sábado, 9 de janeiro de 2021

Urgentemente

Urgentemente

É urgente o amor
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão , crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura , até doer.
É urgente o amor , é urgente
permanecer.
Eugénio de Andrade, in Poesia em verso e prosa, Círculo de Leitores, Fevereiro de 1980, p 27

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Saudade de ti, África minha


Teus doces largos braços 
São troncos  de imbondeiro
Envolveram-me suavemente
Desejando-me boas-vindas
Ela graciosa e formosa
Desaguava no mar da hospitalidade
(...) 
Apaixonei-me por ela 
Maravilhei-me com seu corpo sereia...
Suguei-lhe a essência na cama da sua branca areia.
Ras Nguimba Ngola, " Mátria , Sereia na Areia"


Andar de olhos abertos. Descobrir. Absorver. Deixar entrar tudo o que se abarca numa diversidade desconcertante é o desassossego dos dias em África. Imparável, inebriante, imprevista, incómoda, infinda, inigualável, inquieta… importuna quem avista para se intrometer sem permissão. Em África, estar ou viver é sempre uma estimulante  provocação, um inquieto fascínio. Escolher para onde ir, quando tudo se insinua ,em desconhecida volúpia paisagística, é o maior desafio para quem chega ou (re)torna a Angola. Foram estas as palavras que registei neste espaço , quando revisitei Angola, em 2015. 
Hoje regresso a Angola. Não em presença, a impossibilidade ditada pelas circunstâncias actuais em que se move o mundo obriga a uma ausência física.  No entanto , a beleza e o deslumbramento daquela natureza pródiga são um apelo constante que sacode a memória visual, sensorial e afectiva  de quem conhece África. A  magia de África exerce uma sedução permanente que  nos deixa reféns submissos.
Angola é um dos mais belos países africanos. Imensa , luxuriante, imponente e por vezes    frágil e elegante oferece um manancial de paisagens inesquecível . 

" As sete maravilhas de Angola " foi um concurso , lançado em 17 de Julho de 2013 , pela National Seven Wonders, que teve a duração de  dez  meses.
A 2 de Maio de 2014 , a Organização  divulgou os nomes das sete maravilhas naturais de Angola , eleitas por votação do público , através de mensagens (SMS) . O resultado foi o seguinte:
Fenda da Tundavala (Huíla), Floresta do Maiombe (Cabinda), Grutas do Nzenzo (Uíge), Lagoa Carumbo (Lunda Norte), Morro do Môco (Huambo), Quedas de Kalandula (Malanje) e Quedas do Rio Chiumbe (Lunda Sul).
A Organização National Seven Wonders , com sede no Museu Le Corbusier, em Zurique, na Suíça, foi fundada em 2001 pelo filantropo suíço Bernard Weber para eleger as Novas 7 Maravilhas do Mundo (New 7 Wonders of the World).

Para mitigar a  saudade , resolvemos extrair dois registos de duas dessas maravilhas naturais. Começamos pelas  Quedas de Kalandula, antigas Quedas do Duque de Bragança,  localizadas no rio Lucala, o mais importante afluente do rio Kwanza. São as segundas quedas mais altas de África, com uma extensão de 410 metros e 105 metros de altura. Ficam a cerca de 80 km da cidade de Malanje, capital da província, e a 420 km de Luanda.
Quem lá vai , fica deslumbrado.  O som das águas, o vapor que se evola, a pujança de uma  beleza pura diante do olhar e o  atordoamento de tão  inesperada descoberta  levam a acreditar que talvez o paraíso seja ali. 
 
A Floresta do Maiombe está situada na região norte da Província de Cabinda, fazendo fronteira com o Congo Brazzaville e a República Democrática do Congo. Ocupa uma vasta extensão territorial de 290 mil hectares, distribuídos entre os municípios de Buco Zau (comunas de Inhuca e Necuto) e Belize (comunas de Miconge e Luali). Apresenta uma densa vegetação com árvores frondosas  de  50 metros de altura, onde   o Pau-Rosa, Ngulo Mazi se destacam, entre outros. Quanto à  fauna , os elefantes, rinocerontes, pacaças são alguns dos animais de grande porte. Além destes , abundam,  nesta floresta,     vários primatas como  gorilas, chimpanzés, pequenos macacos e preguiças.  Há também  vários tipos de roedores e aves raras como o papagaio cinzento e periquitos.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

A Inauguração do Canal de Suez II

 

Publica-se, hoje,  a segunda Crónica de Eça de Queirós sobre a inauguração do Canal de Suez em 1869.

