quinta-feira, 19 de outubro de 2017

George Saunders , vencedor do Man Booker Prize 2017

George Saunders
George Saunders é o vencedor do Man Booker Prize 2017
"Lincoln no Bardo", o primeiro romance de George Saunders, é grande vencedor do Man Booker Prize. Saunders é o segundo norte-americano a ganhar o galardão inglês.
Lincoln no Bardo, o primeiro romance de George Saunders, é o vencedor da edição deste ano do Man Booker Prize, um dos mais importantes prémios literários de língua inglesa. Saunders torna-se assim no segundo norte-americano a levar para casa o galardão, no valor de 50 mil libras (56 mil euros), depois de este ter sido atribuído no ano passado a Paul Beatty, autor de The Sellout (O Vendido). Beatty foi o primeiro escritor de nacionalidade norte-americana a receber o prémio.
Num vídeo divulgado através das redes sociais, Baroness Lola Young, presidente do júri deste ano, explicou que o vencedor se destaca dos outros cinco finalistas “pela sua inovação” e “pela forma como foi escrito”. “Um dos jurados referiu-se a ele como fogo-de-artíficio que ilumina o céu e nos faz repensar a maneira como encarávamos coisas como a morte e o luto e nos faz reconciliar com a nossa própria e com a mortalidade dos outros, principalmente daqueles que amamos“, referiu ainda Baroness Lola Young.

“Podemos ficar um bocadinho desconcertados com a forma como a história é apresentada, o formato e a forma como as personagens falam mas, assim que entramos nela, é como fazer parte de um carnaval com muitas, muitas personagens diferentes”, disse ainda a presidente do júri, composto também por Lila Azam Zanganeh, Sarah Hall, Tom Phillips e Colin Thubron.
“Vivemos tempos estranhos”
O anúncio foi feito ao início da noite desta terça-feira, durante uma cerimónia formal no Guildhal, em Londres, e o prémio entregue pela Duquesa de Cornwall, Camilla Parker Bowles. Dirigindo-se à audiência, Saunders admitiu sentir-se honrado com a atribuição do prémio, agradecendo à mulher, Paula, “uma amiga preciosa, visionária e uma heroína artística”. “Não sei se repararam, mas vivemos tempos estranhos”, disse ainda. “Portanto, a questão central é muito simples: respondemos ao medo com exclusão, projeções negativas e violência ou temos fé e damos nosso melhor para responder com amor e com fé na ideia de que o que parece diferente não é, mas somos nós num dia diferente?”
Referindo que “esta noite” se celebrou a cultura — “internacional, compassiva, ativista” –, George Saunders disse que tinha perante si uma “sala cheia de crentes no mundo, na beleza, na ambiguidade e que tentam ver o ponto de vista dos outros, mesmo que seja difícil”, citou o The Guardian.
Lincoln no Bardo, o primeiro romance de George Saunders
Nascido em 1958, no Texas, George Saunders começou a escrever relativamente tarde. Licenciado em engenharia geofísica pela Colorado School of Mines, começou por trabalhar como engenheiro e escritor técnico para a Radian International, em Nova Iorque. Foi só mais tarde, já nos anos 90, que se começou a dedicar à escrita. Estreou-se em 1996 com a coletânea de contos CivilWarLand in Bad Decline, o primeiro de muitos. Em 2000, publicou Pastoralia, aquele que é considerado o seu melhor livro. Ou melhor, era.
