sábado, 26 de maio de 2018

O amor antigo


O amor antigo vive de si mesmo
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza
Por aquelas mergulhas no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor...
Carlos Drummond de Andrade, in "Alguma Poesia", Edições Pindorama,1930

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Celebrar o 88º Aniversário de Eugénio Lisboa.


Pour être poète, il faut croire à son génie; pour devenir artiste , il faut le mettre “ en doute”. L’homme vraiment fort est celui chez qui “ceci” augmente “cela”.
                                               André Gide, Journal


Eugénio Lisboa nasceu a 25 de Maio de 1930 , em Lourenço Marques. É, hoje, dia do seu 88º aniversário. Oitenta e oito  anos de vida partilhada com os seus leitores, através de um magnum opus, as Memórias, “Acta Est Fabula”, repartido por sete  imperdíveis volumes.
Mas não é só de memórias que se ocupa a sua obra . É um autor multifacetado que se espraia por géneros e temas diversos,  através de um olhar atento,  vivo, perspicaz e inteligente. Um extenso património, construído numa  linguagem luminosa que se ampara na clareza e na singular erudição de quem é refém de uma cultura larga e imensurável.
Premiado, homenageado, agraciado e patrono de um Prémio Literário, Eugénio Lisboa tem a simplicidade  de um verdadeiro homem.  Discreto e afável, apresenta-se como um dos nossos, quando  está entre nós.
Homem inteiro, sabe dar à  vida  a marca de um génio, feita de muito labor  e de uma lúcida recusa pela vã glória.
Brilhante e activo, continua a escrever incessantemente. Tem no prelo dois livros e outros em plena laboração.
Ao longo dos anos e a par da sua actividade literária, foi desempenhando algumas funções de relevo e de grande utilidade pública e cultural.  Assumiu-as sempre, com forte sentido de rigor e de exigência. Foi no exercício de uma dessas actividades, que tive o prazer de o conhecer pessoalmente, embora o seu nome, no mundo das Letras, me fosse familiar desde há longos anos. Era, então, o Presidente da Comissão Nacional da UNESCO.
Hoje, vou recuar a outra fase da sua vida: ao tempo do exercício da diplomacia cultural, como Conselheiro Cultural, na Embaixada de Portugal, em Londres. Fê-lo durante dezassete intensos e produtivos anos. Iniciou essa actividade há quarenta anos.
Não sei como poderei homenagear este homem maior da nossa cultura. Sei que tem em mim uma fervorosa admiradora , uma renitente leitora que  pretende, neste dia , saudá-lo com  profunda felicitação e sempiterno  apreço.  
Quando um escritor  atinge o patamar  da intemporalidade, não necessita de palavras de apresentação. Bastam os seus livros, a sua obra para falar mais alto do que qualquer outra voz. Eugénio Lisboa   tem uma voz única.
Ouçamo-la, neste brilhante e interessante registo:

Londres - O Começo
“ A metade do ano de 1978, que me coube em sorte, visto que cheguei a Londres já no fim de Maio, foi razoavelmente ocupada com trabalho. O lugar de conselheiro cultural, numa Embaixada, pode, como muitos outros, ser encarado – e, às vezes, é – como uma sinecura, mas pode também ser levado a sério. Neste último caso, torna-se um lugar extremamente trabalhoso e até invasor. Tem duas componentes: uma, reactiva (respostas a perguntas, inquéritos, pedidos de apoio de toda a ordem, etc.), outra, de iniciativa (promoção activa da cultura, neste caso, portuguesa: concertos, conferências, colóquios, exposições, edição de livros portugueses em inglês, apoio a leitorados, etc.) Nunca fui de me sentar a uma secretária, à espera de que o tempo passasse. Sempre me pareceu que a melhor maneira de se estar num lugar é estar ocupado, nele, e, sendo possível, formatá-lo a meu modo, isto é, em vez de aguardar instruções, dá-las eu a mim próprio. De resto, julgo que a própria senioridade do lugar pressupõe isso. O meu colega Rui Knopfli, por várias vezes, me disse, com alguma amistosa inveja: “Você construiu o seu próprio trabalho e é um mundo aparte… Não dá cavaco a ninguém!” Respondi-lhe: “Não é bem assim: eu informo minuciosamente acerca de tudo quanto faço. O que não peço é licença para o fazer… Faço e só falo disso quando já está feito…” Não era gabarolice – era mesmo assim. Como não endividava ninguém e arranjava maneira de obter financiamentos, fora do Estado, não me doía a consciência por ir fazendo, com muita autonomia. De resto, sempre que uma universidade me convidava para uma conferência, um colóquio, um seminário, fui invariavelmente à minha custa (uma única vez, em dezassete anos, submeti o impresso das despesas para fins de reembolso, e bem me arrependi: pagaram-me mais do que aquilo que pedi e verifiquei que é um verdadeiro inferno tentar devolver ao Estado aquilo que nos deu indevidamente…) Ao longo da vida, sempre trabalhei muito, mas nunca fui um fanático pelo trabalho. Dizem que o tubarão, se pára de se mover, morre. Há quem morra, se deixar de trabalhar: não é o meu caso, até porque, se deixar de trabalhar de uma maneira, arranjo maneira de trabalhar de outra – que até, eventualmente, me dê mais prazer. Em qualquer dos casos, nunca andei doentiamente nostálgico dos trabalhos que não pude fazer e talvez me tivessem sido mais gratos do que aqueles que tive que fazer (tive alguma pena de não ter tido mais tempo para escrever ou ensinar, mas o que fiz, nestas áreas deu-me grande satisfação e isso ninguém mo tira…) Em qualquer dos casos, esta parece-me uma boa divisa: em vez de procurarmos, a todo o custo, um trabalho que nos dê prazer, inventemos uma maneira de ter prazer com o trabalho que nos coube em sorte. Mesmo em tarefas aparentemente pouco interessantes, se pode congeminar maneiras de, inovando-as, acrescentando-as, as tornar menos cinzentas. As atitudes perante o trabalho são muito diversas, consoante o temperamento dos indivíduos. Há quem tenha nascido para o lazer e para os jogos inocentes, como o escritor americano, de origem arménia, William Saroyan. O próprio Abraham Lincoln confessava: “My father taught me to work, but not to love it. I never did like to work, and I don’t deny it. I would rather read, tell stories, crack jokes, talk, laugh – anything but work.” O romancista e ensaísta inglês Aldous Huxley, que terá feito a sua “travessia de deserto”, mas que anda de novo “por aí”, pertencia à mesma paróquia em que oficiava Lincoln: “Like every man of sense and good feeling, I abominate work.” E acrescentava: “They intoxicate themselves with work so they won’t see how they really are.”
O meu pai pertencia bastante a esta categoria de seres tão intoxicados com o trabalho, que não conseguiam respirar fora dele. Quando se reformou, foi uma tragédia: “salvou-se”, literalmente, afundando-se numa leitura obsessiva, imparável de Camilos, Simenons, Maughams, Domingos Monteiros e poucos mais, de que vinha abastecer-se à minha biblioteca: quando chegava ao fim, recomeçava. Camus pertencia também a esta categoria: “Sem trabalho, a vida apodrece”, dizia. Mas, para ele, o trabalho não era tarefa nem rotina. Thoreau era selectivo: “It is not enough to be busy… the question is: what are we busy about?” Seja como for, mal aterrei na Embaixada, trabalho não me faltou: o que se me deparou e o que inventei. Ele era um infindável fluxo de cartas de apoio à candidatura de portugueses e portuguesas que queriam frequentar os cursos mais diversos: enfermagem, línguas, alimentação, artes domésticas, em politécnicas e universidades. Ele eram recomendações às universidades inglesas, no sentido de aceitarem os graus obtidos nas escolas portuguesas, como equivalentes aos graus ingleses requeridos para admissão naquelas universidades. Ele eram respostas a perguntas de todos os formatos, sobre os mais diversos aspectos da vida e da cultura portuguesa. Se queres saber, pergunta – era o moto saudável, mas cansativo, dos súbditos de Sua Majestade. As Embaixadas eram, como já disse, o alvo favorito do tiroteio. Rudyard Kipling, o fabuloso autor de O Livro da Selva e dos Simples Contos das Colinas, dizia, muito ao gosto inglês: “I keep six honest serving men / They taught me all I know: / Their names are What and Why and When / And how and Where and Who.” Era com estes prestáveis “serviçais” que o cidadão inglês se municiava para nos bombardear, diariamente, pelo telefone, por carta ou em visita pessoal: com os O quê, Porquê, Quando, Como, Onde e Quem, relativos à vida e cultura portuguesas. Munido de memória, dicionários, enciclopédias, manuais, monografias, guias, vademecums, prospectos, revistas e amigos sábios, em Lisboa e mesmo em Londres, eu fazia questão de não deixar nenhuma carta sem resposta: aos quês, porquês, quandos, comos, ondes, e quens, eu respondia com toda a artilharia ao meu alcance. E, quanto mais respondia, mais perguntavam: como se o responder alimentasse a fome de perguntar. A certa altura, dava para pedir misericórdia…
Mas a minha actividade não envolvia apenas informar os britânicos. Cumpria-me, também, assim o entendia eu, informar os portugueses, em Portugal. Por isso, enviei, durante o ano de 1978, informações sobre: cursos [na Inglaterra] para consultores de alunos de cursos superiores, cursos do “British Council” sobre “Tecnologia rural e a mulher” e “Cardiologia”, durante o ano de 1978, cursos de especial interesse para estudantes estrangeiros em Inglaterra e uma informação sobre “As Mulheres e o Desporto”.
Eugénio Lisboa, in” Acta Est Fabula, Memórias –IV – Peregrinação: Joanesburgo. Paris. Estocolmo. Londres. (1976- 1995), Editora Opera Omnia, Outubro de 2014, pp.158,159,160, 161

