quarta-feira, 3 de abril de 2013

Ler em Abril



O  teu livro
“Deixa-me dizer-te, meu caro, pode bem acontecer que vás através da vida sem saber que debaixo do teu nariz existe um livro no qual a tua vida é descrita em todo o detalhe. Aquilo do qual nunca te deste conta antes, vais relembrando aos poucos, assim que comeces a ler esse livro, e encontras e descobres… alguns livros tu lês e lês e não lhe consegues encontrar qualquer sentido ou lógica, por mais que tentes. São tão “espertos” que não consegues perceber uma palavra daquilo que dizem… Mas esse livro que talvez esteja logo debaixo do teu nariz, tu lês e sentes-te como se tivesses sido tu próprio a escrevê-lo, tal como – como é que hei-de dizer ? – tal como tivesses tomado posse do teu próprio coração – qualquer que este possa ser – e o tivesse virado do avesso de forma que as pessoas o consigam ver, e descrito com todos os detalhes – tal e qual como ele é!E como isto é simples, meu Deus! Porquê, eu próprio poderia ter escrito este livro! Porquê, de facto, porquê é que eu próprio não escrevi este livro!” Fiodor Dostoievski, in “Gente Pobre”, Editorial Presença

Em Abril, Lisboa vai "Ler em todo o lado"
"Ler no jardim, no café, no mercado, na biblioteca, na farmácia, no largo, na estação, de comboio, na livraria, na rua. Com a cabeça nas nuvens, com os pés assentes na terra. Em maratona, até tarde. Ler em Lisboa. “Ler em todo o lado” é uma iniciativa entre a APEL – Associação Portuguesa de Editores e Livreiros e a Câmara Municipal de Lisboa – Bibliotecas Municipais de Lisboa que vai decorrer de 01 a 28 de Abril. 
O objectivo é “criar espaços de leitura mais ou menos convencionais”, explica Catarina Vaz Pinto, Vereadora do pelouro da Cultura. Por outras palavras, “contagiar pela leitura”, completa Susana Silvestre, Chefe de Divisão da Rede de Bibliotecas na CML. 
Para isso, foi desenvolvida uma programação que inclui lançamentos, apresentações de livros, sessões de autógrafos, leituras públicas, workshops, intervenções artísticas e encenações, maratonas de leitura, feiras de rua, exposições e promoções em alguns livros assinalados, entre muitas outras actividades.
“Ler em todo o lado” celebra ainda a Semana do Livro Infantil (1 a 7 Abril), a Semana do Livro e dos Leitores (20 a 28 Abril) e nos dias 23 e 24 de Abril, a 25ª hora com algumas livrarias abertas fora de horas. 
“Não acredito que consigamos substituir o fenómeno da leitura. Ler continua a ser absolutamente crítico em termos de formação”, refere João Alvim, sabendo no entanto que hoje “é mais fácil sentar os miúdos em frente à televisão. Compete-nos estimular as pessoas, levá-las a interessar-se pelos livros. O mundo da literatura é muito mais vasto do que os best-sellers”, afirma em jeito de crítica o presidente da APEL. 
Entre os espaços aderentes encontram-se as Bibliotecas Municipais de Lisboa e as livrarias Paulinas Multimédia, Bertrand, LeYa, FNAC, Paulus, GATAfunho, Cabeçudos, Fábula Urbis, Bisturi e Ferin. Outros espaços públicos vão participar na iniciativa. 
Esta é também uma “oportunidade para os livreiros poderem apresentar as suas actividades”, explicou Pedro Pereira da Silva Vice-Presidente da APEL, na apresentação que teve lugar na Biblioteca Municipal Palácio Galveias. 
Um olhar aberto, um convite à leitura do que nos rodeia. Um esforço conjunto para desenvolver o livro e a leitura, contribua e participe, só precisa de ler. Para acompanhar a programação e tudo sobre como “Ler em todo o lado” consulte o site http://leremtodolado.wix.com/abril. Fonte: Hardmusic

terça-feira, 2 de abril de 2013

Tenho um poema à espera



AGORA

Abre-te , primavera!
Tenho um poema à espera
Do teu sorriso.
Um poema indeciso
Entre a coragem e a covardia.
Um poema de lírica alegria
Refreada,
A temer ser tardia
E ser antecipada.