CRÓNICAS DE EÇA DE QUEIRÓS EM FORMA DE CARTA, PUBLICADAS NO «DIÁRIO DE NOTÍCIAS», DESCREVENDO AS FESTAS DE INAUGURAÇÃO DO CANAL DO SUEZ, QUE SE TINHAM REALIZADO EM 17 DE NOVEMBRO DE 1869.
" O Diário de Notícias n.º 1507, de 3.ª feira, 18 de Janeiro de 1870, apresentava assim a primeira das quatro crónicas que Eça de Queirós publicaria no «Folhetim» do jornal nos dias subsequentes: «Começamos a dar hoje uma interessante descrição das festas de Suez, feita pelo Sr. Eça de Queirós, um dos únicos quatro ou cinco portugueses que a elas assistiram».

II 
"Dizia-se que o «Lafite», pequeno vapor que na véspera tinha partido como explorador, encalhara; que os navios reais e imperais, os vapores egípcios com os convidados não podiam passar na estreiteza do canal, e que apesar de alijados da sua artilharia, e sem lastro, pediam mais água do que o canal tinha de profundidade; que o vice-rei e Mr. De Lesseps tinham partido para ver o «Lafite»; que se resolvera, em último caso, fazê-lo saltar; que as festas cessavam, e tudo regressava a Alexandria, como no tempo das derrotas de Actium. 
Em Port Said e a bordo dos navios havia inquietações: os comissários, as oficialidades, os engenheiros, interrogados, calavam-se discretamente, esperavam ordens de Ismailia - e receavam. Com efeito o «Lafite» estava encalhado. Isto, em primeiro lugar, demonstrava a impraticabilidade do canal - o «Lafite» é um pequeno vapor, estreito, calando pouco, quase um rebocador. Além disso, era um obstáculo material, brutal, a que os outros navios fizessem uma tentativa corajosa. 
Dizia-se que o vice-rei estava desolado, que Mr. De Lesseps perdera a sua habitual e impassível firmeza de espírito, e que se telegrafara para Paris anunciando o resultado desastroso. Realmente, depois de dez anos de tantos esforços e tantas lutas, tantos combates, com o deserto, e tantos combates com a intriga, depois de tantos milhões sorvidos pelas areias, de tantas vidas aniquiladas, de tantos créditos fundados, de tantas festas anunciadas, depois das bênçãos de Mr. Bauer e das ovações a Mr De Lesseps, era doloroso ver tudo aquilo findar repentina e vergonhosamente, ver-se que num canal feito para a navegação não cabiam navios, que aquilo era uma obra ridiculamente grandiosa, e que em lugar de tudo terminar em triunfos, tudo terminava em gargalhadas! Estivemos nestas incertezas parte do dia. Esperava-se o vice-rei, que fora num pequeno escaler ao canal ver o desastre do «Lafite». Enfim, pelo começo da tarde, os navios começaram a mover-se, as inquietações findaram, o vice-rei voltava, o «Lafite» estava desencalhado, a «Águia» seguia, e a obra de Mr. De Lesseps começava a justificar-se. 
O «Fayoum», então, penetrou corajosamente no canal. O «Fayoum» era o maior navio do cortejo. Caminhava-se com grande cuidado; no meio do canal bandeiras brancas marcavam precisamente a linha que deviam seguir os navios, para acharem a necessária profundidade de água. Conservavam-se minuciosamente em distância; ia-se devagar, sondando; havia mais cuidados e escrupulosos receios, do que na navegação de um labirinto de rochas. Na realidade, o canal aparecia-nos estreito, baixo, e a cada momento receávamos ver a proa do navio ir atufar-se nas areias das margens elevadas. O canal, ao sair de Port Said, atravessa o Mensaleh, antigo lago lamacento. Nós víamos de ambos os lados do canal reluzir ao sol aquela água morta, pesada, esverdeada. 
Foi esta a primeira grande dificuldade dos trabalhos. Era necessário, no meio daquele largo lodaçal, abrir um canal navegável e construir margens. As dificuldades cresciam com a insalubridade daqueles lugares miasmáticos. Felizmente, ao violento sol do Egipto, o lodo extraído e deposto, a fim de formar as margens, secava rapidamente. Houve ali esforços heróicos. Os operários da Europa desertaram daquele trabalho perigoso. Era necessário empregar os habitantes das margens daquele lago de lamas: estas entravam até à cintura na água espessa, tiravam com as mãos a maior quantidade de lodo possível, apertavam-no ao calor do peito até secar, e iam-no enfileirando em pequenos montículos, formando assim o começo das margens. As dragas vinham por fim, e aprofundavam e aperfeiçoavam aquele trabalho elementar. 
