quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Cinema e Literatura


A lua no cinema

A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
_____a história de uma estrela
que não tinha namorado.

_____Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
_____dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!

_____Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava pra ela,
_____e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.

_____A lua ficou tão triste
com aquela história de amor
_____que até hoje a lua insiste:
- Amanheça, por favor!
                      Paulo Leminski , in  "Distraídos venceremos", Brasiliense, 1987, SP

Literatura e Cinema entrelaçam-se e cruzam-se ao longo dos tempos. Ora porque a Literatura tem servido o Cinema ao permitir-lhe  que  uma obra literária se transforme num guião  cinematográfico, ora porque  o Cinema tem imortalizado na tela muitas das  grandes obras. Nesse aparente movimento, a intemporalidade passou  a ser património comum.   Não faltam exemplos que veiculam essa realidade. Muitos outros surgirão num futuro de  cumplicidade  e  de frequente genialidade. Hoje ,reportamos alguns que são notícia:


Retrospectiva “ Cinéma et Littérature” no Quartier Latin, em Paris
"A ” Filmothèque du Quartier Latin” lança uma grande retrospectiva “Littérature et Cinéma” de 10 de Janeiro a 14 de Fevereiro de 2012. São cinco semanas de Encontros, de Debates, e de Projecções para ver ou rever, ler ou reler mais de sessenta obras-primas cinematográficas e literárias.
Entre os convidados estão: Dominique Barbéris, Emmanuel Carrère, Thomas Clerc, Maylis de Kerangal, Eric Laurrent, Carole Martinez, Christine Montalbetti, Atiq Rahimi, Eric Reinhardt, Zoé Valdès, Tanguy Viel...
Será possível  assistir a algumas projecções interessantes, mas  também escutar leituras realizadas pelos próprios autores.
Está previsto um fim-de-semana totalmente dedicado a François Sagan, na semana de 8 de Fevereiro, com a presença do seu filho Denis Westhoff. Irène JACOB lerá excertos de “Ecrire » de Marguerite Duras antes de “Nathalie Granger.”
Alguns filmes como  “L'Insoutenable légèreté de l'être ” de Philip Kaufman e “La Mouette”, filme  inédito de 1972 de Youli Karassik serão reeditados em ante-estreia durante esta retrospectiva. "
Leia mais em : In the mood for cinéma
Por Cécile Mazin, in «  Actualitté, les univers du livre »,5/12/2011, tradução de Livres Pensantes.


Um novo filme para a Primavera de 2012 baseado num clássico conto infantil
Branca de Neve e os sete anões e a vilã , a madrasta , num grande desempenho de Julia Roberts é a proposta de filme para a próxima Primavera. Uma nova forma de contar a mítica história infantil em linguagem cinematográfica.
Era uma vez , num castelo, uma magnífica princesa, cuja pele era branca como a neve e os cabelos negros como a noite....
Este é o início do célebre conto dos irmãos Jacob e Wiltelm Grimm, publicado em 1812 e que, de geração em geração, vai animando a fantasia infantil.
O título escolhido para o filme que se baseia nesse clássico da Literatura Infantil é "Mirror, Mirror" já que, numa abordagem diferente e adulta, pretende valorizar e destacar o papel da madrasta ao longo da trama. Com a promessa de que a vilã morrerá no final, a estreia está prevista para 16 de Março de 2012, nos Estados Unidos e em França.Os cenários são de Jason Keller e a realização de Tarsem Singh.


