A festa antes do tempo
(Malhas que o provincianismo tece) por Eugénio Lisboa
A
minha maneira de brincar
é
dizer a verdade. É a brinca
-
deira mais divertida do mundo.
George Bernard Shaw
Se,
por um daqueles artifícios
cómodos,
pelos quais simplifi-
camos
a realidade com o fito
de
a compreender, quisermos
resumir
numa síndroma o mal
superior
português, diremos que
esse
mal consiste no provincianismo.
Fernando Pessoa
"No dia 16 de Novembro
do próximo ano cumprem-se cem anos sobre o nascimento de José Saramago, perdão,
do “nosso único Nobel”, como a nossa comunicação social tanto se derrete a
dizer. Sim, convém roer bem este osso raro e apetecível, que tanto afaga a
nossa autoestima e nos leva de novo para a grandeza dos descobrimentos! Seja
como for, seria normal que as celebrações desse aniversário começassem em 16 de
Novembro de 2022 e se prolongassem por um ano, até Novembro de 2023. É como se
costuma fazer. Mas, desta vez, a impaciência lusíada foi tão grande, o desejo
de se agitar freneticamente o milagre Nobel, em nada inferior ao outro de
Fátima, foi tão impulsivo, que aí estamos nós, avançando de um ano a efeméride,
e a tocar, com acintosa paixão, o tambor da glória. Tudo se vai fazer, em
grande, para que lá fora se não esqueça que em Portugal também há um Nobel da
Literatura! Com Saramago, nas letras, e Ronaldo, na bola, não há desculpa para
depressões nem para vendas escandalosas de ansiolíticos. Os portugueses, quando
celebram, não têm mãos a medir. Aperte-se o cinto, poupe-se no pão e nas
ligaduras, mas faça-se um arraial de encher o olho. Uma festarola destas, em
grande, é tão indispensável à imagem do país, como a construção de um novo estádio
de futebol! Os estrangeiros vão ver como
é! Camões, em 1980 não teve nada de parecido com isto, mas também é bom de ver
que o nosso Luis Vaz é muito bom, é muito bom, mas não teve nunca o Nobel. Essa
é que é essa. Pode dizer-se que, no tempo em que Camões comeu o pão que o diabo
amassou, não havia Prémio Nobel. Pois sim, mas a julgar por aqueles que os
suecos têm desprezado, está muito longe de ser líquido que o nosso Luís Vaz o
abichasse. Além do mais, o facto de ter sido castigado com um exílio para a
Índia, de ter estado desempregado na Ilha de Moçambique um ror de tempo a coçar
os tomates (e a defecar para cima do Índico, Cf. Jorge de Sena) e de ter andado
por Lisboa, numa situação social mais do que duvidosa, a viver de uma tença e
de esmolas, decerto incomodaria o olfacto fastidioso dos académicos de
Estocolmo. Saramago, não! Saramago chegou e sobrou para o Prémio e os
portugueses não cabem em si, de contentes. De aí, a festança que se aproxima. O
Parlamento vai andar num afogadilho a produzir legislação punitiva, para quem
se atrever a não gostar de Saramago. Mais: vai, parece, produzir legislação
para OBRIGAR todos os portugueses a gostarem ostensivamente do autor de MEMORIAL DO CONVENTO. Sob pena de um
severo castigo. De resto, esta ideia de castigar os dissidentes começou logo por
altura em que o galardão foi atribuído a Saramago. Lembro-me de uma sessão
qualquer em que o muito lido Eduardo Prado Coelho, num acesso de entusiasmo
patriótico, apontou um dedo ameaçador à audiência que o escutava e disse:
“Agora, sempre quero ver se alguém se atreve a criticar Saramago!” A ameaça já
era bastante grotesca e indigna de um académico, mas o pior foi a estrondosa
salva de palmas que ela desencadeou. Eu fiquei muito quieto, no meu lugar e não
aplaudi. Intrigado, um meu vizinho perguntou-me: “Não gosta do Saramago?”
Respondi-lhe: “Do que não gosto é de ser ameaçado de punição, caso não goste.”
