quarta-feira, 7 de abril de 2021

CANÇÃO PARA LUANDA




CANÇÃO PARA LUANDA

A pergunta no ar
no mar
na boca de todos nós:
– Luanda onde está?
Silêncio nas ruas
Silêncio nas bocas
Silêncio nos olhos

– Xê
mana Rosa peixeira

– Mano
Não pode responder
tem de vender
correr a cidade
se quer comer!

“Ola almoço, ola amoçoéé
matona calapau
ji ferrera ji ferrerééé”
– E você
mana Maria quitandeira
vendendo maboque
os seios-maboque
gritando
saltando
os pés percorrendo
caminhos vermelhos
de todos os dias?
“maboque m’boquinha boa
dóce dócinha”

– Mano
não pode responder
o tempo é pequeno
para vender!

Zefa mulata
o corpo vendido
batom nos lábios
os brincos de lata
sorri
abrindo seu corpo

– seu corpo-cubata!
Seu corpo vendido
viajado
de noite e de dia.
– Luanda onde está?

Mana Zefa mulata
o corpo cubata
os brincos de lata
vai-se deitar
com quem lhe pagar
– precisa comer!

– Mano dos jornais
Luanda onde está?
As casas antigas
o barro vermelho
as nossas cantigas
trator derrubou?

Meninos nas ruas
caçambulas
quigosas
brincadeiras minhas e tuas
asfalto matou?
– Manos
Rosa peixeira

quitandeira Maria
você também
Zefa mulata
dos brincos de lata
– Luanda onde está?

Sorrindo
as quindas no chão
laranjas e peixe
maboque docinho
a esperança nos olhos
a certeza nas mãos
mana Rosa peixeira

quitandeira Maria
Zefa mulata
– os panos pintados
garridos
caídos
mostraram o coração.
– Luanda está aqui!
                  (1957)
Luandino Vieira,
"Canção para Luanda", Mensagem, Boletim da Casa dos Estudantes do Império, ALAC, v. I., ano I (1958), nº 3, pp. 27-29.

Sobre o autor
Luandino Vieira , poeta, contista, tradutor, com o  nome de registo  de José Vieira Mateus da Graça, português de nascimento, no ano de 1935 ,em Vila Nova de Ourém. Partiu aos três anos de idade para Angola  tendo passado  a juventude em Luanda. Detido pela PIDE, pela primeira vez em 1959, foi condenado a 14 anos de prisão, em 1961.A sua estreia literária foi feita na revista Mensagem, da Casa dos Estudantes do Império de Lisboa, em 1950, tendo colaborado nesta revista em anos posteriores (1961-1963) e ainda em O Estudante (Luanda, 1952), Cultura (Luanda, 1957), Boletim Cultural do Huambo (Nova Lisboa, 1958), Jornal de Angola (Luanda, 1961-1963), Jornal do Congo (Carmona, 1962), Vértice (Coimbra, 1973) e Jornal de Luanda 1973 , entre outros.
A Sociedade Portuguesa de Escritores, então presidida por Jacinto do Prado Coelho, atribuiu-lhe o Grande Prémio de Novela pela sua obra Luuanda,  em  21 de Maio de 1965. Na sequência deste facto a SPE foi assaltada e destruída por elementos da polícia política PIDE. De regresso a Luanda, desempenhou vários lugares importantes. Voltou a Portugal em 1992 onde vive isolado, na quinta de um amigo.
Saiba mais AQUI

terça-feira, 6 de abril de 2021

VAMOS LER SEM COMPLEXOS!