Depois do lago Mensaleh o canal entra definitivamente no deserto, até ao lado Timsah, à beira do qual está Ismailia. A meio do caminho de Ismailia, o «Fayoum» encalhou na areia da margem direita, desembaraçou-se com grandes esforços, seguiu, mas, como a pouco espaço encontrasse o caminho obstruído por outro navio que estava encalhado, lançou âncoras durante a noite. Havia uma lua admirável, que iluminava de um lado e de outro a extensão branca do deserto. Aquele lugar onde estávamos parados tinha sido precisamente um dos mais difíceis do trabalho. Chamava-se El-Guisrh. Havia ali enormes dunas de areia, que era necessário remover. O vento do deserto incomodava e impedia os trabalhos. Viviam ali, em trabalho incessante, dezoito mil operários. Da terra que se tirava para fazer o leito do canal formaram-se, de um lado e de outro, parapeitos enormes: à maneira que os parapeitos cresciam, mais difícil era conduzir-lhes acima a terra que se tirava; os árabes levavam-na, resvalando, rolando, caindo, em cestos chamados couffins; recusavam-se obstinadamente a empregar outro qualquer meio moderno e eficaz, para conduzir a terra, que não fosse o couffin. Calculou-se que todos os cestos empregados, sendo colocados em linha, dariam três vezes a volta ao globo. Todavia os parapeitos ainda não eram obstáculos bastantes contra o vento do deserto e contra a invasão crescente das areias: fixavam-se ali paliçadas, elevavam-se muralhas de lama seca, faziam-se plantações numerosas e vivazes para impedir a flutuação das areias. Naquela multidão de operários havia a mais absoluta ordem: ali, e em todo o percurso dos trabalhos havia hospitais, ambulâncias, armazéns: incessantes caravanas percorriam o deserto trazendo víveres. Os europeus, logo ao princípio, esmagados pela imensidade e estranheza do trabalho, desertaram. Vinham então gregos, dálmatas, arménios, árabes. Todas as raças, todas as línguas, todas as religiões ali se reuniam. Do interior do deserto corriam as tribos de beduínos a pedir trabalho. Havia enormes acampamentos. 
Mr. De Lesseps andava sempre no caminho dos trabalhos, no seu belo dromedário branco, envolto num burnu árabe, aclamado pelos operários. Aquelas pobres raças da planície e do deserto estavam fascinadas por duas coisas novas para elas - o ganho pelo trabalho, e a água abundante! 
Nada restava agora daquele grande movimento, senão, a grandes espaços, algum abarracamento levantado à beira do canal, donde os operários vinham saudar com grande ruído a passagem dos navios. 
Ao outro dia pela manhã entrávamos, ao ruído das salvas, no lago Timsah. No fundo víamos a cidade de Ismailia. Era ali o centro das festas. Ismailia é a capital do canal. 
É um porto admirável, inacessível às tempestades, À simples agitação da água; não porto de passagem como Port Said ou Suez, mas perfeita estação de descanso para a navegação do Oriente. Comunica com o Egipto pelo caminho de ferro e pelo canal de água doce. tem praças, largos, ruas de futura capital. Não é cidade rude e trabalhadora como Port Said, cheia de oficinas e de operários. É uma cidade cheia de chalets, de esboços de palácios, de passeios arborizados, de cais largamente construídos. Tem já os refinamentos civilizados de uma capital; tem mesmo já uns pequenos ares de corrupção; as almeias exiladas do Cairo, refugiadas em Esneh no Alto Egipto, têm-se vindo aproximando de Ismailia. Tudo aquilo assenta, é verdade, sobre a areia, e para os lados do deserto vive uma população árabe em toda a sua pitoresca miséria. Mas a sua colocação é excelente: confinada entre um deserto e um lago tem para se abastecer o baixo vale do Nilo, a seis horas de distância, e para comunicar com o mundo a navegação do canal. Pela sua posição é um porto forçado, e o melhor do Oriente. Todos os paxás do Egipto têm tido, como os antigos tiranos, o desejo de ligar a sua memória à edificação de uma cidade: Mehemet-Ali, Said-Paxá, Abas-Paxá, todos. A cidade que este último original fundou, Abasíade, ainda hoje está acabando de se desmoronar perto do Cairo, no caminho da antiga Heliópolis, numa vasta planície deserta. 
Ismail-Paxá será talvez mais feliz, e Ismailia poderá vir a ser a capital europeia do velho Egipto, como Alexandria é a sua capital comercial, e o Cairo a sua capital histórica. "
Eça de Queirós , (Diário de Notícias de 19 de Janeiro de 1870).

