quarta-feira, 17 de julho de 2019

Eu nunca vi uma coisa tão bárbara

Extradição de militar torturador
por Manoel de Andrade
"Passar a limpo tudo isso é só uma questão de tempo. Na história das lutas políticas e sociais, mais tarde ou mais cedo, sempre são revelados os nomes dos heróis e dos bandidos, das vítimas e dos algozes. 
Este Major Cordeiro, acusado de tortura e desaparecimento de militantes de esquerda e do sequestro de uma criança de 10 anos, em 1976, teve muita sorte de escapar dos tribunais revolucionários dos Montoneros e do ERP (Ejército Revolucionario del Pueblo), na Argentina. Não foi esta a sorte de Dan Mitrione julgado e executado pelos Tupamaros em agosto de 1970, Uruguai.
Agente da CIA, o norte-americano Daniel Mitrione, na década de 70, operou na América Latina como “o mestre da tortura”. No Brasil deixou muitos discípulos com as “experiências práticas” de tortura usando mendigos e indigentes presos e ensinando nossos agentes da repressão a torturar sem deixar marcas. Em 1969 foi para o Uruguai disfarçado de funcionário da Embaixada Americana e lá os Tupamaros encerraram a sua carreira “diplomática”. 
O torturador Juan Manuel Cordeiro teve uma carreira semelhante na ditadura mais sanguinária da América e está para a repressão argentina como Sergio Paranhos Fleury, Carlos Alberto Brilhante Ustra, José Paulo Burnier e muitos outros, não tão “ilustres”, estão para a ditadura brasileira. 
No Chile os torturadores de Pinochet já estão indo para a cadeia. O General Manuel Contreras, chefe da DINA, Polícia Secreta da Ditadura Chilena, foi condenado, há um mês, a três anos de prisão pelo sequestro qualificado do poeta Ariel Santibañez em novembro de 1974. Ariel, na época editor da prestigiosa Revista Tebaida, onde pontificam os grandes poetas da geração sessenta , era membro do MIR (Movimiento de Izquierda Revolcionaria) e foi torturado até a morte. Me regozijo com a justiça feita ao seu carrasco porque partilhávamos os mesmos sonhos e tive, com Ariel, belos momentos em Arica, em agosto de 1969. Durante muito tempo trocamos cartas ao longo de minha viagem pela América Latina. 
A memória desses crimes no Brasil está sendo revelada, não ainda pelos arquivos oficiais, mas pela publicação em livros, entrevistas etc..., dos depoimentos dos sobreviventes e herdeiros da dor dos mortos e desaparecidos.
 Acabo de ler o livro Virgílio Gomes da SilvaDe retirante a guerrilheiro, escrito pelos historiadores cariocas Edson Teixeira e Edileuza Pimenta e publicado pela Plena Editorial. Conta a história de um homem que deixa o sertão do Rio Grande do Norte e vem para São Paulo, se politiza na luta sindical, entra para o Partido Comunista e depois para a Aliança Libertadora Nacional (ALN), comandada por Marighella. Com o codinome de “Jonas”, comandou, no Rio, em 4 de setembro de 1969, o sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, trocado por quinze presos políticos. Aprisionado uma semana depois em São Paulo, e resistindo ao interrogatório sem entregar os quadros da organização, Virgílio foi cruelmente torturado até a morte na OBAN (Operação Bandeirantes) pela equipe do capitão Benone de Arruda Albernaz. Em nenhum momento se intimidou e mesmo morrendo, cuspia na cara dos torturadores. Acredita-se que seja o caso mais cruel de tortura de um preso político durante a ditadura. A repressão mascarou e escondeu a sua morte, dando-o como desaparecido (o primeiro desaparecido da ditadura) e somente em 2004, pela pesquisa datiloscópica é que se pode comprovar a tutela do Estado quando de sua morte. 
Há uma parte do livro que diz o seguinte: “Um delegado do DOPS, doutor Orlando Rozande, contou, chorando, para o doutor Décio, o seguinte: 
— A cena que eu assisti, nunca assisti em canto nenhum, em todos esses anos de delegado: os olhos do Virgílio tinham saltado como dois ovos de galinha, o pênis dele estava no joelho, de tanto pisarem em cima dele. Eu nunca vi uma coisa tão bárbara como aquela.” 
Os leitores interessados que não tiverem acesso ao livro poderão encontrar parte da história de Virgílio, na página 104 do livro Direito à memória e à verdade – Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, editado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos."
Manoel de Andrade ,  in "As palavras no espelho"Escrituras Editora e Distribuidora de Livros Ltda, São Paulo, Brasil,. 211-213

3 comentários:

  1. Que história triste...
    Em um momento político como o atual, onde torturadores são exaltados por figuras do "alto escalão", é fundamental conhecermos episódios como este...

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Nesse momento tão nefasto que vivemos no Brasil onde a própria existência da ditadura é negada por pessoas de mente fraca é muito importante que existam pessoas que escrevam textos como esse e pessoas que divulguem esse tipo de conteúdo que expõe a realidade nua e crua.
    Texto indigesto porém totalmente necessário.
    Parabéns ao autor e ao Blog

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