VAMOS LER SEM COMPLEXOS!
por Eugénio Lisboa
“Acabo de publicar, na editora Guerra & Paz, um livrinho que pretende ser um modesto mas empenhado convite à leitura, dirigido a pessoas normalmente arredias do hábito saboroso de ler. Talvez ninguém lhes tenha dito, de modo suficientemente persuasivo, que ler, além de instruir, pode ser um enorme prazer e que até nos pode servir de eficaz lenitivo, em momentos de grande aflição.
Quando eu tinha apenas catorze anos, perdi o meu irmão mais velho, que tinha dezasseis. Foi o meu primeiro grande encontro de frente com a morte e foi um abalo de grandes dimensões. Salvou-me, como verdadeira purga, a leitura, entre outras coisas, de alguma tragédia grega e do livro do poeta Luciano, sobre o luto. Ésquilo e Sófocles, mergulhando-me no grande mundo trágico, não me deprimiram, pelo contrário, levantaram-me. E o ensaio de Luciano, falando-me da morte com naturalidade, permitiu-me finalmente meter “a bordo” que morrer é parte do viver. O grande pensador e aforista francês, La Rochefoucauld, dizia, num aforismo célebre, que nem o sol nem a morte se conseguem olhar de frente. Com a ajuda desses grandes perscrutadores dos abismos da condição humana, aprendi a encarar de frente a morte como termo natural da vida. Fiquei a dever-lhes uma incomensurável dádiva.
O meu livro – VAMOS LER! – que anda por aí a circular com gratificante acolhimento pretende, não só falar dos grandes préstimos da leitura, mas também oferecer uma primeira lista de autores e livros que possam servir de aliciante “isca” para o leitor relutante. Tenho, no livro, o cuidado de dizer que não fiz uma escolha exaustiva e que não incluí alguns grandes autores portugueses (a minha lista só inclui autores portugueses), por me não parecer que se deva avançar um projecto como o meu, com textos de mais difícil acessibilidade. Em bom português de mangas arregaçadas, diria que não é com vinagre que se apanham moscas. Ora aqui é que se começaram a promover alguns equívocos. As pessoas tendem muitas vezes a ler, nos textos, não o que lá está mas o que elas neles querem ou julgam ver. Eu aviso, desde o início, com clareza e lealdade, que o cânone que proponho não é muito longo (para não assustar) e não inclui alguns grandes nomes como Fernão Lopes, Aquilino Ribeiro ou Vitorino Nemésio (sempre para não assustar). Estes grandes autores ficam para mais tarde, quando o meu leitor relutante se tiver convertido em leitor viciado (assim o espero). O pior que pedagogicamente se pode fazer é dar a ler a gente pouco experimentada certos grandes autores na altura errada. Era o que acontecia, no meu tempo de estudante, quando davam o Auto da Alma, de Gil Vicente, a alunos de catorze anos. Um verdadeiro disparate! (Ainda se fosse o Auto da Índia ou A Farsa de Inês Pereira, vá lá, embora a linguagem de mestre Gil, ainda com um pèzinho na Idade Média, possa confundir o leitor impreparado). Nada pode fazer tanto mal a um grande clássico, como dá-lo a ler prematuramente. Como, infelizmente, a escola tem feito isso o tempo todo – e não só em Portugal – o grande dramaturgo irlandês, George Bernard Shaw, dizia que gostaria de ter poderes legais para proibir a toda a posteridade a utilização das suas admiráveis peças de teatro, nas escolas. Por uma razão: por querer continuar a ser lido e por saber que as escolas eram as principais responsáveis por os alunos detestarem certos grandes autores. E continuarem a detestá-los por toda a vida. Eu não quero matar, nas pessoas que ando a querer convencer de que ler é bom, esse gosto de ler, pondo-as demasiado cedo diante de certos autores. O meu livro não é uma exibição parola dos meus gostos alevantados. Por isso não convido o meu leitor relutante a começar por Fernão Lopes ou Gil Vicente ou Aquilino Ribeiro ou Vitorino Nemésio ou Mário Cesariny ou Herberto Hélder – porque seriam escolhas desastradas e um mau serviço prestado a estes grandes autores e ao leitor que pretendo aliciar. Por isso, peço aos meus amigos que me têm inquirido sobre certas ausências, que leiam com atenção o meu livro. Por outro lado., não incluí no meu cânone, autores que muito admiro  e são de leitura acessível, por uma razão muito simples: porque não cabem: o meu limite eram 50 obras de 35 autores. Quando um aluno engraçadinho perguntou um dia ao meu inesquecível professor de Ciências Geográficas, Cardigos dos Reis, por que razão o sol não ficava nunca entre a Terra e a Lua, ele respondeu-lhe, arregaçando uma sobrancelha cáustica: “Olhe, menino, além do mais, porque não cabe.” Portanto, se me perguntarem por que não incluí, por exemplo, a grande Florbela Espanca, a minha resposta é curta: “Porque não coube.”
