sábado, 6 de abril de 2013

Chegámos a esta miséria


"É o capitalismo, estúpido!"
por BAPTISTA-BASTOS
"Já se sabe que a ideologia neoliberal não respeita nem as leis da economia nem as obrigações do direito. Os enredos governamentais apoiam-se na espontaneidade dos mecanismos económicos e na natureza dos acasos. Economistas ilustres como Daniel Bessa ou Ferreira do Amaral e professores universitários como Paulo Morais têm--no dito, incansavelmente, acentuando as características complexas do poder e das liberdades. As consequências são claras: a democracia, tal como a concebemos e foi estruturada na Europa Social, está desfigurada e, por este caminho, condenada a desaparecer. Quando Viriato Soromenho-Marques escreve que a Europa morreu em Chipre, ele adverte-nos de que o intervencionismo económico, tal como aconteceu naquele país, constitui uma ameaça às liberdades.
Estamos no interior de uma nova guerra, cujas conclusões são imprevisíveis. Parafraseando o outro: "É o capitalismo, estúpido!" Do ponto de vista desta irracionalidade política, não há lugar para o sujeito plural, para a diversidade de opiniões. "Não há alternativa", frase tão ao gosto de Pedro Passos Coelho, não lhe pertence em sistema de exclusividade: faz parte do breviário da "nova" doutrina, agora, embora tardiamente, condenada pela Igreja católica.
"É o capitalismo, estúpido!", decorre da circunstância de não se lhe haver opositor, e as críticas conhecidas (Badiou, por exemplo, L'Hypothèse Com- muniste) encontrarem pela frente um concerto de estipendiados, bem pago e bem organizado, o qual faz eco da frase "Salvemos os bancos!", salvaguarda de um sistema que incorporou "o fim das ideologias" como teoria. É desolador o deserto de ideias à nossa volta. A paixão pelo pensamento crítico parece ter desaparecido; e as páginas dos jornais, habitualmente portadoras de sugestões, incentivando à leitura e ao debate, consagram-se à superfície das coisas, às futilidades e ao desprezo pelas causas. O ser humano está concebido como homo oeconomicus, e a sua existência regida pela rendibilidade e subordinada aos grandes interesses económicos.
Uma certa Europa do humanismo e da solidariedade morreu em Chipre, como acentuou Soromenho-Marques. E talvez para sempre, porque a capitulação daquele pequeno país prova que a mutação do ideal social em um Estado omnipotente e autoritário (a Alemanha é que manda, até por interpostas economias) não é capricho do acaso, sim um projecto hegemónico e perigosíssimo, que pode conduzir à guerra (avisou Jean-Claude Juncker).
Mas há uma pergunta a formular: alguma vez essa Europa do humanismo e da solidariedade existiu? É o capitalismo que ordena as coisas e a própria vida das pessoas. O capitalismo que chegou excessivamente longe, com o apoio das irresponsabilidades e das cedências de quem devia ter uma posição moral irredutível. Nesta conjuntura avultam muitas traições e imprevidências. Chegámos a esta miséria. E agora?” Baptista-Bastos em Artigo de Opinião ,publicado no DN,em 4/04/2013

A Actualidade em Cartoon

Ranson, Le Parisien
Ranson, Le Parisien

Ramón, El País

Cartoon Elias o sem abrigo, de R. Reimão e Aníbal F, JN
El Roto, El País
HenriCartoon de Henrique Monteiro
Italia Oggi
HenriCartoon de Henrique Monteiro
The Daily Cartoon, The Independent
The Daily Cartoon, The Independent

O cartoon  António, Expresso

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Islândia , um novo modelo cultural



