sexta-feira, 5 de outubro de 2012

5 de Outubro, o dia da República


" o ar de Lisboa andou esguedelhado de tiros, o céu riscado de fogos-de-vistas singulares.”José Rodrigues Miguéis , in “A Escola do Paraíso”, 1960, Editorial Estampa


José Rodrigues Miguéis (1901-1980), é um dos nomes maiores da literatura portuguesa, com uma enorme obra publicada e, frequentemente, esquecido na invocação literária. 
Em “ A Escola do Paraiso”, este  admirável escritor, através do olhar de uma criança, Gabriel, relata e descreve os acontecimentos e o revolucionário tempo vividos em 1910, na implantação da República.

"Começavam-se a vender na rua bandeiras, alfinetes, postais e globos de vidro colorido com cenas e retratos dos homens do regime. Era uma Vida Nova que raiava. Dir-se-ia que estava tudo preparado para a celebração! Passavam bandos aos vivas, caminho da Baixa, da Rotunda, do Tejo, cantando a Portuguesa. Afluíam de todos os lados os heróis de última hora: as barricadas, até ali quase vazias, transbordavam agora de combatentes, eriçadas de armas que não tinham chegado a dar fogo. Tiravam-se grupos memoráveis, para depois se dizer «Eu também Lá estive!».
 (…)Então compreenderam que alguma coisa de grande e sério se passava: não era só festa, só vivas, só fogo-de-vista! E ficaram muito tempo calados, no escuro da noite, pensando no pai que chorava de alegria, até que o cansaço daquele primeiro dia da Vida Nova os venceu, e adormeceram."
José Rodrigues Miguéis , in “A Escola do Paraíso”, 1960, Editorial Estampa

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

À volta dos Livros


«Os Ciganos», conto inédito de Sophia de Mello Breyner Andresen, será lançado a 19 de Outubro



 Grande Prémio de Romance e Novela da APE

As obras divulgadas como finalistas deste grande Prémio são as seguintes:
"O Lago", Ana Teresa Pereira
"As Luzes de Leonor", Maria Teresa Horta
"Tiago Veiga", Mário Cláudio,
"O Complexo de Sagitário", Nuno Júdice
"A Cidade de Ulisses", Teolinda Gersão
A escolha final do júri, constituído por José Manuel de Vasconcelos, Luísa Mellid-Franco, Manuel Gusmão, Manuel Simões e Silvina Rodrigues Lopes, será conhecida no final de Outubro.
Prix Goncourt 

Dos doze romances anunciados na  1ª selecção,  apenas oito estão em concurso. A 30 de Outubro será feita a 3ª selecção e  o vencedor será anunciado publicamente a 7 de Novembro de 2012.
Eis o resultado da 2ª selecção:
- Vassilis Alexakis, L'enfant grec (Stock)
- Thierry Beinstingel, Ils désertent (Fayard)
- Patrick Deville, Peste & choléra (Seuil)
- Joël Dicker, La Vérité sur l'affaire Harry Quebert (Fallois)
- Mathias Enard, Rue des voleurs (Actes Sud)
- Jérôme Ferrari, Le Sermon sur la chute de Rome (Actes Sud)
- Linda Lê, Lame de fond (Bourgois)
- Joy Sorman, Comme une bête (Gallimard
Fonte: "Le magazine Littéraire"