"Mistérios de Lisboa" nomeado para melhor filme estrangeiro pela Internacional Press Academy
"O muito aplaudido "Mistérios de Lisboa", do realizador Raúl Ruiz, que morreu em Agosto, foi nomeado em três categorias do Satellite Award, prémios da Internacional Press Academy dos Estados Unidos. As nomeações incluem a categoria de melhor filme estrangeiro. A directora de arte Isabel Branco vai a votos nas categorias de melhor direcção artística e melhor guarda-roupa.
Estas nomeações da adaptação cinematográfica do livro homónimo de Camilo Castelo Branco surgem dias depois de o círculo de críticos de cinema nova-iorquinos, o New York Film Critics Circle (NYFCC), ter atribuído postumamente ao realizador chileno o Special Award 2011.
O filme, co-produzido em 2010 pela portuguesa Clap Filmes, foi muito bem recebido tanto pela crítica como pelo cinema comercial. Na competição da IPA, cuja lista de nomeados pode ser consultada aqui, vai concorrer com mais nove filmes, cinco dos quais europeus (belga, húngaro, francês, finlandês e russo) e um deles, "Nannerl, la soeur de Mozart", produzido em França em 2010, da mesma distribuidora da longa-metragem de Raúl Ruiz, a Music Box Films
.
A adaptação da obra oitocentista, com argumento de Carlos Saboga e produzida por Paulo Branco, roda à volta do destino de Pedro da Silva (João Baptista), um órfão de um colégio interno que, através do padre Dinis (Adriano Luz), descobre a identidade da mãe, a condessa Ângela de Lima (Maria João Bastos).
"Mistérios de Lisboa" é uma da centena de obras de Ruiz. Estreou-se nos Estados Unidos quatro dias depois de o cineasta morrer a 1 de Agosto de 2011. O filme tinha feito um percurso internacional bem sucedido que lhe valera já o Prémio Louis Delluce, em San Sebastián (Espanha), e o Prémio da Crítica na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Em Portugal, a longa-metragem (4h26) estreou-se em Outubro de 2010 e foi mais tarde exibida na RTP em formato de minissérie em seis episódios.
O livro de Camilo Castelo Branco chegou a estar no top das vendas de uma Fnac de Paris, depois do sucesso internacional do filme que, dias depois da morte de Ruiz, contava já com mais de 100.000 espectadores em França.
A ligação de Raúl Ruiz a Portugal vinha dos anos de 1980. Depois de "Le Territoire", "La Ville des Pirates" e "Les Destins de Manoel", o realizador partiu para a rodagem de "Mistérios de Lisboa", altura em que adoeceu, embora meses mais tarde começasse a preparar "As Linhas de Torres" com a mesma produtora portuguesa.” In “Público” por
 Pedro Crisóstomo,04.12.2011

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A poesia também é Fado


Quando a poesia também é Fado, a força das palavras enleva-se em profundo cântico. O poema junta-se aos sons das guitarras e da viola para, na voz maior do fadista,   celebrar o Fado. Camané fá-lo com mestria e emoção  em "  Mais um Fado no Fado".




Mais um fado no fado

Eu sei que esperas por mim
Como sempre, como dantes
Nos braços da madrugada...
Eu sei que em nós não há fim,
Somos eternos amantes,
Que não amaram mais nada.

Eu sei que me querem bem,
Eu sei que há outros amores
Para bordar no meu peito.
Mas eu não vejo ninguém,
Porque não quero mais dores
Nem mais baton no meu leito.

Nem beijos que não são teus,
Nem perfumes duvidosos,
Nem carícias perturbantes,
E nem infernos nem céus,
Nem sol nos dias chuvosos,
Porque inda somos amantes.

Mas Deus quer mais sofrimento,
Quer mais rugas no meu rosto
E o meu corpo mais quebrado...
Mais requintado tormento,
Mais velhice, mais desgosto,
E mais um fado no fado.

Poema de Júlio de Sousa
Música de Carlos da Maia ( Fado Perseguição)  

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Uma praga resistente

"Vieram coxos, cegos e paralíticos , com muita lamúria suplicar o remédio de seus males: porém nada de milagres e saíram como entraram."
                                                Colecção Moreira -" Sentenças da Inquisição"

