Como surpreender, adivinhar, por detrás do silêncio, cada grão de som?
"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento" Platão
domingo, 22 de setembro de 2024
Ao Domingo Há Música
sábado, 21 de setembro de 2024
De "O Tempo, Esse Grande Escultor"
por Marguerite Yourcenar
“Começa um ciclo novo; os primeiros caules verdes atravessam como setas as últimas folhas secas do Outono passado. Estamos no tempo em que as neves se derretem, o vento é agreste e um cristianismo ainda quase novo, importado do Oriente através da Itália, luta nas regiões do Norte contra um paganismo imemorial e se insinua como o fogo numa floresta velha cheia de árvores mortas; estamos no dealbar tempestuoso do século vii. As palavras mais surpreendentes que chegaram até nós acerca desta passagem de uma fé para outra, dos deuses para um Deus só, chegam‑nos por intermédio de Beda, o Venerável, que as pronunciou a mais de cem anos de distância, sem dúvida no seu mosteiro de Jarrow, onde, rodeado de um mundo em caos, compunha em latim a sua grande história das instituições cristãs de Inglaterra. Elas foram pronunciadas por um thane (um chefe ou um nobre, portanto) de Nortúmbria, pertencente ao poderoso grupo saxónico com costela celta que ocupava nesse tempo o norte da ilha britânica.
«Com toda a franqueza, ó rei, desde que sirvo os deuses e presido aos sacrifícios, não tenho sido nem mais feliz nem mais bem‑sucedido do que um homem que não reza, e as minhas preces raramente foram ouvidas. Dou portanto o meu acordo para que se acolha um deus melhor e mais forte, caso exista.»
O sacerdote falara como homem pragmático; a seguir, falou o chefe de clã como poeta e visionário. Chamado a dizer se aprovava a introdução de um deus chamado Jesus em Nortúmbria, este thane, cujo nome se ignora, alargou de certo modo o debate:
«Creio que a vida dos homens na Terra, quando comparada aos vastos espaços de tempo de que nada sabemos, se assemelha ao voo de um pássaro que entrou pela janela de uma grande sala onde arde, ao centro, uma lareira, como aquela onde tomas as refeições com os teus conselheiros e vassalos, enquanto lá fora reina a invernia, com as suas chuvas e neves. O pássaro atravessa a sala num ápice e sai pelo lado oposto; vindo do Inverno, a ele regressa, perdendo‑se aos teus olhos. Assim também a efémera vida dos homens de que não sabemos o que havia antes e o que vem depois.»
A conclusão do thane une‑se à do pontífice: visto que nada sabemos, porque não fazer apelo a quem talvez saiba? Esta é sem dúvida a visão de um espírito aberto, que leva a aceitar certas verdades ou hipóteses sublimes, mas por vezes também a acolher a impostura ou a cair no erro.
Deixemos o cenário histórico e os efeitos desta sessão memorável e retomemos as frases do thane, para delas retirarmos o que têm para nos dar. Para começar, são muito belas. A metáfora extraída da experiência corrente parece conter em si todas as violências e todo o rude conforto dos invernos do Norte. Depois, e principalmente, a confissão de ignorância do thane é também a nossa, ou continuaria a sê‑lo se as filosofias, as técnicas, todas as estruturas que o homem constrói e de que é prisioneiro, não escondessem à imensa maioria dos homens de hoje que a sua ignorância acerca da vida e da morte não é menor do que a desse chefe de clã mais ou menos bárbaro… Adveniensque unus passarum domum citissime pervolavit, qui cum per unum ostium ingrediens, mox per aliud exierit, A prosa latina de Beda, ainda informe, é no entanto demasiado clássica para esse pensamento primitivo, ao mesmo tempo concreto e flutuante, mais à vontade na versão áspera do rei Alfredo: Cume an spearwa and braedlice thaet hus thurhfleo, cume thurh othre duru in, thurn othre ut gewite. Mas não nos deixemos cair no lugar‑comum que consistiria em opor este mundo mental que anuncia, a mil anos de distância, o sombrio universo poético do Macbeth, de Shakespeare, ao espírito greco‑latino supostamente mais lógico e menos envolto em mistério. É uma questão de época: um herói de Homero, um lucumo* etrusco teriam podido falar assim.