Outro ponto da minha escolha que desassossegou não pequeno número de amigos meus (o que não será dos que não são meus amigos!) foi a escolha de Miguel de Sousa Tavares e de Rosa Lobato Faria, muito mais ele do que ela. O problema será menos o alegado feitio um bocado afrontoso e sem papas na língua do autor de Equador. E o defender, por vezes, pontos de vista muito controversos. Porque eu creio que a principal objecção é o livro ter-se vendido muito bem e ser de extrema aliciante leitura. Aqui, entramos no reino do preconceito: como se um livro de grande entretenimento não pudesse ser boa literatura. Por acaso, até acho que os romances de Dickens, Charlotte e Emily Bronte, George Eliot, Joseph Conrad, Stendhal, Balzac, Benjamin Constant, Choderlos de Laclos, Zola, Tolstoi, Dostoiewsky, Turguenev, Mark Twain, Steinbeck, Pirandello, Camilo, Eça e muitos outros são de enorme qualidade literária e dotados de grande poder de entretenimento. Este poder até lhes não faz mal e é um excelente veículo para transportar outras eminentes virtudes que eles também têm. A este respeito, o grande romancista alemão, Thomas Mann, num belíssimo ensaio intitulado “O artista e a sociedade” faz uma troça descabelada daqueles que dizem haver duas espécies de arte: uma com “a” minúsculo e outra com “A” maiúsculo. Começa por se apoiar em Goethe, dizendo, com malícia, ser “impossível contradizê-lo quando ele dizia que a missão da arte era ser um animador, em todas as acepções do termo, e nada mais.”
Depois, o autor de Morte em Veneza, vai ao ponto de contar, deliciadamente, o seu encontro em Estocolmo com a escritora sueca Selma Lagerlöf, quando, em 1929, ali foi receber o Prémio Nobel, atribuído ao seu romance Buddenbrooks. A grande escritora, que fora também laureada com o Prémio, ficou sentada ao lado de Mann, num almoço, e este aproveitou para lhe dizer quanto admirava a sua obra e salientando a extraordinária carreira mundial da saga de Gosta Berling. Humilde, a grande escritora observou que os seus livros tinham sido escritos apenas para entreter os seus sobrinhos e sobrinhas, visto que não tinha filhos. Deliciado, Thomas Mann confessou-lhe que tinha escrito o seu volumoso romance, que lhe valera estar ali naquele dia para receber o galardão, sem qualquer prurido de grande seriedade: “tinha sido, de começo um assunto e um divertimento familiares, o rascunho quase facecioso de um jovem de vinte anos, não muito conformista, que eu lia aos meus e que nos fazia rir até às lágrimas.” Comparando a carreira mundial de um livro que ele escrevera para entreter os familiares, ao serão, com a idêntica fortuna que obtivera a saga escrita por ela, para entreter os sobrinhos, o grande escritor alemão e a grande escritora sueca riram às gargalhadas naquele memorável almoço. Por isso, nesse mesmo ensaio, o grande escritor alemão alude, de modo provocante, “ao tempo em que a arte [com “a” minúsculo] ainda não sabia que era “a Arte” [ com “A” maiúsculo] e se ria de si própria.” E acrescenta, significativamente, estas palavras que particularmente recomendo à atenção das vestais da nossa praça literária: “No fundo, o artista quereria mantê-la nesse estado. A arte devia, na sua opinião, rir-se de si; e ele, o artista, quereria, pelo seu lado, poder rir-se dela, sempre, em vez de acolher com ar solene as honrarias e dignidades, assim renegando a sua juventude indócil e solitária.”
E por aqui me fico, pensando ter atrás semeado alguns bons argumentos para o meu leitor ler, descomplexadamente, os sonetos de Camões e o romance de Miguel de Sousa Tavares. A verdadeira arte não faz boquinhas e até aprecia o bom entretenimento. Só os patetas empertigados têm medo dele, nem bem sabem porquê.”
       6.04.2021
Eugénio Lisboa

