domingo, 22 de setembro de 2024

Ao Domingo Há Música

Como surpreender, adivinhar, por detrás do silêncio, cada grão de som?
                         João Guimarães Rosa

A Música é uma das grandes paixões  do "mundo" . Creio que é muito estranho descobrir alguém que não goste de música. Por ser tão diversa, oferece o ritmo melódico por que cada um  pode ser tocado. 
O ecletismo é uma das minhas características. Aprecio boa música, o que é muito vago, já que pode ser  o conceito que cada um  define para as suas preferências.  A minha selecção vai desde a  denominada música erudita ou clássica até à canção popular. Em Portugal, delicio-me com vozes do Fado . Algumas  tocam-me  profundamente.
Hoje , a voz que trago  é de uma musicalidade sedutora. Trata-se de uma cantora-compositora britânica que não deixou indiferente o público do Festival de Jazz de Montreux, deste ano de 2024

RAYE , em It's A Man's Man's Man's World, ao vivo no 58º Festival de Jazz de Montreux. 
   
RAYE,  em Feeling Good ( cover de Nina Simone) , no programa de rádio Like A Version.
Like A Version é um segmento da estação de rádio australiana Triple J. Todas as semanas um músico ou banda toca uma das suas próprias músicas e faz um cover de uma música que adora.
.
RAYE , em Mary Jane,  ao vivo no 58º Festival de Jazz de Montreux. A sua estreia em Montreux foi ainda mais especial, quando tocou perante o seu avô suíço pela primeira vez. Desde 1967, o Festival celebra todos os géneros musicais e gera inúmeras atuações lendárias. Os artistas que têm passado pelo palco de Montreux incluem Aretha Franklin, David Bowie, Prince, Bob Dylan, Lauryn Hill, Kendrick Lamar, Leonard Cohen, Marvin Gaye, Miles Davis, Nina Simone e muitos mais. 
 

sábado, 21 de setembro de 2024

De "O Tempo, Esse Grande Escultor"

O Tempo, Esse Grande Escultor
por Marguerite Yourcenar
I A Propósito de Algumas Linhas de Beda, o Venerável
                                                         
