkian, apresenta uma programação cultural nos dois países.




Lídia Jorge
A História de Vida da premiada escritora portuguesa, também bolseira Gulbenkian, que ainda apresenta, em exclusivo, a história de vida de uma das suas personagens de ficção.
Lídia Jorge dispensa apresentações e, por isso, não é de mais apresentá-la sempre que possível, para que a memória não se torne esquecimento. Nasceu em 1946, em Loulé. Licenciou-se em Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. Como professora do ensino secundário, pisou o solo africano, nomeadamente angolano e moçambicano, passagens que determinaram profundamente a sua escrita. O seu primeiro romance, O Dia dos Prodígios, foi editado em 1980. Desde então, seguiram-se novos romances, peças de teatro, contos, ensaios, um livro de poesia e um livro de crónicas. É uma escritora reconhecida nacional e internacionalmente, com muitos galardões arrecadados, um dos mais recentes o prémio FIL de Literatura em Línguas Românicas de Guadalajara, em 2020.
Quem melhor do que as palavras e do que uma das suas personagens de referência para apresentar a escritora? Por sua sugestão, apresenta-se Milene Leandro, a figura central – da primeira à última página – da obra O Vento Assobiando nas Gruas. É o fiel convite para entrar no universo literário de Lídia Jorge, uma das maiores escritoras portuguesas da atualidade.

Transcrição
"O Vento Assobiando nas Gruas", Dom Quixote, 2002, págs 306-308.
Milene assoou-se demoradamente, a tomar consciência de que existia e era alguém no mundo, entre os grãos de areia. Os grãos de areia colocados, durante um instante, no seu sítio exato. Se falasse na dor, alguma coisa em volta, indispensável, poderia morrer. Não fales na dor. «Oh, pá, não fales na dor…» – pediu ela.(...)
Naquele momento, o bar podia levantar-se sobre as próprias canas, deslocar-se durante um quarto de hora e voltar ao mesmo lugar com eles lá dentro. Pousar devagar. As aves podiam partir levando no bico a ponta das ondas. O mar poderia ser erguido no ar pelo impulso das aves. Com o fundo do Oceano aberto, gente que estivesse exilada num outro mundo, à espera, poderia vir acolher-se ali, para fundar uma colónia nova. Gente que se recusasse a falar da dor, isto é, do mal. Isto é, que fosse inocente não por inocência, mas por discernimento. Isso seria possível? «Vamos ver. Nunca falar na dor. Ah! Ah! Como irá ser isso, vamos ver...» – disse ele, divertido, baixando-se para sair pela porta do bar. Fazendo-se leve para não quebrar aquele desenho de tábua erguido na areia da Ria. Levando-a depois, pelo braço, ao longo da ponte de madeira, a longuíssima ponte de madeira, durante a qual ele teria tido mil oportunidades de a beijar. Mas não, ela pensava que ele guardava os beijos para Divina. Ele só a puxava, trazia-a contra ele, afastava-a, fazia-a dançar na saia curta, sobre o tapete de tábuas. Ele próprio, desengonçado, bom dançarino. Usava sapatos de ténis brancos, de sola alta, como patins, e dançava em cima das tábuas. Só dançava.

Alguns Eventos da Casa da América Latina:


"Um Mar Com Outro Nome" é um programa mensal da Casa da América
Latina que será transmitido todas as primeiras sextas-feiras do mês,
 às 12h30, na Rádio Freguesia de Belém.
OIÇA AQUI A TRANSMISSÃO DESTE MÊS

A peça de teatro brasileira "Intimidade Indecente" está pela terceira vez
em Portugal, e estará em cena pelo país até março. A Casa da América Latina
conversou com a produtora Ana Rangel e o ator brasileiro Marcos Caruso.


O escritor chileno-argentino Cristian Alarcón recebeu o Prémio Alfaguara
de Romance 2022, no valor de 175.000 dólares e uma escultura de Martín Chirino,
pela sua obra "El tercer paraíso", na qual mistura o amor pela natureza
com a história e o relato familiar.


Mais de uma centena de participantes nas XII Jornadas Científicas do IHMT-NOVA
O Instituto de Higiene e Medicina Tropical, da Universidade Nova de Lisboa
(IHMT-NOVA), realizou as XII Jornadas Científicas. O objetivo das destas
jornadas do IHMT-NOVA é estimular o desenvolvimento da investigação
dos alunos do instituto.



Gastronomia latino-americana: Sopa Paraguaia
O universo gastronómico latino-americano é muito rico e diversificado,
este mês, no programa de rádio "Um Mar Com Outro Nome", sugerimos-lhe
 uma receita do Paraguai - sopa paraguaia.


Publicação sobre a Conferência "Ibero-américa: Uma Comunidade, Duas Línguas Pluricêntricas"
A 21 e 22 de novembro de 2019, a OEI realizou em Lisboa,
pela primeira vez, a Conferência Internacional das Línguas Portuguesa
e Espanhola (CILPE), subordinada ao tema “Ibero-América:
 uma comunidade, duas línguas pluricêntricas”. Leia aqui a
 publicação dedicada a esta conferência.


V Centenário da Primeira Circum-navegação ao Globo Magallães-Elcano
Descubra no portal digital da Google Arts&Culture como se forjou a aventura
 da expedição que completaria a Primeira Volta ao Mundo através
da Exposição “El Viaje Más Largo”, que explora os detalhes da
circum-navegação de Magalhães-Elcano.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Um satírico Soneto

 

Soneto
À maneira de Nicolau Tolentino


Ó Tolentino, ó grande Nicolau,
não te peço emprestado o engenho,
mas tão só o teu sábio varapau,
que dê grande vigor ao meu empenho

de varrer, a valer, o meu quintal:
está sujo com o lixo de comentários
feitos por idiotas sem igual,
de tolices sem conta tributários!

A confusão nas cabeças é tal,
que lembra aquele aluno faceto,
que num exame, em hora fatal,

veio a descobrir que Hugo Capeto
subiu até ao trono da América,
só por acção da pressão atmosférica!

Dedico este desenfastiado soneto a alguns (só alguns!) dos meus assíduos comentaristas de um blog em que, honrosamente, colaboro. Eles têm escrito coisas verdadeiramente inesquecíveis! A mistura de componentes imiscíveis, que eles conseguem, requer, no mínimo, uma espécie desorbitada de génio atarantado. Agradeço-lhes com este modesto soneto, em que refiro o injustamente esquecido Hugo Capeto (desculpem a rima involuntária. Também Tolentino rima com cretino e isso é a culpa de quem? Ora bem!)).
Eugénio Lisboa, 07.02.2022