Islândia:Cultura para sair da crise
A Islândia não se rege pela austeridade. Em quatro anos, teceu um “New Deal” artístico que transformou a cultura no segundo sector com mais peso no PIB, com um impacto à volta dos mil milhões de euros por ano. O país apresenta uma taxa de desemprego de 5,7% e um crescimento de 3% e consegue oferecer outras alternativas para além das puramente bancárias.
O colapso financeiro que a Islândia sofreu em 2008 costuma ser interpretado como um laboratório de perguntas e respostas sobre a crise, sendo pois conveniente tomar nota de algumas soluções. Ao contrário do Sul da Europa, onde os cortes e a subida de impostos incidiram especialmente na cultura, desde 2008 que este país de 320 mil habitantes e do tamanho de Portugal se voltou para o sector das indústrias criativas. O impacto económico dessa actividade (cerca de €1000 milhões) duplica o da agricultura e vem logo a seguir ao da lendária máquina de exportação de bacalhau (e outros produtos do mar) para o mundo continental, sendo esta a primeira indústria da ilha. Tudo isto graças, em parte, a uma mulher franzina de 37 anos — a ministra da Cultura — que assumiu uma postura firme nos quatro anos de Governo e não permitiu que lhe dissessem: “Para que serve dar dinheiro aos artistas?”. Pelo contrário, transformou os artistas em protagonistas do recente êxito económico.
Hoje, a taxa de desemprego é de 5,7% e o país cresce a um ritmo de 3%. É verdade que a moeda foi desvalorizada e se evitou o resgate aos bancospagando-se a dívida externa. Mas grande parte desta prosperidade também se deve a esta estratégia do New Deal artístico. E tudo pode alterar-se no próximo dia 27 de Abril, quando a Islândia realizar as primeiras eleições depois de o país ter começado a superar a crise. A memória é curta. O partido conservador, que se manteve a governar quando tudo o resto soçobrou (a Bolsa chegou a cair 90% e o PIB desceu 7%), é hoje o favorito nas sondagens. A coligação formada pelo Partido Verde e os social-democratas, a que pertence a primeira-ministra Jóhanna Sigurdardóttir (a primeira mulher a ocupar este cargo), tem uma tarefa difícil pela frente. A titular da pasta da Cultura, Katrín Jakobsdóttir, o rosto mais carismático, não esconde isso mesmo. Recebe El País e analisa o seu mandato, simbolicamente empenhado na construção do espectacular Harpa, um incrível auditório no porto de Reiquiavique, que se avista do seu gabinete. Quando a crise chegou, a construção parou. A ministra empenhou-se em transformá-lo numa metáfora do que tinha entre mãos: criar riqueza fomentando as artes.
Cultura como factor económico importante
“Vemos a cultura como base das indústrias criativas, uma parte cada vez mais importante da nossa economia. Quando me nomearam para o Ministério, encarei o meu mandato como uma questão de sobrevivência. E é isso que pretendo que as pessoas compreendam: a cultura é um factor económico muito importante. O dinheiro que este sector gera iguala o de toda a indústria do alumínio.O Governo fez cortes estruturais. Reduziu ministérios e gastos fixos. Mas aumentou o investimento em projectos culturais independentes. Uma mistura de tecido público/privado muito ágil mas que, de modo algum, implica a renúncia do Estado na gestão da cultura e da educação.Há música por todo o lado. Oitenta por cento dos jovens (sobretudo nas pequenas povoações) estuda um instrumento e solfejo, e isso traduz-se em dezenas de bandas com prestígio internacional. A paisagem continua a ser o primeiro pólo de atracção de turistas. Mas, segundo dados recentes, 70% dos jovens são actualmente atraídos pela música. Esse facto já era conhecido em 2006, quando se criou o serviço de exportação musical do país, dirigido por Sigtryggur Baldursson, ex-baterista dos Sugar Cubes, a banda com a qual Björk começou a sua carreira e graças à qual teve início a lenda da sonoridade islandesa. Segundo este organismo, no ano passado, 43 bandas actuaram fora da Islândia. Paralelamente, a indústria de software e de videojogos cresceu exponencialmente. “É uma área relacionada com a cultura e emprega muita gente deste sector, como é o caso dos ilustradores”, explica a ministra. No cinema, há uma nova lei que reembolsa o custo de qualquer filme rodado na Islândia aos produtores. Ridley Scott rodou Prometheus [Prometeu] no país, e Darren Aronofsky fez o mesmo com A Arca de Noé.