                                                                      Cume an spearwa…
 
“Começa um ciclo novo; os primeiros caules verdes atravessam como setas as últimas folhas secas do Outono passado. Estamos no tempo em que as neves se derretem, o vento é agreste e um cristianismo ainda quase novo, importado do Oriente através da Itália, luta nas regiões do Norte contra um paganismo imemorial e se insinua como o fogo numa floresta velha cheia de árvores mortas; estamos no dealbar tempestuoso do século vii. As palavras mais surpreendentes que chegaram até nós acerca desta passagem de uma fé para outra, dos deuses para um Deus só, chegam‑nos por intermédio de Beda, o Venerável, que as pronunciou a mais de cem anos de distância, sem dúvida no seu mosteiro de Jarrow, onde, rodeado de um mundo em caos, compunha em latim a sua grande história das instituições cristãs de Inglaterra. Elas foram pronunciadas por um thane (um chefe ou um nobre, portanto) de Nortúmbria, pertencente ao poderoso grupo saxónico com costela celta que ocupava nesse tempo o norte da ilha britânica.
A cena passa‑se nos arredores de Iorque, onde os edifícios da velha capital romana de Eboraco, que viu morrer Sétimo Severo, se encontravam ainda na primeira fase da sua existência como ruínas, o que não impedia que já parecessem ao thane e aos seus contemporâneos terem vindo de uma antiguidade sem tempo. Foi há duzentos anos, mais ou menos, que o imperador Arcádio anunciou aos habitantes da Grã‑Bretanha que as legiões retomavam por mar o caminho de volta, deixando‑os assim a enfrentar sozinhos os invasores. Desde então vão‑se arranjando como podem.
Beda traduziu para latim as palavras do thane; passará ainda um século e meio até que Alfredo, o Grande, nos intervalos da luta contra as invasões dinamarquesas, verta o texto para um inglês que, embora muito próximo do antigo islandês e dos diversos idiomas germânicos, tinha, graças à adopção do alfabeto latino, acedido entretanto à dignidade de língua escrita, com um belo futuro à sua frente. Se me dou ao trabalho de referir estes cruzamentos linguísticos, é por tão pouca gente se dar conta de como a palavra humana nos chega do passado aos tropeções, sucessivamente transformada por mal‑entendidos, omissões e acrescentos, e só graças a poucos homens, como o contemplativo Beda ou Alfredo, o homem de acção, que tudo fizeram, por entre a desordem quase desesperada das coisas do mundo, para conservar e transmitir o que lhes parecia merecê‑lo. Veremos que o breve discurso do thane é certamente um desses.
Edwin, rei de Nortúmbria, então o príncipe mais poderoso da Heptarquia britânica, acabara de receber de um missionário cristão o pedido de autorização para evangelizar no seu território. Convocou o conselho. Como era devido, o grande pontífice das divindades locais, um certo Coif, foi convidado a falar em primeiro lugar. A fala do prelado foi mais cínica do que teológica:
«Com toda a franqueza, ó rei, desde que sirvo os deuses e presido aos sacrifícios, não tenho sido nem mais feliz nem mais bem‑sucedido do que um homem que não reza, e as minhas preces raramente foram ouvidas. Dou portanto o meu acordo para que se acolha um deus melhor e mais forte, caso exista.»
O sacerdote falara como homem pragmático; a seguir, falou o chefe de clã como poeta e visionário. Chamado a dizer se aprovava a introdução de um deus chamado Jesus em Nortúmbria, este thane, cujo nome se ignora, alargou de certo modo o debate:
«Creio que a vida dos homens na Terra, quando comparada aos vastos espaços de tempo de que nada sabemos, se assemelha ao voo de um pássaro que entrou pela janela de uma grande sala onde arde, ao centro, uma lareira, como aquela onde tomas as refeições com os teus conselheiros e vassalos, enquanto lá fora reina a invernia, com as suas chuvas e neves. O pássaro atravessa a sala num ápice e sai pelo lado oposto; vindo do Inverno, a ele regressa, perdendo‑se aos teus olhos. Assim também a efémera vida dos homens de que não sabemos o que havia antes e o que vem depois.»
A conclusão do thane une‑se à do pontífice: visto que nada sabemos, porque não fazer apelo a quem talvez saiba? Esta é sem dúvida a visão de um espírito aberto, que leva a aceitar certas verdades ou hipóteses sublimes, mas por vezes também a acolher a impostura ou a cair no erro.
