quinta-feira, 15 de julho de 2021

Pausa com música dentro

Bryan Behr, em  Minha Saudade Tem Um Nome (Voz E Violão).
Direcção A&R: Henrique Badke; Gerente A&R: Victor Kelly;Coordenação A&R: Igor Alarcon; Fernanda Mesa e Junia Coutinho;Label Manager: Sérgio Bernardo; Gestão de projecto: Debora Freitas; Produção Musical por: Juliano Cortuah e Fernando Lobo;Director de Vídeo: Juliano Cortuah.

MINHA SAUDADE TEM UM NOME

Minha saudade tem um nome
Tem até telefone
Endereço e lar
Minha saudade as vezes liga
Dizendo que eu devia
Parar de me importar
Costumava lhe chamar de amor
Quando a sua dor
Era maior do que qualquer coisa
Costumava lhe fazer feliz
Como sempre quis
Mas agora o que me resta?
Minha saudade me ensina
Que tudo nessa vida
Pode se acabar
Minha saudade me judia
Dizendo que um dia
Talvez possa voltar
Costumava lhe chamar de amor
Quando a sua dor.
Era maior do que qualquer coisa
Costumava lhe fazer feliz
Como sempre quis
Mas agora o que me resta?
Bryan Behr

Bryan Behr , em  Bem Que Me Avisei (Voz E Violão).

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Le 14 Juillet

Feu d'artifice 14 juillet
La liberté à l’honneur
"Pour célébrer le 14-Juillet, la Ville de Paris offre aux Parisiens et aux visiteurs de Paris un spectacle très attendu : le feu d’artifice tiré depuis la tour Eiffel, précédé d’un grand concert sur le Champ-de-Mars.
Il marquera un temps d’unité nationale et de joie partagée pour tous les Français et sera aussi, aux yeux du monde entier, le symbole de la résilience de la capitale.
Contrairement à l’année dernière, et conformément au cadre réglementaire et sanitaire applicable à cette date, les Parisiens pourront se retrouver sur le Champ-de-Mars - jauge limitée à 15 000 personnes - dans le respect des gestes barrières et avec le port du masque obligatoire ainsi que la présentation du passe sanitaire.
Cette année, les traditionnels bals des pompiers n'auront en revanche pas lieu en raison de la crise sanitaire.
Feu d'artifice du 14 juillet 2020
Jean-Baptiste Gurliat / Ville de Paris
"Le 14 juillet, dès 23 h, la tour Eiffel s'embrasera pour un spectacle pyrotechnique conçu par la société Ruggieri (direction artistique : David Proteau) qui clôturera la fête nationale. Son thème : « La Liberté ». Après plus d’un an où le maître-mot a été la distance, ce feu d’artifice signe le retour à la liberté de sortir, de se retrouver et d’échanger. A suivre en direct sur  France 2."
Le concert de Paris
Le Concert de Paris avec l’Orchestre national de France, le chœur et la maîtrise de Radio France.
Jean-Baptiste Gurliat / Ville de Paris
"Également le 14 juillet : en prélude au feu d'artifice, profitez gratuitement du Concert de Paris sur le parc du Champ-de-Mars. Pour sa 9e édition, il réunira l’Orchestre national de France, le chœur et la maîtrise de Radio France. Plusieurs artistes sont aussi invités pour ce concert exceptionnel : le violoniste Renaud Capuçon, le trompettiste Ibrahim Maalouf, la mezzo-soprano Clémentine Margaine ou encore le pianiste Alexandre Kantorow.
Début du concert à partir de 21h15. A suivre en direct sur France 2."

Ruy Belo

  

50.ª edição de PORTO DE ENCONTRO - À CONVERSA COM ESCRITORES, consagrada a Ruy Belo, no dia 27 de Novembro de 2016, às 17:00 , Biblioteca Municipal Almeida Garrett, Porto, promovida pela Porto Editora.

Sobre a Poesia XXII ( 2ª parte)

" Entretanto, que se passa com a poesia?

