domingo, 6 de maio de 2012

Ao Domingo Há Música

"Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim
."

      Eugénio de Andrade, in "Os Amantes Sem Dinheiro" Editorial Inova sarl., Porto1973

A música dos Pink Floyd no memorável "The Wall Live in Berlin Concert"  de 1990. Sinead O'Connor interpreta  " Mother " e Joni Mitchell " Goodbye Blue Sky ". Duas vozes brilhantes para  este Domingo de todas as mães.



Mother

Mother do you think they'll drop the bomb
Mother do you think they'll like the song
Mother do you think they'll try to break my balls
Ooooh aah, Mother should I build a wall
Mother should I run for president
Mother should I trust the government
Mother will they put me in the firing line
Ooooh aah, is it just a waste of time
Hush now baby, baby don't you cry
Mama's gonna make all of your
Nightmares come true
Mama's gonna put all of her fears into you
Mama's gonna keep you right here
Under her wing
she won't let you fly but she might let you sing
Mama will keep baby cosy and warm
Ooooh Babe Ooooh Babe Ooooh Babe
Of course Mama's gonna help build the wall


Mother do think she's good enough for me
Mother do think she's dangerous to me
Mother will she tear your little boy apart
Oooh aah, mother will she break my heart
Hush now baby, baby don't you cry
Mama's gonna check out all your girl friends for you
Mama won't let anyone dirty get through
Mama's gonna wait up till you get in
Mama will always find out where
You've been
Mamma's gonna keep baby healthy
Ooooh Babe Ooooh Babe Ooooh Babe
You'll always be a baby to me
Pink Floyd

sábado, 5 de maio de 2012

A actualidade francesa em cartoon

A última semana da campanha eleitoral em França vista por Ranson e publicada no jornal " Le Parisien".




Padrão

O esforço é grande e o homem é pequeno.
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.

A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por-fazer é só com Deus.

E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.

E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.

Fernando Pessoa,"Mensagem", in Poesia completa de Fernando Pessoa", Edições Ática

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Um homem sábio

" Cai a chuva , o vento desmancha as árvores desfolhadas, e dos tempos passados vem uma imagem, a de um homem alto e magro, velho, agora que está mais perto, por um carreiro alagado. Traz um cajado ao ombro, um capote  enlameado e antigo, e por ele escorrem todas as águas do céu. À frente caminham os porcos, de cabeça baixa, rasando o chão com o focinho. O homem que assim se aproxima, vago entre as cordas da chuva, é o meu avô. Vem cansado, o velho. Arrasta consigo setenta anos de vida difícil, de privações, de ignorância. E no entanto é um homem sábio, calado, que só abre a boca para dizer o indispensável. Fala tão pouco que todos nos calamos para o ouvir  quando no rosto se lhe acende algo como uma luz de aviso. Tem uma maneira estranha de olhar para longe, mesmo que esse longe seja apenas a parede que tem na frente. A sua cara parece ter sido talhada a enxó, fixa mas expressiva, e os olhos, pequenos e agudos, brilham de vez em quando como se alguma em que estivesse a pensar tivesse sido definitivamente compreendida. É um homem como tantos outros nesta terra, neste mundo, talvez um Einstein esmagado sob uma montanha de impossíveis, um filósofo, um grande escritor analfabeto. Alguma coisa seria que não pôde ser nunca. Recordo aquelas noites mornas de Verão, quando dormíamos debaixo da figueira grande, ouço-o falar da vida que teve, da Estrada de Santiago que sobre as nossas cabeças resplandecia, do gado que criava, das histórias e lendas da sua infância distante. Adormecíamos tarde, bem enrolados nas mantas por causa do fresco da madrugada.  Mas a imagem que não me larga nesta hora de melancolia é a do velho que avança sob a chuva, obstinado, silencioso, como quem cumpre um destino que nada poderá modificar. A não ser a morte. Este velho, que quase toco com a mão, não sabe como irá morrer. Ainda não sabe que poucos dias antes do seu último dia  terá o pressentimento de que o fim chegou, e irá, de árvore em árvore do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, das sombras amigas, dos  frutos que não voltará a comer. Porque terá chegado a grande sombra, enquanto a memória não o ressuscitar no caminho alagado ou sob o côncavo do céu e a eterna interrogação dos astros. Que palavra dirá então?"
José Saramago, in " As pequenas memórias", Editorial Caminho

