quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Dias que cantam


                 
Canção, vai para além de quanto escrevo
e rasga esta sombra que me cerca.
Há outra face na vida transbordante
que seja nessa face que me perca.
     Eugénio de Andrade, As mãos e os frutos

Há dias que nem a música se faz de outro modo. Começam de um só jeito. Transbordam apenas a harmonia de uma canção distante. 
Há dias que cantam, quando sussurram . Cercam-nos  e levam-nos para além  da sombra,  onde tudo se  rasga  e se  transcende.

 HAEVN , em We Are (Symphonic Tales) , com arranjos e direcção de  Tom Trapp.

 

RY X, em  Sweat (Live from the Vibiana)

   

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Caridade


Caridade

Estende a tua mão mas nada esperes
daqueles que recebem o teu favor,
serve apenas e  à esquerda não reveles
que a direita tem um pacto com o amor.

Há uma multidão sitiada pela fome
esperando a tua cesta e o teu sorriso
bem sabes que a caridade não tem nome
mas poderia fazer da Terra um paraíso.

Há tanto por fazer, são tantas dores
e uns colhem espinhos semeando flores
numa missão anónima e esquecida

seu único tesouro, seu troféu
a chave misteriosa deste céu
é sentir que é  só pelo amor que vale a vida.
Manoel de Andrade, Poesia

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

À la recherche du temps perdu



À la recherche du temps perdu

Amores, amizades, descobertas,
a terra, o mar, o sol, as lindas pretas,
o mundo todo de portas abertas,
a leitura e o sondar doces gretas…

A promessa de enormes promessas,
o mar a sugerir mundos remotos,
grandes saberes e aventuras possessas,
os mundos fruídos e os ignotos!

Que grande era o mundo que se via
e maior o que ainda não havia!
Viver sabia a novo e era novo,

como a carícia e o beijo que rondava.
A todo o momento se acrescentava
ao antigo, um desejado renovo!
18.01.2022
Eugénio Lisboa, Poesia inédita

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Sobre o argumento da autoridade - II


SOBRE O ARGUMENTO DE AUTORIDADE – II
por Eugénio Lisboa

Aristóteles poderia ter evitado o erro de pensar que as mulheres
têm menos dentes do que os homens, pelo simples expediente
de pedir à Sra. Aristóteles que abrisse a boca.
Bertrand Russell

Cada frase que eu pronuncio deve ser interpretada, não
como uma afirmação, mas como uma pergunta.
Niels Bohr