Dores pungentes


Que raio de gente esta!
Por Baptista Bastos

"Aprendi, há muitos anos, que os homens se dividem em sólidos, líquidos e gasosos. Ensinou-me o meu pai estas definições, que o rodar do tempo confirmou serem adequadas e justas. Já ultrapassei a idade com que o meu pai morreu e sinto-me desconfortavelmente adaptado às dores do corpo. Que remédio! Às da alma, é que não. São dores pungentes porque tocam nas coisas da esperança e do sonho desunidos. Poucos homens sólidos há, hoje. A época tem sido fértil em amolecer caracteres e em estimular e premiar a velhacaria e a malandrice. Gosto muito da palavra "sólido". Tenho vivido e respirado palavras, não passo de um vago senhor português, com a tineta de que as palavras podem modificar o destino de milhões de homens, e a palavra "sólido" ainda hoje me surge como um significado de dignidade.
Conheço, agora, muitos mais homens líquidos e gasosos de que antes. Não quero dizer que os não houvesse; mas, hoje, estão mais expostos à própria malignidade do tempo. Vêmo-los e assistimos ao que dizem, mentirosos sem remissão; infalíveis tratantes; uma congregação de gente moldada ignora-se como, de quê e por quê. O nivelamento por baixo atingiu todos os sectores da sociedade. A indolência, de ordem cívica, é a pior de todas as afrontas éticas. E, de repente, ficámos aturdidos com um milhão de pessoas nas ruas, sem saber o significado mais profundo dessas razões. Sem saber o que fazer desta e com esta multidão. Pessoas sólidas, inesperadamente tornadas indefectíveis aos valores e aos princípios, e, até, às ideias, que calculávamos soterrados.
É verdade que uma comoção alegre nos atingiu. Porém, estamos tão desavindos, tão mortiços, tão perdidos, ignorância de pobres e de cegos, que perguntamos, tontos e incrédulos: e agora?
Os homens líquidos e os homens gasosos continuam nessa desfilada indecente. Fala-se, agora, em "impreparação" de quem dirige o País. Oculta-se o projecto ideológico que lhe subjaz, e no tripudiar dos conceitos morais. Esta casta não é nova: procede, directamente, do oportunismo nascido das sociedades em ruptura, e que pratica uma constante "transacção" de interesses. A manifestação de 15 de Setembro representou a repulsa por esta gente. Mas, também, pelos que se lhe não opõem.
Temos assistido a episódios deploráveis, como aquele, na segunda-feira, no qual António José Seguro ficou perplexo por desconhecer que a substituição da taxa social única fora aprovada em Bruxelas, sem que o Governo o tivesse consultado. A humilhação fez espelho nas televisões. O pobre homem, um pouco espavorido, balbuciou uma módica frase de tristíssima indignação. Não serve de nada: Passos despreza-o e despreza-nos. No decálogo ensinado pelo Velho Bastos, em que categoria colocaríamos o secretário-geral do PS: líquido ou gasoso?; sólido, certamente, não.”
Baptista Bastos em Crónica publicada no DN, em 3 de Outubro de 2012

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Um país de espera e promessa


Lagos II
I
Lagos onde reinventei o mundo num verão ido
Lagos onde encontrei
Uma nova forma do visível sem memória
Clara como a cal concreta como a cal
Lagos onde aprendi a viver rente
Ao instante mais nítido e recente 

Lagos que digo como passado agora
Como verão ido absurdamente ausente
Quase estranho a mim e nunca tido
II
Foi um país que eu encontrei de frente
Desde sempre esperado e prometido
Um puro dom total de ter nascido
E o sol reinava em Lagos transparente 

III
Lagos lição de lucidez e liso
Onde estar vivo se torna mais completo
-Como pode meu ser distraído
De sua luz de prumo e de projecto?

IV 
Ou poderemos Abril  ter perdido 
O dia inicial inteiro e limpo
Que habitou nosso tempo mais concreto?

Será que vamos paralelamente
Relembrar e chorar como um verão ido
O país linear e transparente

E sua luz de prumo e de projecto?
                                       1975
Sophia de Mello Breyner Andresen, in " O Nome das Coisas", 1977, Editorial Caminho

