domingo, 10 de junho de 2018

Ao Domingo Há Música

Ria do Alvor, Portimão
É hoje: todo o ontem foi caindo
entre dedos de luz e olhos de sonho,
amanhã chegará com passos verdes:
ninguém detém o rio da aurora


(...)
por isso canto ao dia e à lua,
ao mar, ao tempo, a todos os planetas,
a tua voz diurna e a tua pele nocturna.

                        Pablo Neruda

De um país longínquo, Pablo Neruda  fez-se ouvir pelo mundo. O seu canto de poeta é celebrado universalmente. Quando o talento enforma uma voz, não há limites. Solta-se, corre, invade e aninha-se nos corações de quem a descobre.
Hoje, relembraremos  a magia das palavras do poeta chileno e o encanto  da música do  húngaro HavasiSerá o nosso jeito de vos saudar porque  partiremos para uma pausa neste convívio, que fomos tecendo ao longo do tempo.
Que vos agrade as palavras e os sons . Fica, também, um imenso agradecimento pela vossa companhia. 
Até sempre.
HAVASI , em Spring Wind LIVE  no Budapest Arena.

HAVASI , em  Lover of the Sun (Official Concert Video).

sábado, 9 de junho de 2018

Pelo sonho é que vamos

A luta dos acasos
por Baptista-Bastos
"Como disse um grande poeta português: .Que valor profundo possuem as palavras, num mundo em que os atropelos ao ser humano passaram a fazer parte da banalidade? Há qualquer coisa de maligno e de desesperante na indiferença com que se assiste às maiores calamidades que nos assolam? Pode Donald Trump dizer o que diz e fazer o que faz com a impunidade admitida por aqueles que se julgam quê? Sabe-se que as regras com as quais fomos educados se deixaram pulverizar, em nome da obediência insana aos mais fortes. Mas esses que se julgam os tais, acabam por ser derrotados com a indignidade da desonra.
A mundialização obedece ao pressuposto de uma nova cultura? É capaz disso. Mas a cultura universal constitui, até hoje, um paradigma, que nem a sobrecarga da economia, como valor supremo, tem conseguido liquidar. Trump não é um fenómeno isolado: faz parte daquela humanidade obsessivamente disposta a interferir nas questões do humano.
O fenómeno não é novo. Aquando da Comissão de Actividades antiamericanas, com Joseph MacCarthy e Roy Cohn, eles conseguiram fazer com que os Estados Unidos se transformassem numa implacável máquina de destruição. As raízes persistem, como se pode verificar, no renascimento do ódio ao humano. As declarações de Trump são assustadoras, mas as reacções contra são-no, igualmente, poderosas. As sessões produzidas durante os Prémios de Cinema de Hollywood reavivam os princípios fundamentais de que o sonho e a criatividade humanos pertencem a todos, e que Donald Trump não passa de um imbecil episódico, apoiado por outros que tais.
Talvez meta medo e cause momentâneas apreensões. E, acaso, estejamos a ser envolvidos pela perda de valores num mundo flexível e desproporcionado com as nossas esperanças. Mas, como disse um grande poeta português, "pelo sonho é que vamos". E o que nos está a acontecer, podem crer em mim, é, somente, a luta dos acasos disponíveis."
Baptista-Bastos, em Crónica publicada no CM, em 1.03.2017

sexta-feira, 8 de junho de 2018

A sensibilidade é tudo

" A única esperança do homem é a descoberta de meios de acções que lhe diminuem o mal e acrescentam o bem, quer dizer , que directa ou indirectamente dão à sua  sensibilidade com que actuar sobre ela própria, segundo ela própria.
Aqui, um balanço do que se fez  neste sentido. A sensibilidade é tudo, suporta tudo, avalia tudo."
Paul Valéry, in " O Senhor Teste", Relógio  D'Água Editores, Março de 2018,  p 111