“Volto ao tema da pouca validade do argumento de autoridade, porque penso que a atracção irresistível que ele tem para muitos, de várias áreas da vida intelectual, deve ser insistentemente combatida e desacreditada. A obtusidade e o amor às crenças duradouras têm a carapaça dura e resistem ao embate do argumento mais vigoroso. Mais: alguns até pensam que o recurso a este frágil argumento – a autoridade - não se verifica em todos os países do planeta, havendo algum território abençoadamente imune a este atropelo da lógica… Roubando ao romance negro americano uma fórmula feliz, eu responderia a esta última convicção: you believe that, you believe anything.
Volto também a isto, não tanto pelo amor à argumentação, mas antes pelo gosto de uma conversa civilizada e, sendo possível, esclarecedora e estimulante. A este propósito, lembraria que o acerado e genial prosador, Jonathan Swift, o criador de As Viagens de Gulliver, disse algures que argumentar é a pior forma de conversar, e eu estou muito de acordo com ele. Vamos então conversar, procurando eu contar-vos umas histórias elucidativas e deixando, no possível, algumas pistas saudáveis e desopilantes.
É muito curioso serem os que mais reagem a quem tenta demolir a falácia da “autoridade”, a ela se dizendo imunes, os que mais sistematicamente a ela recorrem, para “provarem” o seu ponto de vista. Ora, insisto, invocar a autoridade intelectual de alguém, como sustentação válida de um ponto de vista qualquer, é uma das mais preguiçosas e nefastas cobardias intelectuais que conheço. É recusar o único caminho decente para chegar a uma verdade boa mas, mesmo assim, provisória: pensar, investigar, escrutinar, iluminar, com luz nova, convicções muitas vezes sem outro fundamento que não seja a sua antiguidade, em suma, olhar com intrepidez e frescura o que se tem na frente, sem cuidar do que disse Aristóteles ou Ptolomeu ou Newton ou Einstein, porque até estes se enganaram e segui-los cegamente é o mais seguro caminho para o erro. Ser céptico, ser humilde, gostar mais de fazer perguntas do que de dar respostas, não temer – e até gostar – de abandonar uma hipótese de trabalho, que já serviu, por outra que agora parece servir melhor, não se agarrar, em suma, nem à autoridade dos outros nem à sua própria – é assim que se faz avançar o conhecimento. As duas capitosas epígrafes que estão à cabeça deste texto dizem isso mesmo: a primeira, do lógico matemático, Bertrand Russell, diz-nos, em resumo: deixa lá o Aristóteles e conta mas é os dentes da tua mulher ou da tua irmã; a outra, vinda de um dos maiores cientistas do século XX, o dinamarquês Niels Bohr, dá-nos este legado de humildade criadora: não afirmo, pergunto, não se agarrem pois ao que digo, investiguem pelos vossos próprios meios, talvez eu não esteja certo ou completamente certo e, se eu próprio duvido de mim, por que haviam Vocês de tomar-me como autoridade? As humildes e sábias propostas de Russell e Bohr são talvez a forma mais curta e eficaz de nos ensinar a não respeitarmos, cegamente, argumentos de “autoridade” intelectual. Depois, basta olhar em volta e escrutinar o decurso dos séculos, para fazermos um opulento inventário das “bêtises” proferidas por homens eminentes. Os disparates que proferiram não os tornam menos eminentes, mas recomendam-nos cautela, quando se trate de querermos segui-los obedientemente. Quem imaginaria, por exemplo, que o grande Flaubert, em carta à sua amiga e admirada George Sand, poderia escrever esta enormidade: “Quanto ao bom povo, a instrução pública e obrigatória daria cabo dele.”? E quem poderia supor que Ernest Renan, talvez o homem mais sábio do século XIX, seria capaz de proferir este pantagruélico disparate: “Quem sabe se o infinito real é tão vasto como se supõe?” Cuidado: o erro e, mesmo, o mais inconcebível disparate pode ser – e tem sido – proferido pelas criaturas mais eminentes, debaixo do sol. Eu atrever-me-ia, até, a corrigir Descartes, quando este diz que o bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo: proponho, antes, que o erro é que é a mercadoria mais bem distribuída do mundo. O grande poeta Victor Hugo – que Gide, relutantemente, considerava o maior poeta que a França jamais teve – dizia, de Racine, grande dramaturgo e sublime poeta, esta coisa espantosa: “É um homem de segunda ordem.” Recebeu, em contrapartida, este mimo, de Proudhon, sobre as suas Les Orientales: “É preciso mais génio para ser remador no Ródano do que para fazer as Orientales”. Ou este outro mimo, da autoria do considerável escritor Barbey D’Aurévilly, ainda hoje adaptado ao cinema em França: “Em Victor Hugo, o talento é sobretudo o estilo… por aí, ele escapa ao triste destino de não ser mais do que um imitador de Eugène Sue.” Na literatura, na ciência, na filosofia, os desconchavos circulam, são aceites, são acarinhados, são promovidos e até duram, intactos, durante séculos. De aí, que se deva ter extrema cautela, quando se trate de mostrar respeito à “autoridade”. Todos os grandes acrescentadores de conhecimento foram grandes desrespeitadores da autoridade, mesmo da autoridade de verdadeiros gigantes. O cientista inglês, Thomas Henry Huxley, iniciador de uma família de homens invulgares, na ciência, na literatura e no pensamento, avisava-nos, nesta fórmula vigorosa: “A ciência comete um suicídio, quando adopta um credo” (veja-se, entre muitos outros, o caso do charlatão Lysenko, na União Soviética: as suas trapalhices foram erigidas em dogma pelo ignorante Staline). E o grande cientista Konrad Lorenz resumia, numa fórmula feliz, o que também foi o miolo das cogitações de Karl Popper, no seu seminal A Lógica do Pensamento Científico: “A verdade, em ciência, pode ser definida como a hipótese de trabalho melhor equipada para abrir caminho à hipótese seguinte e melhor.” Só os timoratos e débeis pensadores é que se agarram à sua “verdade”, que defendem com unhas e dentes, sempre com medo de uma nova hipótese de trabalho (não uma “verdade”), que venha destituir a sua. Os verdadeiros cientistas anseiam por essa nova hipótese, os falsos cientistas temem-na. O verdadeiro cientista quer andar para a frente, o falso quer ficar onde está.
Tenhamos, pois, em mente, que, mesmo os grandes se enganam: são mesmo esses que mais se enganam, porque mais se arriscam. O grande Alexandre Dumas disse, aludindo ao grande químico francês, Lavoisier, que tinha sido mandado por Marat para a guilhotina, que “a República não precisa de químicos”. E o grande Reformador da Igreja, Martinho Lutero, disse, dos judeus, isto que Hitler subscreveria, palavra por palavra: “Dever-se-ia ter arrasado as suas sinagogas, destruído as suas casas, confiscado os livros de orações, o Talmud e até os livros do Antigo Testamento, proibido que os Rabis ensinassem, obrigando-os a ganhar a vida por meio de trabalhos manuais penosos.” Antoine de Rivarol, o escrutinador e promotor da “universalidade da língua francesa” e o cunhador da inesquecível medalha: “A minha pátria é a língua francesa”, disse este mimo, falando da literatura inglesa: “A literatura inglesa não merece que lhe demos sequer uma olhadela”. O grande Bossuet, o maior orador da língua francesa, disse de sua justiça, sobre as mulheres: “Prova-se, pelas Escrituras, que as mulheres, que só têm como partilha o silêncio, não devem meter-se a ensinar.” E termino, por agora, este inventário de desconchavos, com este do grande Dostoiewsky: “Em país russo, não há imbecis; é o que nos distingue dos outros países.”
Em suma, caros leitores, o melhor é estarmos sempre preparados para só aceitarmos o que nos parecer que é aceitável e mandarmos para a sucata os ocasionais deslizes dos grandes, que admiramos e não deixaremos de admirar, só porque, de vez em quando, fizeram como Homero e dormitaram.”
Eugénio Lisboa, 17.01.2022

