segunda-feira, 21 de abril de 2025

A última mensagem do Papa Francisco


Eleição do Papa Francisco, 13 de Março de 2013
EPA/MICHAEL KAPPELER
O Papa Francisco morreu hoje, aos 88 anos, anunciou o Vaticano, através do cardeal Kevin Ferrell. " Queridos irmãos e irmãs, é com profunda tristeza que devo anunciar a morte do nosso Santo Padre Francisco".
"Às 7h35 desta manhã, o Bispo de Roma, Francisco, regressou à casa do Pai. Toda a sua vida foi dedicada ao serviço do Senhor e da Sua igreja. Ele ensinou-nos a viver os valores do Evangelho com fidelidade, coragem e amor universal, especialmente em favor dos mais pobres e marginalizados. Com imensa gratidão pelo seu exemplo como verdadeiro discípulo do Senhor Jesus, encomendamos a alma do Papa Francisco ao infinito amor misericordioso do Deus Uno e Trino", disse.
O Papa Francisco foi internado a 14 de Fevereiro, na Policlínica Gemelli, em Roma, devido à bronquite. Dias depois, o Vaticano anunciou que o pontífice estava com uma infeção polimicrobiana do trato respiratório e, posteriormente, com uma pneumonia bilateral. O pontífice teve alta a 22 de Março e sabia-se que o seu estado de saúde era frágil.
No dia de ontem, domingo de Páscoa, o Papa apareceu na Praça de S. Pedro, no Vaticano, e deu a bênção Urbi et Orbi. ["Urbi et Orbi", dirigida à cidade de Roma ("Urbi") e ao mundo inteiro ("Orbi")].
Os milhares de pessoas que se encontravam na Praça de São Pedro começaram a aplaudir quando uma banda militar começou a tocar o hino da Santa Sé e o hino italiano.
O Papa argentino permaneceu sentado na cadeira de rodas e pediu a D. Diego Ravelli, mestre das celebrações litúrgicas pontifícias, para ler a mensagem às 35.000 pessoas reunidas na Praça de São Pedro para a Missa do Domingo de Páscoa, que foi presidida pelo Cardeal Angelo Comastri.
Após a mensagem, o Papa ainda apareceu no seu ‘papamóvel’ no meio da multidão de fiéis reunidos na Praça de São Pedro para celebrar a Páscoa e durante cerca de 15 minutos percorreu os corredores da praça e abençoou bebés, rodeado por guarda-costas.
Eis a mensagem, na íntegra, que acompanhava essa benção:

"Cristo ressuscitou, aleluia!
Irmãos e irmãs, Feliz Páscoa!
Hoje ressoa finalmente na Igreja o Aleluia, que corre de boca em boca, de coração a coração, e o seu cântico faz chorar de alegria, no mundo inteiro, o povo de Deus.
Do sepulcro vazio de Jerusalém chega até nós um anúncio sem precedentes: Jesus, o Crucificado, «não está aqui; ressuscitou!» (Lc 24, 6). Não está no túmulo, está vivo!
O amor venceu o ódio. A luz venceu as trevas. A verdade venceu a mentira. O perdão venceu a vingança. O mal não desapareceu da nossa história e permanecerá até ao fim, mas já não lhe pertence o domínio, não tem qualquer poder sobre quem acolhe a graça deste dia.
Irmãs e irmãos, especialmente vós que passais pela dor e pela angústia, o vosso grito silencioso foi ouvido, as vossas lágrimas foram recolhidas e nem sequer uma só se perdeu! Na paixão e morte de Jesus, Deus tomou sobre si todo o mal do mundo e, com a sua infinita misericórdia, derrotou-o: erradicou o orgulho diabólico que envenena o coração humano e semeia violência e corrupção por toda a parte. O Cordeiro de Deus venceu! Por isso, hoje exclamamos: «Ressuscitou Cristo, minha esperança».
Sim, a ressurreição de Jesus é o fundamento da esperança: a partir deste acontecimento, ter esperança já não é uma ilusão. Não! Graças a Cristo crucificado e ressuscitado, a esperança não engana! Spes non confundit! (cf. Rm 5, 5). E não se trata duma esperança evasiva, mas comprometida; não é alienante, mas responsabilizadora.
Quem espera em Deus coloca as suas mãos frágeis na mão grande e forte d’Ele, deixa-se levantar e põe-se a caminho: juntamente com Jesus ressuscitado, torna-se peregrino de esperança, testemunha da vitória do Amor e do poder desarmado da Vida.
Cristo ressuscitou! Neste anúncio encerra-se todo o sentido da nossa existência, que não foi feita para a morte, mas para a vida. A Páscoa é a festa da vida! Deus criou-nos para a vida e quer que a humanidade ressurja! Aos seus olhos, todas as vidas são preciosas! Tanto a da criança no ventre da mãe, como a do idoso ou a do doente, considerados como pessoas a descartar num número cada vez maior de países.
Quanto desejo de morte vemos todos os dias em tantos conflitos que ocorrem em diferentes partes do mundo! Quanta violência vemos com frequência também nas famílias, dirigida contra as mulheres ou as crianças! Quanto desprezo se sente por vezes em relação aos mais fracos, marginalizados e migrantes!
Neste dia, gostaria que voltássemos a ter esperança e confiança nos outros, mesmo naqueles que não nos são próximos ou que vêm de terras distantes com usos, modos de vida, ideias e costumes diferentes dos que nos são familiares, porque somos todos filhos de Deus!
Gostaria que voltássemos a ter esperança de que a paz é possível! A partir do Santo Sepulcro, Igreja da Ressurreição, onde este ano a Páscoa é celebrada no mesmo dia por católicos e ortodoxos, se irradie sobre toda a Terra Santa e sobre o mundo inteiro a luz da paz. Sinto-me próximo dos cristãos que sofrem na Palestina e em Israel, bem como do povo israelita e palestiniano. É preocupante o crescente clima de antissemitismo que se está a espalhar por todo o mundo. E, ao mesmo tempo, o meu pensamento dirige-se ao povo, em particular, à comunidade cristã de Gaza, onde o terrível conflito continua a gerar morte e destruição e a provocar uma situação humanitária dramática e ignóbil. Apelo às partes beligerantes que cheguem a um cessar[1]fogo, que se libertem os reféns e se preste assistência à população faminta, desejosa de um futuro de paz!
Rezemos pelas comunidades cristãs do Líbano e da Síria – este último país a atravessar uma fase delicada da sua história –, que anseiam por estabilidade e participação no futuro das respetivas nações. Exorto toda a Igreja a acompanhar com atenção e oração os cristãos do amado Médio Oriente.
Dirijo também um pensamento especial ao povo do Iémen, que está a viver uma das piores crises humanitárias “prolongadas” do mundo devido à guerra, e convido todos a encontrar soluções através de um diálogo construtivo.
Que Cristo ressuscitado derrame o dom pascal da paz sobre a martirizada Ucrânia e encoraje as partes envolvidas a prosseguirem os seus esforços para alcançar uma paz justa e duradoura.
Neste dia de festa, recordemos o Sul do Cáucaso e rezemos pela rápida assinatura e aplicação de um definitivo Acordo de paz entre a Arménia e o Azerbaijão, que leve à tão desejada reconciliação na região.
Que a luz da Páscoa inspire propósitos de concórdia nos Balcãs Ocidentais e apoie os responsáveis políticos a trabalhar para evitar uma escalada de tensões e crises, bem como inspire os parceiros da região a rejeitar comportamentos perigosos e desestabilizadores.
Que Cristo ressuscitado, nossa esperança, conceda paz e conforto aos povos africanos vítimas de violência e conflitos, especialmente na República Democrática do Congo, no Sudão e no Sudão do Sul, e apoie todos quantos sofrem devido às tensões no Sahel, no Corno de África e na Região dos Grandes Lagos, tal como os cristãos que em muitos lugares não podem professar livremente a fé.
Não é possível haver paz onde não há liberdade religiosa ou onde não há liberdade de pensamento nem de expressão, nem respeito pela opinião dos outros.
Não é possível haver paz sem um verdadeiro desarmamento! A necessidade que cada povo sente de garantir a sua própria defesa não pode transformar-se numa corrida generalizada ao armamento. A luz da Páscoa incita-nos a derrubar as barreiras que criam divisões e que acarretam consequências políticas e económicas. Incita-nos a cuidar uns dos outros, a aumentar a solidariedade mútua, a trabalhar em prol do desenvolvimento integral de cada pessoa humana.
Neste momento, não falte a nossa ajuda ao povo do Myanmar que, atormentado por anos de conflito armado, enfrenta com coragem e paciência as consequências do devastador sismo em Sagaing, causador da morte de milhares de pessoas e de sofrimento para muitos sobreviventes, incluindo órfãos e idosos. Rezemos pelas vítimas e pelos seus entes queridos e agradeçamos de todo o coração a generosidade dos voluntários que levam a cabo as operações de socorro. O anúncio do cessar-fogo por parte de vários intervenientes no país é um sinal de esperança para todo o Myanmar.
Apelo a todos os que, no mundo, têm responsabilidades políticas para que não cedam à lógica do medo que fecha, mas usem os recursos disponíveis para ajudar os necessitados, combater a fome e promover iniciativas que favoreçam o desenvolvimento. Estas são as “armas” da paz: aquelas que constroem o futuro, em vez de espalhar morte!
Que o princípio da humanidade nunca deixe de ser o eixo do nosso agir quotidiano. Perante a crueldade dos conflitos que atingem civis indefesos, atacam escolas e hospitais e agentes humanitários, não podemos esquecer que não são atingidos alvos, mas pessoas com alma e dignidade.
E, neste ano jubilar, que a Páscoa seja também uma ocasião propícia para libertar os prisioneiros de guerra e os presos políticos!
Queridos irmãos e irmãs Na Páscoa do Senhor, a morte e a vida enfrentaram-se num admirável combate, mas agora o Senhor vive para sempre (cf. Sequência Pascal) e infunde em cada um de nós a certeza de que somos igualmente chamados a participar na vida que não tem fim, na qual já não se ouvirá o fragor das armas nem os ecos da morte.
Entreguemo-nos a Ele, o único que pode renovar todas as coisas (cf. Ap 21, 5)!
Feliz Páscoa para todos!"