Dantes, nascias
Quando eu te anunciava.
Cantava,
E no meu canto acontecias
Como o tempo depois te confirmava.
Cada verso era a flor que prometias
No futuro sonhado…
Agora, a lei é outra: principias,
E só então eu canto confiado.
Miguel Torga, in “ Diário X”, Ed. Círculo Leitores

Budapeste em grito de alarme



Parlamento- Budapeste
Hungria:Budapeste, paisagem de ruínas culturais  
"Outrora criativa e florescente, a cena cultural húngara é hoje regida pelos valores nacionais defendidos pelo Governo. O grito de alarme de uma jornalista húngara que emigrou para a Alemanha.
Quem troca de país muda de alma, diz-se na Hungria. Ora, ao longo dos dois últimos anos e meio, meio milhão de húngaros expatriou-se para todo o mundo, duas vezes mais do que durante a repressão que se seguiu à revolta de 1956. É demasiado, para um país de apenas dez milhões de habitantes.
Decidi, também eu, não continuar a tolerar a situação. Não faltam razões para isso: o dinheiro, as perspetivas de futuro e, sobretudo, a sensação de asfixia na Hungria de hoje.
Faço parte de uma geração que era suficientemente jovem após 1990 para sentir que a atmosfera dos anos da infância e da escola tinham mudado. Quando se teve uma vez na vida oportunidade para expressar livremente a opinião, não se quer abdicar dela, mesmo que viver nunca mais tenha sido fácil na Hungria.
Na década de 2000, a cena alternativa húngara passou por um período efervescente. Em Budapeste, havia um cinema de autor a cada esquina, estreava um novo filme húngaro todos os meses, uma nova vaga de jovens cineastas não tinha mãos a medir. Os amigos reuniam-se à noite na praça Liszt-Ferenc, perto da rua Andrassy, nos cafés da Nagymező (a “Broadway” de Budapeste, onde se concentra a maioria dos teatros da cidade), ou nos “romkocsma” [literalmente “bares nas ruínas”, estabelecimentos de venda de bebidas instalados em prédios devolutos, como os utilizados pelos “ocupas”] e conversava-se do que se tinha visto ou lido. A televisão transmitia programas culturais e todos os campos políticos estavam representados nos debates.
Esperança e ilusão desapareceram
Defendiam-se causas e acreditava-se em si mesmo e no futuro. Viena e Berlim talvez fossem mais sofisticadas, mais ricas, mas Budapeste iria sê-lo um dia. Tudo avançava devagar, os programas de urbanização, a modernização das infraestruturas, tudo estava atrasado. Isso tinha um certo encanto, na época; seguia-se na direção certa, Budapeste ia tornar-se uma metrópole multicolorida, vibrante, próspera, tolerante, em suma, uma grande cidade como as outras.
Dois ou três anos depois, tudo isso desapareceu: a esperança, o encanto, a ilusão. A política do Fidesz tornou-se omnipresente na vida da população. Uma política que entravou tudo o que era inovador, livre, inconformista e crítico. Fez morrer o teatro alternativo, cortando os subsídios há três anos. Pelo terceiro ano consecutivo, nenhum filme foi produzido na Hungria e, pela primeira vez, não se realizou a Semana do Cinema Húngaro – quem acreditaria nisso?
À frente do teatro público, estão lacaios de Viktor Orbán. São os únicos que tomam decisões, que definem o que se entende por “cultura”. Amadores extremistas, assumiram o controlo.
A cultura será apenas uma causa entre outras, mas sou jornalista cultural e a situação afeta-me profundamente. O meu trabalho tornou-se impossível. Deixou de haver secção cultural nas estações do serviço público de televisão. Milhares de jornalistas da televisão foram postos na rua, devido à desativação dos programas culturais. Apenas os fiéis do partido podem moderar os programas políticos. Quanto aos noticiários, são mera propaganda: só há uma verdade.
Tudo deve ser pautado pelo nacionalismo
Na Hungria, tudo deve ser pautado pelo nacionalismo: pensamento, teatro, arte, e até mesmo o ar que respiramos, se possível. Em nome da nova ordem, desintegra-se a escola e a universidade. Passando por cima de uma promessa de campanha, o Fidesz quer introduzir propinas – quem for isento é obrigado a assinar um contrato em que se compromete a não sair do país nos três a seis anos após a formatura. Quando um estudante protesta, a polícia invade-lhe a casa.
Percorro a imprensa uma vez por semana. Revelam-se as coisas mais incríveis, como o projeto da “Margem romana”, a única secção do Danúbio que permanecia intocada em Budapeste, com as margens orladas de choupos. Querem agora construir aí uma barragem, para proteger as casas de fim de semana – ilegais – dos novos-ricos, mas não se protegem os blocos de apartamentos que todos os anos sofrem inundações. O presidente da Câmara apoia o projeto. Outros autarcas viabilizam iniciativas semelhantes noutros lugares. Nas cidades pequenas e no campo, o dinheiro público é usado para alcatroar os caminhos até à porta das suas garagens.
Aprovada na semana passada no parlamento, a mais recente revisão constitucional mostra para que lado sopra o vento. Muitos artigos que haviam sido retirados por serem inconstitucionais reaparecem agora na Constituição. Entre eles, a criminalização dos sem-abrigo ou a regulamentação das críticas a figuras públicas. Além disso, o Tribunal Constitucional deixa de poder controlar a Constituição – ou é-lhe permitido fazê-lo apenas parcialmente.
Lei do silêncio protege o poder
A lei do silêncio nunca protege senão o poder, os opressores e nunca os oprimidos. Isso sente-se na Hungria, a cada esquina. Caras deprimidas nos transportes públicos, lojas e restaurantes desertos. Tudo é punido ou"" penalizado, a ordem deve prevalecer, e os cofres do Estado enchem-se à conta disso; hoje, existem mais controladores de trânsito do que carros nas ruas. Temos o direito de chamar publicamente “animais” aos ciganos e os jornalistas que utilizem esse tipo de palavreado não têm de pedir desculpa, porque muitos húngaros supostamente esclarecidos gostam de o ouvir.
Antes de decidir vir-me embora, sentia que o país andava à deriva e ninguém mexia um dedo para parar este processo. Como revelam sondagens recentes, este declínio vai prosseguir. Quarenta por cento dos húngaros voltariam a votar no egocêntrico Orbán e no seu partido, mesmo sabendo que o rei vai nu.
Mas num país onde tanta gente anda nua, ninguém pode acusar o ministro presidente – especialmente quando se tiram benefícios pessoais da situação. Ou quando se está cilindrado, com medo de perder o lugar e os meios de sobrevivência, se se disser o que se pensa.
Quem troca de país muda de alma, diz o provérbio. Mas eu sou húngara, e nunca vou deixar de o ser.” PressEurope, Der Freitag, 29/03/13