quarta-feira, 6 de junho de 2018

A felicidade é caprichosa

De novo, feliz, em Lourenço Marques
Por Eugénio Lisboa
"A felicidade é caprichosa: não se deixa facilmente capturar por quem a persegue. Dizia Bertrand Russell que a melhor maneira de se conseguir a felicidade não é procurá-la, directamente. Ela é, repito, caprichosa. Surpreende-nos, quando menos a esperamos. E toma conta de nós, pelas vias mais insuspeitadas.
Toda a gente conhece, de o ter lido ou de nele ter ouvido falar, o episódio relatado pelo narrador de À la recherche du temps perdu (de Proust), relativo à pequena “madeleine” que, embebida em chá e oferecida ao narrador pela sua tia, lhe trouxe inesperadamente e involuntariamente à memória, pelo seu sabor, todo um mundo do passado: a velha casa cinzenta, a cidade, a praça, a igreja, Combray e os seus arredores, a boa gente da terra… Um universo que, assim involuntariamente trazido à memória, se revela portador de uma indescritível felicidade. Levar à boca a pequena “Madeleine” impregnada de chá de tília foi a via insuspeitada de activar uma memória criadora de felicidade.
Todos nós, ao longo das nossas vidas, passámos por experiências análogas, mas, na maioria dos casos, passa-se por isso com alguma desatenção e sem se lhe atribuir importância ou significado de maior. Por vezes, porém, a experiência toca-nos tão fundo que, por momentos, não podemos deixar de reparar nela. Proust, psicólogo e anotador minucioso, deu-lhe, na sua Recherche, uma importância e um significado enormes.  É um exemplo extraordinariamente elaborado de “memória involuntária”, capaz de surpreender e encher de felicidade quem passa por tal experiência. Eis, nas inesquecíveis palavras de Proust: “E assim que reconheci o gosto do pedaço de madeleine embebido no chá de tília que me dava a minha tia (embora não soubesse ainda e devesse remeter para bem mais tarde descobrir a razão por que essa recordação me tornava tão feliz), imediatamente a velha casa cinzenta na rua (……), e as boas pessoas da aldeia e as suas pequenas habitações e a igreja e toda a Combray e os seus arredores, tudo isso que ganha forma e solidez, saiu, cidade e jardins, da minha chávena de chá.” Trata-se de uma passagem justamente célebre, naqual se poderá rever – agora arrancado da sua desatenção  pela minúcia da atenção de Proust – o leitor do romance celebrado.
Tenho voltado muitas vezes a este momento do folhetim psicológico de Proust, que profundamente me tocou por ter eu próprio vivido momentos idênticos e tão ou mais intensos do que os experimentados pelo narrador de À la recherche du temps perdu. É um desses momentos que agora aqui vos trago.
Vivi em Londres dezassete bem fruídos anos – de 1978 a 1995 – na qualidade de conselheiro cultural da nossa embaixada. Foram dezassete anos cheios de uma variada vivência cultural, numa cidade em que a oferta era imensa e de grande qualidade. Foram anos felizes mas muito diferentes da vida que deixara para trás: 38 anos de experiência africana, em Lourenço Marques, cidade onde nascera e onde passara os primeiros dezassete anos da minha formação. Ali me casara e ali me nasceram duas filhas.