Maravilhas do Mundo

As viagens longas são assim: desarrumam profundamente e voltam a arrumar prodigiosamente, anunciando, contudo, um final desarrumo a haver. 
           Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula II
  
Maravilhas Ocultas do Mundo, 12K HDR Dolby Vision (Vídeo 12K)

domingo, 20 de abril de 2025

Ao Domingo Há Música


Convite

Vamos, ressuscitados , colher flores!
Flores de giesta e tojo, oiro sem preço...
Vamos àquele cabeço
Engrinaldar a esperança!
Temos a primavera na lembrança;
Temos calor no corpo entorpecido;
Vamos! Depressa!
A vida recomeça!
A seiva acorda, nada está perdido!
Miguel Torga ,   Diário IX


"Vamos/ A vida recomeça" e é Primavera. No entanto chove e troveja. É assim o curso da natureza . Enche-se de ventos e de chuva, quando as flores despontam. 
Nem sempre o Homem sabe resistir a esta incerteza. Mas engrinaldando a esperança ,  há  quem  louve a vida e acredite que nada está perdido. Um novo caminho existe . 
Que ressuscitados, todos o encontremos, neste domingo de Páscoa.

Alleluia, Alleluia, pelo  Ukrainian Choir. 

sábado, 19 de abril de 2025

Miserere mei

 

Miserere mei, Deus, de Gregorio Allegri , pelo  Choir of New College, Oxford, sob a direcção do Maestro Edward Higginbottom. 
Miserere mei, Deus, composta por Gregorio Allegri, na década de 1630 para a Capela Sistina, é considerada uma obra-prima coral, baseada no Salmo 51: “Senhor tende misericórdia de mim segundo a tua grande bondade, perdoa os meus pecados”. Traduz a expressão intemporal do arrependimento humano e da graça divina. As harmonias delicadas e notas altas etéreas evocam uma sensação de solenidade e anseio espiritual, criando uma atmosfera que combina lindamente com a arte evocativa aqui apresentada ."

sexta-feira, 18 de abril de 2025

A Paixão de Jesus

 