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Morreu Philip Roth

Escrever falsas biografias, uma falsa história, misturar uma existência semi-imaginária a partir do drama real da minha vida é a minha vida. Tem de se retirar algum prazer deste trabalho, e é isso. Andar por aí disfarçado. Representar um papel. Fazermo-nos passar por algo que não somos. Fingir.
Palavras pronunciadas por Philip Roth, em 1984, numa entrevista à Paris Review.
E foi assim. Philip Roth escreveu muito. Uma obra volumosa com um traço singular. Juntava-se a Saul Bellow. Ambos me têm presa como leitora , embora em patamares diferentes. Conheciam-se. Trocaram ideias e foram amigos. Unia-os a americanidade de uma nova geração judaica.

Morreu "Philip Roth
"Philip Roth morreu terça-feira, aos 85 anos, de insuficiência cardíaca. A Informação foi avançada por Andrew Wilie, o agente do escritor, à Associated Press.
Roth foi um dos maiores escritores norte-americanos de sempre, tendo conquistado vários prémios ao longo da sua vida, como foi o caso de dois National Book Awards, dois National Book Critics Circle e, em 1998, com a obra ‘Pastoral Americana’ ganhou o Pulitzer, ganhou também o Prémio Internacional Man Booker, em 2011 e, em 2012 ganhou o Prémio Príncipe das Astúrias de Literatura. Apesar de ter sido mencionado como candidato ao Nobel da Literatura, nunca o ganhou.
Inspirado na vida das famílias judaicas e no ideais americanos, Philip Roth escreveu cerca de 30 livros, mas aos 78 anos anunciou que ia parar de escrever.
Ficou conhecido pelas obras 'Pastoral Americana', 'O Complexo de Portnoy', 'Goodbye, Columbus', 'A Mancha Humana' , 'A Conspiração Contra a América'. O seu primeiro livro, ‘Goodbye, Columbus’, de 1959, vendeu mais de 12.000 cópias e dez anos depois vendeu 420.000 cópias com o livro ‘O Complexo de Portnoy’.
Nasceu em 1993 em Newark, Nova Jérsia, e escreveu o seu último livro, ‘Nemesis’, em 2010.
Este ano, a 27 de Janeiro, a revista Expresso publicou uma das últimas entrevistas que Roth deu ao 'The New York Times'. Questionado sobre a velhice e como era ter quase 85 anos respondeu que em poucos meses ia dizer adeus à velhice e que ia entrar na "velhice profunda".
"Neste momento, é espantoso ainda estar aqui ao fim de cada dia. Quando vou para a cama à noite, sorrio e penso: vivi outro dia. E torna a ser espantoso acordar oito horas depois e ver que é de manhã e continuo cá. Sobrevivi mais um dia, pensamento que me faz voltar a sorrir. Adormeço a sorrir e acordo a sorrir", afirmou." Jornal i

terça-feira, 22 de maio de 2018

É possível escolher a forma de morrer? (conclusão)

"Passo, agora, a apresentar quatro situações específicas, de meu interesse, para as quais a bioética tem voltado a sua atenção: pedidos para morrer, eutanásia, suicídio assistido e distanásia. Na sequência, serão abordados os cuidados paliativos, como opção às três últimas situações nomeadas, e algumas críticas possíveis a eles.
Ao introduzir o assunto, quero ressaltar a importância da clarificação dos termos usados, para que as discussões que envolvem temas tão polémicos não sejam prejudicadas por diferentes entendimentos. Schramm (2002) aponta que não se trata, apenas, de uma melhor definição dos termos, mas também deve ser observado qual é o posicionamento tomado em cada questão.
Segundo este autor, só uma definição de morte não esclarece este assunto; é preciso entrar no mérito existencial e filosófico, isto é, o que significa fim da vida e por que se quer planeá-lo. A discussão é se existe ou não o direito de determinar o fim da própria vida. O autor cita Frankl e as suas obras que apontam para a questão do sentido da vida, para a percepção do vazio existencial e para o direito de exercer a liberdade da maneira mais radical, ou seja, decidindo sobre a própria vida.
O autor afirma que o temor, em relação à legalização da eutanásia, se relaciona a um suposto aumento do poder dos médicos na determinação da morte. Por outro lado, os que a defendem retomam o princípio da autonomia e a priorização do que é qualidade de vida, apontando que na sociedade actual se observa uma desapropriação da morte. Será que o paciente tem direito a pedir para morrer? O direito à auto-determinação é que poderia justificar uma discussão mais aprofundada sobre a questão da eutanásia.
Retomando a questão de esclarecimento, Wooddell e Kaplan (1997-1998) apontam algumas distinções que devem ser consideradas:
Eutanásia activa: acção que causa ou acelera a morte.
Eutanásia passiva: a retirada dos procedimentos que prolongam a vida. Esta modalidade, na actualidade, não é mais considerada como eutanásia (grifo meu), desde que diante de um caso irreversível, sem possibilidade de cura e quando o tratamento causa sofrimento adicional. A interrupção dos tratamentos, neste caso, recebe o nome, de ortotanásia, ou seja, a morte na hora certa - distinção ainda não aceita por muitos profissionais. Segundo Maurice Abiven, director da Unidade de Serviços Paliativos do Hospital Universitário de Paris, citado por Zaidhaft (1990, p. 120), não há eutanásia passiva, sendo esta uma expressão inadequada. Há, simplesmente, respeito à natureza.
Eutanásia voluntária: a acção que causa a morte quando há pedido explícito do paciente.
Eutanásia involuntária: acção que leva à morte, sem consentimento explícito do paciente. Neste caso, não deveria mais ser chamada de eutanásia, e sim, de homicídio; com o atenuante de que é executada para aliviar o sofrimento, possivelmente dos cuidadores, familiares ou profissionais.
Suicídio: acção que o sujeito faz contra si próprio, e que resulta em morte.
Suicídio assistido: quando há ajuda para a realização do suicídio, a pedido do paciente. Esta situação é considerada crime, do ponto de vista legal.
Suicídio passivo: deixar de fazer alguma acção, podendo resultar em morte; por exemplo, não tomar medicação. Esta é uma situação muito difícil de ser comprovada. Falar em suicídio sempre implica na necessidade de uma cuidadosa investigação, já que vários factores podem estar envolvidos nesta acção.
Há, ainda, outros termos que são usados quando se fala de morrer com dignidade, envolvendo temas como eutanásia e suicídio assistido:
Duplo efeito (double effect): quando uma acção de cuidados é realizada e acaba conduzindo, como efeito secundário, ao óbito. Um exemplo desta situação é a analgesia e sedação, aplicada em pacientes gravemente enfermos, que têm como objectivo principal aliviar os sintomas e promover qualidade de vida, e não provocar a morte, embora esta possa ocorrer.
Testamento em vida, vontade em vida (living will): o paciente escreve o seu testamento em vida, referindo-se ao que gostaria que acontecesse, quando não mais pudesse fazer escolhas e participar de seu tratamento. Este procedimento é muito utilizado quando se trata de um pedido de não ressuscitamento. É um documento legal nos Estados Unidos da América.
Ladeira escorregadia (Slippery slope): trata-se de uma zona de conflito e polémica, na qual certa decisão pode ter efeitos sobre os quais não se havia pensado anteriormente. Por exemplo: a legalização da eutanásia poderá colocar em risco de morte antecipada (embora este não seja o objectivo explícito) populações vulneráveis, como: idosos, pobres e doentes mentais.
Poder durável de um advogado para cuidados de saúde (Durable powers of attorney for health care): é o documento por meio do qual a pessoa nomeia outra pessoa para tomar decisões sobre os cuidados de sua saúde, se, e quando ela própria se tornar incapaz de fazê-lo, permitindo, assim, que o médico obtenha de alguém o consentimento informado para algum procedimento ou para interrupção de tratamento.
Assim considerados os diversos graus de acção do paciente, pode-se analisar o grau de envolvimento da equipa médica em questões, tais como conhecimento, cumplicidade e uma acção mais directa da equipe, com conhecimento ou não do paciente.
Estas modalidades não são estanques, mas propõem uma forma de compreensão dos movimentos dos pacientes e médicos na preservação da vida, bem como na possibilidade de induzir a morte.