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Clarice Lispector em exposição

Exposição dedicada a Clarice Lispector

Clarice Lispector – A hora da Estrela - exposição sobre a escritora brasileira 

"Três décadas e meia após a morte de Clarice Lispector, a Fundação Gulbenkian apresenta a exposição A hora da Estrela, integrada nas comemorações do Ano do Brasil em Portugal. Divulgar a obra de uma das mais destacadas vozes da literatura brasileira é um dos objectivos desta exposição, que ocupará a Galeria de Exposições Temporárias do Museu Calouste Gulbenkian entre 5 de Abril e 23 de Junho.Aproximar as gerações mais novas da sua obra é um dos objectivos da exposição, que tem a coordenação e curadoria de Júlia Peregrino (a mesma coordenadora de Fernando Pessoa, Plural como o Universo), mas também do escritor Ferreira Gullar, Prémio Camões 2010. A exposição já foi apresentada no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Brasília e em Bogotá, tendo sido visitada por mais de 700 mil pessoas.A galeria de exposições temporárias do Museu receberá a mostra tal como foi vista no Brasil, dividida em seis núcleos, e onde se pretendem recriar ambientes dos seus livros ou passos da sua existência. Textos, fac-símiles, fotografias e documentos pessoais são mostrados nesta exposição, que também recria ambientes e cenários que inspiravam a escritora. Cartas de Erico Veríssimo, Carlos Drummond de Andrade, Lygia Fagundes e muitos outros, ajudam a conhecer melhor a personalidade de Clarice.Nascida na Ucrânia, em 1920, Clarice Lispector chegou ao Brasil com menos de dois anos de idade. Antes de se mudar para o Rio de Janeiro, em 1937, viveu em Alagoas e em Pernambuco. Passou muitos anos fora, acompanhando o marido diplomata, mas nunca se desligou do Brasil, onde morreu em 1977. Perto do coração selvagem foi o primeiro dos seus 26 livros, hoje publicados em mais de 20 línguas." FCG, 25.03.2012