Interlúdio português com Gisela João


Gisela João, em  Louca,  do novo Álbum " Aurora"
  
Gisela João , em Já Não Choro Por Ti.
 
Gisela João, em   Não Fico Para Dormir . 
 

domingo, 4 de abril de 2021

O racismo n"Os Maias"

 

O RACISMO N’OS MAIAS’
por Eugénio Lisboa
“Uma estudiosa cabo-verdiana, doutoranda numa universidade norte-americana, Vanusa Vera Cruz, julgou, aliás em termos louvavelmente moderados, descobrir no romance Os Maias traços de racismo numa fala de João da Ega, dirigida ao funcionário superior da Instrução pública, Sousa Neto.
Para começar, é de um primarismo clamorosamente lamentável, ainda mais numa doutoranda, confundir as opiniões de Eça com as opiniões dos personagens que congeminou para a sua soberba comédia humana. Imagine-se confundirmos Shakespeare com Macbeth, Victor Hugo com Javert ou Eça com o Conselheiro Acácio!
Confundir as opiniões dos personagens com as do seu criador é sempre um erro de palmatória e faz lembrar aquele espectador que não conseguia dissociar o actor do personagem que, no palco, encarnava e, no final da peça, indignado com o comportamento do “vilão”, subiu ao palco e deu um arraial de pancada ao actor que o representava…
Aliás, uma leitura que nem precisa de ser muito cuidada do grande romance de Eça permite rapidamente perceber que João da Ega nem sequer está a dizer a sério o que pensa da escravatura: está simplesmente a “gozar” sadicamente o funcionário superior da Instrução Pública, que é ignorante e estúpido como uma porta. É o mesmo, Sousa Neto, que, noutro ponto do romance, pergunta, seriamente, a Carlos da Maia se, na Inglaterra, havia literatura. Carlos da Maia dá-lhe a resposta que ele estava mesmo a pedir, dizendo-lhe, com desplante gozão, que não, que na Inglaterra não havia literatura… Sousa Neto, sempre solene, sempre obtuso, aplaude aquele povo prático aquele povo essencialmente prático!
Se alguma coisa Eça faz, nesta admirável passagem do seu romance, é pôr a ridículo o personagem de Sousa Neto, ao mesmo tempo que, enviesadamente, faz a demolição da escravatura e dos que ainda a defendem, naquela altura. Usando, para este seu combate, a mais poderosa e mortífera das armas: a sátira, em que foi mestre. Eça (e Ega também) goza, de uma ponta à outra, com a estupidez de Sousa Neto, tanto mais obscena quanto o é de um funcionário superior da Instrução Pública.
Eis por que não vejo qualquer necessidade de se conspurcar qualquer edição de Os Maias, com notas explicativas de pé de página, sobre o racismo prevalecente naquela época, para desculpar um grande romancista que não precisa de desculpa nenhuma: Eça, nisto, como em muitas outras coisas, estava destemidamente à frente de preconceitos e valores negativos próprios da época em que vivia.
Do que Os Maias precisam não é de caganitas de pé de página a explicarem o por demais evidente, do que precisam mesmo é de que o leiam com a atenção que merece o mais notável romance da literatura portuguesa.
O problema é que os adeptos da “political correctness” são quase sempre despidos de sentido de humor, de sentido de ridículo e, sobretudo, providos de uma imensa falta de respeito pelas grandes obras de arte. Por isso enveredam facilmente por aquilo que Orwell cunhou, para sempre, como “polícia do pensamento”, muito usada por todas as ditaduras de direita e de esquerda.
Já agora, deixo aqui, para meditação e proveito, esta pergunta feita por um dos maiores críticos de arte do século XX, Robert Hughes, autor do notabilíssimo The Shock of the New e do muitíssimo incómodo A Culture of Complaint. A pergunta é, singelamente, esta: “O que é que se prefere? Uma arte que luta por mudar o contrato social e falha? Ou uma que procura seduzir e divertir e consegue?”
                                        S. Pedro do Estoril, 3.04.2021
                                                      Eugénio Lisboa

Ao Domingo Há Música


When I look around and everything's crazy
You are still God 
That's never changing
 In the midst of my fear and my indecision
 You are still God 

Um outro domingo de Páscoa sob a ameaça de uma pandemia que se não extingue. Encontrar a paz  para  um novo dia é talvez a real mensagem da liturgia pascal. Há quem saiba elevar a voz e dirigi-la nessa busca redentora.
Assim é Naomi Raine ,  em Find my peace. Uma voz bela que estimula e que encanta pela  acentuada musicalidade. 
E Jeanine De Bique , em Rejoice greatly' -  Messiah, de Georg Friedrich Haendel. Esta talentosa    soprano da  Trinidad  é acompanhada pela  Chineke!Orchestre, sob a direcção do Maestro Kevin John Edusei, nos  BBC Proms. 