Pedidos para morrer
Muitas pessoas, em fase final da doença, pedem para morrer. O que estaria na base destes pedidos, uma dor intolerável ou depressão?
Chochinov et al. (1995) estudaram 200 casos de pacientes em estágio terminal e verificaram que apenas 8,5% destes pediram que se apressasse a morte e, entre estes, observou-se uma história de depressão e abandono por parte da família.
Vários pedem para morrer porque consideram a sua vida insuportável, sentem-se como sobrecarga para a família. Estão internados em hospitais, solitários, abandonados e impotentes diante da vida e da morte. Muitos se referem a um sentimento de falta de controle. Em outros casos, o pedido para morrer está relacionado com o facto de não estarem recebendo cuidados adequados, tendo sua dor subtratada.
Markson (1995) alerta para que não se considerem todos os pedidos para morrer como irracionais, delirantes, ou vindos de uma profunda depressão. Assim, os pedidos nunca devem ser avaliados como questões simples; ao contrário, devem ser escutados e contextualizados, e jamais deveriam receber respostas rápidas e impensadas. Sem dúvida, valores importantes são questionados nestes casos, inseridos numa cultura que sacraliza a vida e vê a morte como um inimigo a ser combatido a todo custo.
Por outro lado, sabe-se que muitas pessoas não aguentam mais a vida, mas nada dizem sobre isso. Não imaginam poder falar com seus médicos sobre o assunto, nem sequer se acham no direito de pedir informações sobre o seu estado de saúde e prognóstico de suas doenças.
Mishara (1999) observou que a dor e o sofrimento estão na base de inúmeros pedidos para apressar a morte. Também foi encontrada, pelo autor, forte relação com depressão clínica. Observa, ainda, que está havendo maior incidência de pedidos de eutanásia, suicídio e comportamentos auto-destrutivos em pessoas com os seguintes problemas psicossociais: depressão, perdas significativas, falta de apoio social e dificuldades em dar conta da vida. Mais recentemente, tem-se observado uma alta relação entre suicídio e demência. Muitas pessoas pedem para morrer, ou cometem o suicídio, quando se vêem diante da possibilidade de dependência, aliada a um sentimento de perda de dignidade. No caso do câncer e da Aids, os tratamentos podem causar tanto mal estar e desespero que preferem morrer. Segundo Mishara, há maior tolerância da sociedade com os pedidos de eutanásia, quando são manifestos por pacientes gravemente enfermos, mesmo que nem sempre a morte esteja tão próxima ou que não haja nada mais que possa ser feito.
É necessário saber se a pessoa quer, de facto, morrer, observando-se suas atitudes, pedidos e acções. Chochinov et al. (1995), na pesquisa já mencionada, verificaram que 44,5% dos pacientes falaram que queriam que a morte chegasse logo, mas só 8,5% fizeram um pedido mais explícito e, destes, 60% tinham um quadro de depressão clínica. Entretanto, muitos pacientes em fase terminal se queixaram de solidão, da falta de presença da família e de dor.
Muitos membros da equipe de saúde não sabem como manejar a dor e outros sintomas incapacitantes, e acabam se afastando destes pacientes. Hennezel (2001) considera que 90% dos pedidos de eutanásia desapareceriam se os doentes se sentissem menos sós e com menos dor. Para ela é importante considerar a legitimidade dos pedidos, ou seja, os pacientes poderem falar que estão cansados da vida, que não aguentam mais o sofrimento. Mas ao pedirem que se finalizem os seus sofrimentos, a autora se pergunta: será que para nos apropriarmos de nossa própria morte, é preciso pedir para que alguém nos mate?
Hennezel, explorando o tema, lança um outro olhar para a questão, ao afirmar que, quando o doente pede para morrer, pede também que se olhe para ele, para o seu sofrimento, para que se sinta legitimado na sua dor. Procura também aprofundar a questão, discutindo a diferença entre desejo e necessidade. Para ela, a necessidade é o que está premente, acessível à consciência e demanda uma resolução imediata, como, por exemplo, o alívio da dor. O desejo não é tão claro à consciência. Uma grande dor para o paciente, sensível e atento, é pensar que o enterraram antes do tempo, prevendo sua morte. Nesta situação, antecipa-se, pedindo para morrer antes que o matem. E a autora afirma que, tanto no pedido para morrer, como na eutanásia, podem estar embutidos uma agressividade inconsciente, uma desilusão de ambos os lados, claros indícios de impotência.
E será que o pedido do paciente para morrer não poderia ser também uma resposta ao olhar de impotência do profissional, que não sabe o que fazer na situação? Como já referi, o pedido para morrer pode ser visto como um pedido de atenção, uma afirmação de que se é humano, que ainda se está vivo. Às vezes, o paciente está tão deformado que não se sente mais vivo, nem é mais visto assim. Não pede obrigatoriamente que se faça algo, mas para que seja visto e ouvido. Não podemos nos esquecer da importância dos últimos momentos de vida para o doente e para os seus familiares.
É importante ressaltar: será que o desejo de morrer está sempre relacionado com sofrimento e depressão? Será que, em alguns casos, não é a constatação de que a vida chegou ao fim? A diferença é que, no primeiro caso, os pacientes exalam tristeza e, no segundo, serenidade.
Há pessoas que não conseguem morrer e pedem ajuda para soltar-se. Morrer pode ser tão tensionante, que não conseguem se libertar. Permitir morrer não é igual a matar. Às vezes, o medo de morrer é tão grande que há enorme necessidade de paz, segurança e, à semelhança do parto, é a busca de um contacto que não retém e sim liberta. Como o assunto é, certamente, polémico e não há consenso entre os profissionais envolvidos, aqui estão apenas sendo alinhavadas algumas considerações.
Outro assunto de interessante abordagem é o do testamento em vida (prática que tem aumentado significativamente), no qual é pedido o não ressuscitamento em caso de parada cardíaca - também uma forma de pedir para morrer. É bastante usual, principalmente nos Estados Unidos, segundo Whiting (1995-1996). No Brasil, ainda não temos esta prática estabelecida.
Os testamentos em vida envolvem a recusa de certos tratamentos médicos que têm como objectivo o prolongamento da vida; são feitos pelos pacientes quando conscientes, e deixados com outras pessoas para o momento em que for necessário, seja em caso de inconsciência, ou de qualquer outra impossibilidade de decisão. Mesmo que este documento represente a vontade da pessoa, respeitando-se o princípio da autonomia, é gerador de muita ambivalência, quando se considera a possibilidade de eventual mudança de opinião durante o curso da doença.
Nos EUA, se não tiver sido feito o testamento em vida, os pacientes passarão por procedimentos de ressuscitamento, em caso de parada cardíaca. Segundo Stephen e Grady (1992), um terço destes procedimentos ocorreu contra a vontade dos pacientes, pelo facto de não haver pedido explícito para que não fosse realizado.
Considero que o testamento em vida pode ser instrumento facilitador, quando se trata de tomar uma decisão sobre o que fazer em situação de conflito. O paciente pode, então, clarificar os seus desejos, reduzindo a possibilidade de serem realizados tratamentos contra sua vontade; facilita, também, a situação para a família, quando esta não teve a oportunidade de conversar com ele a respeito deste assunto, e favorece o princípio de autonomia do paciente.
Aliás, os familiares são ambivalentes quando se trata do paciente, mas muitos, quando pensam o que gostariam para si, relatam que prefeririam terminar logo com tudo.
Hennezel (2001) aponta que muitos familiares acabam pedindo que se apresse a morte do paciente, porque não aguentam ver seu sofrimento; o fim da vida pode ser muito assustador, o paciente pode se tornar um estranho para si mesmo, e para aqueles que lhe são mais próximos. Por outro lado, quando o período final da doença é prolongado, os próprios familiares acabam se esgotando por causa das semanas de vigília ao pé do leito, estimulando os pedidos para o abreviamento da situação.
A equipe de saúde também não sabe o que fazer quando surge o pedido de morte pelo paciente. A tendência mais comum é a de sempre preservar a vida; entretanto, o aumento da expectativa de vida e do tempo de doença, começa a criar pontos de conflito sobre até que ponto é legítimo o prolongamento da vida, às custas de muito sofrimento. Os médicos não se sentem preparados para conversar sobre o assunto e não conseguem lidar com o facto de que o pedido para morrer possa ter uma motivação ligada a um sofrimento intolerável - neste caso, o pedido para morrer seria, basicamente, para alívio. Pesquisa de Chochinov et al. (1995) indicou que 54% dos médicos entrevistados acham que o pedido é razoável, quando levam em conta o grau de sofrimento envolvido; entretanto, quando questionados sobre a possibilidade de, eles mesmos, realizarem o acto de apressar a morte, esta percentagem cai para 33%.
Pesquisas mostraram que 40% dos médicos entrevistados já receberam, de seus pacientes, pedidos para morrer. Este número de pedidos é significativo e demonstra como o fim de vida pode ser muito penoso. Entretanto, a maioria destes pedidos não resultou em sua aceitação. Quando os médicos falam da consumação do acto, o método mais utilizado é o dos coquetéis que misturam calmante, anestésico e veneno, e que permitem uma morte tranquila. A fronteira entre sedação e eutanásia é muito ténue; o que diferencia as duas é a intenção, nem sempre muito clara. Infelizmente, a diferença entre palavras e intenções nem sempre pode ser explicitada.
Hennezel (2001) aponta para a importância de o profissional poder se referir à sua impotência e vulnerabilidade diante do paciente, principalmente quando os tratamentos não estão surtindo os efeitos esperados, mas não significa que se tenha de atender o pedido de apressamento da morte. Confirmando, não prolongar a vida com tratamentos invasivos, permitir morrer, não é igual a matar.
Aponta, também, que vários profissionais não suportam ver o sofrimento de seus pacientes, acabando por atender seu pedido de morte, transformando-se nos anjos da morte, também conhecidos como eutanatólogos. Alguns actos de apressamento da morte podem ser fruto da solidão dos profissionais, que se sentem sem apoio nas tarefas de cuidar dos pacientes em grande sofrimento. Esta solidão pode ocorrer, também, em hospitais ultra movimentados, nos quais os corredores fervem com pessoas correndo de um lado para o outro e, talvez, por isto mesmo sejam chamados de "corredores". Nesta correria ninguém se enxerga e, muitas vezes, nem se sabe o que está acontecendo na sala ao lado.
Em vários hospitais, o fim de vida é pleno de sofrimento, com muitas dores e sem calor humano; pacientes, familiares e enfermeiros abandonados à própria sorte, não sabendo o que fazer, e os últimos tendo mesmo de realizar procedimentos com os quais não concordam.
O que é mais complicado nos hospitais não é a morte em si, mas os dramas até a morte, a agonia. É aí que surge a tentação de aliviar o sofrimento, induzindo a morte. Mishara (1999) observa que houve um aumento de 35% nos pedidos de eutanásia, de 1990 a 1995. Acredito que este facto esteja directamente ligado às intervenções médicas, que provocam um prolongamento da vida, sem preocupação equivalente com a qualidade da mesma."
Maria Júlia Kovács, Instituto de Psicologia –USP, São Paulo 20