Grupos de trabalho e um Ministério de Ideias

No meio da euforia e do livre acesso ao crédito, muita gente disse que este seria o único caminho possível para a Islândia. Andri Magnason publicou, em 2006, Dreamland: A self-help manual for a frightened nation. [Terra de sonho: Um manual de auto-ajuda para uma nação assustada, não traduzido em português] Um livro onde denuncia um modelo económico baseado no dinheiro fácil da especulação. “Durante os anos de prosperidade, o Governo concentrou esforços na expansão dos bancos, do alumínio e da energia hidráulica que estava a destruir a natureza. Havia quem quisesse ver uma economia baseada na criatividade e não no dinheiro fácil.” Estabeleceu-se então uma estranha aliança entre os protectores da natureza e “os crânios dos computadores”, recorda Magnason.
Björk e outras figuras-chave da ilha ficaram atentas. “Quando a crise chegou, havia um movimento de raiz onde estavam envolvidos muitos jovens.” Criaram-se grupos de trabalho no que viria a chamar-se Ministério de Ideias, uma antiga fábrica nas imediações de Reiquiavique. Mas Magnason reconhece o papel importante do Governo. “Apareceram mais teatros, o mercado literário floresceu (60 escritores têm apoio um ano inteiro), a produção cinematográfica aumentou e o mesmo aconteceu na cena musical. E todo este apoio repercute-se na economia. As artes não são um projecto paralelo da boa economia, estão na base do seu estado de saúde.” E por que motivo pensam as pessoas votar outra vez no partido conservador? “Têm saudades dos seus Range Rover”, explica o músico Ólafur Arnalds num café de Reiquiavique.
Persiste igualmente a dúvida se este modelo seria exportável para países como Espanha e Itália, com 150 vezes mais habitantes e onde os problemas económicos também registam esta proporção. Magnason acha que sim. “Pode aplicar-se à maioria dos países. O problema na Europa, especialmente em Itália e Espanha, é haver tanta gente nova sem ocupação, ou numa situação invulgar, com um Governo e uma indústria incapazes de definir o seu papel. Assim, nunca irão usar toda a sua criatividade.” Talvez seja preciso tocar ainda mais no fundo." El País, 22/03/13

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Celebrar a Paz em Angola

 “Unidos, defendamos a paz e a democracia” é o princípio que rege as manifestações em Angola, hoje, dia da Paz e da Reconciliação Nacional.
Muitos eventos estão previstos , mas o mais importante reside nos corações dos angolanos: a  celebração da posse da sua terra. Angola abriu-se a todos para que todos possam circular nos caminhos, nas estradas, nas picadas , nos areais  sem o pavor da guerra. Angola pacificada reconstruiu-se e promove encontros para uma  Cultura da Paz. Assim o fez , em Março, na capital, com o  Forum Pan-Africano: Fundamentos e Recursos para uma cultura de Paz, onde se concluiu que , através de uma verdadeira  valorização da cultura africana, se pode estabelecer um real quadro de diálogo e reconciliação. A coexistência pacífica e plural nos países africanos e entre todos os povos de África  será efectiva  através de percursos que visem a resolução dos conflitos e a promoção da educação e bem -estar  foi uma das conclusões deste Forum.
Passaram-se onze anos com  Angola circulando na senda da Paz. Que também o caminho do bem-estar chegue a todos.
Parabéns, Angola

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Ler em Abril



O  teu livro
“Deixa-me dizer-te, meu caro, pode bem acontecer que vás através da vida sem saber que debaixo do teu nariz existe um livro no qual a tua vida é descrita em todo o detalhe. Aquilo do qual nunca te deste conta antes, vais relembrando aos poucos, assim que comeces a ler esse livro, e encontras e descobres… alguns livros tu lês e lês e não lhe consegues encontrar qualquer sentido ou lógica, por mais que tentes. São tão “espertos” que não consegues perceber uma palavra daquilo que dizem… Mas esse livro que talvez esteja logo debaixo do teu nariz, tu lês e sentes-te como se tivesses sido tu próprio a escrevê-lo, tal como – como é que hei-de dizer ? – tal como tivesses tomado posse do teu próprio coração – qualquer que este possa ser – e o tivesse virado do avesso de forma que as pessoas o consigam ver, e descrito com todos os detalhes – tal e qual como ele é!E como isto é simples, meu Deus! Porquê, eu próprio poderia ter escrito este livro! Porquê, de facto, porquê é que eu próprio não escrevi este livro!” Fiodor Dostoievski, in “Gente Pobre”, Editorial Presença