Eis um excerto do último romance de Clarice Lispector, datado de 1969, cujo universo gira à volta da experiência do amor.
".. Vestiu o maiô e o roupão, e em jejum mesmo caminhou até a praia. Estava tão fresco e bom na rua! Onde não passava ninguém ainda, senão ao longe a carroça do leiteiro. Continuou a andar e a olhar, olhar, olhar, vendo. Era um corpo a corpo consigo mesma dessa vez. Escura, machucada, cega - como achar nesse corpo-a-corpo um diamante diminuto mas que fosse feérico, tão feérico como imaginava que deveriam ser os prazeres. Mesmo que não os achasse agora, ela sabia, sua exigência se havia tornado infatigável. Ia perder ou ganhar? mas continuaria seu corpo-a-corpo com a vida. Alguma coisa se desencadeara nela, enfim.
E aí estava ele, o mar.
Aí estava o mar, a mais ininteligível das existências não-humanas. E ali estava a mulher, de pé, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fizera um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornara-se o mais ininteligível dos seres onde circulava sangue. Ela e o mar.
Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões...”
Clarice Lispector, in "Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres" (1969), Ed. Rocco

domingo, 31 de março de 2013

Ao Domingo Há Música

Pormenor do quadro " O regresso do filho pródigo", c. 1662 de Rembrandt,
 no Museu Hermitage,  em S. Petersburgo
"É neste Deus que quero acreditar: um Pai que, desde o princípio da criação, abre os braços numa bênção cheia de misericórdia, sem forçar ninguém, mas esperando sempre; sem deixar cair os braços, e esperando sempre que os filhos regressem para lhes poder falar com palavras de amor e para deixar que os braços cansados repousem nos seus ombros. O seu único desejo é abençoar." Henri Nouwen, in “O regresso do filho pródigo”,Editorial A o, Braga

Abençoar  ou ser abençoado, acção e objecto, eram rituais tão celebrados e importantes nas relações familiares que, sem a respectiva efectivação ,  não se completava a cerimónia da saudação na hora da partida ou do regresso. Sinais de respeito, de acolhimento, de afectividade que traduziam a força da mais importante organização do mundo: a família.
Num Domingo de Páscoa, saudar e rogar a bênção que dulcifique um mundo onde, todos os dias, milhares de braços cansados carecem de sossego e protecção é uma forma de  contextualizar o espírito pascal.  

O génio de Mahler produziu uma grandiosa Ressurreição ('Resurrection' Mov V (2/2) na " Symphony No. 2 in C minor ”, que se apresenta no registo efectuado durante os BBC Proms, no
 Royal Albert Hall em Agosto de 2011, com as vozes de  Miah Persson, soprano, Anna Larsson, mezzo-soprano, e do National Youth Choir of Great Britain , acompanhados pela Orquestra Sinfónica Simón Bolívar da  Venezuela dirigida pelo Maestro Gustavo Dudamel.