Condeno a ignorância que reina nas democracias"


"Condeno a ignorância que reina neste momento nas democracias"
por Marguerite Yourcenar
"Eminentemente humanista, a escritora e poetisa Marguerite Yourcenar (1903– 1987) foi a primeira mulher eleita para a Académie Française. Convidamo-lo a descobrir um extracto do ensaio Les Yeux Ouverts , um conjunto de entrevistas com o autor,  realizadas por Mathieu Galey, publicado em 1980 pelas edições Le Centurion.
“Condeno a ignorância que reina neste momento tanto nas democracias como nos regimes totalitários. Essa ignorância é tão forte, muitas vezes tão total, que parece desejada pelo sistema, se não pelo regime. Muitas vezes pensei sobre como poderia ser a educação de uma criança. Acho que precisamos de estudos básicos, muito simples, onde a criança aprenderia que existe dentro do universo, num planeta cujos recursos, ela mais tarde terá que conservar, que depende do ar, da água, de todos os seres vivos, e que o menor erro ou a menor violência corre o risco de destruir tudo.
Aprenderia que os homens  mataram-se em guerras que nunca apenas produziram outras guerras, e que cada país organiza a sua história, enganadoramente , de forma a louvar o  seu orgulho.
Ensiná-la-íamos o suficiente sobre o passado para que se sentisse ligada com os homens que a precederam, para admirá-los onde merecem estar, sem fazer deles ídolos, nem do presente, nem de um futuro hipotético.
Tentaríamos familiarizá-la com os livros e outras coisas; saberia os nomes das plantas, conheceria os animais sem se permitir as horríveis experiências impostas às crianças e aos adolescentes a pretexto da biologia; aprenderia a dar primeiros socorros aos feridos; a educação sexual incluiria estar presente no parto, a educação mental, a visão de doentes graves e mortos.
Receberia, também,  as noções simples de moralidade sem as quais a vida em sociedade é impossível, uma instrução que as escolas de ensino fundamental e médio não ousam mais dar neste país.
Em matéria de religião, não  imporia  nenhuma prática ou nenhum dogma, mas  dir-se-ia  algo de todas as grandes religiões do mundo, e principalmente do país onde está, para despertar  o respeito e a destruição de  certos preconceitos odiosos.(...)
Definitivamente, há uma maneira de falar mais cedo com as crianças sobre coisas realmente importantes  ."
Marguerite Yourcenar, em "Les yeux ouverts", excerto publicado no site The Dissident.