O AMIGO “CUNHA” (I)
                        por Varela Pires
" Quem não ouviu falar no Cunha? Digam lá!... Pelo menos uma ou duas vezes já ouviram falar dele, caramba!... Não afirmem que não!?... Eu sei que o conhecem. De certeza. Ora, vamos lá a puxar por essas cabecinhas…
Ó, esse Cunha, raios o partam!... Ainda estão indecisos? Ainda o não reconhecem?!... Lembrem-se, façam um esforço, pois!… Desculpem-me a brejeirice, o enfado, a falta de polimento de maneiras, quando falo dele. É o reflexo de lhe conhecer os métodos, as manhas, os “golpes” que usa a qualquer momento e em qualquer parte.
Ah!... Vejam, só! Já se lembram dele, pois então!... Sim! Sim! Esse mesmo, em que estão a pensar. O amigo Cunha!... E se ele é importante, bolas!...
Quem nesta negregada vida nunca lhe apertou a mão ou nos acasos de “aperto” não lhe segredou ao ouvido o que pretendia, desgraçado é ou desgraçado foi. Ou, então, nunca foi amado pelos deuses e é um triste, não haja dúvida!...
Ah!... Esse incontornável amigo Cunha!… Ora aqui… Ora ali… Ou até mais além… Sereno, mas inúmeras vezes apressado. Cumprimenta, em certas ocasiões, empertigado, olhando-nos de soslaio. Faz que não nos vê, em muitas outras situações em que cruzamos com ele. O malandrete!... E rodopia, esgueira-se pelas esquinas, some-se nos corredores, fechando ou abrindo portas, conforme a necessidade dos que o solicitam. Introduz-se insuspeito e com habilidade nos gabinetes. Sempre pronto “ao cavaco” com quem melhor lhe possa servir os interesses dos seus protegidos.
Serviçal (quantas vezes, servil também!...), útil (se o é!!!...), influente, quase imprescindível, para servir um e outro. Infiel a muitos, já se vê!... Nunca amigo certo de ninguém.
Vai sugerindo, alvitrando, tocando no braço, trocando olhares cúmplices, melífluo, todo ele sorrisos e gentileza, mesmo quando está a perder “jogando a feijões”… Cochichando com um secretário, gargalhando com um adjunto, esportulando o contínuo, mesureiro com a minissaia da telefonista, doce com a jovem assessora do senhor presidente, prometendo o que não tem, oferecendo o que já teve, “emprenhando” os ouvidos dos directores com lisonja e elogios fúteis, tão agradáveis de escutar, música de deuses.
Aí o temos, viscoso, escorregadio, a escapulir-se por entre os dedos… quando o queremos tocar ou agarrar. Surge apressado na hora “H”, esquecido das outras, tão importantes como esta.
O Cunha! Brioso, cunhíssimo!...
Há quanto tempo o não viam?... Uhm!...
Tão invisível, como envolvente. Subtil, como persistente. Necessário, como promíscuo. Anjo, como mafarrico cruel. Desprezível, como desejado. Tão procurado, como retido. Tão real, como imaginário. Presente, milhentas vezes. Ausente, outras tantas, ou mais! O seu paradeiro? Ah! Queriam?!... Queriam saber-lhe a morada?! Ah!... Não se atrevam!... Não sejamos ingénuos! O Cunha nunca confessa onde dorme (se é que dorme!...) ou onde reside, as lojas onde compra os fatos de marca. Paira por aí. Somente.
Que amigão, o Cunha! Vejam só. Ele é afilhado do gerente, como sobrinho do director. É primo chegado de qualquer deputado, como compadre do procurador. É colega do comissário, como parente do ministro. É enviado secreto, como “homem de mão”, de qualquer Partido Político. O que calha! O que convém…
Amigo do peito e do papel “selado” ou coisa que o valha, em variadíssimas ocasiões. Indispensável, numas. Uma praga, noutras! Todos o detestam, mas todos eles nunca o podem dispensar definitivamente em qualquer momento da vida. Só os tolos e os suicidas lhe dizem “não”. Os que já nada têm a perder, infelizmente.
Ah!... O Cunha! Santo para um. Abominável, para os que restaram. Grande “cunha”, bolas!!!... Inacessível em quantas horas de aflição, esse malandro! Amigo providencial, amigo do peito para quem o tem à mão de semear. Pois, então!...
Solene, como um político importante. Insinuante, como um banqueiro. Matemático, quando os números são perfeitamente dispensáveis. Engenhoso, quando a engenharia política é a porta de entrada para tudo, menos para a pobreza e para a ruína.
Sacerdote, quando o altar e turíbulo do incenso se metem no assunto. Frade, quando o magistério de influência cheira a sacristia. A sotaina também nunca lhe ficou mal! Sem uma ruga, sequer. O Paço Episcopal é-lhe familiar, conhece-lhe todos os ângulos. Não precisa fazer-se anunciar. A mitra, meus senhores?!... A mitra?!.... Quantas vezes lhe foi solicitada!... E colocou-a temporariamente, porque tamanha era a necessidade. E nas procissões, segue piedoso e recolhido titubeando padres-nosso e ave-marias atrás do andor principal, enchendo os tímpanos com a fanfarra. Até o sacro Chapéu Cardinalício, depois de uma ida a Roma, já lhe assentou divinamente na cabeça, em certo dia de Pentecostes!...
Minha, nossa!... Lampeiro, esperando sempre recompensa ou mais-valias… aí segue o nosso (a nossa) Cunha. Sonha como um poeta, esmaga qualquer dialéctica dos filósofos, toma o café matinal com o presidente, almoça com ministros, lancha com deputados, janta com os banqueiros, toma o seu cálice de “porto seco” à noite com um juiz, sabiamente divagando sobre a importância de um pequeno país se fazer ouvir nos areópagos internacionais, nem que se tenha de ferrar um valente murro na mesa, lá em Bruxelas."
(Continua) VARELA PIRES