 Não se sabe qual foi a opinião dos outros membros do conselho, mas foi a destes dois que prevaleceu. O monge Agostinho foi autorizado a pregar o cristianismo nas terras de Edwin. Esta decisão, que talvez viesse a ser tomada de qualquer modo, mesmo que os conselheiros tivessem pensado outra coisa, visto que estava no espírito do tempo, foi para nós pesada de consequências: ela deu origem à ilha‑mosteiro de Lindisfarne, porto de paz e de saber naqueles tempos conturbados, até ao dia em que os Vikings enterraram os seus machados na cabeça dos monges. Dela decorrem a catedral de Iorque e a de Durham, a de Ely e a de Gloucester, São Tomás de Cantuária assassinado pelos cavaleiros de Henrique II, e as ricas abadias que Henrique VIII viria a espoliar. O catolicismo de Maria Tudor e o protestantismo de Isabel, e também os mártires dos dois lados, milhares de tomos de sermões e pregações, alguns textos místicos admiráveis, Revelações do Amor Divino, de Juliana de Norwich, e A Nuvem do Não‑Saber, as homilias de John Donne, as meditações de John Law e de Thomas Traherne, e ainda os católicos e protestantes que se matam uns aos outros nas ruas de Belfast, no momento em que escrevo. A Inglaterra de Edwin sai da Idade do Bronze para entrar na comunidade europeia, que no tempo se confundia com a cristandade. Depois da chegada e da partida das legiões romanas, da penetração pelos monges vindos de Roma, depois dos ganhos e perdas dos dois lados, uma ordem nova substitui a ordem antiga, até que outra venha por seu lado substituir aquela. Muitas vezes, certamente, nos perguntámos como se processou essa espécie de rendição dos deuses, que hesitações, que angústias a precederam ou dela resultaram, que movimentos de alma ela fez nascer. No caso registado por Beda, o Venerável, pelo menos, encontramos o mais espesso cinismo numa das intervenções, temperado talvez por um certo amor da novidade em si mesma (isto não é só de hoje), e com certeza por uma atracção pelos bens materiais que o deus novo poderia trazer. No outro orador, com um estilo poético mais ao nosso gosto, vemos antes um cepticismo profundo que é também um profundo cepticismo, e que prefere confiar na luz que possa vir de quem diz saber. É verdade que não se pode generalizar a partir de um só exemplo: ouçamos pelo menos o que nos relata um piedoso cronista sobre a conversão do rei Edwin e dos seus vassalos. A ligeireza que preside tantas vezes às acções humanas parece não ter estado ausente também aqui.
Se os efeitos longínquos da decisão foram vastos, os resultados imediatos deixam‑nos perplexos. O grande sacerdote Coif, como um típico renegado, galopou para o templo onde até então servia e, zeloso, quebrou os ídolos, privando assim os museus do futuro daquelas estátuas, quase esboços, em que a pedra chega tão à superfície que esbate a tosca forma humana, como se o deus ali representado pertencesse mais ao mundo sagrado do mineral do que ao humano. Menos de três anos mais tarde, Edwin, o convertido, foi morto num campo de batalha por um príncipe pagão; é possível que o seu ex‑sacerdote e o seu thane melancólico o tenham sido também. Não estou a insinuar que tivessem sido poupados se houvessem permanecido fiéis aos seus deuses. Acredito antes que os poderes lá de cima queriam mostrar que quem se converte na esperança de vantagens materiais, e não por causa dos bens espirituais, faz um mau negócio. A esta distância ignoramos se esses bens espirituais acabaram por ser concedidos a Edwin e aos seus vassalos.
Deixemos o cenário histórico e os efeitos desta sessão memorável e retomemos as frases do thane, para delas retirarmos o que têm para nos dar. Para começar, são muito belas. A metáfora extraída da experiência corrente parece conter em si todas as violências e todo o rude conforto dos invernos do Norte. Depois, e principalmente, a confissão de ignorância do thane é também a nossa, ou continuaria a sê‑lo se as filosofias, as técnicas, todas as estruturas que o homem constrói e de que é prisioneiro, não escondessem à imensa maioria dos homens de hoje que a sua ignorância acerca da vida e da morte não é menor do que a desse chefe de clã mais ou menos bárbaro… Adveniensque unus passarum domum citissime pervolavit, qui cum per unum ostium ingrediens, mox per aliud exierit, A prosa latina de Beda, ainda informe, é no entanto demasiado clássica para esse pensamento primitivo, ao mesmo tempo concreto e flutuante, mais à vontade na versão áspera do rei Alfredo: Cume an spearwa and braedlice thaet hus thurhfleo, cume thurh othre duru in, thurn othre ut gewite. Mas não nos deixemos cair no lugar‑comum que consistiria em opor este mundo mental que anuncia, a mil anos de distância, o sombrio universo poético do Macbeth, de Shakespeare, ao espírito greco‑latino supostamente mais lógico e menos envolto em mistério. É uma questão de época: um herói de Homero, um lucumo* etrusco teriam podido falar assim.
Entrando mais fundo no texto que começou por nos agradar pela sua simples beleza, apercebemo‑nos de que o pensamento do thane se opõe audaciosamente a veneráveis hábitos do espírito que duram ainda hoje. Aqueles que, como Vigny, encaram a vida como um espaço luminoso entre duas sombras infinitas, imaginam essas duas zonas obscuras, a de antes e a que vem depois, como inertes, indiferenciadas, espécie de fronteira do nada. Para os cristãos, embora acreditem numa imortalidade beatífica ou infernal, o que se segue à morte (preocupa‑os menos o que antecede a vida) é sobretudo o lugar de repouso eterno. Invideo, quia quiescunt, dizia Lutero olhando as sepulturas.”
Marguerite Yourcenar, in O Tempo, Esse Grande Escultor, Relógio d’Água Editores, pp.11-15
 