domingo, 16 de janeiro de 2022

Ao Domingo Há Música



Se tivesse de recomeçar a vida , recomeçava-a com os mesmos erros e paixões. Não me arrependo , nunca me arrependi. Perdia outras tantas horas diante do que é eterno, embebido ainda nesse sonho puído. Não me habituo : não posso ver uma árvore sem espanto, e acabo desconhecendo a vida e titubeando como comecei a vida. Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares : extraio ternura de uma pedra. (...)
A que se reduz afinal a vida? A um momento de ternura e mais nada...De tudo o que se passou comigo só conservo a memória intacta de dois ou três minutos. Esses sim! Teimam, reluzem lá no fundo e inebriam-me como um pouco de água fria embacia o corpo.
Raul Brandão, Memórias

Todos temos memórias de momentos que vivemos. Muitos são apenas fugazes. Outros enchem anos e há aqueles que voltam na sua singeleza : uma manhã que nasce, uma aurora que desponta  e nos enche o coração de puro deleite. Esse ,sim , traz embebido um outro sonho que nem o tempo puirá.

Abel Korzeniowski, em Letters , do Álbum Letters.

 

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Educação: A liberdade de escolha ou inovar com a sucata


Educação: A liberdade de escolha
ou  inovar com a sucata
por Eugénio Lisboa
 
“O Partido INICIATIVA LIBERAL tem vindo a propor, com linguagem bem penteada e louvável civilidade de maneiras, ideias mais do que um bocadinho perigosas e, por acaso, já bastante obsoletas. Uma dessas ideias é a estafada “liberdade de escolha” para os alunos que pretendam frequentar uma escola. A ideia já foi suficiente demolida, com argumentos decentes, pelos partidos que a não perfilham, em debates recentes. Pôr o Estado, em vez de investir na escola pública, como é sua obrigação, a financiar a escola privada, é, no mínimo, escandaloso. Por isso, venho aqui apenas contar uma história de proveito e exemplo.
Quando o Partido Conservador Britânico ganhou, em 1979,  as eleições legislativas, e Margaret Thatcher ascendeu ao lugar de Primeiro Ministro, com o seu projecto ultra-liberal, deu ao seu mentor político, Sir Keith Joseph, a pasta da Educação. Este, ideólogo extremista, apressou-se a propor a “liberdade de escolha”, com “vouchers” do Estado a pagarem o ensino privado – a ideia agora repescada pela IL. A reacção provocada no Partido Conservador, para não falar na do Partido Trabalhista, foi de tal ordem, que Margaret Thatcher não teve força para levar por diante o projecto acarinhado pelo seu ideólogo e que era também o seu. O projecto foi atirado para a sucata, da qual nunca ressuscitou, nos onze agitados anos do reinado de Thatcher.
Aparece agora, triunfalmente repescado pela IL, com ares de inovação prenhe de futuro, e apaparicado por comentadores aguerridos, em postura de estarem “para além da Thatcher”
É muito nosso hábito lusitano irmos buscar, tarde e a más horas, ao monte da sucata que outros produziram, as ideias saloias e perniciosas que eles acharam tóxicas, há bem quarenta anos atrás.
A “liberdade de escolha” não passa de um truque mal disfarçado, para pôr o Estado a sustentar o ensino privado. Ora se este é assim tão bom e tão eficaz e competitivo, que aprenda a viver por si, sem recurso à inevitável teta que tanto acusa de ser incompetente e nefasta: isso mesmo, a teta do Estado.
A IL quer, em tempo incerto, de agonia, de susto e de crise profunda, acudir aos portugueses com uma selvagem anarquia de mercado que, mesmo assim, vampirize o pouco que o Estado tenha para dar. Esta destemida proposta deve ser devolvida ao local de onde nunca deveria ter saído: a cova da sucata do Partido Conservador Britânico. “
Eugénio Lisboa, 14.01.2022

