sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Uma Carta de Amor

Lettre de Laeticia Hallyday à Johnny Hallyday
Dans la nuit du 5 au 6 décembre 2017 s’est éteint Johnny Hallyday, légende française du rock’n’roll. L’« idole des jeunes » laisse derrière lui une longue carrière remplie de succès et d’excès. Au lendemain de cette nouvelle, sa femme, Laeticia, lui rédige ces quelques mots.

6 décembre 2017

Johnny Hallyday est parti. Jean-Philippe Smet est décédé dans la nuit du 5 décembre 2017. J’écris ces mots sans y croire. Et pourtant, c’est bien cela. Mon homme n’est plus. Il nous quitte cette nuit comme il aura vécu tout au long de sa vie, avec courage et dignité. Jusqu’au dernier instant, il a tenu tête à cette maladie qui le rongeait depuis des mois, nous donnant à tous des leçons de vie extraordinaires.

Le coeur battant si fort dans un corps de rocker qui aura vécu toute une vie sans concession pour la scène, pour son public, pour ceux qui l’adulent et ceux qui l’aiment. Mon homme n’est plus. Le papa de nos deux petites filles, Jade et Joy, est parti. Le papa de Laura et David a fermé ses yeux. Ses yeux bleus qui illumineront encore et encore notre maison, et nos âmes.

Aujourd’hui, par respect et par amour pour cet homme extraordinaire qui fut le mien pendant plus de 22 ans, pour perpétuer sa passion de la vie, des sensations fortes, des émotions sans demi-mesure, nous unissons tous nos prières, et nos coeurs. Nous pensons à lui si fort qu’il restera à jamais à nos cotés, aux cotés de ceux qui l’écoutent, le chantent et le chérissent depuis toujours. Johnny était un homme hors du commun. Il le restera grâce à vous. Surtout, ne l’oubliez pas. Il est et restera avec nous pour toujours. Mon amour, je t’aime tant.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Momento coral


Hymn of the Cherubim de Piotr Illitch Tchaikovsky (25/04/1840 - 25/10/1893), pela orquestra The USSR Ministry Of Culture Chamber Choir, sob a direcção do Maestro  Valery Polyansky. Registo extraído do Álbum Sacred Treasures - Choral Masterworks From Russia - Hearts Of Space - 1998.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Às vezes

Às vezes as lágrimas são praias
inundadas de luz
mãos abertas morenas
aceitando

ALBERTO DE LACERDA, in Oferenda II, IN-CM (1994)


Cinema e Livros

Mostra de Cinemas Ibero-americanos
No escurinho do cinema
A Casa da América Latina apresenta, a partir de 4 de Dezembro, a Mostra de Cinemas Ibero-Americanos – No escurinho do cinema, que decorrerá até dia 16 de Dezembro no Cinema São Jorge, em Lisboa.

Conheça toda a programação no site oficial
Gallimard
Ce mois-ci :
Découvrez la correspondance inédite entre Albert Camus et Maria Casarès, l’histoire d’une rencontre artistique et d’un amour passionnel, suivez Michel Onfray en Guyane et aux
Marquises : deux réflexions sur la vie et la mort des civilisations.
La Pléiade réunit les Œuvres de Blaise Cendrars et Quarto, celles de Georges Perros quand Guillaume Gallienne publie le quatrième volume de la collection Ça peut pas faire de mal, en coédition avec France Inter.
En littérature étrangère, Matthew Weiner, le créateur de Mad Men, compose un premier roman remarqué qui égratigne les rapports de classe dans l'Amérique contemporaine (Heather,
 par-dessus tout).
Enfin, votre libraire vous offre actuellement l'Agenda Pléiade 2018, illustré par Quentin Blake,
pour l'achat de deux volumes de la collection.

Bonnes lectures



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segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

A mensagem da palavra

A FOLHA DE PAPEL E A TINTA

"Uma folha de papel que estava em cima de uma escrivaninha juntamente com outras iguais a ela , um belo dia apareceu toda manchada de sinais. Uma pena, molhada numa tinta muito negra, escrevera na folha de papel uma quantidade enorme de palavras.
- Não podias ter-me poupado esta humilhação? - Disse aborrecida, a folha de papel à tinta - Sujaste-me toda, estragaste-me para sempre.
- Espera - respondeu a tinta - Eu não te sujei, eu cobri-te de palavras. A partir de agora já não és uma folha de papel. És uma mensagem. Porque guardas o pensamento humano tornaste-te um instrumento precioso.
De facto, pouco depois alguém veio arrumar a escrivaninha e vendo aquelas folhas espalhadas juntou-as e preparou-se para as atirar ao lume. Mas logo reparou na folha "suja"  de tinta e , então,  separou-a das outras e pôs no seu lugar, bem visível, a mensagem da palavra."  
Leonardo da Vinci, in " Fábulas", Editora Prefácio, p.11

domingo, 3 de dezembro de 2017

Ao Domingo Há Música

Apesar de tanto desencanto,
nada vos direi que sonegue a esperança,
mas digo que os poetas jamais silenciarão seu canto,
porque ninguém poderá desterrar o sonho e a beleza
e porque sempre haverá um poema de amor a ser escrito.
Manoel de Andrade,  em "O Desterro dos Poetas"