Nas Artes Poéticas I, II, III, IV e V, sínteses meditativas sobre a própria Arte Poética,  Sophia Mello Breyner Andresen, através de uma incessante busca, foi tecendo e desvendando o seu próprio ser poético  que se revelou com genialidade e de forma universal numa extensa produção lírica que se coloca no patamar da melhor poesia de sempre.
Na  Arte Poética I , Sophia traça "*as linhas fulcrais do seu “estar poético” que respira a “aliança das coisas”, ou seja, a aliança conducente à construção de um “reino”, que o sujeito lírico procura e encontra, e que considera extensivo à procura e conquista de cada um de nós, no agora da passagem desta vida – “o reino que com paixão encontro, reúno e edifico ; o reino agora é só aquele que cada um por si mesmo encontra e conquista, a aliança que cada um tece” - que se opõe ao “ mundo onde a aliança é quebrada".
A cidade de Lagos é o ponto de partida, na Arte Poética I, para a meditação sobre a limpidez, o rigor, a realização, a vivência e a beleza poética - não estética-, a da poesia.
A cidade de Lagos é também espaço de nitidez e brancura, nostalgia, identificação, de um projecto poético individual e colectivo – “acorda em mim a nostalgia de um projecto/ racional, limpo e poético” . Lagos é ainda símbolo de aprendizagem da vida próxima do concreto, do quotidiano, bem como símbolo de um país de espera e promessa, o espaço do dom de nascer e conhecer a luz". 


Arte  Poética I
«Em Lagos em Agosto o sol cai a direito e há sítios onde até o chão é caiado. O sol é pesado e a luz leve. Caminho no passeio rente ao muro mas não caibo na sombra. A sombra é uma fita estreita.
Mergulho a mão na sombra como se a mergulhasse na água.
A loja dos barros fica numa pequena rua do outro lado da praça. Fica depois da taberna fresca e da oficina do ferreiro.
Entro na loja dos barros. A mulher que os vende é pequena e velha, vestida de preto. Está em frente de mim rodeada de ânforas. A direita e à esquerda o chão e as prateleiras estão cobertos de louças alinhadas, empilhadas e amontoadas: pratos, bilhas, tigelas, ânforas. Há duas espécies de barro: barro cor-de-rosa-pálido e barro vermelho-escuro. Barro que desde tempos imemoriais os homens aprenderam a modelar numa medida humana. Formas que através dos séculos vêm de mão em mão. A loja onde estou é como uma loja de Creta. Olho as ânforas de barro pálido poisadas em minha frente no chão. Talvez a arte deste tempo em que vivo me tenha ensinado a olhá-las melhor.
Talvez a arte deste tempo tenha sido uma arte de ascese que serviu para limpar o olhar.
A beleza da ânfora de barro pálido é tão evidente, tão certa que não pode ser descrita. Mas eu sei que a palavra beleza não é nada, sei que a beleza não existe em si mas é apenas o rosto, a forma, o sinal de uma verdade da qual ela não pode ser separada. Não falo de uma beleza estética mas sim de uma beleza poética.
Olho para a ânfora: quando a encher de água ela me dará de beber. Mas já agora ela me dá de beber. Paz e alegria, deslumbramento de estar no mundo, religação.
Olho para a ânfora na pequena loja dos barros. Aqui paira uma doce penumbra. Lá fora está o sol. A ânfora estabelece uma aliança entre mim e o sol.
Olho para a ânfora igual a todas as outras ânforas, a ânfora inumeravelmente repetida mas que nenhuma repetição pode aviltar porque nela existe um princípio incorruptível.
Porém, lá fora na rua, sob o peso do mesmo sol, outras coisas me são oferecidas. Coisas
diferentes. Não têm nada de comum nem comigo nem com o sol. Vêm de um mundo onde a aliança foi quebrada. Mundo que não está religado nem ao sol nem à lua, nem a Ísis, nem a Deméter, nem aos astros, nem ao eterno. Mundo que pode ser um habitat mas não é um reino.
O reino agora é só aquele que cada um por si mesmo encontra e conquista, a aliança que cada um tece.
Este é o reino que buscamos nas praias de mar verde, no azul suspenso da noite, na pureza da cal, na pequena pedra polida, no perfume do orégão, Semelhante ao corpo de Orfeu dilacerado pelas fúrias  este reino está dividido. Nós procuramos reuni-lo, procuramos a sua unidade, vamos de coisa em coisa.
É por isso que eu levo a ânfora de barro pálido e ela é para mim preciosa. Ponho-a sobre o muro em frente do mar. Ela é ali a nova imagem da minha aliança com as coisas. Aliança ameaçada. Reino que com paixão encontro, reúno, edifico. Reino vulnerável. Companheiro mortal da eternidade.» Sophia Mello Breyner Andresen, in "Obra Poética III" Ed. Caminho