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Balada dos amigos separados


Onde estais vós Alberto Henrique
João Maria Pedro Ana?
Onde anda agora a vossa voz?
Que ruas escutam vossos passos?
Ao norte? ao sul? aonde? aonde?
José António Branca Rui
E tu Joana de olhos claros
E tu Francisco E tu Carlota
E tu Joaquim?
Que estradas colhem vosso olhar?
Onde anda agora a vossa vida repartida?
A oeste? A leste? Aonde? Aonde?
Olho prà frente prà cidade
e pràs outras cidades por trás dela
onde se agitam outras gentes
que nunca ouviram vosso nome
e vejo em tudo a vossa cara
e oiço em tudo o som amigo
a voz de um a voz de outro
e aquele fio de sol que se agitava
sempre
em todos nós
Dançam as casas nesta noite
ébrias de sombra nesta noite
que se prolonga em plena angústia
aos solavancos do destino
e não consegue estrangular-nos
Sigo e pergunto ao vento à rua
e a esta ânsia inviolável
que embebe o ar de calafrios
Onde estais vós? onde estais vós?
E por detrás de cada esquina
e por detrás de cada vulto
o vento traz-me a vossa voz
a rua traz-me a vossa voz
a voz de um a voz de outro
toada amiga que me banha
tão confiante tão serena
Aqui aqui em toda a parte
Aqui aqui E tu? aonde?

Mário Dionísio,in "Poesia Incompleta", Mem Martins, Publicações Europa-América, 1966

«Open Mind» para Manoel de Oliveira


'Terezinha' entrega «Open Mind» a Manoel de Oliveira

O realizador mais velho do mundo em actividade – o portuense Manoel de Oliveira – vai receber o prémio Open Mind das mãos de Fernanda Matos, a famosa Terezinha, personagem principal da sua primeira longa metragem de ficção «Aniki Bobó» (1942).
Esta distinção, atribuída anualmente pela ALTEC - Associação de Laserterapia e Tecnologias Afins, será entregue durante a V Gala da Ciência que terá lugar a 26 de Maio no Casino da Figueira da Foz.
Exactamente 70 anos depois de ter sido rodado um dos mais acarinhados filmes portugueses de sempre, na Ribeira do Porto, o realizador e a 'Terezinha' reencontram-se na Figueira, a propósito deste prémio que assinala também o Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações, que se comemora este ano.
Manoel de Oliveira, nascido a 11 de Dezembro de 1908, é o exemplo de uma mente activa. O seu trabalho rigoroso e criativo influenciou (e continua a influenciar) gerações de cineastas. Começou a fazer cinema ainda na época do mudo («Douro Faina Fluvial», de 1931), depois de ter sido atleta e piloto de automóveis, e, desde os anos 80 realiza, em média, um filme por ano.
Este ano está prevista a estreia de duas novas obras «A Igreja do Diabo», co-produção luso-brasileira baseada em contos de Machado de Assis, e «O Gebo e a Sombra», uma adaptação da peça homónima de Raul Brandão.
O prémio Open Mind conta com o patrocínio da Action Coach Porto. in " CiênciaHoje"em 30/04/2012

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Os Livros e a Feira de Lisboa

Os Livros

Os livros duram séculos e
falam da melodia da chuva,
dos rios e dos mares, das fontes,
dos húmidos beijos dos
amantes, mas também

morrem despedaçados num
qualquer temporal que parte
as vidraças e lhes tolhe as páginas
numa brutal invasão líquida.

E falam do fogo
das paixões, de estrelas
a arder no infinito,
mas o convívio das chamas
é-lhes vedado, apesar
da torpe ignorância
a isso os ter condenado
tantas vezes.