Paixão Segundo São Mateus 
"Naquele tempo, foi Jesus com os Seus discípulos para um sítio chamado Getsémani e disse-lhes : " Assentai-vos aqui , enquanto vou, ali orar". E levando consigo Pedro e os filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se . E disse-lhes : " A minha alma está triste até à morte! Ficai aqui e vigiai comigo". Depois, avançou um pouco e prostou-se com o rosto no chão , orando e dizendo: " Meu Pai , se é possível, fazei que este cálice se afaste de mim; contudo, faça-se a Vossa vontade ,e não a minha."
(...) Havendo rompido a manhã , todos os príncipes dos sacerdotes e os anciãos se reuniram em conselho contra Jesus, para O condenarem à morte. E, levando-O, conduziram-n'O e entregaram-n'O ao governador Pôncio Pilatos. Então, Judas, tendo atraiçoado Jesus e vendo que Este havia sido condenado, foi logo cheio de arrependimento, levar as trinta moedas de prata aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos, dizendo :"Pequei,entregando-vos o sangue inocente! ".Mas eles disseram : " Que nos importa isso? Tu poderias pensar no que fazias!"
 Evangelho da Paixão e Morte de Jesus, segundo S. Mateus , 26-27

Coro final de  A Paixão segundo S. Mateus (BWV 244) , de Johann Sebastian Bach (1685-1750), composta provavelmente em 1727. A interpretação é do Hungarian Festival Choir, acompanhado pela Hungarian State Symphony Orchestra, sob a direcção do Maestro Géza Oberfrank. A tradução é de Leonardo dos Santos Perin. Fotos de Shutterstock. Obras de Crucificação, Giotto (1304-1306).Deposição, Rafael Sanzio (1507).

 

Sobre a obra:

Gravura de Leipzig em 1735 mostrando a Igreja de São Tomás
(Thomaskirche) à direita e sua escola (Thomasschule)
no fundo ao centro
"A última moda naquela época  de 1721 era a apresentação de “paixões musicais”. Paixão, que vem do latim passio, sofrimento, é a história da crucificação de Jesus conforme contada por um dos quatro evangelistas: Mateus, Marcos, Lucas ou João. O costume era ler uma das Paixões durante o culto em dias específicos do calendário da Quaresma, o período de 40 dias (descontando os domingos) que antecede a Páscoa. Até que, no começo do século XVIII, compositores começaram a colocar em música o texto da Bíblia, interpolando aqui e ali uma ária ou um coral. A prática conquistou várias cidades até chegar a Leipzig em 1721, quando Johann Kuhnau (1660-1722), o diretor musical das principais igrejas da cidade, apresentou uma Paixão segundo São Marcos de sua autoria.
Bach chegou à cidade em Maio de 1723 para ocupar o cargo de Kuhnau, falecido no ano anterior. O seu trabalho incluía escrever música para os cultos religiosos semanais, e assim, para a sua primeira Sexta-feira Santa em Leipzig, em 1724, ele escreveu a primeira versão da Paixão segundo São João BWV.245. Quase podemos imaginar Bach  a perguntar-se , no final do culto: “o que farei para o próximo ano?”. Alguns esboços da próxima Paixão datam de 1725, mas é provável que ele tenha iniciado mesmo em 1724.
A nova Paixão não ficou pronta do dia para a noite: em 1725 ele apresentou uma segunda versão da Paixão segundo São João, e em 1726 ele reapresentou uma Paixão segundo São Marcos escrita por Reinhard Kaiser e/ou Friedrich Nicolaus Brauns em 1713. Foi só no ano seguinte que a Paixão segundo São Mateus teve  a sua estreia, em 11 de Abril de 1727, na Thomaskirche, a igreja luterana de São Tomás.
(...)Durante a vida de Bach, a Paixão segundo São Mateus foi repetida pelo menos mais três vezes: em 1729, 1736 e em 1742, sofrendo pouquíssimas revisões em cada uma das apresentações. A partitura original de 1727 está perdida; o belo manuscrito autógrafo que nós podemos contemplar digitalmente clicando aqui (viva a internet!) foi redigido carinhosamente por Bach no periodo entre 1743 e 1746 para seu próprio deleite. Sabe-se que o compositor tinha muitos ciúmes desse manuscrito, e  conservava-o sempre em bom estado: ele mesmo admitia que “a grande Paixão” era a maior das suas obras.
Depois da morte de Bach, a “grande Paixão” permaneceu sepultada no manuscrito até a próxima apresentação em 11 de Março de 1829, quando o jovem compositor Felix Mendelssohn, com apenas 20 anos de idade, preparou e conduziu uma versão reduzida e adaptada da obra em Berlim. Para se ter uma ideia da tal “adaptação”, Mendelssohn regeu do piano em torno de 400 músicos, adicionando clarinetes para satisfazer o gosto musical dos alemães na época." Euterpe 