Culturalmente falando, Lourenço Marques não era uma cidade sem interesse: com um bom Cine-Clube, um Núcleo de Arte, grupos de teatro amador de grande qualidade (um deles dirigido por Mário Barradas) e páginas culturais cheias de vivacidade em vários jornais, com cinema onde a censura era menos apertada do que nas salas de Lisboa ou Porto (no Cine-Clube, vimos todo o cinema soviético – Eisenstein, Pudovkine, etc - , polaco, checoslovaco, romeno, húngaro, francês, sem que o censor visse objecção), com uma vida de grande convívio e tertúlia, cimentada nas reuniões de A Voz de Moçambique  ou do Cine-Clube ou, aos sábados de manhã, nas visitas às boas livrarias que por lá havia – não se morria propriamente de tédio. De uma maneira muito intensa e muito especial, era-se feliz. E era uma maneira de se ser feliz muito diferente da maneira de se ser feliz, em Londres. Nesta grande cidade, faltavam-nos as tertúlias,, o convívio assíduo e de porta aberta, a conversa quotidiana, o desafio constante, as polémicas intermináveis, a cumplicidade entre amigos. Londres tinha coisas que em Lourenço Marques não havia, mas, por outro lado, não tinha outras que em Lourenço Marques havia. Era-se, em suma, feliz de modo diverso. Londres tinha indiscutivelmente uma maior diversidade de oferta e coisas (exposições, teatro profissional, música, ópera) de uma qualidade excelsa, que em Lourenço Marques eram impensáveis. Mas faltava-lhe a camaradagem quotidiana, o convívio quente, a amizade cúmplice sempre à mão de semear, a dialética vivificadora…
Ora, num certo dia da minha estadia em Londres, resolvi ir de viagem, no meu carro, até à margem sul do Tamisa (a South Bank), numa qualquer missão de serviço. Saí da embaixada por volta das onze horas da manhã e fui ao meu destino.  Estava um dia de sol relutante mas abafado e ameaçando chuva. Chegado à South Bank, estacionei o carro e dirigi-me, a pé, ao local onde tencionava ir. Fui andando e, subitamente, começou a chover. Não sei bem porquê, soube-me bem. Recebi a chuva quase como uma bênção, numa espécie de expectativa de nem sabia bem o quê. E, de repente, subiu do chão até mim o bafo capitoso da terra molhada. Uma difusa sensação de felicidade tomou, com grande força e intensidade, conta de mim. Aquele era o cheiro da terra molhada que eu tantas vezes experimentara, em Lourenço Marques, nas minhas sortidas à praia da Polana: aquele bom cheiro da terra fecundada pela chuva tropical. Era esse mesmo cheiro que agora se me oferecia, ali, na margem sul do Tamisa. Levava-me de novo, transportava-me a Lourenço Marques, numa viagem improvável mas imensamente real. Por momentos, eu estava em Lourenço Marques e não em Londres. E, repito, incrivelmente feliz, não de uma felicidade londrina, mas de uma felicidade perfeitamente laurentina. Daquele cheirinho a terra molhada saíra todo um meu passado de cumplicidades, amizades e convívio tal como os fruíra no meu tempo de Lourenço Marques. Ao meio dia de um dia de calor, na margem sul do Tamisa, rodeado de coisas londrinas, eu estava de novo a ser feliz em Lourenço Marques. Recuperara uma felicidade antiga, que se substituía a outra mais recente. A felicidade obtém-se, já o disse, por vias enviesadas. Por via do bom cheirinho da terra molhada, em Londres, eu ascendi, nesse dia de verão chuvoso, à felicidade peculiar que, tantos anos antes, me visitara em Lourenço Marques."
Eugénio Lisboa, em Crónica publicada no JL ,2018