Em Abril, Lisboa vai "Ler em todo o lado"
"Ler no jardim, no café, no mercado, na biblioteca, na farmácia, no largo, na estação, de comboio, na livraria, na rua. Com a cabeça nas nuvens, com os pés assentes na terra. Em maratona, até tarde. Ler em Lisboa. “Ler em todo o lado” é uma iniciativa entre a APEL – Associação Portuguesa de Editores e Livreiros e a Câmara Municipal de Lisboa – Bibliotecas Municipais de Lisboa que vai decorrer de 01 a 28 de Abril. 
O objectivo é “criar espaços de leitura mais ou menos convencionais”, explica Catarina Vaz Pinto, Vereadora do pelouro da Cultura. Por outras palavras, “contagiar pela leitura”, completa Susana Silvestre, Chefe de Divisão da Rede de Bibliotecas na CML. 
Para isso, foi desenvolvida uma programação que inclui lançamentos, apresentações de livros, sessões de autógrafos, leituras públicas, workshops, intervenções artísticas e encenações, maratonas de leitura, feiras de rua, exposições e promoções em alguns livros assinalados, entre muitas outras actividades.
“Ler em todo o lado” celebra ainda a Semana do Livro Infantil (1 a 7 Abril), a Semana do Livro e dos Leitores (20 a 28 Abril) e nos dias 23 e 24 de Abril, a 25ª hora com algumas livrarias abertas fora de horas. 
“Não acredito que consigamos substituir o fenómeno da leitura. Ler continua a ser absolutamente crítico em termos de formação”, refere João Alvim, sabendo no entanto que hoje “é mais fácil sentar os miúdos em frente à televisão. Compete-nos estimular as pessoas, levá-las a interessar-se pelos livros. O mundo da literatura é muito mais vasto do que os best-sellers”, afirma em jeito de crítica o presidente da APEL. 
Entre os espaços aderentes encontram-se as Bibliotecas Municipais de Lisboa e as livrarias Paulinas Multimédia, Bertrand, LeYa, FNAC, Paulus, GATAfunho, Cabeçudos, Fábula Urbis, Bisturi e Ferin. Outros espaços públicos vão participar na iniciativa. 
Esta é também uma “oportunidade para os livreiros poderem apresentar as suas actividades”, explicou Pedro Pereira da Silva Vice-Presidente da APEL, na apresentação que teve lugar na Biblioteca Municipal Palácio Galveias. 
Um olhar aberto, um convite à leitura do que nos rodeia. Um esforço conjunto para desenvolver o livro e a leitura, contribua e participe, só precisa de ler. Para acompanhar a programação e tudo sobre como “Ler em todo o lado” consulte o site http://leremtodolado.wix.com/abril. Fonte: Hardmusic

terça-feira, 2 de abril de 2013

Tenho um poema à espera



AGORA

Abre-te , primavera!
Tenho um poema à espera
Do teu sorriso.
Um poema indeciso
Entre a coragem e a covardia.
Um poema de lírica alegria
Refreada,
A temer ser tardia
E ser antecipada.

Dantes, nascias
Quando eu te anunciava.
Cantava,
E no meu canto acontecias
Como o tempo depois te confirmava.
Cada verso era a flor que prometias
No futuro sonhado…
Agora, a lei é outra: principias,
E só então eu canto confiado.
Miguel Torga, in “ Diário X”, Ed. Círculo Leitores