Sobre o Livro
«No dia em que uma estátua é acabada, começa, de certo modo, a sua vida. Fechou-se a primeira fase, em que, pela mão do escultor, ela passou de bloco a forma humana; numa outra fase, ao correr dos séculos, irão alternar-se a adoração, a admiração, o amor, o desprezo ou a indiferença, em graus sucessivos de erosão e desgaste, até chegar, pouco a pouco, ao estado de mineral informe a que o seu escultor a tinha arrancado.
Já não temos hoje, todos o sabemos, uma única estátua grega tal como a conheceram os seus contemporâneos.»
 

Marguerite Yourcenar, Pintura por Stefano Davidson


Sobre a Autora:
“Marguerite Yourcenar (quase um anagrama do seu apelido verdadeiro, Crayencour) nasceu a 8 de Junho de 1903 em Bruxelas. Escreveu romances como Memórias de Adriano e A Obra ao Negro, e várias novelas. Publicou poesia e traduziu Virginia Woolf, Kavafis, Henry James e espirituais negros. Foi ainda ensaísta e crítica.Primeira mulher eleita para a Academia Francesa, em 1980, afirmou não conceder importância a tal distinção. A sua infância foi invulgar. A mãe morreu quando ela tinha dez dias, sendo educada pela rígida avó paterna e pelo pai, ligado à aristocracia, um viajante inconformista que desempenhou um papel de relevo na sua formação pessoal e literária. Marguerite Yourcenar passava os Invernos em Lille e os Verões, até aos 11 anos, na propriedade familiar em Mont Noir. Estudou em casa e o seu pouco memorável livro de poemas, Le Jardin des chimères, saiu em edição de autor quando tinha 18 anos. Acompanhou o pai em viagens a Londres, durante a Primeira Guerra Mundial, à Suíça e a Itália, onde descobriram a Villa Adriana.
Em 1929 publicou o seu primeiro romance com um título de influência gideana, Alexis ou O Tratado do Vão Combate, que é, com Fogos e O Golpe de Misericórdia, um dos seus raros textos que abordam temas da actualidade. Depois da morte do pai, em 1929, Yourcenar decidiu gastar a herança numa vida de boémia, passada entre Paris, Lausanne, Atenas, as Ilhas Gregas, Constantinopla, o Cáucaso e Bruxelas. Teve relações amorosas com algumas mulheres e apaixonou-se por um homossexual, André Fraigneau, escritor e editor da Grasset. Foi nesse período que saíram os Contos Orientais, o fragmentário Fogos e a novela O Golpe de Misericórdia, baseada numa história que lhe foi contada por familiares dos protagonistas e que se desenrola durante a guerra russo-polaca de 1920. Em 1939, o seu conhecimento da Alemanha nazi e a falta de recursos levaram-na a partir para os EUA, juntando-se a Grace Frick, sua companheira havia dois anos e com quem viveu até à morte desta, em 1979. Yourcenar tornou-se cidadã americana em 1947, tendo ensinado Literatura e História da Arte. A partir de 1950, instalou-se com Grace na ilha de Montes Desertos, designando a sua casa em madeira por Petite Plaisance. O que lhe permitiu deixar a sua actividade docente foi o êxito internacional de Memórias de Adriano (1951). Durante o período que viveu em Northeast Harbor, na ilha de Montes Desertos, Yourcenar realizou diversas viagens, algumas longas, com o seu último secretário, Jerry Wilson (em meados dos anos 60 visitara Lisboa, Sintra, Évora e a Madeira). Marguerite Yourcenar gostava de ser ao mesmo tempo reconhecida e quase inacessível. Era reservada e altiva, uma alma ardente e um pensamento exacto, com uma escrita capaz de iluminar a tragédia sem lhe dissipar por completo as sombras. Dominava o grego, que aprendeu com o pai, e o latim. Eram-lhe familiares muitos textos antigos. A sua obra percorre variados registos, desde o inicial romance realista às obras passadas na Antiguidade ou no Renascimento, inscrevendo-se deliberadamente à margem das correntes dominantes, num estilo clássico que se demorava na sageza dos pensamentos. A filosofia greco-latina e os pensadores renascentistas influenciaram muito do que escreveu. Faleceu a 17 de Dezembro de 1987. Está enterrada no Cemitério de Brookside, em Somesville, no Maine.” 