terça-feira, 5 de junho de 2018

Para recordar

Há vozes que se guardam no tempo para mais tarde recordar. Esta é uma delas.
Emma Shapplin,  em Spente le stelle.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Manoel de Andrade lança novo livro

                                     
 Tudo o que a humanidade tem sido, feito, pensado
 ou lucrado encontra-se como que magicamente
preservado nas páginas dos livros.
                                              Thomas Carlyle
                             
 O livro é a grande memória dos séculos … Se os livros
desaparecessem,desapareceria a história e, seguramente, o  homem.
                                               Jorge Luís Borges

Manoel de Andrade é um poeta.  A sua primeira obra, Poemas para la Libertad, foi um canto maior, quando a liberdade agoniava  no solo onde nasceu.  Por ter dado voz à revolta, à dor da opressão em nome de um Brasil libertário, foi perseguido e exilado. Desse tempo de exílio , Manoel de Andrade ofertou-nos , em 2014, um  singular livro de memórias - "Nos Rastros da Utopia". Obra que foi aplaudida por um público diverso, conforme foi noticiado.
Celebrou-se este ano, o cinquentenário da luta estudantil  em França, o Maio de 68. Manoel de Andrade  tem na memória a força que esse grito despoletou   no mundo. A  América Latina,  que vivia dias cinzentos de angústia coerciva, sentiu-o intensa e provocantemente .  
Era  o momento, a data própria para trazer ao mundo  uma multifacetada colectânea de textos,  que tem vindo a  produzir , ao longo dos últimos anos. Poemas, Ensaios, Crónicas, Resenhas , Comentários,  acrescidos da Fortuna Crítica sobre a sua obra,  que viviam espalhados pelas alamedas virtuais de revistas e blogs electrónicos. 
E como  "A poesia é a saudade da prosa" dizia o poeta português, Manuel A. Pina,  a versatilidade do  trajecto literário de Manoel de Andrade  exigia que  deixasse em livro , objecto duradouro, as  palavras que foi lançando. 
Quando a pena de um poeta mancha uma página , a tela que se produz, altera, para sempre,  a sua forma. A arte não tem regras, nem limites. Não se confina a uma classificação ou corpus. A Arte é apenas Arte na mente e nas mãos de um artista. Assim acontece com Manoel de Andrade.
" As Palavras no espelho" é uma obra  que vai enriquecer o espólio da Literatura. Editada pela Editora Escrituras , está  terminada para ser lançada, em breve, no Brasil, na cidade de Curitiba, onde reside o poeta.
Saudamo-la e ,com impaciência, aguardaremos  o seu lançamento nesta lusitana terra. 

domingo, 3 de junho de 2018

Ao Domingo Há Música

Rimsky-Korsakov teceu, em Scheherazade, uma das mais belas peças sinfónicas,  baseada nas histórias das Mil e Uma  Noites.  A Moscow City Symphony-Russian Philharmonic interpreta o  Movement 1 , desta obrasob a direcção do Maestro Dmitri Jurowski . 
O concerto realizou-se  na abertura do  European Music Festival, em 25 de Março de  2013 , em Sofia, Bulgária.

Na estreia desta obra , Rimsky-Korsakov  redigiu um  pequeno texto para constar no programa. Ei-lo:
O Sultão Shahryar, convencido da falsidade e da infidelidade das mulheres, prometeu casar com uma nova esposa e executá-la no dia seguinte até que não existam mais candidatas. Mas a Sultana Scheherazade salva a sua própria vida entretendo-o com contos que ela mesma conta durante mil e uma noites, deixando cada estória incompleta até a noite seguinte. Movido pela curiosidade, o Sultão adia constantemente a execução, e por fim abandona completamente o seu plano cruel.
Scheherazade relatou muitas maravilhas  , citando os versos dos poetas e as palavras das canções, tecendo conto dentro de conto e estória dentro de estória.