A poesia há muito que deixara de ser narrativa, se é que alguma vez profundamente o fora. A poesia passou a viver daquilo que nunca deixara de ser: o exercício da sabedoria da linguagem, uma aventura da palavra. Reduziu-se ao achado artístico, à capacidade de surpresa, à exploração intensiva da fala.
Os concretistas, que fizeram a sua época, esgotaram-se em experiências que em si mesmas se compraziam, deixaram-se atrair perigosamente por outras artes com as quais não poderiam competir, esqueceram-se afinal da palavra que, mesmo desintegrada, pulverizada, explorada nas suas formas mínimas, não deixa de ter características específicas. A poesia concreta pode ser um limite a atingir, os poetas de vanguarda não poderão deixar de ter em conta as suas conquistas, mas os seus teóricos, ao convertê-la num absoluto, tinham necessariamente de chegar à conclusão de que a poesia morreu, quando o que morreu foi a poesia concreta.
A poesia está doente, a poesia morreu? A poesia continua. A linguística, uma das disciplinas mais importantes no domínio das ciências, veio dar-lhe um novo alento e um apoio insuspeito. A teoria da informação, a lógica matemática, a estatística permitiram iluminá-la melhor. A poesia já não tem mistério, a poesia é uma coisa que se aprende, o génio não tem sentido na época dos computadores. A história, o argumento, a intriga, que deixaram de apoiar o romance e o cinema desertaram de toda a arte.
A desmistificação artística é geral. O argumento, insistimos, nunca passara de uma maneira de assegurar a consistência da estrutura. Mas essa consistência podia ser garantida através de processos mais específicos e menos enganadores, como por exemplo as estruturas sintácticas, as enumerações, a anáfora, para só citar alguns. A poesia que, como vimos, nunca deixou de ser o núcleo de toda a arte, vê-se assim de súbito situada no centro da problemática artística, graças ao seu carácter precursor, à fidelidade ao destino da arte, à coerência que, se temporariamente se isolou, foi o penhor da fidelidade de toda a actividade artística à sua mais profunda natureza, à sua origem, à sua finalidade.
A poesia não tem nada, a poesia não promete nada que não ela própria. Há muitos séculos divorciada da sua origem religiosa, acabou por se emancipar dos últimos mitos. No meio do desconcerto pouco menos que geral, os poetas, tantas vezes isolados, incompreendidos, expulsos da cidade asseguraram a continuidade da única religião possível.
Tem poucos leitores a poesia? Toda a arte tem pouco público. A arte é exigente e, mesmo nos países mais desenvolvidos, apesar do elevado grau de alfabetização que apresentam, as exigências da organização da sociedade moderna submetem em geral o homem a um tipo de vida que se não compadece com a disponibilidade para um sector da actividade intelectual que ao fim e ao cabo, não produz dividendos, nem sequer assegura a tranquilidade das consciências. Aliás, a receptividade para a poesia já hoje por hoje é muito diferente nos países ocidentais ou nos países socialistas mas, embora pudéssemos tentar encontrar uma explicação para o facto, preferimos não nos arriscar a fazê-lo, quando nem sequer Georges Mounin o faz, no seu livro Poésie et Société.
A poesia subsiste, a poesia subsistirá. Independentemente de questões intrínsecas, que explicarão o êxito momentâneo de certas obras, apostamos numa forma de arte que particularmente se apoia na linguagem e nas suas mais profundas virtualidades, vizinha afinal de uma linguagem popular que, embora prejudicada pelo êxodo rural e pelo consequente domínio, mais aparente do que real, de um idioma reduzido, fundamental digest, não deixará de sobreviver enquanto sobre a terra algum homem houver. A poesia núcleo e limite das artes que se apoiam na linguagem que distingue o homem dos outros animais, apresenta-se-nos como o último reduto dessas artes. Atitude utópica, aposta, justificação própria? Depois do que já, ao longo deste artigo, dissemos, cremos honestamente que não. Na pior das hipóteses, mortal como o homem e como a sua única terra, a poesia permanecerá não só como a forma mais pura de arte literária mas também como a indisciplinadora mais audaz, como a afirmação mais vigilante de uma consciência individual e social capaz de acusar todas as traições do homem ao seu destino humano. Poesia, arte do passado, do presente e do futuro, principalmente do futuro, eu, teu ínfimo cultor, te saúdo, aqui do mais ocidental dos países.»
Ruy Belo , Poesia, último reduto da literatura,  in ”Na senda da Poesia” , Ed. Assírio & Alvim, 2002.
 