Budapeste em grito de alarme



Parlamento- Budapeste
Hungria:Budapeste, paisagem de ruínas culturais  
"Outrora criativa e florescente, a cena cultural húngara é hoje regida pelos valores nacionais defendidos pelo Governo. O grito de alarme de uma jornalista húngara que emigrou para a Alemanha.
Quem troca de país muda de alma, diz-se na Hungria. Ora, ao longo dos dois últimos anos e meio, meio milhão de húngaros expatriou-se para todo o mundo, duas vezes mais do que durante a repressão que se seguiu à revolta de 1956. É demasiado, para um país de apenas dez milhões de habitantes.
Decidi, também eu, não continuar a tolerar a situação. Não faltam razões para isso: o dinheiro, as perspetivas de futuro e, sobretudo, a sensação de asfixia na Hungria de hoje.
Faço parte de uma geração que era suficientemente jovem após 1990 para sentir que a atmosfera dos anos da infância e da escola tinham mudado. Quando se teve uma vez na vida oportunidade para expressar livremente a opinião, não se quer abdicar dela, mesmo que viver nunca mais tenha sido fácil na Hungria.
Na década de 2000, a cena alternativa húngara passou por um período efervescente. Em Budapeste, havia um cinema de autor a cada esquina, estreava um novo filme húngaro todos os meses, uma nova vaga de jovens cineastas não tinha mãos a medir. Os amigos reuniam-se à noite na praça Liszt-Ferenc, perto da rua Andrassy, nos cafés da Nagymező (a “Broadway” de Budapeste, onde se concentra a maioria dos teatros da cidade), ou nos “romkocsma” [literalmente “bares nas ruínas”, estabelecimentos de venda de bebidas instalados em prédios devolutos, como os utilizados pelos “ocupas”] e conversava-se do que se tinha visto ou lido. A televisão transmitia programas culturais e todos os campos políticos estavam representados nos debates.
Esperança e ilusão desapareceram
Defendiam-se causas e acreditava-se em si mesmo e no futuro. Viena e Berlim talvez fossem mais sofisticadas, mais ricas, mas Budapeste iria sê-lo um dia. Tudo avançava devagar, os programas de urbanização, a modernização das infraestruturas, tudo estava atrasado. Isso tinha um certo encanto, na época; seguia-se na direção certa, Budapeste ia tornar-se uma metrópole multicolorida, vibrante, próspera, tolerante, em suma, uma grande cidade como as outras.
Dois ou três anos depois, tudo isso desapareceu: a esperança, o encanto, a ilusão. A política do Fidesz tornou-se omnipresente na vida da população. Uma política que entravou tudo o que era inovador, livre, inconformista e crítico. Fez morrer o teatro alternativo, cortando os subsídios há três anos. Pelo terceiro ano consecutivo, nenhum filme foi produzido na Hungria e, pela primeira vez, não se realizou a Semana do Cinema Húngaro – quem acreditaria nisso?
À frente do teatro público, estão lacaios de Viktor Orbán. São os únicos que tomam decisões, que definem o que se entende por “cultura”. Amadores extremistas, assumiram o controlo.
A cultura será apenas uma causa entre outras, mas sou jornalista cultural e a situação afeta-me profundamente. O meu trabalho tornou-se impossível. Deixou de haver secção cultural nas estações do serviço público de televisão. Milhares de jornalistas da televisão foram postos na rua, devido à desativação dos programas culturais. Apenas os fiéis do partido podem moderar os programas políticos. Quanto aos noticiários, são mera propaganda: só há uma verdade.
Tudo deve ser pautado pelo nacionalismo
Na Hungria, tudo deve ser pautado pelo nacionalismo: pensamento, teatro, arte, e até mesmo o ar que respiramos, se possível. Em nome da nova ordem, desintegra-se a escola e a universidade. Passando por cima de uma promessa de campanha, o Fidesz quer introduzir propinas – quem for isento é obrigado a assinar um contrato em que se compromete a não sair do país nos três a seis anos após a formatura. Quando um estudante protesta, a polícia invade-lhe a casa.
Percorro a imprensa uma vez por semana. Revelam-se as coisas mais incríveis, como o projeto da “Margem romana”, a única secção do Danúbio que permanecia intocada em Budapeste, com as margens orladas de choupos. Querem agora construir aí uma barragem, para proteger as casas de fim de semana – ilegais – dos novos-ricos, mas não se protegem os blocos de apartamentos que todos os anos sofrem inundações. O presidente da Câmara apoia o projeto. Outros autarcas viabilizam iniciativas semelhantes noutros lugares. Nas cidades pequenas e no campo, o dinheiro público é usado para alcatroar os caminhos até à porta das suas garagens.
Aprovada na semana passada no parlamento, a mais recente revisão constitucional mostra para que lado sopra o vento. Muitos artigos que haviam sido retirados por serem inconstitucionais reaparecem agora na Constituição. Entre eles, a criminalização dos sem-abrigo ou a regulamentação das críticas a figuras públicas. Além disso, o Tribunal Constitucional deixa de poder controlar a Constituição – ou é-lhe permitido fazê-lo apenas parcialmente.
Lei do silêncio protege o poder
A lei do silêncio nunca protege senão o poder, os opressores e nunca os oprimidos. Isso sente-se na Hungria, a cada esquina. Caras deprimidas nos transportes públicos, lojas e restaurantes desertos. Tudo é punido ou"" penalizado, a ordem deve prevalecer, e os cofres do Estado enchem-se à conta disso; hoje, existem mais controladores de trânsito do que carros nas ruas. Temos o direito de chamar publicamente “animais” aos ciganos e os jornalistas que utilizem esse tipo de palavreado não têm de pedir desculpa, porque muitos húngaros supostamente esclarecidos gostam de o ouvir.
Antes de decidir vir-me embora, sentia que o país andava à deriva e ninguém mexia um dedo para parar este processo. Como revelam sondagens recentes, este declínio vai prosseguir. Quarenta por cento dos húngaros voltariam a votar no egocêntrico Orbán e no seu partido, mesmo sabendo que o rei vai nu.
Mas num país onde tanta gente anda nua, ninguém pode acusar o ministro presidente – especialmente quando se tiram benefícios pessoais da situação. Ou quando se está cilindrado, com medo de perder o lugar e os meios de sobrevivência, se se disser o que se pensa.
Quem troca de país muda de alma, diz o provérbio. Mas eu sou húngara, e nunca vou deixar de o ser.” PressEurope, Der Freitag, 29/03/13