quinta-feira, 17 de abril de 2025

Essa força estranha me leva a cantar

Eu vi um menino correndo
Eu vi o tempo brincando ao redor
Do caminho daquele menino
Eu pus os meus pés no riacho
E acho que nunca os tirei 
O sol ainda brilha na estrada
E eu nunca passei

Eu vi a mulher preparando outra pessoa
O tempo parou pra eu olhar para aquela barriga
A vida é amiga da arte 
É a parte que o sol me ensinou
O sol que atravessa essa estrada
Que nunca passou 

Por isso uma força me leva a cantar
Por isso essa força estranha 
Por isso é que eu canto, não posso parar
Por isso essa voz tamanha

Eu vi muitos cabelos brancos na fonte do artista
o tempo não pára no entanto ele nunca envelhece.
Aquele que conhece o jogo, do fogo das coisas que são.
É o sol, é o tempo, é a estrada, é o pé e é o chão.

Eu vi muitos homens brigando, ouvi seus gritos,
Estive no fundo de cada vontade encoberta,
é a coisa mais certa de todas as coisas.
Não vale um caminho sob o sol.
É o sol sobre a estrada, é o sol sobre a estrada, é o sol.

Por isso uma força me leva a cantar
Por isso essa força estranha 
Por isso é que eu canto, não posso parar
Por isso essa voz tamanha
             Caetano Veloso

A musicalidade da voz  de Gal Costa, em  Força Estranha .
 
Eu sei que vou te amar por  Gal Costa e Tom Jobim , no Concert for Planet Earth, Rio de Janeiro, 07 de Junho de 1992.
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quarta-feira, 16 de abril de 2025

Cuba

 