Ler Mais, Ler Melhor - Poesia Ruy Belo

terça-feira, 13 de julho de 2021

Sobre a Poesia XXII (1ª parte)


Sobre a Poesia é um espaço que  traz a voz dos poetas. Não apenas com os seus poemas, senão e também, com aquilo que pensam e professam sobre a poesia.
Hoje, regressa-se a Ruy Belo, um dos nossos grandes poetas. O texto será publicado em duas partes, em dias consecutivos,  devido à sua extensão.  


“Poesia, último reduto da literatura”
por Ruy Belo
«Com o advento, na Idade Moderna, da prosa de ficção como género narrativo destinado a substituir o poema épico no gosto de um público que, se antes era recrutado entre a nobreza e o clero, agora, na época do capitalismo triunfante, se via representado por uma burguesia do maior número, disposta a lutar pelas sua liberdades – entre elas a democratização da cultura –, o romance e a novela, expressos numa linguagem mais próxima da da comunidade, arquitectados com base numa intriga que, por mais transposta, não deixava de reflectir ambições, problemas, caos da classe dominante, centrados sobre as relações entre protagonistas e figurantes herdeiros dos anteriores heróis, com o advento da prosa de ficção, dizíamos nós, a poesia parece ter sido relegada para segundo plano. Não é que houvesse desaparecido, evoluiu até, passou por vicissitudes várias, os novos credos literários impuseram-lhe modificações que lhe asseguraram sempre uma posição de vanguarda entre as artes que exploram a frase e as estruturas em que ela se organiza. Além disso, a poesia não deixou de representar o núcleo e o limite de toda a literatura, de maneira que, em virtude da linguagem, do clima, do tipo de emoções que desencadeavam, conseguiram afinal alcançar.
Mas a verdade é que o favor do público se voltou decididamente para os novos subgéneros e, se poetas houve que se impuseram, na maior parte dos caos isso teria ficado a dever-se à sua capacidade para se exprimirem noutros géneros, a uma intervenção na vida cívica que os converteu em figuras nacionais senão humanitárias ou ao cultivo de um tipo de poesia que, por circunstâncias várias – grau de acessibilidade, participação nos ideais dos movimentos revolucionários, fatalidades de um destino ou incidências de uma vida que, se chegava ao extremo de os eliminar da sociedade, chamava afinal a atenção das gentes para a sua figura e portanto para a sua obra – conseguiu atingir um público mais ou menos vasto.
Mas, quanto ao essencial, isto é, quanto ao lugar que lhes viria a caber na história literária, como grandes criadores, como poetas que, mercê do seu génio e da sua capacidade de expressão, revolucionaram as concepções poéticas, raramente no seu tempo conheceram êxito ou mesmo compreensão, não já dos dirigentes da sociedade, dos homens da cultura oficial, mas mesmo do público.
O romance e a novela impunham-se, o teatro escrito e o representado impunha-se, o ensaio aparecia e obtinha um favor crescente. Até que apareceu o cinema, com toda a sua novidade e que, graças às sucessivas aquisições técnicas, ao seu carácter de arte pouco menos que total, ao seu meio de transmissão visual, foi conquistando justamente uma progressiva popularidade. E, para além disso que, ao fim e ao cabo, poderia não revestir um significado profundo, o cinema produziu verdadeiras obras-primas e permitiu a afirmação de grandes criadores artísticos, de maneira que o cinema, arte de equipa e de colaboração, arte colectiva como na Idade Média e no Renascimento toda a grande arte o fora, se deu ao luxo de conseguir produzir as mais fundas emoções estéticas que a arte moderna no seu conjunto se mostrou capaz de produzir.
O cinema, com a sua visualidade, com processos narrativos como o flash-back, ou com a voz-off, com característica técnicas como a montagem, por exemplo, influenciou o romance e mesmo a poesia. E a arte continuou, embora a partir de certa altura, viesse a encontrar perigosos concorrentes na televisão e no desporto – espectáculo de massas. Graças ao cinema, a arte continuou a desempenhar uma função de relevo na vida da sociedade, de maneira que realizadores, actores se acabaram por converter em grandes figuras populares, que chegam a ocupar lugar de relevo na imprensa e na rádio-televisão.
Mas tudo o que é humano sofre a corrosão do tempo e, primeiro o romance, hoje em dia o próprio cinema atravessaram e atravessam uma crise de usura. O argumento, a intriga, a história, apesar de representados de feição sempre diferente, graças ao génios dos criadores, acabaram por fatigar um público que, na variedade e intensidade da vida real, não deixava de encontrar peripécias bastantes, capazes de preencher e de desenvolver as imaginações mais ambiciosas. Tanto assim que, como género literário, o ensaio, por natureza despido de argumento, começou a chamar as atenções, enquanto a ficção, que desertara da poesia para o romance para o cinema, deixou de constituir o núcleo deste, que veio, nas suas obras mais representativas, a revestir por exemplo as formas de cinema-verdade, de cinema-ensaio.
Ao fim e ao cabo, a arte depurou-se, ao ver que lhe faltava um elemento que, tecnicamente, nunca funcionou mais que como processo de construção. O romance, o cinema deixaram de se apoiar num ingrediente que, afinal de contas, não passava de uma isca, de um engodo, debruçaram-se sobre os processos técnicos, revolucionaram a linguagem e a construção, especializaram-se, cingiram-se ao que de artístico existe na arte e ganharam em intensidade e permanência o que perderam em extensão e popularidade.»
Ruy Belo , Poesia, último reduto da literatura,  in ”Na senda da Poesia” , Ed. Assírio & Alvim, 2002.

