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sábado, 21 de fevereiro de 2015

A Ilha do Mussulo

Andar de olhos abertos. Descobrir. Absorver. Deixar entrar tudo o que se abarca numa diversidade desconcertante é o desassossego dos dias em África. 
Imparável, inebriante, imprevista, incómoda, infinda, inigualável, inquieta… importuna quem avista  para se intrometer sem permissão. Em África, estar ou viver é sempre in e dificilmente out.
Escolher para onde ir, quando tudo se insinua, em desconhecida volúpia paisagística, é o maior desafio para quem chega ou (re)torna a Angola. 

Luanda desfaz-se em sedução. Presa numa Marginal majestosa lança apertado convite a um passeio à beira-mar. Mas há tempo para  a (re)ver e deixar que se imponha em despudorada tentação.
O dia vai para uma ilha, a ilha do Mussulo, que namora a capital,  num carinho discreto e menos carnal do que a outra ilha que a capturou: a ilha do Cabo, a eterna praia de Luanda.


A ilha do Mussulo alonga-se verdejante e afasta-se da cidade para que seja visitada e louvada . Numa extensão de cerca de trinta quilómetros , a ilha do Mussulo é o paraíso mais próximo da capital.



Afirma-se que a formação desta ilha  resultou  da aglomeração dos sedimentos do Rio Kwanza, situado na costa  Sul, a 70 Km de Luanda . Composta por uma elegante restinga que abraça a baía do Mussulo,  onde convivem três ilhas, tem como limite, do outro lado, o  Oceano Atlântico. Um oceano  a beijar enamorado um  vasto areal que se nos entrega a sussurrar que somos únicos e senhores daquele imenso reino pacífico e quase deserto.

Praias e praias em recantos que nos espantam. Vegetação luxuriante que cresce e se estende pelas águas da baía, numa bonomia inesperada. Coqueiros altivos, casuarinas  delicadas, palmeiras vetustas, figueiras frondosas e um sem fim de pequenos arbustos que se banham numa languidez partilhada.
 



Chega-se e a captura avança em sintonia com as descobertas. Nem sempre é possível registar tanta solicitação. Perdemo-nos numa progressiva e avassaladora fruição de um espaço aberto guardado apenas para nos deliciar.


São as águas transparentes da costa oceânica; as areias douradas que  nos aquecem após banhos  descontrolados; o caminho para a baía salpicado por uma vegetação peculiar que nos remete para  as portuguesas rias do Alvor e da Formosa, no Algarve. 
E as gentes do Mussulo? Há comunidades de pescadores . Vivem da pesca . As famílias estendem-se em dispersos aglomerados. Escolas , centros de saúde e também turismo. Todo ele condensado na margem da baía. É aí que estão os restaurantes, alguns resorts e vivendas de fim-de-semana ou para férias.




Mas o encanto maior desta gente do Mussulo reside nas crianças. Brincam com qualquer coisa. De tudo nasce um objecto de diversão. Os banhos ocupam-lhes  o dia, quando a pausa escolar se impõe. 
E era o tempo de Carnaval. Escola fechada e ei-los correndo pela ilha,  qual bando de pardais à solta, como canta o nosso Carlos do Carmo.
Olhares e sorrisos em rostos inesquecíveis . São assim os meninos  do Mussulo.