Professor de escrita criativa na Universidade de Syracuse, em Nova Iorque, tem também colaborado com vários órgãos de comunicação, como a revista New Yorker ou jornal The Guardian. As suas coletâneas de contos, novelas e trabalhos de não ficção, valeram-lhe ao longo dos anos inúmeros galardões, incluindo o PEN/Malamud Award, em 2013, ou o Folio Prize, no ano seguinte.
A sua última coletânea de contos, Dez de Dezembro, foi publicada em 2013 nos Estados Unidos da América e em 2016 em Portugal, pela Ítaca. Lincoln no Bardo, de 2017, foi a primeira tentativa do autor no romance. Considerado por muitos um dos livros mais aguardados do ano, recebeu críticas elogiosas de jornais como o The New York Times e de autores como Zadie Smith, também nomeada para o Booker Prize, Thomas Pynchon e Jonathan Franzen. Misturando ficção e não-ficção, Lincoln no Bardo passa-se depois da morte do filho de Abraham Lincoln, William Wallace Lincoln, e retrata a dor do presidente dos Estados Unidos da América que, de acordo com relatos da época, terá tido uma depressão. Imaginando que Willie, como William Lincoln era conhecido, ficou preso no bardo, uma espécie de limbo para os budistas tibetanos, Saunders criou um enredo onde os mortos parecem incapazes de aceitar a morte.
Além de ser o segundo romance norte-americano a vencer o Booker Prize, Lincoln no Brado, editado pela Bloomsbury Publishing (com tradução portuguesa da Relógio d’Água), é o terceiro vencedor consecutivo publicado por uma editora independente.
A lista dos seis finalistas do Man Booker Prize foi divulgada a 13 de setembro (CHRIS J RATCLIFFE/AFP/Getty Images)
Além de Saunders, estavam nomeados para o galardão os autores Paul Auster (Estados Unidos da América), com 4 3 2 1 (editado pela Faber & Faber, com tradução portuguesa da ASA), Emily Fridlund (Estados Unidos da América), com History of Wolves (editado pela Weidenfeld & Nicolson), Mohsin Hamid (Paquistão), com Exit West (editado pela Hamish Hamilton), Fiona Mozley (Reino Unido), com Elmet (editado pela JM Originals) e Ali Smith (Reino Unido), com Autumn (editado pela Hamish Hamilton, com tradução portuguesa da Elsinore).
Na altura, o júri descreveu os seis finalistas como “originais” e “inovadores”, e capazes de transmitir uma força única que faz com que seja impossível esquecê-los. “Os seis livros são extraordinários e acima de tudo ousados e adoro o que fazem com a literatura. Tentam empurrar os limites relativamente ao que significa um romance e o que um romance diz sobre o mundo atual”, apontou a crítica literária Lilam Azam Zanganeh.
No ano passado, o galardão foi atribuído The Sellout (editado este ano em Portugal pela Elsinore com o título O Vendido), de Paul Beatty. Beatty, foi o primeiro escritor norte-americano a receber o Man Booker Prize, algo que só foi possível depois de as regras terem sido alteradas em 2014. Nesta data, o Booker passou a estar acessível a escritores de qualquer nacionalidade cujas obras tenham sido escritas originalmente em inglês e publicadas por uma editora registada no Reino Unido."Rita Cipriano, Observador, 17.10.2017