sábado, 3 de abril de 2021

A propósito da Páscoa


Curral das Vacas , Chaves, 11 de Abril de 1974
"O Auto da Paixão num pobre lugarejo transmontano transfigurado numa Galileia imaginária , a fonte de Jacob, o Jardim das Oliveiras e o Sinédrio  reduzidos a uma bacia cheia de água, a meia dúzia de ramos espetados  no chão , a um palanque  de feira.  Mas nesse  cenário ingénuo  e sumário , tudo se passou como no verdadeiro - um Cristo do mundo a sofrer as injustiças  e agruras do mundo. Pilatos era qualquer regedor , presidente da Câmara ou juiz  poltrão a lavar as mãos na hora da verdade; Caifás , o influente poderoso e rancoroso, quem não é por nós é contra nós ; Judas, o mau vizinho que muda os marcos e jura peitado; e a turba judaica, a multidão que assistia , mata, queima esfola, conforme a onda emotiva. Não havia vedetas . Nem o próprio Redentor tentava ultrapassar  a medida humana. Todos faziam diligentemente o seu papel , a debitar o texto e a gesticular como a rudeza era servida. A tarde estava de rosas , e essa doçura da natureza emoldurava harmoniosamente aquela lúcida catarse colectiva, teatro e realidade misturados , festa e pesadelo, agonia fingida e vivida.  O povo tem isso: sabe encontrar o meio-termo feliz, o equilíbrio entre as exigências da alma e as fraquezas do corpo.  A tragédia do Calvário é a nossa própria tragédia. Mas Deus , um ser absoluto. Pode sofrer absolutamente. Nós somos criaturas relativas... Por isso, a esponja de fel  que desta vez o Centurião chegou aos lábios de Cristo era um naco de pão-de-ló  ensopado em vinho fino..." 
Miguel Torga, in  Diário XII - Obra Completa, Círculo de Leitores

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Miserere mei

 
Miserere mei, Deus, de Gregorio Allegri( 1582-1652) , pelos  Tenebrae  , dirigidos pelo Maestro Nigel Short.
Allegri's Miserere foi filmado na  St.  Bartholomew the Great, Londres.

Miserere mei, Deus: secundum magnam misericordiam tuam.
Et secundum multitudinem miserationum tuarum, dele iniquitatem meam.
Amplius lava me ab iniquitate mea: et a peccato meo munda me.(...)
Redde mihi laetitiam salutaris tui: et spiritu principali confirma me.
Versa est in luctum,  de Alonso Lobo (1555-1617) , pelos Tenebrae,  dirigidos pelo Maestro Nigel Short.
Versa est in luctum foi filmado na  St, Bartholomew the Great, Londres. 

Latin text 
Versa est in luctum cithara mea,
et organum meum in vocem flentium. 
Parce mihi Domine,
 nihil enim sunt dies mei.

 English translation
My harp is turned to grieving and my flute
to the voice of those who weep
Spare me, O Lord, 
for my days are as nothing.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Carta aberta à criança pequena


Carta à criança pequena
Querida criança 
« Nós estamos muito próximos um do outro, tu que começas a vida , eu que a acabo. Diz-se  ( e é muito  verdade) que os extremos  " se tocam". E eu entendo-me melhor contigo  do que com aqueles que se encontram no meio da sua existência e a quem chamamos " adultos". Quando eu era criança como tu  ( e a vida corre tão depressa que parece  que foi ontem), falavam-me sem cessar dos " adultos".  Eu tinha pelos "adultos" um sentimento bizarro, mistura de atracção e de desconfiança. Parecia-me que o mundo dos adultos era um outro mundo, interdito às crianças. 
Agora, quando a minha vida não pode recomeçar, ouço dizer que a infância é a idade da felicidade perfeita. Será verdade? Quando somos  como tu, uma criança, não gozamos a infância. E quando  um adulto pensa reviver a sua infância, evoca um estado que não existia.
pergunto-me por vezes se a infância não é um sonho dos adultos... Pequena criança, não te dás conta do mistério da infância!
O que aprendi em velho - demasiado tarde, sem dúvida - é que engrandecemos, se vivemos com uma criança. Sobretudo se pedimos á criança que nos faça perguntas.
Visitei um célebre filósofo alemão, chamado Heidegger . Ele habitava então uma pequena cabana de eremita a que chamava o seu " abrigo".  E, no campo coberto de neve, Heiddeger deu-me este conselho: " Se queres progredir , em filosofia como na religião,  fazei-vos interrogar por uma criança. Não podereis responder-lhe sempre, mas ela far-vos-á descobrir a verdade: porque o verdadeiro está sempre oculto. A criança elimina o véu."