Lagos permanecerá no horizonte de Sophia , ocupando um lugar forte e privilegiado no seu sentir poético , na sua escrita. Uma cidade que já não é como ela a conheceu. Uma cidade que também apresenta alguma erosão provocada  pela  transformação arquitectónica  que varreu quase todo o Algarve.
Eis o Mercado, que já sofreu obras de  restauro, brilhante e vivo de gente,  lapidarmente descrito por  Sophia de Mello Breyner Andresen em :

Caminho da Manhã
“Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco de cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles cheiram realmente, realmente a mar. Depois verás peixes pretos e vermelhos e cor-de-rosa e cor de prata. E verás os polvos cor de pedra e as conchas, os búzios e as espadas do mar. E a luz se tornará líquida e o próprio ar salgado e um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra. À tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego que desce devagar. E ao cimo da escada está uma mulher de meia idade com rugas finas e leves na cara. E tem ao pescoço uma medalha de ouro com o retrato do filho que morreu. Pede-lhe que te dê um ramo de louro, um ramo de orégãos, um ramo de salsa e um ramo de hortelã. Mais adiante compra figos pretos: mas os figos não são pretos mas azuis e dentro são cor-de-rosa e de todos eles corre uma lágrima de mel. Depois vai de vendedor em vendedor e enche os teus cestos de frutos, hortaliças, ervas, orvalhos e limões. Depois desce a escada, sai do mercado e caminha para o centro da cidade. Agora aí verás que ao longo das paredes nasceu uma serpente de sombra azul, estreita e comprida. Caminha rente às casas. Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do Sol. Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada. 
Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível. “
Sophia de Mello Breyner Andresen, in” Livro Sexto”, Obra Poética I, Círculo de Leitores, 1992
*in Sophia de Mello Breyner Andresen:Transmutação da palavra em Poesia, Artes Poéticas, Aedos e Cidades" por Helena S. C. Langrouva em  Colóquio Internacional III, Lisboa