sábado, 30 de março de 2013

Contemplação e acção



"HÁ CADA VEZ MAIS PESSOAS que não estão satisfeitas com o mundo em que vivemos. Raras são, porém, aquelas que fazem alguma coisa para o transformar. Destas, umas procuram torná-lo melhor por meio do seu esforço, individual ou colectivo; outras acham que os defeitos do mundo não estão no próprio mundo,  mas no olhar de quem nele vive; por isso procuram transformar-se a si próprias e mudar o olhar com que o vêem.  As primeiras são partidárias da acção; as segundas  confiam nos efeitos da contemplação. Ambas as atitudes são universais. Encontram-se em todas as sociedades civilizadas. Determinam os princípios fundamentais das grandes religiões. O Oriente cultivou mais a contemplação; o Ocidente, sobretudo depois do século XIII, desenvolveu mais a acção. A relação do homem com o mundo deu lugar a opções diferentes. Os programas de intervenção  ou de não intervenção  diversificaram-se  e evoluíram. Há , portanto, uma história da acção e da contemplação. No Ocidente essa história confunde-se com a história da Igreja, e, mais precisamente, com a história das ordens religiosas, ou seja, com a história do seu sucesso ou insucesso na tarefa de mudar o  mundo para melhor, isto é, para resolver os problemas decorrentes da vida do homem em sociedade.
A minha tese, se assim lhe posso chamar, é que não basta a acção; é preciso também a contemplação. Talvez mais ainda: sem ela de nada vale a acção. Creio que a história da Humanidade mostra isso mesmo. Não a história  factológica, superficial, externa, mas a história da realização das potencialidades do género humano.   Ou a história da Humanidade em busca da sua plenitude. Ou a história da revelação de Deus presente na realidade concreta do mundo. (…)
Toda a obra humana , mesmo a mais espiritual, perde facilmente a sua pureza e está  sujeita à ambiguidade. O projecto da cristandade imaginado (...), apesar  das suas admiráveis realizações(...) ficou aquém dos seus objectivos.
(...)Mas os projectos seculares de uma nova sociedade, propostos pelo iluminismo, o liberalismo, o socialismo e o comunismo, também não cumpriram a promessa de trazer o progresso para toda a Humanidade  e instaurar a fraternidade e a justiça universais. Eliminaram a própria  noção de sagrado, sem darem conta que a sacralidade dos princípios essenciais é o fundamento dos valores de que depende a vida do homem em sociedade. Sem ela não é possível defender eficazmente a dignidade humana e o respeito pela vida. O projecto liberal criou uma sociedade sem religião, sem estrutura e sem convicções. A sociedade agnóstica realiza prodígios tecnológicos, mas não consegue  evitar as catástrofes naturais, não reabsorve o lixo que produz, deixa milhões de homens morrerem à fome, recorre à tortura e à violação da consciência com medo de perder  a segurança.
Mas é esta a realidade do homem moderno. Nunca o homem teve tanto poder e ao mesmo tempo tanta fragilidade. A globalização  trouxe-lhe  a consciência da sua incapacidade de resolver todos os problemas quando tudo depende  só de si mesmo. As leis da proporção e da quantidade , e o exemplo de iniciativas recentes , mostram-lhe que as cimeiras dos maiores detentores  do poder político, financeiro e tecnológico são impotentes  para resolver  os grandes problemas da Humanidade. Se é assim , o homem devia recuperar a consciência da sua finitude. Os poderosos tentarão , assim se espera, resolver os grandes problemas. Mas o cidadão comum, o indivíduo  só pode resolver os problemas em que está envolvido, e tendo em conta a escala daquilo que pode alcançar: o grupo a que pertence, a família que o rodeia, o trabalho de que vive, as associações em que se inscreve, o país da sua cidadania, a ideologia ou a confissão religiosa que professa. É para com eles que deve ser responsável. É a esta escala que a mudança de olhar proposta pela atitude contemplativa lhe pode trazer uma nova esperança.
Com efeito, a contemplação  mostra-nos a fantástica variedade, complexidade e coerência dos fenómenos da vida, da constituição da matéria, e da prodigiosa dimensão e regularidade do mundo cósmico. A contemplação intensifica a fruição  da arte na música, na pintura, na poesia, no teatro e no cinema. A contemplação torna-nos sensíveis ao riso e à frescura das crianças e de tudo o que começa de novo. A contemplação faz-nos descobrir em toda a parte homens e mulheres inesperadamente inventivos, generosos e honestos. A contemplação inspira-nos o respeito e a admiração por quem é capaz  de manter a dignidade face ao sadismo dos torcionários nas prisões e campos de concentração. A contemplação abre os nossos ouvidos  ao clamor dos famintos  e dos oprimidos em todo o mundo e em toda a História, e faz-nos partilhar com eles a compaixão pela Humanidade  ferida. A contemplação introduz-nos no mistério do sofrimento que se torna passagem para a ressurreição através da morte aceite e vencida, e mostra-o em Jesus Cristo, Filho de Deus , sinal da invencibilidade da vida. A contemplação associa como num único sujeito todos os homens e mulheres que desde o princípio do mundo perscrutaram o mistério do Uno e do Todo. Assim, o homem contemplativo perde o medo do futuro. Vive no presente e descobre , a cada passo, nas coisas grandes e pequenas, nas coisas boas e más, na doença e na saúde, na prosperidade  e na pobreza , na paz e na guerra, a espantosa realidade das coisas. (...)
O olhar abrangente e lúcido sobre o mundo diz-nos  que a acção e a contemplação não devem ser exclusivas, e que é inútil estabelecer regras  acerca do grau de consagração a uma ou outra. Enquanto houver seres humanos que a ela  se entregam, de alma e coração, podemos olhar sem medo para o futuro.”José Mattoso “Contemplação e acção , ontem e hoje “ in “ Levantar o Céu, Os labirintos da Sabedoria”, Abril de 2012, Ed. Círculo Leitores

sexta-feira, 29 de março de 2013

Isto vos mando


“12 O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei.
 13 Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos.(...)
 15 Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas   tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer.
 16 Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós (...)
 17 Isto vos mando: Que vos ameis uns aos outros." Evangelho segundo S. João,Cap. 15