segunda-feira, 21 de maio de 2018

É possível escolher a forma de morrer?

Bioética nas questões da vida e da morte
"A morte no século XXI é vista como tabu, interdita, vergonhosa; por outro lado, o grande desenvolvimento da medicina permitiu a cura de várias doenças e um prolongamento da vida. Entretanto, este desenvolvimento pode levar a um impasse quando se trata de buscar a cura e salvar uma vida, com todo o empenho possível, num contexto de missão impossível: manter uma vida na qual a morte já está presente. Esta atitude de tentar preservar a vida a todo custo é responsável por um dos maiores temores do ser humano na actualidade, que é o de ter a sua vida mantida às custas de muito sofrimento, solitário numa UTI, ou quarto de hospital, tendo por companhia apenas tubos e máquinas.
É neste contexto que surge a questão: é possível escolher a forma de morrer? Observa-se o desenvolvimento de um movimento que busca a dignidade no processo de morrer, que não é o aceleramento da morte, a eutanásia, nem o prolongamento do processo de morrer com intenso sofrimento, a distanásia.
O problema é que existe uma grande confusão entre estes termos, e o seu esclarecimento se faz necessário. Assim, a bioética do século XXI deve retomá-los, trazendo à tona a necessidade da discussão destas questões com base em alguns princípios que são muito importantes: beneficência, dignidade, competência e autonomia. O movimento dos cuidados paliativos trouxe de volta, no século XX, a possibilidade de reumanização do morrer, opondo-se à ideia da morte como o inimigo a ser combatido a todo custo. Ou seja, a morte é vista como parte do processo da vida e, na doença, os tratamentos devem visar à qualidade dessa vida e o bem estar da pessoa, mesmo quando a cura não é possível; mas, frente a essa impossibilidade, nem sempre o prolongamento da vida é o melhor, e não se está falando de eutanásia, como muitos crêem.
Entre as grandes questões sobre o fim da vida, destaco as seguintes:
Tem a pessoa o direito de decidir sobre sua própria morte, buscando dignidade?
Pode-se planear a própria morte?
Os profissionais de saúde, que têm o dever de cuidar das necessidades dos pacientes, podem atender um pedido para morrer?
Podem ser interrompidos tratamentos que têm como objectivo apenas o prolongamento da vida, sem garantia da qualidade da mesma?
Whiting (1995-1996) aponta caminhos para algumas respostas a estas questões. Sobre o encerramento da própria vida, a lei não tem o que dizer, uma vez que a decisão é da pessoa e está vinculada a determinantes pessoais e religiosos. Se pensamos em assistência no processo de morrer, aí sim, trata-se de questão legal, porque está envolvida uma proposta homicida, mesmo que por piedade.