Quantos naufrágios e incêndios
os destruiram, para depois
ressurgirem múltiplos,
audazes amigos tão antigos e
tão novos.

Inês Lourenço in "Coisas que nunca" Editora & etc., Lisboa, 2010


Ano após ano, a  Feira do Livro de Lisboa realiza-se no Parque Eduardo VII com vista privilegiada  para o rio Tejo. Os livros são os actores principais deste evento, onde os encontros  de leitores com os escritores também acontecem.
A Feira conta com a participação de editoras portuguesas e internacionais, tem cerca de 200 pavilhões e termina a 13 de Maio.
Sob o tema "Lugares bem Lidos", o DN  realizou um Documentário onde aborda a Feira através de inesperadas leituras.

 

terça-feira, 1 de maio de 2012

Não há conquista sem luta

Para lá do arco-íris
por Baptista Bastos
Dobro os olhos para antigamente, há trinta e oito anos, ontem, e não me reconheço nem àqueles rostos luminosos, a esperança à solta, o mundo e a vida tinham as nossas idades. Nada nos prende àquilo; tudo nos prende àquilo. Somos nós e não o somos. "Acabou a tua festa, pá!", cantou o Chico Buarque. Sobrou alguma coisa? Sobraram estes rostos desencantados, esta esperança cheia de ausências, este mundo velho e tonto. Mas ainda estamos aqui. Para o que der e vier.
As coisas não correram muito bem. As nossas ambições iam para lá do arco-íris. E pensávamos ter conquistado as extensões exemplares da felicidade ininterrupta. Não porque a Providência tivesse partilhado com todos o dom do sonho, mas porque assim pensávamos. A nossa exultação comprometia toda a gente? Nem toda; nós julgávamos que sim. Avaliámos mal a importância da alegria sentida, e talvez por isso o despertar e as consequências desse despertar tivessem a configuração de um pesadelo. Mas não sejas parco a pedir: tenta, sempre e sempre, atingir o inatingível.
Pessoalmente, embora magoado e ferido, nunca deixei de acreditar que a História caminha no sentido da libertação do homem, e que a esperança é capaz de ter sempre razão. A esperança não como uma questão de fé, sim como fisionomia da paixão. A esperança como uma ideologia, não como um dogma.
Há dias ouvi, rtp-1, o prof. João Lobo Antunes, num admirável diálogo com o bispo do Porto, comentar que os assassinos da esperança deveriam ser punidos. A esperança é a consciência de que as coisas estão ao nosso alcance; basta querermo-las, mas é preciso quere-las. Talvez, digo eu, esses assassinos tenham cometido o pior de todos os pecados: a degradação do eterno no que o eterno possui de mais temporal e de mais humano.
Claro que não nos reconhecemos naqueles rostos, então luminosos. Porém, a nossa alma, essa, ainda está lá, nesse vácuo e nesse resumo. E onde está a alma desta gente que nos governa e que nada a demove, desconhecedora da singularidade de cada qual, penetrada pelo mito da perenidade e pela imutabilidade das suas próprias decisões - onde está? Não perderam a grandeza: nunca a tiveram.
Há trinta e oito anos que me esperava, que nos esperava? As horas loucas de meses proliferantes; uma verdade que deixara de nos ser negada. Durou pouco; todavia, não fomos derrotados, nem estes que tais são vencedores: transeuntes, somente transeuntes. Éramos os protagonistas de uma história à altura do homem, e o homem dispunha de uma densidade criadora revalorizada a cada instante, em cada protesto, em cada acto. O nosso estado actual, acaso triste e até nefasto, é interregno para outra etapa do movimento. Já o escrevi. Repito-o: não há conquista sem luta nem luta sem sofrimento. Muitas vezes, um simples sinal, modesto, escasso vale uma vida.
E aqui estamos. "
Baptista Bastos em Artigo de Opinião publicado no DN em 25/04/2012