E TUDO ERA POSSÍVEL

Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer
Ruy Belo, in Homem de Palavra[s] , Lisboa, Editorial Presença, 1999
 
Mas Que Sei Eu,  Poema de Rui Belo com narração de Mundo Dos Poemas

domingo, 11 de julho de 2021

Ao Domingo Há Música

 

É domingo.
E aos domingos as árvores crescem na cidade,
e os pássaros, julgando-se no campo, desfazem-se
a cantar empoleirados neles.
Tudo volta ao princípio.
António Gedeão, Novos Poemas Póstumos
A voz incomparável de Gal Costa, em  "Dindi", com Tom Jobim (Especial Antonio Brasileiro - 1987). Uma composição que pode encerrar um domingo de qualquer mês e de qualquer ano, em qualquer parte do mundo . Tom Jobim, um nome maior da música brasileira,  e Gal Costa, a voz sublimada, um momento de pura celebração.
António Brasileiro foi um especial de televisão produzido pela Rede Globo, em homenagem aos 60 anos do músico Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, Tom Jobim, (Rio de Janeiro, 25 de Janeiro de 1927 - N. York ,8 de Dezembro de 1994) . O espectáculo televisivo foi transmitido em 29 de Maio de 1987. Nele, abordou-se a vida e a carreira de Tom Jobim com trechos musicais e histórias contadas por ele durante as gravações do programa.
António Brasileiro foi premiado pelo Festival de Filme e Vídeo de Nova York como melhor musical de 1987.
 
Garota de Ipanema, canção com música de Tom Jobim e letra de Vinicius de Moraes (1962). Em 1994,  foi feita uma homenagem musical a um dos maiores da Bossa nova: Antonio Carlos Jobim. Dessa gravação destaca-se (sendo todas muito boas) "Garota de Ipanema" interpretada por Gal Costa e Jon Hendricks (pioneiro da linha cultivada por Carcasses), ao piano o próprio Jobim ao lado: Gonzalo Rubalcaba e Alex Acuña na percussão. Completam a  banda: Joe Henderson - Sax Tenor; Herbie Hancock - Piano; Ron Carter - Bass; Paulo Jobim - Guitar e Harvey e Mason -Drums.
  