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

A inauguração do Canal de Suez

O Diário de Notícias acaba de celebrar mais um aniversário. É um jornal centenário com uma longa história feita de muitos acontecimentos e de muitas personalidades. Tem um percurso de 156 anos, que começou a ser escrito em 1864, ano em que foi fundado por Eduardo Coelho.
Noticiou e  publicou textos e crónicas de alguns dos grandes escritores portugueses. Entre eles , está Eça de Queirós. Tendo estado presente na inauguração do Canal de Suez, deu notícia dessas festividades em quatro Crónicas. Transcrevemos, hoje, a primeira dessas quatro  crónicas de Eça de Queirós de 1869.
Inauguração do Canal de Suez

CRÓNICAS DE EÇA DE QUEIRÓS EM FORMA DE CARTA, PUBLICADAS NO «DIÁRIO DE NOTÍCIAS», DESCREVENDO AS FESTAS DE INAUGURAÇÃO DO CANAL DO SUEZ, QUE SE TINHAM REALIZADO EM 17 DE NOVEMBRO DE 1869.
" O Diário de Notícias n.º 1507, de 3.ª feira, 18 de Janeiro de 1870, apresentava assim a primeira das quatro crónicas que Eça de Queirós publicaria no «Folhetim» do jornal nos dias subsequentes: «Começamos a dar hoje uma interessante descrição das festas de Suez, feita pelo Sr. Eça de Queirós, um dos únicos quatro ou cinco portugueses que a elas assistiram». 
I
Eça de Queirós,  
de Port Said a Suez 