O canto do poeta e a beleza dos sons , Poesia e Música, podem convergir para dar voz aos sonhos e à esperança num devir diferente  de um amanhã a fazer.
Ludovico Einaudi , em "Divenire" num concerto no Royal Albert Hall London, em 2 de Março  de 2010.

sábado, 2 de dezembro de 2017

O poema veio de longe

 “Interrogamo-nos acerca da poesia? Desejaríamos saber o que pretende ela, aquilo que pretende de nós. É que muitas vezes não nos diz nada. Palavras, fragmentos de frases, balanceadas, hesitantes, versáteis, palavras que não conseguimos reter.
Refrões de cançonetas, talvez? Mas então onde está a música?
Talvez músicas silenciosas, tocadas no fundo da água, a cem braças de profundidade.
Os outros poemas, todos os poemas célebres, organizados, compostos, exércitos em armas que marcham a passo certo. Não estamos lá quando passam. Viramos a cara, vamos procurar noutro lado […]
Agora, depois de Iniji, já não interrogamos. Há uma certeza. Viu-se qualquer coisa, seguiu-se essa coisa, como se a gente estivesse a fazê-la, como se tivesse encontrado ouvidos para escutar a música do fundo da água.
Não é como os outros, este poema, não distrai, não se esquiva. Na verdade não está escrito, encontra-se ali na página por acidente, e deve estar também algures, gravado numa árvore, por exemplo, ou inscrito na terra seca, ou tatuado então na pele humana. Claro que não está apenas escrito. Passou pelo tremor da escrita, foi assim que apareceu primeiro. Mas não existe somente nesse tremor, não existe somente para os olhos. Existe algures, em volta, no ar, nas nuvens, na folhagem das árvores vistas à distância, no mar, na erva calcada de uma pista. E nas ruas de uma grande cidade, entre as paredes dos prédios acompanhando o movimento dos automóveis, os cláxons, as luzes, a multidão.
Deve estar lá há muito tempo pois, quando o lemos, reconhecemo-lo imediatamente.
Não o procurávamos, nem procurávamos sequer o nome de um autor. Íamos ao seu encontro sem saber, e ele vinha ao nosso encontro seguindo o seu curso de cometa que se aproxima, roça e desaparece. […]
O poema veio de longe, assim, tranquilo, com os seus gestos, a sua vida, para nos reencontrar.
Insensato, móvel, penetra em nós e escuta-nos. Ou éramos nós que não tínhamos corpo, e temos agora o corpo e Iniji. Não sabíamos falar. […] Longe deste poema, a vida era surda, sussurrada, pois todas as palavras da linguagem normativa (a linguagem das teses e das antíteses, a linguagem das análises, dos juízos e proclamações solenes) eram unicamente um lento nevoeiro roçando a face da matéria. Era possível que nos confundissem com os torrões e calhaus.
[…] Como é possível? Onde nos encontrávamos então, antes, antes de Iniji? […]
Iniji não existe. Cada vez que dela nos apercebemos, a língua estala e a palavra morre. Interrompida antes de entrar no mundo. Reflexos, talvez, porquanto as suas palavras não são palavras. Se retemos um nome, felizes por saber aquilo que surgirá, ele rebenta. Não há nomes, só bolhas. Balbuceios de bebé, Iniji, Ananiá, Inji, Djã dã dã, Irritilili. […]”J.M.G. Le Clézio, De Um poema (Iniji) que não é como os outros , in As magias : poemas mudados para português , Assírio&Alvim , de 
Herberto Helder,