E a versão da Garota de Ipanema (The Girl From Ipanema ) por Frank Sinatra & Antonio Carlos Jobim , (mais jovem),  do  Concert Collection Frank Sinatra's "The Girl From Ipanema "A Man and His Music + Ella + Jobim " special, part of the Frank Sinatra: Concert Collection 7-DVD box set. 

sábado, 10 de julho de 2021

Sobre a Leitura II

Leitora

Confesso o vício de ler
afago
cada palavra

Bebo o feitiço das histórias
cada rosa cada asa
por onde a busca se enlaça

Revolvo-me na ruptura
ou na ternura descalça
onde a caneta sutura

Tomo o corpo da leitura
enredo-me no seu abraço
ora vestida ora nua

Ao longo deste prazer
não há nada que eu não faça
em entrega e em devassa

Indo mais longe no ler
encontro o cisne e a rola
na tocaia do prazer

Tenho a paixão da leitura
teima na escrita do perigo
e estremeço de prazer ao entreabrir um livro

corro as mãos nas suas espáduas
desnudo frases de feltro
afloro as suas pálpebras

entrelaço as consoantes
com as vogais e o enredo
diante das fantasias no sobressalto do medo

Descubro escusas passagens
pelas cisternas dos livros
ao desfolhar suas páginas

na entrega e no sustido
nas lágrimas e no sorriso
entre o ardil e o tigre

ora cumprindo
a harmonia
ora querendo a transgressão

Sou uma leitora voraz
tenho um trato com a audácia
e outro com o perdimento

entre o sonho e a escrita
existe um espaço sedento
rebeldia e firmamento

digo tempo e confissão
das cartas das bibliotecas
das literaturas secretas

Corro nas linhas dos livros
tropeçando
de avidez

na cama quero as palavras
Enoveladas errantes
com elas sou viajante

no rumo da minha
vida
estão os livros e as estantes

Gosto de beber o cheiro
do interior da leitura
temperado com canela e as coisas obscuras

deleito-me com a poesia
endoideço com o romance
esquivamento das mulheres

com a sua escrita de leite
de linho e alquimia
de aço rumorejante

Encontro a rima cismada
dobo a palavra a vapor
na teima de quem porfia

vou em busca do fulgor
corro atrás da literatura
dos textos e da leitura

Sou dependente dos livros
sem eles posso morrer
perco-me de tão perdida se proibida de ler

Maria Teresa Horta, in Estranhezas, Publicações Dom Quixote, Outubro de 2018, pp.29-32