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

A necessidade do amor


«Sofro a necessidade do amor, penso às vezes. E creio senti-la.
Sofro do amor sem partilha, decepcionado. Sofro de desânimo, de desejo, de desalento; sofro.
Aperta-me, comprime-me a secura dos outros. O seu egoísmo, a sua insociabilidade, ou a sua falsa, interesseira sociabilidade, a sua dureza, a sua aridez, a sua volubilidade! Sinto-me repelida por tudo isto.
E não serei... não serei...
Haveria jamais amor que me contentasse?
Correspondência para a minha pobreza e ânsia?
Mas conquistada ela - com o que não sonho - não me sentiria liberta para me deslocar sempre, em corpo e em espírito, em realidade e em desejos?»
Irene Lisboa,in Solidão II, Editorial Presença

terça-feira, 17 de outubro de 2017

O Nobel da Literatura de 2017

Nobel da Literatura
Depois de Dylan, de novo um escritor
Por Diogo Vaz Pinto ,06/10/2017
“Kasuo Ishiguro, o escritor inglês de origem nipónica, vence o mais prestigiado prémio literário e, depois de Bob Dylan, a Academia Sueca retoma a sobriedade
Quem quer que o Nobel da Literatura distinguisse este ano, o mais certo é que desse pelo seu momento de glória num ambiente de fim de festa: o cheiro a despegado, o chão a precisar de ser varrido e as janelas abertas de par em par de modo a desanuviar as coisas. Depois da atribuição do 113º Nobel a Bob Dylan, e ainda sob o efeito da ressaca da farra dos embevecidos fãs e do entusiasmo daqueles que, por uma vez, até sabiam de quem se estava falar; depois de toda a polémica e discussão, das críticas dos que tiveram alguma dificuldade em entender o propósito da Academia Sueca ao entrar no culto de um dos legados artísticos incontornáveis do século XX, um músico que vendeu milhões de álbuns em todo o mundo, provou ser um letrista de excepção, com letras enigmáticas e imbuídas de um imaginário cosido à mão e a partir de milhares de versos lidos na berma de mil caminhos, coube a Kasuo Ishiguro, um escritor inglês de origem nipónica, ocupar o lugar seguinte na lista. É tramado.
O Nobel da Literatura de 2017 foi atribuído a Ishiguro e aos seus “romances de grande força emocional, que revelam o abismo da nossa ilusória sensação de conforto em relação ao mundo”, anunciou ontem de manhã em Estocolmo a secretária permanente da Academia Sueca Sara Danius.
Com uma escrita “marcada por uma expressão cuidadosamente contida, independentemente dos acontecimentos que retrata”, o autor de 62 anos mudou-se aos cinco com a família do Japão para o Reino Unido, quando o pai foi aceite como investigador no National Institute of Oceanography, em Southampton. Educado numa escola de rapazes em Surrey, após ter-se licenciado em 1978 com uma especialização em língua inglesa e filosofia na Universidade de Kent, na Cantuária, trabalhou como assistente social nos bairros mais pobres de Londres. Em 1980 obteve um mestrado em escrita criativa pela Universidade de East Anglia e, três anos depois, foi incluído na lista de melhores jovens escritores britânicos organizada pela Granta, a par de Martin Amis, Ian McEwan e Salman Rushdie.
O comité do Nobel adiantou no Twitter que Ishiguro tem mostrado uma certa propensão para temas relacionados com a falibilidade da memória, o tempo e as ilusões que alimentamos para suportar a vida. Após o anúncio, Sara Danius deu uma curta entrevista difundida em directo em que sublinhou o facto de a Academia distinguir este ano “um escritor de grande integridade” que “desenvolveu um universo estético só seu”. “Kazuo Ishiguro está muito interessado em compreender o passado. Não para o redimir, mas para revelar o que temos de esquecer para sobrevivermos enquanto indivíduos e enquanto sociedade”. A porta-voz do júri confessou ainda que o seu romance preferido do autor é o recente “O Gigante Enterrado”, “uma verdadeira obra-prima que começa como uma comédia de costumes de P.G. Wodehouse e acaba num registo kafkiano”.
Num tom que já de si denuncia a queda da Academia por uma obra cuja originalidade nasce de um sortido de diversas influências, Danius indicou que, além de Kafka, Jane Austen é outra das referências mais notórias na escrita de Ishiguro, acrescentando que para obter a receita completa desta será preciso ainda “acrescentar um pedacinho de Marcel Proust e depois agitar, mas não muito”.
Em declarações à BBC, Ishiguro disse que a atribuição do prémio era “uma magnífica honra - acima de tudo porque significa que estou a seguir as pisadas dos maiores autores que já viveram”. Num comunicado divulgado posteriormente pelo seu editor, o escritor não deixou de encarar a responsabilidade do prémio, e escreve este lhe chega “num momento em que o mundo atravessa uma grande incerteza quanto aos seus valores, lideranças e segurança”. “Só espero que, ao receber esta honra imensa, possa, mesmo que de uma forma modesta, encorajar as forças que se posicionam do lado do bem e da paz neste momento”.