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

A tensão de um corpo-pessoa

                              Imagem: Rawpixel.com
"Tenho corpo, mas sou corpo. Eu sou um corpo que diz 'eu' e, portanto, vivo-me a mim mesmo por dentro como corpo-sujeito, corpo-pessoa. (...) O Homem transcende o simplesmente biológico. 'Começou a ser Homem intentando criar beleza', escreveu Pedro Laín Entralgo. E vive do gratuito: cria e contempla a beleza, é o ser 'criativamente possuído pelo fascinante esplendor do inútil' (G. Steiner)."

O Homem: questão para si mesmo. 6
A tensão de um corpo-pessoa
por Anselmo Borges
 
6. A tensão de um corpo-pessoa
 
Raramente alguém disse de modo tão realista o ser humano na sua tensão como Vergílio Ferreira neste texto magnífico: “Um corpo e o que em obra superior ele produz. Como é fascinante pensá-lo. Um novelo de tripas, de sebo, de matéria viscosa e repelente, um incansável produtor de lixo. Uma podridão insofrida, impaciente de se manifestar, de rebentar o que a trava, sustida a custo a toda a hora para a decência do convívio, um equilíbrio difícil em dois pés precários, uma latrina ambulante, um saco de esterco. E simultaneamente, na visibilidade disso, a harmonia de uma face, a sua possível beleza e sobretudo o prodígio de uma palavra, uma ideia, um gesto, uma obra de arte. Construir o máximo da sublimidade sobre o mais baixo e vil e asqueroso. Um homem. Dá vontade de chorar. De alegria, de ternura, de compaixão. Dá vontade de enlouquecer.”
O Homem vive-se a si mesmo numa tensão insuperável.
Por um lado, o corpo é o seu peso, a sua limitação – parece que, se fôssemos espírito puro, poderíamos, por exemplo, estar em todo o lado. Com o tempo, o corpo decai, envelhece e, aparentemente, envilece-nos. Adoecemos e desmoronamo-nos. Depois, com a morte, o que resta do corpo é lixo biológico e coisa que apodrece. Referindo-se ao nascimento, Santo Agostinho, nada exaltado, tem estas palavras cruas: “inter faeces et urinam nascimur”, nascemos entre fezes e urina. E, aqui, faço uma observação fundamental: ele usa a passiva para o nascimento: nascimur (somos nascidos). Em português, usamos a activa: nascemos, nasci, outras línguas usam a passiva: natus sum, soy nacido, suis né, bin geboren, am born, sono nato... De facto, alguém se lembra do seu nascimento e decidiu nascer? Foi muito, muito lentamente que fomos dando conta de nós até tomarmos consciência de nós como um “eu” — é isso: afirmamo-nos, assentes numa passividade originária.
Por outro lado, será sempre misterioso um corpo que fala: produz sons que encarnam e transmitem sentido. Um olhar é sempre a visita do in-finito. Um corpo humano canta, ora, sorri, produz obras de arte, que param o tempo e visibilizam a transcendência. De um bloco de mármore Miguel Ângelo arranca a “Pietà”; misturando tintas, Van Gogh põe à vista as “Botas com atacadores” e Leonardo, a “Última Ceia”. Com instrumentos de sopro, de percussão e de cordas e vozes, corpos executam música, a mais utópica das artes (E. Bloch), que nos leva lá para onde nunca estivemos, mas aonde queremos sempre voltar de novo.
Um corpo humano desabrocha como alguém perante outro alguém. Quando dois corpos humanos se abraçam são duas pessoas que dizem uma à outra quanto se querem bem. E mais uma vez Vergílio Ferreira, exprimindo a vivência do corpo pessoal e interpessoal: “Mónica, minha querida. Porque o teu corpo não é só o teu corpo. Não é isso, não é isso. É entrar em ti, e a tua pessoa estar lá.”
E o corpo humano é um corpo livre, que não se entende como se fosse uma máquina nem na simples continuidade da explicação biológica. É um corpo capaz de dizer não ao que a biologia pede – é um asceta da vida, não fica submerso nas suas necessidades. Então, exprime liberdade. E a liberdade é o salto milagroso. Kant escreveu que é impossível compreender a produção de um ser dotado de liberdade por uma operação física, sendo mesmo difícil, se não impossível também, compreender como pode o próprio Deus criar seres livres.
Por isso, o materialismo mecânico ou biológico não dá conta do Homem. Mas quem defender uma concepção dualista de Homem – um composto de alma e corpo, matéria e espírito – terá de responder à pergunta daquela criança de uma estória ingénua: diante do cadáver da avó, o miúdo perguntou à mãe o que é que estava a acontecer. A mãe foi-lhe explicando que a avó tinha morrido e que a alma dela tinha ido para Deus e o corpo ia para a terra. Quando ela própria morresse, também ia ser assim: a alma iria para Deus e o corpo para o cemitério. E continuou, angustiada: “Sabes, meu filho, quando tu morreres, a tua alma vai ter com Deus e o teu corpo fica no cemitério”. Aí, o miúdo observou, perplexo: “A minha alma vai ter com Deus e o meu corpo vai para  o cemitério. E eu?”
Há o corpo fisiológico, anatómico – quando vou ao médico, espero que perceba de anatomia. Mas também há o corpo fora da anatomia – quando vou ao médico, espero que me trate como pessoa e não como simples corpo, à maneira de máquina desarranjada que ele como técnico especializado vai recompor. Tenho corpo, mas sou corpo. Eu sou um corpo que diz “eu” e, portanto, vivo-me a mim mesmo por dentro como corpo-sujeito, corpo-pessoa. E também os outros, todos os outros são corpo-pessoa, vivendo-se a si mesmos como sujeitos. O Homem transcende o simplesmente biológico. “Começou a ser Homem intentando criar beleza”, escreveu Pedro Laín Entralgo. E vive do gratuito: cria e contempla a beleza, é o ser “criativamente possuído pelo fascinante esplendor do inútil” (G. Steiner). Para sobreviver, não precisava de investigar na mecânica quântica... O que ganha no tempo dedicado aos mortos? No entanto, o tempo que gastamos inutilmente — inutilmente? —com os mortos!... 
Ser Homem é viver esta tensão, numa arte quase impossível. Porque permanentemente espreita o perigo de coisificar o corpo ou de desprezá-lo, refugiando-se num idealismo angélico. Mas já Pascal preveniu: “O Homem não é anjo nem é besta, e, desgraçadamente, quem quer fazer de anjo faz de besta.”
Anselmo Borges, Padre e professor de Filosofia , em Artigo publicado no DN  de 14 de Setembro de 2024

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

Un bel di vidremo

O coração morre lentamente, derramando cada esperança como folhas até que um dia não há nenhuma. Nenhuma esperança. Nada resta.
 Artur Dourado

 Byron disse, justamente, que o amor é apenas uma ocupação na vida do homem, ao passo que é a própria vida da mulher.