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Recortes noticiosos

Em Itália
Ontem, numa Conferência de Imprensa ao anunciar a reforma do sistema de pensões, que vai introduzir um aumento dos anos de trabalho, a Ministra do Trabalho e dos Assuntos Sociais de Itália não conseguiu conter as lágrimas. Quando estava prestes a pronunciar a palavra “sacrifícios” a comoção foi tanta que não foi capaz de continuar. A apresentação teve de prosseguir com a intervenção do Primeiro Ministro , Mario Monti.
Elsa Fornero tem-se dedicado profundamente , ao longo da sua vida, ao estudo do estado social e do sistema de pensões. É uma especialista valiosa nesta matéria e, por tal, foi–lhe dada a pasta correspondente a essa especialidade. Contudo, a tecnicidade exigida pela reforma não lhe retirou a dor que lhe provocam essas medidas.




" A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento", Milan Kundera , in " O Livro do Riso e do Esquecimento"
Em Portugal
A Universidade do Porto homenageou os Professores e Investigadores vítimas das purgas académicas do Estado Novo.
"No passado dia 30 de Novembro, Quarta- Feira ao fim da tarde, na Reitoria da Univerisdade do Porto (UP) juntaram-se João Monjadirno (Fundação Professor Francisco Pulido Valente), Manuel Loff, historiador e director da Faculdade de Letras da UP, e José Marques dos Santos, o seu reitor. Depois da sessão, foi inaugurada à entrada do recinto da reitoria uma placa comemorativa com o nome dos 42 homenageados.
"É difícil para os que sempre viveram em democracia entender o ambiente daquela época", afirmou João Monjadirno, professor jubilado do Imperial College (Londres), que abriu a sessão.
As expulsões, que decorreram nos anos 30 e 40, durante a consolidação do Estado Novo, foram feitas segundo um decreto-lei que informava que "o conselho de ministros podia mandar aposentar, reformar ou demitir os funcionários ou empregados" que revelassem "espírito de oposição aos princípios fundamentais da Constituição Política" ou não dessem garantias de "cooperar na realização dos fins superiores do Estado".
Nestas demissões não foi movido nenhum processo disciplinar, ou outro. Os professores foram "sumariamente despedidos sem direito a defesa". No Porto, a faculdade que mais sofreu foi a de Ciências, com oito expulsões.
Este "período negro" da Universidade portuguesa fez com que alguns dos mais brilhantes cérebros tivessem de desenvolver a sua actividade no estrangeiro, impedidos estavam de "contribuir para o desenvolvimento do seu próprio país", disse Manuel Loff.
Na resenha histórica que apresentou daquele período, realçou a incompatibilidade dos regimes totalitários com a independência de espírito que é característica do meio universitários e abordou os momentos fulcrais dessa relação difícil.
Destacou ainda professores e investigadores como Abel Salazar, Ruy Luís Gomes, Bento de Jesus Caraça, Manuel Rodrigues Lapa ou Andrée Jeanne Crabbé Rocha, única mulher entre os homenageados.
A fechar a sessão, José Marques dos Santos lembrou os familiares destas figuras perseguidas. "No primeiro centenário da Universidade do Porto, que se comemora este ano, é finalmente prestado tributo às pessoas que contribuíram para engrandecer a instituição e para fazer de Portugal um país democrático".
Esta homenagem, que incluiu também a publicação da brochura «A depuração política do corpo docente das universidades portuguesas durante o Estado Novo», por Fernando Rosas e Cristina Sizifredo, foi organizada pela Fundação Pulido Valente, Instituto de História Comtemporânea da FCSH/UNL, Fundação Mário Soares e o Movimento Cívico Não Apaguem a Memória. Participou também a Fundação para a Ciência e Tecnologia." Por Luísa Marinho (texto e fotos), in " Ciência Hoje" 2011-12-01