A Bioética – algumas considerações de ordem geral
Segundo Segre e Cohen (1995), a bioética é o ramo da ética que foca questões relativas à vida e à morte, propondo discussões sobre alguns temas, entre os quais: prolongamento da vida, morrer com dignidade, eutanásia e suicídio assistido.
Segundo os autores, o termo bioética foi apresentado, pela primeira vez, pelo oncologista Potter (1971), na sua obra Bioethics – Bridge to the Future. Nesta obra, propõe uma ponte no trabalho de cientistas e humanistas. Nos primeiros trabalhos na área, havia grande preocupação com valores humanos, cabendo à teologia as linhas mestras. Num segundo momento, a filosofia tomou a frente, numa vertente de secularização. Entre 1985 e 2000, a bioética foi adquirindo um carácter multidisciplinar, envolvendo ciências sociais, direito, antropologia e psicologia, além da teologia. Nas ciências da saúde, surge a preocupação com as condutas médicas, que culminou, em 1962, no que se chamou de Comitê de Deus, ou seja, a escolha de pacientes que serão submetidos a determinados tratamentos em detrimento de outros (Pessini & Barchifontaine, 1994). Posteriormente, passaram a ter grande importância a relação médico/paciente, os aspectos relativos à auto-determinação, a autonomia e os direitos humanos.
Na terceira fase das discussões da bioética começam a ter lugar as discussões envolvendo a macropolítica da saúde, a economia e a questão dos excluídos (Anjos, 2002).
As atrocidades cometidas pelo nazismo, na Segunda Guerra Mundial, trazem ênfase à discussão de pesquisas envolvendo seres humanos, as intenções e o sofrimento causado às pessoas, mesmo que em nome da ciência, culminando com o código de Nüremberg, no qual se postula que nenhuma pesquisa possa envolver seres humanos, sem que haja sua autorização explícita. Actualmente, os comitês de ética zelam por estas condições em várias instituições.
Houve, também, um desenvolvimento da bioética vinculada aos seguintes princípios: autonomia, beneficência e justiça, o que Pessini e Barchifontaine (1994) denominaram de trindade bioética.
A autonomia refere-se ao respeito à vontade e ao direito de autogovernar-se, favorecendo que a pessoa possa participar activamente dos cuidados à sua vida. Segundo Fabbro (1999), só se pode falar em exercício de autonomia quando há partilha de conhecimento e informação da equipa de saúde para o paciente, oferecendo dados importantes, em linguagem acessível, para que qualquer decisão possa ser tomada, garantindo-se a competência de todos os membros envolvidos na situação.
Um aspecto importante a ser apontado, quando nos referimos ao princípio da autonomia, é a constatação de que nos cuidados aos doentes, muitas vezes, ocorre uma relação paternalista, assimétrica, entre eles e os profissionais de saúde: de um lado está o poder da equipa de saúde e, no outro, a submissão do paciente. Quando se favorece a autonomia, ocorre uma relação simétrica entre profissionais e pacientes, sendo que estes últimos participam de maneira activa das decisões que envolvem seu tratamento, bem como sua interrupção. Enfim, como já apontei, para que a autonomia possa ser exercida é fundamental que o paciente receba as informações necessárias, que o instrumentalizem e o habilitem para a tomada de decisões, diante das opções existentes em cada situação. Cabe lembrar que, em muitos casos, estamos diante de uma situação conflituante , na qual várias opções devem ser consideradas – aliás, este é o fundamento das questões éticas. Como aponta Segre (1999), faz-se necessária uma hierarquização desses conflitos, para que se possa buscar uma resposta que atenda às necessidades daqueles que estão sob nossos cuidados.
Considerando as questões sobre o fim da vida, podemos observar que existe uma pluralidade de respostas possíveis e que vários pontos de vista devem ser considerados, não se tratando de um relativismo sem limites.
Um outro ponto que provoca discussões importantes no ramo da bioética é o desenvolvimento da tecnologia médica, o prolongamento da vida, às vezes sem limite, e o dilema entre a sacralidade da vida e uma preocupação com a sua qualidade. Se é a vida, como valor absoluto, que deve ser mantida a todo custo, nada poderá ser feito para a sua abreviação, e deve-se evitar a morte a todo custo. Foi o desenvolvimento da tecnologia que favoreceu a manutenção e prolongamento da vida, e então pergunta-se até quando investir em tratamentos e quando interrompê-los. Estes são os dilemas relativos à eutanásia, à distanásia, ao suicídio assistido e ao morrer com dignidade.
Na década de 1960, com o advento dos transplantes, começaram a ser questionados os limites da vida, mantida com máquinas. O critério de morte deixa de ser a paragem cardio-respiratória e passa a ser a morte encefálica.
As situações de vida e morte envolvem vários personagens: pacientes, familiares e equipe de saúde, além da instituição hospitalar. Numa relação simétrica, qualquer decisão envolverá todos estas personagens, arrolando-se os prós e os contras de cada uma das opções. Entretanto, na maior parte das instituições hospitalares observa-se a posição paternalista, na qual, baseada no princípio da beneficência, de se fazer o bem e evitar o sofrimento adicional, a equipe age unilateralmente, justificando-se com a ideia de que sabe o que é melhor para o paciente; ou seja, considera que este não está preparado para saber o que é o melhor para si. Assim, a equipe de saúde é a depositária do saber.
Toda esta discussão se torna fundamental quando está em jogo a busca da dignidade, não só durante toda a vida, mas também com a aproximação da morte, envolvendo a valorização das necessidades e a diminuição do sofrimento.
O princípio da justiça envolve a propriedade natural das coisas, a liberdade contratual, a igualdade social e o bem-estar colectivo entendido como equidade: cada pessoa deve ter suas necessidades atendidas, reconhecendo-se as diferenças e as singularidades, como apontam Fortes (2002) e Garrafa e Porto (2002).
Segundo Pessini e Barchifontaine (1994), a pessoa é o fundamento de toda a reflexão da bioética, considerando-se a alteridade, isto é, a sua relação com outras pessoas. Retomamos a questão da vida, e da sua manutenção a todo custo. Quando se leva em conta apenas a sacralidade, o que importa é a vida, sem entrar no mérito de sua qualidade. Quando a discussão envolve a qualidade do viver, então, não são somente os parâmetros vitais que estão em jogo, mas sim que não haja sofrimento. O que é fundamental não é a extensão da vida e sim sua qualidade. Na verdade, estas dimensões não são mutuamente exclusivas e contrárias, porém, complementares. Engelhardt (1998) discute a questão da vida biológica e pessoal e a partir destes pontos de vista, surgem as questões: quando deve ser definido o início da vida; no momento da concepção, na sua evolução, ou na possibilidade de estabelecer relações? E quando termina a vida; na perda da consciência, na impossibilidade de cuidar de si, quando apenas aparelhos mantêm a vida, ou quando o último parâmetro biológico deixa de se manifestar? São questões que demandam muita reflexão e discussão.
Anjos (2002) aponta a importância de se pensar numa bioética para o terceiro mundo, na qual a justiça para todos é uma questão importante, uma vocação para se pensar naqueles que são os excluídos, os pobres, para quem não se discute a eutanásia voluntária, e sim, a involuntária. Trata-se de um erro conceitual, são aqueles que morrem antes do tempo, não pela sua vontade, mas pela falta de atendimento adequado e pelas condições subumanas de vida. É neste contexto que a noção de equidade é significativa, ou seja, é fundamental atender um número maior de pessoas nas suas necessidades, tanto na alocação de recursos, quanto na sua qualidade e magnitude. Neste quadro, a teologia tem a sua grande força: a justiça, a solidariedade e a fé.
Garrafa e Porto (2002) trazem a seguinte questão: existe uma ética universal? Se a resposta for positiva, encontram-se, aí, obstáculos intransponíveis, pois uma gama imensa de valores está presente nas grandes questões que atingem a humanidade. Por outro lado, o perigo de não se ter como base alguns valores fundamentais é de se chegar a um relativismo que, em algumas situações, se torna intolerável."
Maria Júlia Kovács, Instituto de Psicologia –USP, São Paulo 2003
Nota:  O texto que se acaba de transcrever será completado amanhã com o excerto em falta. Considerando a sua actualidade e importância, resolvemos reeditá-lo totalmente.