Sr. Redactor. 
Acedo da mais perfeita vontade ao seu desejo de ter a história real das festas de Suez. Conto-lhe , porém, simplesmente e descarnadamente, o que me ficou na memória daqueles dias confusos e cheios de factos: tanto mais que as festas de Suez estão para mim entre duas recordações - o Cairo e Jerusalém: estão abafadas, escurecidas por estas duas luminosas e poderosas impressões: estão como pode estar um desenho linear a lápis, entre uma tela resplandecente de Decamps, o pintor do Alcorão, e uma tela mortuária de Delaroche, o pintor do Evangelho. 
Talvez em breve diga o que é o Cairo e o que é Jerusalém na sua crua e positiva realidade, se Deus consentir que eu escreva o que vi na terra dos seus profetas. Hoje, faço-lhe apenas a narração trivial, o relatório chato das festas de Port Said, Ismailia e Suez. 
Tínhamos voltado, eu e o meu companheiro, o conde de Resende, de uma excursão às pirâmides de Gizé, aos templos de Sakkarah e às ruínas de Mênfis, quando no Cairo soubemos que estavam na baía de Alexandria os navios do quediva que deviam levar-nos a Port Said e Suez. 
Vínhamos do sossego do deserto e das ruínas, e logo na gare do Cairo, ao partir para Alexandria, começámos a envolver-nos, bem a custo, naquela confusão irritante que foi o maior elemento de todas as festas do Suez. A previdente penetração da polícia egípcia tinha esquecido que trezentos convidados, ainda que não tenham a corpulência tradicional dos paxás e dos vizires, não podem caber em vinte lugares de vagões, estreitos como bancos de réus. Por isso, em volta das carruagens havia uma multidão tão ávida como no saque de uma cidade. 
Jonas Ali, o nosso drogman, um núbio, intrigou, conspirou, clamou e alcançou-nos numa carruagem de segunda classe, miseravelmente desmoronada, dois lugares empoeirados. 
Confesso que foi com o maior tédio que comecei a atravessar a magnífica natureza do Delta. Demais, os caminhos de ferro egípcios não têm uma velocidade fixa. Vão aos caprichos do maquinista, que, de vez em quando, pára a máquina, desce, acende o cachimbo, ri com algum velho conhecimento de estrada, sorve minuciosamente o seu café, torna a subir bocejando, e faz partir distraidamente o comboio. Nesse dia, porém, o ar estava nublado, chuvoso; o maquinista levou-nos rapidamente a Alexandria. Na baía esperavam o «Marsh», o «Fayoum», o «Behera», navios do paxá. O embarque fez-se com a confusão habitual, complicada com os embaraços de um mar agitado: os barcos iam cheios de gente, uns de pé, outros sentados na borda, roçando pela água, outros gravemente equilibrados sobre a acumulação pitoresca das bagagens: ria-se, fulminava-se a organização e a polícia das festas, gritava-se um pouco quando os barcos pesados oscilavam mais inquietadoramente. Nós subimos para o «Fayoum», que devia levantar ferro nessa tarde, apesar do tempo contrário e dos mares que víamos partir de longe na linha de rochedos que precede a baía de Alexandria. E ao outro dia, por uma bela manhã, entrávamos em Port Said por entre os dois grandes molhes que se adiantam paralelamente pelo mar, feitos de poderosos blocos de pedra solta. Port Said é uma cidade de indústria e de operários: isto dá-lhe uma especialidade de fisionomia: estaleiros, forjas, serralharias, armazéns de materiais, aparelhos destilatórios. Tal é Port Said. A sua construção foi determinada pela necessidade de haver um vasto porto, que fosse uma estação de navios, à entrada do canal, e primitivamente, para que engenheiros, maquinistas, directores de obras tivessem um centro. Isto dá-lhe um aspecto de cidade provisória. Como havia espaço, as ruas são largas como praça e compridas como avenidas: as casas são baixas, de materiais ligeiros: sente-se a construção rápida e a incerteza da duração. Ali em Port Said, apesar dos seus doze mil habitantes, não há ainda um viver definitivo e regular. Não há estabelecimentos feitos na esperança da duração: não há comércio fixamente estabelecido: tem tudo o aspecto de uma feira, que hoje ganha e prospera, e amanhã se levanta e se dispersa. E isto porque, apesar da confiança de toda a população na prosperidade do canal, nenhuma profissão, nenhum comércio se quer arriscar a estabelecer-se de um modo definitivo, correndo o perigo de ver aquele começo de cidade estiolar-se e morrer miseravelmente. Pois tal seria a sorte de Port Said, bem como de Ismailia, se o canal fosse uma inutilidade, abandonado do comércio e da navegação. 
A sua construção ressente-se, pois, destas circunstâncias: nem edifícios, nem monumentos, nem construções sólida e sérias: tudo é ligeiro, barato, provisório. A igreja católica é como uma grande barraca: vê-se o céu azul através do seu tecto feito de grandes traves mal unidas. Tudo isto dá a Port Said um aspecto triste. No fim das festas, tempo depois, quando ali tornei a passar, em viagem para Jerusalém, pareceu-me pela apatia da vida, pelo silêncio, que o deserto começava de novo a aparecer por entre aquela fraca aparência de cidade. 