domingo, 4 de dezembro de 2011

Ao Domingo Há Música

Dezembro é o prenúncio do fim do ano e do início do Inverno. Dezembro é também o mês que coloca ritualmente o Homem no centro das celebrações . E sendo que as relações humanas necessitam de laços para sobreviverem, o apelo aos amigos é o desafio que se lança para este Domingo de Dezembro.
Para que a litania toque a todos , fica a voz cava e inconfundível de Joe Cocker numa grandiosa interpretação da célebre canção dos Beatles "With a Little Help From My friends", no "Queen's Golden Jubilee", em 3 de Junho de 2002 . Acompanhavam-no Phil Collins na Bateria, Phil Palmer e Brian May dos "Queen" nas Guitarras e um Coro de excelência.




What would you think if I sang out of tune?
Would you stand up and walk out on me?
Lend me your ears and I'll sing you a song,
And I'll try not to sing out of key.

Oh, I get by with a little help from my friends,
Mm, I get high with a little help from my friends,
Mm, gonna try with a little help from my friends.

What do I do when my love is away?
(does it worry you to be alone?)
How do I feel by the end of the day?
(are you sad because you're on your own?)

No, I get by with a little help from my friends,
Mm, I get high with a little help from my friends,
Mm, gonna try with a little help from my friends

Do you need anybody?
I need somebody to love.
Could it be anybody?
I want somebody to love.

Would you believe in a love at first sight?
Yes I'm certain that it happens all the time.
What do you see when you turn out the light?
I can't tell you, but I know it's mine.

Oh, I get by with a little help from my friends,
Mm, I get high with a little help from my friends,
Mm, gonna try with a little help from my friends.

Do you need anybody?
I just need someone to love,
Could it be anybody?
I want somebody to love.

Oh, I get by with a little help from my friends,
Mm, gonna try with a little help from my friends.
Oh, I get high with a little help from my friends,
Yes, I get by with a little help from my friends,
With a little help from my friends.

Composição: Lennon/McCartney

sábado, 3 de dezembro de 2011

OUTONO


Mas quem diria ser Outono
se tu e eu estávamos lá?
(Tínhamos sono... Tanto sono!
É bom dormir ao deus-dará...)

E sobre o banco do jardim,
ante a cidade, o cais e o Tejo,
seria bom dormir assim,
ao deus-dará, como eu desejo...

Mas o teu seio é que não quis:
tremeu de mais sob o meu rosto...
Agora, nu, será feliz,
sob o afago do sol-posto...

Seria Outono aquele dia,
nesse jardim, doce e tranquilo...?
Seria Outono...
                        Mas havia
todo o teu corpo a desmenti-lo.