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Um qualquer de nós


"Com excepção dos nomes e das cores, que se haviam delido no tempo, seriam apenas os barcos – os mesmos desse dia feliz em que papá decidira levá-la a vê-los de perto pela primeira vez. Porque lá estavam ainda, emborcados por cima do convés, os mesmos escaleres cobertos pelas lonas. Estavam as torres, as vigias redondas como olhos de peixe e as mesmas bóias ressequidas, presas dos ganchos. Quando largaram da doca – e o focinho cortante das proas rasgou o pano azul das águas atlânticas, rumo a Lisboa – havia também a mesma chuva ácida do princípio da noite. Além disso, dera-se a chegada das mesmíssimas vacas ao cais de embarque, sendo elas destinadas aos matadouros continentais. E o pranto da muita gente que ali ficou a agitar lencinhos de adeus fora-se logo convertendo num uivo, o qual acabou por confundir-se com o rumor do vento a alto mar.
Depois um e outro viram a Ilha ir fenecendo na distância das luzes enevoadas e extinguir-se aos poucos, submersa pelos véus de cinza que se desprendiam das nuvens. À medida que os rolos de espuma se distendiam à ré, num risco que espalmava e tornava liso aquele globo saltitante, a cordilheira vulcânica ia-se lentamente afundando ao longe. Do lado de cá do vento, e da electricidade que metaliza e faz correr a noite marítima, a última visão da Ilha é mesmo essa cabeça de égua aflita, agitando-se na crista da serra a que chamam Pico da Vara. Sabe-se que naufraga e que o faz num suspiro altivo e superior: as orelhas, de súbito imóveis, mergulham a pique no fo dessa irresistível lâmina oceânica...
E agora que os anos confundem a ordem e o rigor das emoções dessa viagem para Lisboa, o difícil é reconstituir os nomes, o perfil, a sombra dessas formas escuras, que eram os barcos de então. Mesmo dos que deram lugar aos majestosos paquetes de cruzeiro, não sobra senão um pormenor obscuro. Nuno e Amélia aludem às bandeiras bordadas com símbolos náuticos e aos enormes mastros, de cujas hastes se esticava um cordame de aço amarrado na gávea. Maria Amélia recorda sobretudo as chaminés azuis e amarelas, ao contrário do irmão. Recorda o som das caldeiras e o sal dos corrimãos pegajosos que bordejavam os muros do convés, e pouco mais. Dos tombadilhos oscilantes, não retém mais do que uma lembrança difusa, ainda e sempre ensombrada pelos malefícios do enjoo. Mas azuis, amarelas ou dum ocre pouco nítido e já muito mordido pela ferrugem, de pouco lhe importam as cores. Limita-se a descrevê-los sem paixão. Não quer aliás recuperar o tempo inútil, nem amargurar a memória que possa ter desses ou de todos os outros barcos. Nutre por eles um misto de ternura e pavor. Contudo, não esquece o aspecto desses castelos vivos mas em ruínas – com varandins de corda, patamares suspensos e enormes âncoras esquecidas junto aos pequenos motores de bordo. Toda a memória lhe vem das janelas em guilhotina da 1ª Classe, para onde tantas vezes olhou em vão, na esperança de que viessem socorrê-la. As irmãzinhas haviam-na abandonado num camarote sem ar e sem vigias: uma luz mortuária por cima da cabeça, sacos de plástico para o enjoo arrumados numa bolsinha fatídica, o beliche estreito e a mistura dos cheiros que só existem nos barcos – salitre, tintas quentes e o amoníaco entorpecente das latrinas muito próximas. Dos porrões, chegavam-lhe aos ouvidos atordoados o choro das vacas e das cabras, os urros dos vómitos e o lamento contínuo de muitas outras mulheres. Depois entrara nela o zumbido que o mar transmite às paredes trémulas dos barcos. E como um sismo sem princípio nem fim, as tempestades atlânticas levantavam no ar e depois deixavam cair aquele baú entre vagalhões cruzados. O mar fazia-o com a mesma facilidade com que outrora um qualquer de nós era tomado em peso pelo vento e voava: não sendo pássaro, transformava-se num serzinho alado, cego pela poeira, e aterrava no lodo das quebradas que sempre haviam cortado os caminhos da infância. No momento seguinte, mares convulsos voltavam a erguer e a largar aquela segunda arca bíblica. Abriam-se medonhas crateras e o mar fendia-se para receber a quilha: uma indescritível chapada na água ensurdecia a noite de pedra – e nunca Deus estivera tão distante como nos dias dessa solidão infinita. A visão da cidade do Funchal, numa noite de tréguas a meio da baía, com o presépio das suas casas ao cimo das falésias, deixou-a semimorta numa cadeira de encosto de alguém que fora a terra e a deixara vaga no convés. De manhã, largaram dali com levante. Viu-se de novo enrolada no beliche, com a cabeça entre os joelhos, e quis Deus que, ao quinto dia dessa primeira e última morte no mar, viesse finalmente alguém dizer-lhe que a luminosa, magnífica cidade de Lisboa esperava os náufragos e as suas almas mortas. Só então conseguiu ressuscitar.