Depois da publicação do seu primeiro romance, “As Colinas de Nagasaki” (1982), Kazuo Ishiguro “tem sido um escritor a tempo inteiro”, sublinhou a Academia Sueca. Longe de ser um autor prolífico, os romances publicados ao longo de 35 anos adoptam muitas vezes uma narração na primeira pessoa, narradores não fiáveis, que frequentemente estão em negação face a verdades que o leitor vai descortinando aos poucos. À semelhança do que viria a acontecer na sua segunda obra, “Um Artista do Mundo Transitório” (1986), editada em Portugal pela Livro Aberto, o romance de estreia tem a sua acção na cidade onde o escritor nasceu (Nagasaki) em 1954, alguns anos depois da Segunda Guerra Mundial e da devastação provocada pela bomba atómica dos EUA.
Numa entrevista concedida ao “Público”, em 2005, Ishiguro falou de como o marcou ter nascido numa cidade onde as cicatrizes da guerra eram tão visíveis: “Acho que todos tememos uma coisa como a bomba atómica, só que eu nasci em Nagasáqui e aprendi o que isso quer dizer de uma maneira diferente da maioria das pessoas. A minha desconfiança na ciência e na capacidade que a sociedade humana tem para gerir as suas próprias descobertas está provavelmente enraizada nesse facto.”
Sara Danius descreveu o autor britânico como “alguém muito empenhado em compreender o passado”, mas apesar das marcas de Proust, garantiu que a sua escrita não pode ser ligada à busca de um tempo perdido, e que não lhe interessa redimir o passado, mas que tem explorado o que é preciso esquecer de modo a que possamos sobreviver antes de tudo como indivíduos ou enquanto sociedade”.
A porta-voz adiantou ainda que, depois das divisões e da polémica do ano passado, esperava que a escolha deste ano fizesse “o mundo feliz”. Mas apressou-se a garantir que a Academia teve apenas como critério a distinção de um “romancista que julgamos ser absolutamente brilhante”.
Entre os nove livros do autor, incluem-se “Os Despojos do Dia”, livro com o qual venceu o Booker Prize, em 1989 e que foi adaptado ao cinema em 1993 por James Ivory, com Anthony Hopkins e Emma Thompson como protagonistas. Outro livro que teve ampla projecção foi “Nunca me Deixes” (2005), um romance distópico adaptado ao cinema em 2010, contando com realização de Mark Romanek e adaptação do argumento por Alex Garland, com Carey Mulligan, Keira Knightley e Andrew Garfield nos principais papéis.
A Relógio D’Água publicou em 1989 “As Colinas de Nagasaki”. Desde então, a obra do autor tem sido dada a conhecer ao público português pela Gradiva, sendo “Nocturnos” (2009) e “O Gigante Enterrado” (2015) os dois livros mais recentes do autor.
Ishiguro escreveu também “Os Inconsolados” (1995, vencedor do Cheltenham Prize) e “Quando Éramos Órfãos” (2000, nomeado para o Booker Prize e para o Whitbread Prize). Entre as múltiplas distinções pela sua obra, conta com a nomeação como Chevalier de l’Ordre des Arts et des Lettres em França, no ano de 1998.
Depois do eco que o galardão teve no ano passado, com a atribuição a Dylan “por ter criado novas formas de expressão poética no quadro da grande tradição da música americana”, naquela que foi considerada a mais radical da história da Academia Sueca, Ishiguro é uma escolha que não supreende - ainda que o seu nome não figurasse entre os favoritos das principais casas de apostas - nem entusiasma. Apesar do quase unânime favor da crítica, está longe de ser um autor incontornável, e o mais provável é que, como aconteceu com Patrick Modiano (que venceu o prémio em 2014), depois de passar a momentânea febre do Nobel, o seu nome volte à segunda linha da literatura contemporânea.
A Academia pagou caro o preço de ter tentado colar-se a Dylan. Este mostrou-se um vencedor hesitante, esquivo. Foi descrito como “indelicado e arrogante” por Per Wastberg, um dos membros do júri, depois de se ter mantido incontactável durante dias a seguir ao anúncio, e é claro que também não compareceu à cerimónia de entrega do prémio em Estocolmo.
Este ano, a canadiana Margaret Atwood, o queniano Ngugi Wa Thiong’o e o japonês Haruki Murakami lideravam as apostas, com António Lobo Antunes a figurar uma vez mais na lista dos tradicionais candidatos ao prémio. Entretanto, as reacções foram chegando e Salman Rushdie, outro dos anuais candidatos ao Nobel, colocou a tónica certa ao felicitar o amigo, sem dar demasiado peso à distinção: “Muitos parabéns ao meu velho amigo Ish, cujo trabalho amo e admiro desde que li pela primeira vez ‘As Colinas de Nagasaki’. E ele também toca guitarra e escreve canções! Roll over Bob Dylan!”.
Por sua vez, Andrew Motion, poeta laureado do Reino Unido entre 1999 e 2009, deu sinais de arrebatamento e mostrou alguma familiaridade com a obra nas declarações que prestou ao “The Guardian”: “O imaginativo mundo de Ishiguro tem a grande virtude e o grande valor de ser ao mesmo tempo altamente individual e profundamente familiar - um mundo de espanto, isolamento, vigilância, ameaça e maravilhamento”.
“Como é que ele o consegue? Entre outras formas, ao basear as suas narrativas em princípios fundadores que combinam uma tão fastidiosa distâncias quanto igualmente vívidas indicações de intensidade emocional. É uma combinação tão extraordinária quanto fascinante, e é maravilhoso vê-la ser reconhecida pelo júri do Nobel”, disse Motion.” Diogo Vaz Pinto, em artigo publicado no Jornal i, em 6.10.2017