domingo, 20 de maio de 2018

Ao Domingo Há Música

E por Vezes
E por vezes as noites duram meses 
E por vezes os meses oceanos 
E por vezes os braços que apertamos 
nunca mais são os mesmo  E por vezes 

encontramos de nós em poucos meses 
o que a noite nos fez em muitos anos 
E por vezes fingimos que lembramos 
E por vezes lembramos que por vezes 

ao tomarmos o gosto aos oceanos 
só o sarro das noites não dos meses 
lá no fundo dos copos encontramos 

E por vezes sorrimos ou choramos 
E por vezes por vezes ah por vezes 
num segundo se evolam tantos anos 
David Mourão-Ferreira,  Matura Idade

Os poetas  sabem como desenhar  a memória do tempo , em poemas que se enchem de pedaços que são  nossos.  Construídos na fugacidade do tempo,  foram  tempo de sorrisos  e, por vezes,  tempo de mágoa. Tempo ora  vivido, ora sonhado. Mas Tempo.
Há quem o saiba cantar de jeito diverso. Procurámos nomes portugueses à luz dos nossos  dias. 
Ei-los,  numa lista para se redescobrir com tempo. 

Mariza , em " O Tempo Não Para"

Salvador Sobral, em "Nem eu".
Marco Rodrigues , em "O Tempo".
José Cid e Susana Félix, em " Por vezes".

sábado, 19 de maio de 2018

O que tu lhe fizeste, sonho!

"Há um mistério na vida de Joana, e no entanto na sua alma lê-se como através dum vidro. Tudo nela será falso excepto a dor. Não sei, ninguém sabe o que tem.
Sinto que se obstina como se fosse de pedra e dentro houvesse outra Joana a dar com a cabeça pelas paredes. Não ouço o que diz, nem sei o que sofre – mas a desgraça sua naquele monólogo sem pés nem cabeça, a que não ligo sentido.
Debalde o sonho se encarniça. O sonho, que cabe no mundo, cabe entre as quatro paredes daquele caco e revolve-a. Fecha a boca como se tivesse medo de falar.
Não quer ver – e há-de por força ver. Persiste em manter de pé o resto da ilusão em que passou a vida, obstina-se o ciclone vivo em pô-la frente a frente à desgraça. É sonho contra sonho. O que ela não quer é ver, e só ela sabe o que não quer ver. Não pode com o peso desconforme que a torna grotesca, e de todo se assemelha agora à árvore do quintal: mais sonho – mais flor. Abre uma boca enorme, fecha-a sem emitir som. Mostra as mãos, aperta os gorgomilos e o sonho arranca-lhe farrapos.
Há-de acabar por lhe extorquir a dor...
Sua vida é um monólogo que eu não sei traduzir. Nossa vida é sempre um monólogo de interesse e de sonho. Sempre o mesmo monólogo interior, de dia, de noite, quando acende o lume ou quando põe em mim os olhos turvos. Talvez os bichos monologuem assim, muito baixinho, para dentro, só dor, sem entenderem a vida nem explicarem a vida. A desgraça está ali ao pé, cada vez mais seca, e nem o sonho nem a desgraça conseguem arrancar-lhe aquilo de vez para fora. – A minha filha... – Mas isso não basta! não chega! Mais dor, mais sonho. Abre a boca cada vez maior e não tira outro som dos gorgomilos: só emite um ronco. A desgraça e o doirado tingem e entranham-se na água de lavar a louça. Há-de acabar por falar...
Até agora por mais que faça sai-me das mãos ridícula.
– E vai eu disse-lhe... – E estaca, esfarrapada e atónita. Sacode-a o sonho com desespero. – Hã... – E, como naquele caco espesso só há duas ou três ideias como traves-mestras, e ternura naquela alma obscurecida, não avança mais palavra. E a desgraça sua e tressua. Grotesco, grotesco, e desespero neste grotesco, e dor neste manequim desconjuntado, com um xale a esvoaçar e a boca espremida. Anda aqui um ser imenso que luta com um ser humilde e o amolga até à caricatura. Não pode mais – e ainda aperta a boca...  O que tu lhe fizeste!...
Tornaste-a disforme como a sombra dum bonifrate projectada sobre um écran.
– Criou aquilo a bafo, trouxe-o sempre consigo debaixo do xale, com os olhos aguados e tal ar de aflição que parece tonta. – A minha filha... – e tu arrastas-lhe a dor como um trapo por todos os esgotos. Debalde se debate: tem de falar...
– A minha filha casou rica, a minha filha tem uma sala de visitas (é o que a Joana mais admira no mundo) como a das outras senhoras. A minha filha... não posso! não posso!...
E, para não avançar mais, a Joana ri-se de si própria. Quem a não soubesse capaz de exagerar, diria que exagera. Ajunta pormenores embaraçosos a essa história que se parece com a mulher da esfrega pelos empurrões e pelos trapos.
Repete-se, hesita, volta ao princípio, sem termos para se exprimir. E atrás das palavras sem ligação sente-se cada vez mais dor: o pano sujo da esfrega está embebido de lágrimas.
– Tenho uma tristeza metida em mim...
A narrativa desconjunta-se: ganha em dor e em grotesco. Enche a boca, perde em naturalidade, adquire em imponência. O tom carregado é de farsa com resíduos de lágrimas. A desgraça ri-se da desgraça. Aumenta as cores de exagero, carrega o traço, e a tinta engrossa:
– A sala de visitas! A sala de visitas!... – Representa com ademanes e mesuras grotescas a sua entrada numa sala em passo medido de procissão. Avança um passo, recua um passo. E aí surgem agora as visitas da filha, umas atrás das outras com espalhafato. A Joana prolonga demasiado a cena para as velhas se rirem – e tem os olhos arrasados de lágrimas. Insiste, pára-lhe na boca o riso desdentado como se tivesse um nó no gorgomilo. Teima, e desata a chorar. – E vai eu disse-lhe... – Reage e começa logo a rir. É um quadro estranho e sem realidade.
No fundo, a tintas que ressumam desespero, agitam-se figuras com penantes desconformes e sedas amarelas. Primeira dama, segunda dama – e os chapéus têm penachos doirados, os vestidos recortes de espanto. E as mesuras repetem-se num acesso. Terceira dama de cauda a rasto, outra dama, cumprimentando para a direita e para a esquerda, e já nos longes enfumados, sempre com exagero e grotesco, outras damas de espavento – da alta roda... E o ser esfarrapado mexe o crânio, para cima e para baixo, com um sorriso à sobreposse. Postiço sobre postiço. Representa – e todas estas figuras parecem sufocadas, todas estas figuras que ela cria ridículas, mal dão dois passos, estão mortas por desatar aos gritos – todas estas damas inverosímeis, de roxo, de amarelo e de verde, pariu-as o grotesco com dor. A Joana imita as contumélias, olha em roda, e recebe-as pé atrás pé adiante. E já o absurdo aumenta, a dor aumenta e transborda, quando outras damas de farsa, outros manequins forjados pelo sonho, se agitam de cá para lá na sala de visitas, engrandecida e transformada na sua boca num salão doirado. É o ponto em que as velhas gozam, sentadas à roda da Joana, em que a D. Felicidade exclama: – Ai que eu não posso mais! Ai que eu até fico doente! Vem-me a sufeca!
– Estão ali todas. Está a D. Hermínia, e com a D. Hermínia um mundo de inveja paciente; a D. Penarícia, e com a D. Penarícia uma alma onde repousam exaustos, como num vasto dormitório, todos os despeitos duma existência inútil; a D. Fúfia com os cabelos arrepiados, e por trás da D. Fúfia as ruínas devastadas de Cartago.
Está a mulher da esfrega trôpega, amachucada, com olhos aguados de cão. E com isto ridículo, e sobre esta tragédia ridículo.
Já a história entra noutra fase. Tantas vezes se tem perguntado porque é que a filha a deixa andar na esfrega, que a velha acrescenta pormenores embaraçosos.
A narrativa torna-se obscura, dolorosa, hesitante, como se fosse arrancada aos pedaços duma alma espezinhada. – E vai eu disse-lhe...
– Hoje é que ela está que até parece o Taborda!
Na realidade a Joana é insuportável. Repete sempre as mesmas coisas, depara-se por todos os cantos como um trambolho. De noite, quando se pilha na enxerga, cuido que mói ainda o mesmo sonho: – A esta, hora lá está ela... a esta hora... A esta hora a minha filha... – E os olhos cerraram-se-lhe de êxtase, de dor ou de espanto no sórdido buraco.
Todas as noites a velha, quando sai da esfrega, dá uma grande volta no negrume, ossuda, molhada até aos ossos. Ninguém sabe onde a conduzem os passos trôpegos, a falar só, a remoer o sonho que a sustenta e ampara. Por vezes palpa um pilar de granito, por vezes debate, com um ser misterioso, uma questão insolúvel. Sigo a sombra esgalgada, que gesticula e reza. Pára numa ruela, senta-se à porta dum casebre. Bate, não lhe respondem. Espera, e outra vez timidamente se atreve a chamar... – De dentro sacodem-na palavras bruscas, e a velha torna por o mesmo caminho, encharcada até aos ossos... Esta casa não é como as outras casas, esta sala não é como as outras salas, nem esta rua como as outras ruas.”
Raul Brandão, in  Húmus, Círculo de Leitores