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Sobre a Leitura

 
 A leitura aproxima as pessoas
por Eduardo Agualusa
"Os bons escritores são aqueles que conseguem colocar os leitores na pele do outro. Creio ser essa a maior virtude da leitura. Ao entrar na pele de diferentes narradores, ao sentir-se parte de outras vidas, o leitor vai-se percebendo também parte da restante Humanidade. Tenho para mim, e atrevo-me a partilhar com vocês esta convicção — ingenuidade, dirão os cínicos —, que os grandes leitores tendem a ser menos inclinados à violência. Primeiro, porque a violência é sempre um recuo do pensamento. Depois, porque a leitura, enquanto exercício de alteridade, aproxima as pessoas.
Venho de um país que sofreu uma das mais longas e cruéis guerras civis do nosso tempo. Os fazedores de guerras civis sabem que, para triunfarem, têm de começar por desnacionalizar o inimigo. A seguir, passam a questionar a sua humanidade. Primeiro, o inimigo é um estrangeiro, depois um monstro. Um monstro, ainda para mais estrangeiro, pode ser morto. Deve ser morto.
A boa literatura trabalha em sentido contrário. Dá-nos a ver a humanidade dos outros, inclusive dos que nos são estrangeiros. Inclusive dos monstros."
José Eduardo Agualusa, em Fronteiras do Pensamento
Vamos Ler
por Eugénio Lisboa
"Nesta altura da minha vida, informado pelas bem recheadas fichas da revista VAMOS LER!, eu olhava para o futuro, aguardando a minha vez de mergulhar em todos aqueles grandes escritores de que ali se falava. Sim porque eu não me ia contentar com as leituras obrigatórias daquele punhado de obras que o liceu me impunha. Muito menos era eu feito do material de que são feitos os leitores de um só livro. Porque os há! Por exemplo, a escritora inglesa Nancy Mitford, romancista, biógrafa e jornalista, dizia isto a quem a quisesse ouvir: “”Em toda a minha vida, só li um livro, que é o White Fangs (Caninos Brancos) [de Jack London]. É tão tremendamente bom, que não me dei ao trabalho de ler mais nenhum.” Isto é menos estranho do que possa parecer. Todos nós já passámos por uma experiência parecida, embora de curta duração: quando um livro nos impressiona e marca profundamente, a seguir a ele, nenhum outro livro nos parece apetecível. Passou-se isso comigo, por mais de uma vez. Por exemplo, quando, aos catorze ou quinze anos, li, pela primeira vez, o romance de Stendhal, Le Rouge et le Noir, foi tão fundo o meu envolvimento com a história e com os personagens, que só me apetecia relê-lo e todos os outros livros se me afiguravam descartáveis. Deu-se o mesmo, quando, pela primeira vez, li Voltaire, com a sua prosa lúcida, ágil e acutilante e o seu humor ferino, e, sobretudo, quando mergulhei no teatro cintilante desse feiticeiro que foi Oscar Wilde. Adiante falarei nele.
(...)A escritora inglesa Virginia Woolf tem uma inesquecível passagem, num dos seus livros, que sublinha de modo pitoresco o valor egrégio do gosto de ler. Nestes termos: “Tenho algumas vezes sonhado que, no dia em que o Dia do Juízo amanhecer e os grandes conquistadores e juristas vierem receber as suas recompensas – as suas coroas, os seus louros, os seus nomes gravados indelevelmente no mármore imperecível – o Altíssimo se virará para S. Pedro e dir-lhe-á, não sem uma certa inveja, quando nos vir a nós aproximar-nos, com os nossos livros debaixo dos braços: ‘Olha, estes não precisam de recompensa. Não há nada que possamos dar-lhes. Eles já gostam de ler!’” Era precisamente para este estatuto de “pessoas que já gostam de ler” que eu gostaria de seduzir as pessoas pouco habituadas à leitura. E uma coisa prometo, desde já: não fazer batota. Não vou fingir, para armar ao pingarelho, que é com o Auto da Alma, de Gil Vicente, ou com  a Rhopicapneuma, de João de Barros, com a poesia de Herberto Hélder ou com o Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa que eu vou aliciar para a leitura o candidato renitente ou meramente hesitante. Não vou aqui apresentar, como “isca”, grandes e veneráveis obras de literatura que possam causar indigestão ao aprendiz de leitor."
Eugénio Lisboa, in "Vamos Ler, um cânone para o leitor relutante", Editora Guerra & Paz, Março de 2021

O Último Leitor”
por Ricardo Piglia
«Falaram-me várias vezes do homem que, numa casa do bairro de Flores, esconde a réplica de uma cidade em que trabalha há vários anos. Construiu-a com materiais insignificantes e numa escala tão reduzida que podemos vê-la de uma só vez, próxima e múltipla e como que distante na sua claridade da alba.
A cidade está sempre longe e essa sensação de distância tão próxima é inesquecível. Vêem-se os edifícios e as praças e as avenidas e vê-se o subúrbio que se esbate para oeste até se perder no campo.
Não é um mapa, nem uma maqueta, é uma máquina sinóptica; a cidade está toda ali, concentrada em si mesma, reduzida à sua essência. A cidade é Buenos Aires, mas modificada e alterada pela loucura e a visão microscópica do construtor.
O homem diz chamar-se Russell e é fotógrafo, ou ganha a vida como fotógrafo, e tem o seu laboratório na calle Bacacay e passa meses sem sair de casa a reconstruir periodicamente os bairros do sul que as cheias do rio arrasam e enterram cada vez que chega o Outono.
Russell acredita que a cidade real depende da sua réplica e por isso está louco. Melhor dito, por isso não é um simples fotógrafo. Alterou as relações de representação, de maneira que a cidade real é a que esconde em sua casa e a outra é apenas um reflexo ou um recordação.»
Ricardo Piglia, em O Último Leitor,  Ed. Teorema.