sábado, 2 de junho de 2018

A propósito do papel higiénico

Resultado de imagem para imagens de papel higiênico
O correcto uso do papel higiénico
Esta foi a última coluna escrita por João Ubaldo Ribeiro, que seria publicada no dia 20 de Julho de 2014
"O título acima é meio enganoso, porque não posso considerar-me uma autoridade no uso de papel higiénico, nem o leitor encontrará aqui alguma dica imperdível sobre o assunto. Mas é que estive pensando nos tempos que vivemos e me ocorreu que, dentro em breve, por iniciativa do Executivo ou de algum legislador, podemos esperar que sejam baixadas normas para, em banheiros públicos ou domésticos, ter certeza de que estamos levando em conta não só o que é melhor para nós como para a colectividade e o ambiente. Por exemplo, imagino que a escolha da posição do rolo do papel higiénico pode ser regulamentada, depois que um estudo científico comprovar que, se a saída do papel for pelo lado de cima, haverá um desperdício geral de 3.28 por cento, com a consequência de que mais lixo será gerado e mais árvores serão derrubadas para fazer mais papel. E a maneira certa de passar o papel higiénico também precisa ter suas regras, nomeadamente no caso das damas, segundo aprendi outro dia, num programa de TV.
Tudo simples, como em todas as medidas que agora vivem tomando, para nos proteger dos muitos perigos que nos rondam, inclusive nossos próprios hábitos e preferências pessoais. Nos banheiros públicos, como os de aeroportos e rodoviárias, instalarão câmaras de monitoramento, com aplicação de multas imediatas aos infractores. Nos banheiros domésticos, enquanto não passa no Congresso um projecto obrigando todo mundo a instalar uma câmara por banheiro, as recém-criadas Brigadas Sanitárias (milhares de novos empregos em todo o Brasil) farão uma fiscalização por escolha aleatória. Nos casos de reincidência em delitos como esfregada ilegal, colocação imprópria do rolo e usos não autorizados, tais como assoar o nariz ou enrolar um pedacinho para limpar o ouvido, os culpados serão encaminhados para um curso de educação sanitária. Nova reincidência, aí, paciência, só cadeia mesmo.
Agora me contam que, não sei se em algum estado ou no país todo, estão planeando proibir que os fabricantes de gulodices para crianças ofereçam brinquedinhos de brinde, porque isso estimula o consumo de várias substâncias pouco sadias e pode levar a obesidade, diabetes e muitos outros males. Justíssimo, mas vejo um defeito. Por que os brasileiros adultos ficam excluídos dessa protecção? O certo será, para quem, insensata e desorientadamente, quiser comprar e consumir alimentos industrializados, apresentar atestado médico do SUS, comprovando que não se trata de diabético ou hipertenso e não tem taxas de colesterol altas. O mesmo aconteceria com restaurantes, botecos e similares. Depois de algum debate, em que alguns radicais terão proposto o Cardápio Único Nacional, a lei estabelecerá que, em todos os menus, constem, em letras vermelhas e destacadas, as necessárias advertências quanto a possíveis efeitos deletérios dos ingredientes, bem como fotos coloridas de gente passando mal, depois de exagerar em comidas excessivamente calóricas ou bebidas indigestas. O que nós fazemos nesse terreno é um absurdo e, se o estado não nos tomar providências, não sei onde vamos parar.
Ainda é cedo para avaliar a chamada lei da palmada, mas tenho certeza de que, protegendo as nossas crianças, ela se tornará um exemplo para o mundo. Pelo que eu sei, se o pai der umas palmadas no filho, pode ser denunciado à polícia e até preso. Mas, antes disso, é intimado a fazer uma consulta ou tratamento psicológico. Se, ainda assim, persistir em seu comportamento delituoso, não só vai preso mesmo, como a criança é entregue aos cuidados de uma instituição que cuidará dela exemplarmente, livre de um pai cruel e de uma mãe cúmplice. Pai na cadeia e mãe proibida de vê-la, educada por profissionais especializados e dedicados, a criança crescerá para tornar-se um cidadão modelo. E a lei certamente se aperfeiçoará com a prática, tornando-se mais abrangente. Para citar uma circunstância em que o aperfeiçoamento é indispensável, lembremos que a tortura física, seja lá em que hedionda forma — chinelada, cascudo, beliscão, puxão de orelha, quiçá um piparote —, muitas vezes não é tão séria quanto a tortura psicológica. Que terríveis sensações não terá a criança, ao ver o pai de cara amarrada ou irritado? E os pais discutindo e até brigando? O egoísmo dos pais, prejudicando a criança dessa maneira desumana, tem que ser coibido, nada de aborrecimentos ou brigas em casa, a criança não tem nada a ver com os problemas dos adultos, polícia neles.
Sei que esta descrição do funcionamento da lei da palmada é exagerada, e o que inventei aí não deve ocorrer na prática. Mas é seu resultado lógico e faz parte do espírito desmiolado, arrogante, pretensioso, inconsequente, desrespeitoso, irresponsável e ignorante com que esse tipo de coisa vem prosperando entre nós, com gente estabelecendo regras para o que nos permitem ver nos balcões das farmácias, policiando o que dizemos em voz alta ou publicamos e podendo punir até uma risada que alguém considere hostil ou desrespeitosa para com alguma categoria social. Não parece estar longe o dia em que a maioria das piadas será clandestina e quem contar piadas vai virar uma espécie de conspirador, reunido com amigos pelos cantos e suspeitando de estranhos. Temos que ser protegidos até da leitura desavisada de livros. Cada livro será acompanhado de um texto especial, uma espécie de bula, que dirá do que devemos gostar e do que devemos discordar e como o livro deverá ser comentado na perspectiva adequada, para não mencionar as ocasiões em que precisará ser reescrito, a fim de garantir o indispensável acesso de pessoas de vocabulário neandertaloide. Por enquanto, não baixaram normas para os relacionamentos sexuais, mas é prudente verificar se o que vocês andam aprontando está correcto e não resultará na cassação de seus direitos de cama, precatem-se."
João Ubaldo Ribeiro (1941-2014) era escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras, Globo, Brasil