quarta-feira, 16 de maio de 2018

INTERMEZZO

Terraço do Café à Noite, (1888),Vincent van Gogh
INTERMEZZO
Jusqu’à la guerre de 1939 j’étais au  courant 
des problèmes de la jeunesse,je m’efforçais 
d’être à son niveau, mais depuis les événements 
qui ont bouleversé, le monde, je me sens étranger, 
non seulement aux jeunes,mais à la plupart des 
vivants d’aujourd’hui.
                                Roger Martin du Gard

"Interrompo mais uma vez, as páginas do meu diário(...)
Aproveito este intervalo para deixar claro algo que tem vindo a aparecer nas entrelinhas e, às vezes, nalgumas das linhas deste diário: a minha cada vez maior impaciência com aquilo em que o mundo se tem estado a transformar e com a maioria das gentes que actualmente o povoam. Ia gradativamente sentindo que os meus valores pouco lhes diziam e, pelo meu lado, pouca ou quase nenhuma apetência sentia pelos valores que eles privilegiavam. Um fosso enorme começava a separar-nos. Não se tratava só, da minha parte, de não compreender esse mundo novo e os seus jovens e menos jovens habitantes: é que não me apetecia fazer um esforço por compreendê-los. Tinham valores e gostos que não me interessavam: tinham subitamente desatado a não me interessar. Impacientavam-me, irritavam-me, pareciam-me cópias baratas e mal amanhadas de modelos exteriores, já de si, maus modelos, mas grosseira e superficialmente copiados: fúteis, ruidosos, malsãos, pouco elegantes. As pessoas vestiam-se mal, falavam mal, comiam mal, amavam mal, conversavam mal, liam mal, escreviam mal. As suas proclamadas “inovações” começavam a interessar-me cada vez menos, gostava cada vez mais de reler e cada vez menos de ler. Via, em tantas das saudadas e promovidas “inovações” apenas uma confrangedora falta de conhecimentos básicos e uma anemia sintáctica de mau agoiro. Sintomas de envelhecimento? Possivelmente. Mas tenho que dizer o que sinto, porque este exercício de escrever memórias impõe um duro código de autenticidade. Não posso nem devo fazer batota. Dito isto, não creio que se trate apenas de envelhecimento. O mundo não está numa das suas “finest hours”. O mundo está a mudar vertiginosamente para pior. Eu diria que caminha a passos largos para o abismo. As televisões tornaram-se um universo pavorosamente degradado, visando cada vez mais baixo, a bem das audiências mais boçais e da publicidade que as paga. O grau de imbecilidade e de sordidez da esmagadora maioria dos programas de quase todos os canais – com o futebol a açambarcar e infectar tudo, sob os olhos complacentes até da esquerda – é simplesmente indescritível: comenta-se, obsessivamente o “fado do grande e hórrível crime”: facadas, pauladas, tiros, punhaladas, sangue aos baldes, como em certas encenações das peças de Shakespeare, mas sem o benefício da magia do bardo. Dá-se a todo aquele aparato gótico e pantanal, uma aura de investigação académica, com doutos comentadores que chafurdam na minúcia clínica, que lhes permite, en passant, aludir, como quem não quer a coisa, à vagina macerada e salpicada dos restos de esperma do violador e assassino. Tudo muito minudente, entre o clínico e o lascivo. As audiências, gulosas, repletas, ouvem tudo aquilo, deliciadas e aguardando mais: talvez, no dia seguinte, haja um crime ainda melhor. Os Gouchas e as Pinheiros presidem àquele festim de misérias, sorridentes e aclamados, antevendo bolsos cheios de honorários galácticos, que lhes vão permitindo luxos como os sempre cobiçados trajos “de marca” & outros benefícios marginais. A própria televisão “pública” é um nojo de subserviência ao “mercado”, bonzo que adora sem reservas, entrando em concorrência despropositada de futebóis e outras lutas de gladiadores, à compita com “o privado”, em que também gostaria de se transformar. Porque ser privado e parasita do Estado é o objectivo máximo desta geração de Rastignacs portugueses do século XXI: mas Rastignacs, que temem o risco e só jogam no seguro. Não arriscar, não visar alto (nunca), e, mesmo assim, ganhar muito dinheiro e depressa – é o moto desta gente sem valores mas com ambição desregulada. O “espírito de serviço” desapareceu por completo e, se, por desfortuna, alguém pensa praticá-lo, é tido por pateta e pouco “moderno”. A palavra “moderno” tornou-se a maior prostituta do glossário nacional. As bancadas parlamentares bem comportadinhas e obedientes são uma ofensa à dignidade, à independência e à democracia. Os aparelhos partidários voltaram definitivamente costas aos interesses nacionais, para dividirem coutadas, como quem vende jóias roubadas. Os “donos” do aparelho são, para todos os efeitos, casos de polícia. As histórias de grossa corrupção tornaram-se deliciosamente quotidianas: todos os dias há uma melhor do que a do dia anterior. Nenhuma “imperfeição” do Primeiro Ministro é suficientemente grave para incomodar os ministros, seus colegas, nem os parlamentares da sua coligação, que estão ali, supostamente, para lhe escrutinar os actos. O “brio” é um conceito pré-histórico, obsoleto, escarnecido. Um Primeiro Ministro, em Portugal, nem à pedrada se demite. " 
Eugénio Lisboa, in "Acta Est Fabula, Memórias-V-Regresso a Portugal: (1995-2015)", Editora Opera Omnia, Outubro de 2015,  pp.185,186,187

terça-feira, 15 de maio de 2018

Aux cent fleurs du mois de mai

Camarade


C'est un joli nom Camarade
C'est un joli nom tu sais
Qui marie cerise et grenade
Aux cent fleurs du mois de mai
Pendant des années Camarade
Pendant des années tu sais
Avec ton seul nom comme aubade
Les lèvres s'épanouissaient
Camarade Camarade

C'est un nom terrible Camarade
C'est un nom terrible à dire
Quand, le temps d'une mascarade
Il ne fait plus que frémir
Que venez-vous faire Camarade
Que venez-vous faire ici
Ce fut à cinq heures dans Prague
Que le mois d'août s'obscurcit
Camarade Camarade

C'est un joli nom Camarade
C'est un joli nom tu sais
Dans mon cœur battant la chamade
Pour qu'il revive à jamais
Se marient cerise et grenade
Aux cent fleurs du mois de mai.
Jean Ferrat