Empatia
por  Leticia Wierzchowski,
"Recentemente, aconteceu uma história que me marcou muito e mostra como a empatia resolveria tantas coisas na vida do ser humano. Estamos sempre julgando ou analisando os outros sob o nosso próprio ponto de vista, sem nunca nos colocarmos em seu lugar. Esse exercício seria transformador na nossa sociedade. Isso aconteceu em 2015, no Canadá. Não lembro todo o nome dele, mas o primeiro é William — essa história é real e, inclusive, segundo li, os direitos foram comprados para o cinema. Esse garoto tinha 14 anos — agora já deve ter 17, 18 —, era um menino normal, estudioso, que tinha uma característica: gostava muito de História, fundamentalmente a história dos povos pré-colombianos. Ele entrou num fórum de pesquisas de debates históricos na internet, comandado por um professor. Havia pessoas de vários lugares do mundo. Naquele momento, a questão levantada era por que os Maias foram a única civilização humana que construiu suas cidades longe do mar, longe da água, sendo que eles, estando ali no México e na América Central, tinham todo aquele mar por perto. Noventa e oito por cento das cidades Maias foram construídas em lugares muito altos ou no meio da selva, quase nenhuma na praia — Tulum talvez seja uma das únicas que fica na beira do mar. Como a água é fundamental para os seres humanos, não só para a sobrevivência mas para o transporte e comércio, ninguém nunca tinha entendido por que os Maias tinham escondido suas cidades. Essa questão foi levantada no fórum e todo mundo começou a debater. Depois que tudo aconteceu, esse menino foi entrevistado por um monte de veículos de comunicação. Disse que começou a pensar sobre isso e que não chegava a conclusão nenhuma. Um dia ele teve o seguinte insight: como é que vou entender um Maia pensando como um adolescente do século 21 no Canadá? Eu tenho de pensar como um Maia. Vou fazer de conta de que sou um Maia. Ele disse: só li coisas que os Maias liam, tentei comer coisas que os Maias comiam. Tentava ser um Maia. Então teve a seguinte ideia: a gente está pensando os Maias com os nossos valores, e se deu conta de que os Maias foram os grandes astrônomos da História — até hoje a gente usa conceitos da Astronomia que vêm dos Maias. Ele pensou: por que a gente está olhando para o chão? Será que a gente não deveria olhar para o céu? Os Maias olhavam para o céu o tempo inteiro. E o menino, sozinho na casa dele, pegou um mapa das constelações, comparou esse mapa com um mapa geográfico do México e da América Central e descobriu, sozinho, que embaixo de cada grande estrelas, das constelações que estavam sobre essa região onde os Maias habitavam, tinha uma cidade. Desvendou sozinho, só pensando como um Maia, uma das questões que ninguém nunca tinha conseguido concluir. E mais: ele viu que tinha uma estrela que não tinha uma cidade embaixo e apresentou isso no fórum. Acabaram pesquisando. Mandou-se uma equipe de arqueólogos para essa região, com as coordenadas já definidas, e se encontrou uma cidade Maia. O menino descobriu uma cidade Maia na casa dele, simplesmente pensando como um — praticando o exercício da alteridade, da empatia. Não sendo ele, mas tentando ser o outro. Essa é a grande lição que a literatura dá sempre pra gente: tentar exercer o olhar do outro, o sentimento do outro. Por isso é fundamental."
Leticia Wierzchowski,  no Paiol Literário 2018