Mas naquele dia 17, da inauguração, Port Said, cheio de gente, coberto de bandeiras, todo ruidoso dos tiros dos canhões e dos urras da marinhagem, tendo no seu porto as esquadras da Europa, cheio de flâmulas, de arcos, de flores, de músicas, de cafés improvisados, de barracas de acampamento, de uniformes, tinha um belo e poderoso aspecto de vida. A baía de Port Said estava triunfante. Era o primeiro dia das festas. Estavam ali as esquadras francesas do Levante, a esquadra italiana, os navios suecos, holandeses, alemães e russos, os yachts dos príncipes, os vapores egípcios, a frota do paxá, as fragatas espanholas, a «Aigle», com a imperatriz, o «Mamoudeb» com o quediva, e navios com todas as amostras de realeza, desde o imperador cristianíssimo Francisco José, até ao caide árabe Abd el-Kader. As salvas faziam o ar sonoro. Em todos os navios, empavesados e cheios de pavilhões, a marinhagem, perfilada nas vergas, saudava com vastos urras. De todos os tombadilhos vinha o vivo ruído das músicas militares. O azul da baía era riscado em todos os sentidos pelos escaleres, a remos, a vapor, à vela; almirantes com os seus pavilhões, oficialidades todas resplandecentes de uniformes, gordos funcionários turcos afadigados e apoplécticos, viajantes com os chapéus cobertos de véus e couffiés, cruzavam-se ruidosamente por entre os grandes navios ancorados; as barcas decrépitas dos Árabes, apinhadas de turbantes, abriam as suas largas velas riscadas de azul. Sobre tudo isto o céu do Egipto, de uma cor, de uma profundidade infinita. À noite a cidade iluminava-se, enchia-se de músicas e festas populares. As esquadras tinham as suas armações e cordagens cobertas de fios de luz. Durante toda a noite os fogos de artifício, numa grande linha de terra, faziam, sobre o céu escuro, um grande bordado luminoso. 
Na baía havia um viver completo, como numa cidade: bailes a bordo dos navios, jantares, visitas , recepções, passeios a remo, serenatas nos escaleres. De tudo isto saía uma luz, um ruído, um fluido de vida poderosamente original. Havia em Port Said um café-cantante, memorável pela excentricidade da sua alegria: estava tão cheio de gente, que era necessário fumar, beber, ouvir, de pé, sufocado, hirto. Quando no palco aparecia a actriz para dizer a sua canção, as mil vozes daquela imensa multidão, acompanhados do tinir cadenciado dos copos, do bater dos pés, dos assobios, dos uivos, dos gritos, começava repetindo, com estrondo assombroso, a canção conhecida da actriz. Era bestial e extraordinário. 
No dia seguinte ao da chegada, descemos todos a terra para a cerimónia da inauguração. Do lado oposto aos molhes, para além da cidade, tinham-se construído três pavilhões, estrados tapetados e brasonados, sobre a areia húmida da espuma do mar. Era nesse lugar a celebração religiosa: os ulemás e os padres cristãos deviam abençoar e consagrar nos seus ritos o canal de Suez. Um grande cortejo de convidados precedidos dos príncipes, entre os quais sobressaía a pensativa e bela figura de Abd el-Kader, dirigiu-se para esse lugar, entre duas fileiras de soldados egípcios, de arcos, de bandeiras, e de árabes que abriam grandes olhos. No pavilhão principal, de cores triunfantes, colocavam-se os convidados reais e imperiais e os mais que podiam caber; no outro pavilhão estavam os ulemás maometanos; no terceiro os padres latinos, gregos, arménios e coptas. 
Quando tudo estava colocado e o grande rumor da chegada e da confusão se acalmou, os ulemás prostraram-se, voltados para o lado de Meca, os padres cristãos começaram a missa, a artilharia salvou nas esquadras. Entretanto a multidão apinhava-se sobre a areia húmida e em volta dos estrados; a grossa figura vermelha do quediva estava radiosa, a imperatriz tinha um ar de satisfação discreta, Mr. De Lesseps tinha o seu belo e inteligente sorriso. Em redor e até ao fundo horizonte, o mar sereno reluzia. Quando a artilharia findou, Mr. Bauer adiantou-se à beira do estrado e falou. Mr. Bauer é um homem baixo, pálido, de cara feminina e larga, cabelos pendentes em anéis sobre os ombros, asseado, barbeado, perfumado, delicado, e com uma voz assombrosa. O que ele dizia eram palavras de fraternidade entre o Oriente e o Ocidente, esperanças de uma humanidade mais profunda, unida por aquela ligação marítima, palavras afáveis aos convidados reais, e recordações piedosas, e recordações piedosas dos corajosos trabalhadores, que durante aquela obra de luta morreram obscuramente. Quando ele disse o nome de Mr. De Lesseps, toda a imensa multidão bateu as palmas. Mr. Bauer findou, e o cortejo voltou à praia e dispersou-se pelos navios. Durante toda a noite os fogos de artifício, os clamores alegres da cidade, o ruído dos escaleres, as músicas, encheram a baía de vida. 
Ao outro dia os navios começaram a mover-se lentamente, voltando a proa para um ponto da baía de Port Said, onde se erguiam, como os dois umbrais de uma porta, dois obeliscos de madeira vermelhos. Era a entrada do canal de Suez. Entretanto corriam por todos os navios estranhos boatos. "
Eça de Queirós,(Diário de Notícias de 18 de Janeiro de 1870)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Nas dobras do tempo