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Andorinha


Era uma andorinha branca
que me batia à janela
e contente anunciava 
que chegara a primavera,
ou era eu que sonhava?
Eugénio de Andrade, in " Aquela nuvem e outras", Edições quasi

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Ser fiel até à morte


Tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega sempre tarde demais
Por António Lobo Antunes
"A  nossa vida é feita igualmente de tanta coisa boa. Até no horror há coisas boas às vezes: um sorriso, por exemplo. O que há melhor que um sorriso? O que há melhor que um amigo? O que há melhor que ler? Ou que o céu de Lisboa em Junho? Ou uma criança a dormir? É um privilégio imenso estar vivo, uma grande honra a que temos de ser fiéis. Sê fiel até à morte, diziam. Eis o mais importante: ser fiel até à morte.
Faz este mês quarenta e cinco anos que cheguei de África, onde vivi a única experiência radical da minha vida durante vinte e seis meses, quase vinte e sete. Só posso aproximar dela as dos cancros que tive, um no cólon primeiro os outros dois nos pulmões, cancros anatomo-patologicamente diferentes, um à esquerda, outro à direita. Durante a horrível experiência da doença fui um pobre roberto de feira carregado de sofrimento, depois da doença um homem espantado. Não sei, claro, quando o comprimento da minha vida vai terminar. Precisava de mais algum tempo para acabar o meu trabalho. Faltam-me quatro livros para que a obra fique redonda. Sempre existi em função dela. Dar-me-ia pena não a completar.
Lembro-me com uma nitidez absoluta do primeiro militar morto. Era um rapaz loiro, alegre. Mandei que o deitassem na minha cama enquanto dizia aos soldados que ele estava só a dormir. Se calhar tinha razão. Estava só a dormir. Depois fui para junto do arame farpado olhar a mata. Que céu tão grande, tão alto. E a paz majestosa de Angola à minha volta.
Estava no destacamento do Ninda, com o Ernesto Melo Antunes, quando outro soldado, que tinha ido buscar água ao rio numa Mercedes, pisou uma mina e ele ficou esmagado entre o volante e os sacos de protecção. Chamavam-lhe Macaco por ser peludo. Não me esqueço da cara do Ernesto
– Tinha jurado que os levava a todos
não me esqueço do estrondo, acolá em baixo, da explosão. Estou certo que a população da aldeia de apoio, perto do rio, sabia das minas como tenho a certeza que apoiava o MPLA: no lugar deles eu faria o mesmo. Nunca vira um brilho assim nos olhos do Ernesto que por um instante me pareceu um menino frágil, indefeso. Só por um instante. E era uma das pessoas mais corajosas que conheci. Morreu cedo com uma serenidade admirável. Eu ia passar os sábados com ele, sozinhos um com o outro. Se estavam mais pessoas e lembro-me, por exemplo, do Chefe do Estado Maior do Exército dessa época, um homem de que gostei logo, saíam para que pudessemos estar juntos. Não lhe ouvi uma queixa em nenhum momento. Apenas um pedido, uma ocasião
– Não me deixes morrer sem dignidade