Nuno Miguel recorda perfeitamente as letras incrustadas nos cascos negríssimos e também pintadas no dorso das grandes chaminés. Recorda-se de se ter interrogado acerca dessas legendas, parecendo-lhe que já então os nomes dos barcos eram maiores do que eles mesmos e do que a sua próxima experiência do mar – por muito que lhe viessem a custar as cinco futuras viagens entre Lisboa e Ponta Delgada. Em todas as docas jaziam sempre medas de tábuas, montanhas de toros, contentores soldados a chumbo e compridos promontórios de sacas de trigo e açúcar. E via-se sempre um homenzinho sentado no ar, na guarita de cada guindaste, tendo pela frente um painel com alavancas, fechos e botões luminosos. Daí o outro segredo dos barcos: durante horas e horas, estando ele ainda do outro lado da cidade, pudera ouvir a mecânica das roldanas, o deslize cortante das correntes que içavam plataformas e abriam porões, as cremalheiras onde a roda dentada ia produzindo um ruído de ossos triturados.
Sentado com o papá no muro da Avenida Marginal, à espera da hora do embarque, a tarde inacreditavelmente longa desse primeiro Novembro de mar fora sobretudo o pulsar dos ferros na distância, a deslocação das engrenagens perras, a bordo, e a voz dele: nunca tivera jeito para a ternura, por isso mantinha o mesmo tom imperativo para lhe pedir que comesse alguma coisa e parasse de soluçar:
– Psst, ó pequeno! Não se chora, homem. E assoa-me esse nariz para o chão!
Ele próprio gostaria de saber como se chorava, para então poder abraçar aquele pequeno filho, subitamente aterrorizado ante a proximidade do seu barco. Não saberia fazê-lo sem parecer ridículo ou diferente do que sempre fora perante os filhos. Nuno registara no nervo mais sensível da alma a decisão do pai, nessa mesma manhã. Quando dele fora despedir-se à arribana, papá ficara um momento a olhá-lo de cima para baixo. A cabeça inclinara-se-lhe um pouco, até ficar oblíqua, e Nuno viu como os lábios se crispavam e os olhos se tornavam quase doces. Ia decerto abraçá-lo fortemente contra o peito, sem uma palavra, ou então limitar-se-ia a repetir a fórmula de dar a bênção – quando de súbito papá endireitou a cabeça, pegou-lhe pela mão e trouxe-o até à cozinha. Aí, enfrentou os olhos chorosos de mamã, recebeu o clamor das lágrimas de toda a família e ordenou:
– Preparem-me as botas de levar à missa, a jaqueta e umas calças lavadas. Vou-me a levar o pequeno ao embarque, não vá ele perder-se lá pela Cidade." 
João de Melo , in "Gente Feliz com Lágrimas" - Capítulo Primeiro-,1988, Publicações Dom Quixote
 "GENTE FELIZ COM LÁGRIMAS" é um "romance de uma família que se desfaz  e refaz pelas paragens mil aonde  a levam os bons e maus augúrios que motivam a sua dispersão. Concebida polifonicamente como a descrição dos vários modos de viver a amargura que medeia entre o abandono da terra e o retorno ao domínio do que é familiar, esta peregrinação possível em tempos de escassez de aventura é a definitiva lição de que o regresso se não limita a perfazer um círculo, e constitui uma visão fascinante do Portugal que todos , de uma maneira ou de outra conhecemos."  
"Gente Feliz com Lágrimas" foi galardoado com : Grande Prémio de romance e novela do A.P.E., Prémio Fernando Namora, Prémio Eça de Queiroz, Prémio Cristóvão Colombo, Prémio Antena Um.
João de Melo nasceu na ilha de São Miguel, Açores, em 1949 onde permaneceu até à conclusão da instrução primária.  Aos 10 anos de idade, veio para Portugal continental para continuar a estudar. A partir de 1967, fixa residência em Lisboa. É licenciado em Filologia Românica. Foi Professor do ensino Secundário e Universitário e conselheiro cultural na Embaixada de Portugal em Madrid desde 2001. Tem uma imensa obra literária publicada que se estende pelo romance, novela, conto e análise literária. A mobilização para Angola , no serviço militar português, aquando da guerra colonial, foi pano de fundo de muitas das suas obras.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Dia Mundial da Música