Ponta Delgada - 12. Janeiro. 87
"É penoso chegar aos finais do século sem ver um aceno decidido de aurora a colorir o futuro colectivo. Crendices, intolerâncias, paixões, continuam as dos homens de todos os tempos . Tal como sempre, quem não é como toda a gente não tem direito de cidade. Quem tropeçou fica estendido no chão.  Quem procura pão recebe pedras. Só em certos dias do calendário litúrgico se finge acreditar que os humildes  deviam herdar a terra. Nos restantes trezentos sessenta e tal ninguém aceita que o sol é para todos.
Por isso, às vezes , penso : vou recriar o mundo e descansarei ao sétimo dia -  se ainda tiver sete dias para viver. "

(...)

Ponta Delgada - 19. Janeiro. 87

"Venho de longe. De um tempo de que me não lembro -  submerso e secreto. Venho vestido de mitos e de carismas inúteis. O peito aberto de promessas nado-mortas. A boca torcida das coisas negadas.
Mas sei o suficiente da história acontecida para me dar conta de que o melhor  foi ter nascido - apesar de tudo. Sei, por exemplo, dos momentos de vontade , discernimento  e amor  que tornaram  possível  fazer brotar rios caudalosos de modestas nascentes. E sei do deslumbramento dos caminhos cruzados  mesmo que demorem o tempo de um clarão. E também sei do valor humano do sofrimento - condição de um florir por dentro os nossos descampados. Ocasião de perguntas  e de respostas  que de outro modo ficariam sufocadas nas dobras do limbo primitivo
Por tudo isto bendigo ( apesar de tudo) o momento remoto e solene em que Pitecantropus se tornou Erectus..."
Fernando Aires , in " Era uma vez o Tempo - Diário (1982 - 2010) ", Editora Opera Omnia, Setembro 2015,  pp. 151, 152

domingo, 3 de janeiro de 2021

Ao Domingo Há Música

There can be miracles when you believe 
Though hope is frail, it's hard to kill 
Who knows what miracles you can achieve 
When you believe, somehow you will
You will when you believe.

Neste primeiro domingo de 2021, trazemos vozes que vestiram algumas canções com diferentes roupagens  que  se transformaram num reiterado sucesso. Vozes que cantaram mundo. Uma delas deixou por fazer muito daquilo que na sua voz ainda havia para dar. Uma cantora carismática que encantava palcos pela sonoridade, amplitude  e beleza da sua voz . 
É sempre tempo de as reouvir. E porque acreditamos que podemos alcançar  um outro retomar dos nossos dias, limpo da  invasora turbulência pestífera , iniciámos  Janeiro com esta incentivante canção e um  exortativo convite à vida.

When you believe , numa excelente interpretação de Mariah Carey & Whitney Houston. 

 
 Tori Kelly & Jennifer Hudson, numa esplendorosa  versão de  Hallelujah .

sábado, 2 de janeiro de 2021

A Ideia de Europa


Fernando Pessoa, Café A Brasileira, Chiado,
Lisboa, Portugal

Café Deux Magots, Place Saint-Germain-des-Prés,Paris, France

Leio Steiner com frequência. É um dos meus "eleitos". Um escritor admirável que nos deixou uma magnífica obra. Tenho nas mãos o seu livro "A Ideia de Europa " que condensa uma extraordinária Palestra , proferida por George Steiner no Nexus Institute (Holanda). Uma palestra  que não deixa de ser um longo e esplêndido ensaio , que releio sempre com redobrado encanto. Neste tempo europeu, tomado por uma das maiores ameaças mortíferas, não resisti a transcrever alguns fragmentos que traduzem o espírito de uma Europa na ideia de George Steiner.