A belíssima e emocionante  ária   de Puccini, "Un bel di vidremo",  ( da Ópera "Madame Butterfly"), legendada em espanhol,  retirada do filme de 1995, dirigido por Frédéric Mitterrand, com Ying Huang no papel principal.  A ária Un bel dì, vedremo é uma esperança que deveria ser um lamento. O abandono , uma forma de anulação da mulher , evidenciando uma ausência de  direitos. Uma mulher que fica quase em cativeiro na crença de que é amada e não abandonada 
"Madame Butterfly" é uma adaptação cinematográfica da famosa ópera de Giacomo Puccini. O filme conta a trágica história de amor entre uma jovem gueixa japonesa, Cio-Cio San, e um oficial da marinha americana, Benjamin Franklin Pinkerton.  Esta obra explora temas de amor, sacrifício e choque cultural.
O libreto foi escrito por Luigi Illica e Giuseppe Giacosa. A ópera foi apresentada pela primeira vez no Teatro La Scala, em Milão, em 17 de Fevereiro de 1904, dedicada à rainha italiana Elena de Montenegro. A produção foi um sucesso e de imediato seguiram-se várias montagens nos principais teatros do mundo.
Madame Butterfly, a história: 
"Nagasaki, Japão, cerca de 1900. Pinkerton, tenente da marinha norte-americana, está prestes a casar com a sua noiva japonesa, “delicada como uma borboleta”, Cio-Cio-San (Butterfly), mas tem pretensões de um dia casar com uma verdadeira noiva americana. O cônsul americano, Sharpless, desaconselha-o a casar e gaba-se de ter uma mulher em cada porto. Ficando a sós, os recém-casados celebram o seu amor. Pinkerton regressa aos Estados Unidos mas promete voltar. Sem notícias do marido há já três anos, Butterfly continua a acreditar no seu regresso e recusa o novo pretendente, o rico Príncipe Yamadori.
Chega um navio ao porto e Butterfly tem a certeza de que é Pinkerton que regressa para ela e para o seu filho. Butterfly, ansiosa pelo reencontro, espera toda a noite pelo marido. No dia seguinte, Pinkerton chega acompanhado por Sharpless e pela sua nova mulher americana, Kate, mas ao recordar a felicidade que viveu com Butterfly e ao ver como ela ainda o ama fica cheio de remorsos. Relutante, Butterfly aceita entregar o filho mas só ao próprio Pinkerton. Ficando a sós com o filho, Butterfly beija-o ternamente e pede-lhe para recordar para sempre o rosto da sua mãe. Em seguida pega no sabre do seu pai e mata-se. “Com honra morre quem em honra não pode viver”.

terça-feira, 17 de setembro de 2024

Mudar a alma de casa

Amar é mudar a alma de casa. 
           Mário Quintana
Em todas as ruas te encontro


Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
Mário Cesariny,  in Pena Capital, Assírio & Alvim Editoras, 2021

Os amantes sem dinheiro

Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.
Eugénio de Andrade, in  Os Amantes sem Dinheiro, Fundação Eugénio de Andrade, Porto, 1993.
Mar

Na melancolia de teus olhos
Eu sinto a noite se inclinar
E ouço as cantigas antigas
Do mar.

Nos frios espaços de teus braços
Eu me perco em carícias de água
E durmo escutando em vão
O silêncio.

E anseio em teu misterioso seio
Na atonia das ondas redondas
Náufrago entregue ao fluxo forte
Da morte.
Vinicius de Moraes, in  Antologia Poética, Companhia das Letras

Morrer de Amor


Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso
Maria Teresa Horta, in Destino, Quetzal Editores, 1998

Excerto VIII
Sim não foi porque teus olhos tem cor de lua,
de dia com argila, com trabalho, com fogo,
e prisioneira tens a agilidade do ar,
sim não foi porque és uma semana de âmbar,
sim não foi porque és o momento amarelo
em que o outono sobe pelas trepadeiras
e és algum pão que a lua fragrante
elabora passando sua farina pelo céu,
oh, bem amada, eu não te amaria!
Em teu abraço eu abraço o que existe,
a areia, o tempo a árvore da chuva,
E tudo vive para que eu viva:
sem ir tão longe posso vê-lo todo:
veio em tua vida todo o vivente.
Pablo Neruda, in Vinte Poemas de Amor e Uma canção desesperada, Relógio D'Água Editores, Dezembro 2012

Que Encanto é o Teu?

Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.

Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz da guerra a que se vendem,
a pura liberdade do meu canto,

um cântico da terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,

tão quase é coisa ou sucessão que passa…
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da Graça.
Jorge de Sena, in As Evidências, Assírio & Alvim

Amor - A Interminável Aprendizagem
por Affonso Romano de Sant'Anna

"Na história universal do amor, amou-se sempre diferentemente, embora parecesse ser sempre o mesmo amor de antigamente"