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Clarice Lispector em exposição

Exposição dedicada a Clarice Lispector

Clarice Lispector – A hora da Estrela - exposição sobre a escritora brasileira 

"Três décadas e meia após a morte de Clarice Lispector, a Fundação Gulbenkian apresenta a exposição A hora da Estrela, integrada nas comemorações do Ano do Brasil em Portugal. Divulgar a obra de uma das mais destacadas vozes da literatura brasileira é um dos objectivos desta exposição, que ocupará a Galeria de Exposições Temporárias do Museu Calouste Gulbenkian entre 5 de Abril e 23 de Junho.Aproximar as gerações mais novas da sua obra é um dos objectivos da exposição, que tem a coordenação e curadoria de Júlia Peregrino (a mesma coordenadora de Fernando Pessoa, Plural como o Universo), mas também do escritor Ferreira Gullar, Prémio Camões 2010. A exposição já foi apresentada no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Brasília e em Bogotá, tendo sido visitada por mais de 700 mil pessoas.A galeria de exposições temporárias do Museu receberá a mostra tal como foi vista no Brasil, dividida em seis núcleos, e onde se pretendem recriar ambientes dos seus livros ou passos da sua existência. Textos, fac-símiles, fotografias e documentos pessoais são mostrados nesta exposição, que também recria ambientes e cenários que inspiravam a escritora. Cartas de Erico Veríssimo, Carlos Drummond de Andrade, Lygia Fagundes e muitos outros, ajudam a conhecer melhor a personalidade de Clarice.Nascida na Ucrânia, em 1920, Clarice Lispector chegou ao Brasil com menos de dois anos de idade. Antes de se mudar para o Rio de Janeiro, em 1937, viveu em Alagoas e em Pernambuco. Passou muitos anos fora, acompanhando o marido diplomata, mas nunca se desligou do Brasil, onde morreu em 1977. Perto do coração selvagem foi o primeiro dos seus 26 livros, hoje publicados em mais de 20 línguas." FCG, 25.03.2012

Eis um excerto do último romance de Clarice Lispector, datado de 1969, cujo universo gira à volta da experiência do amor.
".. Vestiu o maiô e o roupão, e em jejum mesmo caminhou até a praia. Estava tão fresco e bom na rua! Onde não passava ninguém ainda, senão ao longe a carroça do leiteiro. Continuou a andar e a olhar, olhar, olhar, vendo. Era um corpo a corpo consigo mesma dessa vez. Escura, machucada, cega - como achar nesse corpo-a-corpo um diamante diminuto mas que fosse feérico, tão feérico como imaginava que deveriam ser os prazeres. Mesmo que não os achasse agora, ela sabia, sua exigência se havia tornado infatigável. Ia perder ou ganhar? mas continuaria seu corpo-a-corpo com a vida. Alguma coisa se desencadeara nela, enfim.
E aí estava ele, o mar.
Aí estava o mar, a mais ininteligível das existências não-humanas. E ali estava a mulher, de pé, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fizera um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornara-se o mais ininteligível dos seres onde circulava sangue. Ela e o mar.
Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões...”
Clarice Lispector, in "Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres" (1969), Ed. Rocco