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

A paleta de Renoir



"A paleta de Renoir era limpa "como uma moeda nova". Era uma paleta quadrada que se encaixava na tampa do estojo, que tinha a mesma forma. Num dos godés duplos, punha óleo de linhaça puro e no outro uma mistura de óleo de linhaça com essência de terebentina, em partes iguais. Numa mesa baixa, colocada ao lado do cavalete, tinha um copo cheio de essência de terebentina em que enxaguava o pincel, praticamente após cada aplicação de cor.
Na caixa, e em cima da mesa, tinha alguns pincéis de reserva. Nunca tinha em uso mais do que dois ou três ao mesmo tempo. Mal começavam a ficar gastos, esborratavam, ou por qualquer outra razão deixavam de lhe proporcionar uma absoluta precisão de pincelada, deitava-os fora. Exigia que destruíssem os pincéis velhos, não fosse ele pegar em algum deles por engano enquanto trabalhava.
Na mesinha havia também panos limpos, com os quais secava de vez em quando o pincel. 
A caixa, tal como a mesa, estavam sempre perfeitamente arrumadas. 
Os tubos de tintas eram enrolados a partir da dobra, de forma a obter, ao espremê-los, a quantidade exacta de tinta pretendida.  
No princípio da sessão de trabalho, a paleta, que tinha sido limpa no fim da sessão anterior, estava imaculada. Para a limpar, começava por raspá-la, vertendo os resíduos para um papel, que atirava logo para o lume. Em seguida, esfregava-a com um pano embebido em essência de terebentina até que não houvesse o mínimo resquício de tinta na madeira. O pano ia também para o lume.
Os pincéis eram lavados com água fria e sabão. Recomendava que esfregassem suavemente os pêlos na palma da mão. De vez em quando encarregava-me desta operação, o que me enchia de orgulho.
Renoir descreveu pessoalmente a composição da sua paleta numa nota que a seguir transcrevo e que data, evidentemente, do período impressionista:
Branco de prata, amarelo de crómio, amarelo-de-nápoles, ocre amarelo, terra-de-siena natural, vermelhão, laca de garança, verde-veronês, verde-esmeralda, azul-cobalto, azul-ultramarino, espátula, raspadeira, essência, tudo o que é necessário para pintar. O ocre amarelo, o amarelo-nápoles e a terra-de-siena são meros tons intermédios que são dispensáveis, pois podem fazer-se com outras cores. Pincéis redondos de pêlo de marta, pincéis chatos de seda.
Registe-se a ausência do preto, "a rainha das cores", como ele próprio iria proclamá-lo no seu regresso de Itália.
 À medida que se aproxima do fim da vida irá  simplificar ainda mais a sua paleta. A ordem de que me lembro na época em que pintava "As Grandes Banhistas" do Louvre, no ateliê de Les Collettes, era a seguinte: começando de baixo, junto da abertura para o polegar, o branco de prata, em quantidade generosa, o amarelo-de-nápoles num montículo minúsculo, tal como todas as cores que se seguem - o ocre amarelo, a terra-de-siena, o ocre vermelho, a laca de garança, a terra verde, o verde-veronês, o azul-cobalto, o negro-marfim.
Esta selecção de cores não era inalterável. Eu vi Renoir, embora em raras ocasiões aplicar vermelhão chinês que punha na paleta entre a laca de garança e a terra verde. Nem Gabrielle nem eu o vimos usar o ocre de crómio. 
Esta exiguidade de meios era impressionante.  Os montículos de tinta pareciam perdidos na superfície de madeira, rodeados de vazio. Renoir encetava-os com parcimónia, com respeito. Era como se achasse que iria ofender Mullard, que lhe tinha preparado meticulosamente aquelas cores, se atafulhasse a paleta com elas e depois não as usasse até à mais pequena parcela.
Quase sempre misturava as tintas na tela. Preocupava-se muito em que o quadro mantivesse, ao longo de todas as fases do trabalho, uma impressão de transparência."
Jean Renoir, in "Pierre-Auguste Renoir, meu Pai" , págs 336 a 338, 2005, Ed. Bizâncio, Lisboa.
"Young Gir in a Blue Hat"

"Mosque in Algerie" -1882
"Mademoiselle Demarsy" - 1882
La Grenouillère 1869

Pierre Renoir, auto retrato

domingo, 15 de outubro de 2017

Ao Domingo Há Música

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Calam-se as cordas. A música sabia o que eu sinto.
                                              Jorge Luis Borges
A verdade é que ninguém passa por nossa vida em vão. A diferença é que algumas pessoas são possibilidades de felicidade, outras de lições.
                                              Jorge Luis Borges