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Tudo era sonho

Cataratas do céu
   (“Quando não se pode tomar decisões só se tomam decisões erradas”)
                                                  Autor ilegível
"Levaram o menino a ver o aeroporto. Vestiram-no de domingo, engomaram sua alma, lustraram seu pé. De mão dada, ele entrou no chapa. O tio desconferiu uma riqueza de notas. Tudo em sorrisos, como se tudo aquilo fosse cumprir de promessa.
O menino era desses que a guerra deslocou não só de endereço mas de vida. Vinha de lá, onde a terra desfaz fronteira com outras terras. Nesse seu lugarinho tudo era sossegoso, até o tempo ali ganhava vastas preguiças.
Agora, em casa dos tios, o menino só encontrava espantos no rumor da cidade. Certa vez, o rapaz entrou em casa, afogueado: um avião atravessara as nuvens, em cima. O tio lhe perguntou: “mas nunca viu, nem cheirou barulho no ar?” Nada. O céu de lá era muito desqualificado, nele nunca riscara nenhum avião.
Com o tempo, a família começou a se preocupar com a cabisbaixeza da criança, sempre de olhos minhocando o chão. No início, ele nem queria sair de casa. O tio se maçava, o coração lhe subia à cabeça.
- “Um dia esse miúdo vai-se chocar com a vida!
“Deixa-lhe, marido”: era conselho da velha tia. Ela entendia de feridas e sofrências. Quando o pão é magro quem escasseia é o homem. Sabe-se o que aquele menino passara, lá de onde vinha? O marido que se dispensasse. Aquilo era assunto de ternura e mãe.
O tio reagia: “como deixo? Será que esse menino não tem jeito nem para viver? Sempre e sempre de olhos no chão! Esse mufana foi é mal-olhado. Até me arrepia. parece o olho dele tem medo da pálpebra.
Uma noite, o tio estremunhou-se. Acordou a mulher e lhe revelou suas sonâmbulas reflexões: “eu sei o que sucede com ele, esse nosso sobrinhito não é um deslocado de guerra. A guerra é que deslocou-se para dentro dele. E agora, como tirar a guerra de lá dos interiores, como desalojar a malvada lá das províncias da sua alma? Não há comissão governamental, nem missão das Nações Unidas. Não há departamento para esse caso”. A mulher cortou:
- “Por que não me deixa titiar esse menino sozinha?”
O homem nem respondeu. Levantou-se e foi ao quarto do sobrinho. E lhe falou assim:
- “Amanhãzinha vais ver aviões adiante do céu, barulharem até te encheres de ouvidos”.
Meio oculto no lençol, o miúdo antecipava temores. O tio nem dava as confianças: “veja sobrinho, até já entrei num desses bichos.
- “Entrou?
- “E como entrei! Tua tia até chorou. Se tive medo? Nem medo, nem receio. Eles é que tiveram medo de mim. Por isso me amarraram logo na cadeira”.
Retornado ao seu quarto, o tio inchou uma esperteza vaidosa no peito: “o que ele precisa é o céu se abrir para ele. Compreende, mulher? A terra está cheia de ferida, não traz consolo nem ombro para ninguém. O céu é que, agora, tem que se abrir para ele”. A esposa sacudiu a cabeça, receosa.
Agora, desembarcando em pleno aeroporto, o menino lantejolhava em redor. Tudo era sonho. Seus olhos se abasteciam de súbitas e infinitas visões. Não falou, não sorriu. O tio, à distância, comentava: “o miúdo está em estado, coitadito”.
Chegada a hora do deitar, ele permaneceu sentado, mais rígido que a tábua da cama. A tia lhe reservou um carinho:
- “Que tu tens, meu filho?”
E ele, então, falou. Disse muito oficialmente:
- “Quero ser um avião!”
Manhã seguinte, todos se riam. A tia lembrava a solenidade da declaração. Não queria ser piloto, técnico espacial, mecânico especial, ou mesmo simples passageiro. Nada. Avião, era o que ele queria ser. O tio acrescentou piada:
- “Quer ser Boeing ou DC 10?”
O miúdo não entendeu a graça. No fundo, ele já se tinha todo ele decidido. E nunca mais da sua boca se escutou sílaba que fosse. Se insulou no quarto, sentado, imovente. Os braços cumpriam ordem de serem asas, o corpo duro, quase metálico. Deixou de comer, deixou de beber. A custo a tia lhe insistia, apontando um copo:
- “Vá, meu filho, isso aqui é combustível!”
Mil vezes o tio lhe falou, em várias tentações e tentativas:
- “Não prefere ser um pássaro, vivinho de alegrias?”
Tudo irresultava. Resolveram conduzi-lo de novo ao aeroporto. Todo o caminho, o miúdo seguiu de braços abertos, fixo que nem aço. Chegado ao aeroporto o menino olhou extasiado seus companheiros de espécie, as aeronaves. E desatou correndo, roncando seus fantasiosos motores. Olhando a criança correndo de encontro ao sol, o tio até se lagrimava, comovido:
- “Veja, veja como ele brinca!”
E assim ganhando mais e mais velocidade, braços cruzando o sonho, o menino se confundia, a contraluz, com o fogo inteiro do poente. Seria, no instante, que o céu se abria para aquela criaturita?
Pupila esgrimando o sol, o tio deixou de ver o miúdo. Apenas uma mancha, sombra súbita cruzando os ares. Ainda acreditou ser um pássaro que lançava seu voo da varanda para o distante chão. Nesse momento ele aprendia que o céu está padecendo de cataratas, repentinas névoas que impedem Deus de nos espreitar."
Mia Couto, in  Contos do nascer da Terra, Editorial Caminho