"Criança, ele pensava: amor, coisa que os adultos sabem. Via-os aos pares namorando nos portões enluarados se entrebuscando numa aflição feliz de mãos na folhagem das anáguas. Via-os noivos se comprometendo à luz da sala ante a família, ante as mobílias; via-os casados, um ancorado no corpo do outro, e pensava: amor, coisa-para-depois, um depois-adulto-aprendido.
Se enganava.
Se enganava porque a aprendizagem de amor não tem começo nem é privilégio aos adultos reservado. Sim, o amor é uma interminável aprendizagem.
Por isto se enganava enquanto olhava com os colegas, de dentro dos arbustos do jardim, os casais que nos portões se amavam. Sim, se pesquisavam numa prospecção de veios e grutas, num desdobramento de noturnos mapas seguindo o astrolábio dos luares, mas nem por isto se encontravam. E quando algum amante desaparecia ou se afastava, não era porque estava saciado. Isto aprenderia depois. É que fora buscar outro amor, a busca recomeçara, pois a fome de amor não sabia nunca, como ali já não se saciara.
De fato, reparando nos vizinhos, podia observar. Mesmo os casados, atrás da aparente tranquilidade, continuavam inquietos. Alguns eram mais indiscretos. A vizinha casada deu para namorar. Aquele que era um crente fiel, sempre na igreja, um dia jogou tudo para cima e amigou-se com uma jovem. E a mulher que morava em frente da farmácia, tão doméstica e feliz, de repente fugiu com um boémio, largando marido e filhos.
Então, constatou, de novo se enganara. Os adultos, mesmo os casados, embora pareçam um porto onde as naus já atracaram, os adultos, mesmo os casados, que parecem arbustos cujas raízes já se entrançaram, eles também não sabem, estão no meio da viagem, e só eles sabem quantas tempestades enfrentaram e quantas vezes naufragaram.
Depois de folhear um, dez, centenas de corpos avulsos tentando o amor verbalizar, entrou numa biblioteca. Ali estavam as grandes paixões. Os poetas e novelistas deveriam saber das coisas. Julietas se debruçavam apunhaladas sobre o corpo morto dos Romeus, Tristãos e Isoldas tomavam o filtro do amor e ficavam condenados à traição daqueles que mais amavam e sem poderem realizar o amor.
O amor se procurava. E se encontrando, desesperava, se afastava, desencontrava.
Então, pensou: há o amor, há o desejo e há a paixão.
O desejo é assim: quer imediata e pronta realização. É indistinto. Por alguém que, de repente, se ilumina nas taças de uma festa, por alguém que de repente dobra a perna de uma maneira irresistivelmente feminina.
Já a paixão é outra coisa. O desejo não é nada pessoal. A paixão é um vendaval. Funde um no outro, é egoísta e, em muitos casos, fatal.
O amor soma desejo e paixão, é a arte das artes, é arte final.
Mas reparou: amor às vezes coincide com a paixão, às vezes não.
Amor às vezes coincide com o desejo, às vezes não.
Amor às vezes coincide com o casamento, às vezes não.
E mais complicado ainda: amor às vezes coincide com o amor, às vezes não.
Absurdo.
Como pode o amor não coincidir consigo mesmo?
Adolescente amava de um jeito. Adulto amava melhormente de outro. Quando viesse a velhice, como amaria finalmente? Há um amor dos vinte, um amor dos cinquenta e outro dos oitenta? Coisa de demente.
Não era só a estória e as estórias do seu amor. Na história universal do amor, amou-se sempre diferentemente, embora parecesse ser sempre o mesmo amor de antigamente.
Estava sempre perplexo. Olhava para os outros, olhava para si mesmo ensimesmado.
Não havia jeito. O amor era o mesmo e sempre diferenciado.
O amor se aprendia sempre, mas do amor não terminava nunca a aprendizagem.
Optou por aceitar a sua ignorância.
Em matéria de amor, escolar, era um repetente conformado.
E na escola do amor declarou-se eternamente matriculado.”
Affonso Romano de Sant'Anna, in "21 Histórias de amor", Francisco Alves Editora – Rio de Janeiro, 2002, pág.11.

"Affonso Romano de Sant'Anna, nascido em Minas Gerais, é um marco na literatura brasileira, tendo publicado mais de 40 livros e já tendo recebido vários prémios, inclusive o Prémio da União Brasileira dos Escritores. Desde os anos 60, tem influenciado e participado em movimentos que transformaram a poesia brasileira, além de fazer parte dos movimentos políticos e sociais do país. Nos tempos de ditadura militar quando as expressões artísticas eram fortemente reprimidas pela censura, publicou audaciosas obras nos mais importantes jornais do país, em páginas de politica. Muitos poemas do autor foram transformados em posters, placas e cartazes e difundidos aos milhares como forma de resistência."

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Parabéns, pai!

Fecho os olhos e avanço.
E começa o poema.
Rodeiam-me os fantasmas
Fugidios
Dos versos que persigo.
A regra é caminhar
E chegar sem saber.
De tal modo é cruzada
A encruzilhada
Onde o milagre pode acontecer
.
     Miguel Torga, Arte Poética 

Muitos anos se passaram desde que meu pai partiu. Quem dera a encruzilhada permitisse o milagre de o ter entre nós. Inútil , esse sonho, mas a memória vestida de saudade  permanece intacta. 

Era dia de aniversário todos os 16 de Setembro dos muitos anos que nos deu. E cada dia de todos esses anos foram celebrados e festejados numa cumplicidade familiar. Éramos muitos. E cada um se regozijava de o poder felicitar. 

Hoje, tem-me aqui para lhe dizer que continuamos a evocá-lo. Tenho a certeza de que cada um de nós o mantém no coração.

Parabéns, pai!

domingo, 15 de setembro de 2024

Ao Domingo Há Música


Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata.
              Carlos Drumonnd de Andrade


E  assim aconteceu no Kennedy Center, USA . As canções renasceram  em mágicos  acordes de extrema sedução .  A voz marcava e distinguia-se  pela força com que tocava   todos e cada um  .
Eis alguns registos desse belíssimo espectáculo.

Cynthia Erivo numa fascinante interpretação de  Nothing Compares 2 U, no  Kennedy Center, 2024.
  