Sobre o Livro
«No dia em que uma estátua é acabada, começa, de certo modo, a sua vida. Fechou-se a primeira fase, em que, pela mão do escultor, ela passou de bloco a forma humana; numa outra fase, ao correr dos séculos, irão alternar-se a adoração, a admiração, o amor, o desprezo ou a indiferença, em graus sucessivos de erosão e desgaste, até chegar, pouco a pouco, ao estado de mineral informe a que o seu escultor a tinha arrancado.
Já não temos hoje, todos o sabemos, uma única estátua grega tal como a conheceram os seus contemporâneos.»
Sobre a Autora:
“Marguerite Yourcenar (quase um anagrama do seu apelido verdadeiro, Crayencour) nasceu a 8 de Junho de 1903 em Bruxelas. Escreveu romances como Memórias de Adriano e A Obra ao Negro, e várias novelas. Publicou poesia e traduziu Virginia Woolf, Kavafis, Henry James e espirituais negros. Foi ainda ensaísta e crítica.Primeira mulher eleita para a Academia Francesa, em 1980, afirmou não conceder importância a tal distinção. A sua infância foi invulgar. A mãe morreu quando ela tinha dez dias, sendo educada pela rígida avó paterna e pelo pai, ligado à aristocracia, um viajante inconformista que desempenhou um papel de relevo na sua formação pessoal e literária. Marguerite Yourcenar passava os Invernos em Lille e os Verões, até aos 11 anos, na propriedade familiar em Mont Noir. Estudou em casa e o seu pouco memorável livro de poemas, Le Jardin des chimères, saiu em edição de autor quando tinha 18 anos. Acompanhou o pai em viagens a Londres, durante a Primeira Guerra Mundial, à Suíça e a Itália, onde descobriram a Villa Adriana.
quinta-feira, 19 de setembro de 2024
A tensão de um corpo-pessoa
"Tenho corpo, mas sou corpo. Eu sou um corpo que diz 'eu' e, portanto, vivo-me a mim mesmo por dentro como corpo-sujeito, corpo-pessoa. (...) O Homem transcende o simplesmente biológico. 'Começou a ser Homem intentando criar beleza', escreveu Pedro Laín Entralgo. E vive do gratuito: cria e contempla a beleza, é o ser 'criativamente possuído pelo fascinante esplendor do inútil' (G. Steiner)."
quarta-feira, 18 de setembro de 2024
Un bel di vidremo
O coração morre lentamente, derramando cada esperança como folhas até que um dia não há nenhuma. Nenhuma esperança. Nada resta.
Artur Dourado
Byron disse, justamente, que o amor é apenas uma ocupação na vida do homem, ao passo que é a própria vida da mulher.
terça-feira, 17 de setembro de 2024
Mudar a alma de casa
Amar é mudar a alma de casa.Mário Quintana
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.
Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.
Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.
Na melancolia de teus olhos
Eu sinto a noite se inclinar
E ouço as cantigas antigas
Do mar.
Nos frios espaços de teus braços
Eu me perco em carícias de água
E durmo escutando em vão
O silêncio.
E anseio em teu misterioso seio
Na atonia das ondas redondas
Náufrago entregue ao fluxo forte
Da morte.
Vinicius de Moraes, in Antologia Poética, Companhia das Letras
Morrer de Amor
Morrer de amor
ao pé da tua boca
Desfalecer
à pele
do sorriso
Sufocar
de prazer
com o teu corpo
Trocar tudo por ti
se for preciso
Sim não foi porque teus olhos tem cor de lua,
de dia com argila, com trabalho, com fogo,
e prisioneira tens a agilidade do ar,
sim não foi porque és uma semana de âmbar,
sim não foi porque és o momento amarelo
em que o outono sobe pelas trepadeiras
e és algum pão que a lua fragrante
elabora passando sua farina pelo céu,
oh, bem amada, eu não te amaria!