Cuba – A Sombra de Hemingway
por Eugénio Lisboa
"Há poucas semanas, visitei Cuba pela primeira vez. Estava-me no imaginário, há bem cinquenta anos, desde quando, em 1959, Fidel Castro descera da Sierra Maestra, acompanhado do Che e dos restantes companheiros de luta, para expulsarem da Ilha o corrupto ditador Fulgencio Batista e os seus sórdidos acólitos. A minha geração, a que era de esquerda, festejou abertamente o triunfo de Fidel: na livraria Spanos, na baixa de Lourenço Marques, baratinando os analfabetos da PIDE, comprávamos, com alegria e brio, “paperbacks” de C. Wright Mills e de Sartre (em inglês) dedicados à revolução e aos “homens que não dormiam”. Disso, fica-nos sempre alguma coisa e não foi sem uma boa dose de melancolia que fui assistindo, ao longo dos anos, ao apodrecimento gradativo de todos os ideais e à perpetuação do poder por amor do poder. O Fidel de hoje não pode, contudo, apagar completamente o Fidel de há cinquenta anos. Houve uma aurora que nos alumiou e a ela – e para sempre – ficámos gratos. Quando agora fui a Cuba, por razões pessoais e familiares, levava comigo, a aquecer-me, a imagem desses dias de entusiasmo e tumulto. Mas não era só isso: Cuba fora também a residência, durante os últimos vinte e tal anos da sua vida, do escritor Ernest Hemingway, cuja obra se me deparara, com algum alarme, ainda no começo da minha adolescência. O autor de The Sun also Rises ficara-me para sempre uma presença forte e mesmo obsessiva, até ao seu suicídio, em 2 de Julho de 1961 – e bem para além dessa data fatídica. Ir a Cuba serviria, pois, também, para exorcizar, de vez, esse dorido fantasma. Com essa visita, iria finalmente fechar as suas “obras completas”
Tinha catorze anos quando, em Lourenço Marques, num fim de tarde, durante as férias grandes, isto é, de inverno, meu pai me trouxe, para me alimentar o vício da leitura, um livro de formato robusto, que se intitulava Os Melhores Contos Americanos e se inscrevia numa série que dava pelo nome de Antologias Universais. Entre outros títulos de autores mais conhecidos que ali figuravam, um me saltou aos olhos e ao espírito, pela sua ameaça latente: “Os Assassinos”. Era seu autor um desconhecido: Ernest Hemingway. Outros, igualmente estranhos, o acompanhavam: Faulkner (“O Funeral de um Negro”), Saroyan (“Setenta Mil Assírios”). Todos estes contos representaram, para mim, naquele tempo, um considerável alarme estético. Literalmente, desarrumaram-me, deixaram-me sem saber o que pensar de tudo aquilo. João Gaspar Simões, o director editorial e o responsável pela colecção e pelo volume, avisava, desde logo, em termos um tanto vagos mas suficientemente inquietantes, quanto do “projecto” do autor americano: “a purificação da narrativa de todos os elementos não essenciais a ela.” O conto, por via do título, prometia ao adolescente romântico que eu era baldes de acção, mas tudo quanto ali encontrava era um diálogo porfiado, seco, agressivo, brutal, ameaçando tudo, mas conduzindo aparentemente a algo que ficava, para sempre, fora do meu campo de visão. Muito barulho para nada? Nem por isso: ficava-se literalmente esmagado, desligado de vez de não sei quantas ilusões de vida e de arte. É que era aquela uma arte seca, descascada, despojada de artifícios e de adjectivos, curtamente declarativa e, como muito mais tarde observaria o escritor E. L. Doctorow, “uma arte rigorosa de grande poder compressor”. O autor de “The Short Happy Life of Francis Macomber” – conto magistral, implacável e horrorosamente revelador – trazia à narrativa moderna uma dentada forte e inapagável, embora o seu enfoque e o seu processo não fossem de aplicação ilimitada. Como observava o citado Doctorow, “ele era inquestionavelmente um génio, mas era-o daquela espécie que publicita os seus próprios limites.” Por outras palavras Hemingway não era Henry James nem poderia aspirar a ser Proust ou Thomas Mann. Mas o seu estilo tenaz, anti-literário era, como observará Anthony Burgess, no seu admirável e compacto livro dedicado ao autor de A Moveable Feast, “uma música nova e reconhecida como tal.”
*
Foi, pois, Hemingway que também me levou a Cuba. Mesmo na década que precedeu a sua instalação definitiva, em 1940, na Finca La Vigia – a poucos quilómetros de Havana - Hemingway passava já grande parte do seu tempo naquela cidade, instalado – on and off – numa pequena “suite”, no 5º andar do Hotel Ambos Mundos, situado na esquina em que a Calle Obispo se cruza com a Calle Mercaderes. A “suite” é minúscula, nela mal cabendo a cama (com os pés voltados a Oriente, para que o sol nascente arrancasse o escritor, bem cedo, do repouso nocturno...) e uma mesinha para a máquina de escrever. É hoje um minúsculo museu. Perto, fica o porto, onde ancorava o seu iate.