Espantosa descoberta, a de Prado Coelho: um escritor, ao receber o Prémio Nobel
fica automaticamente imune à crítica! EPC disse, ao longo da sua vida, muitas
coisas singulares, mas esta foi a cereja em cima do bolo. Saramago, os demónios
que tu acordas! Estávamos a voltar ao tempo das ditaduras, as quais não só nos
impediam de gostarmos de certas coisas, como nos obrigavam a gostar de outras.
O Eduardo PC, afogueado em erotismo patriótico, já não distinguia alhos de
bugalhos. Sem dar por isso, escorregara para o protocolo salazarento.
Acontecia-lhe muito, porque lia tanta coisa, que, como, com muita graça, disse
a Sophia, o Eduardo sabia mais do que aquilo que percebia. Enfim, o Nobel
outorgado a Saramago tem o condão de produzir, entre nós, estas coisas
excessivas.
Falemos agora um
bocadinho mais a sério. Não vou aqui discutir se Saramago é um bom escritor, um
escritor razoável ou um escritor medíocre promovido por uma máquina bem oleada.
Não interessa agora, até porque os juízos literários são muito subjectivos e
escorregadios. Já um dia, quando mostrava sincera perplexidade pela promoção
obscena que se andava a fazer de um jovem escritor e de um livro seu, de que se
não aproveitava um único verso, alguém me observou: “Mas Você é um em um milhão,
ao não admirar este escritor…” A este
tipo de argumentação, que a mais rudimentar lógica rejeita, já Bertrand Russell
respondera nestes termos luminosos: “O facto de uma opinião ser amplamente
compartilhada não é nenhuma evidência de que não seja completamente absurda; de
facto, tendo em vista a maioria da humanidade, é mais provável que uma opinião
muito difundida seja tola do que sensata.” Basta lembrarmo-nos de que, durante
muitos séculos, a esmagadora maioria dos homens tinha a certeza de que a Terra
era plana, que o Sol girava em torno da Terra e que os antípodas andavam de
cabeça para baixo e, no entanto, essa esmagadora maioria estava errada. Foi por
os académicos do Brasil nunca terem deparado com estas palavras do grande
lógico matemático, que Paulo Coelho foi parar à Academia Brasileira de Letras:
eram tantos a comprá-lo e a lê-lo e a dizerem que era muito bom! Que haviam de
fazer os académicos brasileiros se não estender-lhe o tapete? Quem se atreve a
dispensar uma estrela mediática? Um homem traduzido em dezenas de línguas?
Coragem, sim, mas devagar! Além disso os homens de letras, a quem falta,
deploravelmente, um mínimo de formação científica, são normalmente muito
assertivos, até porque acham que as chamadas ciências exactas são mesmo
exactas, do género dois e dois serem quatro. Só que isso está longe de ser
assim e, voltando ao grande lógico matemático, recomendo este aforismo dele,
para uso dos dogmáticos das letras: “Todas as ciências exactas são dominadas
pela ideia de aproximação.”
Voltemos então ao Nobel
de Saramago e aos orgasmos de admiração parola que desencadeou no nosso país,
não excluindo nem as elites intelectuais nem o próprio Presidente da República,
Jorge Sampaio (um homem por quem sempre tive a maior estima, admiração e
gratidão). Mas a verdade é que, em toda a história do Prémio Nobel, não me
consta que o Presidente dos Estados Unidos tenha corrido para Estocolmo, por
ocasião do Nobel ganho por O’Neill, Faulkner ou Hemingway, nem a Rainha de
Inglaterra, tenha arrastado as suas vestes reais, desde o Palácio de Buckingham
até aos frios nórdicos, para assistir à coroação nobélica do seu taciturno
súbito, T. S. Eliot (que ela achava chato, soturno e incompreensível). Mas como
tudo é diferente em Portugal! Não só o amor, celebrado pelos cardeais de Júlio
Dantas, mas também a admiração, celebrada de cardeal para baixo! Somos
diferentes, eis a questão. Quando admiramos, admiramos aos gritos e detestamos
vesgamente quem ponha uma tímida reserva. Dizer-se que não se gosta lá muito
deste ou daquele romance do miraculado escritor é crime de lesa idolatria.