O invisível dedo nu de Deus

 " Conta o quarto Evangelho (João, VIII, 66-9), e aparecem-nos agora os ideólogos  dizendo que a passagem é apócrifa , que quando os escribas  e fariseus  apresentaram a Jesus a mulher adúltera, ele, inclinando-se até ao chão, escreveu na poeira , sem cana nem tinta , com o dedo nu, e enquanto o interrogavam voltou a inclinar-se e a escrever, depois de lhes ter dito que aquele que se sentisse sem culpa fosse o primeiro a lançar uma pedra à pecadora , e eles , os acusadores, afastaram-se em silêncio.  Que foi que leram na poeira onde escreveu o Mestre? Leram alguma coisa? Detiveram-se nessa leitura? Na  parte que me toca , vou pelos caminhos do campo , da cidade, da natureza e da história, procurando ler , para o comentar, aquilo que o invisível dedo nu de Deus escreveu na poeira que o vento  das revoluções naturais e históricas leva consigo. E Deus ao escrevê-lo inclina-se para o chão.  E o que Deus escreveu é o nosso próprio milagre, o milagre de cada um de nós , Santo Agostinho, Jean-Jacques, Jean Cassou, tu, leitor, ou eu que escrevo agora com pena e tinta este comentário, o milagre da nossa consciência da solidão e da eternidade humanas.
(...) Não, não me interessam os problemas  que dizem da actualidade e que não o são. Porque a verdadeira actualidade , a sempre actual, é a do presente eterno. Muitas vezes, nestes dias trágicos para a minha pobre pátria, ouço perguntar :  «e que faremos amanhã?». Não , que vamos fazer mas é agora.  Ou melhor, que vou eu fazer agora, que vai fazer agora cada um de nós. O presente e o individual: o agora e o aqui. No caso concreto da actual situação política -- ou melhor  ainda  que política , apolítica , isto é, incivil - da minha pátria, quando ouço falar de política futura e da reforma da Constituição respondo que temos de começar por desembaraçar-nos da presente miséria, começar por pôr termo à tirania e julgá-la. E o resto que espere . Quando Cristo ia para ressuscitar  a filha de Jairo cruzou-se  com a hemorroíssa e deteve-se junto a ela, pois era o que então importava; a outra , a morta, que esperasse.(...) 
E respondo : primeiro que o provisório é o eterno , que o aqui é o centro do espaço infinito, o foco da infinitude, e o agora o centro do tempo , o foco da eternidade; logo que o individual é o universal -  em lógica, os juízos individuais são assimiláveis  aos universais - e, por conseguinte, o eterno;  e por último que não há outra política senão a de salvar os indivíduos  na história. Nem mesmo assegurar o triunfo de uma doutrina, de um partido, ampliar o território nacional ou derrubar uma ordem social vale seja o que for se não para salvar as almas dos homens individuais. E respondo também que posso entender-me com políticos - e entendi-me   por mais de uma vez com alguns -, que posso entender-me  com todos os políticos que sintam  o valor infinito  e eterno da individualidade.
(...) A vida, que é tudo,  e que por ser tudo se reduz a nada, é sonho , ou quiçá sombra de um sonho, e talvez Cassou tenha razão quando diz que não merece ser sonhada sob a forma sistemática. Sem dúvida ! O sistema - que é consistência - destrói a essência da vida. E, de facto, os filósofos não viram a parte que de si mesmos , do sonho que eles são, puseram no seu esforço para sistematizar  a vida  e o mundo e a existência.  Não há filosofia mais profunda  do que a contemplação de como se filosofa. A história da filosofia é a filosofia perene."
Miguel de Unamuno, in Como se faz uma Novela, Grifo- Editores e Livreiros, Lda,  Fevereiro de 1998, pp.35, 40, 41, 42, 47,48