Jorge Luis Borges  e Astor Piazzolla são argentinos. Expoente máximo da Literatura , Borges afirmou que , em música , forma e substância não podem ser separadas.  Uma melodia ou qualquer trecho musical é um desenho de sons e pausas  que se desenrola no tempo, um desenho que me parece que não se possa rasgar. A melodia é apenas  o desenho , as emoções que lhe deram origem  e as emoções que ela desperta.
Astor Piazzolla  soube utilizar essa arte e criar belas melodias que carregam emoções que  nos despertam muitas outras. 
Oblivion  é  uma das suas extraordinárias composições. Apresentamo-la interpretada por Stjepan Hauser,   num arranjo pessoal, acompanhado pela Zagreb Philharmonic Orchestra, dirigida pelo Maestro Ivo Lipanovic.

sábado, 14 de outubro de 2017

Um vento suave

“Os pensamentos têm milhões de caminhos, e somos sempre levados por eles para o mundo do esquecimento. Se nós pudermos transformar o local de nossa caminhada num campo de meditação, os nossos pés darão cada passo com consciência plena. A respiração estará em harmonia com os passos, e a nossa mente estará naturalmente em paz. Cada passo que damos irá reforçar a nossa paz e alegria e resultará num fluxo de calma energia que fluirá através de nós. Então podemos dizer: ‘A cada passo, sopra um vento suave’.”Thich Nhat Hanh, (monge budista vietnamita)in " Present Moment, Wonderful Moment"

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Sexta feira 13

Conheça algumas das histórias ligadas às sextas-feiras 13
"O ano de 2017 tem reservadas duas sextas-feiras 13 – uma delas já foi (13 de Janeiro), a outra só em Outubro. Muitos, supersticiosos ou não, consideram que estas sextas-feiras estão repletas de azar e há quem deixe de fazer tarefas por isso.
Mas não foi por ficar em casa numa sexta-feira 13, em 1976, que Daz Baxter escapou ao azar – o nova iorquino acabou por morrer, na cama, devido ao colapso do chão do seu apartamento.
A História está repleta de sextas-feiras 13 azarentas como estas e muito provavelmente o medo explica-se através delas. Há quem relacione o azar destas sextas-feiras com a religião. Porquê? Talvez porque Eva trincou a maçã da Árvore da Ciência do Bem e do Mal precisamente numa sexta-feira 13, assim o dizem alguns historiadores, segundo o The Telegraph. Ou então porque Judas, o apóstolo traidor, foi considerado o 13º convidado para a última ceia de Jesus, que morreu a uma sexta-feira.
Matematicamente falando, o número 13 não tem grande reputação, digamos assim, já que se trata de um número irregular. Existem 12 meses num ano, 12 ponteiros de relógio, 12 deuses do Olimpo, 12 tribos de Israel, 12 Imãs, 12 constelações no Zodíaco. Enfim, o número 12 é associado a perfeição, a plenitude, "enquanto o seu primo mais velho, 13, é visto como um anexo", refere o jornal inglês.
Muitas coisas más aconteceram a uma sexta-feira 13. De acordo com o The Sun, em Setembro de 1940, os nazis lançaram uma bomba no Palácio de Buckingham, em Inglaterra. Em outubro de 1972, um avião despenhou-se na Cordilheira dos Andes. Já no Bangladesh, na sexta-feira, 13 de Novembro de 1970, um ciclone vitimou 500,000 pessoas. Muito tempo antes, em Outubro de 1307, milhares de cruzados foram presos e posteriormente torturados pelo Rei Filipe IV de França.
Certo é que o medo é tão grande que até já foi criado um nome para este medo específico: paraskavedekatriaphobia. Há também um nome para o medo irracional relativamente ao número 13: triscaidecafobia.
Franklin Roosvelt, 32º Presidente dos EUA, era bastante supersticioso relativamente ao número 13. Era triscaidecafóbico. Recusava-se, por exemplo, a viajar nos dias 13 de cada mês e não receberia 13 convidados para jantar, conta a NBC News.
Se não tiver medo nenhum destas sextas-feiras 13, sabia que há formas de tomar partido deste azar? Por exemplo, se quiser viajar, este talvez será um bom dia, já que as companhias aéreas tendem a baixar os preços dos bilhetes. Ou então, se quiser casar, mas tiver de poupar dinheiro, a escolha por um dia destes também poderá ser mais barata.
Tenha atenção ao seu medo, porque acreditar na superstição da sexta-feira 13 pode ser, segundo Caroline Watt, da Universidade de Edinburgh, precisamente, o que o coloca em perigo. "Como resultado [dessa crença] as pessoas podem ficar mais ansiosas e distraídas, o que pode levar a mais acidentes. Torna-se numa profecia que se cumpre a si mesma", disse a psicóloga ao The Telegraph." Visão