Cynthia Erivo e Joaquina Kalukango, em Killing Me Softly, no  Kennedy Center, 2024 .
Cynthia Erivo, em I Love You More Than You'll Ever Know , no  Kennedy Center 2024.
 
Ben Platt e Cynthia Erivo , em You're All I Need to Get By, no  Kennedy Center, 2024.
 

sábado, 14 de setembro de 2024

A viagem

A viagem
 
Há um mundo maior e distante desta esfera
onde o farol da vida se acende deslumbrante
um recanto onde a morte não impera
e onde as horas se medem pelo instante.
 
São degraus de uma escada interminável
ninhos de luz muito além do entendimento
onde seres de uma beleza incomparável
recriam sem cessar o firmamento.
 
Se sonhas chegar um dia a essa paragem
investe o próprio coração nessa viagem
e, com a caridade, tece e borda o teu vestido...
 
pois não entrareis jamais nessa cidade
sem o traje do amor e da humildade
e sem o passaporte do dever cumprido.
Manoel de Andrade, poesia
Barco de papel


Quem sabe por tantos barcos
navegarem a minha infância
herdei essa enorme ânsia
por navios, terras e mares.

Nesse mar dos meus pesares
meu porto é uma ilha perdida
e assim naveguei na vida
passageiro do horizonte.

Hoje pergunto a mim mesmo
se não remei sempre a esmo                
a bordo do meu batel...

com meu sonho de criança
navegando a esperança
num barquinho de papel.
                 Curitiba, 16 de Dezembro de 2004
Manoel de Andrade, in Cantares, Escrituras Editora, Brasil, 2007
 
O teu tesouro

Além, muito além desta paisagem,
numa realidade apenas pressentida
compreenderás ao fim dessa viagem
de onde vens e pra onde vais, na vida.

No torvelinho incessante dos destinos
cada um com seu papel nessa ribalta
semeando a ventura ou os desatinos
colherás o que te sobra ou que te falta.

Viandante dos caminhos milenares
aprendeste na decepção e nos pesares
que “nem tudo o que reluz é ouro”.

Guarda-te pois das ciladas da ilusão
porque “aonde estiver teu coração,
ali estará também o teu tesouro”.
Manoel de Andrade, Poesia
Manoel de Andrade, Castelo de Silves- Portugal, Outubro de 2016
Sobre o Autor
"Manoel de Andrade nasceu em Rio Negrinho, SC, em 1940. Formado em Direito pela UFPR, em 1965 conquista o 1º lugar num Concurso de Poesia Moderna em Curitiba. Nesse ano, ao lado de Helena Kolody, João Manuel Simões, Paulo Leminski, Hélio de Freitas Puglielli e outros, participa da Noite da Poesia Paranaense, no Teatro Guaíra. Em 1968, sua poesia é lançada nacionalmente pela Revista Civilização Brasileira e com Dalton Trevisan e Jamil Snege é apontado pelo jornalista Aroldo Murá, como um dos três destaques literários daquele ano, no Paraná.
Perseguido pela ditadura por sua poesia, foge do Brasil em 1969 e peregrina pela América, escrevendo e divulgando sua obra. Em 1970, seu primeiro livro, POEMAS PARA LA LIBERTAD, e publicado na Bolívia e posteriormente na Colômbia, EUA e Equador.
Atravessou 15 países convulsionados pelas lutas guerrilheiras, promovendo debates e declamando seus versos em universidades, teatros, festivais de cultura, congresso de poetas, reuniões públicas e clandestinas. Expulso da Bolívia em 1969, preso e expulso do Peru e da Colômbia em 1970, sua militância política é avaliada pelo destaque que lhe deram os mais importantes jornais latino-americanos e as agências de informações, como AP e UPI, noticiando ao mundo sua trajetória e seus aclamados recitais.
Em 1972 volta ao Brasil e, novamente procurado pela ditadura, passa a viver no anonimato distanciando-se por 30 anos da criação literária. Volta a escrever em 2002 e em 2007 publica CANTARES, seu primeiro livro publicado no Brasil. Em 2009 POEMAS PARA A LIBERDADE é publicado numa edição bilíngue e em 2014 lança seu livro NOS RASTROS DA UTOPIA: Uma memória crítica da América Latina nos anos 70.("As palavras no espelho" , Escrituras Editora, São Paulo, 2018
.
Obras do autor:
Poemas para la Libertad
Comité Central Revolucionário Universidad Mayor de San Andrés - La Paz - Bolívia - 1970

Canción de amor a América y otros poemas
A.G.E.U.S y Promoción Cultural Universidad de El Salvador – San Salvador, 1971

Poesía latinoamericana – Antología Bilingüe
Latin-American Poetry – Bilingual Anthology
(Coletânea de Autores) Epsilon Editores de México – Bogotá, 1998

Próximas palavras
(Coletânea de Autores) Quem de Direito, Curitiba, 2002

Cantares
Escrituras Editora, São Paulo, 2007

Nos Rastros da Utopia
Escrituras Editora, São Paulo, 2014

As palavras no espelho 
Escrituras Editora, São Paulo, 2018