"O Dia Mundial da Música foi instituído em 1975 com o objectivo de promover os valores da paz e da amizade por intermédio da música. Agora, passadas mais de três décadas, a data continua a ser assinalada em todo o planeta, e Portugal não é excepção. Vejam o que vão poder ouvir, desde o raiar do ‘sol’ ao ‘dó’ da noite.

Lisboa:
O metro de Lisboa recebe hoje o primeiro dia de um mês de concertos. A troco de um bilhete de metro, quem passar hoje ao fim da tarde no Cais do Sodré vai poder ver concertos de J.P. Simões, Manuel João Vieira, We Trust e António Zambujo. Até dia 27 de Outubro há muito para ver e ouvir neste festival de Música a Metro. Podem consultar o programa completo de actuações aqui.
A troco de €7, o Teatro S. Luiz oferece ao público, a partir das 18h30, uma viagem pelas narrativas que emergem da programação deste primeiro trimestre da temporada, desde a cena da morte de Dido (da ópera de Purcell), ao redentor Adagietto de Mahler, que a partir de Visconti ficou para sempre ligado a Morte em Veneza. Este concerto moderno é conduzido pela solista Maria Luísa de Freitas. Mais informações aqui.
Em homenagem ao músico e amante de cinema Bernardo Sassetti, a Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro oferece uma actividade dedicada à música cinematográfica. "Que seria da saga Star Wars sem o bradar dos trompetes a abrir cada um dos seus episódios? Ou de Harry Potter sem o tema musical que tão bem anuncia a magia que se prepara?". O desafio está lançado. Através de exemplos musicais e fílmicos, jogos de associações e a participação musical activa, são abordados conceitos musicais como tema, desenvolvimento, variação, repetição, orquestração, redução, forma, montagem, entre outros. A actividade decorre hoje a partir das 14h30 mas repete-se durante todo o mês. Saibam mais aqui.
Às 18h00, o Teatro Nacional de São Carlos inicia uma série de Foyer Aberto sobre “A Ópera em Portugal antes do São Carlos”. Hoje falar-se-á sobre a ópera até ao terramoto de 1755. A entrada é livre.

Porto:
Caindo a tarde, há festa na Casa da Música. Depois de pulverizarem com melodias vários locais do Porto, os músicos da Orquestra Inesperada deste Dia da Música reúnem-se para um concerto que enche o palco com uma formação efémera de jovens executantes, sob a condução do Factor E!, a equipa de formadores do Serviço Educativo. A entrada custa €2,50.
Na Casa do Infante, realiza-se um concerto com os Quarteto de Clarinetes, Quinteto de Metais e Quarteto de Trombones, da Academia de Música de Costa Cabral, e a participação especial dos actores Joana Carvalho e Jorge Mota, que dirão poemas sobre música. Para ver e ouvir às 21h30, com entrada livre.
Na CDGo, a loja mais antiga do país, há 20% de desconto para comemorar. No espaço situado na Rua de Cedofeita inaugura, também, a exposição "Capa de Vinil - Do Hard ao Thrash Cover".
Já o Teatro Nacional S. João presta um tributo à guitarra portuguesa, ao homenagear os guitarristas Armandinho (Armando Augusto Freire, 1891-1946), Carlos Paredes (1925-2004) e José Fontes Rocha (1926-2011). O concerto começa às 21h30 e há bilhetes a partir dos €10” Sara Otto Coelho, in “ Vou Sair”