« A Europa é feita de cafetarias , de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de pessoa , em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados  pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés  de Copenhaga , onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. Não há cafés antigos ou definidores em Moscovo,  que é já um subúrbio da Ásia. Poucos em Inglaterra, após um breve períodos  em que estiveram na moda, no século XVIII. Nenhuns na América  do Norte , para lá  do posto avançado galicano de Nova Orleães. Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á  um dos marcadores essenciais  da « ideia de Europa».
O café é um local de entrevistas e conspirações, de debates intelectuais e mexericos, para o flâneur e o poeta ou metafísico  debruçado sobre o bloco de apontamentos.  Aberto a todos , é todavia um clube,  uma franco-maçonaria de reconhecimento político ou artístico-literário e presença programática.  Uma chávena de  café , um copo de vinho, um chá com rum assegura um local  onde trabalhar , sonhar, jogar xadrez ou simplesmente permanecer aquecido durante todo o dia.  É o clube  dos espirituosos e a poste-restante dos sem-abrigo.  Na Milão de Stendhal, na Veneza de Casanova, na Paris de Baudelaire, o café albergava o que existia de oposição política e de liberalismo clandestino.  Três cafés principais da Viena imperial e entre as guerras forneceram a agora, o locus da eloquência e da rivalidade, a escolas adversárias  de estética e economia política, de psicanálise e filosofia.  Quem desejasse conhecer Freud ou Karl Krauss, Musil ou Carnap, sabia perfeitamente  em que café procurar, a que  Stammtisch tomar lugar. Danton e Robespierre encontraram-se uma última vez  no Procope. Quando as luzes se apagaram  na Europa, em Agosto de 1914, Jaurès foi assassinado num café. Num café  de Genebra, Lenine escreveu o seu tratado sobre empiriocriticismo e jogou xadrez com Trotsky. 
Note-se as diferenças ontológicas. Um pub inglês e um bar irlandês têm a sua própria  aura e mitologias.   O que seria da literatura irlandesa sem os bares  de Dublin? Onde , a não existir  o Museum Tavern,  teria o Dr. Watson  encontrado Sherlock  Holmes? Mas estes estabelecimentos não são cafés. Não têm mesas  de xadrez,  não há jornais à disposição  dos clientes , nos seus suportes  próprios.  Só muito  recentemente o próprio café se tornou hábito público  na Grã-Bretanha, e mantém o seu halo italiano.  O bar americano  desempenha  um papel vital na literatura americana e em Eros, no carisma icónico de Scott Fitzgerald e Humphrey Bogart. A história do jazz é inseparável dele. Mas o bar é um santuário de luzes desmaiadas , muitas vezes de escuridão. Vibra com música, muitas vezes ensurdecedora. A sua sociologia e o seu tecido psicológico  são permeados pela sexualidade, pela presença - desejada , sonhada ou real  - de mulheres.  Ninguém redige  tomos fenomenológicos  à mesa  de um bar americano (cf. Sartre). As bebidas têm de ser renovadas, se o cliente  quiser continuar a ser desejado.  Há "seguranças " que expulsam  os  indesejáveis. Cada uma destas características  define uma ética radicalmente diferente daquela do Café Central ou do Deux Magots ou do Florian. " Haverá mitologia enquanto existirem pedintes ", declarou Walter Benjamim , um connaisseur  apaixonado e peregrino  de cafés.  Enquanto existirem cafetarias , a « ideia da Europa terá conteúdo.
(...) Com a queda  do marxismo na tirania bárbara  e na nulidade económica , perdeu-se um grande sonho  de - como Trotsky proclamou - o homem comum seguir as pisadas  de Aristóteles  e Goethe. Liberto de uma ideologia falida, o sonho pode, e deve, ser sonhado novamente.  É porventura apenas na Europa  que as fundações  necessárias  de literacia e o sentido da vulnerabilidade  trágica da condition humaine poderiam constituir-se como base. É entre os filhos frequentemente cansados , divididos e confundidos de Atenas  e de Jerusalém que poderíamos regressar à convicção de que  « a vida não reflectida» não é efectivamente digna de ser vivida. 
Pode ser que estas palavras sejam insensatas, que seja demasiado tarde . Espero que não, só porque estou a dizer estas palavras na Holanda, onde Baruch Espinoza viveu e pensou.»
George Steiner, in A Ideia de Europa, Gradiva Publicações, S.A ., pp. 26,27 , 28, 55

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Ao Luar com Beethoven

  

De Ludwig van Beethoven " Sonata ao Luar", sob 300 telas que cobrem, com extraordinária beleza, esta magnífica composição deste genial  compositor , de quem se acaba de celebrar o 250 º  aniversário do seu nascimento.
Há quem afirme que " a  trajectória estética de Beethoven pode ser compreendida principalmente nas sonatas para piano, quartetos de cordas e sinfonias. Nelas encontramos um respeito pelas tradições de seu tempo, consolidando as regras do Classicismo do ponto de vista formal, mas apostando em transfigurá-las, adaptando-as às suas necessidades expressivas, e finalmente, propondo uma realidade artística jamais experimentada antes dele. 
A famosa Sonata ao Luar (nº 14) mostra uma disciplina harmónica que valoriza as conquistas tonais do Classicismo, ao mesmo tempo que revoluciona as “regras” da época no que tange à organização formal. Ao invés de um primeiro movimento alegre, respeitando os preceitos da forma sonata (a principal estrutura utilizada pelos compositores do período clássico), ele nos convida a uma livre fantasia em que o lento pulsar rítmico dá ensejo a uma dolente melodia e uma sequência harmónica que se desenvolve paulatinamente, deixando-nos experimentar seu sabor, compasso a compasso. O rápido e jocoso scherzo transforma-se em algo singelo e gracioso, enquanto o último movimento manifesta a característica beethoveniana de valorizar sobremaneira a força rítmica e seus desvios de pulso.”