Em teu abraço eu abraço o que existe,
a areia, o tempo a árvore da chuva,
E tudo vive para que eu viva:
sem ir tão longe posso vê-lo todo:
veio em tua vida todo o vivente.
Pablo Neruda, in Vinte Poemas de Amor e Uma canção desesperada, Relógio D'Água Editores, Dezembro 2012
Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.
Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz da guerra a que se vendem,
a pura liberdade do meu canto,
um cântico da terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,
tão quase é coisa ou sucessão que passa…
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da Graça.
Jorge de Sena, in As Evidências, Assírio & Alvim
"Na história universal do amor, amou-se sempre diferentemente, embora parecesse ser sempre o mesmo amor de antigamente"
segunda-feira, 16 de setembro de 2024
Parabéns, pai!
Fecho os olhos e avanço.
E começa o poema.
Rodeiam-me os fantasmas
Fugidios
Dos versos que persigo.
A regra é caminhar
E chegar sem saber.
De tal modo é cruzada
A encruzilhada
Onde o milagre pode acontecer.
Miguel Torga, Arte Poética
Muitos anos se passaram desde que meu pai partiu. Quem dera a encruzilhada permitisse o milagre de o ter entre nós. Inútil , esse sonho, mas a memória vestida de saudade permanece intacta.
Era dia de aniversário todos os 16 de Setembro dos muitos anos que nos deu. E cada dia de todos esses anos foram celebrados e festejados numa cumplicidade familiar. Éramos muitos. E cada um se regozijava de o poder felicitar.
Hoje, tem-me aqui para lhe dizer que continuamos a evocá-lo. Tenho a certeza de que cada um de nós o mantém no coração.
Parabéns, pai!
domingo, 15 de setembro de 2024
Ao Domingo Há Música
Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata.Carlos Drumonnd de Andrade
sábado, 14 de setembro de 2024
A viagem
onde o farol da vida se acende deslumbrante
um recanto onde a morte não impera
e onde as horas se medem pelo instante.
ninhos de luz muito além do entendimento
onde seres de uma beleza incomparável
recriam sem cessar o firmamento.
investe o próprio coração nessa viagem
e, com a caridade, tece e borda o teu vestido...
sem o traje do amor e da humildade
e sem o passaporte do dever cumprido.
Manoel de Andrade, poesia
Quem sabe por tantos barcos
navegarem a minha infância
herdei essa enorme ânsia
por navios, terras e mares.
Nesse mar dos meus pesares
meu porto é uma ilha perdida
e assim naveguei na vida
passageiro do horizonte.
Hoje pergunto a mim mesmo
se não remei sempre a esmo
a bordo do meu batel...
com meu sonho de criança
navegando a esperança
num barquinho de papel.
Curitiba, 16 de Dezembro de 2004
Manoel de Andrade, in Cantares, Escrituras Editora, Brasil, 2007
Além, muito além desta paisagem,
numa realidade apenas pressentida
compreenderás ao fim dessa viagem
de onde vens e pra onde vais, na vida.
No torvelinho incessante dos destinos
cada um com seu papel nessa ribalta
semeando a ventura ou os desatinos
colherás o que te sobra ou que te falta.
Viandante dos caminhos milenares
aprendeste na decepção e nos pesares
que “nem tudo o que reluz é ouro”.
Guarda-te pois das ciladas da ilusão
porque “aonde estiver teu coração,
ali estará também o teu tesouro”.
Manoel de Andrade, Poesia
Poemas para la Libertad
Comité Central Revolucionário Universidad Mayor de San Andrés - La Paz - Bolívia - 1970
Canción de amor a América y otros poemas
A.G.E.U.S y Promoción Cultural Universidad de El Salvador – San Salvador, 1971
Poesía latinoamericana – Antología Bilingüe
Latin-American Poetry – Bilingual Anthology
(Coletânea de Autores) Epsilon Editores de México – Bogotá, 1998
Próximas palavras
(Coletânea de Autores) Quem de Direito, Curitiba, 2002
Cantares
Escrituras Editora, São Paulo, 2007
Nos Rastros da Utopia
Escrituras Editora, São Paulo, 2014






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