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Que não crie raízes


     Todo mundo é capaz de dominar uma dor, excepto quem a sente.
                                                                   William Shakespeare

Há dias que não sabemos porquê, ou fingimos que não sabemos, ou ainda não queremos saber por que anda tanta tristeza no ar. Não é apenas no ar: ela engole-nos, respira-nos. Quase nos sufoca. 
E assustamo-nos a pensar que do tempo nada nos sobrou. É o desgaste, são os dias que nos levaram, é a força que se foi , é o tanto que nos pesa , é o mundo que soçobra, é a vida que se arrasta
Vem a angústia. Abrimos-lhe os braços e deixamo-nos abraçar.  Surda, muda, aninha-se. Ocupa-nos. O coração afoga-se. 
Que não crie raízes , Deus meu!

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Citando...


"Chorámos e esmorecemos, lamentámo-nos, medrosos, e desatámos a berrar em sofrimento. Mas seguimos em frente, seguimos e vencemos as dificuldades."
Hermann Hesse, in Contos maravilhosos, Publicações Dom Quixote

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A força do meu grito

Rui Knopfli
PRO MEMORIA
RUI KNOPFLI ( 1932 – 1997)
“… ecoo inteiro a força do meu grito”
Por Eugénio Lisboa

"Passam, dentro de poucos meses, vinte anos sobre a morte, em Lisboa, do poeta Rui Knopfli, escritor português de raízes moçambicanas e cultura universal.
Nascido em Inhambane (Moçambique), em 10 de Agosto de 1932, Rui Knopfli viveu a maior parte da sua vida em Lourenço Marques, para onde a sua família se transferiu em 1934 e onde produziu também a maior parte da sua obra. Nesta cidade do Índico concluiu os seus estudos liceais, tendo, depois, entre a África do Sul e Lisboa, congeminado a hipótese de um curso superior – possivelmente de arquitectura – que nunca, contudo, levou a efeito. Regressado a Moçambique, ali viveu até 1975, chumbado àquela “cidade provinciana”, que tanto amou, apesar da aguda e omnipresente consciência de estar a viver no “país dos outros”. Um país dos outros que era, paradoxal e pungentemente, também muito seu.
De um temperamento vivo, nervoso e com traços fundos de depressão não vigiada, o autor de tantos livros de uma poesia moderna, visitada e fecundada por uma vasta leitura, Knopfli dedicar-se-ia a uma agitação da vida cultural laurentina, nos sectores da literatura, do cinema, do jazz, da pintura… Irrequieto, acutilantemente polémico, com toques vivos de uma maldade salutar e frutuosa, Rui Knopfli, repito, contribuiu, como poucos, para animar a paisagem cultural não só de Lourenço Marques, mas de toda a colónia, da Beira a Nampula e Porto Amélia. Irreverente e provocador (gostava de dizer, com acinte, que preferia, de longe, o Bucha e Estica ao Charlot), leitor omnívoro, devorador de cinema (o americano e o outro, mas com uma clara preferência pelo americano, mesmo o de assim não tão boa qualidade), leitor assíduo e coleccionador de revistas inglesas e francesas (de cinema, literatura, teatro e artes plásticas), o Rui passou, como toda a gente, por uma fase de simpatia pelo neo-realismo, no qual, todavia, se não deixou ficar. Como também se não deixou ficar no marxismo-leninismo, depois de lhe ter, com algum enlevo, arrastado a asa. Ainda, como toda a gente, se deixou enfeitiçar pela literatura brasileira: o feitiço de Jorge Amado durou pouco, mas Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto ficaram.
Tive, com o Rui, o grande e inquietante prazer de dirigir, durante breves meses, o suplemento cultural do diário A Tribuna, e, durante longos e saboreados anos, as páginas culturais de A Voz de Moçambique. Semeámos, acho eu, alguma coisa, e criámos, tenho disso a certeza, um punhado de inimigos de estimação. Tanto da sementeira como da promoção de adversários convictos nos orgulhávamos nós muito e com alguma candura. Colaborámos também, com algum vigor, no Cine-Clube de Lourenço Marques, onde nos tornávamos, a um tempo, muito necessários e muito suspeitos. Do nosso empenho, eficácia e produtividade, ninguém duvidava; do nosso “não alinhamento” ideológico, quase