"Requiem K.626 - 9. Domine Jesu" de W. A. Mozart pelas vozes de Gundula Janowitz (soprano), Christa Ludwig (contralto) ,Peter Schreier (tenor),Walter Berry (bass), Coro de Wiener Staatsoper com a Orquestra Sinfónica de Viena conduzida pelo Maestro Karl Böhm. 

quinta-feira, 28 de março de 2013

Inédito de José Saramago


Livro de José Saramago, inédito em Portugal, chega às livrarias em Abril
"A Estátua e a Pedra", já publicado em Itália, sairá numa edição bilingue, em português e espanhol. Oferece uma “explicação da obra de Saramago”.
Fundação José Saramago vai publicar, no início de Abril, um livro inédito em Portugal do escritor, A Estátua e a Pedra , informou  em comunicado. O lançamento está agendado para a Feira do Livro de Bogotá, onde Portugal será o país convidado na segunda semana de Abril.
A Estátua e a Pedra é o título de uma conferência que Saramago deu na Universidade de Turim, Itália, em Maio de 1998, na sequência do Colóquio Diálogos sobre a Cultura Portuguesa. Literatura-Música-História. Esse texto, publicado em Itália, em 1999, ao lado dos textos de Luciana Stegagno Picchio e Giancarlo Depretis e dos restantes conferencistas, é agora um dos escolhidos para a edição publicada em Abril. Ana Sousa Dias, directora de comunicação da Fundação José Saramago, explicou ao PÚBLICO que essa primeira publicação, em Itália, foi uma “pequena edição de luxo”, que já não se encontra disponível.
A única diferença entre esta edição e a de 1999 é o epílogo do escritor espanhol Fernando Gómez Aguilera, que possui “um olhar próximo da obra de Saramago”, adianta Ana Sousa Dias. Aguilera, biógrafo do escritor português, é o comissário da exposição permanente dedicada ao autor de Caim , que se encontra na Casa dos Bicos – sede da fundação - , intitulada José Saramago. A semente e os frutos, e foi também responsável pela exposição José Saramago. A Consistência dos Sonhos, que esteve em Lanzarote (Espanha), Lisboa e em vários países da América do Sul.
O espanhol conheceu e ficou amigo de Saramago em Lanzarote, onde o português viveu, e neste livro vê-se a importância que a ilha do Arquipélago das Canárias teve na vida do Nobel. "A Estátua e a Pedra" é uma reflexão de Saramago sobre os seus livros e sobre a importância decisiva que o facto de viver numa ilha de pedra e vulcões como Lanzarote teve para o seu estilo literário e de vida. Este é um livro que não existiria sem Lanzarote", lê-se no comunicado de imprensa divulgado esta segunda-feira.
É a primeira publicação editada pela Fundação José Saramago, que, daqui para a frente, pretende assegurar a “produção editorial” de “estudos sobre Saramago” e de uma “selecção de textos de conferências, que não se encontram disponíveis”. Ana Sousa Dias revelou, ainda, que a Fundação vai tentar assegurar que todas as edições sejam bilingues de modo a responder à procura do mercado português e espanhol.
"A estátua é só a superfície da pedra, é o resultado daquilo que foi retirado da pedra, a estátua é o que ficou depois do trabalho que retirou pedra à pedra, toda a escultura é isso, é a superfície da pedra e é o resultado dum trabalho que retirou pedra da pedra. Então é como se eu tivesse ao longo destes livros todos andado a descrever essa estátua, o rosto, o gesto, as roupagens, enfim, tudo isso, descrever a estátua", dizia José Saramago nessa tal conferência de 1998. Por isso a escolha deste texto para iniciar as publicações da Fundação José Saramago não foi feita ao acaso.
Através da metáfora da estátua e da pedra, oferece-se "uma explicação para a obra de Saramago”, diz Ana Sousa Dias. Concluindo: na primeira fase da obra do Nobel português, que vai até à publicação de Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), Saramago falava de uma estátua; quando foi viver para Lanzarote, depois da polémica com esse romance, “começou a interessar-se pela pedra, da qual era possível retirar a escultura”. Público