Um dia , perguntaste-me o que era ser. E eu não soube responder-te . Um outro dia, disseste-me : " Por que  sou eu François e François não é eu?" Um outro dia: " Nós  temos dois olhos . Por que não vemos  duas coisas?"
E, ao voltar da catequese: " Eu compreendo o que é o  diabo, sei o que é o bom Deus. Mas diz-me por que é que o bom Deus , que é todo poderoso , não mata o diabo?"
As perguntas que fazes são precisamente aquelas às quais um filósofo não pode responder...
Frente ao teu rosto, frente aos teus "problemas", fico embaraçado.  "Porque? Como? ", repetes-me. Napoleão em Santa-Helena dizia que o génio consiste em fazer , a propósito não importa do quê, estas duas perguntas.
Mas pensas tu , meu pequenino, que todas as coisas têm uma explicação neste mundo?
A ti , que és todo mistério para mim, falta-te talvez ainda o sentido do mistério...

Olho-te com ternura, com temor, com esperança. Porque eu sou o passado; tu, tu és o futuro. Serás tu, pequeno, que renovarás talvez a alegria da terra.
Para isso , seria preciso que permanecesses " pequeno". Que crescendo permaneças criança. Então, serias um poeta , serias um artista. Serias um daqueles que os homens  estimam, porque eles guardaram  o encanto da infância.
Vou propor-te alguns conselhos  para permaneceres criança. Em primeiro lugar, pela manhã, quando acordares , maravilha-te, como se pela primeira vez  o sol se fosse levantar, como se pela primeira vez saltasse para fora da tua cama para viver. Imagina que o que vês agora não existia ontem, como se assistisses ao começo do sol , ao começo do mundo.
Na aula, fazes os teus deveres, aplicas-te. Aprendes a traçar linhas , a não dares erros.  Eu aconselho-te  a seres algumas vezes um pouco distraído , a teres uma parte  de ti que dê atenção às linhas , à pontuação, a tudo o que os professores te ensinam , e depois uma ou outra parte de ti que seja com um pássaro , que levanta voo muito para além  e que não presta atenção. Para permaneceres criança toda a vida , é esta segunda parte de ti mesmo que é preciso cultivares.
Dirão que tu sonhas. Mas é o "sonho acordado" que dá o génio.
Os adultos vão ensinar-te o esforço . Tu, tu ensinar-lhes-ás o acto de abandono a que chamam graça. Nós dar-te-emos a regra.  Tu, em troca , dar-nos-ás a tua fantasia, a tua inocência.  Nós impomos-te a nossa gravidade, tu ensinas-nos a alegria. 
Nós explicamos-te que tudo é mais difícil do que pensas, e tu, tu ensinas às nossas frontes já enrugadas que tudo é mais fácil do que tínhamos pensado!

Eis que o dia acaba. A noite cai. Eis que o sol desce e vai, como tu, deitar-se , derramando torrentes de luz e de cor.
É a hora em que vais entrar  no que chamam a noite. É o momento em que se levantam os sonhos. E os sonhos de criança são os mais belos dos sonhos. »
Jean Guitton, in Cartas Abertas, Editorial Notícias, pp,49,50,51,52 
Sobre o autor:
Jean Guitton (Saint-Étienne, Loire, 18 de Agosto de 1901 - Paris, 21 de Março de 1999) , considerado como filho espiritual de Pascal e de Bergson, foi um filósofo e escritor francês, professor da Sorbonne,  membro da Academia Francesa e da Academia das Ciências Morais e Políticas. A par desta actividade , foi  um pintor talentoso com legado conhecido e exposto.
A sua obra é vasta , tendo sido a maior parte reeditada por Desclée Brower em Oeuvres complètes , na colecção La Bibliothèque Européene. Autor exigente e prolífero, a sua obra, apesar de predominantemente filosófica, é também religiosa e literária em diversos registos que vão do ensaio, crítica, exegeses , romance, retrato à autobiografia.  Distinguido com a grande medalha da Academia de Ciências  , recebeu outras condecorações como o Prémio Osíris do Instituto de França e a Legião de Honra.