Saia do escuro


Consumo de anti-depressivos em Portugal subiu 7,1%
Os portugueses compraram mais 329 mil unidades de anti-depressivos nos primeiros oito meses deste ano que em igual período de 2011, o que representa uma subida de 7,1 por cento, revelam dados de uma consultora farmacêutica.
Entre Janeiro e Agosto de 2012 já foram vendidas em Portugal quase cinco milhões de unidades de anti-depressivos (4.970.062), mais 329.292 unidades - ou 7,1 por cento - do que em igual período do ano passado (4.640.770), segundo dados revelados à agência Lusa por ocasião do Dia Europeu da Depressão, que hoje se assinala.
Segundo a consultora IMS Health, entre Janeiro e Agosto de 2010 foram vendidas um total de 4.573.778 unidades.
Um estudo da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (SPPSM), divulgado na semana passada, revela, por sua vez, que um em cada quatro dos portugueses admite já ter sofrido de depressão.
Na opinião dos portugueses, a melhor opção para tratamento da depressão é o acompanhamento psicológico/psicoterapia (35%) e os medicamentos anti-depressivos (34 por cento), estes últimos conhecidos por 91 por cento da população, mas ainda vistos de uma forma muito negativa.
Relativamente às causas da doença, 96% dos inquiridos no estudo acreditam que a crise fez aumentar os casos de depressão em Portugal. Contudo, os problemas familiares e financeiros continuam a ser apontados como sendo as principais causas.
A propósito do Dia Europeu, que este ano é dedicado ao tema «Depressão em meio laboral», a psiquiatra Lucinda Bastos, do SPPSM, lembra que na população laboral, como na população geral, a depressão é duas vezes mais frequente nas mulheres do que nos homens.
Em Portugal estão previstas várias iniciativas para assinalar a efeméride. Em Lisboa, Matosinhos, Faro, Évora e Coimbra, por exemplo, será lançada, em simultâneo, a nova campanha nacional sob o mote «Saia do escuro. A depressão tem tratamento».
Lusa/SOL

Morreu Robin Fior


Morreu autor de cartazes do 25 de Abril
Robin Fior morreu hoje, aos 77 anos, em Mafra.
O designer britânico Robin Fior, 77 anos, autor de cartazes políticos da Revolução do 25 de Abril e do símbolo do Movimento de Esquerda Socialista, morreu no Sábado, em Mafra, revelou hoje à agência Lusa fonte próxima da família.
De acordo com a mesma fonte, o designer gráfico, que vivia em Lisboa desde 1972, encontrava-se internado há uma semana numa clínica de cuidados continuados em Mafra, onde veio a falecer na tarde de Sábado.
Nascido em 1935, em Londres, Robin Fior veio para Portugal atraído pelas mudanças políticas que já se prenunciavam no período anterior ao 25 de Abril, e criou vários cartazes para os movimentos de libertação de antigos territórios africanos sob administração portuguesa.
Autor do símbolo do Movimento de Esquerda Socialista
Fior foi também autor do símbolo do Movimento de Esquerda Socialista (MES), que congregou personalidades como Jorge Sampaio, Augusto Mateus, Ferro Rodrigues e Nuno Teotónio Pereira, tendo composto o design gráfico do órgão oficial do partido, o jornal Esquerda Socialista, durante alguns meses.
Foi um dos fundadores da Associação Portuguesa de Designers, em 1976, e ajudou a estabelecer o Centro de Arte e Comunicação Visual (AR.CO), onde deu aulas durante 25 anos, tendo desenhado muitas das suas publicações.
Frequentou a Harrow School, em Londres, um colégio interno de elite, onde aprendeu a fazer composição manual tipográfica, e também em Oxford, nos anos 1950, onde estudou Língua e Literatura Inglesa.
Nessa época, devido a um crescente interesse na política de esquerda, participou ativamente como profissional nesta área em atividades para a New Left, em Londres.
Criou cartazes, jornais, livros, panfletos e folhetos, alguns deles incluídos em exposições itinerantes e em coleções espalhadas pelo mundo, como a The British Social Poster, na Rússia.
Fez campanha pelo desarmamento nuclear e foi editor de arte da editora livreira britânica independente Pluto Press.
Cartazes ousados
Os cartazes criados em Portugal no período da revolução do 25 de Abril foram na altura considerados surpreendentes, pela ousadia e modernidade.
Ao longo da carreira, e sobretudo entre os anos 1950 e 1980, Robin Fior acreditava que a prática do design era, só por si, uma actividade política, pela mensagem que transmitia.
Em Junho passado, peças criadas por Robin Fior integraram a exposição dedicada ao design gráfico independente britânico, desde a década de 1960, que esteve patente na Galeria Barbican, em Londres.”in Jornal Expresso, 22:20 Domingo, 30 de Setembro de 2012