e mudou logo de assunto, seguro que eu cumpriria. Chega uma altura em que temos mais ausências que glóbulos no sangue. Perguntava
– Estás a escrever não estás?
numa fé inabalável em mim e descansa que estou a escrever, amigo, não vou parar de escrever. Viemos, faz este mês quarenta e cinco anos, de Angola. Uma ocasião tínhamos apanhado umas pessoas na mata, numa lavra de apoio ao inimigo, como se dizia, e veio o helicóptero com o chefe de brigada da Pide que se apresentou com um pontapé na barriga de uma mulher grávida. O Ernesto apontou-lhe a pistola e mandou o helicóptero embora sem o deixar levar os prisioneiros. Claro que teve problemas. Não vou falar nisso. Tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega sempre tarde demais. Não esqueço esta frase de Conrad. Não esqueço nada. Nem o romancista francês moribundo que rabiscou num papelinho
Não me sacudam que estou cheio de lágrimas de modo que não quero sacudir ninguém. A nossa vida é feita igualmente de tanta coisa boa. Até no horror há coisas boas às vezes: um sorriso, por exemplo. O que há melhor que um sorriso? O que há melhor que um amigo? O que há melhor que ler? Ou que o céu de Lisboa em junho? Ou uma criança a dormir? É um privilégio imenso estar vivo, uma grande honra a que temos de ser fiéis.Sê fiel até à morte, diziam. Eis o mais importante: ser fiel até à morte. Da janela vejo as gaivotas lá fora. Uma ou outra nuvem. Chegar de avião a Lisboa, depois de tanto tempo longe, a minha família à espera e eu contente, sem entender ainda, tão transtornado. Só me apetecia tirar a farda e eles a baterem-me palmas, a rirem felizes. É um privilégio imenso estar vivo em Portugal. O meu Paízinho. É aqui o meu lugar, pertenço a este sítio, a esta língua, a esta luz única, a este mar. Eu podia lá ser estrangeiro. Eu podia lá viver com uma mulher que não fosse portuguesa. Um oficial cubano, que havia estado em Angola:
– Não conheço soldados como os portugueses.
Nem eu mas conheço soldados portugueses. Bom, os catangueses que estavam connosco também. E os pilotos sul africanos, a falarem afrikander entre eles na messe quando não queriam que os entendessemos. Largavam-nos a quatro ou cinco metros do chão, no Ninda, dos seus helicópteros prateados, sem insígnias, salta e não chateies, vai matar pretos, anda. As bebedeiras deles no barraco a fingir de messe. Faz quarenta e cinco anos.
Agora estou aqui sentado a escrever isto. A escrever isto. A escrever isto. No meu paízinho. Na minha terra encantada, cheia de sol, dizia António Nobre. No único sítio em que quero viver. Sou daqui como estas pedras, estes cheiros, este povo, e até estes políticos de merda sou capaz de aturar, embora os políticos sejam de merda em toda a parte. Quando falo em políticos sabem o que quero dizer e a quem me refiro. Esta crónica saiu um bocado descosida, peço desculpa: é que faz hoje quarenta e cinco anos que voltei ao sítio a que pertenço. E é neste chão que ficarei, um dia destes, a adubar, a adubar."
António Lobo Antunes, em Crónica publicada na revista  VISÃO 1312 de 26 de Abril de 2018