Porque é a idolatria que, nestas alturas, entra em vigor e a idolatria odeia a
reserva cautelosa. Em 1998, ano do milagre, quem não idolatrasse Saramago era
inimigo da pátria. Quem, em colóquio ou viagem de turismo cultural, não metesse
Saramago era tido por odioso sabotador do êxtase nacional. Prado Coelho,
promovido a inquisidor-mor, estava severamente vigilante. Nada de críticas!
Nada de relaxações! O momento era de adoração e de justificada histeria.
A mim, que lera alguma
coisa e que vivera quase duas décadas em Londres, onde a recepção de um Nobel
de Literatura ou outro era um acontecimento extremamente sóbrio e discreto, durante
o qual a comunicação social noticiava mas não se extasiava provincianamente, o
espalhafato lusíada confesso que me incomodou. Mais do que um bocadinho. Que
diabo, toda a intelectualidade adulta sabe que as decisões de um júri são
apenas as decisões de homens falíveis. É
sempre agradável receber um prémio, mas um escritor consciente das fragilidades
humanas, deve sempre fazê-lo, with a pinch of salt, como dizem os britânicos.
Os dezoito suecos que presidem ao Nobel de Literatura, não possuem especiais
poderes de avaliação. São homens e, como homens, são sujeitos a lobbies, interesses,
limites de conhecimento, preconceitos e ocasionais lapsos de juízo crítico. Não
é pecado de maior. É só um facto da vida. Compreende-se que o prémio seja
apetecível pelo seu avultado valor monetário. Já o seu prestígio intrínseco é
muito mais difícil de compreender e justificar: errare humanum est, mas errar à
escala a que os júris do Nobel têm errado é digno de mais que algum espanto. E
não só pelo que diz respeito ao prémio de Literatura. Muita gente não sabe, mas
o júri do Nobel da Física não se atreveu a dar o Prémio a Einstein, pela teoria
da Relatividade, que o tornou famoso e revolucionou a Física pós-Newton:
atribuíram-no aos seus trabalhos sobre o efeito fotoeléctrico, provavelmente
por se não sentirem muito à vontade com a teoria da relatividade (a restricta e
a generalizada), à qual não chegavam. Em Literatura, a Academia Sueca
consagrou, é certo, alguns grandes escritores, como Shaw, O’Neill, Pirandello,
Anatole France, Thomas Mann, Herman Hesse, André Gide, Roger Martin du Gard,
Bertrand Russell, Hemingway, Faulkner, Camus e não muitos mais. Em compensação,
por motivos os mais variados mas que nada tiveram a ver com mérito literário,
galardoaram um enormíssimo número de escritores francamente menores, a maioria
dos quais está hoje esquecida, deixando de fora escritores notabilíssimos
(alguns, verdadeiros gigantes), como Henry James, Mark Twain, Robert Frost,
Robert Lowell, Emily Dickinson, Truman Capote, Arthur Miller, Tennessee
Williams, Edward Albee, John dos Passos, Virginia Woolf, Aldous Huxley, W. H.
Auden, Ortega y Gasset, Unamuno, Garcia Lorca, Pio Baroja, Karen Blixen,
Strindberg, Alberto Moravia, Ibsen, Zola, Jorge Luis Borges, Graham Greene,
Joseph Conrad, Lawrence Durrell, Phillip Roth, Proust, Claudel, Valéry,
Malraux, Saint-Exupéry, Jean Anouilh, Rilke, Kavafis, Carlos Drummond de
Andrade, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, Graciliano
Ramos, Clarice Lispector, Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, Régio, Torga,
Sena, Sophia, Herberto Hélder. Deixo de fora ainda alguns, mas não quero
alongar demais a lista.
Tudo isto nos deve
conduzir a aceitar sempre com alguma sobriedade os juízos valorativos que nos
chegam da Escandinávia, não nos deixando cair em tentação de idolatria.
Lembrem-se da cáustica advertência do irlandês George Bernard Shaw (que aceitou
o diploma e a medalha do Nobel, mas recusou galhardamente o dinheiro): “O
selvagem adora ídolos de madeira e pedra, o homem civilizado, ídolos de carne e
osso.” Eu prefiro não adorar nem uns nem outros. Admirá-los, sim; adorá-los,
nunca."
17.11.2021
Eugénio
Lisboa, em Ensaio (prosa inédita)