Em Havana, Hemingway está omnipresente. É o grande ícon cultural, o inevitável caça-turistas, os quais atravancam a Bodeguita Del Medio, no Empedrado, onde o escritor ia beber, com regularidade, os seus “mojitos”. Na Calle Obispo, encontra-se também, no seu extremo ocidental, o bar Floridita, onde o autor de Death in the Afternoon ia beber, entre o fim da manhã e o meio da tarde, aquela dúzia de daiquiris duplos, cuja confecção ajudara a aperfeiçoar (aos quais acrescentava um largo copo cheio, que levava consigo, “for the road”). O daiquiri “aperfeiçoado” leva hoje, para turista ver, o nome do escritor. Terminada a libação, ia para casa ler, conversar, ver, de vez em quando, algum filme: tinha em casa um projector, com o qual revia, uma vez por outra, o único filme extraído de obra sua, que realmente estimava: The Killers, de Robert Siodmak, com Burt Lancaster, Ava Gardner e Edmond O’Brien, no elenco. Eis, nas próprias palavras do escritor, um resumo da sua vida em Havana:” Tive sempre sorte, a escrever em Cuba... Mudei-me de Key West para cá em 1938 e aluguei esta finca e comprei-a, finalmente, quando se publicou Por Quem os Sinos Dobram. É um bom lugar para trabalhar porque está fora da cidade e encravado numa colina... Levanto-me cedo quando o sol nasce e ponho-me a trabalhar e quando termino vou nadar e bebo um copo e leio os jornais de Nova Iorque e de Miami. Depois do trabalho pode-se ir pescar ou praticar tiro aos pombos, pela tarde. Mary [a quarta mulher] e eu lemos e ouvimos música e vamos deitar-nos. Algumas vezes vamos à cidade ou a um concerto. Outras, a uma peleja ou ver um filme e, a seguir, ao Floridita.”
Finca La Vigia, a casa de Ernest Hemingway
Na magnífica Finca, que legou, por testamento, ao povo cubano, tudo se conserva modelarmente intacto e acarinhado: parece ainda habitado, com os donos apenas temporariamente ausentes. Ampla, arejada, cheia de livros bem arrumados – nove mil exemplares, fora os que terão ficado pelo caminho. Garcia Marquez, que lhe dedicou um livro, manipulou com amorosa minúcia a biblioteca e ali terá encontrado nas margens dos livros (lidos e anotados) certa observação crítica, no mais puro hemingwayês: “Pura merda de elefante”. Foi também Garcia Marquez quem, ao contemplar a sapateira preservada na Finca, falou nos “seus grandes sapatos de morto”.
Na minha imaginação, nunca vira a Finca tão ampla e cercada por um jardim tão vasto e generoso, Neste, debaixo de um telheiro, imobiliza-se para sempre, o Pilar que, pilotado pelo inseparável Gregorio Fuentes (Grigorine) se fazia ao mar, para pesca graúda e, ocasionalmente, para dar caça aos submarinos alemães... Ali, em Cuba, de algum modo, Hemingway foi feliz, escrevendo. Porque, numa carta de 1940, ao seu amigo e editor Charles Scribner, dizia: “Tenho de escrever para ser feliz”.
*
Numa introdução que escreveu para uma selecção de contos de Hemingway, David Hughes diz isto que apetece registar: ”Quando o lemos, o nosso espírito começa a seguir os seus ritmos e a deitar fora todos os advérbios e a cortar todo o floreado verbal, a favor de uma narrativa plana e pictórica que apenas expõe o seu ponto de vista.(...) A sua capacidade de usar tão poucas e curtas palavras para convir questões de vida e morte era o resultado de uma longa luta com vista a banir o literário da sua linguagem.” Assim sendo que melancolia me avassala por me ter servido de tantas palavras para vos entregar aqui algumas das vivências cubanas do autor de The Green Hills of Africa!  Ainda por cima, não o vejo a usar a palavra “vivências”..."
Eugénio Lisboa, em ensaio publicado no JL, na rubrica PRO MEMORIA.
Museu Finca Vigia - Hemingway

terça-feira, 15 de abril de 2025

Viajar pela Índia

...Lemos mal o mundo e logo dizemos que o mundo nos engana.
Quantas barricadas o pensamento do homem ergue contra si próprio.
Se lanço minha própria sombra no caminho, é porque há uma lâmpada em mim que não se acendeu...
Rabindranath Tagore ,(1861-1941), poeta, romancista, músico e dramaturgo indiano

Uma das ilusões mais felizes e mais úteis da viagem é a de que estamos numa busca.
Paul Theroux, Comboio Fantasma para o Oriente
 
India 4K pelos  Scenic Relaxation Film .
"A Índia é um dos países mais bonitos e intrigantes do planeta. Desfrute deste filme de relaxamento panorâmico em 4K que apresenta as belas paisagens, a história e a cultura da Índia. Das plantações de chá em Kerala às montanhas verdejantes dos  Western Ghats, a Índia é uma terra repleta de maravilhas infinitas."