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Sobre o Mito

Mito
Por António Cândido Franco
 "O mito (ou a fábula) é, em Aristóteles, a alma da tragédia grega.  Trata-se, segundo ele, da imitação de personagens que agem, quer dizer, o mito é sinónimos em termos de arte poética, de acção.  Entre os seis elementos que constituem para Aristóteles a tragédia o mito é o mais importante deles.  O texto poético pode existir sem o espectáculo cénico, o que secundariza logo à partida os três elementos externos da tragédia, mas nunca sem o mito, que contém já carácter e pensamento, os outros dois elementos internos do género.  O mito é que proporciona, assim, a unidade do drama, uma unidade que nada tem, porém, a ver com a célebre unidade de lugar, de tempo e de acção que Hegel, no livro dedicado à poesia da Estética [trad. port., Álvaro Ribeiro], diz ser uma invenção dos franceses.Ainda no seu tratado sobre a poesia, Aristóteles distingue duas formas de urdir um mito ou trama de factos.  A primeira, a mais poética, inventando-o por arte ou imaginação, e a segunda recorrendo à História ou às lendas heróicas tradicionais, que tratavam de acontecimentos especiais no seio de famfiias reais gregas (l454 a 9). A tragédia, neste segundo caso, é mais História transformada em poesia que imitação da Natureza.  De qualquer modo, a imitação da história pela tragédia, processo comum na criação dos mitos entre os poetas gregos, não é reprodução mecânica nem cópia servil, mas antes reelaboração e aperfeiçoamento, progresso assinalado pelo efeito purgativo dramático, a catarse (v.), que funciona como forma de resolver a dificuldade insolúvel da História.
Recordemos que Almeida Garrett, roubando também à História o tema ou o mito do seu grande drama, o Frei Luiz de Sousa, não deixou de esclarecer na “Memória ao Conservatório Real”, “Eu sacrifico às musas de Homero, não às de Heródoto…”, quer dizer, a História era para ele um pretexto que a poesia depois reelaborava e sublimava.
Em termos antropológicos, o mito remete para uma narrativa fabulosa, que parece escapar ao pensamento racional, seja ele teológico ou científico, mas cuja capacidade compreensiva do mundo -que conviria distinguir da explicativa- foi recentemente posta em relevo por Carl-Gustav Jung e Mircea Eliade, no seguimento dos trabalhos de Schelling (que parece ter sido o primeiro dos modernos a compreender, com dinâmica simpatia espiritual, a natureza pretérita do mito) e J. G. Frazer. Nesta acepção, o mito supõe, como adiantou José Marinho, um silêncio ou uma outra palavra, aquela mesma que é capaz de dizer a presença do irracional no seio da razão ou do logos, que é também relação com o que está imóvel no meio do tempo.  Daí a ideia, também grata a Marinho, de que o mito (Osíris, Prometeu, Adão e Eva) lembra, por meio de uma memória do ímemoríal, a cisão que é a origem do tempo, o que não quer dizer que o mito esteja dentro da tradição, pois esta é já uma  relação móvel. Segundo Eudoro de Sousa, o mito seria antes de mais a intriga de um drama ritualístíco em que se representa a origem.  O drama é o sacrifício, em que a morte de deus oferece a vida ao mundo.  Assim, para este autor, um dos que que teve como poucos o agudo sentido da origem, a mitologia não é a biografia dos deuses mas antes a sua thanatografla; mais do que da criação do mundo, do originado, o mito fala-nos da morte dos deuses, na origem, antes da criação.  Mais do que cosmofania, o mito parece ser neste autor teocriptia.  Se a História fala do originado, o mito é a linguagem adequada para falar da origem e do que nesta ainda não tem devir.
As dificuldades de dizer o mito parecem fáceis de perceber por aqueles que sabem que nem a teologia nem a ciência gostam dos mitos.  Sujeito, desde há muito, à pressão de uma mentalidade positiva, quando não nacionalista, o mito para ganhar alguma popularidade, e mesmo assim no reduto acantonado da poesia ou da sua crítica, teve, durante muitos anos, de se degradar ou vulgarizar debaixo das roupagens muito mais inofensivas da alegoria, contribuindo, desse modo, para o processo, secular ou não, da desmistificação.  Barthes, por exemplo, explicou alegorias e sinais, se não lugares-comuns, mas não mitos, que são inexplícáveis.
Vítima de uma lógica explicativa, o mito acabou por se volver simples mitologia, ou seja, ciência do mito, na maior parte dos casos ciência que perdeu o sentido agudo da imagética e da simbólica primordiais, ficando, quase sempre, reduzida a um acervo de histórias exemplares de um pensamento perjurativamento primitivo, quando não, como parece acontecer no Barthes semiólogo, de um simples processo de desnústificação.
Homens como Jung, Eliade ou Bachelard (a quem se pode acrescentar, entre nós, um Eudoro de Sousa), não são, pela funda simpatia espiritual com que interpretaram e falaram do mito, compreendendo em primeiro lugar a alteridade cultural que ele pressupõe, simples mitólogos.  Todo o seu trabalho supõe uma empatia com o mundo mítico e a consciência acerada de que o logos ocidental, nas suas várias versões, é inadequado à compreensão dos mitos.
O mito vulgarizou-se como alegoria, mas sobreviveu, se bem que de forma rara e em condições de generalisada incompreensão, em poetas isolados, dotados de forte e pessoal criatividade, de que o melhor exemplo entre nós parece ser Teixeira de Pascoaes, que não só retomou e reinterpretou, no seguimento aliás de Guerra Junqueiro, mitos da origem, tais o de Prometeu e o do Paraíso Perdido, como se encarregou ele próprio de fabricar outros, tais o de Marános ou de Eleonor.
O mito, com tudo aquilo que tem de apelo a uma mentalidade simbólica, acabou por ser adoptado, no campo das significações literárias, com largo proveito, por investigadores e mitocríticos como Gilbert Durand, Antônio Quadros e Y. K. Centeno."António Cândido Franco, in E-Dicionário de Termos literários de Carlos Ceia
{bibliografia}
Afonso Botelho, “Mitos do Regresso à Origem”, ín Saudade, Regresso à Origem, 1997; Antônio Quadros, Estruturas Simbólicas do Imagínário na Literatura Portuguesa, 1992; Aristóteles, Poética [Tradução, Prefácio, Introdução, Comentário e Apendices de Eudoro de Sousa, (2ª ed., revista e acrescentada)], 1986; B. Slote (ed.), Myth and Symbol, 1963; Eduardo Lourenço, “Poética Mítíca”; in Tempo e Poesia, 1987; “Da Crítica como Metáfora à Procura do Texto”, in O Canto do Signo, 1993; E. Cassirer, Sprache und Mythos, 1952; Eudoro de Sousa, Dionisos em Creta e Outros Ensaios, 1973;Hístória e Mito, 1981; Mitologia, 1984; Femando Bastos, Mito e Filosofia – Eudoro de Sousa e a Complementaridade do Horizonte, 1992; Francisco Soares, Fábula da Captação do Elemento Desvairado, 1995; Friedrich W. Schelling, Philosophie der Mythologie, 1857; Gilbert Durand, Les Structures antropologiques de l’imaginaire, 1969; James Frazer, The Golden Bough, 12 vols., 1890-1936; Maria Leonor Machado de Sousa, Mito e Cilação Literária, 1985; Mircea Eliade, Mythes, rêves et symboles, 1957; Northrop Frye, Anatomy of Criticism, 1957; Robert Chase, The Quest of Myth, 1949; R. Barthes, Mitologias, 1957 [trad. port.  José-Augusto Seabra, 1972]; R. Y. Hathorne, Tragedy, Myth and Mystery, 1962; Victor Jabouille, “Mito Clássico e Literatura Portuguesa”, in Actas do Colóquio sobre o Ensino do Latim [Lisboa], 1987, Walter Burket, Mito e Mitologia, [Lisboa, 1991]; Y. K. Centeno, Cinco Aproximações: Peter Weiss, A. Ramos Rosa, Alquimia e Misticismo, Fernando Pessoa, Hennann Hesse, 1975.