toda a gente desconfiava. Cultura, sim, admitiam, mas cultura enviesada, não, advertiam… A isto, eu dizia “mata” e o Rui dizia “esfola”. Como não aderíamos à “boa doutrina”, nem ao Rui nem a mim confiavam, no Cine-Clube, cargos directivos. Como, no entanto, era necessária mão de  obra, lá fizeram de mim Presidente do Conselho Fiscal (cargo rigorosamente não executivo), pedindo-me que, com alguma frequência, orientasse debates. Ao Rui, aproveitavam-no também para dirigir debates (severamente vigiados) e mais nada. Foram, digamos, dias bem vividos. Ser pestiferado não deixa de ser um destino apetecido.
Da poesia de Knopfli, disse já, algures, o seguinte, que aqui transcrevo para fugir à tentação deselegante das paráfrases: “A sua poesia é, simultaneamente, o produto de um temperamento muito pessoal e de uma cultura literária vasta e assimilada em profundidade. De uma dicção poética extremamente económica – apeteceria dizer: esfolada até ao osso - , quebrando-se perversamente em ritmos de jazz (uma das suas assimilações mais intensas), impregnada de ironia, angústia e, até, de sinais de presságio, a poesia de Rui Knopfli funde, em si, uma vivência profundamente africana mas curtida numa inconfundível aticidade que vem de uma longa convivência com autores clássicos e com os grandes modernos, sobretudo de língua inglesa.
“Pertencente a uma linha de poetas da língua portuguesa em que o discurso poético mais se busca e constrói do que espontaneamente acontece (Sá de Miranda, António Ferreira, Fernando Pessoa, Jorge de Sena), Rui Knopfli, por outro lado, desleixa (ou teme, ou recusa) o cálculo rigoroso de uma métrica ou de uma rima, que algum modernismo (mas não todo) também desleixou. Não deixa, porém, de ser curioso que as principais influências (ou encontros) literários de Rui Knopfli tenham que ver com o modernismo anglo-saxónico (americano e inglês), o qual, precisamente, não raro achou não ser necessário desprezar nem a métrica nem a rima.”
Quanto à economia dos seus recursos de língua, tivemos já ocasião de a contrastar com a extrema exuberância manifestada na poesia do seu amigo José Craveirinha. Nestes termos (mais uma vez transcrevo); “Se a poesia de um Craveirinha denuncia o o trágico e a aridez da situação africana através de uma linguagem opulenta, luxuriante e, às vezes, quase pesadamente indiscreta, a de Rui Knopfli, no outro polo, sublinha a mesma situação extrema, através de um discurso magro de palavras, escorreito, tenso, quase avaro: como se a falta de tudo tornasse quase obscena a abundância da língua.”
Poesia anunciadora, desde o primeiro poema do seu primeiro livro – O País dos Outros – de um “céu de chumbo e baionetas / caladas / sob uma floresta de sono / e demência” que indiciam “a cólera / do tempo”, ela põe-nos, sem demora, o poeta no centro de um exílio-a-haver, de resto, já sentido e vivido num presente em que “gemem ventos, / fluem surdos rios.”
Rui Knopfli conheceu já um certo modico de reconhecimento internacional, com a inserção de poemas seus em antologias de língua inglesa, com a tradução dos seus três primeiros livros, em francês, num só volume, com o título Le Pays des Autres e com uma recente versão castelhana (premiada em Barcelona) de uma selecção de poemas seus. Sem falar numa antologia por mim organizada e publicada no Brasil, em 2010.
Em Portugal este ano será um ano festivo: uma antologia já publicada em Coimbra e outra a vir à luz, em breve, em Lisboa, atestam o interesse que este poeta começa finalmente a despertar. Já não é sem tempo. Mas será também de justiça recordar que, não há muito tempo, a Universidade de Aveiro organizou, em Vila Viçosa, onde o poeta está sepultado, um belo colóquio de três dias, consagrado ao autor de Mangas Verdes com Sal. Rui Knopfli começa, por fim, a ver-se ecoado “inteiro na força do [seu] grito”. O qual poderia continuar a ecoar nalguma universidade menos distraída,  que quisesse aproveitar a efeméride. Aqui fica a sugestão."
Eugénio Lisboa, em Crónica publicada no JL nº1226, de 27 de Setembro  a 16 de Outubro de 2017