David Mourão-Ferreira, in "Obra Poética", Lisboa, Editorial Presença, 1996

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Uma visão desmedida


“Você sonha demais, e, à força de querer outras coisas que não há, vai negando as coisas que existem, o que é uma forma de alienação pura e simples. Porque o que havia entre ambos, separando-os, eram as falsas dimensões sonhadas, disse Afonso, e por isso ele proibia-a de sonhar. Mas ela abria um guarda-sol na varanda e sonhava debaixo do guarda-sol, ou abria um guarda-chuva na rua, e sonhava debaixo do guarda-chuva, onde ele não pudesse ver a sua cabeça e os sonhos que corriam dentro dela.
(...) Precisava de se sentir existindo , de ser atingida, mesmo que tivesse de sofrer para se provar que estava viva. (...) Existir, existir, um instante, na coincidência do seu ser com o seu corpo, fechar os olhos, cambaleando, de repente devorada pela sua própria força. Regressar a casa e ser submersa em fadiga, dias moles, objectos vagos, milhares de gestos inteiramente inúteis. A força dele sobre ela era assim uma força de identificação que a levava a perder os seus próprios contornos, somando-a, apenas, à vida que era a dele, e por isso ela vagueava, diluída, na casa que era a dele, e não a dela ?
(...)É que ela esperava que o amor fosse uma ponte para outra coisa, disse Afonso, outra coisa que não existia, não existiria nunca, ela forçava obscuramente um caminho através do amor, através dele, uma saída, uma porta, uma passagem, como se o universo fosse de repente abrir-se, alargar-se em direcções diversas - mas não havia no universo dimensões sonhadas, existia apenas o quotidiano, exacto e transparente.
(...)mas ela queria a vivência, a qualquer preço, procurava uma visão desmedida das coisas, e por isso sofria, porque toda a consciência era dolorosa. Ir sempre mais além, como um animal caminhando obstinadamente pela areia, um pequeno animal cego avançando, recusando cada ponto de chegada para nunca parar de caminhar, era isso, Lídia, ele sabia, a ansiedade que a levava a recusar a sua vida, a vida possível, na pressa de procurar outra, mais alta mas inexistente, Lídia, ele sabia.(…)porque não temos para viver senão este universo, e era preciso que ela aceitasse isso, finalmente a tensão entre eles era assim entre as coisas imóveis e as coisas movediças, entre a ordem e uma desordem contra a qual, obscuramente, ele se defendia? O tempo à beira-mar, o curto verão, o amor breve, e desde o início uma tensão crescente, de repente tão perto que ele caía no seu campo magnético, na sua zona de tensão, e se ela desse mais um passo,um único, ele ficaria subitamente vulnerável e não saberia mais onde apoiar os pés em terra firme. Porque então tudo teria de ser posto em causa – e como ter coragem de recusar os alíbis, de caminhar sem apoio, num mundo que perdera as coordenadas, então ele colocara atrás de si uma barricada de objectos e continuava a escrever, no seu pequeno espaço de segurança provisória, mas ela acabava sempre por invadir mesmo esse espaço diminuto, como se para ela nunca houvesse fronteiras (…) O último degrau, descer interiormente o último degrau, despojar-se de tudo e também de si mesmo, deixar todas as coisas para trás e não ter mais nada para levar consigo – era esse, então , o ponto de rotura para onde ela o arrastava, a prova de fogo depois da qual e só depois da qual, seria possível recomeçar de outro modo?"
Teolinda Gersão, in "O Silêncio", Sextante Editora, Lisboa, Portugal

“O silêncio” é uma história de amor. Um diálogo entre Afonso, um cirurgião famoso de meia-idade, e a jovem Lídia, que se torna sua amante e o liberta de um casamento convencional e frustrado.
Lídia fala de si , de sua mãe, Lavínia, do seu modo inquieto de olhar o mundo. Mas o que Lídia conta é exactamente o que Afonso não quer ouvir. “

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Abbiamo fame


"Depois, mais do que a dor, venceu a fome." Dante Alighieri in "Inferno, Divina Comédia"

"No inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise." Assim escreveu Dante Alighieri , " il sommo poeta", nascido em Florença em 1265. E foi em Florença por entre ruas inundadas por gentes diversas em busca do esplendor artístico e cultural da cidade que, num canto, um cão disciplinado exibia um insólito letreiro: abbiamo fame. Era o apelo do novo tempo e de outra gente que não tinha escolhido a neutralidade. Ali, onde o passeante se deslumbrava com a marca magnânima de um passado majestoso era, abrupta e estranhamente , desviado e catapultado para um presente real e empobrecido. Era a visão exacta do declínio europeu.
A Europa, onde o homem foi um valor, está em convulsão. E a crise domina tudo e todos. Foi a Grécia a ceder: substituiu o governo pela via económica. Seguiu-se a própria Itália, elevando Prodi sem eleições. E assim vai alastrando a contaminação. A Democracia europeia extingue-se em agónica pressão. São as agências de rating e o eixo franco-alemão que comandam os destinos das nações. Os números exorbitantes traduzidos em milhões de milhões assustam e exigem vassalagem. Colocados em patamares ou em níveis inimagináveis, os países são considerados lixo pelos novos Ditadores. E foi assim que, nestes dias, Portugal ficou LIXO. E foi assim apresentado pelo Governo Português e aprovado, ontem, pelo Parlamento um Orçamento que tanto corta que nem Lixo produzirá.
E porque o grande êxodo da liberdade nos está despossessando e porque as fronteiras económicas nos estão a converter em indiferenciados registos numéricos : abbiamo fame.